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quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

A (in)sustentabilidade financeira do SNS

A comissão nomeada para o estudo do actual modelo de financiamento do SNS lá anda às voltas com as suas dez medidas para financiar a saúde!
Eles bem afirmam não estarem mandatados para alterar o modelo actual, mas só para apresentarem recomendações que nos garantam que o modelo é sustentável.
Lá vão falando na criação de um novo imposto para garantir que o sistema não vá à falência...o que põe o Ministro com os poucos cabelos que tem em pé: no dia a seguir apressou-se a desmentir que o Governo vá criar novos impostos que sirvam para garantir a sustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde!

Mas sem alterar o modelo actual que outra saída existe?
Enquanto não estiver criada uma tabela de preços para a saúde, para os vários actos, técnicamente bem feita e realista, a cumprir como pagamento do Estado aos cidadãos que usem esses actos e enquanto o Estado não garantir o acesso à liberdade de escolha, numa lógica competitiva entre público e privado onde o "dinheiro segue o doente", parece-me que a sustentabilidade do SNS será de contínuada incerteza.
Parece-me que por este caminho o Governo não quer ir.
Mas também me parece que se aceitar, como primeiro passo, a criação de um Fundo independente do Orçamento de Estado, de contribuição voluntária dos cidadãos, em troca de coberturas de saúde adicionais, já é positivo embora muito selectivo de uma pequena camada da população, precisamente a camada que hoje já tem o seu seguro de saúde.
É matéria complexa, que vai estar muito em breve em debate público e talvez venha a ser aflorada amanhã, na Comissão Parlamentar, onde o Ministro Correia de Campos vai a pedido do PCP.
Vamos estar atentos, nos próximos dois meses esta matéria promete!

Santana Lopes, o imitador!...

Segundo o Público, "Santana Lopes está disponível para a liderança da bancada parlamentar do PSD, uma posição que vai manifestar na próxima quinta-feira, durante a reunião do grupo parlamentar social-democrata".
Até aqui, com virtudes ou defeitos, Santana Lopes era ele. A partir de agora, se for verdadeira a notícia, e se for eleito, Santana pode tornar-se um mero imitador de Nuno Melo. Não sei se o dignifica.
Mas, dignificando ou indignificando, que mais poderá acontecer ao PSD?

Mobilidade

Foi hoje publicada no Diário da República a Resolução do Conselho de Ministros que aprova o Plano Nacional para a Promoção da Mobilidade.
Reafirmam-se os princípios fundamentais que presidem ao vasto conjunto de medidas contidas no referido Plano: (i) Igualdade de oportunidades — todos os cidadãos devem ter acesso aos serviços da sociedade, nomeadamente habitação, transporte, cultura, recreio, saúde, educação e emprego; (ii) Vida independente — todos os cidadãos devem poder exercitar livremente as tomadas de decisão sobre a sua vida e participar activamente da vida da comunidade; (iii) Participação — todos os cidadãos devem ter formas de conhecer e influenciar as decisões políticas de forma directa e a cada momento; (iv) Integração—todos os cidadãos devem poder viver integrados na sua comunidade e participar activamente nos diversos domínios da sociedade.
Saúda-se o Plano e o significado de começar a olhar seriamente para uma problemática que envergonha sobretudo o Estado e outras pessoas públicas, detentoras de edifícios e construtoras e administradoras de infra-estruturas que não só não facilitam a mobilidade de quem a tem diminuída, como ignoram e incumprem as regras que ao longo do tempo têm vindo a criar.
Independentemente das boas intenções desta Plano e da questão de saber se existem meios para executar tão ambicioso cortejo de medidas, há porém um aspecto que convém não esquecer e que tem a haver menos com a vontade ou a iniciativa dos poderes públicos, e muito com a atitude da sociedade para com aqueles que sofrem de alguma incapacidade.
Basta olhar pela janela do meu escritório para verificar o constante desrespeito que significa o estacionamento em plenas zonas pedonais, em cima de passadeiras de peões ou em zonas em que está sinalizada a proibição de parquear. Mas observo também a absoluta falta de critério, que se traduz em desprezo pelo tão badalado valor da integração, como pelos passeios se planta todo o tipo de mobiliário urbano, sinalética, suportes de publicidade, abrigos de passageiros, que não só reduzem o espaço de circulação destinado aos peões como constituem verdadeiros atentados à segurança de quem circula.
Se calhar, começando por aqui, fazendo por exemplo com que o policiamento que agora prolifera, se preocupe (pelo menos) tanto com o estacionamento selvagem como com a fiscalização dos parquímetros, obteríamos resultados imediatos e visiveis na qualificação das nossas cidades e na dignificação dos cidadãos, em especial dos portadores de deficiência.

Torga


2007 é o ano do centenário do nascimento de Miguel Torga. Faleceu precisamente há 12 anos, a 17 de Janeiro de 1995. Um dos portugueses grandes. É certo que não escreveu telenovelas, jogou futebol ou se dedicou à pequena política. Também não foi rei que se distinguiu pelas glórias obtidas pela glebe. Nem descobridor em terra. Ou prémio Nobel. Leiam-no ou recordem-no e percebam porque é um dos verdadeiros grandes portugueses, que corporiza, como poucos, o ser português.



A vida passa lá fora,
Ou na pressa de uma roda,
Ou na altura de uma asa,
Ou na paz de uma cantiga;
E vem guardar-se num verso,
Que eu talvez amanhã diga.
(Eternidade)

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Galinhas de "esquerda " e de "direita"!

A terapêutica génica é altamente promissora para resolver muitos problemas de saúde. Os animais começam a ser utilizados como verdadeiras e eficientes fábricas de produtos complexos. Modifica-se a estrutura genética dos mesmos "obrigando-os" a produzir certos produtos, através, por exemplo, do leite ou, como foi recentemente noticiado, de ovos obtidos de galinhas. Para o efeito são introduzidos genes humanos responsáveis pela produção do produto. E funciona mesmo. Deste modo começam a ser produzidas galinhas transgénicas ao serviço da humanidade.
A par deste fenómeno, outros, muito mais complexos, e polémicos, têm sido objecto, desde há longos anos, de estudo e debate. É o caso da genética comportamental, que procura encontrar nos genes parte da explicação de muitas atitudes sociais. São estudos complexos, mas mesmo assim não deixam de apontar para um papel nada discipiendo. Claro que a interacção com o ambiente é determinante, nomeadamente a socialização nas primeiras fases da nossa existência. Podíamos ilustrar esta afirmação através de expressões interessante tais como: "quem sai aos seus não degenera", "filho de gato mata rato" ou “filho de arisco nasce matreiro”, etc.
É óbvio a dificuldade em separar o que é herdado e o que é adquirido e qual a interacção dos dois, mas, sem sombra de dúvida, os factores genéticos exercem um efeito muito interessante.
Sabemos, hoje, que certos genes, através dos seus produtos, proteínas, podem condicionar o tipo de resposta a diversas agressões ambientais, por exemplo, excesso de stress ou traumas diversos, não produzindo certas substâncias protectoras e, consequentemente, desencadear depressões.
Agora, na sequência de novos estudos de genética comportamental, procura-se saber qual o papel nas opções ideológicas políticas. Realmente, em todas as sociedades, e em todos os tempos, a "amplitude" ideológica é uma constante. O papel da socialização política é indiscutível, mas não chega para explicar o fenómeno. A variabilidade é generalizada e deve ter tido um papel muito positivo em termos evolutivos. É lógico que não existem genes do partido A, B ou C. O que existe são predisposições que na interacção com os ambientes familiar e social condicionam determinadas opções e atitudes. Os estudos nestas matérias são curiosos, promissores e deverão ser levados em linha de conta, ao contribuírem para a explicação de certas atitudes, amenizando determinados combates políticos, respeitando as diferenças e permitir obter os melhores resultados para o desenvolvimento a vários níveis, além de promover a tolerância tão arredia das nossas vidas.
Feitos estes comentários, poderão perguntar "mas que raio têm as galinhas a ver com isto"? Provavelmente nada! A não ser que algum abelhudo se lembre de querer identificar os genes de "esquerda" ou de "direita" nos seres humanos e acabe por inseri-los nos genomas dos galináceos. Então, as galinhas, já por si meio doidas, passariam a andar nas capoeiras num frenesim indescritível, umas atacando à "esquerda" e outras à "direita". E o galo? Em condições normais já deve sentir-se mais do que aflito para “galar” todo aquele pessoal. Com a introdução das diferenças "políticas" o problema complicar-se-ia. Também estou convicto que as suas opções génico-políticas seriam irrelevantes face ao seu papel. Qual política, qual quê! Também não ficaria admirado que alguns fundamentalistas, na altura da compra dos ovos, seriam capazes de perguntar: - Desculpe, mas estes ovos são provenientes de galinhas de "esquerda" ou de "direita"? – Sabe, é por causa da minha alergia!

Apito Dourado ou apito encravado?

Segundo tenho lido, o processo Apito Dourado sofre de duas dificuldades: a suposta ilegalidade das escutas telefónicas e a alegada inconstitucionalidade do D.L. 390/91, que qualifica como crime comportamentos que afectem a verdade e a lealdade da competição desportiva.
Sem lei, não há crime, mesmo que os comportamentos sejam eticamente reprováveis, mesmo miseráveis.
Mas, segundo também agora li, é intenção do Ministério Público que as questões não sejam bloqueadas por estes dois argumentos. Posso concordar, até porque ainda não foi ratificada a inconstitucionalidade da lei.
Mas o argumento aventado parece-me indigno de quem tem a missão de administrar justiça.
É que, a ser verdade o que foi publicado, o Ministério Público disse esta coisa, para mim espantosa, que “…mesmo que o TC declare a inconstitucionalidade … será possível sancionar estes ilícitos através do Código Penal… sob pena de os crimes desportivos nunca virem a ser punidos…”.
O que significaria a subversão total do direito. O crime e a eficácia da punição são a premissa de partida e, para fundamentar a premissa e a pena, logo se há-de encontrar uma lei. Se aquela que foi feita exclusivamente para tal efeito é inconstitucional, reinterpretam-se e redenominam-se os factos para recorrer a uma qualquer outra.
Para não recuar muito, no tempo da Inquisição um sujeito “arguido” era condenado, se confessava, mas era também condenado, por não confessar.
Agora, e a ser verdadeira a teoria do Ministério Público para o Apito Dourado, um arguido também está logo condenado. Não sendo possível pelo acto que praticou, logo se arranja um outro que esteja previsto num qualquer diploma legal...
Excluindo a tortura, agora servida de forma diferente através da comunicação social, os métodos são semelhantes. Podemos pois continuar a confiar!...
Nota: Para evitar más interpretações, desde já declaro que é óbvio que considero como eticamente reprováveis e causadores de danos graves para com terceiros muitos dos comportamentos conhecidos do Apito Dourado.

domingo, 14 de janeiro de 2007

Política à francesa!...

O Congresso da UMP consagrou hoje Sarkozy como candidato do Partido e da "Direita" a Presidente da República.
Chirac, Presidente da República e Sarkozy, Presidente da UMF, odeiam-se e são, de há muito, inimigos políticos. Por isso, Chirac nunca nomeou Sarkozy para 1º Ministro, mas sem Sarkozy nunca poderia haver um governo de “direita”. Chirac encontrou uma solução de compromisso, designando sempre um político da sua confiança para 1º Ministro, actualmente Villepin, e dando a Sarkozy uma pasta importante, actualmente a de Ministro do Interior. Uma “habilidosa” mas primária solução, inoperante a nível governamental e cheia de contradições.
A primeira reside logo na dificuldade de governar e na impossibilidade de governar bem, pelo facto de o 1º Ministro estar sujeito a dois tipos de “confiança” política: a do Presidente, institucional, mas também a do seu próprio Ministro do Interior, dado que este, através do Partido, pode inviabilizar qualquer medida do Governo. Villepin é pois superior, mas simultaneamente subordinado de Sarkozy, situação que tem gerado inoperâncias governamentais sucessivas.
A agravar a situação, tem coexistido um sério conflito de ordem pessoal, entre Villepin e Sarkozy. O 1º Ministro vem sendo acusado de ter sido interveniente na campanha de falsas acusações de corrupção contra vários empresários e políticos, incluindo Sarkozy. Ainda há dias Villepin foi interrogado durante muitas horas sobre o sucedido. Não consta que Sarkozy venha ilibando o seu superior. O admirável é como ambos são capazes de fazer parte do mesmo Governo!...
Mas, para além destes conflitos bipartidos, vem existindo um outro, tripartido, entre Chirac, Villepen e Sarkozy pelo facto de todos virem evidenciando pretensões a candidatos a Presidente da República. Como tal, cada um vem tendo a sua própria estratégia de actuação, servindo-se do governo e do poder não para potenciar a acção governativa, mas para aumentar as chances pessoais na corrida para o Palácio do Eliseu.
Acresce que a Ministra da Defesa, Michèlle Alliot-Marie também vem “afirmando” a sua candidatura, vindo obviamente a aproveitar o Governo para os seus objectivos pessoais.
Espantoso é que uma situação destas dure desde há anos, só possível com o "patrocínio" do Presidente da República, refém das suas alianças e "amizades"!...
Em Portugal queixamo-nos, e com razão, dos nossos políticos. Mas não creio que alguma vez tenhamos chegado a uma situação política tão caricata e tão apodrecida como a que se vem vivendo em França.
Com reflexos na vida dos franceses e na economia. Segundo notícias recentes, o crescimento francês é o segundo mais baixo da União Europeia, logo a seguir a Portugal. Nas circunstâncias descritas, só admiraria o contrário!...

sábado, 13 de janeiro de 2007

Futebol Clube de Goa!


O Presidente da República chegou a Goa, cidade que diz muito aos Portugueses.
Mas também há uma Instituição em Portugal que diz muito aos goeses.
Via Lusa e Insurgente, o número de adeptos do F.C. Porto em Goa cresceu com as vitórias recentes dos “dragões” no futebol europeu e com o período dos anos 90, em que a equipa ganhou cinco campeonatos consecutivos. “Os indianos novos, que não se lembram do Benfica e do Sporting ganhar grandes competições, têm memória de o F.C. Porto ganhar aqueles campeonatos”.
E como gostavam de ver o Presidente do F.C. Porto em Goa, o Presidente deveria levar lá toda a equipa.
Tal como a Índia, os indianos novos sabem o que querem e do que gostam. E mostram possuir bom querer e bom gosto!
Nota adicional: O DN de hoje, 14 de Janeiro, refere a existência de um Protocolo entre o F. C. Porto, o Comité Olímpico de Futebol de Goa, a Goa Football Association e o Instituto de Desporto da Universidade do Porto para desenvolver localmente as estruturas do futebol. E não é um protocolo a fingir: há portugueses deslocados para o efeito.

“Pio latrocínio”

A Suécia sofreu durante mais de vinte anos roubos sucessivos de peças de arte sacra praticados por um espanhol que acabou por ser detido, o intitulado "ladrão das igrejas". Algumas peças já foram recuperadas, outras, muito valiosas, foram adquiridas por museus espanhóis, estando na mira da justiça a fim de serem "repatriadas", nomeadamente um preciosíssimo relicário de Limoges do século XIII.
Os relicários destinavam-se a colher objectos dignos de veneração, geralmente restos humanos, objectos, ou quaisquer outras pertenças de santos e acontecimentos religiosos. Muito valorizadas, no contexto da altura, eram autênticos focos de atracção de fiéis, de consolidação da fé e do poder.
A leitura desta notícia fez-me recuar ao princípio da década de noventa e recordar o início de uma típica noite compostelana, com alguns colegas meus, ao fim de um dia de trabalho científico. Faltava apenas o Miguens. Tardava em aparecer e informaram-me que devia estar ainda a tomar chá com o arcebispo. Quando ouvi a explicação pensei: - O Miguens a tomar chá com o arcebispo!? É preciso explicar que além de médico e escritor, é um bon vivant, a testar pelo perímetro abdominal, solto de língua, afável, contador exímio de anedotas, com tiradas mordazes a todo o momento. Bom, o arcebispo escolhe os amigos que bem lhe apetece!
Passaram mais uns momentos até que finalmente apareceu com o ar mais sorridente do mundo. - Então Miguens como é que correu o chá com o arcebispo? - Hoje, para variar, dei-lhe cabo da cabeça com o pio latrocínio! Coitado! Ao fim de 900 anos vai ter de devolver as relíquias roubadas à Sé de Braga (1102). Falava do famoso roubo praticado pelo arcebispo de Santiago de Compostela, D. Diego Gelmires, que "levou" de Braga as relíquias de vários santos, enriquecendo o património de Santiago de Compostela a fim de promover a atracção "turística-religiosa" da altura. Sabia fazer política.
De facto, passado algum tempo, a devolução das relíquias fez-se com toda a solenidade. Não queria deixar de relatar um pormenor muito curioso. O desagravo foi parcial, porque só vieram metade dos ossos dos três santos, e que não eram por aí além. Argumentaram que seria lógico que as relíquias ficassem nos dois lugares para serem veneradas. Para proceder à escolha dos ossos, foi chamado um médico antropólogo, o qual procedeu à separação de ossos pares, um fémur para ti, um fémur para mim, e assim sucessivamente. Quando os ossos não estavam aparelhados, seleccionou-os de forma a serem representativos de todo o corpo!
Furtos houveram sempre. Actualmente somos confrontados com verdadeiras epidemias. Aumento dos assaltos, aumento dos impostos, cartelização, passando por sofisticados vigaristas que utilizam as mais altas tecnologias, publicidade enganosa, multiplicação de políticos pouco escrupulosos, até aos apóstolos de falsas promessas, etc.. Mas o pior de tudo é roubarem-nos a esperança. A esperança de melhores dias, de um futuro digno para as novas gerações, a esperança de um "novo" país que já foi grande e que hoje está mais do que plutonizado no contexto europeu.
No fundo, estamos perante "diabólicos latrocínios". Que saudades do pio latrocínio de Gelmires! Hoje, o primeiro arcebispo de Santiago não se atreveria a desviar nem uma relíquia do nosso território, porque poderia correr riscos dos ossos não serem "santos". Não esquecer que, actualmente, em Portugal, o diabo anda à solta, todos os dias, e não apenas no dia de S. Bartolomeu!

O autor moral

O senhor Ministro da Justiça, desde que assumiu funções, nunca chamou particularmente a atenção. É, para muitos, o ministro Omega: não adianta nem atrasa. As suas intervenções, floreadas, falhas de clareza, circulares, nunca foram momentos altos na política caseira. Tenho a sensação que as medidas que tem anunciado se devem mais às doses de criatividade mas também de inexperiência dos seus secretários de estado, e às opiniões de uns tantos novos gurus da justiça, do que à sua própria capacidade política.
Mas o senhor Ministro deu uma entrevista sob vários pontos de vista extraordinária, publicada hoje num dos semanários. E nela revela, entre outras coisas, que o rematado disparate que foi a redução das férias judiciais, que se confirma ter sido um acto falhado na tentativa de diminuição das pendências nos tribunais, foi, afinal, de inspiração cavaquista!
Cavaco terá sido, então, o inspirador, o autor moral da medida. O senhor Dr. Alberto Costa limitou-se a decretá-la.
Mas há mais. O Ministro compreende que o Presidente da República reclame resultados na área da justiça. Pois não haveria de compreender?! Afinal é Cavaco a sua musa! Quem diria...
E quem diria aqui há uns tempos atrás, que seria possível ao Dr. Alberto Costa, ilustre Ministro da Justiça e não menos ilustre membro do Partido Socialista, expressar com grande ênfase um louvor ao impulso reformista dos governos do Professor Cavaco Silva!

Descarada a tentativa de o Ministro cavalgar a onda da popularidade do senhor Presidente da República, explorando a ideia da solidariedade presidencial com os propósitos reformistas do Governo. De "chutar para canto" face à chamada de atenção do Professor Cavaco Silva quanto à necessidade de resultados neste sector.
Observa-se também que aqueles que durante os governos de Cavaco Silva, e mais recentemente durante a campanha eleitoral, disseram do professor o que Maomé não disse do toucinho, revelam ter uma lata do tamanho do mundo!

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Não há milagres...

Registo positivamente a proposta de Lei ontem aprovada pelo Governo através da qual é dado mais um passo para a convergência do regime da apresentação pública e do regime geral de segurança social.
Ou seja, os funcionários públicos, tal como já estabelecido para os restantes trabalhadores, terão que trabalhar mais tempo para assegurarem o nível de pensão a que teriam direito, com as actuais regras, aos 65 anos.
O diploma vem aplicar ao regime da aposentação pública o "factor de sustentabilidade", a medida mais estruturante da chamada "reforma da segurança social" do Governo.
Por se saber que a tendência demográfica é para as pessoas viverem mais tempo, qualquer modelo de segurança social deve comportar um factor de ajustamento dinâmico do cálculo da pensão da reforma ao aumento da esperança média de vida.
A medida agora aprovada afigura-se justa e indispensável, atendendo a que esperança de vida beneficia todos os trabalhadores e o esforço financeiro correspondente – independentemente das regras da sua repartição – deve também ser suportado por todos.
Mas não se pense que o "factor de sustentabilidade" – agora aplicável aos dois regimes públicos de segurança social – resolve a sustentabilidade financeira da segurança social. Não resolve.
A persistirem taxas de natalidade muito baixas, deixaremos de ter no futuro trabalhadores que financiem as nossas pensões no futuro. Porque teremos cada vez um menor número de contribuintes a financiar, em cada momento, um cada vez maior número de pensionistas.
Foi pena que o Governo não tivesse aproveitado o seu ímpeto reformista para na segurança social introduzir uma componente de capitalização – complementar ao regime de repartição – que permitisse aos cidadãos poupar para a reforma e reduzir os riscos de injustiça social, especialmente em relação às novas gerações que irão pagar uma nova factura perante uma nova futura e inevitável ruptura financeira do sistema.
Quando não há certezas, a prudência manda que se "distribuam os ovos por diferentes cestas".
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Já agora, a pensar nos nossos leitores mais desprevenidos, aqui vai uma breve nota sobre o que é o "factor de sustentabilidade" e a sua importância para as nossas vidas futuras:
O "factor de sustentabilidade" poderia ser muito simplesmente um factor de ajustamento, progressivo no tempo, da idade legal de reforma, actualmente em 65 anos.
O Governo optou pela "criatividade política" criando um factor que antecipa em média um aumento da idade legal de reforma de cerca de 4 anos em 2050. Ou seja, tem implícito uma idade legal de reforma de 69 anos.
O que está em causa é repercutir mais anos de vida em mais anos de trabalho, de modo a assegurar a neutralidade financeira para o sistema de segurança social, leia-se a viabilidade, de pagamento de uma pensão por um período mais longo do que aquele que tínhamos no passado ou que temos hoje, em resultado do aumento esperado da esperança de vida.
Ao trabalhador são permitidas três escolhas, tendo em conta o efeito esperado no cálculo da pensão:
Uma – admitir o "factor de sustentabilidade" na sua pensão, isto é, reformar-se aos 65 anos aceitando a redução na pensão,
Outra – descontar voluntariamente uma contribuição adicional para um novo regime público, de modo a cobrir a redução da pensão calculada pela aplicação do "factor da sustentabilidade",
E outra – trabalhar durante mais algum tempo após os 65 anos, beneficiando de uma bonificação na taxa de formação da pensão por cada mês de trabalho efectivo para além dos 65 anos, de modo a cobrir a redução da pensão calculada pela aplicação do "factor da sustentabilidade".
Dois exemplos, considerando a esperança de vida estimada em 2006 para os anos futuros e uma carreira completa:
- Um trabalhador que se reforma em 2010 terá uma redução na pensão de 2,5% face aos valores actuais,
– Um trabalhador que se reforma em 2046 terá uma redução na pensão de 20% face aos valores actuais.

Positivo

Ao que vejo (antecipadamente) anunciado, o Tribunal Constitucional não se pronuncia pela inconstitucionalidade do decreto que depois de promulgado constituirá a futura Lei das Finanças Regionais.
Respeitando naturalmente outras opiniões, eis uma boa notícia. Melhor, uma notícia positiva. E um sinal na direcção certa.

Memórias de uma viagem presidencial- Epílogo- IV

O dia seguinte à chegada a Bolonha incluía várias manifestações, entre as quais a reunião de empresários a que fiz referência na minha crónica II. O dia ficou marcado pela doença de Mário Soares, que ficou retido no hotel. Durante o dia, o “programa” alternativo para muitos foi apresentarem-se várias vezes junto da Presidência, com ar contristado e pesaroso, a inteirar-se do estado de saúde de S. Excia. Se era grave, se iria impedir o doutoramento, era a grande preocupação. A resposta é que fora uma indisposição que obrigava a cancelar apenas o programa do dia. Aqui para nós, corria nalguns círculos da comitiva que Mário Soares resolveu pura e simplesmente descansar. Apesar de tudo, custou-me a crer que fosse verdade...
Esse dia ficou ainda marcado por uma recepção, creio que pela Câmara de Bolonha, ou por alguma associação empresarial, já não sei, e teve para mim a novidade de o jantar oficial ter sido patrocinado por uma marca de café, a Segafredo, como constava da programa da ementa, o que não deixou de ser pitoresco.
No dia seguinte, com o nosso Presidente já restabelecido, veio enfim o doutoramento por uma das Universidades mais antigas do mundo, a de Bolonha. Foi um acto muito bonito, com discursos eloquentes e elogios a Soares e a Portugal.
Creio mesmo, mas quem sou eu para o dizer, que o fim último da viagem e a razão de tão grande e luzidia deslocação a Itália, integrando escritores, escultores, arquitectos, artistas, jornalistas, professores universitários, empresários e banqueiros foi testemunhar tão solene acto de doutoramento. A corte e o ritual, de que Soares tanto gosta, estiveram presentes. Por mim, gostei da cerimónia.
Mas, em jeito de conclusão, gostaria de referir que não foi nada do que contei que mais me impressionou na visita. O que me impressionou francamente foi a “camaradagem” e a intimidade entre a Presidência, como se autodenominavam os membros do staff do Presidente, e muitos dos empresários e industriais presentes. As pessoas tratavam-se por tu, recordavam almoços à beira das piscinas e os passeios de barco, programavam as próximas caçadas. Fiquei realmente espantado com tal “promiscuidade” e esse ainda é o aspecto que mais indelével me ficou da viagem.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

O top dos "100 grandes portugueses"

Hoje, apareceu num jornal a listagem dos "100 grandes portugueses". Lista interessante com personalidades de valor entremeadas de outras que são mais do que discutíveis. Mas “gostos são gostos”. Mesmo assim, vale a pena dar uma vista de olhos.
Quando comecei a ler pensava que os conhecia a todos, mas não! Havia um que desconhecia totalmente. Parafraseando o Eduardo Prado Coelho, “Mas quem é? Não o conheço!”. Ah! Já me esquecia, é Hélio Pestana (autor de novelas da TVI, 1985 -).
Pensei utilizar a lista como teste de cultura. Resultado: consegui “acertar” em 99%. Nada mau! Estou a ver que tenho que começar a ver mais telenovelas, caso contrário, corro o risco de, um dia, meter água se me fizerem perguntas do género: - O que é acha dessa grande e imponente figura portuguesa que dá pelo nome de Hélio Vinha? Resposta: - ????!!!!... – Grande ignorante!

Memórias de uma viagem presidencial III

A propósito da viagem de Cavaco à Índia, lembrei-me de trazer ao 4R as memórias de uma viagem integrado na comitiva oficial de Mário Soares a Itália. Trata-se do III Capítulo, depois dos I e II atrás publicados.
O tipo muito peculiar da capacidade organizativa lusitana aliou-se com similar capacidade italiana na logística das deslocações em Itália, nomeadamente a Bolonha, onde Soares seria “coroado” doutor honoris causa.
Chegámos a Bolonha ao princípio da noite, pouco antes de um jantar de gala em que o smoking era naturalmente obrigatório. A comitiva ficou espalhada por três hotéis, tendo sido cada membro oportunamente informado do local que lhe competia. Chegado ao meu hotel, tinha efectivamente quarto, mas não tinha a bagagem. Aconselharam-me a esperar, teria havido desvio da mesma para outro hotel. Estando a aproximar-se a hora do jantar e de vestir o smoking que não chegara, resolvi dar uma espreitadela a outro dos hotéis da comitiva. Pois também lá tinha um quarto, mas de bagagem nem notícia!... Como já todos se aprestavam para ir para o jantar, tive que decidir ou ir, com vestimenta normal, ou não ir, por falta dos aprestos condizentes. Resolvi ir e deixar a questão da mala para depois, já que, para dormir, tinha dois quartos. Para não dar nas vistas, ocupei uma mesa discreta num dos extremos da sala, onde fiquei muito bem acompanhado. Terminado o repasto, já tarde, desloquei-me aos dois hotéis anteriores, onde vi que da bagagem ainda nem sombra. Dirigi-me então ao terceiro. Expus a questão na recepção e disseram-me que, a essa hora, estavam dois quartos da comitiva por ocupar, talvez um deles fosse meu e a mala lá estivesse. E não era que a minha pessoa lá tinha um outro quarto disponível? Fui ao quarto, mas também mala nem vê-la!... Em desespero de causa, perguntei ao recepcionista em nome de quem estava reservado o outro quarto por ocupar. Rapidamente, me foi respondido que estava no mesmo nome do anterior, António Pinho Cardão!...Subi e lá deparei com a minha bagagem!... Perto das três da manhã, senti-me um sujeito importante, membro de uma ilustre comitiva, um nababo, com quatro quartos por minha conta em três hotéis de Bolonha!...
No dia seguinte, um dos responsáveis pela logística a quem tinha exposto o assunto na véspera, veio prazenteiramente oferecer-me os seus préstimos. Lá lhe contei o sucedido. Bateu-me no ombro e disse-me: vê, escusava de se preocupar, tudo se resolveu!... Agradeci-lhe de imediato a colaboração...Não tem de quê, mande sempre, estamos cá para estas coisas!...Mande anular os três quartos a mais...Não se preocupe, não tem importância!...
Despreocupação na comitiva!...
Nota: O que referi é rigorosamente verdadeiro!...

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Golpe cultural!...


Ontem ouvi várias notícias sobre o enorme incremento, em 2006, das visitas aos museus portugueses, que tiveram crescimentos da ordem dos 70% a 90% nos principais espaços.
Fiquei alarmado com o estado da nossa cultura!...
Ao que tenho ouvido, verdadeira cultura era a que acontecia no Rivoli do Porto, com 17 visitas diárias, no máximo, claro!... Ou com a que transparece da generalidade dos filmes portugueses, a que só conseguem aceder 400 cidadãos muito preparados e cultos, no máximo também, claro!...
Pelo que essa de os museus atraírem cada vez mais gente e não ficarem confinados aos funcionários e especialistas me começa a parecer como algo de estranho e alarmante.
E que deve ser firmemente denunciado, por traduzir um verdadeiro golpe cultural!...

"Vão e regressam"...

Certas situações são muito incómodas e, não obstante a frequência com que ocorrem, não vejo modos de uma pessoa se adaptar.
Há alguns anos um vizinho adoeceu gravemente. Tratei de o encaminhar para o serviço mais adequado de forma a começar a terapêutica. Fiquei surpreendido com o facto de não a ter iniciado. Durante anos o senhor manteve aquele ar doentio e, apesar de saber que andava em consultas no hospital, dizia que afinal não precisava do tal tratamento. Até que, um dia, entrou num estado tal que o obrigou a começar o que devia ter iniciado há muitos anos. Acabei por saber que recusava sistematicamente o tratamento e que, concomitantemente, se deslocava longe do seu local para fazer tratamentos "naturais".
Não querendo por em causa as opções de cada um, mesmo falando de situações graves, não posso deixar de lamentar os serviços prestados pelas ditas "medicinas" alternativas. Muitos adeptos são capazes de testemunhar os efeitos benéficos e milagrosos destas práticas, apesar da ausência de evidências científicas. Também sabemos que o medicamento mais poderoso, em termos humanos (a homeopatia veterinária não funciona, apesar de alguns esforços em provar o contrário), é o placebo. Mesmo na medicina, dita convencional, o efeito placebo está sempre presente e de que maneira! Quantas vezes utilizamos produtos cuja eficácia é duvidosa ou, não o sendo, em doses muito aquém do recomendado, com aquela finalidade? Incontáveis! No entanto, as "alternativas" encerram uma atitude bastante curiosa. Passo a explicar: se houver sucesso, os louros são da medicina alternativa, e os seus cultores cantam hossanas a quem os livrou de tamanhos males que a medicina não conseguiu tratar. Em contrapartida, caso de insucesso, a culpa não é do tratamento. Qual quê! É do doente, por este ou aquele motivo. Ou seja, deixam sempre no ar que, no caso de malogro, o doente poderia ter feito mais e melhor. Simplesmente notável! Se analisarmos os casos de negligência ou pedidos de responsabilidade aos autores de tamanhos disparates o que é que acontece? Nada! Ninguém é acusado.
Claro que no meio de tudo isto aparecem, também, alguns curiosos cujo enquadramento é muito difícil de fazer, em termos de “prática clínica”! Os chamados “médicos populares” conseguem lembrar-se de coisas que nem o diabo é capaz e que lhes pode sair caro. Que me lembre só um tolo de uma ilha açoriana, que fazia terapêuticas com pesticidas para o tratamento do cancro, é que foi condenado. E logo pesticidas que são substâncias que actuam mesmo! Se tivesse feito diluições homeopáticas não teria tido, provavelmente, problemas. Mas não, pensou que quanto mais concentrado melhor. Se mata a bicheza também mata o “bicho”! Mais valia ter utilizado urina de rapariga virgem (mesmo que não fosse)!
Na medicina convencional, os casos de sucesso são, para grande parte dos doentes, devidos às terapêuticas, e a Deus (não esquecer este pequeno grande pormenor), ao passo que, para alguns, e são cada vez mais, o insucesso é devido à falha e "negligência" dos profissionais de saúde ou ao não desenvolvimento da medicina. - Então, senhor doutor, a medicina ainda não descobriu a cura para esta doença? Afinal não está tão desenvolvida como isso! É uma pergunta-comentário que frequentemente ouvimos como que a desdenhar das limitações médicas, apesar do tremendo desenvolvimento que protagonizou no último século.
Eles vão e, muitos, regressam em condições lamentáveis, mas regressam, sendo recebidos sem qualquer recriminação, embora tarde, muito tarde mesmo, morrendo nas nossas mãos, porque têm de morrer às mãos de alguém...

O exemplo da Liga das Nações

Foi há precisamente 87 anos, a 10 de Janeiro de 1920, que no rescaldo do primeiro conflito mundial se instituiu oficialmente a Liga das Nações, ou, como também ficou conhecida, a Sociedade das Nações.
Nasceu com o Tratado de Paz de Versalhes, com o propósito de evitar uma nova guerra à escala planetária. E morreu, de modo inglório, exactamente porque foi incapaz de se opor às movimentações bélicas do Eixo, ao rearmamento da Alemanha, após a invasão da Manchuria pelo Japão e da Abissínia pela Itália.

Evoca-se o exemplo da Liga das Nações no momento em que um novo secretário-geral das NU inicia funções, numa situação internacional extremamente complexa, de uma paz e segurança internacionais particularmente frágeis.
O novo secretário-geral e o novo secretariado da ONU, bem como o Conselho de Segurança, têm pela frente a missão de afirmar a Organização, reformando-a e redefinindo-lhe o papel face aos novos desafios, designadamente no que à resolução pacífica dos conflitos e à prevenção da guerra diz respeito.
Redefinir o papel das Nações Unidas passa também por transformá-la no principal agente para a solução dos problemas mundiais, reocupando um lugar que, terminada a guerra fria, tem sido claramente preenchido por uma só potência.
Tarefa gigantesca e que tem de ser levada a cabo com enorme realismo, uma vez que o princípio da igualdade entre soberanias é uma bonita proclamação doutrinária, mas não tem qualquer relação com a realidade do mundo actual.
Também aqui servem as lições da História. Porque, apesar da ideia da criação da Liga das Nações ter partido do presidente norte-americano Wilson, como é sabido os EUA nunca integraram o organização, impedidos pelo Senado. No não envolvimento dos EUA na Liga das Nações residiu afinal o princípio do fim do projecto. A correlação de forças - afinal o factor que conta - obriga a que se crie um movimento de pressão internacional, dinamizado pelo secretário-geral, no sentido de persuadir a Administração norte-americana a confiar na Organização o essencial das missões de garantia da segurança internacional e de restabelecimento da paz, pondo termo a este período em que o unilateralismo tem tido o terrivel preço das dezenas, senão centenas de milhares de vidas perdidas nos conflitos das últimas décadas.

Ingenuidade? Talvez, mas porventura a única solução que permite assegurar a sobrevivência da ONU e a crença na bondade dos seus objectivos.


Memórias de uma viagem presidencial II

A propósito da viagem presidencial à Índia, relembrei ontem os “preparativos” de uma viagem de Soares a Itália, em que participei em nome da empresa a que pertencia.
A esta distância, e para além da peripécia do dinheiro de bolso ontem evocado, lembro-me de três factos relevantes: o discurso de Soares no jantar de gala da Confederação da Indústria Italiana (Cofindustria), a sessão de trabalho com esta Associação em Bolonha, a doença de Soares nesta cidade e o doutoramento de Soares, também em Bolonha.
Estava realmente curioso em ouvir o discurso de um Presidente socialista na casa maior do capitalismo industrial italiano. Foi um discurso notável, adequado ao acontecimento, com uma componente de marketing q.b., que subscreveria por inteiro. Só que de socialista nada tinha. Soares no seu melhor estilo…capitalista no caso!...
A sessão de trabalho dos empresários portugueses com a Cofindustria em Bolonha teve algum interesse, pelo que foi diagnosticado dos problemas de investimento em Portugal, mas foi para esquecer, ou então, para relembrar, pelas peripécias que rodearam o seu início.
Os empresários portugueses estavam representados pela CIP, pela Associação Industrial Portuguesa, pela Associação lndustrial Portuense, para além da CAP e da CCP. Havia lugar na mesa para um representante da Cofindustria e para um representante da indústria portuguesa. Aos italianos não passou pela cabeça que a nossa florescente indústria tivesse três representantes qualificados. A organização portuguesa também não achou o facto relevante. Pelo que se deu a inevitável discussão sobre qual delas, a CIP, a AIP ou a AIP(portuense) devia estar na mesa, já que todas se arrogavam de serem as mais representativas. A sessão começou com largo atraso, depois de se ter colocado mais uma cadeira na mesa, ficando no entanto ainda uma das associações empresariais de fora. Claro que o facto foi glosado durante a sessão, quer por italianos, quer por portugueses. Passados 16 anos, as coisas continuam na mesma, sem uma voz verdadeiramente representativa do patronato industrial português. O que pode explicar muitas das debilidades da nossa indústria. Pois se os industriais nem têm tido nem engenho nem arte para se conseguir entender entre eles, como poderão entender as exigências de uma integração em espaços económicos mais vastos, como a UE, ou a complexidade de uma economia cada vez mais globalizada?

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

O que é a vida!

Num destes sábados passados, fui calmamente às Avenidas Novas tratar de fazer umas compras e resolver uns assuntos de natureza mais doméstica. Levava um saco de plástico com dois pares de sapatos. Apercebi-me de um sapateiro e entrei.
Um homem de setenta anos, robusto, de ar bondoso, pediu-me, educada mas não servilmente, que escrevesse o meu nome nas solas – um método de identificação eficaz, como é sabido – estendendo-me uma esferográfica com o bico voltado para si.
Nesse momento, disse: “Que pena que tenho de não saber ler.” Primeiro, silenciei-me de pasmo; depois, avisou-me a prudência que lhe retorquisse:
- Qual é o nome do Senhor?
- […].
- É o segundo nome do meu Pai, tem graça. De onde é o Senhor […]?
- De ao pé de Vila Franca de Xira.
- Não é muito longe de Lisboa.
- Não, não é longe de Lisboa.
- Porque é que o Senhor […] não aprendeu a ler?
- Éramos dez irmãos e comecei a trabalhar muito cedo. Ajudava a sustentá-los.
- Porque é que não aprendeu depois?
- Depois já era adulto, trabalhava, ganhava e já não me deu para aí. Estas coisas são mesmo assim. Hoje, tenho pena de não saber ler.
Olhei para as mãos daquele homem. Uma vida de trabalho. Numa pequeníssima oficina. O pouco que pude observar da sua técnica pareceu-me primoroso, sério, feito com esmero e gosto. Vi sapatos já reparados, acertados e engraxados. Pareciam novos. Acrescentei-lhe que já havia poucas pessoas com a sua arte, gente que estava a desaparecer e não tinha sido substituída. Profissões como esta eram nobres, e muito tinham contribuído para a sociedade. Pareceu-me saber tudo isto muito bem.
A quantia que, depois, lhe entreguei pelo arranjo dos sapatos, tanto mais impecável quanto imaginara que não tinham grande concerto, foi a de quem nunca pode enriquecer.
Fiquei comovida. “Meu Deus, como é possível? Que horrível injustiça”, pensei durante dias e penso. A quantas pessoas de bem e úteis à sociedade o Estado teve a infelicidade de não poder chegar!...
O que é a vida!