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quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Fertilidade masculina. Teste caseiro.


Teste de fertilidade caseiro
Foi colocado à venda na Grã-Bretanha um kit caseiro que, em menos de uma hora (mais ou menos 45 minutos), permite a um cavalheiro saber se é fértil ou não. Coloca-se o esperma no aparelho e se um número razoável de "cabeçudos" atravessar a barreira, aparece uma linha vermelha indicando resultado positivo. O princípio é simples: baseia-se na mobilidade dos espermatozóides. A fiabilidade é elevada na ordem dos 95%.
Os testes caseiros estão a aumentar a um ritmo alucinante.
Um dia destes qualquer mortal acorda mal disposto, vai ao armário, saca os diferentes kits e começa a analisar diferentes parâmetros: a glicemia, a colesterolemia, a alcoolemia, saber se o efeito do charro fumado há quinze dias já passou, andar atrás da urina ou de uma t-shirt do puto para ver se anda ou não na passa, saber se está contaminado com o vírus da sida ou o vírus da hepatite C, saber se a mulher está novamente grávida e por fim chegar à conclusão de que é estéril. Coitado. Nem vale a pena fazer a barba….

Ninguém diz nada?

A Direcção Central de Combate ao Banditismo da Polícia Judiciária divulgou as estatísticas relativas relativas à criminalidade violenta do ano de 2005: aumento de 32% dos casos, relativamente ao ano anterior. Da notícia retira-se ainda:

"Intimamente relacionada com a criminalidade violenta está o emprego de armas de fogo. Uma situação que a PJ já classifica como preocupante, mas que não é propriamente uma novidade no panorama criminal português".

"Já em 2002, um relatório do SIS (Serviços de Informações e Segurança) alertava para o "franco crescimento" do mercado ilegal de armas ligeiras".

Conclusão: como o fenómeno já não é novidade, parece que todos se calam, incluindo a oposição. Em qualquer país democrático a divulgação destes números dava no mínimo debate de urgência no Parlamento. Mas como não é novidade...

1986-1995: Dez anos ímpares da economia portuguesa

Porque Cavaco Silva é um dos candidatos à Presidência da República, e porque tem sido, de entre todos os candidatos, o mais atacado (por que será?!), julguei oportuno analisar, de forma breve, como evoluiu a economia portuguesa nos dez anos em que, como Primeiro-Ministro, Cavaco governou o país. E comparar essa evolução com os anos anteriores e os que se lhe seguiram...
Ao "clicar" nos três links abaixo, o leitor poderá aceder à minha opinião sobre esses dez anos, e se as críticas de que Cavaco tem sido alvo são justas:

http://quartodarepublica.blogspot.com/2006/01/1986-1995-dez-anos-mpares-da-economia.html

http://quartodarepublica.blogspot.com/2006/01/1986-1995-dez-anos-mpares-da-economia_03.html

http://quartodarepublica.blogspot.com/2006/01/1986-1995-dez-anos-mpares-_113631382109798416.html

Ora, depois de ter tido a paciência de ver estes textos, não acha que esses dez anos foram ou não ímpares na história recente da economia portuguesa?!...

Feliz ano novo para todos!

Nota: Estes textos foram publicados na minha coluna no Jornal de Negócios em Dezembro 20, 21 e 22, 2005.

A paternidade do défice e o campeão do despesismo

Muito se tem falado do défice ao longo desta campanha para as eleições presidenciais. E por isso, julguei oportuno escrever sobre "A paternidade do défice" e "O título de campeão do despesismo".
Para ficar a saber quem, em minha opinião, deve assumir a paternidade do défice, basta clicar em

http://quartodarepublica.blogspot.com/2006/01/paternidade-do-dfice.html

Já para saber quem deve ganhar o título de campeão do despesismo, basta clicar em

http://quartodarepublica.blogspot.com/2006/01/o-ttulo-de-campeo-do-despesismo.html

Um excelente ano novo para todos!

Nota: Estes textos foram publicados na minha coluna no Jornal de Negócios em Novembro 22, 2005, e em Dezembro 06, 2005, respectivamente.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

- Fumadores? Coitados são doentes!

A entrada em vigor da lei antitabaco em Espanha está a ser acompanhada com preocupação por parte da comunicação social portuguesa. Hoje de manhã, quase de madrugada, um locutor analisava ponto por ponto a lei castelhana e achava que a maioria eram um “insulto” e desafiou os ouvintes fumadores e não fumadores a darem opiniões. O primeiro a ligar foi um fumador inveterado. O locutor esperava concordância com os seus conceitos. Tramou-se. Não é que o fumador estava plenamente de acordo com a lei espanhola, defraudando o locutor e as suas considerações? Saiu-lhe o tiro pela culatra! A forma como o ouvinte falou, com aquele timbre próprio dos fumadores de longa data que sabe que irá morrer agarrado ao seu cigarrito, não deixou quaisquer dúvidas.
Comecei a analisar os nossos dados epidemiológicos concluindo que os portugueses são, no contexto mundial, um dos povos que menos fumam. É verdade e, felizmente, continua a diminuir (excepto as mulheres). O pior é que sendo poucos são mais perniciosos do que os nacionais de outros países. A grande maioria não respeita os direitos dos não fumadores. Parece que têm um prazer mórbido em expelir o fumo para cima dos incautos que se atrevem estacionar ao seu lado. Não poupam ninguém, sejam velhos, sejam doentes, sejam crianças, sejam os próprios filhos! Quem estiver mal que se mude, deve ser a sua máxima.
Mas os meus comentários não ficam por aqui. No J.N. de hoje anuncia-se que até Julho estarão definidas novas regras. Recordo que os governos anteriores já tinham produzido legislação nesse sentido. Primeiro no tempo de Durão Barroso, mas foi aligeirada, posteriormente, por Santana Lopes, às tantas para não perturbar muitos ministros que eram fumadores. Mas, mesmo esta não foi promulgada, aguardando-se a elaboração de um novo decreto-lei. É patético, no mínimo, o argumento, segundo o qual a “demora prende-se com a vontade do Governo em ouvir todas as partes, de forma a que se encontre um consenso básico que assegure a eficácia futura na aplicação das novas regras”. Ora abóbora, não me gozem! Será que também irão ouvir os cangalheiros? Mas qual consenso básico? Às tantas ainda vão produzir uma luso-quimera permitindo que tudo continue praticamente na mesma.
No entanto, o meu desalento ainda não tinha terminado quando li as declarações do muito estimado Prof. Fernando de Pádua que defende a comparticipação dos medicamentos utilizados na desabituação tabágica! Aqui está uma solução tipicamente portuguesa. Comparticipação? Era o que mais faltava! Então, a rapaziada tem "carcanhol" para comprar maços de cigarros e não tem para comprar uns míseros discos de nicotina ou o antidepressivo adequado à situação? Agora tenho que pagar também a desintoxicação? Numa altura em que o Governo descomparticipa o máximo que pode, colocando muitos doentes crónicos em sérias dificuldades?
E, já agora vamos lá a ver se consigamos ter mais cuidado com o rótulo de doente. - Fuma? É um doente! - Bebe? Coitado é doente! - Droga-se? Coitado é doente! - Rouba? É doente! - Matou? É doente! - Mentiu? É doença! - É corrupto? É doença, o pai também já era! – Não respeita as regras de trânsito? – Que se há-de fazer, aquilo é mesmo doença! – É um vigarista? É doença!
Bom o melhor é ficar por aqui se bem que tenha tido uma vontade dos diabos de gritar uma asneira. Não o faço, porque senão ainda me arrisco a ser considerado também como doente e ainda por cima malcriado…

Na cama com o amigo

O novo modelo de gestão da EDP e a anunciada reentrada da concorrente Iberdola nos órgãos sociais configura a imagem de dormir "na cama com o inimigo", mas dada a personificação do inimigo com o nosso amigo "Cardeal" teremos de alterar a frase, a bem da verdade e do rigor.
O que é que anda por aí que motive uma intervenção do Presidente da República no caso? Especialmente quando se trata de uma empresa privada, cotada em bolsa!
Será que o Sr. PR não reconhece credibilidade ao Governo para tratar do assunto e defender o "interesse nacional"?
As declarações de João Talone e a intervenção do Sr. PR são um atestado muito pouco abonatório do Governo. O caso é grave e fico-me por aqui!

[Actualização]

As declarações do Ministro da Economia deixam transparecer o que se poderia esperar de pior: a participação da Iberdola na gestão da EDP está adquirida e decerto resulta da estratégia seguida pelo Governo para o sector energético. Ou seja, o futuro da EDP passa pela Iberdola. É o rescaldo da solução GALP/Amorim. Não há milagres. O que é mais insuportável é a afirmação de Manuel Pinho defendendo a pés juntos que a EDP vai manter a sua autonomia.

A propósito: e se fosse Cavaco Silva a tomar a iniciativa de pedir esclarecimentos ao Governo? Bem ou mal, Sampaio criou mais um precedente. Para que conste, para memória futura!

Novos tempos, como sempre...

De repente os adolescentes cresceram, acabaram os Erasmus, regressam à casa que agora lhes parece pequena e cheia de pais zelosos e metediços. Amigos espalhados por esse mundo fora, deslocam-se com uma facilidade impressionante, conversam sobre realidades diferentes, adaptam-se de um momento para outro a novas formas de viver.
Um pequeno grupo de amigos reunido para a passagem de ano trouxe à baila o inevitável tema: os filhos, as dúvidas, as perplexidades, será que faço bem em deixá-lo ir? será que não estamos a dar muitas facilidades?Para rapidamente se chegar à conclusão que o movimento é amplo, a excepção tornou-se regra e será certamente uma marca desta nova geração. Dos que podem, claro, mas são muitos, muitos mais do que os que podiam há uns anos atrás, disso não há que ter dúvidas. Além disso os mais afoitos ou que prezam muito a sua independência (?) começam também a sair de casa e os casos são tantos que me intrigou a facilidade em arranjar casa, geralmente no centro de Lisboa ou muito próximo. Fiquei a saber que há subsídio de renda, que "o INH paga uma parte"se o rendimento for até um limite e a idade até 30 anos, basta que um tenha um contrato de trabalho. Assim não precisam comprar casa, o que lhes permite mudar com frequência, não casam porque senão ultrapassam os mínimos, e o centro da cidade ganha nova vida, o que é bom para todos. E assim os "reveillons" multiplicaram-se, em casa da J, que vive no Porto com o namorado, do M que vive na Graça com a italiana, de L que mora em Sta Apolónia com uns amigos...
Esta nova geração, beneficiária do drástico decréscimo de natalidade, tem boas razões para construir um futuro melhor e nós, os pais metediços, temos mais é que nos alegrar por os ver felizes e contentes. Tal como as gerações antes de nós, temos que aprender a conviver com essas mudanças, mal seria se fosse tudo igual, mas também nos cabe fazer notar que estas oportunidades também têm um reverso na responsabilidade. Parte difícil, mas essencial.

Mais um pontapé...

Afinal, Fraústo da Silva acabou por ser exonerado e substituído por Mega Ferreira no CCB. O Expresso deu a notícia na passada sexta-feira e nessa altura o Ministério da Cultura recorreu à expressão consagrada pelo futebol: "não confirmo, nem desminto!". Quer Fraústo quer Mega negaram qualquer substituição. A fonte do Expresso ficou facilmente identificada.
Eu sei que o exemplo vem de cima, mas é muito feia esta coisa de andar aos pontapés, especialmente porque quem o deu arrisca-se a ser pontapeada em próxima oportunidade.
Talvez nessa altura, a exemplo do futebol, vá tudo à chapada. É o que está a dar!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Lições de Retórica

Trata-se de continuação à minha Nota de ontem, Desconversar com estilo, em que sugeri que o cidadão comum passasse a escrever e a falar como os grandes pensadores e políticos deste país, que ninguém entende.
Seria até uma forma de nivelar por cima e de fazer com que, no final de contas, o país se tornasse numa Babel ininteligível.
Caos por caos, ao menos que seja total!...
O Professor Massano lamentou que não houvesse uma chave de discurso 666.
Não posso ouvir lamentos do Prof. Massano, que me comovo.
Daí ter aumentado a chave, de forma a poder escolher-se qualquer algarismo de 0 a 9.
Aqui vai:
Coluna 1----------------Coluna 2-------------------Coluna 3

6. Flexibilidade--------------global--------------contratualizada
7. Criatividade---------------direccional--------- coordenada
8. Instrumentabilidade----- opcional ------------combinada
9. Retroacção--------------- fulcral--------------estabilizada
0. Projecção-----------------logística------------estratificada

Então o 666 seria a flexibilidade global contratualizada.
E o 600 a flexibilidade logística estratificada
Já que o Prof. Massano é médico, poderá aplicar a primeira, quando falar dos Hospitais EP e a segunda, quando falar dos cursos médicos, ou ao contrário, tanto faz!..
Mas o sucesso é garantido!...

Um dia as casas vêm abaixo...



Vejo anunciado pelo Ministério do Ambiente que este vai ser o ano do litoral. Curioso, quando tudo se fez para regredir nas políticas de protecção e de valorização da costa portuguesa.
Esperemos para ver, embora já não reste muito tempo. Porque um dia as casas vêm mesmo abaixo. E não será o Estado a tratar disso. A natureza fá-lo-à inexorável e brutalmente.
Depois...bom, depois lamentaremos o horror de bens perdidos (vidas?). Virão as campanhas contra a falta de capacidade lusa para identificar o essencial, o urgente em detrimento do dispensável ou do adiável. E condenaremos. Condenaremos à exaustão. Condenará o parlamento. Condenará o governo. Condenarão os media, explorando a dor de muitas perdas. Como não há muito tempo na ponte de Entre-os-Rios.
Mas, em boa verdade, de que valerá então?

Mateus 7:26 E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia.

Com estas palavras abria o programa Finisterra de protecção e valorização da costa portuguesa, programa que este governo defenestrou.


Efeito Westermarck



A nudez da tua irmã, filha de teu pai, ou filha de tua mãe, nascida em casa, ou fora de casa, a sua nudez não descobrirás. (Levítico 18:9)

Li um dia uma história sobre a mãe de Mark Twain, escritor norte-americano que muito admiro. A senhora considerava a escravatura como perfeitamente natural, argumentando que o reverendo nunca tinha feito um sermão nesse sentido, além do facto da Bíblia não dizer nada em contrário! Pois é, também os Dez Mandamentos não dizem nada a este propósito, nem tão pouco proíbe o incesto ou a consanguinidade, não obstante ser uma das mais importantes fontes da conduta humana.
O incesto provoca repugnância generalizada. Apesar de tudo continua a ocorrer, desconhecendo-se a verdadeira prevalência que, segundo alguns autores, poderá oscilar entre 1 a 18% da população adolescente. Num mundo pautado por condutas sexuais problemáticas, muitas vezes pondo em causa a dignidade e os valores humanos importa conhecer melhor este fenómeno. Uma das mais interessantes teorias foi elaborada por um antropólogo finlandês, Edvard Westermarck, que explicou a não atracção sexual entre aqueles que crescem juntos haja ou não vínculos biológicos. Muitos estudos foram entretanto realizados apontando para a existência de um gene que justifique o chamado efeito Westermarck verificado à escala global. Mas, há sempre um mas em todos estes assuntos; como explicar a elevada taxa de consanguinidade e de práticas de incesto verificados em certas comunidades? O tal efeito Westermarck não se manifesta, pelo contrário, a atracção sexual ocorre entre indivíduos biológica e sociologicamente aparentados. Tudo aponta para a existência de uma variante do gene Westermarck (anti-w) que, ao eliminar a não atracção sexual propicia o aparecimento de situações homozigóticas, as quais, embora possam ser muito negativas, não deixam de ter efeitos benéficos face a certas doenças.
Podemos afirmar que nos últimos 10.000 anos a doença com maior pressão selectiva foi e é a malária. Os indivíduos com determinadas particularidades genéticas motivadas pela tal homozigotia apresentam vantagens únicas impedindo que sejam infestadas pelo mortífero parasita. Em determinadas zonas da África Ocidental 98% da população apresentam anomalias genéticas protectoras contra a malária. Só se consegue atingir aquela expressão através de uma elevada consanguinidade na qual o incesto não deixa de ter o seu papel. O efeito anti-Westermarck acaba por ter vantagens selectivas.
Não sei o que diria o juiz do Estado de Alabama, Roy Moore, defensor da presença dos Dez Mandamentos nos tribunais norte-americanos sobre este assunto, às tantas ainda acabaria de esculpir mais um ou dois à Tábua da Lei que acabou por ser conhecida pela "Pedra Sagrada de Roy".

Um novo ciclo?

Confesso que é uma das frases do “politiquês” que mais me irrita. É geralmente utilizada para criar a ilusão de que a “a partir de agora” tudo vai ser diferente. Chego mesmo a pensar que se houver qualquer agente político que assuma que não quer mudar nada, deverá fazer uma declaração política a dizer que se vai iniciar um “novo ciclo”.

Contudo tenho de confessar a utilidade da expressão para sintetizar o que espero de 2006. Porquê?

As próximas eleições presidenciais encerram um ciclo eleitoral e a abertura de um novo que permitirá reconfigurar o modelo de funcionamento do sistema político português. No último ano e meio realizaram-se as eleições europeias (Junho de 2004), legislativas (Fevereiro de 2005), autárquicas (Outubro de 2005), restando as presidenciais (Janeiro de 2006).

Tudo leva a crer que até ao segundo semestre de 2009 não se realizarão eleições.

O que é que este novo ciclo traz de novo?

1. Pela primeira vez na história da democracia portuguesa o Partido Socialista conseguiu uma maioria absoluta. Em princípio, parece haver condições para que possa governar durante toda a legislatura.

2. O PSD, consolidou a larga maioria da representação autárquica que havia conquistado em 2001.

3. Cavaco Silva “arrisca-se” a concretizar uma outra inovação: pela primeira vez um candidato não proveniente da esquerda tem condições para ganhar as próximas presidenciais à primeira volta, acrescentando esta inovação a uma outra que era já sua, a primeira maioria absoluta na história da democracia portuguesa.

Esta nova partilha de poderes tem condições para proporcionar à sociedade portuguesa um novo período de estabilidade política favorável à concretização das tão ansiadas reformas estruturais. Haja vontade que ambiente e calendário não faltam.

O problema é mesmo o de saber se há vontade e poder para concretizar essa mudança, não dispensando uma questão prévia: mudar em que sentido, com que objectivos, com que estratégia? Para cada uma destas perguntas, confesso não descortinar resposta clara e inequívoca a que junto a minha crescente desconfiança relativamente à eficácia das políticas macro.

Por isso, ao iniciar este novo ano de 2006 e esse “novo ciclo” que parece configurar-se, continuo dividido entre a descrença e a esperança, entre a razão que me leva a pouco esperar e a emoção de quem tem o optimismo como vício incorrigível.

Sem emoção

Como muito bem já aqui assinalou Ferreira d'Almeida, o discurso de Jorge Sampaio não conseguiu sair do registo circular que sempre o caracterizou, a querer estar bem com todos mas a fingir que manda uns recados a lembrar que esteve atento e que, mal nosso se nos passou despercebido, sempre existiu. Pelo caminho ficou a emoção de ter dissolvido o Parlamento, apesar da "solidariedade institucional" que sempre terá dispensado a todos os Governos, passando um pano pelas oportunas intervenções, certamente também solidárias, que na altura fez à existência de vida para além do orçamento e à preocupante crispação que não se coibiu de salientar a propósito das primeiras medidas restritivas então tomadas. Longe vão essas memórias. Agora, que o ambiente está para isso, exorta às reformas e louva a "estabilidade política" resultante da "maioria dada a um só partido", como se a instabilidade tivesse reultado alguma vez de erros eleitorais anteriores.
O discurso flutuou depois erraticamente por acontecimentos dispersos, a crise internacional, o aniversários das independências, a atitude "frequentemente passiva" (?) de Portugal em relação à Europa, um alarme sobre a crise da Justiça que lhe terá merecido atenta relexão ao longo dos mandatos...
Uma intervenção frouxa, sem ânimo, vagamente justificativa, uma espécie de "desobriga" terminada com fórmulas mais que exaustas de orgulho pátrio e confiança na vitória dos portugueses e portuguesas, até nisso pouco convincente. E, como não deve estar a achar grande graça ao tom da campanha eleitoral e à objectiva desvalorização do cargo de que agora se despede, recorda, aí já com algum vigor, a importância da eleição que se aproxima e o papel activo que a Constituição reserva ao Presidente da República.
O apelo à participação eleitoral e o modo como veio lembrar que o cargo, afinal, existe e tem um espaço muito próprio, foram talvez os pontos altos deste mornissimo discurso/balanço.

Desconversar com estilo!...


retórico
Nos tempos que correm, a utilização de uma linguagem redonda e complicada, para além de esconder o vazio de ideias, induz alto respeito pelo orador e confere-lhe insigne aura cultural.
Esta linguagem é comummente utilizada pelo Presidente da República, por grande parte dos políticos, analistas, ditos intelectuais e quejandos, e por todos os que muito falam sem terem nada para dizer.
Como não é possível pôr esses senhores a falar linguagem que o povo entenda, pensei que seria mais fácil pôr o povo a falar a linguagem desses senhores.
É essa a minha primeira boa acção de 2006.
Partindo-se do quadro abaixo, e aplicando-se as duas regras constantes das alíneas a) e b), temos o método de construção das empolgantes frases de que se servem os grandes retóricos deste país.

Coluna 1-----------Coluna 2------ Coluna 3

1. Programação----- funcional --------estratégica
2. Estratégia--------operacional------ integrada
3. Mobilidade-------dimensional------equilibrada
4. Planificação------ transaccional---- global
5. Dinâmica---------estrutural------- balanceada

a) escolha um número de 3 algarismos, no caso, de 1 a 5.
b) Procure em cada coluna a palavra correspondente e componha a frase

Por exemplo, escolhendo o 325, aí teremos esta excelente frase: mobilidade operacional balanceada!...
E se escolhermos o 543, aí teremos uma dinâmica transaccional equilibrada!...

É óbvio que a utilização de qualquer desta expressões passa a ser prova de indiscutível autoridade.
Ninguém compreenderá o que o orador disse, mas-e isto é verdadeiramente importante- ninguém está disposto a confessá-lo.
E aí está a minha boa acção de 2006, que é a de divulgar esta formulação, estruturalmente democrática, já que a todos dá as mesmas oportunidades de desconversar em grande estilo!
Da sua aplicação pública, reservam-se todos os direitos para a 4R.

Circular até ao fim

Sei que é cedo para fazer o balanço dos mandatos do Sr. Dr. Jorge Sampaio como chefe do Estado. A análise sobre a importância do exercício concreto de um qualquer cargo público - ainda para mais numa função com a relevância da presidência da república - exige algum distanciamento no tempo para ser objectiva e assim permitir uma avaliação justa.
Mas a última intervenção do senhor Presidente, pela oportunidade que poderia ter sido para marcar o devir, reclama por uma breve reflexão.
É que a mensagem de ano novo do Dr. Jorge Sampaio, eventualmente uma das últimas em que naquela qualidade se dirige aos portugueses, tornou a revelar a tendência para o discurso fechado, circular. O Dr. Jorge Sampaio sempre se convenceu que a palavra difícil atirada ao ar no momento certo teria um efeito profiláctico face aos conjunturais problemas do País.
Convenceu-se disso até ao fim. Mesmo agora que o seu mandato cessa e nenhuma desvantagem decorreria para si se as palavras fossem ditas, claramente, para as pessoas e não para o ar, herméticas e como habituialmente, redondinhas. Mas não. O Dr. Jorge Sampaio referiu-se uma vez mais à crise da Justiça. Uma vez mais. E de novo diagnosticou os males de que padece que são do conhecimento do mais desatento do cidadão. Esperava-se, assim, não uma quase lamentação, mas nesta oportunidade final a denúncia de situações e de responsáveis. E não cairia a Constituição das escadas de Belém abaixo, se se apresentassem propostas para inverter um estado de coisas que aos olhos do Presidente é especialmente grave.
Retive, em particular, esta parte do discurso presidencial: "A própria democracia é posta em causa quando a justiça não protege suficientemente as liberdades e direitos fundamentais, que são a razão de ser a primeira do Estado de direito".
Como entender esta parte da mensagem?
Está a democracia em perigo porque Portugal é formalmente um Estado de Direito e não um Estado de direitos? Se assim é porque não revela o Dr. Jorge Sampaio em que casos isso se verifica? Nalgum, ou nalguns dos mais mediatizados que têm afinal revelado a crise? Ou será em todos os casos que chegam à justiça? E porque é que é assim, no seu superior entendimento? E quem são os concretos responsáveis pelo desrespeito do princípio da separação de poderes que refere igualmente no seu discurso? O Executivo? Os magistrados? Quem?
Fica a República na mesma, ante a linguagem oracular do Sr. Dr. Jorge Sampaio...
Na boca do cidadão comum é uma banalidade, que soa a verdade, que nesta justiça se não deve confiar.
Mas pode admitir-se sem incómodo que um Chefe do Estado diga - mesmo sem a necessidade de respeitar conveniências políticas porque está de partida - que a "democracia é posta em causa" pela justiça que temos, e depois...deseje bom ano?

domingo, 1 de janeiro de 2006

Pressão arterial, genes, portugueses e africanos...

As doenças cardiovasculares constituem a principal causa de morte no mundo ocidental. No entanto, este grupo de doenças tem particularidades próprias devendo ser divididas em dois grandes subgrupos: as doenças vasculares que atingem o cérebro e as que atingem o coração propriamente dito. Portugal apresenta um padrão único na medida em que o território vascular do cérebro é de longe mais frequentemente atingido ao contrário das artérias coronárias. Por essa Europa fora e na América do Norte o território vascular mais atingido é o do coração. Mesmo nos nossos vizinhos espanhóis este padrão é comum. Durante muito tempo perguntámos por que razão o português fugia e foge a este padrão de adoecer e de morrer. Apontou-se, e muito bem, para o facto da hipertensão arterial ser mais prevalente em Portugal. Mas, logo a seguir perguntamos; qual a razão de sermos tão hipertensos? E a resposta é dada por qualquer um, porque somos grandes consumidores de sal. Correcto. Ingerimos “toneladas” de sal. Sendo assim, a explicação estava dada e podíamos ficar por aqui. Mas, mesmo com a melhoria do tratamento e da prevenção da hipertensão arterial, que se tem traduzido na redução da mortalidade cardiovascular, a situação está ainda muito longe de ser resolvida, permanecendo as doenças cerebrovasculares orgulhosamente à frente de todas as outras doenças. Os próprios médicos começam a desconfiar das estatísticas e não é raro ser interpelado sobre o assunto. Tenho explicado, desde há muitos anos, que um forte componente genético de provável origem africana poderia explicar o assunto. Ou seja, os africanos, vivendo em climas quentes e húmidos sem acesso ao sal (África é um continente paupérrimo em sal), foram pressionados para que os mais poupadores, isto é, aqueles que conseguem reter mais sódio, tivessem mais probabilidades de sobreviver. A partir do momento em que saíram de África para latitudes mais longínquas deixaram de estar sujeitos à pressão selectiva, e, consequentemente, menos necessidade de poupar o sódio.
Agora, um cientista veio revelar, através de um interessante estudo, que cinco genes, implicados na regulação da pressão arterial, são muito mais prevalentes nas populações que vivem nas latitudes mais baixas e nos climas húmidos do que aqueles que vivem nas latitudes mais nórdicas.
Mas o que é que os portugueses têm a ver com as populações que vivem nas latitudes mais baixas? Muito. Não podemos esquecer que, após os descobrimentos, um dos “passatempos” favoritos dos portugueses era importar negros, de tal modo que, no tempo do Marquês do Pombal, a população de Lisboa (e não só!) estava enxameada de africanos. Nos séculos seguintes os negros “desapareceram”, mas não desapareceram os seus genes que devem andar por aí a “poupar” sal num povo que gosta de bacalhau salgado! A miscigenação tem destas coisas…

sábado, 31 de dezembro de 2005

Venha um ano bom

2005 não deixa grandes saudades. Não foi, de facto, um ano bom para a generalidade dos portugueses.
Aumentou o custo de vida e diminuiu a capacidade aquisitiva. Incrementaram-se os níveis de endividamento do Estado e das famílias, aproximando algumas da insolvência. Aumentou o desemprego e não se criaram novas empresas geradoras de trabalho. Estagnou a economia. Não se equilibraram as contas públicas e continuou a hipnose dos projectos megalómanos. Não melhorámos o ambiente. Acentuou-se o descrédito da justiça. Tal como se acentuaram sentimentos colectivos e comportamentos individuais como a inveja e o voyerismo, alimentados por uma comunicação sedenta de escândalos à qual não têm escapado títulos tidos como de referência...
Vendo a coisa positivamente, e recorrendo ao "futebolês", significa isto que em 2006 temos uma boa "margem de progressão" face ao ano triste que foi 2005.
Há, pois, que ser optimistas e cientes de que o ano bom somos nós igualmente que o construímos. Com o nosso esforço, com a nossa participação cívica.
Recordo o sempre citado pensamento de Ward: "O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas".

Desejemos que no ano que entra se ajustem as velas aos bons ventos.

Um bom ano de 2006.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

"Ternura fetal"

A história recente de fraude e de falta de ética do cientista sul coreano, Hwang Woo-suk, a propósito das células estaminais, é revoltante e constitui um duro golpe na credibilidade da ciência, e logo num assunto em que se depositam as mais elevadas esperanças. É de esperar que os opositores da utilização de certas práticas que culminem na obtenção de células estaminais de origem embrionária procurem explorar este lamentável episódio para impor as suas opiniões. Podemos e devemos continuar a apoiar e a aplaudir todos os cientistas que procuram soluções através deste método para ajudar muitos seres humanos, desde que respeitem a ética e a honestidade científica, e são muitos, felizmente.
Os sucessos já obtidos através da utilização das células estaminais são um forte incentivo para o desenvolvimentos da recém medicina regenerativa. Mesmo as cautelas apregoadas por muitos colegas de que não se deve transmitir expectativas muito elevadas a esta área, apesar de serem sensatas, não impedem, nem impedirão o aperfeiçoamento deste capítulo da investigação científica.
A natureza tem o condão de se antecipar à intervenção humana. Então, na área da saúde, confrontamo-nos com frequência com esta afirmação. Somos, naturalmente, portadores de muitas células estaminais que deverão ter algum papel na regeneração de algumas lesões. Como e quando é que elas actuam é que mais difícil de saber, mas lá chegaremos, é uma questão de tempo. Quem sabe, se um dia, não iremos aprender a domesticá-las em nosso benefício.
Um fenómeno muito curioso tem a ver com o microquimerismo. Ou seja, a partilha de células de outro ser no seu próprio corpo. As mulheres durante a gravidez são invadidas por células estaminais oriundas do feto, permanecendo durante muitos anos, mais de vinte, no seu corpo. Para que servirão estas células? Há quem aponte que, possuindo capacidades “reparadoras” de lesões maternas, contribuem para a saúde da progenitora. Este fenómeno também foi observado noutras espécies. Uma verdadeira ternura fetal: fornecer à mãe as suas próprias células estaminais de forma a ajudar a reparar lesões. Especulação científica? Pode ser que sim. A nossa ignorância é muita e dissertar sobre estes temas é legítimo, atendendo ao facto da natureza, habitualmente, gostar de se antecipar às nossas descobertas.

O candidato do contra!...

Mário Soares começou por ser contra Cavaco!...
Depois, contra Cavaco e Alegre.
Hoje, também é contra a comunicação social pública e privada e contra os Grupos que a detêm(onde se inclui o Estado...)
Amanhã, será contra as sondagens...
Depois de amanhã...contra os portugueses!...
Já sabíamos: Mário Soares é só a favor de si próprio!...

"O Tempo, esse grande escultor"

Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minhas lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los.

Marguerite Yourcenar in “O Tempo, esse grande escultor”



Vi ontem na SIC Notícias, um excelente documentário de Cândida Pinto sobre Sá Carneiro e Snu Abecassis. Baseado em breves imagens de arquivo e depoimentos da família e amigos, o filme consegue construir de forma serena mas muito interessante a história de uma paixão que ficou para a História.
Este País do fado, da acomodação ao destino infeliz, tem um estranho fascínio pelos amores que tudo desafiam e se erguem como estandartes a mostrar que é possível, que “há razões que a razão desconhece” e que só os espíritos mesquinhos teriam preferido ver abafado o ímpeto da paixão. Também é certo que as histórias mais celebradas acabaram mal, numa espécie de vingança do destino que não deixa ser felizes para sempre os que desafiaram as páginas do que estava escrito. Talvez seja essa a moral nacional, não sei, Pedro e Inês deixaram marcas em rios de lágrimas engrossados pelas fontes do amor…
Nunca saberemos como terminaria a paixão de Snu e Sá Carneiro, se comportaria a lenta e difícil metamorfose do impulso avassalador para um amor profundo e sereno, que permite que duas pessoas envelheçam juntas, ou se se iria evaporando com a erosão dos anos, passada a rebeldia da transgressão e o fascínio de poder recomeçar quando tudo já parecia tão determinado.
A figura de Snu Abecassis aparece apenas desvendada, algo indecisa sobre qual seria o pendor dominante – se a jovem inquieta, ávida de aventuras, alegre e empreendedora, se a mulher culta e profissional competente, se a mãe distante, se a sedutora que fazia amizades e dinamizava círculos de convívio, se a mulher discreta, de roupas simples e elegantes, que causava sensação, se a apaixonada que troca os frios nórdicos e civilizados por um país meio esquecido e antiquado onde abre caminho sozinha, sem abdicar do seu estilo muito próprio…
Notável o modo discreto e franco, com um traço de amargura mal disfarçado, como dois dos filhos se lhe referiram “tenho pena de não ter conhecido melhor a minha mãe” ou “tinha um beijo de manhã, outro à noite, era um ritual…” em contraste com o afecto visível do filho de Sá Carneiro, a quem o pai disse, quando ele se juntou à nova família “vou educar-te outra vez”, o único que usou a palavra “saudade” para exprimir o seu sentimento.
Não sei quantas vezes será ainda efabulada esta paixão, as intrigas políticas, as pequenas ou grandes traições que a envolveram, quantas vezes a memória será corrigida e acrescentada. O Tempo, esse grande escultor, se encarregará de o fazer.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Cavaco Silva e a Inovação

“…A evolução do nosso modelo de desenvolvimento, no sentido do reforço das componentes de inovação ao nível dos produtos e dos processos e da generalização do uso das tecnologias de informação, indispensável para que o país vença no contexto da integração e da globalização dos mercados, justifica, em meu entender, o apoio activo e empenhado do Presidente da República…”
Cavaco Silva in “As minhas ambições para Portugal”-Porto 27.10.05
Num documento relativamente recente, enviado ao Conselho e ao Parlamento Europeu, a Comissão Europeia referia, entre os quatro grandes desafios para a Europa, o da evolução tecnológica e organizacional e o da inovação e espírito empresarial, sendo os outros dois o da globalização e o da sustentabilidade e das novas exigências sociais.
Cavaco Silva, numa frase simples, mas de grande significado, referiu-se àqueles dois primeiros objectivos, como condição de assegurar a alteração do nosso modelo de desenvolvimento e ao apoio que lhes dará.
“A competitividade e o crescimento económico assentam, cada vez com maior frequência, na inovação, ou seja, no desenvolvimento e na exploração comercial de novos produtos e serviços novos ou aperfeiçoados, bem como na optimização dos procedimentos empresariais", refere a Comissão no citado documento.
Mas esta mudança exige um novo espírito e um renovado ímpeto empresarial, aliás visível nas novas empresas de base tecnológica que estão a surgir e a desenvolver-se.
Cavaco Silva está bem informado e sintonizado com esta nova realidade, conhece-a e apoia-a.
É por isso que muitos empresários novos, dinâmicos e com o sentido das novas exigências sociais apoiam firmemente Cavaco Silva, como se comprova no site da sua candidatura.

Para alguns dos candidatos


É um jogo. É inofensivo. Recomendado para alguns candidatos (o povo é virtual, não sofre). Por aqui, sff...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

A conversa de Soares

As ideias de Mário Soares, ao que tenho observado na sua triste campanha, resumem-se a duas:
-atacar Cavaco Silva em todas as vertentes, seja ela política, profissional, ou mesmo pessoal.
-diminuir as funções presidenciais ao mínimo, de forma a que o povo possa acreditar que é capaz de as exercer.
Com tal política, Mário Soares passa um atestado de menoridade a ele próprio, o que, não sendo preocupante, não deixa de ser lamentável.
Mas passa, sobretudo, um atestado de imbecilidade ao povo português, pedindo-lhe o voto para uma função que se esforça por apresentar sem conteúdo, mas que só ele seria capaz de exercer.
Se isto não é gozar connosco, só pode ser a prova acabada da arrogância infinita de quem pensa que vai iludir o povo com tão primária e insensata conversa.
Deixe de nos importunar com essa argumentação rasteira ou, se não sabe fazer melhor, desista, que o seu desistir até teria graça!...

O Pé na Poça

Mário Soares continua a sua saga contra gigantes imaginários. Agora foi o “escândalo”, que toca as raias do ridículo, da referência feita por Cavaco Silva à existência noutros países de uma Secretaria de Estado para o investimento estrangeiro. Tal é a ansiedade por apanhar o mínimo pretexto para uma diatribe, que nem há a preocupação de respeitar os limites do senso mais banal. Foi penoso ver uma plateia muito composta a assistir a um discurso inflamado sobre “o pé na poça” e a “intromissão intolerável no poder executivo”, prenúncios mais que óbvios das terríveis intenções do Prof. Cavaco Silva. Seria ridículo, se não fosse triste, afinal é uma campanha presidencial…Mário Soares e, já agora, os outros candidatos, que não resistiram em fazer um eco absurdo de tal reacção, é que caíram na poça bem funda do “ tremendismo” eleitoral.

Chaplin


No dia de natal de há 28 anos desapareceu um génio.

"Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando.
Falei como um palhaço, mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria"

"Autodomesticação"

A morfologia e a fisiologia dos seres humanos, assim como das outras espécies, são frutos de uma interacção com o ambiente, caldo e força determinante na selecção dos genes mais adequados à sobrevivência das espécies.
Durante milhões e milhões de anos, os diversos ambientes, físico, químico e biológico, foram as forças primordiais. Só muito recentemente é que foi criado um novo ambiente, o cultural.
Tem-se perguntado se, no caso dos humanos, a evolução continua ou parou. Será que o homem atingiu o ponto final da evolução, escapando às forças que estiveram na sua origem? Parece que não. Apesar do ambiente cultural ser muito recente, tudo aponta para que tenha já feito das suas, alterando a composição genética de algumas espécies, inclusive a do próprio criador.
Estudos recentes revelam alterações de cerca de 1.800 genes, 7% do total do genoma humano, motivadas pelas forças culturais. Há como que uma “autodomesticação humana” comparando com o observado, por exemplo, a nível do genoma do milho, face aos antecessores do mesmo.
Passaram apenas 50.000 anos de ambiente cultural, o que à escala global é uma pequeníssima fracção de tempo, mas, mesmo assim, tudo aponta para que a pressão selectiva, agora a outros níveis continue a processar-se. Importa conhecer mais este mundo e especular sobre o que poderá acontecer no futuro. A própria forma de conviver, em termos sociais, com aglomerações constantes e contínuas propiciando uma maior facilidade na transmissão de doenças infecciosas “exige” modificações genéticas de forma a tornarmos mais resistentes às infecções. Do mesmo modo, o nosso cérebro e as suas múltiplas funções não deixarão de sofrer alterações, e, quem sabe, se a nossa própria morfologia não se revestirá de novas formas no futuro.
O que acontecerá aos valores e princípios ditos universais? Manter-se-ão, evoluirão, serão substituídos por outros que nem sonhamos ou pensamos? Quase que poderíamos afirmar que o homem não é um produto acabado, mas sim um produto em permanente e constante evolução, apesar de lenta aos nossos olhos, mas rápida à escala universal, sem que se saiba o que irá acontecer a seguir. Mas a beleza de tudo está precisamente aí, não saber o que vai acontecer no futuro…

O Perú


Antes que a política volte a ocupar os nossos dias, deixem-me contar-vos por que motivo me recuso a assar o perú de Natal.
Desde que me lembro que todos os anos chegava a nossa casa o cesto da Conceição. A Conceição era uma antiga empregada da minha avó que ficou amiga da minha mãe até morrer de velhinha. Morava no campo e criava amorosamente um peru que lhe mandava religiosamente num cesto, pelo Natal. Acontece que o bicho era gordo, tão gordo e luzidio que mal cabia no forno e havia sempre um abanar de cabeças muito céptico: - Não cabe, mãe, é melhor ir a assar noutro lado, não vês que aqui não cabe?
Escusado. Era para assar ali e acabou-se, era uma homenagem a quem o dava com tanta amizade. O meu pai, muito engenhoso como sempre, desmontava o forno e fazia milagres para lá encaixar o peru, mas era certo e sabido que, a meio da assadura, o molho caía para fora do tabuleiro e pegava fogo. Uma fumarada, muita agitação, lá se compunha tudo e, muitas horas mais tarde, tostado e delicioso, o peru ocupava o seu lugar central na mesa de Natal. As asas carbonizadas eram disfarçadas com um artístico improviso e todos faziam as honras a tão delicioso presente.
Um ano aconteceu que o bicho era tão grande que, antes que a minha mãe o visse, o meu pai resolveu serrá-lo a meio para ser feito por duas vezes. Foi um drama, por pouco não tínhamos Consoada…
Num ano em que estive fora, o Natal foi a altura em que senti umas saudades impossíveis. Liguei para casa a meio da tarde, a imaginar a azáfama de que, pela primeira vez, eu não fazia parte. Atendeu uma das minhas irmãs, a voz alterada, a tentar não gritar comigo. "– O que há? Aconteceu alguma coisa? – perguntei em pânico. – Claro,- gritou ela - , tinhas que ligar logo na altura em que o peru está a arder?" Fiquei em suspenso, do outro lado do Atlântico, até confirmar que só se tinham carbonizado as asas…E fartei-me de rir sozinha, por ter apanhado em cheio aquele pedacinho de Natal de casa.
O “peru da Conceição” anulou para sempre qualquer competição. Nunca mais foram tão grandes, nem tão saborosos e, sobretudo, nunca mais nenhum teve honras de histórias para celebrar. Mas esses, os dela, são sempre lembrados como se estivessem à nossa frente.

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

Aos Druidas


Nestas alturas em que é preciso fazer os impossíveis para que as festas corram todas a contento lembro-me sempre da "Prova dos Druidas" do Astérix, em que cada etapa desafia a imaginação mas depois acaba por ser ultrapassada com êxito, mesmo a tempo de se enfrentar a seguinte até que finalmente se esgotam os obstáculos e se pode suspirar de alívio e satisfação. Não estou a complicar, é mesmo assim!, quando começam a tocar à campainha e se acendem as luzes da sala, as velas a brilhar, a mesa posta, os enfeites de Natal prontos a receber os comentários, tudo alinhadinho na cozinha para surpreender os indígenas e os outros, os sacos de presentes identificados e as listas com os nomes devidamente riscados ao longo dos últimos dias, sinto uma agradável afinidade com Panoramix, o druida, que colhe o zimbro e prepara as poções mágicas, e em que todos acreditam que levará a bom termo a sua missão.
Claro que os druidas não fazem tudo sozinhos, há uma aldeia inteira a espalhar a confusão e a contribuir também para que no fim brindem todos com alegria, bebido que esteja aquele golo de poção que mais não é do que a vontade de agradar e o desejo de ver felizes aqueles de quem gostamos.
A todos os druidas que renovaram as virtudes da poção mágica as minhas cordiais saudações por mais um Natal celebrado em Paz e Alegria!

Os Marcianos!...

Este Portugal político deixou de ser real, transformou-se num país marciano e retórico, pelo que qualquer cidadão normal pouco entende do que se passa.
A “esquerda” marciana anda para aí obcecada em derrotar o que denomina de candidato da direita, Cavaco Silva e em levar a Belém um candidato de esquerda.
Mas os candidatos da esquerda marciana Louçã e Jerónimo estão contra os candidatos também da esquerda marciana, Soares e Alegre, porque apoiam um Governo de pseudo- esquerda, já que, segundo eles, faz política de direita.
E acusam o Governo do PS e o próprio PS de, tal como a direita, não respeitarem a Constituição.
Assim sendo, um cidadão deste país dificilmente entende que candidatos de esquerda acusem outros candidatos de esquerda de não cumprir a Constituição e, ao mesmo tempo, apelem à vitória de um dos candidatos de esquerda, precisamente de um dos que não iriam cumprir a Constituição!...
E se esse mesmo cidadão poderia facilmente entender que os candidatos de esquerda que apoiam um Governo que faz política de direita não podem senão ser assimilados a candidatos de direita, já por certo não compreende que esses mesmos que produzem tal acusação continuem a considerar que sejam de esquerda os candidatos que apoiam um Governo que faz política de direita!...
E mais baralhado ficaria, se lesse o DN do Dia de Natal.
Segundo o DN, “o PSD foi o partido que mais vezes votou ao lado do PS na aprovação das propostas de lei que o Executivo de José Sócrates levou, este ano, ao Parlamento. Os sociais-democratas votaram favoravelmente 11 propostas do Governo, e só por seis vezes se manifestaram claramente divergentes (com voto contra) às medidas avançadas pelo Executivo na Assembleia da República”…enquanto o PCP e o BE “chumbaram por 13 vezes (cada um), os diplomas governamentais apresentados aos deputados…”.
Como é que um cidadão compreende tal retórica marciana se o PSD é diariamente acusado de ser um partido da direita e o Governo do PS se assume diariamente como um partido de esquerda, mas contra o qual votam os outros partidos de esquerda?
E como fica o cidadão ao ver que esta “obra-prima” é trabalho exclusivo de políticos profissionais?
De facto, esta esquerda ou estas esquerdas marcianas, não sabendo o que são, e vivendo em planeta longínquo, tornaram-se verdadeiros mestres da incongruência e da retórica bizantina!…
E querem que o povo os entenda!...

sábado, 24 de dezembro de 2005

Recordação de Natal

Esta historieta, de um Portugal que já não existe, só a poderá entender quem, como o Ferreira de Almeida ou o Massano Cardoso tenham vivido fora das grandes cidades e tenham conhecido a vida das pequenas terras.
Quando era muito miúdo, um dos homens a dias que trabalhava na agricultura, em casa dos meus pais, era o Sr. Emídio, mais conhecido pelo Emídio Ferreiro, em alusão à sua outra profissão.
De todos os homens a dias, era do Sr. Emídio que mais gostava.
Se andava a pôr couves, eu lá estava a tentar ajudá-lo, se plantava alfaces, eu lá estava a dar-lhas à mão, acompanhava-o nas semeaduras, nas regas, nas mondas e nas colheitas.
O Sr. Emídio contava-me histórias, sobretudo da 1ª Grande Guerra, onde esteve, em 1917.
Descrevia as trincheiras, os ataques de baioneta, a agonia dos feridos, enaltecia os actos de valentia e condenava os cobardes que procuravam fugir.
O Sr. Emídio tinha sido 1º cabo e dizia-o com muito orgulho da posição hierárquica que tinha atingido.
Para mim, nessa altura, ser 1º cabo era o posto máximo da carreira militar, o chefe supremo.
Mas contava-me outras histórias e descrevia-me a grande cidade de Lisboa por onde tinha passado uns anos, com tanto entusiasmo que da primeira vez que vim a Lisboa quis ir ver os sítios de que me falava o Sr. Emídio.
Por essas alturas, o meu Pai andava a fazer obras para aumentar a casa.
Em pedra, claro.
Para o trabalho da pedreira e dos pedreiros era preciso ter os guilhos, os picos e demais ferramentas bem afiadas: disso se encarregava o Sr. Emídio na sua forja.
Deste modo, passei a ir também à forja do Sr. Emídio, onde o via a dar ao fole, espevitando o braseiro, de forma a pôr o metal ao rubro para ser moldado, com fortes marteladas, em bicos bem afiados que penetrassem na rocha.
Era aliás esse o braseiro a que o prior da minha terra aludia, com ar bondoso, meio sério, meio a rir, quando falava aos miúdos do inferno: portassem-se mal e lá cairiam no inferno, onde o fogo era bem pior que as brasas a arder da forja do Sr. Emídio!...
Afeiçoei-me ao Sr. Emídio.
Em determinado Natal, pedi ao meu Pai para dizer ao Sr. Emídio para consoar connosco.
Não muito convencido, mas depois de me ver muito triste, o meu Pai lá se resolveu: oh! Emídio, venha logo comer o bacalhau cá a casa!...
Que não, dizia e repetia o Sr. Emídio.
Mas eu lá o convenci e ele veio com a mulher, a Srª Nazaré.
Em vários anos seguintes, repetia-se a cena e lá estava em casa também o Sr. Emídio.
Pela lei da vida, o Sr. Emídio morreu há muito.
Mas não há noite de Natal em que não me venha do Sr.Emídio uma doce e nostálgica recordação.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

“Tediologia”

O tédio é algo com o qual nos confrontamos, volta não volta. Claro que muitos de nós, sobrecarregados de trabalho e de responsabilidades, não têm tempo para se entediarem. Mas, caso isso aconteça então sejam bem-vindos à nova disciplina de tediologia (boringology).
O pai da tediologia é o médico norte-americano William Bean. Um especialista no estudo do crescimento das unhas dos pés. Em 1980 publicou um trabalho nos Archives of Internal Medicine culminando 35 anos de observação de crescimento das unhas. Quando tinha 32 anos desenhou uma linha na cutícula da unha esquerda do dedo grande e foi medindo o crescimento. Verificou que a unha crescia 0,123 mm por dia ou seja 1,4 nanometro por segundo. Também verificou que só as infecções fúngicas e o envelhecimento é que reduziam a velocidade do crescimento. Aos 61 anos o crescimento reduziu-se para 0,100 mm por dia e seis anos sofreu nova redução de 0,005 mm/dia.
Claro que há outras formas de passar o tempo tais como: calcular o tempo das tintas da parede a secar, medir o crescimento da relva do jardim, contar o número de dejectos de canídeos por metro quadrado da nossa rua e correlacioná-lo com as épocas do ano, registar a frequência com que o vizinho do andar de cima urina durante a noite, o número de vezes que o arrebenta diz mal do Cavaco Silva por 100 caracteres e a sua evolução à medida que se aproxima o dia das eleições ou, então, fazer o que José António Lima fez no Expresso de hoje, ou seja, as vezes que o Mário chamou de tudo ao Cavaco no último debate, dezoito mais uns etc. Aqui está um exemplo óptimo de como se deve praticar tediologia…

Sabor a hipocrisia - III

Quando há dias vi o espalhafato mediático da demolição de três apoios de praia com honras de ministro presente, pensei logo que a conhecida "estratégia de Sócrates" tinha ali uma das suas habituais expressões.
Sócrates, enquanto Ministro do Ambiente, experimentou com enorme sucesso uma estratégia de balanço entre medidas simpáticas e politicamente correctas nos domínios do ambiente mas sobretudo espectaculares no plano mediático, com outras de impacto e aceitabilidade pública negativos.
Preparava as últimas compensando com a exploração do efeito positivo das primeiras.
A espectacularidade do anúncio da demolição das torres de Ofir ou do prédio Countiho em Viana do Castelo, como a propaganda massiva na campanha do encerramento das lixeiras (que boa verdade deveriam ter sido creditadas à sua antecessora no cargo), prepararam o terreno para antenuar os efeitos da opção pela co-inceneração.
Com esta estratégia, a verdade é que criou a imagem de um homem preocupado com as questões do ambiente, capaz de se impor em defesa dos valores ambientais, conseguindo inegavelmente "boa imprensa".

Mas a realidade das coisas é que lá estão as torres de Ofir de pé, o prédio Coutinho vai-se aguentando, muitos foram os problemas com os aterros de RSU e a co-inceneração está de regresso...

Quando vi a encenação por parte do Ministro do Ambiente da demolição de três bares de praia há muito condenados (em detrimento do cumprimento do Programa Finisterra que calendarizava e elegia as fontes de financiamento para promover uma política séria de protecção e valorização da costa portuguesa), dei comigo a pensar: "vem aí a barragem do Sabor".

Bingo!

Sabor a hipocrisia - II

Ouvi agora o sr. Primeiro-Ministro a depôr em favor da construção da barragem no rio Sabor.
Disse que nunca o PS se manifestou contra tal projecto. Mas disse mais. Que quem aprovou a localização não foi ele, foi o governo anterior. Entende ainda o Engº Sócrates que em nome da estabilidade não podemos andar sempre a mudar de posição nos grandes investimentos.
Ainda me consigo surpreender com a suprema lata com que alguns dos dirigentes políticos justificam as suas atitudese!
Que o PS se manifestou contra a barragem no Sabor é um dado amplamente registado pela comunicação social quando o Governo do Dr. Durão Barroso anunciou a intenção de construir aquela estrutura. Já o argumento de que se pretende, em nome da estabilidade, executar uma decisão que, afinal, é da responsabilidade de governos anteriores (!), é de um nível de intolerável hipocrisia. Com esta afirmação pretende-se fazer passar a ideia de que o governo é contra por razões ambientais. Que o contributo da barragem para o desenvolvimento económico não se sobrepõe ao interesse geral da conservação da natureza. Mas que não tinha outra alternativa face à ma decisão dos governos PSD/CDS-PP senão dar-lhe execução não vá o País sofrer mais um abalo telúrico de instabilidade...

Definitivamente perdeu-se todo o decoro!

O valor da estabilidade não fez, por exemplo, hesitar o PS na revogação de outras medidas dos governos anteriores com as quais se pretendeu reforçar as políticas de conservação da natureza, como foi o caso dos diplomas que visavam um maior envolvimento dos autarcas e das populações na gestão das áreas protegidas ou da desactivação táctica do programa FINISTERRA de protecção e valorização dos ecossistemas litorais.

Face a este episódio, noutro ângulo de observação fico na expectativa de ver a reacção de alguns dirigentes de associações ambientalistas quanto à sua afirmada independência dos partidos políticos (já que da oposição, nestas matérias como noutras, pouco há a esperar...).

Sabor a hipocrisia - I

O Conselho de Ministros aprovou a localização de uma barragem para aproveitamento da mais-valia eléctrica do rio Sabor.
Em tempos que já lá vão (nos governos da coligação PSD/CDS-PP) a mera hipótese de isto vir a suceder, fez tremer o Carmo e a Trindade! Ele foram os movimentos ambientalistas, a indignação parlamentar dos partidos da oposição. Ele foi, sobretudo, a firmeza com que o PS, pela voz - amplificada pela sempre disponível comunicação social - do ex-secretário de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza do governo do Engº Guterres, diabolizou a possibilidade de se artificializar aquele que é considerado o único rio selvagem da Europa.
O ex-Secretário de Estado e ambientalista de serviço do grupo parlamentar do PS, vergastava então o saudoso ministro Theias, atirando-lhe à cara tudo quanto pode afectar a reputação de um minstro do ambiente: não ser amigo da conservação da natureza, ser responsável por violar directivas comunitárias de protecção da biodiversidade, ceder a essa coisa monstruosa, com que o PS nada tem a haver, que se designa por "interesses económicos"!
Repetiu no Parlamento essas acusações (vd. DAR, IX Leg., nº 55, p. 3067).

O destino é irónico, embora sem consequências para a mais descarada hipocrisia política.

Então não é que é o actual ministro da Presidência, a mesma realidade antropomórfica do ex-secretário de Estado de Guterres que como deputado da oposição era a voz da indignação e o defensor da intangibilidade do Sabor, vem anunciar ao País a deliberação do Conselho de Ministros em nome do desenvolvimento económico?

Ainda se queixam da falta de credibilidade dos políticos...

Consoada moderna



Por esta altura, aquela pequena angústia de ainda ter imensas coisas para fazer e o Natal ser já depois de amanhã começa a transformar-se em pânico. Os presentes que ainda falta comprar ou fazer, os amigos com quem tanto queríamos falar para desejar um Bom Natal e que ainda não houve ocasião de sossego, as visitas que estavam previstas e que agora talvez antes do fim do ano…
Mas o mais complicado é mesmo quando nos calha a nós fazer a Consoada! Manda a prudência que se faça uma lista das compras – o perú, por favor, dos pequenos e já cozinhado! – sob pena de se chegar a casa com óptimas coisas que se vai experimentar e depois concluir que afinal estão todos à espera dos petiscos do costume…O passo seguinte é fazer o inventário de quantos virão à chamada.
E era aqui que eu queria chegar. Este ano esta contagem de cabeças – felizmente muitas, o trabalho para 30 ou 40 não é muito diferente! – revelou-me uma realidade nua e crua: a família internacionaliza-se! É que a miudagem cresceu e anunciam que trazem os (as) namorados(as).
- Para o Natal?, pergunto eu admirada.- E então não têm família? Têm, claro. Mas um é grego, outra italiana, uma espanhola, a outra é polaca e ainda há uma búlgara que vem de Londres…E, por favor, não esquecer que dois são vegetarianos e se calhar há uns que detestam bacalhau!
Aqui está o mote do futuro: crescei, multiplicai-vos e…internacionalizem-se!
Parece-me que depois do Natal vou ter uns posts para escrever...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Boas Festas e Feliz Natal


Natal
Olhai a gravura que um prego contém
Na escura parede da casa aldeã
Menino tão lindo só Este, em Belém
Ao colo da Rosa da Eterna Manhã

Em torno se curvam os reis e pastores
Oferecem-lhe humildes e ricos presentes
Os Anjos Lhe entoam celestes louvores
Por coroa um rebanho de estrelas cadentes.

Diante da estampa sagrada, uma prece
Estreita as mãozitas há pouco em labor
Jesus pequenino olhai que parece
Lançar-lhes a bênção da paz e do amor

São dadas as doze na torre de sino
Os flocos de neve são flocos de lã
Nasceu, num presépio, o filho divino
Do ventre da Rosa da Eterna Manhã

António Manuel de Couto Viana


Para a Suzana, David Justino, Ferreira de Almeida, Vítor, Massano, Miguel e toda a vossa família, os meus votos de um Feliz Natal, com muita saúde, harmonia e alegria de viver.

Para todos os nossos Visitantes e particularmente para os mais assíduos, Tonibler/CMonteiro, Crack, Anthrax/Vírus, Reformista, Cardeal de Alpedrinha, Esperança no Provir/Elisiário, Jorge Lúcio, José, Marga, LMSP, Ricardo Andrade, Nuno Martins, Adriano Volframista, Ouvidor, Ruvasa, PM, Manta de Retalhos, Ofício Diário/Torquato da Luz, Fernando Cabral e tantos outros, também os votos de Festas Felizes e os agradecimentos pelas contribuições, concordantes e discordantes, que enriqueceram o 4R, e pelo companheirismo que evidenciaram.
Um Feliz Natal e voltem sempre!…

Um Bom Natal!


Confesso que este ano hesitei. Os dias foram passando, hoje não posso, amanhã logo vejo, onde é que eu vou agora encontrar uma árvore bonita, as crianças já são grandes e não estão cá… Para quê fazer a árvore de Natal e o Presépio?, ponho as figurinhas num canto e já está…
Mas ontem cheguei a casa, tarde como sempre, e ali estava num canto da cozinha um pinheiro todo embrulhado, muito bonito, com um papelinho a dizer – “Procurámos desses que a Câmara vende, com raízes e terra, depois podes plantá-lo”! As minhas filhas sabem dar recados bem directos…
E lá arrastei a mesa, medi o canto na sala, gastei um tempão a arranjar o suporte que comportasse as raízes e, ainda de mau humor, lá consegui que a árvore não me caísse em cima. Ainda pensei: fica assim, amanhã vou buscar os caixotes com as mil coisas que fomos acumulando, escolho duas ou três, e está feito!
Mas o pinheiro cheira tão bem! E fui buscar tudo. Ficou uma árvore bem pirosa, daquelas cheias de cor e bolas diferentes, nada de geometrias ou tudo a condizer, uma árvore de Natal tem que brilhar por todos os lados e levar muito tempo a apreciar tudo o que tem. O pior foram as luzinhas, é sempre o mais difícil de pôr para ficar bem e não se apagarem a meio com os puxões.
Sobravam por fim as caixas do Presépio, muito rancorosas a olhar para a minha cara de quem ia mas é dormir, já chega por hoje…
Mas abri a primeira e dei logo com a cabana de cortiça e o Menino Jesus de pernas para o ar lá dentro, coitado, um ano inteiro assim e ainda a ter que dar presentes! Procurei o meu mau humor e tinha desaparecido…
Lá tirei tudo, o prazer de rever, de associar cada peça ao momento em que a escolhemos, esta foi daqui, aquela dali, mas porque é que a vaca e o burro não cabem na casinha?...ah, bem sei, partiram-se os outros quando o Presépio se virou há 2 Natais atrás com as brincadeiras dos sobrinhos pequenos.
Acabei já eram várias horas do novo dia, mas tive pena de não ter mais peças ainda. Um Presépio é também uma celebração de todas as vezes que nos juntámos para o Natal, dos que vieram de novo em cada ano e também dos que estiveram mas já não podem voltar, por isso vai crescendo, coisas novas e coisas velhas, numa harmonia que espelha os encontros da família e o desejo de os repetir.
Dá trabalho, é verdade, mas é tão bonito! E ganhei uma árvore nova para o meu jardim, se uma mãozinha deslumbrada não derrubar num instante estas horas de paciência e encanto. Mas isso também faz parte das festas…
Um Feliz Natal a todos!

Presunçosa ideia!...

Segundo a sondagem da Marktest de terça-feira, apenas dois em cada cinco socialistas votariam em Mário Soares. Dos 3 restantes, um votaria em Cavaco e dois em Alegre/Louçã.
Assim sendo, Soares já nem sequer tem o apoio maioritário dos socialistas e, nessa ex-sua área, apenas tem o dobro dos apoiantes de Cavaco.
E o seu adversário é Cavaco Silva?
Ingénua, arrogante e presunçosa ideia!...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

O "professor" dr.!......!.......!..

Para não ficar aquém de Cavaco, Mário Soares disse ontem no debate que também tinha sido professor!.........................!...............!..
Extraordinário!...
Que mais poderá acontecer aos professores?

Afinal, o que diziam os líderes europeus de Cavaco?

No debate de ontem Mário Soares lançou a suspeição sobre o desempenho de Cavaco Silva nos Conselhos Europeus. Instado a divulgar o que lhe haviam dito sobre CS, Mário Soares refugiou-se na "elegância" para não concretizar o esclarecimento.
O que é mais curioso é o facto desse testemunho fazer parte de uma obra sua:

«Os socialistas (europeus) consideravam-no, de um modo geral, como um homem correcto, competente, conhecedor dos dossiers, eficaz, embora sem aquilo a que Mário de Sá-Carneiro chamava o "golpe de asa" (...) o que faltou a Cavaco foi o golpe de asa».

- Mário Soares, Soares, O Presidente

O mistério está esclarecido e resume-se ao "golpe de asa", característica exclusiva dos socialistas europeus. Eles voar voam, mas muito baixinho...

Mais debates?

“O sistema democrático português, tornado possível pelo 25 de Abril, tem valorizado excessivamente debates em torno do acessório e tem descurado o essencial”

Mário Soares, Conferência de Imprensa, Porto, 17.03.83

“O País está consciente das grandes dificuldades com que está confrontado. Espera os sinais de mudança por que anseia. Tê-los-á, em estilo discreto, tranquilo, seguro, que privilegiará o trabalho sobre o discurso, as realizações sobre as promessas, o cuidado de eficácia sobre a criação de factos políticos artificiais, que só servem para agitar fugazmente a comunicação social”.

Mário Soares, Discurso de apresentação do Programa do IX Governo Constitucional, feito na AR (20.06.1983)

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

Debate Soares-Cavaco

Mário Soares jogou os trunfos todos que tinha, mas não se pode ir a jogo só com paus.
Deu uma imagem que se traduz em deselegância e deslealdade. Um candidato a Presidente da República não pode dar esta imagem. Esta é a imagem da velha política, dessa de que o Povo português está farto e desconfia.

Obsessão doentia!...

Confirmou-se mais uma vez no debate.
A única ideia, fixa, de Soares, é atacar e apoucar Cavaco. É a sua obsessão doentia e permanente.
Outras ideias, se porventura as tem, são tão voláteis que nem uma lhe ocorreu durante os 30 minutos de que dispôs.
Depois de vários dias de treino, Soares fez hoje o "harakiri" final!...
Como quer repetir a cena, já nem merece comiseração.

A brincar com o fogo

Ficámos hoje a saber que o Ministro da Economia foi mesmo à Alemanha "pedir aos administradores da Volkswagen para que pudesse ser atribuída a construção de mais modelos à fábrica de Palmela". Eu não sei qual terá sido a reacção dos administradores da VW, mas esta de ir "pedir" mais um novo modelo para Palmela, tem alguns toques de ridículo.

Mas o ridículo não se fica por aqui. Em declarações na Comissão dos Assuntos Económicos do Parlamento, Manuel Pinho disse estar "muito desapontado e muito desiludido" com o comportamento da Comissão de Trabalhadores, responsabilizando-a pelo futuro da Autoeuropa. Depois reune com a dita e reconhece que ficou melhor informado, fazendo um apelo ao diálogo e assumindo que foi essa reunião que manteve a porta aberta.

Jerónimo de Sousa, pela tarde e aproveitando o debate mensal com o Governo, denuncia as declarações de Manuel Pinho. José Sócrates responde que o seu Governo «não tomou partido por qualquer das partes, administração ou trabalhadores».

Não andarão todos a brincar com o fogo?

Pagar? Para quê?

No dia em que o nosso Parlamento discutia os biliões do orçamento da UE para 2007-2013, um amigo contou-me uma situação, que merece ser divulgada.
Devido à doença de um familiar que entretanto faleceu, havia várias despesas relativas a taxas moderadoras de internamentos hospitalares que estavam por pagar.
Deslocou-se à urgência do Hospital de S. José onde apresentou as notas de débito.
A senhora que o atendeu somou as despesas - 23,20 €.
Entregou o dinheiro e a senhora disse-lhe que ia emitir o recibo.
Qual não foi a sua surpresa quando a senhora o informou que não podia emitir o recibo da totalidade dos 23,20 €, porque uma das despesas - de 6,90 € - era do ano de 2004.
"Desculpe, mas se for necessário pago os juros", disse-lhe este amigo.
"Não posso receber este dinheiro, nem tenho forma de lhe passar o recibo", respondeu-lhe a senhora.
"O senhor tem que se dirigir aos serviços centrais", acrescentou.
"Só lá é que podem receber esta despesa, porque o sistema informático mudou e só tenho acesso às despesas de 2005".
Este meu amigo gosta de pagar todas as contas. Detesta dívidas e atrasos nos pagamentos.
Agora, tem no bolso uma nota de débito do ano de 2004 no valor de 6,90 €, do Hospital de S. José, que quis pagar e não puderam receber.
Mas o maior drama deste meu amigo é que tem uma outra nota de débito do Hospital de Santa Cruz, no valor de 2,80 € e relativa ao ano de 2004.
Ele mora em Lisboa. O Hospital de Santa Cruz é em Carnaxide.
Agora, anda a pensar se vale a pena ir a Carnaxide pagar a despesa.

Família Feliz


Happy family (AP/Ric Feld)
"Kudzoo, the first offspring of Zoo Atlanta's famous resident Willie "B", left, holds her week-old baby as the father, Taz, looks on at the gorilla habitat at Zoo Atlanta in Atlanta on Dec. 19."
(Chicago Tribune).
Exemplo que nos obriga a reflectir...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

Salteador de estradas!...

Já por várias vezes Soares garantiu que entrava num novo ciclo e deixaria de criticar Cavaco Silva, palavra de Soares!...
Não se tem notado nada que essa fase já tenha chegado.
Ainda agora, na Madeira, Soares considerou Cavaco incapaz para ser Presidente…”não tinha capacidade para ser Presidente da República”- disse.
E no Porto considerou a candidatura de Cavaco "de alto risco" porque "ninguém sabe o que pensa ou do que é capaz".
Como Cavaco tem entrado mudo e saído calado em todos os debates, não abre a boca para qualquer estação de televisão, nem tem falado nas diversas visitas que tem feito e, de facto não se sabe o que pensa e o que diz, Soares apenas diz a verdade!...
Logo, as afirmações de Soares não constituem qualquer crítica a Cavaco, longe disso!...
E, sendo assim, não constituindo crítica essas afirmações, só um impensado deslize ou uma trágica distracção poderão levar Soares a criticar Cavaco e a faltar à garantia dada!...
E se isso acontecer, estou bem curioso por saber qual a acusação.
Chamará a Cavaco um salteador de estradas?
Acusará Cavaco de ter roubado o Banco de um dos seus apoiantes banqueiros?
Proclamará que Cavaco quer uma Fundação para concorrer com a sua na obtenção de subsídios do Estado?
Ou dirá que Cavaco é o representante vivo do fascismo?

Momento


Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Alberto Caeiro, Quando está frio

Amamentação


Mulher de Renoir amamentando
(Renoir, 1885)

Amamentar ao peito é a forma mais natural de alimentar um bebé. As vantagens decorrentes deste processo estão bem estudadas. As vantagens não se confinam à criança mas estendem-se à mãe, à família e até ao próprio planeta. A título de curiosidade, podemos afirmar que as crianças que foram amamentadas ao peito são mais saudáveis, mais inteligentes, mais sociáveis, menos obesas em adultas, menos sujeitas a doenças infecciosas, menos atreitas a certas formas tumorais e doenças cardiovasculares mais tarde, entre outras. Quanto às mães têm risco mais reduzido de virem a sofrer cancro da mama, de osteoporose e de outras afecções. Como o leite é de “borla” a família agradece, e o facto de as crianças terem menos probabilidade de infecções diminui a ansiedade e o tempo destinado a cuidar da criança. À escala planetária estamos perante aquilo a que podemos chamar um verdadeiro acto ecológico. A poupança em latas de alumínio, em papel e em outros produtos utilizados na indústria dos leites infantis traduzir-se-ia em muitos milhares e milhares de toneladas de substâncias. Sendo assim, todas as políticas que estimulem a amamentação ao peito são bem-vindas contrariando certas tendências promotoras de um uso excessivo dos leites maternalizados. Os movimentos que estão a estimular uma prática tão velha quanto o próprio homem, ou melhor quanto a própria mulher confrontam-se com situações inesperadas que exigem novas regulamentações. No Reino Unido várias senhoras têm sido alvo de situações caricatas por terem a “ousadia” de dar o peito às suas crianças. Um delas, numa visita ao National Gallery (onde se encontram cerca de 50 obras que descrevem o acto de mamar), tentou dar a mama ao miúdo tendo sido convidada a parar devido a ser uma acto indecente. Outras são interpeladas pelos donos dos restaurantes, pela polícia, pelos próprios médicos (!) de que não podem amamentar nos cafés, estabelecimentos comerciais, parques, salas de espera de consultório, etc., etc. As mulheres que amamentam em público sentem-se como que criminosas. Este comportamento humano de recusa em aceitar visualizar uma mulher a amamentar a sua criança é patético. Provavelmente, as mesmas pessoas que consideram esta atitude como um atentado à decência são as primeiras a comoverem-se com uma qualquer fêmea que tranquilamente esteja a amamentar a sua cria, chamando todos a verem aquele lindo acto. Perante esta situação os parlamentares britânicos vão legislar no sentido de considerar como legal o acto de amamentação em qualquer local público, desde parques aos centros comerciais. Deste modo, os responsáveis britânicos estão a estimular uma saudável prática que, no Reino Unido, atinge os valores mais baixos da Europa.
Há tempos, por acaso, vi uma jovem mãe a amamentar em público o seu filho. Estava tão embevecida que nem se apercebia do que se passava à sua volta. É tão raro este acontecimento, nos dias de hoje. Recordo que, quando era pequeno, as mães não tinham qualquer pejo em puxar as avultadas e nutritivas mamas em qualquer sítio. A criança berrava com fome e zás, levava acto contínuo com aquela fonte capaz de satisfazer o mais sôfrego dos sôfregos.
Vamos aguardar a decisão do Parlamento e da Câmara dos Comuns. O que é curioso é o facto da lei não ter aplicação naqueles dois locais por ser um Palácio Real! Sendo assim uma deputada britânica que esteja a amamentar não poderá fazê-lo no Parlamento. Será que tem de vir à rua?

Estado da Nação

O discretíssimo senhor Juiz de Instrução Criminal do chamado caso "Casa Pia", concedeu uma entrevista a uma rádio (anunciando a SIC ter sido dada pelo telefone e desejando eu que a PT me instalasse uma linha com tamanha claridade de som).

Da dita entrevista, e sem outras considerações que estou certo pouco acrescentariam ao juizo que cada um faça dela e do ilustre entrevistado, reproduz-se aqui um ilustrativo excerto. Presumo que perguntado se se achou ou se se acha um justiceiro, respondeu:

«No justiceiro, vemos nos filmes do Oeste, o “Ok Corral”, o homem chega lá e dá três balázios em alguém: fez justiça e é o maior. Mas não foi um juiz, foi um justiceiro», diz o magistrado, acrescentando: «Um juiz tem de se pautar pela lei que tem. E tem de se reger por ela e só por ela».

As certezas do Dr. Louçã

Já nos habituámos a ouvir o Dr. Francisco Louçã falar de tudo com tanta segurança e certeza, que até soa a axioma.
No passado dia 4 de Dezembro, o Dr. Louçã trouxe-nos mais uma das suas crenças inabaláveis: "(...) embora as sondagens continuem a indicar que Cavaco Silva vai à frente, todos os dias perde votos e se vê a sua vantagem a diminuir, o que abre perspectivas para uma vitória de esquerda (...)".
Depois do último estudo da Eurosondagem, gostaria que o Dr. Louçã nos explicasse as suas contas sobre os votos que Cavaco Silva perde todos os dias.

domingo, 18 de dezembro de 2005

"A mania das grandezas"

Trata-se, tão só, de um belo poema de Joaquim Namorado.
Nada de maldosas relações ou de indevidas ligações... ;)

Pois bem, confesso:
fui eu quem destruiu as Babilónias e descobriu a pólvora...
Acredite,
a estrela Sírius, de primeira grandeza,
(única no mercado)
deixou-me meu tio-avô em testamento.
No meu bolso esconde-se o segredo
das alquimias
e a metafísica das religiões
— tudo por inspiração!

Que querem? Sou poeta
e tenho a mania das grandezas...

Talvez ainda venha a ser Presidente da República...

Delos, onde era vedado nascer e morrer!...


Esculturas de Delos
A minha Nota de ontem sobre o Prefeito de Biritiba, que proibiu os seus munícipes de morrer, fez-me lembrar uma viagem, há uns anos, pelas ilhas gregas.
Nessa viagem, estive em Delos, ilha sagrada, onde era proibido nascer e morrer.
Dessa ilha pequena e pedregosa emanava uma sensação de encanto que me deixou uma recordação única e profunda.
Delos constituiu para mim um local mágico, um daqueles poucos lugares onde se sente algo de estranho e indescritível.
Talvez pela paisagem, em que a rudeza do ambiente natural contrastava com a beleza das esculturas, dos templos e dos teatros que enchiam a ilha.
Talvez também pela sua carga histórica, que recordei no local.
Na ilha de Delos nasceram Apolo e Diana, filhos de Júpiter e de Latona.
O nascimento de Apolo é uma das descrições mais interessantes da mitologia grega.
Juno, a primeira esposa de Júpiter, nunca engraçou muito com Latona.
Vendo-a grávida, obteve da deusa Terra a promessa de que esta a impediria de achar lugar onde pudesse dar à luz.
Entretanto, Neptuno, vendo que a infeliz deusa não encontrava abrigo onde quer que fosse, comoveu-se e fez sair do mar a ilha de Delos. Sendo essa ilha flutuante, não pertencia a Terra, que assim não pôde nela exercer o seu poder supremo.
O seu carácter sagrado adveio-lhe dessa característica única e de nela ter nascido Apolo.
E, em homenagem a Apolo, ninguém mais pôde nascer ou morrer na ilha.
Nos casos em que não foi possível evitar esses acontecimentos, todos os habitantes eram obrigados a sair por vários anos, de modo a purificá-la e possibilitar o seu retorno.
Delos era uma cidade aberta e tolerante, que permitia o culto de todos os deuses e de todas as religiões conhecidas.
Esta universalidade foi ao ponto de se erguer um templo ao deus desconhecido!…
A Delos afluíam naturalmente muitos devotos e muitas peregrinações de todo o mundo grego e bárbaro.
E ainda hoje, em zona distinta dos templos e dos teatros e junto ao mar, se podem ver as ruínas da zona comercial e dos estabelecimentos onde se atendiam os turistas e devotos daquele tempo.
Era uma ilha sagrada para os gregos, e para mim, foi um local mágico e único!...

Eis um poema...

... que não deveríamos reler.
Ou no qual não nos deveríamos rever.

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...


É a Hora!

Fernando Pessoa

Refugiada genital


Inocência muçulmana
Uma menina guineense conseguiu evitar ser sujeita a excisão genital graças ao esforço do pai e à colaboração das autoridades portuguesas, fugindo para o nosso país.
Refugiada genital. Venham mais.

Novo Hospital Pediátrico de Coimbra


Novo Hospital Pediátrico - Coimbra

O Hospital Pediátrico de Coimbra está para as crianças como pão para a boca. Após as peripécias que ocorreram aquando da decisão na sua construção que, diga-se de passagem, foram perfeitamente lamentáveis, lá se decidiram pela sua edificação. Ficámos todos satisfeitos. E, mais ainda quando a obra começou a tornar-se visível. Depois, inesperadamente, fomos confrontados com uma redução drástica das verbas previstas para 2006. Não foi dada explicação cabal que justificasse a mesma, atrasando, e em muito, a conclusão do novo hospital. A seguir, como a conta gotas, surgiu a notícia de que havia problemas técnicos com uma linha de água que, segundo os nossos governantes, não tinha sido tomada em linha de conta. Recentemente, a senhora Secretária de Estado explicou que os cortes orçamentais eram devidos à existência desse problema! Fabuloso! Tanto engenho!
O Senhor Ministro da Saúde transfere, de acordo com a clássica prática nacional, o problema para o seu antecessor, responsabilizando-o pelo facto. O costume. Se não são uns são os outros. Trata-se de um problema técnico? Então resolva-se tecnicamente e quanto antes melhor. Para isso é que há ministros e não para lançarem as responsabilidades nos anteriores. Se as tiverem então que se accione todos os procedimentos para castigar (a sério) os incompetentes, quer sejam técnicos, quer sejam políticos, mas, entretanto, resolva os problemas, porque para isso é que é ministro. Certo? Às tantas estou para aqui dizer barbaridades! Já agora, se havia problemas técnicos, em vez de terem reduzido as verbas deveriam era tê-las aumentado para que o hospital seja construído dentro dos prazos. As crianças da região Centro agradecem Senhor Ministro da Saúde e Senhora Secretária de Estado. Quanto aos responsáveis locais da saúde: moita-carrasco! Um, nem abre o bico (a hierarquia política assim o determina, não é verdade?), o outro, responsável pelo Centro Hospital de Coimbra, no qual está integrado o Hospital Pediátrico, afirma que as crianças não deixarão de ser bem tratadas naquele velho convento que não tem condições para prestar os cuidados necessários.
O melhor do mundo são as crianças e o melhor das crianças é a sua saúde e bem-estar.
Coragem senhores responsáveis pela saúde. Decidam, resolvam os problemas. Eu e muitos compatriotas não deixaremos de agradecer. Para terminar, uma palavra de solidariedade aos colegas que não se calam e nem se deixam intimidar.

O Prefeito radical!...

O Prefeito da cidade de Biritiba-Mirim, a 70 quilómetros de S.Paulo, é homem de decisões fracturantes e radicais, mas que concitam o apoio unânime das populações.
A sua última decisão, de há dias, foi proibir a população de morrer.
“Fica proibido morrer em Biritiba-Mirim. Os munícipes deverão cuidar da sua saúde para não falecer. Os infractores serão responsabilizados pelos seus actos”-decretou, sabiamente, o Prefeito.
A medida foi anunciada devido ao facto de o cemitério não ter capacidade para sepultar mais mortos.
A região onde fica a cidade é muito fértil e, pelo facto de no seu subsolo estarem situadas as reservas de água que abastecem S.Paulo, está sujeita à lei da protecção ambiental, que não permite a construção de cemitérios.
Mas o Prefeito não é homem para ficar de braços cruzados.
Por isso, e para além de ter decretado a proibição de morrer, criou o Movimento dos Sem-Túmulo, para impugnar tal lei.
Não se sabe quem faz parte do Movimento: se os vivos proibidos de morrer, se os mortos proibidos de ter túmulo.
Mas o Prefeito é bem capaz de escolher a segunda alternativa para se fazer acompanhar na próxima manifestação em S.Paulo!...
O prefeito é digno dos maiores encómios: para além de político capaz, é um homem culto, já que se terá inspirado na antiguidade grega e na história da ilha de Delos, onde era proibido nascer e morrer. Já estive nessa ilha: será matéria de uma próxima Nota.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Cromossoma Y, mais leve e mais ágil...

A razão de masculinidade diz-nos quantos meninos nascem por cem meninas. Em todo o mundo nascem 105/106 rapazes por cada 100 meninas. Este fenómeno observa-se também noutros animais e tem sido interpretado, à luz evolucionista, como uma compensação pela fragilidade biológica do sexo masculino face ao sexo feminino. Claro que têm sido equacionadas várias hipóteses. Agora surgiu mais uma. Desta feita, os cientistas verificaram que as mulheres com mais dificuldade em engravidar têm mais probabilidade de terem um menino. A hipótese da mucosa do colo do útero ficar mais espessa com a idade dificultando a travessia dos espermatozóides é interessante. Como o espermatozóide que carrega o cromossoma Y é “mais leve” e “mais ágil” do que o seu rival, que carrega o X, tem mais possibilidade de chegar ao óvulo. Assim, as mães mais idosas têm mais hipóteses de parirem um rapaz. Espero que este assunto não venha a ser objecto de discussão de discriminação sexual. Sei lá! Com tantos movimentos reivindicativos que andam por aí…

Fraude científica


O sorriso de Hwang Woo-suk. E agora?



Uma das áreas que inevitavelmente procuro transmitir aos meus alunos prende-se com a conduta científica dos investigadores, quer sob o ponto de vista ético, quer sob o ponto de vista do rigor. Não descuro um capítulo sobre a má conduta científica. As razões são fáceis de explicar. Toda a acção é feita com base nos conhecimentos adquiridos e transmitidos pelos diversos autores. Assim, uma boa prática profissional exige suporte técnico e científico correcto. É fácil de compreender que uma informação errada transmitida como se fosse correcta pode ter efeitos devastadores. Não é por acaso que as principais revistas científicas têm peritos destinados a avaliar os trabalhos. Mas, mesmo assim, e de uma forma muito preocupante, tem vindo a crescer o número de artigos falsos e manipulados o que constitui uma afronta muito grave. A literatura científica, nomeadamente médica, está recheada de inúmeros casos paradigmáticos de fraude e má conduta. Mesmo as revistas mais famosas, tais como a Science e a Nature, volta e não volta lá vêm a apresentar as retractações de alguns investigadores que cometeram fraude. As razões subjacentes a esta conduta altamente reprovável são diversas, traduzindo personalidades sem escrúpulos, gente ambiciosa de fama e fortuna, a pessoas manipuladas ou “distraídas”. No ano passado, por exemplo, um jovem físico “brilhante”, Hendrik Schon, que publicava artigos a um ritmo verdadeiramente alucinante, foi acusado de falsificação de dados. Um notável cientista da Universidade da Califórnia falsificou um trabalho com o objectivo de provar que a oração provoca aumento da fertilidade. Agora, o cientista sul coreano Hwang Woo-suk que adquiriu uma notoriedade ímpar, a propósito da investigação em células estaminais e na clonagem, a ponto de ser considerado como herói nacional, foi acusado de ter mentido e de falta de ética quando se soube que algumas colaboradoras tinham doado e vendido os seus óvulos para fins de investigação científica. De início negou, mas, posteriormente, veio a público assumir as suas responsabilidades. Um escândalo que se agravou com a recente notícia de que teria falsificado um artigo sobre células estaminais e clonagem. A admissão da culpa foi feita por um colaborador, já que Hwang está hospitalizado “esmagado pela humilhação”. Coitado! E nós? Meros e anónimos cidadãos cultores ou não da ciência. Não fomos humilhados? Não discursámos e debatemos estes assuntos nas nossas reuniões, conferências e até em importantes pareceres? Tudo o que está a acontecer no mundo da ciência exige a necessidade de criar organismos dotados de capacidade fiscalizadora a fim de avaliar a qualidade da produção científica e propor as respectivas sanções para os prevaricadores. Afinal, os conselhos científicos e redactoriais nem sempre conseguem impedir a má conduta e a fraude científica sementes da falsidade e fontes de distorção da realidade. E não é com meras retractações públicas que o problema fica resolvido. Os Hwangs, os Schons e quejandos acabam, mais tarde ou mais cedo, por aparecerem novamente. Quem sabe se não vão a continuar a fazer das suas. Assim não vale.

Primarismo!...

O candidato Mário Soares não sabe senão apresentar-se pela negativa: contra Cavaco, contra Cavaco e...contra Cavaco!...
Mas ontem, no discurso do jantar com apoiantes, ensaiou explicitmente uma nova estratégia: Cavaco deixou de existir, para passar a ser, e não mais nem menos do que isso, o representante de uma direita que quer vingar-se da derrota das últimas eleições legislativas!...
Donde, é preciso derrotar a direita e derrotar a direita é derrotar Cavaco.
É a campanha do primarismo grosseiro, da manipulação vil e dos inquisitoriais processos de intenção!...
Pobre Mário Soares!...