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quinta-feira, 22 de setembro de 2022

“Até eu medrava sem comer” …


No pico do espraiamento do sol tive que calcorrear uns bons metros através de velhas ruelas sempre à procura da tão desejada sombra. 

Quatro gatos alinhavam-se em frente de uma porta modesta demonstrando que ali nasce comida pela qual nunca tiveram de lutar ou de trabalhar. Sabem-na toda estes animais ditos domésticos, embora não totalmente, visto que prezam, de forma ímpar, a independência e a liberdade. Três gatos cercavam um outro, mais pequeno e ranhoso, que não se mexia. Encolhido, e paralisado de medo, devia estar a equacionar a melhor maneira de livrar-se dos três “irmãos”, umas verdadeiras bestas. Todos quietos. Um deles, em jeito de ataque imediato, era o que estava mais perto, enquanto o segundo, negro, com o pelo eriçado e olhar assustador, trancava, um pouco mais longe, a passagem de uma eventual fuga. O terceiro, castanho-amarelado, acabou por desistir daquela parvoíce abandonando o local em passo lento e com um ar verdadeiramente aristocrático. O quadro dos três gatos adquiriu, subitamente, vida, com o mais perto a mostrar dentes aguçados e a bufar à maneira ao mesmo tempo que dava uma valente patada com as garras desnudadas no focinho do pobre animal que, encolhido, quase desapareceu tipo ouriço-cacheiro. Gemeu de dor. Perante o quadro avancei em seu auxílio. Safou-se e agradeceu, miando com ternura e com um olhar enternecido. Avançou uns metros e colocou-se à sombra debaixo de um contentor. Os outros dois viraram-se para mim, mas devem ter reparado que eu tinha uns valentes palmos a mais. Mesmo assim não desarmaram à primeira. Olhares furiosos prontos a atacar. Eu fiz o mesmo e dei-lhes a entender que estava preparado para ripostar à maneira.  

Analisando a questão, não vi que tivesse violado o seu território, não vi nenhuma fêmea a apelar à satisfação do cio e também não me pareceu que fosse por causa dos alimentos. Os agressores estavam bem nutridos, ao passo que a vítima estava doente e visivelmente esfomeada. Quanto à minha pessoa também não me referenciei como alguém que pusesse em causa a etologia felina. 

Ia a pensar neste quadro urbano e despropositado, em que a violência extravasa a sua força, quando uma senhora bem nutrida, sentada na soleira da sua porta, não muito distante do episódio que acabei de contar, manifestava em alta voz o seu desagrado com a menina que lhe queria saltar para o lombo. Traquina, e calada como os gatos, tentava fazer das suas. Uma atitude que tomei como lúdica e carinhosa. Quem não estava a gostar da conversa era a avó, que lhe gritava: - Está quieta meu estupor. Nunca estás queda. Só sabes chatear. Quem me dera que a tua mãe viesse amanhã da Alemanha e te levasse. Até eu medrava sem comer! A pobre da criança deixou-se de brincadeiras e sentou-se na soleira da porta ao lado. Amuada? Sim, ou qualquer coisa parecida. Às tantas pensei, o raio do calor dá cabo dos cornos, quer das pessoas quer dos gatos. Só pode. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Silêncio da escrita

 Silêncio da escrita


Não tenho escrito como é habitual. As palavras, as ideias, os sentimentos, os medos e os desejos estão aprisionados. Nada e ninguém gosta de se sentir preso. Ouço lamentos e até alguma raiva. Tenho que os libertar, de outro modo acabarão por me fazer mal. Tenho lido entrementes. Talvez seja por isso que não escrevo. Fico absorvido pela elegância e inundado pela energia criadora de grandes escritores. Consigo ouvir as suas vozes, o dançar dos seus pensamentos e a profundidade dos seus escritos, elegantes e até, porque não dizer, divinos.  Para quê escrever se há sempre alguém a desenhar e a cantar o mundo com tal perfeição? Prefiro mil vezes confundir-me com alguma das suas personagens, mesmo que não existam ou, então, brinquem como figuras da banda desenhada. 
Mas a força do pensamento é diabólica. Diabólica, ardilosa, frustada ou desejosa de recriar a vida e fazer esquecer a dor e a morte.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Dois momentos…

Um dia vulgar e ao mesmo tempo diferente. Continuo a aguentar as amarguras da vida. Felizmente choveu um pouco. Não cantei durante a viagem, mas fiquei um pouco mais confiante. Pequeninas gotas de água pintaram o meu pára-brisas. As escovas deslizaram com uma voluptuosidade a raiar a sensualidade. Não fizeram barulho. Senti o prazer e o resfolgar da natureza a ser aspergida pela fonte da vida, a água. Fiquei mais tranquilo e esperançoso no futuro imediato. Nada mais me resta do que isso, desfrutar o pouco ou o muito que me aguarda. Tranquilamente fiz o que tinha a fazer, trabalhei, embora um pouco ansioso para desfrutar a meia hora após o almoço. Almoço simples, escolhido a propósito para não sofrer as consequências. Claro que o vinho branco, muito fresco, foi a exceção. Também tenho direito à liberdade de expressão através de uma agradável libação. Comi peixe! Eu que nunca fui adepto de peixe e nem do Benfica. Enfim! 

Agradou-me sobremaneira a forma como o a funcionária do restaurante me olhou. Depois de alguma hesitação disse, “Está muito mais magro. Anda bem de saúde?”. Sorri e, meio confuso, disse-lhe que sim. A sua observação foi interessante. Fiquei na dúvida, “Será que estou mais magro ou é o efeito de ter cortado o cabelo, ter óculos novos e de não me ver há mais de um mês?”. Sorri e fiquei agradado por tamanha simpatia. Adoro este tipo de cuidados e atenções. Logo a seguir, no café ao lado, tomei o segundo café. A menina, que me reconheceu, trouxe de imediato o café com adoçante. Disse-lhe, “Tem boa memória. Muito obrigado”. Respondeu-me com um belo sorriso. 

Sim, momentos banais que são confortantes e que me ajudam a viver.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Três reflexões…

 Chuva

Saboreando um café no resto de uma manhã …


Andava com saudades da chuva. Tenho olhado incessantemente para o céu à procura de nuvens cinzentas, negras e pesadas capazes de refrescar a vida sedenta de água. Nada. Em troca recebo o azul do céu que tanto adoro, mas que agora causa-me ansiedade e até medo. Esta noite acordei com um cantar de alegria. A chuva caía doce e alegremente. É tão belo ouvir esta música. Acalma e transmite a esperança de melhores dias. Seduz e faz esquecer a dor de quem já não a consegue ouvir. A morte pode ser esquecida com o brilho e a alegria de quem pode dar vida, a água. 


Espera

A falta de rotinas  num local novo causa-me sempre ansiedade e até alguma frustração. Cada sítio tem as suas regras e usam-nas como se tivéssemos de as conhecer. Mas isso é o menos, o pior é a falta de cuidado e sobranceria como sou tratado. 

Gosto de ser acarinhado com um sorriso, uma atenção. Nada de complicado. O distanciamento é uma realidade, não falo do imposto recentemente, mas do devido a falta de empatia. Nada de surpreendente, claro, mas que me incomoda, lá isso é verdade. No entanto, faço por ultrapassar estas situações, passando a ir várias vezes ao mesmo local. Ao fim de algum tempo acabo por ser reconhecido. Depois é tudo muito simples, aproxima-se um sorriso e ouço um dialogar doce…

Para que isto possa acontecer tenho que esperar. Demora, mas vale a pena. 




Vícios

Não posso dizer que tenha vícios. Se os tiver não dou conta. Gosto de usufruir o prazer de pequenas coisas. Uma delas tem a ver com os alimentos do espírito. Já analisei e dissertei bastante sobre este assunto. Fui um fumador inveterado durante muitos anos. Fui o que se pode dizer um perfeito louco. Incorrigível? Não! Testei as minhas forças e fiquei a saber que era forte. Deixei de fumar cigarros às 23:55 horas do último dia de 1983. Foi terrível? Ui, se foi! Mas consegui. Desde esse dia guardo com certa voluptuosidade o meu último maço de cigarros. Acompanha-me religiosamente. Por vezes este episódio tem servido de argumentação contra os que se opõem aos meus conselhos. Sorrio quando dizem, “O senhor doutor nunca fumou. Se tivesse fumado não falaria dessa maneira. É a altura de me encostar à cadeira. Suspiro, sorrio e conto a minha história. Fui um verdadeiro Tom Mix.  Andava com dois maços de cigarros, um em cada bolso. Chegava a pagar a contrabandistas para me trazerem o reles tabaco espanhol, o “Fortuna”. Horrível? Sim. Era a única possibilidade de contrariar os grevistas da Tabaqueira no pós vinte e cinco de abril. No entanto, anos depois, passei a “saborear”, muito ocasionalmente, um charuto. Nada de mais e nem de menos. Recordo-me de um colega norte-americano que passou pelo mesmo e me disse um dia, “Salvador. Eu fumo dois charutos por ano em ocasiões especiais. Considero este como um deles. Importas-te que fume um?” Ainda por cima depois de termos feito conferências em que o tabaco foi a nosso “vítima”. Sorri e perguntei-lhe, “Tens um para mim?”. “Tenho pois!”. A partir daí, de quando em vez, ataco um bom cubano. Cuba também tem coisas boas, apesar de Fidel ter acabado um dia por dizer que oferecia com muito gosto charutos aos seus inimigos. Foi na altura em que ficou doente. 

Sabe bem. Os alimentos do espírito são saudáveis quando usados com parcimónia. A alma tem desses desejos. 

Seleciono os melhores entre os melhores a ponto de quando  entro na loja, a menina, sem perguntar o que pretendo, vai buscar logo duas embalagens do dito. Sempre com um belo sorriso. Também alimenta.

Vícios? Sei lá se são ou não…


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

“Sepultar a dor” …

De quando em vez, ao acordar, penso na morte. Começa a ser frequente, mas não estremeço e nem sinto medo, apenas uma estranha sensação de paz. Curioso associar a morte à paz ou a paz na morte ao nascer de um novo e belo dia.
Sou depositário de muitas lembranças que arrecadei ao longo da vida. Muitas estão relacionadas com a morte, esse estranho fenómeno com quem comecei a conviver, e até a tocar, desde muito novo. Muito novo mesmo.
Por causa de ter despertado a pensar na morte, recordei uma conversa tida há alguns anos. Já era muito tarde, foi num daqueles dias tristes em que o sol adormece demasiado cedo.
O meu velho amigo, após se sentar com alguma dificuldade, perguntou-me se conhecia fulano. 
- Quem? Não estou a ver.
- Não o conhece?! Ele trabalhou comigo muitos anos na fábrica, e, com um gesto largo, apontou na noite escura como o breu para o lado de lá do rio, como a querer comprovar a sua identidade. Ficou em silêncio durante breves segundos. Depois reiniciou a sua narrativa.
- Vivia na quinta mais a mulher, que estava muito adoentada, coitadita. Eram ambos velhotes.
- Está bem! Mas o que é que aconteceu? Perguntei, antevendo o pior, porque o estilo de linguajar, aliado à idade avançada, só podia ser o prelúdio de um passamento.
- Na véspera do Ano Novo tiveram de chamar o 112. A mulher não se sentia bem e levaram-na para o hospital. Ela andava em cadeira de rodas. Estava muito doente, coitadita. Depois, quando regressaram tiveram de lhe dizer que tinha morrido. Veja lá como são as coisas. O marido, quando ouviu, sentiu-se mal e não é que também acabou por morrer. Como são as coisas, senhor doutor, como são as coisas. Afligiu-se e morreu. Eles davam-se muito bem. Viviam sozinhos, isolados na quinta, mas eram boa gente. Gente de trabalho, de muito trabalho, e honesta, muito honesta. Acabaram por ser enterrados no dia do Ano Novo e na mesma cova. Viveram juntos, morreram no mesmo dia e foram sepultados na mesma cova.
- Sabe, ainda bem, apesar da tristeza da notícia da morte de alguém, fico aliviado. Não sofreram com a separação, e a dor também acabou por ser enterrada com eles, homem, mulher e a dor da separação sepultados ao mesmo tempo. Uma bela forma de começar o novo ano. Viveram juntos, morrem praticamente juntos e vão dormir juntos para a eternidade. Onde foram enterrados? Disse-me o local. 
- Mas não deverão ter tido grande acompanhamento. Praticamente ninguém os conhecia.
- Não faz mal. Eu tenho alguma ideia deles quando era pequeno, mas vou registar este episódio, pode ter a certeza, nunca mais o esquecerei pela emoção que me despertou e por saber até onde pode ir o coração das pessoas que se amam. 
Almas desconhecidas que se libertaram da vida sem serem alvo de grandes atenções. 
Dedico-lhes esta descrição e lembrança. Sempre pode ser considerada com uma forma de oração ao nascer de um belo dia de sol com a morte a bocejar e sem querer fazer mal.

sábado, 27 de agosto de 2022

Lucille…

Uma tarde cinzenta convidando a memórias cinzentas. Tarde sem história. Rotina cinzenta. Tudo hoje me parece cinzento. Perdura o aroma matinal das minhas rosas cheias de cor. Felizmente que não há rosas cinzentas.
- Como se chama? 
- Lucília...
Sorri. Tinha o mesmo nome que a minha mulher. Exame banal, simples, senhora com saúde e simpática. No decurso do exame disse-lhe:
- Lucília é um nome pouco comum.
- Pois é. Respondeu. - Não conheço muitas.
Aproveitei a deixa.
- A minha mulher também se chama Lucília e a minha sogra também se chamava. Sorriu.
- É pouco comum, mesmo. 
- Hum! Então, não é boa pessoa. Aqui o sorriso deu lugar a uma curta gargalhada.
- Eu gosto do nome. Disse. Eu e o B. B. King. Conhece? Não lhe dei tempo para responder. Foi um grande músico. A sua guitarra chamava-se Lucille e fez uma música dedicado a ela. Expliquei-lhe a razão de ser do nome e como é que surgiu. Vi que estava a gostar da história. Fiz o que tinha ainda a fazer, dizendo-lhe ao mesmo tempo:
- Quando acabar a consulta vou-lhe mostrar. Foi o que eu fiz. Assim que ouviu os primeiros acordes disse:
- Ah! Mas eu já ouvi.
- Claro! Quem é que nunca ouviu?
- Mas eu não sabia que a guitarra se chamava Lucille. A guitarra e a música. Obrigado, senhor doutor. Hoje já aprendi alguma coisa. Saiu com um sorriso de agradecimento e polegar levantado.
A ideia é essa mesma. Aprender todos os dias um pouco.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Dignidade de um livro…

Passei parte do dia a trabalhar. Nos intervalos ataquei a leitura. Bebi-a como se fosse uma das minhas bebidas preferidas. Senti um agradável calor. Vivi os sentimentos de pessoas que também conheci. Terminei agora mesmo. O livro, muito velho, uma primeira edição, deixou cair nas mãos a última folha e a contracapa. Nunca tinha terminado um livro desta forma. A meu lado esquerdo o grosso do volume e na minha mão direita a delgada e ambicionada página. Aprendi tanto. A natureza humana seduz-me. Todos os dias surpreende-me, quer ao vivo, quer através da literatura dos nossos, maiores ou esquecidos, ou, então, no mundo da minha imaginação.
Fui buscar uma fita adesiva e restitui ao livro a alegria e a satisfação de um final que nem sempre acontece. A vida continua e sobrevive à morte e ao malfadado sofrimento. 
O livro sorriu e agradeceu o meu cuidado... 
A dignidade é isto mesmo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

“Pormenores da vida” …

Estou atento aos pormenores da vida. Aprendo com eles e acabo por compreender um pouco o que sou. Preciso de explicações, não das sofisticadas, que fazem as delícias dos filósofos ou dos teólogos, já que as dos cientistas são sempre mais humildes e sinceras, mas as dos acontecimentos diários em que os protagonistas são agentes e expressões da vida.

Uma conversa banal na esplanada de um café, um pedido inusitado na rua, uma atenção de respeito no cruzamento patético de entrada ou saída de uma rotunda, uma ajuda espontânea a uma pessoa aflita ou a descrição de experiências pessoais são alguns exemplos.

Sou cuidador, cada vez mais, situação difícil e complicada que é amenizada pelas reações de animais. O meu companheiro é rico e amoroso nas suas expressões. Hoje, tive de tomar conta de uma cadelita de uma filha. Já teve os seus problemas, graves, desde os maus-tratos quando nasceu, é portadora de cicatrizes, até de acidente com fratura e operação aos intestinos. Ajudei-a nessas ocasiões. Não temos convivido, porque raramente a vejo, mas o que é certo é que a cadelita se afeiçoou a mim como se fosse o seu dono desde sempre. Não sei explicar o seu apego. Mas não sei mesmo. Não me larga, pede-me para que a coloque ao meu colo, dorme com felicidade e até suspira, enfim, há coisas que não entendo. Ponho-me a pensar se terá algum sexto sentido ou algo que a leve a ter esta conduta, já que desconfia dos seres humanos e foge deles. Só sei que consegue transmitir algo quente, doce e cheio de paz. Um ser vivo a transmitir o que um humano nem sempre consegue ou conhece.

Esta reflexão foi despertada pelo cantarolar mais estranho que se possa imaginar. Uma muda, munida do carrinho de mão, e acompanhada pelo seu rafeiro, cantava toda feliz ao mesmo tempo que recolhia dos contentores aquilo que pode e lhe serve de sustento. Hoje vinha particularmente feliz. Cantava. Cantava. A muda cantava. Não sabe falar, mas sabe cantar e até avisar com gritos capazes de arrepiar qualquer um em caso de perigo ou se alguém precisa de socorro. Já faz parte da minha paisagem urbana. Tem um belo sorriso, transmite felicidade e está bem com a vida. Uma muda que canta e um animal desejoso de amar, apesar dos maus-tratos que sofreu, dão um significado à vida que os grandes pensadores são incapazes de transmitir…

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Uma extravagante forma de governar

Phineas Barnum, empresário norte-americano do século XIX na área do divertimento, tornou-se o primeiro milionário desse ramo de negócio, muito devido aos métodos originais e extravagantes que utilizava para atrair gente aos seus espectáculos.   

Desconhecido, as pessoas mal acorriam aos shows do primeiro salão que montou em N. York, até ao dia em que encontrou um mendigo à porta do teatro e teve a repentina inspiração de o contratar para um trabalho muito peculiar. Entregou-lhe uma sacola de tijolos e definiu-lhe os locais ao redor do quarteirão onde deveria ir deixando cada um deles. Quando ficasse com apenas um, voltava para trás, depositava esse tijolo no sítio do anterior, apanhando o que lá estava e assim sucessivamente, ficando sempre com um na mão e refazendo o trajecto até chegar ao salão onde deveria entrar. Aí, demorava um pouco e sairia por outra porta, retomando o circuito, o depósito e levantamento dos tijolos.

A cena, de tão repetida, intrigou os moradores, comerciantes e passantes no local que começaram a seguir o mendigo e a tentar saber o que por faria dentro do salão. Aí encontravam Barnum que lhes vendia um bilhete de ingresso. Conta-se que ao fim do primeiro dia largas centenas de pessoas tinham comprado uma entrada.  

Foi a forma criativa e excêntrica de publicitar os seus espectáculos que tornou Barnum o rei do show business.    

Olhando para o país, igualmente me parece que o actual 1º Ministro se tornou um rei, agora do show business político. É que, também ele, vai semeando tijolos, não já para publicitar os seus espectáculos, mas para desviar a atenção das deprimentes performances governamentais.

Se à porta do seu teatro se levantam manifestações perante o doloroso espectáculo das urgências hospitalares, logo planta dois coriscantes tijolos, um Plano de Emergência para o SNS e uma Comissão de Acompanhamento, fantasiando acção e trabalho, mas ironicamente sinal confesso de que não havia qualquer plano e o ministério nada acompanhava.

Nada se alterando, e subindo na rota da ficção, logo lhes junta mais dois vistosos tijolos para distracção pública, um vistoso aumento histórico das pensões (e com ele a ideia de benesse governamental e não de imposição legal devida a uma inflação como há 30 anos não havia), ou um repto aos empresários de aumento dos salários em 20% nos próximos 4 anos, não referindo se em termos reais ou nominais, importante foi a exibição de número tão redondo como virtual.

E se se levanta indignação perante a desobediência ministerial no caso do novo aeroporto, logo deixa mais um esplendoroso tijolo, a aprovação em Conselho de Ministros do Estatuto do SNS, garantia firme de resolução administrativa dos problemas estruturais da saúde, como se um regulamento alterasse o absurdo ideológico da Lei de Bases que visa servir.  

E se nas ruas adjacentes ao teatro se contesta os preços da electricidade, logo encandeia os contestatários com mais dois luminosos tijolos, a vitória no campeonato da descarbonização, forma de encobrir o resultado de uma fundamentalista política energética, e um plafond no preço do gás, mas ficando-se sem saber quem vão ser os últimos suportar o ónus, segredo bem guardado na ambiguidade da resolução.       

E quando o peso dos impostos nos salários atinge o incrível valor de 41,8% e os contribuintes suportam a maior carga fiscal da Europa, mais um cintilante tijolo vem atribuir o facto ao crescimento económico, como se a carga não medisse o peso de todas as componentes da fiscalidade no PIB.

E tão bem treinado e afoito na tarefa, não hesitou em mostrar peito e arremessar mais um tijolo, este bem grosseiro, aos países europeus que tanto nos têm apoiado, o da recusa da solidariedade nas restrições do gás.

Os tijolos de Barnum promoviam os seus espectáculos, os do governo apenas visam controlar as pateadas. Mas foi longe demais, que a arrogância, sobretudo do pedinte, tem um efeito de boomerang que sempre lhe é fatal. Mas certamente já serão outros a apanhar a pancada.

https://ionline.sapo.pt/artigo/778063/uma-forma-extravagante-de-governar?seccao=Opiniao_i

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

“Três de copas” …

 Os homens do mar têm comportamentos interessantes. São mais calmos, introspetivos, possuem olhos profundos, exprimem-se em curtas falas, exceto quando os convidamos a contar histórias, os quais são exímios, quer na forma quer no conteúdo, como se fossem elos de sagas remotas que, conhecedoras das suas fraquezas, se alimentam da sua cortesia para se manterem vivas. Os longos meses passados nas embarcações, trabalho duro, leva-os a adquirir este tipo de conduta, mas também revelam comportamentos nada saudáveis. Quando entram no consultório, logo pela manhã, muitos emitem um bom dia enevoado por uma rouquidão tabágica associada ao característico cheiro. Nem lhes pergunto se fumam, passo para as seguintes, há quanto tempo e quantos cigarros por dia. Outro aspeto muito comum são as tatuagens, de um modo geral são toscas, mal produzidas, com motivos vários, embora outros apresentem imagens bonitas. Presumo que deverão ser feitas nos curtos períodos de descanso entre o silêncio do mar e o ruído ensurdecedor das máquinas.  

Três marítimos, de chofre, o primeiro com a laringe enrugada, não pelo sol, mas pelo tabaco, apresentava um dragão na região do deltoide, um deltoide espesso, duro, a conferir ao animal imaginário uma força descomunal, à espera de um dia transformar-se num dragão decrépito. Nem foi preciso perguntar se era do Futebol Clube do Porto, porque por baixo do bicho lia-se bem, “FCP”. Sorri. Há indivíduos para tudo. Foi feita por um profissional, segundo me disse. Quanto ao tabaco, os conselhos que lhe dei para abandonar deverão ter o mesmo efeito do que pretender apagar a tatuagem com água e sabão. Outro, simpático, mais culto, ocupando um cargo superior, perguntou-me se estava tudo bem, se não havia problemas. Disse-lhe que sim. Olhou-me meio perplexo. - Mas o quê? O que é que se passa? – O senhor teve um enfarte há quatro anos e fuma, não é verdade? - É verdade, mas diga-me o que é que se passa! – O senhor teve um enfarte há quatro anos e fuma, não é verdade? Repeti. Sim! Via-se a impaciência a crescer, queria saber o que é que se passava. - É isso mesmo homem de Deus, o senhor fuma, e quem teve um enfarte não deve fumar. Incrédulo, ainda repetiu mais uma vez a pergunta não querendo acreditar que aquilo que eu considerava como grave era para ele uma coisa sem importância, mas, depois de algumas explicações, profusamente detalhadas, ficou convencido da importância do seu problema de saúde e agradeceu-me efusivamente. Nesse momento não consegui ver qual o grau de satisfação e o sorriso da sereia desenhada no seu peito, mas, pela forma como reagiu, adotando a posição de peito inchado, decerto que a sua imaginada amada também terá sorrido e ficado mais tranquila. O terceiro, o mais alto da escala hierárquica, revelou todas as interessantes caraterísticas deste tipo de pessoal. Culto, bom contador de histórias, calmo, como convém a quem tem de tomar decisões, e ainda por cima no mar, revelou-se um bom fornecedor de matéria-prima para quem gosta de conhecer a natureza humana. Não lhe vislumbrei, à primeira vista, nenhuma tatuagem, mas ao auscultá-lo fiquei surpreendido. No peitoral esquerdo também tinha uma! Afinal, este pessoal, mesmo os mais habilitados, também têm os mesmos comportamentos. Não resisti e perguntei-lhe o porquê do "três de copas". - São as minhas três mulheres. Olhei para ele e, atendendo a que era ainda novo, a filha mais nova tinha sete anos, pensei, como é que iria resolver o problema se tivesse ainda mais um amor. Não é que fosse difícil desenhar o "quatro de copas", mas o que é que iria fazer ao "três de copas"? Não lhe perguntei. 

 

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

"A Guerra do Roque"...

Li em tempos uma história interessante numa obra de John Steinbeck. O capítulo intitulava-se "A Grande Guerra do Roque". Acabei por saber que o "roque" é uma forma complicada do jogo de críquete, que para mim já é suficientemente esquisito. Steinbeck diz que este tipo de jogo desenvolve o carácter. Antecipei de imediato ironia que se veio a comprovar no final do capítulo. Tudo começou numa cidade com graves complicações. Quando foi fundada muitos velhos refugiaram-se ali, sem compreenderem do que é que fugiam. Tornou-se numa cidade "rabugenta" em que tudo corria mal. Foi então que um filantropo decidiu oferecer à cidade dois campos de "roque". Como qualquer desporto tem de haver adeptos, necessidade de competição, de luta, e atribuição de prémios para o vencedor. Os cidadãos tinham mais de setenta anos. Uns pertenciam aos Azuis e outros aos Verdes. A rivalidade começou a crescer de tal forma que deixaram de se falar e ser proibido casamentos entre Azuis e Verdes. Passou-se de imediato para a política, e na igreja os Azuis não se misturavam com os Verdes. Houve quem propusesse a criação de igrejas separadas. Tudo girava à volta da rivalidade clubística, que se transformou em rivalidade política e em segregação religiosa e, claro, com o tempo, os idosos chegaram a incendiar as casas de uns e de outros, a cometer atentados e a provocar mortes. O filantropo via tudo aquilo com muita tristeza. Um dia, encomendou um buldózer e mandou destruir os dois campos de "roque". Em seguida abandonou a cidade para sempre. Foi o que fez de melhor. Os Azuis e os Verdes, desde então, reúnem-se naquele dia e queimam uma esfinge do filantropo depois de o enforcar. Este comportamento fez-me lembrar a queima do Judas. Azuis e Verdes unem-se de forma a exteriorizar a sua violência e intolerância na figura e na lembrança de um filósofo que só queria o bem-estar dos seus concidadãos. Dizem os entendidos que a tal variante de críquete desenvolve o carácter. Pois! Nota-se. Há histórias que não sendo verdadeiras assentam como uma luva à realidade. Mesmo assim, prefiro, de longe, as figuras dos Judas que outrora queimavam na minha terra. Todos se uniam em torno da imagem, gostassem ou não da personagem, mas depressa esqueciam-se desta união. Voltavam aos copos, o que também era uma outra forma de união. Neste país, sem rei e sem roque, embora, aparentemente, nos queiram convencer do contrário, a radicalização começa a surgir com alguma veemência. Um problema dos diabos, ou melhor, um problema típico dos homens (neste conceito, gramaticalmente com tendência para o neutro, homens, estão também incluídas as mulheres) …

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Mondrongo

Gosto de navegar no tempo. Sou um marinheiro de mares da saudade. Adoro partilhar vivências, sentimentos, emoções e, sobretudo, saborear recordações. Navegar no tempo é esquecer as más memórias. Poderão dizer, mas não as esquecemos! Está bem, não faz mal, mas é sempre possível retocá-las com cores menos dolorosas, desenhando traços finos de saudade. Navegar no tempo é transformar a realidade do passado no encanto do mundo da fantasia. São momentos deliciosos quando conseguimos misturar tudo, imagens dinâmicas, coloridas e quentes, com desejos ardentes, sensações estranhas, cheiros deliciosos, emoções perdidas e vontades achadas. O tempo mistura tudo, sem respeito por ele próprio, criando novas realidades que só ele sabe. O tempo faz esquecer a realidade dos momentos do passado, confundindo-nos propositadamente para que a saudade tenha outro sabor e cheiro. O tempo consegue o impossível que é recriar situações temporais distintas como se tivessem ocorrido no mesmo momento. Vale a pena viver a fantasia da realidade, uma fonte de prazer a que não devemos fugir. 

- Então, ainda cá estamos?

- É por pouco tempo, senhor doutor. Deve ser a última vez que nos vimos.

- Ó homem não diga isso.

- Digo, digo, eu é que sei.

- Mas não está a dar a côdea, pois não? O miolo ainda funciona. Um sorriso alargado, com alguma baba a cair do canto da boca a testemunhar o ocorrido há cerca de trinta anos, fez-me recordar o passar do tempo.

- Afinal, envelhecemos juntos. Disse-lhe meio espantado.

- Pois é, mas ainda vai sentir saudades minhas. Vai ver que vai. E bate com o punho no peito, dando a entender a fragilidade crescente do corpo e da alma a querer libertar-se.

- Vá, deixe-se disso, vamos daí. Suba. Subiu com muita dificuldade.

- Estou um mondrongo.

- Qual quê! Vamos conversar um pouco. E assim foi, com alguma provocação à mistura, ou melhor, com muita, as lembranças iam-lhe saindo a uma velocidade razoável, tendo, por vezes, misturado momentos, prazeres e aventuras, algumas mesmo loucas, quase que diria irreais. Uma verdadeira caldeirada de sabores, experiências, vivências e sentimentos que rapidamente despertaram velhas emoções fazendo com que o tempo andasse num corrupio louco, saltando anos, não interessa quantos e nem como, o que interessa foi recordar o passado através de tempos diferentes que eram e são sempre seus, e alguns também meus. Uma alegria efusiva, acompanhada de sonoros risos, inundava-lhe a fácies conseguindo repuxar os beiços descaídos, num interessante rejuvenescer em que o futuro conseguia mergulhar no seu passado.

Uma delícia, um alívio, sentir a vontade louca de recordar o que aconteceu como se o presente necessitasse desse belo e estranho alimento. O tempo da conversa não passou, foi apenas saboreado como se tratasse de um delicado copo de vinho. Mais uma memória construída para ser recordada amanhã. Amanhã? Não, ainda hoje, enquanto é tempo. 

Não sou ainda um mondrongo, mas o meu amigo Pereira tinha razão, sim, tenho muitas saudades dele. Se tenho, meu Deus.

O Estado do Governo

Não é injusto dizer que o governo socialista tem pecado por acção e omissão, privilegiando uma política de um “dolce fare niente” que nem declarações espectaculares, promessa de aumento histórico das pensões, repto aos empresários para um aumento de 20% nos salários ou o aparatoso anúncio de recusar as restrições europeias do gás, indigna falta de solidariedade para países que mais nos têm apoiado, conseguem já disfarçar. Numa soberana indiferença, e quando esses países vão reabrindo as centrais a carvão, o governo português mantém as nossas encerradas, pressionando as importações, 1000 milhões de euros no primeiro semestre do ano, as mais elevadas de sempre. Oxalá o torpor governativo não leve a eventuais apagões no inverno, já que a importação de energia não ficará imune à pressão das necessidades dos países mais dependentes do gás russo. Um torpor tão enraizado que a primeira medida governamental de carácter estruturante, a localização do novo aeroporto, se despenhou logo no take-off, revertida em menos de 24 horas. Em doce sonolência, o Governo não mexeu uma palha quando há muito se anunciavam rupturas graves nas urgências hospitalares; instalada a crise, logo se apressou a anunciar oportunísticas medidas ad-hoc, planos de contingência, sinal de que não tinha nenhum, comissões de acompanhamento, sinal de que não acompanhava nada, abertura a negociações com o sector privado, contrariando a Lei de Bases de Saúde hostil a qualquer colaboração, ou novo Estatuto do SNS, como se um regulamento alterasse o absurdo da Lei que visa servir. O Governo criou o Banco Português de Fomento para promover a modernização das empresas, o apoio ao PRR e o desenvolvimento do país, mas só agora reparou que não encontrava Presidente com perfil adequado, à falta de um estatuto remuneratório similar ao dos bancos equiparáveis. Natural que o Banco não funcione em moldes aceitáveis, é a sua Comissão de Auditoria que o diz. E ao ritmo de cada protesto de degradação dos serviços públicos, aumenta as dotações, enquanto a produtividade baixa, sinal de um governo adormecido que dá dinheiro sem cuidar da gestão. Adormecido, e porventura já sonhando com o anúncio do ensaio da semana de 4 dias, girândola de fogo de vista tão de agrado nas festas de verão. Também lhe chamam fogo de lágrimas… https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/o-estado-do-governo--15059987.html

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Manhã de agosto…

Manhã de agosto. Há muito que não saboreava o prazer de não fazer nada. Sensação estranha e ao mesmo tempo voluptuosa. Alterei as rotinas e acabei por ir até à esplanada de um café de bairro. Café bom, sombra, vida simples, uma ou outra pessoa a entrar e a sair. Um senhor sentado, com um frenesim sem sentido, raspava um boletim à procura da sorte. Suspirou fundo, tinha acabado de ganhar cem euros. Entregou o papelucho. Em seguida, o dono do café enfiou-lhe nas mãos cinco notas de vinte euros. Colocou-as com muito cuidado na carteira, ao mesmo tempo que dizia, “Vou para casa, a sorte do meu dia acabou aqui”. Esfregou o punho direito, o que é perfeitamente natural neste tipo de jogadores, e foi à vida. Fiquei mais um pouco, com o meu cão, a pensar na sorte de poder ter um dia diferente, sem fazer nada de especial. 

Vou dar um passeio após o almoço  com os meus companheiros para saborear o prazer e a alegria do sol, beber a frescura da margem de um rio, inalar a brisa de uma paz desejada e embriagar-me com o aroma da vida espraiando-se sem esforço graças ao “punho do destino”...

 

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Uma memória...

Li várias obras de Tomás da Fonseca. Recordo ter lido “Na Cova dos Leões - Fátima e Cartas ao Cardeal Cerejeira”. Foi há muitos anos. O meu pai viu o livro e pediu-me para o ler. Chegou a conhecê-lo pessoalmente. Tomás da Fonseca era uma conhecida personalidade antirregime salazarista. A partir daqui contou-me mais uma história. A sua memória era fabulosa, nunca se esquecia de nada, a ponto de a “utilizar” quando tinha necessidade de recordar algum nome ou acontecimento. O meu avô tinha convivido com tão importante figura republicana. Depois foi um salto para contar um episódio que sabia ter ocorrido, embora sem detalhes, porque ninguém na família queria falar sobre ele. Um dia, o meu avô, que tinha um café, foi detido durante mais de setenta e duas horas pela polícia política por causa de um exemplar do jornal Avante que tinha sido retirado de um lote de vinte e cinco deixado no seu estabelecimento. Temeroso das consequências apressou-se a destruir o lote lançando-o no fogo. Quem tirou o exemplar acabou por ser interrogado pela polícia por causa de um acontecimento relacionado com a ida de Salazar à missa na igreja de Santa Comba. À saída vociferou em voz alta, “Alguém sabe quem foi o maior ladrão que Portugal já teve?”. É fácil de ver que quem andava perto (e andavam muitos) acabaram por fazer uma visita à casa do tal senhor. Perguntaram-lhe o que é que ele queria dizer com a tal frase. Quem era o ladrão? - Então não sabem quem foi? Foi o João Brandão. Disse com ironia, como é óbvio. Entretanto, na busca, encontraram o tal exemplar do Avante. Obrigaram-no a dizer onde tinha adquirido. Aqui já não foi irónico, respondeu de imediato. - No café do Manel Cardoso. A seguir apanharam o meu avô e levaram-no, sujeitando-o a torturas durante setenta e duas horas, sempre em pé. O mais curioso é que o chefe da brigada era seu conhecido a quem tinha dado de comer, e à família, na Pampilhosa. Perguntou-lhe se não era o Carvalho. Como seria de esperar não lhe respondeu e de arma em punho foi interrogado. Como encontraram o jornal República, de que era assinante, o massacre continuou. A sua situação em termos profissionais foi por água abaixo. Graças à relação de amizade com o então ministro do interior, natural de Santa Comba, conseguiu evitar males maiores. Acabei por conhecer esta história sobre o meu avô devido à jocosidade de um cidadão que não se coibiu de o denunciar, sabendo que não tinha culpa nenhuma, à primeira investida da polícia política.

Gostava tanto que tivesse sido o meu avô a contar esta história, e logo ele que era um contador exímio. Sei que foi um episódio que o marcou muito. Nunca contou, mas eu conto.

domingo, 31 de julho de 2022

A serpente verde…

Tarde de verão. O sol abrasava a terra. As águas dos rios e lagos não conseguiam dormir. Os animais da terra e do ar escondiam-se à sombra do verde das árvores e da vegetação e até os peixes procuravam as profundezas para não sentirem o calor que ondulava à superfície. Era um momento estranho, em que o silêncio dominava o mundo iluminado e aquecido pelo sol. Nesse momento uma cobra, magra, esguia e muito comprida, de cor de esmeralda, começou a serpentear em campo aberto ciente de que a sua liberdade não estaria em perigo. Sempre soube que era desprezada e odiada por todos. Evitava qualquer tipo de contacto. Tinha emergido da sua caverna onde a escuridão era compensada pela sabedoria e segredos únicos que só ela dominava, mas precisava também de sentir o calor daquele astro mais estranho do que o silêncio e mais confuso do que a negritude da sua caverna. Eis que uma águia a viu. Em voo picado aproximou-se dela. Assustada, empertigou-se, e tentou defender-se. Mas a sua cor verde fez confusão à ave que vê todo o mundo do alto dos céus. Perguntou-lhe porque é que tinha aquela cor. A serpente respondeu-lhe que era a cor da terra onde tinha nascido. O céu debaixo da terra é verde. A águia não acreditou. Só havia um céu, que era o dela, azul mesmo nos dias em se vestia de nuvens. Ela sabia o que dizia porque era a rainha e senhora dos céus do mundo. A cobra, sempre em posição de defesa, explicou-lhe que há outros mundos, desconhecidos de reis e rainhas, sejam da terra, dos mares ou dos ares. São mundos desconhecidos e ricos, sem os quais não haveria ar, terra, céu, mar, florestas e até a própria vida. Ela pertencia a esse estranho mundo. De quando em vez saía da sua casa para poder ver o azul e calor do céu e tentar dizer que o que não se vê é muito importante. Chegou a dizer à águia que não conseguia ver tão bem como ela, porque não tinha os seus olhos, mas conseguia sentir mais do que qualquer outro animal. O que sabia e sentia nunca poderá ser conhecido pelos outros animais. A águia bem tentou que lhe explicasse como era o seu mundo e que segredos encerrava. - Para isso terias de voar até lá, mas nunca conseguirás, nem tu e nem os animais que voam ou nadam. Apenas alguns animais terrestres conseguem ir até à porta desse mundo, mas nós, as serpentes, conseguimos conhecer o que mais ninguém consegue. Somos donas de conhecimentos únicos, profundos. - Diz-me uma coisa, serpente verde. Porque é que as pessoas têm medo de vocês, fogem e querem matar-vos sempre que vos veem? Porque são consideradas como seres malditos? - Simples. Porque representamos o que as pessoas são, o que pensam, o que desejam e tudo o que de mais estranho a vida tem. Somos a imagem real dos medos dos outros seres vivos. Mas a minha cor verde é apenas para dizer que há um mundo desconhecido em que a esperança existe, mas que nunca será conhecido por mais ninguém. — Nem por Deus? Perguntou a águia. A serpente calou-se. Deitou-se e, lentamente, começou a serpentear aproveitando o momento de espera da águia desejosa de ouvir a reposta enquanto olhava para o belo céu azul. Subitamente, o céu mudou de cor. Foi então que a águia deu conta que a serpente tinha entrado numa profunda caverna, deixando no local uma bela esmeralda que brilhava intensamente, iluminando o mundo em redor de uma estranha e bela cor verde. A águia ficou confusa. A partir daí nunca mais se aproximou de nada que fosse verde.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

"Consciência é igual a trabalho" ...

Não sei o que pensar. Fazer, sei. Cumprir uma banal e ofensiva rotina. Ofensiva? Sim, porque se respeito o trabalho dos outros também quero que respeitem o meu. O pior é que este país joga o “faz de conta”. Eu “jogo” sempre a sério, mesmo com sacrifício. Respeito o trabalho, porque é a sublime expressão da dignidade humana. De todas as características humanas assinalo o trabalho como a mais sublime de todas.   

Um dia, há muitos anos, numa conferência, alguém fez uma pergunta divinal, “Quando é que o homem começou a trabalhar?”. Confesso que não estava à espera. Normalmente tenho quase sempre resposta para tudo. Não sou um ser inibido ou inibidor. Adoro os espaços coletivos, onde a palavra atinge a sua expressão mais elevada. E as perguntas? Adoro que me façam perguntas. Fiquei em silêncio durante algum tempo e fui sincero. “Olhe, não sei responder neste momento, mas vou pensar no assunto. Se encontrar uma resposta, a minha, naturalmente, terei muito gosto em lhe dizer”. E assim foi. A pergunta nunca mais me largou. Passou a ser uma espécie de sombra da minha alma. Atento a tudo o que lia ou pensava, queria satisfazer a angústia despertada por aquela pergunta, tanto mais devido às minhas responsabilidades em matéria de saúde ocupacional.  

Um dia, ao ler mais uma obra de Carl Sagan, presumo que deve ter sido os “Dragões do Éden”, este notável pensador e cientista fez uma interpretação, que considero uma das mais brilhantes, ao dizer que a expulsão de Adão e de Eva do paraíso foi o momento da tomada de consciência da nossa espécie. Pensei, se esse momento é o nascimento da nossa consciência, então, viver através do suor do rosto e da dor é o sinal inequívoco do começo do trabalho, logo, consciência é igual a trabalho. Se a consciência é o momento do nascimento da nossa espécie, trabalho passou a ser a nossa verdadeira e “divina” identidade. Por esta razão, considero o trabalho, seja ele qual for, como a expressão máxima do respeito e dignidade humana. 

Gostava tanto de encontrar o autor daquela pergunta e dizer-lhe qual foi o momento “em que o trabalho nasceu”; para mim foi no preciso momento em que tivemos consciência da nossa existência, quando fomos expulsos do paraíso…

Quatro anos depois…

 Faz hoje quatro anos que publiquei o meu último post no blog Quarta República, “Morte e anjos”, uma reflexão das minhas vivências com o denominador comum de qualquer espécie.

Tenho imensas saudades de escrever neste espaço e das amizades entretanto criadas. 

Não sou dado a grandes reflexões políticas, mas sou atraído pelas de natureza social, cultural, técnica, científica e, sobretudo, pelas histórias da vida que vou colecionando e fazendo parte de muitas delas.

Tantas saudades. Parte da minha vida andou por aqui, e ainda bem, porque aprendi, sonhei e escrevi…

segunda-feira, 29 de março de 2021

Embalados nas núvens

Estrepsíades, um ateniense abastado, proprietário de vinhas, rebanhos, colmeias e olivais, descurara a gestão da sua fortuna e estava crivado de dívidas. Atormentado com o assédio dos prestamistas, e perante a recusa das feiticeiras da Tessália, temerosas de castigo dos deuses, em alterarem as fases da lua que regulavam as datas dos pagamentos, recorreu aos serviços de uma escola de filósofos sofistas que, mediante pagamento, exerciam a arte da retórica como forma de vencer litígios ou ludibriar os credores. Assim principia Aristófanes a sua comédia, As Núvens. Para os sofistas era retórica que determinava a verdade e esta era a que melhor se prestava a ser manipulada, explorando ao limite a sua qualificação como “justa” ou “injusta” e manobrando artificiosamente os conceitos para tornar vencedoras as causas que defendiam. Esquecendo por momentos a sorte de Estrepsíades, e saltando 2500 anos, também por cá verdade e justiça são cada vez mais determinadas pelos sofistas que enxameiam os ministérios da nação. Injusta era a oposição ideológica do Governo em negociar com os privados o apoio contra o Covid, o que provocou considerável número de vítimas por falta de cuidados médicos; mas quando o avolumar da pandemia impôs a aceitação da oferta estrangeira, só entendível se esgotada a capacidade nacional, logo tal resistência se tornou num “justo processo de negociação que nunca trouxe qualquer problema”. Excepto, claro, para quem faleceu sem assistência, mas logo “justos” e convenientes estudos vão normalizando causas e número de falecimentos. “Injusto” foi o desconfinamento no Natal e Ano Novo; todavia, conhecidas as consequências, logo a verdade sofista tornou “justa” a decisão, culpando os cidadãos, suprema ironia, por terem desconfinado, e inocentando o governo cuja decisão radicou numa justa ignorância da perigosidade das novas estirpes covídicas, mesmo que toda a Europa já as conhecesse, uma “injustiça” que só calhou a Portugal. Também na falta de vacinas contra a gripe comum, a verdade sofista ilibou o governo por falhar o aprovisionamento, responsabilizando quem logrou vacinar-se pela “injustiça” sofrida por quem não o conseguiu. Já nos incêndios florestais de 2017 e 2018 que mostraram a “injustiça” de uma parte do país sem Estado que o protegesse, também os cidadãos foram os culpados. Os cidadãos que não limparam as matas, o SIRESP, a trovoada seca, o downburst, tudo serviu para a “verdade” sofista inocentar o falhanço governamental. Antes e agora, é a “justa causa” da neutralidade carbónica que esconde uma “injusta” política energética geradora dos custos mais elevados da Europa e esquece consequências económicas e sociais e milhares de desempregados, de Sines a Matosinhos. Como também os tão proclamados “justos” apoios à perda de rendimentos devida ao Covid, se transformaram na “injustiça” de não chegarem aos destinatários, bem confirmada nas quebras das execuções orçamentais. Foi graças à retórica sofista que Estrepsíades se livrou dos seus credores, por “injustos” serem os empréstimos que estimularem a sua má gestão. Mas também logo dela foi vítima quando o perdulário Fidípides, seu filho, considerou “justo” espancar o pai para obter parte da herança, pois “injusto” seria não a gozar de imediato. E de “justiça” em injustiça, foi em nome da “justiça” que, desesperado, Estrepsíades incendiou a escola sofista que lhe restituíra a fortuna. Para Aristófanes era nas núvens que se geravam as grandes trovoadas e tempestades, daí o nome da peça, grandiosa metáfora das consequências trágicas dos procedimentos astuciosos, inversores dos valores e da verdade. Coincidentemente, ainda Aristófanes vivia e Atenas perdia a guerra com Esparta. É que, lá como cá, sempre que tais condutas se expandem e o povo as consente, da comédia inicial podem resultar em tragédia. (meu artigo no i- edição de 5 Março de 2021) https://ionline.sapo.pt/artigo/726993/e-assim-vamos-embalados-nas-nuvens-?seccao=Opini%C3%A3o_i