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sábado, 1 de janeiro de 2011
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
As palavras que contam
Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
O livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
Ditas como por acaso.
Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
Antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
De laranjeiras.
Foi como se de repente chovesse:
As folhas, quero dizer, as palavras
Brilharam. Não que fossem ditas,
Mas eram de amor, embora só adivinhadas.por isso brilhavam. Como folhas
Molhadas.
Eugénio de Andrade
Não quero que as palavras más invadam a minha vida. Não quero habituar-me a elas, não quero assistir indiferente, ou apenas incomodada, à violência dos que agridem com a dureza do que não deve ser dito, do que não há o direito de dizer, ou dos que simplesmente deixam de proferir a palavra certa, quando ela tem ali o seu lugar à espera, e esse lugar fica irremediavelmente vazio.
Pensei, em jeito de balanço deste ano que finda, nas inúmeras ocasiões em que tive a boa sorte de ouvir palavras amáveis, das vezes que atendi uma voz amiga, das outras tantas em que pude encontrar um lugar de amizade ou das mil uma formas por que se apresentam os laços de amor. Difícil eleger uma ocasião que simbolize todas elas, sou tão afortunada como isso, tenho por onde escolher. E quando revejo cada um desses momentos, por breve que fosse, faço deles um antídoto para as palavras más e os rancores que também todos encontramos no nosso caminho.
Mas vou escolher, apesar de tudo, um desses momentos. Um dia deste ano que agora acaba recebi um telefonema de uma pessoa que conheci há muitos anos e de cuja família fui muito próxima, mas que nunca mais encontrei pessoalmente depois das voltas imprevistas que a vida tantas vezes dá. Ao passar dos anos resistiram, porém, os cartões de boas festas, ou dos parabéns quando era um aniversário, ou a propósito dos momentos importantes, bons e maus, que marcam o nosso percurso e que só as amizades atentas e profundas sabem assinalar. Fiquei surpreendida quando me disse que me queria ver, pedia-me que lhe desse esse gosto, já tem idade avançada e queria encontrar-me ainda uma vez, antes da vida se acabar. Esperou-me com um ramo de flores e um pequeno presente e escondeu envergonhado a bengala que lhe permite ainda deslocar-se sem apoio, sabe, a velhice não perdoa, disse emocionado enquanto os seus olhos, já apertados entre um mar de rugas, procuravam ver em mim os traços da jovem que se tinha habituado a tratar como uma filha. Conversámos longamente, naquele desenrolar caótico de pequenos nadas porque não se sabe por onde começar, de repente como dizer o que foi importante, como contar as alegrias e tristezas, como preencher o tempo do tempo que voou? Por fim, sorriu largamente quando tirou na carteira uma fotografia amachucada onde estávamos todos na varanda da casa de família, a mulher, os filhos e eu, lembra-se?, filha, nesta altura ainda acreditávamos que viesse a entrar para a família, eu e a minha mulher falámos nisso até ela morrer, nunca nos esquecemos de si. E queria agora fazer-lhe uma pergunta, não me leve a mal, mas eu e ela pensámos nisso tantas vezes, não queria morrer sem lhe perguntar, a vida deu-lhe a felicidade que merece?
Espero e desejo que todos possam encontrar no balanço do ano que passa a marca de palavras amigas, de provas de afecto, de sinais de amor e ternura. E que elas se multipliquem sem cessar no ano que agora chega, afastando as palavras más e dando lugar às que, mesmo sendo poucas, valem por todas.
Um abraço amigo e um Ano Novo muito Feliz, como merecem.
Dez grandes interrogações económicas para 2011
2.Por isso ocorreu-me deixar aqui 10 grandes interrogações sobre pontos importantes desse cenário, a saber:
1ª) Em que mês – se é que em algum -irá Portugal apresentar formalmente o pedido de assistência financeira ao Fundo Europeu de Estabilização e ao FMI?
2ª) Como irão comportar-se as exportações, nas quais estão depositadas todas as esperanças, em termos líquidos?
3ª) Será o crescimento das exportações, em termos líquidos, suficiente para contrabalançar a esperada contracção da despesa interna e manter o PIB a flutuar marginalmente acima de zero ou pelo contrário iremos ter um cenário de contracção acentuada da actividade económica?
4ª) Será que as receitas fiscais, em especial as dos Impostos Directos e do IVA, vão aguentar-se apesar da esperada quebra do rendimento das famílias e do consumo privado?
5ª) Até quando poderá o Estado português financiar-se nos mercados de dívida? Será que vai ser capaz de cumprir o programa de emissão de dívida (parcialmente) anunciado há dois dias ou vai esse programa ser interrompido pelo facto mencionado na 1ª interrogação?
6ª) Conseguirá o Governo cumprir o objectivo de redução da despesa corrente primária? E como irão comportar-se os encargos com juros da dívida pública (...)?
7ª) Irá o BCE manter os generosos apoios de liquidez que tem concedido aos bancos da zona Euro e às dívidas dos países em dificuldades, mesmo depois da saída de Trichet?
8ª) Como irá evoluir a opinião pública alemã em relação à questão da manutenção do Euro como moeda comum europeia? Irá continuar a deslizar no sentido negativo, como foi revelado por uma sondagem divulgada no início desta semana?
9ª) Qual será a evolução do preço do petróleo e das matérias-primas minerais e alimentares? Iremos continuar a assistir a uma escalada das cotações, pressionadas pela procura dos países emergentes, em especial da China e da Índia?
10ª) Será que a inflação vai finalmente obrigar os Bancos Centrais dos principais blocos económicos a subir as taxas de juro ou iremos assistir a mais um ano de política monetário do tipo “laissez faire, laissez passer”?
3.Muitas outras questões se poderiam colocar, porventura mais controversas do que estas – por exemplo será que o BPN, agora tanto no centro das atenções, vai finalmente ser "privatizado" em 2011 ou vamos continuar a assistir ao arrastamento indefinido do cenário actual?... – mas parece-me que, no que toca à evolução da política económica e financeira, tudo se vai decidir em função das respostas que a realidade dos acontecimentos vier a dar àquelas 10 questões...
4.Os nossos habituais e amigos Comentadores são livres, como é evidente, de acrescentar outras questões que entenderem pertinentes...
5.Para os ilustres Bloguistas do 4R e para os nossos Comentadores, os meus mais sinceros votos de um Ano Novo que mantenha pelo menos viva a nossa esperança num futuro melhor...e muita saúde para todos!
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Contradições
Ficámos esclarecidos que é “uma questão de justiça social”. Pensionistas e desempregados que aufiram rendimentos acima do rendimento mínimo passam a pagar taxas moderadoras. Ficámos a saber que o rendimento mínimo é a fasquia no SNS para se alcançar a justiça social, ou seja, que acima desta fasquia – 485 euros – as pessoas e as famílias não precisam de apoio social.Sacos de plástico
Até sempre, Jorge
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Avisos (VII)
in XXXIII Congresso Nacional do PSD, Abril 10, 2010
Vamos ser claros: quer o Orçamento, quer o PEC, não são bons para o País. E por isso causou estranheza na sociedade, e admito que ainda mais no nosso Partido, por que razão permitiu o PSD a viabilização de ambos pela via da abstenção.
(…) Todos temos que estar conscientes do enquadramento internacional que enfrentamos desde o final do ano passado, quando estalou a crise orçamental e financeira na Grécia, que conduziu a uma generalizada desconfiança quanto ao facto de Portugal poder ser o próximo país a aproximar-se de uma crise de rotura de pagamentos.
Perante quaisquer sinais de que os objectivos de redução do défice público e da dívida poderão ser mais difíceis de cumprir ou perante uma situação de instabilidade política, o rating do País ficará novamente sob ameaça e as condições de financiamento externo serão muito penalizadas.
Ora, na prática, isso significa uma forte pressão vendedora dos activos nacionais (com a sua consequente desvalorização), taxas de juro mais elevadas – quer as que são exigidas ao Estado, quer ao sector financeiro – e, portanto, repercussões muito negativas para toda a sociedade, nomeadamente uma (muito) maior dificuldade no acesso ao crédito, uma diminuição da riqueza pela desvalorização dos preços dos activos, um menor dinamismo, um muito maior desemprego.
(…) Nesta conjuntura, (…) o nosso País estava obrigado a escolher entre soluções que não eram boas (o Orçamento e o PEC) e… o caminho para o desastre absoluto, o que teria consequências económicas catastróficas, que fariam com que as propostas do Orçamento e do PEC parecessem… menos más. Ora, perante a decisão das restantes forças políticas da oposição de reprovarem o Projecto de Resolução do PS sobre o PEC, e dispondo o Governo do apoio de uma maioria relativa no Parlamento, só o PSD poderia evitar o desastre total!
É, assim, minha convicção que, dadas as circunstâncias que vivemos, o PSD actuou como todos os Portugueses esperariam que actuasse, e de acordo com o lema de Francisco Sá Carneiro, lema que nunca devemos abandonar: primeiro, sempre o País; só depois o Partido.
Mas, caros companheiros, isso não significa que, colocando sempre o interesse nacional acima de tudo, não possamos, nós mesmos, apresentar verdadeiras alternativas que contribuam para resolver o difícil e estrutural problema económico do País. Temos duas prioridades simultâneas, ambas com máximo grau de urgência.
Uma é o relançamento do crescimento económico, que tem sido anémico (e tudo aponta para que assim continue). E isso não se fará com os custos de contexto que são conhecidos, que afastam qualquer investidor do nosso País. São necessárias alterações profundas em áreas tão fulcrais como a justiça, a legislação laboral, a burocracria na Administração Pública, ou a política fiscal. Com alterações nestes domínios estaremos a contribuir para aumentar a produtividade, tornar o país mais atractivo e competitivo, e reduzir o nosso défice externo.
A outra prioridade é a imperiosa e inevitável redução do défice público e da dívida pública – o que contribuirá também para reduzir o endividamento externo.
Ora, no ponto em que estamos, esta correcção da trajectória das contas públicas deve – e tem que – ser feita de forma sustentável, isto é, do lado da despesa pública.
As experiências passadas que promoveram a redução do défice público e assentaram no aumento de impostos resultaram em verdadeiros fiascos, como hoje todos sentimos na pele. Só serviram para liquidar a nossa economia, reduzir a olhos vistos a nossa competitividade.
Portanto, a mesma receita pretensamente correctora, queremos nós ver pelas costas!...
Aliás, nós temos é que trabalhar para, por um lado, reformar o nosso sistema fiscal e, por outro, para reduzir quer a carga fiscal, quer o esforço fiscal, matéria em que comparamos muito mal na Europa. Mas para isso, é preciso reduzir o peso da despesa pública no PIB.
Ora, já no discurso que proferi no último Congresso referi que, do lado da despesa, as opções não são muitas.
As rubricas com maior peso são os consumos intermédios (os gastos do Estado no dia-a-dia), as despesas com o pessoal (massa salarial) e as prestações sociais. E portanto é aqui que temos que actuar, sem o que não conseguiremos combater a dimensão da despesa pública.
Hoje, neste Congresso, vou mais longe: em minha opinião, será preciso uma nova reforma da Administração Pública, porque o PRACE foi um verdadeiro fracasso e nem em termos financeiros produziu resultados. Uma reforma que terá que começar por algo que nunca foi feito em Portugal: a discussão das funções do Estado, a definição das áreas onde o Estado deve e não deve estar presente, e de que forma o deve fazer.
Será também preciso combater o desperdício em todas as áreas do Estado.
E sejamos claros: as áreas dos salários e das pensões poderão não escapar a cortes. Será injusto?... É possível. Mas não seria inédito.
Porque, por exemplo, nos salários, quando o FMI esteve em Portugal nos anos 70 e 80, e fomos obrigados a desvalorizar o escudo e a subir as taxas de juro, os salários perderam poder de compra. Ou seja, houve de facto redução de salários – só que encapotada. Porque tínhamos poder sobre instrumentos económicos como as taxas de juro e a moeda, o que hoje não acontece. E portanto, a correcção terá que ser feita às claras. E como é sobre a função pública que o Governo tem controlo, e é a função pública que serve como referência para toda a economia, é aí que se tem que actuar… Provavelmente com uma actuação diferenciada, isto é, com reduções proporcionais aos níveis salariais, o que permitirá que os salários mais baixos não sejam afectados. E com os decisores políticos a dar o exemplo! Como ainda recentemente aconteceu na Irlanda.
E também na área social não será possível deixar de congelar e impor tectos em diversas prestações sociais não contributivas.
(…) Creio que será inevitável que estas opções ou opções parecidas com estas sejam tomadas em Portugal. São duras?... Claro que sim! E sei que será difícil explicá-las a uma população que já está cansada de fazer sacrifícios e que ainda não viu chegarem os resultados (...).
“Das leituras e da medicina”
De acordo com o autor, médicos responsáveis não deviam limitar-se a “órgãos que ainda estão vivos”, deviam colocar, após à questão, “o que é que come?”, outra, “o que é que lê? "e que imagens é que vê habitualmente?”.
A partir daqui, e muito bem, realça a importância da cultura, da leitura, da apreciação de quadros, de filmes, de tudo o que alimenta e revoluciona o pensamento, obrigando o cérebro a trabalhar e a contribuir para a saúde e bem-estar dos cidadãos. Concordo plenamente com esta abordagem. No final do texto pergunta onde estará esse médico capaz de tão salutar ação terapêutica ao aconselhar “dietas intelectuais”? “Provavelmente não existe”.
Quando li este editorial estava sentado no consultório prestes a iniciar mais uma jornada. Ao meu lado esquerdo tinha acabado de depositar três livros, livros que me acompanham por toda a parte, à espera de algum momento de ócio. Gosto de aproveitar breves ou longos minutos para ler algumas páginas, às vezes leio apenas uma, outras, nenhuma.
Ao acabar de ler, fui obrigado a rever mentalmente os doentes e os trabalhadores que, por força da lei, têm de se sujeitar a exames. Concluí que muito dificilmente poderia prescrever um livro ou qualquer manifestação cultural. Quem convive com os cidadãos, nas circunstâncias em que um médico os observa, sabe da impossibilidade deste tipo de terapêutica. Ao fim do dia queixo-me frequentemente do baixo nível cultural da população portuguesa, da dificuldade em transmitir certas informações, da incapacidade em aceitarem conselhos simples, básicos, elementares, para não falar na baixa adesão à terapêutica e às dramáticas insuficiências económicas. São apenas os mais velhos os atingidos? Não, os de meia-idade e os mais jovens também manifestam estas características. Quando vejo um doente ou um trabalhador com um livro, aproveito a ocasião para tecer alguns comentários e enveredar por um diálogo cultural, mas é muito raro. Como se pode fazer terapêutica literária, se nem a outra conseguimos? Mas o problema só está no lado dos cidadãos que vão ao médico? Não, também existe um problema deste lado. A formação dos médicos é cada vez mais intensa e complexa e, praticamente, todos os esforços formativos são direcionados para a componente técnica, descurando-se a parte humanística, irmã siamesa da prática médica. Foram separadas, infelizmente. Tenho tentado, nas minhas atividades docentes, realçar a importância desta faceta. Em vão, talvez por incapacidade minha ou talvez pelos motivos já enunciados. É pena esta dissociação, porque a medicina foi, ao longo dos tempos, um importante alfobre da cultura.
Olho para as três obras em cima da minha secretária, “Mariana Sirca”, de Grazia Deledda, “A saga de Gosta Berling”, de Selma Lagerlof e “Os peixes também sabem cantar”, de Halldór Laxness” e penso: - De bom grado daria um destes livros. Entretanto, uma colega, em conversa informal, perguntou-me qual dos três andava a ler. Respondi: - Os três ao mesmo tempo. Ao ver a sua admiração disse-lhe: - É uma questão de gastronomia intelectual, os livros também têm sabores diferentes, e, ao passar de um para outro, consigo ter um prazer difícil de explicar.
Dificilmente conseguirei prescrever “dietas intelectuais”, como aconselha Gonçalo M. Tavares, e, por isso, prefiro embebedar-me com belas obras, o que me fez relembrar Baudelaire, “É preciso que vos embriagueis sem tréguas. Mas de quê? De vinho, de poesia, ou de virtude, à vossa vontade”, ou, se quisermos ser um pouco mais comedidos, e citando Flaubert, “Embriagar-me com a tinta vale mais do que embriagar-me com aguardente”. É o que eu preciso neste momento...
Crise na Europa? Mas qual crise?...
2.Todos os dias somos bombardeados com novos afloramentos dessa “retórica da desculpabilização”, que assim procura confundir os cidadãos, tentando leva-los a acreditar, por exemplo, que as dificuldades que estamos suportando (e que vamos continuar a suportar, com acrescida gravidade) têm sobretudo uma origem externa...
3.Numa das modalidades mais em uso, muito frequente por exemplo em debates televisivos, é normal ouvir-se a referência a uma crise da Europa, em particular da zona do Euro... “que diabo, isto é uma crise europeia, não somos só nós” (refrão)...
4.Fica assim “explicado” que as nossas dificuldades são mais ou menos comuns aos restantes países europeus, o que assegura naturalmente absolvição dos graves erros de política que nos lançaram neste calvário de dívidas e que nos vão endividando mais e mais...
5.Em recente mensagem natalícia, num estilo realmente incurável, foi-se ao ponto de explicar que todos os países da Europa foram obrigados a “rever as suas agendas” - formula redonda, mas hábil, de lavar as causas, sobretudo domésticas, dos problemas gravíssimos que enfrentamos...
6.Estamos em presença de um gigantesco exercício de desinformação, que recorre a todos os meios e que conta com uma colaboração activa ou passiva da generalidade dos “media”, sendo muito poucos aqueles que lhe resistem.
7.Recordei-me deste gigantesco exercício de desinformação quando li, na edição do F. Times do pretérito dia 19, um interessante artigo de Tony Barber (“Expect adventures in euroland until leaders craft a plan”), no qual parodia a ideia de crise na Europa.
8.Barber cita a Alemanha, que representa cerca de 30% do PIB da zona Euro, cuja economia deverá crescer este ano cerca de 3,5%, graças sobretudo ao desempenho das suas exportações (sendo que, conjuntamente, os mercados de Portugal, Grécia e Irlanda não chegam a 2% dessas exportações...) e em que a confiança dos empresários apresenta, no corrente mês, o valor mais elevado desde...Janeiro de 1991!
9.Barber questiona, com humor, essa falsa ideia de crise na Europa, reconhecendo que a crise existe em alguns países, sim, fruto do enorme desequilíbrio das suas economias e do sobre-endividamento...e que essa crise pode ainda agravar-se se não houver uma resposta convincente da parte dos lideres europeus.
10.Aqui chegados, é pois altura de perguntar aos habituais porta-vozes e “opinion-makers” do regime: onde é que está a crise económica da Alemanha? E a da Austria, da Holanda, da Finlandia, do Luxemburgo, da França, da Bélgica, da Eslováquia ou mesmo da Itália? E que “mudanças de agenda” são esses países obrigados a fazer (a não ser trocar a de 2010 pela de 2011...)?
A caminho de 2011...
Tenho a percepção que a palavra que mais vezes foi falada durante 2010 foi a palavra ESTADO, mas pelas piores razões. Talvez um recorde recente, não por acaso, mas porque o Estado engordou a sua omnipresença na sociedade e na economia.Com um Estado assim, que não cumpre as suas funções, que faz o que não deve e que não faz o que deve, não admira que o País esteja numa situação de difícil saída, dado que as pessoas e as empresas para além de terem que trabalhar e se esforçar para dar a volta à crise, têm também que fazer frente aos custos desmesurados de um Estado que não quis em tempo útil emagrecer a sua veia paternalista de em tudo intervir e de tudo controlar.
Partimos mal para 2011, mas haja esperança que por necessidade saberemos superar a crise, incluindo a exigência de um Estado que deixe funcionar a economia e que cumpra efectivamente com as suas funções sociais.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Avisos (VI)
A Propósito da Situação de Portugal in Sol, Maio 28, 2010
“(...) A complicadíssima situação que estamos a viver resulta, a meu ver, de dois factores: um, mais conjuntural; outro de carácter mais duradouro, mesmo estrutural.
O primeiro – e quanto a mim menos importante – resulta do despoletar da crise de endividamento da Grécia, no fim de 2009, e da ligação que (justa ou injustamente, isso é pouco relevante), a comunidade internacional logo fez em relação a Portugal (…).
Mas a verdade é que, devido ao segundo factor – estrutural, e por isso muito mais importante –, creio que era uma questão de tempo até que esta situação chegasse. Acabou por ser mais cedo do que mais tarde, devido à já referida crise grega. Mas já para lá caminhávamos… e a bom ritmo. É que, como é facilmente perceptível, nenhuma família, empresa ou país pode gastar sempre mais do que produz. Ora, se tomarmos como referência um período relativamente longo, como por exemplo o que se tem passado desde 1974, o ano em que nos tornámos uma democracia, constatamos, de forma arrepiante, que em todos os anos Portugal registou défices públicos e externos (…). Em cada um dos 37 anos entre 1974 e 2010, nunca o que se produziu ou arrecadou foi suficiente para o que se gastou!... E pior: o nosso país é o único entre os 27 que compõem a União Europeia em que tal sucedeu (…).
Pergunto: esta realidade inspira confiança a alguém?!... Com este historial, não será normal que, em tempos de endividamento global galopante (para responder à crise) e de dúvidas quanto ao cumprimento dos compromissos financeiros por parte de alguns países, Portugal esteja sob escrutínio mais apertado?... Ainda para mais quando é consensual que o crescimento económico deverá continuar a ser anémico nos próximos (largos) anos, dificultando ainda mais a obtenção de recursos que facilitem o pagamento das nossas responsabilidades?!...”
Gatos...
A senhora que estava sentada à minha frente, no café, anafada, revelando os efeitos das alterações hormonais próprias da idade, loira a dizer basta, e de beiços muito vermelhos, mostrava uma agitação pouco habitual, olhando ansiosamente para a porta à espera de alguém. Ao fim de algum tempo, apareceu outra senhora, de aspeto mais consentâneo com a idade e sem tanta cor, mais para o acinzentado, que, assim que se sentou, começou a ouvir da amiga, queixas e preocupações com a sua filhinha que lhe tinha dado uma noite péssima. – Vê lá tu que espirrou durante toda a santa noitinha e eu sem saber o que fazer, ainda tentei ligar ao médico mas ele não me atendeu. E a conversa era dominada pela senhora que fazia um alarido do caraças, impedindo-me de ler o jornal. Já que não me deixava ler, passei a ouvir a conversa. Mas as queixas continuavam e eu olhava para a senhora. Filhinha? Com esta idade? Só se for neta. E comecei a ter pena da noite da senhora e da pobre criança. Foi só quando ouvi que tinha conseguido falar com um amigo que tinha um amigo que era vizinho do veterinário é que fiquei a saber quem era, uma gatinha. Irra! É demais.
O neuroticismo, um conceito que engloba um vasto leque de sofrimento psíquico, tem sido detetado com mais frequência em pessoas que foram infetadas por um parasita denominado Toxoplasma gondii que necessita do intestino do gato para se reproduzir. Já há muito tempo que se sabe que os ratos infetados por este protozoário cheiram menos os gatos, não têm receio deles, passam mais vezes à sua frente e, consequentemente, são papados muito mais facilmente do que os ratos não sofredores de toxoplasmose. Uma interessante adaptação evolutiva por parte de um parasita que assegura deste modo o seu ciclo reprodutivo. O que é curioso é que contamina mais de dois mil milhões de pessoas em todo o planeta. Habitualmente não há complicações de maior na nossa espécie, exceto durante a gravidez, em que pode originar dramas preocupantes. Haverá alguma vantagem evolutiva na contaminação humana? Penso que não, porque os gatos não nos comem. Mas não deixa de ser interessante a associação revelada por vários trabalhos, sobretudo um, publicado recentemente, onde se questiona o papel da toxoplasmose na definição da cultura. Isto porque os comportamentos das pessoas poderão ser diferentes, nalguns aspetos, e influenciados pelo que se passa a nível do cérebro onde o raio do bicho se instala, ou melhor, se enquista. As alterações da personalidade são diferentes nos dois sexos. As mulheres tendem a ser mais inteligentes, mais afetuosas, mais conformadas, mais atentas aos outros, mais moralistas, entre outros aspetos, enquanto os homens se tornam menos inteligentes, com baixa autoestima, rígidos e instáveis sob o ponto de vista emocional. No entanto, ambos denotam elevada sensação de culpa, apreensão, indecisão, preocupação e ansiedade quanto ao futuro. Ainda são estudos de associação, mas começa a ser identificado alterações de neurotransmissores cerebrais provocados pela presença do parasita no cérebro e modificações operadas a nível do sistema imunológico.
Uma interessante área para pesquisa, sem qualquer sombra de dúvida. Em termos evolutivos, já não sei se não foram os gatos que, aproveitando-se do parasita que necessita do seu intestino, aprenderam a manipular os seres humanos através dele!
Seja como for, destaquei, ainda que de forma sumária, estes achados, porque da conversa havida entre a dona da gatinha e a amiga, perpassou-me pela cabeça duas interrogações; a primeira foi: - Será que a senhora tem toxoplasmas enquistados no cérebro? Quanto à segunda: - Como será o marido? Às tantas também deve sofrer...
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Uma boa notícia!
Esta medida deveria ser aplicada na Europa e não se restringir apenas a produtos desta marca, mas a muito mais que andam por aí. Ouço com frequência, na rádio, alguns anúncios referentes a estes produtos, por vezes legitimados por nutricionistas. São de tal forma obscenos a ponto de pensar que, um dia destes, ainda corro risco de me despistar, tamanha é a raiva que sinto, ao promoverem e divulgarem virtudes curativas e preventivas.
Uma boa sugestão para a tão viciante capacidade legislativa dos nossos governantes, ao menos poderia sair uma legislação mais saudável e dava umas massitas ao tesouro nacional, o pior é se os governantes e deputados andam a tomá-los convencidos dos seus efeitos...
A grande ilusão
No entanto, para o Governo, para o Bloco, para o PC, para o PS e para muita opinião publicada a culpa é dos especuladores financeiros e dos mercados internacionais. Nós somos apenas vítimas.
O FCPorto nos últimos 26 anos ganhou 17 campeonatos, ganhou 10 Taças de Portugal, tantas como o Benfica e Sporting juntos e, já agora, ganhou 14 Supertaças. Nesse mesmo período, foi duas vezes Campeão Europeu, ganhou uma Taça UEFA, uma Supertaça Europeia e foi Campeão Intercontinental por duas vezes.
Pois durante um recente Programa de comentário sobre futebol, perguntava-se o que explicava a vantagem do FCPorto sobre os adversários. Acontece que 77% das respostas atribuíam o facto às arbitragens e apenas 12% ao mérito da equipa ou do treinador.
Em critério e rigor de análise, a malta da bola e o pessoal da política estão de acordo no jogo e convergem absolutamente no resultado.
A malta da bola apanha permanentemente boladas, rasteiras e caneladas, e sai sempre mal ferida das ilusões que a magalomania dos dirigentes e treinadores diariamente lhes criam, para seu bem, claro está. E, mesmo levando pela medida grossa, a malta da bola acredita sempre que a culpa é só dos adversários especuladores. Enquanto assim for, não se podem queixar.
Avisos (V)
“Conhece-se, finalmente, a versão completa da actualização 2010-2013 do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC). Que, em meu entender, deixa muito a desejar.
(…) Apesar de todas as declarações em sentido contrário (…), a verdade é que, neste PEC, o Governo torna a subir impostos (e não é pouco), reincidindo em trágicos erros de ajustamentos orçamentais anteriores, que em muito contribuíram para conduzir Portugal à situação de definhamento económico que vivemos. E que só tenderá a agravar-se, porque o nosso País – já sufocado com impostos – será fiscalmente ainda menos atractivo e competitivo. Quando será que em Portugal iremos perceber esta realidade?!...”
domingo, 26 de dezembro de 2010
Contradições
A minha intenção não era falar sobre mim, ou sobre o organismo que tutelo, mas sim falar sobre a “contradição”, a mais vulgar das características humanas. A senhora deu a entender, no seu texto, que o provedor era um vulgar ser “contraditório”. Às tantas até é capaz de ter razão, e se fosse só como provedor...
Chamar a atenção para as contradições em que caímos é uma espécie de desporto. Umas vezes, assiste-lhes, a quem denuncia os factos comprovativos da contradição, a razão, outras, nem por isso, mas não importa, o que interessa é encontrá-la, e depois denunciá-la.
Ia a pensar na mais vulgar das características humanas, quando, ao ler a entrevista do senhor Cardeal-patriarca, que defende a sua igreja, deparo-me, entre muitas afirmações, com uma bastante interessante. Dizia respeito à promulgação pelo Presidente da República do casamento homossexual. Começa por esclarecer que “a questão do casamento é uma questão civilizacional desde o princípio da humanidade em todos os povos e culturas...”. Bom não é preciso alongar mais sobre o seu pensamento, porque é mais do que óbvio. Mas ao terminar esta resposta, afirmou: “A gravidade dessa lei está na ideia de querer alterar a natureza. Nessa altura, espero já cá não estar!” Presumo que deverá estar no céu, longe da Terra, mas será que, nas “alturas”, não conseguirá ver o que se passará cá em baixo? Vai deixar de se interessar pelos terráqueos? Será que as suas “futuras” funções de Diretor-geral de qualquer repartição do reino de Deus o impedirá de continuar a dar atenção ao pobre pessoal deste país? Claro que a sua afirmação terá de ser lida “simbolicamente”, simbologia que apregoa e defende ao longo de toda a entrevista.
No mesmo periódico, e a propósito das críticas de Manuel Alegre ao passado “salazarista” de Cavaco Silva, um leitor, que regularmente escreve nesta secção, aponta a contradição de Alegre, ao afirmar que “Pior do que viver conformado com o Portugal de Salazar é lutar contra o Portugal de Salazar, a partir de um país com um regime muito mais cruel e onde as violações dos direitos humanos eram muito mais graves (Argélia).
E agora? Agora? Vamos continuar a viver com as nossas contradições, que nos alimentam continuamente, porque sem elas o que é que faríamos ou dizíamos? Nada, seríamos uma espécie de anjinhos papudos com ar de tolinhos à espera de algum acontecimento que nos fizesse despertar da eterna letargia para que pudéssemos cair no reino da humanidade, local, onde, apesar de tudo, deve ser muito mais aprazível viver do que num mundo sem contradições.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Cristo
Mas não se pense que não tinha de dar, também, o meu contributo para as festividades. Dava, e com muito gosto. Nessas alturas, a turbulência infantil desligava-se, momentaneamente, quando era encarregado de limpar com cuidado um Cristo de marfim, que vinha do antigamente. Limpar o Cristo não era a mesma coisa que limpar as pratas com o “coração limpa metais”. Tinha que ser feito com o coração e o máximo de respeito. A minha avó, na altura da Páscoa, encarregava-me dessa tarefa. Em primeiro lugar retirava o pó, e, depois, com um pano embebido em água dava-lhe o tradicional banho, olhando sempre para a face, tentando observar se não estaria a incomodá-lo, porque quando me esfregavam a fuça, faltava-me sempre o ar, e eu não queria problemas. O olhar do Cristo era forte, não revelava propriamente sofrimento, mas intimidava, impunha respeito, era como se fosse um rei e era bonito. Ao longo dos braços compridos viam-se as veias, coisa que eu nunca tinha visto em mais nenhum, e imaginava o sangue a correr. Também não tinha as chagas, o marfim é duro. Por mais voltas que lhe desse não conseguia retirar aquele amarelo, nalguns pontos a descair para o torrado, mas, apesar de tudo, ficava com outro aspeto, sobretudo quando o expunha ao sol a” secar”. O amarelo, que parecia ser sujidade, passava a brilhar de forma dourada a responder ao sol na mesma moeda.
No domingo de Páscoa ficava na mesa, no meio da sala, rodeado de tudo quanto era bom, à espera do compasso. Aos pés, numa salva de prata, um envelope com dinheiro. Quando ouvíamos a sineta a avisar a chegada, corríamos todos para a sala. Entrava o puto a ribombar o sino, e a repetir a ladainha da ocasião, acompanhado pelos demais. Será que este ano alguém irá reparar no Cristo e dizer ao menos que é bonito? Era a pergunta que colocava sempre, porque o Cristo que nos davam a beijar era frio, de metal, uma imitação que não chegava aos calcanhares do “meu”. Mas não, nunca disseram nada. O homem da pasta de cabedal só se preocupava com duas coisas, recolher o envelope e enfiar mais um copo a tantos outros, ao ponto de não dizer coisa com coisa, nem olhava para o Cristo, e mesmo se olhasse devia vê-lo a duplicar ou a triplicar e muito embaciado; os outros despachavam-se fazendo deslocar o metal debaixo dos nossos olhos e bocas, mas mesmo assim ainda tinha tempo para ver que não tinha a categoria do rei da mesa. Esse sim é que merecia ser beijado. O padre, blá, blá, blá, corado, testa cheia de suor, espalhava a água benta por cima dos bolos e guloseimas sem se aperceber do Cristo de marfim, com enfado e desejoso de se ir embora. O pessoal acompanhante aproveitava o momento para enfardar novamente as suas panças de gula pascal, e eu ficava, mais uma vez, aborrecido por ninguém ter dito nada sobre o Cristo. No final do dia, colocava-o no seu poiso, a aguardar a Páscoa seguinte.
A vida roda e nunca mais soube dele. Acontece que há algumas semanas vi-o em casa de um familiar. Foi o suficiente para recordar numa fração de segundos tantos episódios. Não o cobicei, mas uma sensação de vazio foi-se construindo dentro de mim, sem me aperceber, até que, por uma mera casualidade, acabou por cair em minhas mãos, preenchendo esse espaço repleto de lembranças prontas a serem vividas.
Está mais escuro, sujo, até mais magro e um pouco triste, embora não tenha perdido aquele ar de rei, de senhor, e continua detentor de uma beleza que as imitações não conseguem atingir, as próprias veias dos seus longos braços deixam transparecer o sangue a circular; é quente, não é frio, mas está a precisar de um bom banho, tomara, há decénios que ninguém o limpa como eu fazia. Sei que não é Páscoa, estamos no Natal, mas é um bom momento para o fazer. Daqui a uns dias já deverá estar mais composto, com outro aspeto, mais alegre e, decerto, mortinho para reviver alguns episódios, meus, porque com a idade que tem quantas e quantas histórias não ficaram por contar...
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Boas-Festas de Natal

S. Lucas
Na dialéctica permanente entre o bem e o mal, também apareceram os que, arrogando-se da sua doutrina, extremistas e fundamentalistas, espalharam o mal, causaram sofrimento e dor, e negaram-se enquanto seres humanos.
Mas é inegável que, Deus para uns ou mero homem para outros, o mandamento único que nos legou, amai-vos uns aos outros, despertou consciências e abriu corações, tornando a humanidade irreversivelmente melhor.
Embora seja politicamente correcto negá-lo, é de facto por ele que comemoramos o Natal.
Avisos (IV)
"Com a apresentação do Orçamento do Estado para 2009 (OE’2009) fecha-se esta legislatura em matéria de política orçamental.
É, pois, altura de fazer um balanço sobre a evolução dos principais agregados das receitas e das despesas públicas, bem como do défice público, entre 2004 (último ano da legislatura anterior) e o que se prevê para 2009.
E, lamentavelmente, a conclusão que se pode tirar é que o OE’2009 confirma que a presente legislatura foi literalmente perdida em termos de consolidação orçamental.
- (…) A redução do défice foi obtida inteiramente à custa do aumento da receita (combate à fraude e evasão fiscal e brutal aumento de impostos decidido em 2005);
- A dívida pública sobe em 5.7 pontos percentuais do PIB;
- O valor de todos os agregados da despesa pública face ao PIB sobe entre 2004 e 2009, – uma tendência oposta ao que devia acontecer – assumindo a despesa pública total o maior valor de sempre (!) face à riqueza nacional (47.8%);
- A despesa corrente e a despesa corrente primária sobem mais do que a despesa total – porque, do lado da despesa, o Governo cortou onde era mais fácil (nas despesas de investimento) e não onde devia ter cortado (nas despesas de funcionamento, onde reside o “monstro”, que continua vivo e de boa saúde)".
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Conto de Natal
Certo dia andando a passear por uma escura viela ouvi uns gemidos lamentosos que vinham do chão.
Olhei. Só vi um pobre pedaço de pão duro. Qual não foi o meu espanto ao ver que os gemidos vinham da tal nesga de pão.
Agachei-me e com espanto disse em voz alta:
- Parece que estou a sonhar, pois deu-me a impressão que ouvi uma voz que vinha deste pedaço de pão.
Nisto ouvi uma voz fina que me dizia:
- Não estás a sonhar, meu caro, ou não sabias que nós também falamos e temos os nossos padecimentos?
Ainda com mais espanto perguntei-lhe:
- E que dores tens tu? Eu julgava que o pão não sofria…
Logo a seguir o pão respondeu-me:
- Sim, sofremos. Olha tu, homem, queres ouvir a minha desditosa história?
Cada vez mais estupefacto respondi-lhe que sim.
O pão começou a falar.
- Certo dia, depois de ser vendido numa padaria, fui levado por uma criada que brutalmente me meteu dentro de um saco. Depois, qual não foi o meu espanto, quando vi que ia fazer parte de um lanche de anos da pequenita da casa.
O pão fez uma pausa.
Cada vez mais interessado disse-lhe:
- Continua, por favor, meu pedacito de pão.
O pedacito alegre com as minhas palavras continuou.
- Quando a mesa estava posta vi aparecer um grupo de crianças que logo se atiraram a tudo. Por dificuldade fiquei nos restos e fui parar à caixa do lixo.
Quando ia para o camião dos despejos fiquei no chão.
Nisto passou por ali um pobre que me apanhou para fazer parte da sua pobre refeição.
Muito contente fiquei quando o velhinho disse que era um manjar vindo do céu.
Mas nisto, quando estava quase a ser comido, bateu à porta alguém. O velhinho foi abrir. Fiquei admirado quando vi entrar um rapazito andrajoso.
O velhinho deu-lhe um beijo e logo fiquei a saber que era seu neto. O menino parecia cheio de fome e o pobre homem escolheu-me a mim para lhe dar.
Mais uma vez fui transportado, mas desta vez em bolsos quase rotos. Ao pé de mim estava uma moeda pequena.
O rapazinho corria como uma flecha e com os solavancos caí.
O pedaço de pão parou de falar. Depois disse-me:
- E aqui me encontro desde ontem à tarde sem ninguém me ligar nenhuma.
Eu respondi-lhe:
- Ó Senhor Pedaço de Pão, tem muita razão e desde hoje, fica dentro de uma caixinha na minha casa. É só pedir e eu dou-lhe tudo o que quiser porque compreendo a sua dor.
E, assim, eu e o pedaço de pão fomos para casa.
