Como é que o pobre cãozito foi parar aquele sítio? Por vontade própria? Não creio. É animal, mas não deve ser estúpido ao ponto de entrar e permanecer no inóspito espaço. Será que alguém o terá lançado durante as incursões noturnas dos predadores urbanos que costumam rondar aquelas bandas? A reação do animal era previsível? Talvez sim, talvez não. Às tantas reagiu à aproximação da senhora como sendo um sinal de perigo. Não soube vislumbrar o gesto de carinho e de ajuda que lhe estava a ser oferecido. Para ele, quem sabe se a visão de um ser humano não terá desencadeado tamanha desconfiança!
Nem sempre os animais se comportam desta maneira. Há quarenta anos, no último dia de veraneio na praia, presenciei, na avenida à beira-mar, um carro a atropelar um cão. Um miúdo ao meu lado gritou e ficou especado. O carro continuou na sua marcha. Entretanto, várias pessoas pararam para ver o pobre animal que gemia, gritava, uivava, ladrava, fosse o que fosse, exprimindo sofrimento capaz de gelar a alma de qualquer um. Aproximei-me do animal e ouvi vozes a advertirem-me do perigo que corria, porque o animal podia morder. Indiferente aos avisos, olhei para uns olhos tristes, mortiços e cheios de dor. Toquei-lhe ao de leve no dorso, deixou. Em seguida comecei a fazer-lhe festas até chegar ao cachaço, deixou. Acalmou-se um pouco e a cabeça tombou no asfalto. Vi que tinha a perna partida. O miúdo que tinha dado o grito, estava à minha frente. Acocorou-se. Perguntei-lhe? – Conheces o animal? – Sim. É de um senhor que mora lá em cima. Ao mesmo tempo apontava com a sua mãozita para o cume da colina. – Como é que ele se chama? – Não sei. És capaz de arranjar um pedaço de madeira e umas tiras quaisquer para imobilizar a pata? Sai disparado e de repente traz-me umas roupas velhas e um pedaço de madeira, mesmo à maneira. O cão virava, de vez em quando a cabeça com olhos de dor, mas não ladrava, nem uivava. Deixava fazer tudo. Segura aqui no pescoço, mas docemente. – Sim. Coloquei a tala na pata traseira e com ajuda das tiras de roupa velha consegui imobilizá-la. Parti do princípio que com os animais também se aplicam os princípios dos humanos, embora andasse no segundo ano da faculdade. Após o gesto ortopédico, agarrei com muito cuidado no rafeiro e coloquei-o à sombra, no passeio, à guarda do miúdo que ficou incumbido de avisar o dono do sucedido. Estava a dar as instruções quando o animal vira novamente a cabeça na minha direção e começou a lamber a minha mão. Nem queria acreditar. Não só não me mordeu como ainda agradeceu à sua maneira. Provavelmente, no futuro, sempre que visse um carro deveria ficar com uma vontade louca de o morder, ao associá-lo ao seu drama. Mal ele sabe que quem conduz os carros são os humanos. Se tivesse sabido naquela altura quem tinha sido o autor do seu sofrimento, um ser humano, às tantas não me deixaria tocá-lo e, provavelmente, até me morderia.















