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sexta-feira, 19 de agosto de 2005
“Cigarreira de ouro cravejada de jóias”
Nos anos setenta, um famoso pediatra britânico, conhecido pela sua erudição e muito respeitado, quer pelos doentes quer pelos colegas (chegou a exercer funções ao mais alto nível, inclusive, como pediatra da corte), foi convidado para se deslocar a um determinado hospital a fim de participar como elemento do júri de exame de médicos. O local e as instalações onde iria permanecer eram particularmente convidativos. Na mesma altura, um segundo examinador, igualmente bastante prestigiado, foi também convidado para participar nas provas.
O local paradisíaco e o hotel reconhecido pelas características luxuosas auguravam uma óptima estadia, não obstante o trabalho. Na véspera do exame final uma alta e muito distinta personalidade visitou o pediatra revelando, através de uma conversa muito complicada, que o seu querido sobrinho iria fazer exame no dia seguinte. Aproveitou a oportunidade para testemunhar o seu elevado apreço e estima por estar presente perante uma grande sumidade e, no seguimento, quis presenteá-lo como uma cigarreira de ouro cravejada de pedras preciosas, uma verdadeira jóia. O pediatra, homem de valores e de uma ética irrepreensível recusou a oferta. No dia seguinte, sentiu forte ansiedade na expectativa de poder encontrar o “sobrinho” e, eventualmente, o prejudicar – involuntariamente – na sequência do episódio da tentativa da oferta da cigarreira. Ficou satisfeito quando se apercebeu que não iria examinar o candidato.
No regresso de avião, refastelado na primeira classe, repisava mentalmente o episódio sentindo-se tranquilo por não ter feito o exame ao candidato, porque temia não ter sido capaz de imparcialidade. Durante estas lucubrações o colega que o acompanhava perguntou-lhe de supetão: - Philip, eu não me lembro, mas fuma? Enquanto fazia a pergunta retirava do bolso uma soberba cigarreira de ouro cravejada de pedras preciosas…
Hoje, não seria possível ter acesso a esta história, não só porque os médicos britânicos deixaram de fumar – numa elevadíssima percentagem – como também não é permitido fumar nos aviões.
Bom, entretanto o ouro e as pedras preciosas deverão continuar a ornamentar outros artefactos…
O que diriam?
miragem s(o)ariana
Suponhamos, numa hipótese a raiar o absurdo, que Cavaco Silva tinha erigido, como o grande objectivo revelado da sua candidatura, o combate com Mário Soares.E que, na sequência, tinha sido Cavaco Silva a dizer: ”…Havia a ideia de que a candidatura de Mário Soares ia ser um passeio na Avenida da Liberdade, um plebiscito. Isso é mau para a democracia…”.
Se tal tivesse acontecido, qual não seria a gritaria dos comentadores, jornalistas e todo o pessoal bem pensante, intelectuais “self made” e quejandos a denunciar o vazio de ideias e de projecto do potencial candidato?
O que diriam, pergunto eu?
Teixeira dos Santos: the dog is watching you
[Actualização] Como seria de esperar, o tema foi apanhado aqui. O mesmo já não aconteceu com a notícia da primeira página de O Independente. Neste caso o silêncio é de ouro.
O drama das aldeias serranas
A cada Verão de chamas e incêndios reaparecem as imagens de aldeias e minúsculos povoados cercados pela ameaça de se verem reduzidos a cinzas. As populações ora se resignam ora resistem irresponsavelmente ao avanço das chamas. São na sua maioria idosos, alguns já incapacitados para o amanho regular da pequena leira de terra que lhes forneceu durante vidas o parco alimento que os faz subsistir numa miséria prolongada. Outros defendem, até à última gota de água, a casa que construíram a custo de uma poupança amealhada por terras de França ou do Luxemburgo. Escolheram o terreno herdado dos pais, muitas vezes no meio da floresta desordenada, longe de uma fiscalização mais apertada ou bem perto do silêncio complacente de fiscais e autarcas.
Esquecem-se todos e muitos de nós também que há décadas que estes povoados vêm sendo pasto de um outro incêndio sem chamas que lhes levam as almas para bem longe. A hemorragia demográfica rouba-lhes as novas gerações que aspiram a melhores condições de vida, esvazia-lhes a escola das crianças, quando não mesmo o cura da pequena capela plantada no adro cimeiro. Tudo se transforma em menos, salvo a floresta e o mato que avança em redor da aldeia, por baldios e leiras abandonadas.
Este é o verdadeiro drama das aldeias serranas e de tantas outras que polvilham o território. São o testemunho de um Portugal esquecido que apenas emerge para a opinião pública, quando a desgraça das chamas e as cinzas da sua passagem se revelam para que as câmaras de televisão registem o espectáculo indecoroso da incúria e da resignação.
quinta-feira, 18 de agosto de 2005
KORO
Quase todos os povos apresentam um ou outro tipo de problemas que se encaixam perfeitamente num vasto grupo de doenças ou sindromas ligados à cultura. De um modo geral os povos orientais são mais propensos.
Além do Hikikomori, uma outra síndroma diz respeito à morte por excesso de trabalho designado por Karoshi. O primeiro caso foi descrito em 1969 num jovem de 29 anos trabalhador de um importante jornal. Nos finais dos anos oitenta, com o avolumar de casos em jovens quadros superiores das empresas que morriam subitamente, sem qualquer história prévia de doença, acabou por ser considerada como morte súbita ocupacional. Claro que tudo isto acontece no Japão e não é por acaso.
Outra síndroma curiosa tem a designação de Koro (“cabeça de tartaruga” em malaio e que é muito apropriada!). É um fenómeno de massas, qual verdadeira histeria, e que leva os atingidos a entrarem em pânico com medo de que o pénis encolha e desapareça dentro do corpo provocando a morte. Os chineses são mais atreitos e a explicação tem a ver com feitiçaria ou a crença de que determinados actos sexuais tais como relações com prostitutas ou masturbação possam perturbar o equilíbrio yin/yang. Consequência: redução do pénis e o seu desaparecimento no interior do corpo. Volta e não volta manifesta-se sob a forma epidémica.
Recordo-me de um jovem que, desde cedo, revelava ansiedade nas mais diversas situações. Um dia, já adulto, solicitou-me que o ajudasse porque o meato urinário estava a ficar cada vez mais largo. Estava com medo de que o pénis se rasgasse ao meio e, então, o que seria dele! Claro que o meato urinário era perfeitamente normal. Mas ele dizia que não. Chegou a afirmar: - Então o senhor doutor não está ver que está muito largo? Não vê! Olhe que está. Perguntei-lhe quando é que tudo isto começou. - Foi já há alguns meses. Tive relações com uma rapariga e ela deu-me uma bebida para me fazer feitiço. Desde então o buraquinho está a alargar-se cada vez mais. Estou com medo senhor doutor. Lá tentei controlá-lo o melhor possível e prescrevi uma medicação sintomática adequada ao caso.
Passados uns tempos, apareceu-me, desta vez, para eu lhe dar uma purga. – Uma purga? Para quê? Respondeu-me: - Para quê? Ora essa! Para deitar fora o mal que me fizeram. Então o senhor doutor não se recorda de eu lhe ter dito que uma rapariga deu-me uma mistela para fazer mal? Lá tentei explicar que isso não era provável. – Não é? Ai isso é que é! Pois olhe eu fui a uma das tais mulheres, compreende senhor doutor? – A uma bruxa? – Sim… e ela disse que tinham-me dado uma mistela e só posso livrar-me desse mal com uma purga. - Ah! – E, sabe senhor doutor, ela deu-me estas sementes para eu fazer um chá – e vai daí abre um lenço com umas coisas esquisitas brancas que não consegui identificar – só que eu não consigo beber isto. Fico com uns saibros de boca, que o senhor nem imagina. - Não imagino não! – Como eu não consigo tomar isto, o senhor doutor tem que dar qualquer coisa para me purgar! Foi tal a insistência e o desespero do homem que acabei por ter de lhe prescrever uns laxantes a fim de o purgar. Era novo e bastante forte, pelo que não lhe deverá ter feito muito mal.
Penso ter sido a primeira vez que fui utilizado como alternativa ao sistema nacional da bruxaria…
Precipitações
Ouvi também a notícia bombástica da "corrida às aposentações" por parte dos funcionários públicos, antes que o Governo ponha em prática a tão anunciada mudança no regime. Supunha eu que isto estivesse previsto. Mais, pensei que fosse desejado, tal o ênfase ameaçador com que as eventuais medidas foram divulgadas.
Enganei-me. O Governo, em pânico, apressou-se a mandar uma cartinha aos serviços para acalmar os ânimos, dizendo que não há motivo para precipitações porque o assunto ainda está a ser negociado com os sindicatos...!
Depois da revoada de medidas que deixaram exausto o ex-ministro das Finanças só de as anunciar, temos o rescaldo - vamos com calma, não levem isto muito a sério, é para conversarmos, logo se vê.
Mas cada um usa as armas que tem...
quarta-feira, 17 de agosto de 2005
O desígnio de Soares
Segundo percebi do que foi publicado sobre o desígnio do candidato Mário Soares expressos no programa Sociedade Aberta da SIC, ele resume-se a um combate político com Cavaco Silva.
“Vai ser um combate político interessante…”, referiu Soares.
E mais disse:”Havia a ideia de que a candidatura do Prof. Cavaco Silva ia ser um passeio na Avenida da Liberdade, um plebiscito. Isso é mau para a democracia…”.
Julgo que Soares foi corajoso e lúcido.
Corajoso, porque pretende dar luta a Cavaco; lúcido, porque apenas esse é o seu desígnio anunciado e não o de ser Presidente!...
“Discrepância paterna”
A desconfiança quanto à certeza da paternidade é muito antiga e tem a sua explicação em termos evolutivos. O investimento na descendência exige um grande esforço e dispêndio de energia, pelo que o pai necessita ter a certeza de que o filho é mesmo seu.
Esta breve observação resulta da publicação de um estudo efectuado na Grã-Bretanha em que os autores concluíram a existência de “discrepância paterna” na ordem dos 3,7%. Ou seja, um em cada 25 pais britânicos está a criar um filho que não é seu. Outros estudos já efectuados permitem concluir que a taxa de “discrepância paterna” pode variar entre 1 a 30% de acordo com as culturas e povos deste planeta.
Hoje, com as novas tecnologias, é possível avaliar com elevada precisão o grau de parentesco graças aos estudos do ADN.
A possibilidade de criação de registos de ADN para fins criminais, doenças hereditárias, base de dados que permitam a identificação de vítimas em caso de acidentes e de catástrofes e dadores de tecidos podem provocar alguns “incidentes”, não obstante todas as “garantias” dadas nesse sentido. Além de mais, através de sites na Internet podem ser enviadas amostras que permitem provar se um filho é ou não seu.
O risco de paranóia sobre a incerteza da paternidade pode ser facilmente despoletada provocando situações delicadas.
A este propósito ou despropósito, recordo-me de uma situação ocorrida há alguns anos, quando uma senhora, acompanhada da sua irmã me apareceu com todos os sintomas de uma depressão. Como tinha acabado de dar à luz pensei que poderia tratar-se de uma depressão pós parto. E, comecei a explicar à senhora que estas coisas ocorrem com uma certa frequência. De imediato, respondeu que os seus problemas não tinham a ver com o parto, até, porque já tivera outros filhos, mas sim devido ao filho. A resposta pôs-me confuso. Mas não deu tempo para permanecer neste estado, porque adiantou de seguida: - Oh senhor doutor, eu não sei se o bebé é filho do meu marido! – Como? – É verdade, não sei se o meu homem é ou não o pai. Explicou-me, então, que o marido era uma boa pessoa, mas às vezes ficava bruto e dava-lhe cabo do juízo. Há uns meses atrás, na sequência de uma grave discussão acabou por se envolver com uma pessoa conhecida que lhe tinha dado boleia. – Sabe, fomos para aquela zona da estrada velha que já não tem uso. – O senhor conhece, não conhece? – Claro que conheço! Passei por esses lados durante muitos anos. – Oh senhor doutor, não sei o que me deu. Foi só essa vez! Agora tremo toda de medo se o miúdo vier a ser parecido com ele e o meu homem descobrir que não é o pai. – Mas olhe, minha senhora, muito provavelmente o pai da criança é o seu marido. Vai ver que o miúdo vai parecer-se consigo. Já viu que na sua família quase todos se parecem uns com os outros? E, se não apresentar quaisquer semelhanças nem consigo, nem com o seu marido, lembre-se do velho ditado que diz que, quando um filho não é parecido nem com o pai, nem com a mãe, então dizemos, “é parecido com o padre da freguesia”. Riu-se.
Passados alguns anos vejo-a acompanhado do filho. – Viva! O seu catraio está crescido. É mesmo parecido consigo! – É verdade, senhor doutor, é muito parecido comigo. Riu-se e foi à sua vida acompanhada do gaiato meio endiabrado. E, enquanto via a afastar-se, ri-me ao mesmo tempo que recordava o velho ditado: “Filhos das minhas filhas, meus netos são. Filhos dos meus filhos serão ou não”…
Mais uma a arder

Mais um acervo biológico desaparecido, depois da Arrábida, São Mamede, Serra da Estrela, Montesinho, Serras d´Aire e Candeeiros...
Será que este ano algum parque ou reserva escapará incólume?
Gostaria de conhecer a capacidade de regeneração de habitats e espécies existentes nas áreas protegidas devastadas pelos incêndios deste e dos anos transactos.
Haverá espécies-relíquia definitivamente desaparecidas?
Existindo capacidades regenerativa dos ecossistemas, quantos anos levará a recuperação dos habitats, designadamente dos habitats prioritários que ali existiam?
A regeneração far-se-à por processo natural ou obriga à "ajuda" e intervenção do Homem?
São respostas urgentes que se pedem ao Instituto da Conservação da Natureza.
Em primeiro lugar para, perante elas, realinhar as políticas de conservação e de protecção da biodiversidade.
Mas também para que seja o Executivo confrontado com a necessidade de criação de mecanismos especialmente aplicáveis a estes espaços na prevenção e combate aos incêndios florestais, dada a importância de primeira grandeza que lhes é, pelo menos no papel, oficialmente reconhecida.
As Palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade
terça-feira, 16 de agosto de 2005
Watchdog: the dog is watching you
Entre anúncios precipitados de recessão e declarações entusiásticas de voluntarismo, há quem deseje assumir na blogosfera o papel de “watchdog” (post 994) da política portuguesa e chegue a anunciar o “sexto poder”, o da blogosfera, afirmando-se por entre a incapacidade dos primeiros cinco em regenerar a vida política portuguesa. A ideia de escrutínio sistemático do poder lançada por Pacheco Pereira, no decurso da “micro-causa” do acesso aos estudos da Ota e do TGV, parece assim reconfigurar-se em direcção a uma profusão de “mini-brothers” sedentos de denúncia e imaginando-se como guardiães de uma moral pública em acelerada degradação.
Felizmente que a blogosfera é um espaço de expressão da liberdade de opinião e se em alguma coisa ela revela potencialidades é na expressão de uma responsabilidade cívica de participação, de discussão de ideias e de escrutínio do exercício do poder. Qualquer destas perspectivas cai no âmbito do que é comum designar-se de exercício da cidadania. Estas foram as preocupações que orientaram a abertura de muitos blogs, nomeadamente os de carácter mais político, como é o caso do Quarta República.
Diferente é a perspectiva dos “watchdog”, nomeadamente quando alguns desses guardiães se manifestam sob a capa do anonimato, permitindo-lhes vasculhar, acusar, lançar suspeições, escrever as maiores barbaridades, sem que daí decorra o normal e saudável exercício da responsabilidade cívica e em alguns casos criminal. Esquecem-se os novos guardiães que os “watchdog” originais são sujeitos a uma ética e deontologia profissionais que a serem escrupulosamente respeitadas evitariam que mais de metade do que se tem escrito nos nossos jornais sobre abusos e desvios de poder fosse pura e simplesmente lançado no caixote do lixo.
A blogosfera é também, infelizmente, um extenso rol de casos de propagação de boatos, de lançamento de graves suspeições e de acusações muitas delas infundadas. Nela encontramos as expressões dos sentimentos mais mesquinhos, da ignorância militante e arrogante dos que se julgam tão conhecedores de tudo e mais alguma coisa.
Não creio que o Quarta República queira caminhar por aí.
segunda-feira, 15 de agosto de 2005
Dimensões
Reflito nalguns comentários e análises que fui escutando neste prolongado fim-de-semana. A propósito da situação do País pouca preocupação continua a existir no debate sério que ajude a encontrar caminhos. Mais uma vez se falou do comportamento do senhor A. ou da personalidade de B e das suas relações com C.
Vem-me à memória uma frase batida - como cantava Sérgio Godinho -, recolhida já não sei bem onde:
As grandes mentes discutem ideias. As inteligências médias preocupam-se com factos. As cabeças mesquinhas discutem pessoas.
Contrastes
Festas na aldeia, bailaricos, febras na brasa, aldeias despovoadas, descapotáveis, procissões, incêndios, crise, piscinas à maneira de Hollywood. ..País de contrastes, este nosso Portugal.
domingo, 14 de agosto de 2005
“Quimeras”
A medicina é uma das áreas mais deslumbrantes. Todos os dias surgem novas descobertas, algumas das quais são mesmo perturbantes.
A história de Jane ilustra bem estas afirmações. Aos 52 anos na sequência de grave doença renal, necessitava de uma transplantação. Foram efectuados exames de compatibilidade nos familiares mais próximos, já que a probabilidade é mais elevada. No entanto, os resultados dos exames acabaram por provocar mais inquietude ao seu problema. Tiveram de lhe comunicar que dos seus três filhos só um é que era efectivamente seu? Ah! Mas eram todos filhos do marido! A hipótese de troca não era plausível, já que trocar duas vezes e com o mesmo pai é praticamente impossível.
Durante cerca de dois anos foi debatido este assunto, até que os cientistas acabaram por concluír (após muitas discussões) que Jane era a fusão de dois embriões durante a gestação. Afinal, estavam perante uma quimera.
Parece que a situação não é tão rara como isso, e, com as novas técnicas de fertilização e de combate à esterilidade é de prever que comece a ocorrer com mais frequência.
Paralelamente, as evidências científicas apontam para uma frequência elevada de “microquimerismo”, ou seja troca de células entre a mãe e os filhos. Durante a gestação ocorre a passagem de células da mãe para o feto e vice-versa, as quais persistem durante décadas nos seus organismos. Deste modo, é possível que a mãe possua células dos seus diferentes filhos, as quais podem ser transmitidas aos mesmos, além das suas. Assim, um indivíduo pode possuir além das suas células, células da sua mãe, e até dos seus irmãos!
Qual o papel desta troca e perpetuação aos descendentes e ascendentes? Não se sabe bem. Mas, é possível que, entre outros, possam ter um papel reparador!
No caso da procriação utilizando as chamadas barrigas de aluguer, sabemos que pode haver a criação de laços de afecto emocional na mulher que se disponibilizou para “gerar” o embrião de um casal. E, se este facto por si é preocupante “justificando” inclusive o não cumprimento do acordo, muitas vezes de carácter comercial, então o que dizer se for provado que o novo ser transporta células das sua mãe de aluguer, as quais se podem transmitir a uma futura descendência?
Tudo aponta para que o “quimerismo” seja de facto frequente e talvez tenha alguma finalidade biológica. Se as “mães” de aluguer descobrirem que partilham células do seu hóspede e este da sua hospedeira, então, estão lançadas mais umas achas para agravar a confusão sobre a “propriedade” do fruto do ventre…
sábado, 13 de agosto de 2005
Haja decoro!
Começa assim o artigo de opinião de Sérgio Figueiredo no Jornal de Negócios.
Vale a pena lê-lo todo.
Na Lua Vermelha
Já não conseguimos olhar a beleza das coisas sem pensar neste pesadelo que não tem fim, áreas e áreas ardidas, pelos vistos as supostamente protegidas ainda são mais vulneráveis que as outras...
Ouvi nos noticiários da rádio que "foi presa uma mulher que ateou pelo menos oito incêndios na zona de Leiria" e que já foram presas muitas dezenas de presumíveis incendiários. As notícias acrescentavam ainda o número de processos abertos pelo mesmo motivo - umas centenas - dando assim a ideia de que se estáa trabalhar bem e depressa para castigar os ditos incendiários.
Acontece que as notícias não falam do que se terá passado com as outras centenas anteriores, nem referem que presumíveis motivos terão tido os tais suspeitos, nem adiantam qualquer explicação para esta súbita paranóia nacional que cria incendiários por todo o lado sem que se consiga prevenir ou castigar o que conduz a isso.
Fica-se com a ideia de que é necessário ir dando a ilusão de que a culpa é de uns quantos criminosos que actuam em revoadas no tempo do calor, desviando-se assim as causas do desleixo, da irresponsabilidade e da falta de acção na prevenção dos incêndios... O mais certo é iniciar-se acesa polémica sobre alterações ao Código Penal, falarmos da falta de meios dos tribunais, das condições das prisões para encarcerar estes incendiários todos. Falarmos de tudo até que a próxima onda de calor nos mostre que continuamos a dormir à sombra da bananeira, se é que ainda vai haver sombras!
sexta-feira, 12 de agosto de 2005
Governadores civis e outros Governadores...
O seu mundo é o do ar condicionado e do recebimento certo no fim do mês…
A sua glória é dizer ao motorista que só tem meia hora para percorrer os próximos 100 quilómetros…porque não quer chegar atrasado…
O seu prestígio é medido pelo número de secretárias, preocupadas com a última mala L. Vuiton e pelo número de assessores, consultores e adjuntos, cada qual o mais ignorante, porque quem tem um olho é rei!...
Por isso não sabem, não compreendem, nem sonham qual o drama dos incêndios para as populações rurais…
…Que não é o da área ardida, mas o dos seus pinhais destruídos, das suas sementeiras queimadas, das suas colheitas desaparecidas, dos seus animais mortos, da sua casa calcinada…
…Que não é o da bio-diversidade atingida, mas o do seu sustento imediato e a prazo e o do fim de muita luta da vida e de muitos projectos futuros…
…Que não é o do número de fogos, maior ou menor, mas da perda de bens essenciais ao futuro dos seus filhos!...
O drama dos incêndios, não é o número, nem os hectares, nem a paisagem protegida danificada…que, tecnocraticamente, Governadores Civis, Ministros e Comunicação Social propalam…
…e passado pouco tempo esquecem…
O drama dos incêndios é a tecnocracia e burocracia instaladas atrás do ar condicionado, das secretárias, dos assessores e das câmaras de TV…
O drama dos incêndios é reduzir as tragédias pessoais a números… é a falta de afectividade, de solidariedade e de memória…
Sou muito sensível a estes dramas: afinal, se pude estudar, devo-o muito aos pinheiros que os meus pais iam vendendo, para financiar o curso dos filhos.
Devo muito aos pinheiros que não foram destruídos por incêndios!…
Um grande momento da medicina
O tratamento clássico consistia na mera aplicação de talas esperando a natural putrefacção dos tecidos a qual, irremediavelmente, levaria o rapaz à morte.
Nesse dia, o Professor Joseph Lister tentou um novo método: limpeza em profundidade da ferida com um soluto antisséptico e utilização de pensos embebidos no mesmo soluto: ácido carbólico.
A linha de raciocínio que esteve na base da aplicação deste novo método fundamentava-se nos trabalhos de Pasteur. De acordo com Pasteur a fermentação do vinho (originando vinagre) seria devido a microrganismos, sendo assim a putrefacção dos tecidos teriam uma causa semelhante: os microrganismos que infectam o vinho vêm do pó do ar, então os que contaminam as feridas terão a mesma origem e se o vinho pode ser protegido excluindo-os, do mesmo modo as feridas poderiam manter-se limpas.
Deste modo, 12 de Agosto pode ser considerado como a data do início de uma das mais notáveis revoluções médicas: a antissepsia.
A propósito, o jovem James Greenlees sobreviveu, assim como muitos milhões de pessoas a partir daquele momento.
Vale bem mais cair em graça
quinta-feira, 11 de agosto de 2005
Em cinzas

É impressionante o rasto de destruição.
O pior de tudo são, sem dúvida nenhuma, as tragédias pessoais. Os dramas vividos por quem sempre se contentou com o pouco que amealhou durante uma vida inteira de sacrifícios e que vê, em poucas horas, transformar-se em cinza esse pouco de seu. A casa. O gado. A pequena courela...
Acresce a fatalidade de mais um factor de empobrecimento do País. Não só por causa dos prejuizos materiais resultantes da perda do que a floresta dá à economia. Já não seria de menos se fosse somente isso. Mas há a perda de acervos biológicos que demorarão décadas e décadas a reconstituir-se como é o caso da parte o Parque Natural da Serra da Estrela classificada como reserva biogenética. Esses não são contabilizáveis, constituíam um património infungível.
Furto-me nestes casos ao comentário fácil porque, como se vê pelo teor dos que são feitos pelos omnipresentes e omniscientes analistas da nossa praça, de comum se cai na mais absoluta mas dispensável demagogia quando se procuram à viva força culpados e responsáveis e se brada pelas condenações mais terríveis.
Gostaria, de todo o modo, de expressar o seguinte. Estou sinceramente convencido que este governo, como qualquer governo, está a fazer o que pode e o que sabe para combater esta desgraça. Mas continuo sem perceber porque é que, ao menos para a prevenção e vigilância, se não mobilizam as forças armadas. Os meios materiais e humanos das forças armadas não permitem cobrir todo o território? Que o façam então nas áreas florestais mais significativas, designadamente as das áreas protegidas. Essa mobilização foi experimentada no verão de 2002, com resultados a meu ver positivos, naturalmente sujeita a aperfeiçomentos e a uma mais cuidada articulação com os outros meios que nessa altura não houve oportunidade de pensar uma vez que o governo de então tinha acabado de tomar posse.
Uma outra coisa. Talvez porque estivesse particularmente sensível pelas imagens dantescas da floresta em cinzas, revoltaram-me as declarações de alguns dos senhores governadores civis que em coro e afinados se pronunciaram contra a declaração de calamidade pública. Não está sequer em causa saber-se se a situação justifica ou não essa declaração. O que me chocou foi o tom de um discurso que soou a um condenável desprezo pelos dramas de muitas famílias e pela ruína de muitos empresários. Caberia, ao menos, uma palavra de esperança para quem perdeu tudo ou quase tudo, em vez de declarações absurdas que chegaram ponto de defenderem que as situações de excepção e as medidas de auxilio previstas para estes casos só se devem verificar quando ocorre a perda de muitas vidas, o que não foi o caso.
Que significado terá para esta gente a palavra vida?
Todos são militantes do partido que faz da solidariedade a sua principal bandeira. Pelos vistos também esta se desfez em fumo!
Estou convencido que a exigida obediência à voz do dono não justificava tanto empenho. O dono por certo que o não exigiu em tamanha medida...
Uma imprensa das bananas!...
É grande o escândalo no Brasil.
Não sei, nem me interessa, agora, saber se o Presidente Lula conhecia ou não conhecia o “mensalão”, sendo todavia estranho que o Presidente e Chefe do Governo não participasse nos acordos ou não estivesse informado dos acordos parlamentares para viabilizar a aprovação das leis.
Mas, do que leio, fico com a certeza de que a imprensa, quase toda a imprensa, reflectindo a sua tendência de esquerda, aí está perfilada para prevenir o essencial e minimizar os prejuízos.
E prevenir o essencial é proteger e defender o Presidente, mesmo ainda antes de ser acusado, e não importa com que argumentação.
Hoje li dois argumentos incríveis.
Dizia um articulista que, no caso de Fernando Collor, a “crise estava limitada ao poder executivo e o Congresso teve todas as condições políticas e morais para depor Collor, sem risco para as Instituições”.
Continuando, o articulista diz que “agora a crise abate-se em igual medida sobre o Executivo e o Legislativo…pelo que o actual Congresso não tem condições, nem políticas, nem morais, para tentar impor um processo de ”impeachment” contra Lula…”
E mais ainda: “…Ao mesmo tempo os partidos da Oposição percebem que o Presidente Lula tem um apoio mais sólido e o PT é um partido muito mais estruturado que o antigo PRN de Collor…”.
Um outro analista refere, também a propósito “…Como a economia está a viver um bom momento em comparação com o passado, nenhuma força política arrisca pôr isso em causa…”
Concluo duas coisas destas pérolas argumentativas:
· Como são bastantes os corruptos, é melhor ficar tudo como está, para não haver problemas, ficando assim preservado o Presidente.
· Como os corruptos têm fortes apoios, nada de pensar em “impeachment”: essa figura só é boa para Presidentes com fracos apoios…e, sobretudo, de direita.
Não se falando em “impeachment”, Lula fica, mais uma vez, protegido.
· Como a situação económica está boa, para quê pensar em Lula?
Os comportamentos éticos são diferenciados, não pelo acto em si, mas pelo facto de o seu autor ser de esquerda ou e direita?
Estamos numa república de bananas ou tudo isto reflecte uma imprensa das bananas ?
quarta-feira, 10 de agosto de 2005
A importância das PPP
Quando se comparam os PIB´s per capita dos diversos países, há a tendência imediata de retirar daí conclusões quanto ao nível de vida das populações.
Não é assim.
Para comparar o rendimento das famílias, para o qual, é óbvio, o PIB é determinante, contribuem também as transferências do Estado e o peso relativo do poder de compra em cada país.
Isto é, tendo dois países precisamente o mesmo PIB, por exemplo, 1000, se num deles é possível adquirir determinado pacote de artigos básicos pré-definidos por 800 unidades de moeda, e se, no outro, é possível adquirir esse mesmo pacote por 400 unidades, neste último o nível de vida é o dobro do do primeiro.
Esta realidade levou à determinação do que os Economistas chamam o PIB em PPP, isto é, em paridade de poder de compra.
Num texto anterior referi que a Índia era a 12ª economia mundial, com um PIB de 535 mil milhões de euros, enquanto Portugal era a 36ª economia, com um PIB de 123 milhões de euros.
Todavia, em paridade de poder de compra, a economia indiana é a 4ª economia mundial, com um PIB equivalente a 3282 mil milhões de euros, ao passo que a economia portuguesa é a 39ª, com um PIB de 204 mil milhões de euros.
Tal significa que o PIB per capita indiano em PPP passa a ser de 3200 euros, em vez dos 526 euros, ao passo que o português passa a ser de 20400 euros, em vez dos 12300 euros.
Assim, a relação da produção per capita entre Portugal e a Índia deixa de ser 23 e passa a ser cerca de 6,5.
Abstraindo de outros factores, e tomando só este índice como medida, o nível de vida português seria 6,5 vezes superior ao da Índia, o que significa, mesmo assim, que o nível de vida da região mais desfavorecida, em Portugal, a do Tâmega, é mais de 3 vezes superior ao da índia, bem longe das 12 vezes que resulta das contas do “post” anterior!...
Comparando os PIB,s per capita das duas economias com a dos Estados Unidos: para um índice 100 dos Estados Unidos, Portugal tem oíndice de 51,7 e a Índia 8,2 !...
Sem PPP, os números seriam 31 para Portugal e 1,3 para a Índia!...
Para além das cautelas a ter com o fosso da riqueza entre países, também devemos ter muito cuidado com a leitura das estatísticas!…
Circuncisão
Alguns povos adoptaram esta prática como um ritual religioso. No caso dos judeus, constitui de tal forma uma marca que, durante a perseguição nazi, era suficiente para os considerar como tal. Provavelmente, muitos gentios que foram circuncidados, por razões médicas, acabaram, também, nalgum forno crematório.
Já os gregos e, sobretudo, os romanos tinham um elevado apreço pelo prepúcio, de tal modo que, estes últimos acabaram por elaborar legislação no sentido de proibir a prática. É muito provável que tivessem identificado o tecido mais erógeno do homem. Podemos afirmar que os lábios, as pontas dos dedos e o prepúcio são as três localizações mais específicas e ricas para a prática da arte de Eros.
As afirmações de que os circuncidados sofrem menos de cancro peniano e de doenças sexualmente transmissíveis assim como o facto das companheiras correrem menos risco de cancro do colo do útero têm sido postas em causa, falando na perspectiva de efeitos benéficos dos mutilados “prepucianos”.
Esta análise foi despertada pela divulgação de um estudo epidemiológico realizado na África do Sul no qual se constatou que a circuncisão masculina reduz dramaticamente o risco de contrair infecção pelo HIV. A prática chega a oferecer protecção da ordem dos 65%. Alguém já comentou que os resultados são “extremamente excitantes” e que a extracção cirúrgica do prepúcio é “essencialmente uma vacina anatómica para a vida”.
Sendo África o mais atingido dos continentes pela praga do HIV é compreensível a aplicação de medidas adequadas ao seu controlo. Mas, será que a divulgação da prática da circuncisão seria um bom contributo para a solução? Para já as condições da sua realização deixariam muito a desejar – como é evidente – e, além disso, seria uma forma de mutilar indivíduos que não me parece ser correcta. Existe um movimento de luta contra a mutilação genital feminina e agora teria de ocorrer um movimento para extrair os prepúcios dos africanos. Não iríamos legitimar a malfadada prática da excisão clitoriana? Não estaríamos a contribuir para a perpetuação do conceito de “sujidade” da sexualidade e da necessidade de uma purificação? Deixem o prepúcio em paz! Afinal, tem funções muito importantes…
Teoria do Mensageiro
A prática de culpar o mensageiro pelos efeitos nefastos da mensagem é tão velha quanto a queixa recorrente do mensageiro contra remetentes e destinatários. O editorial de Pedro Rolo Duarte é mais um exemplo da lamúria incontida do mensageiro contra as classes políticas demonizadas pela pureza de propósitos do jornalista - herói. Sem querer negar a existência de demónios nos corredores sombrios da política, seria bom não esquecer que nem todos os mensageiros são anjos diáfanos. Ao mensageiro compete frequentemente escolher a mensagem, contá-la como e quando lhe convém, sequenciá-la de acordo com critérios nem sempre evidentes. O mensageiro por vezes sabe transformar o conteúdo de um postal ilustrado numa atractiva encomenda e sabe, melhor do que ninguém, que nem sempre a expressão formal da mensagem sobreleva a leitura do destinatário. É como nas anedotas “picantes”, o problema nunca está em quem conta, mas sim em quem ouve ou quem lê.
Tudo isto a propósito do gozo incontido que sinto ao analisar as poucas reacções nacionais (nomeadamente de alguns bloggers muito moralistas) às declarações do deputado Roberto Jeferson à RTP1 (ontem) sobre o envolvimento das empresas portuguesas no escândalo dos financiamentos partidários no Brasil. Aguardo com especial curiosidade as edições impressas do próximo sábado.
Original bolsa de estudo…
O Uganda não para de nos surpreender na sua estratégia de luta contra a Sida. Um país pobre, corrupto, para não fugir à regra da maioria dos países africanos, inserido numa zona de globo onde os conflitos armados são uma constante, em que os problemas dos refugiados são muito preocupantes, a ponto de justificar a primeira iniciativa do novo Alto Comissário para os Refugiados da ONU - o português António Guterres - conseguiu na última década e meia reduzir de uma forma ímpar a prevalência da Sida. Desconfio que mais nenhum país conseguiu atingir a expressão verificada entre os ugandeses. De acordo com os relatos públicos, as razões deste sucesso foram as medidas promovidas entre os locais, nomeadamente, os apelos à abstinência e à monogamia. O papel dos preservativos não foi considerado como tendo sido tão significativo face às outras duas medidas.
Não pondo em causa a honestidade dos promotores e divulgadores do programa, sempre achei intrigante como foi possível alcançar aqueles resultados. Como epidemiologista cheguei a questionar se a elevada prevalência e a consequente mortalidade não deveria ter tido um papel de relevo ao diminuir o número de infectados. Foi-me respondido, num forum internacional, que não. A razão prendia-se com a aquisição de novos hábitos. A abstinência e a fidelidade eram a chave do sucesso.
Recentemente, no âmbito de uma conferência internacional, Maria Vawer, da Universidade de Columbia (E.U.A.), apresentou os resultados de 10 anos de investigação, realizada no distrito de Rakai, tendo concluído que o aumento das taxas de mortalidade, mais do que as estratégias advogadas, seria a explicação para o fenómeno. O número de mortes excede as novas infecções (2 para 1). Das três medidas que fazem parte da estratégia de prevenção da Sida no Uganda, abstinência, fidelidade e uso de preservativos, somente este último é que coincidiu com o declínio do número de pessoas infectadas com HIV.
De qualquer modo, os políticos locais continuam empenhados em promover medidas que contrariem as tendências obscenas da epidemia da Sida em África. Desta feita, vão ser atribuídas bolsas às meninas que se mantenham virgens até final dos seus cursos universitários. E depois? No fim terão de ser submetidas a uma observação para provar que o hímen se mantém integro! Não sei o que acontecerá se o "selo" estiver violado. Provavelmente terão de devolver a bolsa! Genialidade africana. No entanto, não deixa de ser discriminatória face aos rapazes virgens. Espero que os autores, ou os “ideólogos”, não promovam a ideia no Ocidente, caso contrário, ficarão com a maior parte das bolsas de estudo nas gavetas...
Faz toda a diferença
Mas, quando ouvimos acesas polémicas sobre até onde nos poderão conduzir essas ousadias e os perigos que daí podem surgir, muitas vezes perguntamo-nos se estaremos a falar de imaginação ou de fantasias.
E é sobre essa distinção que aqui deixo um pequeno excerto do livro “O Aroma da Goiaba”, essa fascinante entrevista/diálogo de Plínio Apuleyo Mendonza a Gabriel Garcia Márquez, em que este diz:
“Com o tempo descobri, no entanto, que (na literatura) não podemos inventar ou imaginar o que nos dá na gana, porque corremos o risco de dizer mentiras, e as mentiras são mais graves na literatura do que na vida real. Dentro da maior arbitrariedade aparente, há leis. (...) Porque acredito que a imaginação é apenas um instrumento de elaboração da realidade. Mas a fonte da criação, ao fim e ao cabo, é sempre a realidade. E a fantasia, ou seja, a invenção pura e simples(...) é o mais detestável que pode haver. (...) A diferença que há entre uma e outra é a mesma que há entre um ser humano e o boneco de um ventríloquo.”
Se olharmos muitos dos argumentos utilizados nos debates sobre os eventuais perigos do progresso à luz desta distinção, talvez seja mais fácil fazer um juízo sério do que pode estar em causa...
Contrastes
Que abismo entre a paisagem serena que se estende pelos campos fora e as imagens intensas da descida da nave espacial, a abertura do pára quedas, o momento suspenso em que toca no chão e se detém, para logo sair a orgulhosa tripulação que teve a missão de abastecer uma estação espacial!
E, no entanto, como é pequena a obra do homem quando a natureza mostra toda a sua força, que lição de humildade quando as plantas murcham de sede para logo se renovarem nas suas cores brilhantes aos primeiros pingos de chuva.
terça-feira, 9 de agosto de 2005
Blogs científicos
O editorial da revista The Scientist, de 1 de Agosto, analisa a importância dos blogs científicos. Apesar de não serem comuns, começam a surgir, sobretudo nas áreas das ciências da vida, com a perspectiva de impacto muito significativo a vários níveis. O "convite formal" está feito à comunidade científica, facto que irá possibilitar: troca de experiências, divulgação online de descobertas, apresentação dos resultados de estudos e debate sobre novos e velhos temas. Fiquei satisfeito com esta posição, porque às vezes fico a pensar se não "forço" demasiado alguns conceitos científicos, atendendo ao facto de a "Quarta República" ser um blog com forte componente social, política e filosófica (apesar de ter o “Quarto da República” dedicado a temas mais pesados e científicos).
Face à tomada de posição do The Scientist, lembrei-me que seria talvez interessante e útil despertar nos alunos a prática dos blogs científicos comentando-os ou criando alguns mais "específicos" (em determinadas áreas das ciências da vida). Seria uma forma de, diariamente, interagir, pensar e debater assuntos que digam respeito à sua formação. Gostaria de auscultar opiniões sobre este assunto. Já me pus a imaginar analisar alguns conceitos das minhas aulas. Provavelmente, o meu entusiasmo rapidamente se esmorecia face a alguns comentários....
Os Deuses estão com Portugal
Nestas minhas crónicas da Índia, depois de tanto ter falado dos deuses hindús, é tempo de voltar a esta coisa prosaica da economia, da indiana e da portuguesa.
Segundo a edição de 2004 do livro de bolso do The Economist, “Worl in Figures”, o Produto Interno Bruto da Índia, com referência a 2001, era de cerca de 535 mil milhões de euros, para uma população de 1025 milhões de habitantes.
Para o mesmo ano, o PIB de Portugal era de 123 mil milhões de euros, para uma população de 10milhões de habitantes.
Quer dizer, para uma população 100 vezes maior, a riqueza criada na Índia é apenas pouco mais de 4 vezes superior à riqueza criada em Portugal.
Significa isto que o PIB per capita da Índia é quase 25 vezes inferior ao nosso!...
Mais precisamente, enquanto o PIB per capita de Portugal atinge os 12300 euros, o PIB per capita da Índia é de 526 euros.
Assim, enquanto cada português produz 1025 euros por mês, cada indiano leva dois anos a criar o mesmo valor!...
O PIB per capita indiano é de facto, muito baixo, e daí a extrema pobreza que se vê por todo o lado.
No entanto, a Índia é a 12ª maior economia mundial, antes da Coreia do Sul (10% abaixo) e depois do Brasil (5% acima).
A economia Indiana é equivalente a 82% da espanhola (10ª economia) e a 125% da holandesa (14ª economia).
Com uma produção, em termos absolutos, tão elevada, também não admiram as bolsas de riqueza e de luxo, verdadeiramente asiático, que é possível surpreender na Índia.
Por curiosidade, Portugal á a 36ª economia mundial.
A região mais deprimida de Portugal, a do Vale do Tâmega, cujo PIB anda por 50% da média nacional, ainda apresenta um PIB per capita 12 vezes superior ao Indiano!...
Se os portugueses vivem mal, como viverão os indianos, com um PIB per capita 12 vezes inferior ao da região mais pobre do país?
Os deuses estão, de facto, com Portugal!...
9 de Agosto de 2001
O novo projecto de lei sobre tão importante temática - abertura a novas linhas de células - tem um defensor de peso: o senador republicano Bill Frist (médico), o qual arregimenta mais alguns apoiantes da sua área. Mesmo no caso de ser aprovada, a lei poderá ser vetada por Bush, a não ser que se atinja o número de votos que impeça o exercício daquele direito presidencial. De qualquer modo, politicamente, a posição já foi considerada como um "terramoto"...
segunda-feira, 8 de agosto de 2005
Os Portugueses querem respostas
Os portugueses querem respostas… É necessário esclarecer…se é verdade ou não que foram muito tardios os accionamentos dos planos distritais de emergência e que foi recusado, por aparente teimosia, o accionamento de um plano nacional de emergência, que poderia ter conduzido, muito mais cedo, a uma coordenação de esforços a nível nacional. É que também eu e outras pessoas estivemos no terreno -e não estou a dizer que o Sr. Primeiro-Ministro não tenha estado -e percebemos que as populações sentiam que havia uma total descoordenação, uma incapacidade total de confiarem na administração central….Nós não vivemos num país em que possamos ficar à vontade da natureza, de Deus ou do Sr. Ministro da Administração Interna…”
Eduardo Ferro Rodrigues, na altura Secretário-Geral do PS, na Reunião Extraordinária da Assembleia da República de 14 de Agosto de 2003-Diário das Sessões nº 145.
“Morte do berço”
É do conhecimento geral que as crianças de tenra idade podem, embora raramente, falecer subitamente sem causa aparente. Esta “morte do berço” tem suscitado várias investigações e especulações sobre as causas. O trauma para os pais da morte de uma criança, aparentemente saudável, é indescritível.
Também ocorrem situações de maus-tratos por parte da progenitora, os quais podem culminar na morte da criança, sendo os médicos incapazes de detectar quaisquer vestígios.
Estas observações vêm a propósito de algumas mulheres terem sido condenadas a prisão perpétua pela morte dos seus filhos. Muitas estão presas há bastante tempo. Mas, aparentemente, as autoridades judiciais do Reino Unido estão a rever cerca de três centenas de casos de assassínio de crianças de berço, porque as acusações baseavam-se nas opiniões de peritos médicos, entre os quais, alguns de renome internacional, mas que estão a ser fortemente contestadas.
Um desses peritos acabou por ser acusado de má conduta profissional. Na base estão relatórios e opiniões do mesmo, ao afirmar que a probabilidade de dois filhos terem sofrido morte súbita natural era da ordem de um num milhão. A sua regra de que “uma morte inexplicável de uma criança numa família é uma tragédia, duas são suspeitas e três significa crime” não colhe credibilidade, devido à hipótese da existência de um gene que pode estar subjacente a este fenómeno.
A revisão de alguns casos, aliada à persistência das mães em gritarem inocência, permitiu já a libertação de algumas condenadas.
É chocante, dramático e mesmo obsceno que, algumas mulheres, após terem passado pelo sofrimento da perda de filhos de uma forma inexplicável, acabassem por ser acusadas e condenadas por crimes que não cometeram. E, se lembrarmos que na base das acusações estão relatórios de peritos médicos de renome, então é de questionar, até que ponto os cientistas podem “dar” tantas certezas. De facto, não podemos esquecer que a ciência é muito mais pródiga a colocar dúvidas do que a parir uma verdade!
A actualidade do Ramayana

Ramayana
O poema épico Ramayana é, de há de há dois mil anos a esta parte, uma das mais importantes obras literárias da Índia, pela sua qualidade intrínseca e pela influência decisiva que teve e continua a ter na religião, na cultura e na arte da Índia.
Nele aparece descrita a vida do deus Rama.
A par da Bíblia e do Corão, é dos livros mais editados em todo o mundo.
Em determinado momento, Rama envolve-se numa guerra.
Apresenta-se um excerto muito curioso, que fala das armas utilizadas por Rama:
“…As máquinas voadoras vimanas tinham a forma de uma esfera e navegavam no espaço devido ao mercúrio, que provocava um grande vento propulsor.
Desta forma, os homens alojados nos vimanas podiam percorrer enormes distâncias num tempo maravilhosamente limitado.
Os vimanas eram conduzidos segundo a vontade do piloto, voando de baixo para cima, para a frente ou para trás, segundo a disposição do motor e a sua inclinação.
O fogo dessa arma destruía as cidades, produzindo uma luz mais intensa que 100.000 sóis.
O vento então levantava-se e o fogo da terrível arma queimava os elefantes, os soldados, os carros e os cavalos, sem que pudesse ser visto, pois era invisível.
Este fogo fazia arder as unhas e os cabelos dos homens, esbranquiçava as penas das aves, coloria-lhe as patas de vermelho e entortava-as.
Para conjurar este fogo, os soldados corriam a lançar-se nas ribeiras para aí se lavarem e lavar aquilo em que deviam tocar…”
Temos aqui o descritivo fantasioso oriental em todo o seu esplendor!...
No entanto...recordaram-se agora os 60 anos do lançamento da primeira bomba atómica no Japão.
Face aos factos muito antigos descritos, 1000 anos antes de Cristo, no Ramayana, teria sido a primeira?
Que sabemos nós do mundo?
"Superpapás e superavós"…
A situação criada a grande número de pais que ficam impossibilitados de acompanhar, de ver, de desfrutar a companhia dos seus filhos, levou à criação de verdadeiros movimentos sociais, sob a forma de grupos perfeitamente organizados e que, à boa maneira de outros movimentos, tudo fazem para dar nas vistas. O objectivo é denunciar esta descriminação sexual, em que os homens são preteridos na custódia e educação dos filhos.
Os superpapás de vários países têm tomado iniciativas bastante espectaculares. Em Londres, um pai vestido à Batman e ajudado por um Robin subiu à mais famosa varanda britânica – palácio de Buckingham – para denunciar a situação dos pais separados que querem um contacto mais próximo com os seus filhos. A moda de copiar os heróis da banda desenhada alastra-se a outros tais como o Homem – Aranha (que já fez uma incursão semelhante). A onda promete alastrar-se e até agravar-se originando novos problemas para os quais não estamos preparados. Mas a revolução em curso não se restringe apenas aos pais. Os avós também iniciaram movimentos, no Reino Unido, na Alemanha, em Itália e também em Espanha, com o objectivo de defenderem os seus direitos: a possibilidade de verem os netos vítimas de separações dos seus filhos. Os nossos vizinhos acabaram mesmo de legislar nesse sentido, no ano passado. A lei espanhola garante que os avós não podem ser impedidos de verem os seus netos em caso de separação ou divórcio. Apesar de não os satisfazerem totalmente, constitui um ponto de partida, muito importante, para quem na última etapa da vida tem necessidade de dar sentido à existência, evitando a morte antes do tempo. A humanidade e a civilização existem graças ao papel dos avós nas primeiras etapas do desenvolvimento e, hoje em dia, continuam a desempenhar um papel primordial. É bom que os seus direitos sejam acautelados, já que, devido à idade, não será muito recomendável que começam a fazer papéis de Super-Homens, idênticos aos dos filhos. Não seria muito saudável se um dia víssemos, entre nós, um avô, vestido à maneira a subir à fachada do Palácio de São Bento, a escalar a Torre de Belém ou a pendurar-se da Torre da Universidade de Coimbra. A idade não perdoa...
domingo, 7 de agosto de 2005
Que ideia, a minha...
O calor convidava a sair e a contemplar este mesmo por-do-sol.
Triste ideia a de interromper a jura que a mim mesmo fiz de voltar, por uma vez, as costas às desgraças com que todos os dias, durante uma hora, os telejornais do horário nobre nos brindam.
Olhei para o televisor e, porque se não tratava de mais um daqueles importantíssimos eventos mundanos em que se exibe o jet set a banhos no Algarve e se intervalam as desgraças, fixei-me por momentos na reportagem que passava no ecran.
Não é que a peça visava elucidar a opinião pública sobre quais os pontos da costa portuguesa onde estão localizados os sistemas de vigilância e detecção de movimentos marítmos suspeitos de transporte e tráfico de droga e outras actividades criminosas?!
E não é que se explicava com pormenor como funcionavam os supostamente sofisticados sistemas recentemente adquiridos para a GNR?
Fiquei abismado quando apareceu um graduado da GNR que mais explicou, tim-tim-por-tim-tim para que a coisa não ficasse pela suspeita palavra de jornalista, como é que funcionava a aparelhagem e quais os muitos pontos do litoral que estavam absolutamente desguarnecidos de vigilância!
E eu que julgava que a eficácia destes meios dependia da absoluta discrição na sua utilização, mesmo do segredo sobre a sua existência, muito mais do que a sua sofisticação que se vê rapidamente superada pela capacidade dos barões da droga em adquirirem o que há de mais evoluído...
Confesso que a minha ingenuidade ia, aliás, mais longe. Ia ao ponto de pensar que a polícia era a última interessada em divulgar a extensíssima faixa da nossa costa onde os traficantes podem dedicar-se em absoluta segurança às suas actividades.
Percebi depois. A nossa democracia chegou também ao grau máximo de sofistação e transparência. A investigação criminal deve ter, afinal, paredes de vidro. Ou não são os traficantes cidadãos com o direito constitucional a verem-se informados pela comunicação social de tudo quanto lhes diz respeito, em especial, sobre aquilo que os pode prejudicar?
Já tinha suspeitado que para aí caminhávamos face às reiteradas e descaradas violações do segredo de justiça que nunca tiveram, até hoje, uma face a quem se imputem responsabilidades. E em boa verdade, se violar o segredo de justiça se faz em nome da transparência e do direito à plena informação, quem pode, de resto, ser punido?
Bom, a verdade é que com isto lá se estragou aquele anoitecer mágico.
Para que fui eu quebrar a jura?
Hikikomori
Segundo os diferentes depoimentos recolhidos na reportagem, o argumento comum a todos os que vivem a situação de Hikikomori é a constatação de que há , na sua perspectiva, um abismo intransponível, entre "a situação real e a situação ideal" de cada um ou seja, sentem-se profundamente dimuinuidos perante a pressão social para o sucesso e não estão preparados para vencer os obstáculos que se perfilam a qualquer adulto que começa a sua vida.
A violência da reacção dá uma ideia da violència da agressão - numa sociedade rica, em que a maioria dos jovens não conheceu dificuldades materiais e só perspectivou o sucesso, conclui-se que não estão preparados para a adversidade nem se sentem capazes de ser eles a contribuir, por sua vez, para a sociedade que lhes exige a contrapartida do que lhes proporcionou.
De facto, o equilíbrio tem que estar presente em qualquer modelo de desenvolvimento, e o estímulo ao êxito e ao sucesso pode ser um veneno letal se não for acompanhado da humanização do estilo de vida e da noção de que o sucesso não está só no vértice da pirâmide mas na conquista de cada degrau. Que é um caminho árduo e não uma dádiva á nossa espera.
Se tudo estiver padronizado para o super homem e não houver lugar para admitir que falhar e tentar de novo tem muito mais valor do que fechar-se num quarto ás escuras e deixar-se morrer antes de ter tentado, não é de admirar que se queira voltar ao útero materno.
Se pensarmos noutros pontos do globo onde se vê com desconfiança o sucesso e se está sempre pronto a tolerar a mediocridade, é caso para dizer "Nem tanto ao mar nem tanto à terra.."
sexta-feira, 5 de agosto de 2005
"Detectores ambientais”…
Ultimamente, foram relatados dois aspectos interessantes. O primeiro diz respeito ao controlo nos aeroportos da presença de substâncias que possam indiciar a presença de tráfico radioactivo com finalidades terroristas. Atitude louvável, mas que pode provocar alguns embaraços a cidadãos normais que tenham sido sujeitos a recentes exames médicos com radioisótopos. O facto de se tornarem, episodicamente, "radioactivos" não é nada agradável, que o diga um piloto da aviação comercial que, após ter realizado um cintigrama de perfusão miocárdica, viajou para Moscovo onde foi detido, pelas forças de segurança, para interrogatório. Mais tarde libertaram-no, depois de longas explicações! Passados quatro dias, no mesmo aeroporto, de regresso, sofreu novas vicissitudes…
O Big Brother apanha tudo, até as pessoas que fazem simples e frequentes exames médicos que utilizam substâncias radioactivas!
Fiquei assustado com a notícia ao lembrar que ainda há pouco tempo fiz um exame idêntico. Ainda bem que não viajei nos dias subsequentes. O melhor é avisar os doentes, caso contrário ainda correm o risco de apanhar um susto de morte num qualquer aeroporto…
O segundo aspecto prende-se com a possibilidade de avaliar, em termos comunitários, o consumo de droga e, desta forma, ter uma percepção sobre a sua dinâmica e evolução. A possibilidade de analisar a cocaína e um seu metabolito nos esgotos é uma realidade consubstanciada num estudo efectuado em rios italianos. Os autores chegaram a calcular que, por exemplo, no rio Pó, são lançados, diariamente, através dos esgotos cerca de 4 kg por dia!
Imaginem, um dia destes, um sistema de controlo sofisticado ao longo dos esgotos da cidade, permitindo identificar os bairros mais consumidores e, quem sabe, se um dia não irão colocar verdadeiros “contadores de metabolitos de drogas” à saída das nossas residências. Já estou a pensar a colocar um dístico à entrada da casa de banho: “se for consumidor de drogas vá fazer as suas necessidades para outro lado”. Não é por nada, mas não quero que me culpem de andar a drogar os peixinhos do Mondego…
Repescando Hamilton e recordando Aristóteles
Há dias, o Ferreira de Almeida, sempre oportuno, lembrou um texto de Alexander Hamilton, em que este colocava a questão se seria conveniente para a sociedade que alguém que já ocupou determinados postos importantes passasse a andar pelo meio do povo como um insatisfeito fantasma, suspirando por um cargo que nunca mais poderia ocupar.
Lembrei-me de Aristóteles que, na sua Política, dizia algo parecido, só que chamava doentes aos que Hamilton designa como fantasmas.
Pretendi fazer um comentário com esse texto, mas não o pude encontrar de imediato.
Encontrei-o agora e aqui vai. Dizia, então, Aristóteles:
”… Devido aos benefícios derivados dos cargos públicos e do exercício do poder, os homens desejam a ocupação permanente desses cargos.
É como se os ocupantes dos cargos fossem doentes e apenas recuperassem a saúde quando estão em funções…”
Notável Aristóteles!...Se não sabia tudo, andava lá perto!...
O País visto do céu
E, no entanto, todos os anos se reafirmam planos de Prevenção, levantamentos exaustivos, coordenações e meios reforçados. Para nada...
Sucedem-se Secretarias de Estado, Altas Autoridades, reestruturações dos sistemas de combate aos incêndios, campanhas de prevenção. Para nada...
Há falta de meios? Já ouvi esse argumento há muitos Governos atrás e pergunto-me se a riqueza que se queima nestas fornalhas não custa muito mais do que o investimento nos tais meios, mesmo que se planeiem por excesso. Quando, finalmente, se chegar a essa conclusão, já não há nada para arder, se é que é realmente a falta de meios que provoca este desastre repetido como uma fatalidade.
Há falta de coordenação e desorganização? Mas, precisamente, nós orgulhamo-nos de sermos "uns ases" a organizar grandes eventos, a Expo 98, o Euro 2004, os Festivais de Verão, as regatas, a Volta a Portugal em bicicleta...Esgotamo-nos nisso porquê?
Se nos lembrarmos da capacidade de mobilização que foi (espantosamente) possível a propósito das gravuras de Foz Côa, ou das pegadas de dinossauro, ou da nidificação de aves junto à nova ponte sobre o Tejo, não percebemos a modéstia dos movimentos à volta da limpeza das matas, do abandono de terrenos, da dificuldade de acessos a zonas já martirizadas ou detectadas como especialmente vulneráveis. E a seca não chegou ontem...
Vista do céu, a nuvem de fumo é tão densa como a incapacidade de intervir, com continuidade, sem mediatismos fugazes e bombásticos, para além das mesquinhas querelas políticas que acabam por pôr em causa as sucessivas tentativas de pôr cobro a este estado de coisas.
CGD à Vara
quinta-feira, 4 de agosto de 2005
Regressaram o calor, o vento e inevitavelmente os fogos
Retenho as imagens de Pombal, Arouca, Águeda e outros tantos locais pastos de chamas incontroladas que progridem para desespero de bombeiros, populares e autarcas. Esta é a imagem do meu país, onde a habitação coexiste promiscuamente com a floresta, onde o desleixo dos proprietários, geralmente ausentes, anda de braço dado com a incúria e a acção criminosa. De ano para ano elaboram-se planos, definem-se políticas, repetem-se investimentos, nada trava o caos deste território a que por (poucas!) vezes chamamos Pátria.
quarta-feira, 3 de agosto de 2005
Percebe-se agora (ou perceberam logo?)
A notícia do DN de hoje, a ser verdadeira, confirma isso mesmo.
Signficativo é facto de o novo Ministro das Finanças não querer comentar.
E não deixa de chamar a atenção a reacção frouxa dos partidos da oposição à direita, em especial do CDS, apesar desta demissão configurar puro acto de saneamento. Que misteriosa razão explicará esta frouxidão? (A pergunta é meramente de retórica. Eu sei a resposta.)
Transcreve-se parte da notícia, e quem se interesse pode ler todo o artigo aqui.
"Segundo fontes do mercado ontem contactadas pelo DN, os desentendimentos entre Vítor Martins e o Governo resultaram, em grande parte, da recusa da administração da CGD em participar nos financiamentos privados aos grandes investimentos públicos, como o futuro aeroporto da Ota e a rede de TGV. No mercado fala-se de decisões de crédito polémicas e contestadas, que no entanto não chegaram a ser conhecidas. Confrontada com estas e outras questões, a administração da Caixa remeteu-se ontem ao silêncio. Também o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, através do seu gabinete, escusou-se a comentar".
Notícias…
Recentemente, foi noticiado, com honras de abertura do telejornal de uma das cadeias televisivas, que – segundo a OMS – a terapêutica hormonal de substituição e a pílula contraceptiva provocam cancro. Os comentários das poucas mulheres entrevistadas são tradutores do que poderá ocorrer com muitas mais. Uma delas afirmou: “ainda bem que não segui os conselhos do meu médico”!
Quando os estudos envolvem muitas pessoas e decorram durante um tempo suficientemente longo é possível encontrar associações do género descrito e muitas outras. Resta saber qual a força da associação e os benefícios inerentes ao seu uso. Quase que somos tentados a afirmar que os benefícios são muitos, desde que sejam respeitadas as regras da prescrição e se proceda a uma vigilância adequada.
No entanto, a forma como a notícia foi propalada é suficiente para deixar em pânico muitas mulheres e, noutras, criar uma desconfiança nada agradável.
Paracelso dizia que a diferença entre o medicamento e o veneno era apenas uma questão de dosagem. No caso vertente, quando muitas pessoas tomam um produto durante muito tempo é muito provável que ocorram associações. Mas não é por este motivo que devemos abandoná-lo. Todos sabem que os hipertensos correm riscos muito elevados de virem a sofrer acidentes vasculares cerebrais. No entanto, 75% dos acidentes vasculares cerebrais ocorrem em normotensos! O risco nestes é mais baixo, mas mesmo assim existe e, como há muitos, logo acabam por ser os principais contribuintes….
As notícias têm de ser comunicadas de outra forma. A presente pode ter levado algumas mulheres a deixarem de tomar os seus contraceptivos ou as terapêuticas de substituição ou ficarem num estado de ansiedade face ao anunciado risco de cancro.
Imaginem se os editores das notícias tivessem pegado nesta: “os balões e os preservativos são cancerígenos”! É verdade, foi estudado que o látex pode conter substâncias cancerígenas denominadas nitrosaminas. A sorte foi ter escapado aos jornalistas.
Imaginem o que é que poderia acontecer com uma Tita qualquer que, perante as notícias, decide não tomar os contraceptivos com medo de vir a sofrer de cancro. O filho, o Joãozinho, ficaria proibido de mexer em balões. Coitado da criança! O marido, face à recusa da mulher em tomar a pílula, ainda poderia ser interpelado numa noite quente de Verão com a seguinte pergunta: - O que é isso, António? O marido responde surpreendido com tão inusitada pergunta: - Um preservativo! – O quê! Um preservativo? Não sabe que tem nitrosaminas? – Nitro… o quê? – Nitrosaminas seu ignorante, uma substância cancerígena. Quer-me matar? – Eu, não!
Pois não, mas lá se vai mais uma noite de Verão ao “galheiro”.
Pobre António, pobre Tita!...
terça-feira, 2 de agosto de 2005
Decifrar
Leia. Sua mente é capaz de decodificar a mensagem.
M473M471C0 (53N54C1ON4L):
4S V3235 3U 4C0RD0 M310 M473M471C0.
D31X0 70D4 4 4857R4Ç40 N47UR4L D3 L4D0 3 M3 P0NH0 4 P3N54R 3M NUM3R05, C0M0 53 F0553 UM4 P35504 R4C10N4L.
540 5373 D1550, N0V3 D4QU1L0...
QU1N23 PR45 0NZ3... 7R323N705 6R4M45 D3 PR35UNT0...
M45 L060 C410 N4 R34L
3 C0M3Ç0 4 F423R V3R505 H1NDU-4R481C05
Ota e TGV
Dos conceitos
Hamilton e a defesa da reeleição presidencial
Fez uso de argumentos curiosos. Não resisto a transcrever para aqui uma dessas razões (como consta de uma das versões traduzidas de O Federalista, que reune os seus textos, de Jay e Madison):
"Seria conveniente à paz da comunidade ou à estabilidade do governo haver meia dúzia de homens, que tiveram mérito bastante para exercerem a suprema magistratura, passarem a andar pelo meio do povo, como insatisfeitos fantasmas, suspirando por um cargo que nunca mais lhe permitiriam ocupar?"
Hamilton pensava que era preferível ter presidente repetente do que fantasma insatisfeito...
segunda-feira, 1 de agosto de 2005
Cirurgia espiritual…
Caxemira- de paraíso a inferno
É o Estado mais a norte da Índia, fazendo fronteira com o Paquistão e com o Tibete. Na Índia, é o único Estado onde predomina o islamismo.
Srinagar, a denominada capital de verão de Caxemira, tem tudo para ser um paraíso: uma paisagem deslumbrante, ora calma, junto aos lagos e canais, ora agitada nas suas montanhas, que preanunciam os Himalaias.Nos lagos, o meio de transporte típico são os "shikaras", barcos pequenos, muito decorados, manobrados por um barqueiro com um remo em forma de coração.Disputam os turistas, e uma viagem é emocionante, pela paisagem e pelas constantes abordagens de outros "shikaras", com vendedores dos artefactos locais, prontos a fazer negócio, custe o que custar!...
O Vale de Caxemira, que o avião sobrevoou, é um deslumbramento, visto do ar.
Mas a chegada é pesada, com um ambiente bélico visível em todo o lado: abrigos no aeroporto, presença obsessiva de soldados armados de 50 em 50 metros, ao longo da estrada que liga o aeroporto à cidade, barreiras na estrada, arame farpado, barreiras de sacos de areia à entrada dos principais edifícios públicos e hotéis, presença de tropa armada por todo o lado.
Apesar de tudo, apesar do conflito, agora suspenso, com o Paquistão, apesar dos atentados quase diários (durante a minha estadia de 15 dias na Índia, dois ministros foram alvejados em Caxemira e atentados houve vários, com mortes), há muita gente que persiste na tradição de passar férias em Caxemira, onde se vê uma enorme quantidade de hotéis.
Mas o “chique” do turismo de Caxemira são as casas flutuantes, faustosas no seu tempo de glória, antes da guerra, com salas de estar esplendorosas de tapetes e bordados, e com uma equipa de empregados, mordomo, cozinheiro e ajudantes, prontos a oferecer uma boa estadia ao visitante.
Estão agora bastante degradadas, mas o pessoal é afável e diligente.
Como seria diferente Caxemira se o dinheiro gasto na guerra fosse investido no turismo e no desenvolvimento!...



















