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segunda-feira, 27 de março de 2017

A hora dos patetas

Celebraram alguns, ontem, a hora do planeta, uma hora sem electricidade, mais uma iniciativa de mais um qualquer movimento de defesa do ambiente.
Nasci, como tanta gente, numa terra sem electricidade. Estudei e li centenas de livros à luz de uma vela, de um gasómetro ou de um candeeiro a petróleo. Sem electricidade, não havia rádio, os transístores não tinham chegado, muito menos a utilização de frigoríficos. A chegada da televisão e a novidade levaram alguns moradores a adaptar motores de rega ao abastecimento de energia, mas era um processo caro, ao alcance de muito poucos.
O abastecimento de energia eléctrica exigia a construção de um ramal, mas o Estado e a companhia de electricidade exigiam uma comparticipação da população que minimizasse os custos a cargo do estado e do distribuidor. Para angariar a verba, a freguesia fez peditórios, organizou cortejos de oferendas, motivou os brasileiros e africanistas da terra, os emigrados em Lisboa e no Porto ou em qualquer sítio onde houvesse um natural da terra. Com muito esforço, chegou-se ao montante exigido. Depois, depois, foram anos para o Estado orçamentar a sua verba para o efeito e a eléctrica concretizar o projecto. Mal viram o início da construção do ramal, muitos moradores logo trataram de montar a instalação caseira, não fosse a luz chegar e continuarem a ficar às escuras. A azáfama era grande e as obras eram a conversa diária.
A chegada da energia eléctrica foi uma festa: as autoridades distritais e concelhias, as forças vivas, o carregar no botão, os discursos, a animação, os ranchos folclóricos, a música e o bailarico.  
Ontem, ouvi na televisão uns meninós, femininos e masculinos, a pedirem que se apagasse a luz por uma hora, incentivando corridas, aulas de yoga e jantares à luz de velas, e falando na necessidade de mudar hábitos de consumo responsáveis pelas alterações climáticas. Eles nem sabem, nem sonham do que falam. Condição essencial, aliás, para vasto tempo de antena nos media.  

17 comentários:

p_oussa disse...

Haverá sempre estúpidos, ou parvos. Neste país são uns 80%

SLGS disse...

Caro Dr. Pinho Cardão, eles nem sonham o que foi a vivência nesses tempos, mas o mais grave é que, aqueles que são da nossa idade mas tiveram o privilégio de nascer na cidade ou na vila mais evoluída, também não sabem. E assim, assistimos às boçalidades a que assistimos.

Pinho Cardão disse...

Caros p-oussa e SLGS:
De facto, eles não sabem, nem sonham o que foi a dificuldade desses tempos. Felizmente. Mas não podem querer voltar atrás, em nome de mitos, de um contestar sem causa, e até defendendo lóbis com exclusiva finalidade económica, mas aparecendo sob uma capa e imagem de um cientismo que é proibido discutir, muito menos contestar.

Manuel Silva disse...

Senhor Pinho Cardão:
Há alguns dias, noutro post seu, e quando se anunciou (embora não oficialmente) que o défice deste ano seria o mais baixo da democracia portuguesa, o senhor contestou dizendo que tinha sido de um dos governos da sua simpatia.
No Expresso-Diário de ontem, a jornalista Sónia M. Lourenço publicou os números oficiais dos 5 défices mais baixos e dos 5 mais altos, assim com os nomes dos principais responsáveis.
Aqui vão os números oficiais:
OS 5 DÉFICES PÚBLICOS MAIS BAIXOS E OS 5 MAIS ALTOS
OS MAIS BAIXOS
2016 – 2,06% Mário Centeno/António Costa
1989 – 2,13% Miguel Cadilhe/Cavaco Silva
1992 – 2,95% Braga de Macedo/Cavaco Silva
2007 – 3,01% Teixeira dos Santos/José Sócrates
1999 – 3,03% Sousa Franco e Pina Moura/António Guterres
OS MAIS ALTOS
1981 – 12,46% Morais Leitão e João Salgueiro/Pinto Balsemão
2010 – 11,17% Teixeira dos Santos/José Sócrates
1985 – 10,28% Hernâni Lopes/Mário Soares e Miguel Cadilhe/Cavaco Silva
1984 – 10,17% Hernâni Lopes/Mário Soares
2009 – 9,81% Teixeira dos Santos/José Sócrates
É sempre bom falarmos com base nos números oficiais.
Depois, cada um pode construir a narrativa que quiser para ilibar os seus e condenar os outros.
Os sectários (seja de que ideologia for), para além do fanatismo ideológico ainda deturpam os números, mas isso é um problema deles e da credibilidade pública do que afirmam.
Chegados ao julgamento moral, caímos no que o António Gedeão descreveu magistralmente no poema Impressão Digital.
Vale a pena lê-lo, é só escrever os nomes no browser, do poema e do autor.

Pinho Cardão disse...

Por respeito para com os leitores do Quarta República, apenas direi:
1. Há um provérbio antigo, "quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão", que se ajusta ao comentário anterior.
2. Desde o início do ano que o governo vinha publicitando um défice de 2016 de 2,5% ou abaixo desse valor, valor esse que, em sucessivas revisões, passou a ser anunciado como de cerca de 2,2%. Em meados de Fevereiro, este valor foi referido pelo governo como o menor défice de sempre.
3. Nessa altura, em 18 de Fevereiro, já lá vão 40 dias, publiquei um post em que dizia que o défice anunciado de 2016 não tinha sido o mais baixo de sempre, socorrendo-me de dados estatísticos do insuspeito Prof. Paulo Trigo Pereira, deputado do PS e um dos autores do Programa Económico do governo. O défice mais baixo de sempre tinha acontecido em 1989, era ministro das finanças o dr. Miguel Cadilhe.
4. Recentemente, o governo anunciou um défice de 2,06%, umas centésimas inferior ao do dr. Miguel Cadilhe, valor esse desconhecido ainda em 18 de Fevereiro, quando publiquei o meu post.
5. Uma consideração adicional: não sendo de forma alguma equiparáveis as taxas de juro em 1989 e as de 2016, como também não o sendo o peso da despesa de investimento nesses mesmos anos ( vem sendo referido que em 2016 o investimento público terá sido o menor de sempre...), e para uma comparação justa, avulta que o défice primário corrente obtido no tempo de Cavaco Silva e Miguel Cadilhe é bastante mais favorável do que o actual.
6. Por isso, não suba o sapateiro além da chinela

Tiro ao Alvo disse...

Pinho Cardão, não perca mais tempo a discutir com os Silvas. Eles não entendem como é ridículo atribuir grande importâncias às centésimas, nas percentagens do défice face ao PIB. Eles não entenderão, nunca, que, em bom rigor, essa comparação não é inteiramente legítima. Legítimo é comparar os dois períodos em análise e concluir que, no tempo do Cadilhe ministro, em termos de finanças públicas, Portugal estava muito melhor e que agora, infelizmente, temos sobre a cabeça a ameaça da bancarrota.

Pinho Cardão disse...

Tem toda a razão, caro Tiro ao Alvo. Mas, como respeito muito os leitores bem intencionados do 4R, fiz o esclarecimento para eles.
Adicionalmente, ainda direi que os números do Dr. Miguel Cadilhe já tiveram a prova de fogo dos anos e não são discutíveis. Quanto a estes de 2016, e embora possa admitir,fico sinceramente admirado como se pôde já chegar a esse preciosismo da medida do défice na casa das centésimas. Até admito que se conheça o défice. Mas o PIB, senhores, com tal minúcia? Afinal, no meio disto tudo, ainda não vi notícia do valor desse sujeito...

Tiro ao Alvo disse...

Tem razão, caro Pinho Cardão: nem se conhece o número final do *PIB, nem 3 doutores confirmaram o valor de 2,1% do défice. Até lá, os 2,1% pode apenas ser considerado um valor provisório.
Esta doença das centésimas também atacou o então administrador do BdP, dr. Victor Constâncio, quando em meados do ano, calculou o Défice Esperado, como sendo de 6,83%, no momento em que o Sócrates assumiu as funções de 1º ministro, em 2005. Ele não disse que o défice se situaria entre os 6 e 7%, o que já seria uma boa informação, ele fez uma previsão profundíssima e apurou o valor até às centésimas, coisa nunca vista que, pelos vistos, fez escola.

Pinho Cardão disse...

É verdade, caro Tiro ao Alvo, já nem me lembrava dessa!...
Podemos então concluir que os nossos amigos socialistas são perfeitamente rigorosos nas centésimas, deixando a correcção das unidades, uma minudência, para os outros...

Carlos Sério disse...


"Nasci, como tanta gente, numa terra sem electricidade. Estudei e li centenas de livros à luz de uma vela, de um gasómetro ou de um candeeiro a petróleo. Sem electricidade, não havia rádio, os transístores não tinham chegado, muito menos a utilização de frigoríficos."

Oh Pinho Cardão você não é tão velho assim!

Carlos Sério disse...

"não perca mais tempo a discutir com os Silvas. Eles não entendem como é ridículo atribuir grande importâncias às centésimas, nas percentagens do défice"

Pois, se fosse ao contrário eu imagino a festarola que os neoliberais fariam.
Cinismo e hipocrisia é o que vem oferecendo a direita radical. Nada mais, depois de ver arrasada a sua politica de austeridade perpétua.

Manuel Silva disse...

Senhor Pinho Cardão:
Disse: «fico sinceramente admirado como se pôde já chegar a esse preciosismo da medida do défice na casa das centésimas. Até admito que se conheça o défice. Mas o PIB, senhores, com tal minúcia?»
Não percebo o seu espanto.
Todas as divisões (e o cálculo para obter o défice acaba numa divisão) vão até às milésimas (ou ao infinito, se se quiser). Umas vezes é mesmo assim, outras, porque começam a aparecer zeros à direita da vírgula, ficamos pelas unidades, pelas, décimas ou pelas centésimas.
Acima disso deixa de ter interesse prático.
E o critério dos números que apresentei no meu comentário anterior é igual: todos os défices vão até às centésimas.
Mas eu já sei que há centésimas boas, as dos défices de 12,48% dos seus governos e centésimas más, a dos défices de 2,06% dos governos dos seus inimigos.
E também sei que 2,06% produz dívida, porque é défice, mas 12,48% produz receita, porque foi do seu governo.
Porque não aproveita e vai expor as suas dúvidas à UTAO, que disse isto, na citação feita por Paulo Pereira Trigo num artigo no Observador: «2.Comecemos então por breve caracterização da situação actual a partir dos dados do INE/Eurostat e sua interpretação pela UTAO. O que ficámos a saber de 2015 para 2016 é que o PIB nominal cresceu 3%, a dívida continua a ter um peso elevado (130,3%) e o défice reduziu-se para 2,1%, o mais baixo em democracia em séries comparáveis (*). Dizem alguns críticos que sem medidas extraordinárias o défice estaria acima de 3% do PIB olhando apenas para as medidas que beneficiam o défice. Não é sério. A UTAO, que trabalha de forma independente para a Assembleia da República (COFMA), estima que sem medidas extraordinárias nos dois sentidos o défice seria de 2,4% em 2016 face a 3,1% em 2015. No ano transacto, as prestações sociais e as despesas com pessoal aumentaram em termos absolutos mas menos que o PIB pelo que o seu peso diminuiu. O mesmo aconteceu com as receitas fiscais e contributivas, que aumentaram ligeiramente menos que o PIB de modo que houve uma ligeira diminuição da carga fiscal (de 37% para 36,7% do PIB). Conseguiu-se ainda uma diminuição, absoluta e relativa, na factura dos juros pagos. De realçar que a redução do défice foi possível mesmo repondo salários na função pública, eliminando a sobretaxa de IRS, e com um aumento moderado de pensões. O aspeto mais preocupante é a descida do investimento público, mesmo considerando o efeito base do BANIF (que sobre-estimou a despesa de capital de 2015) e a redução na receita de capital dos fundos europeus. As vulnerabilidades da economia portuguesa e do sistema financeiro continuam, como se poderá ver pelas análises da Comissão Europeia e do FMI assinaladas na nota da UTAO.»

Manuel Silva disse...

Sr. Pinho Cardão:
Três más notícias para si de uma assentada é muito.
Banco de Portugal prevê mais crescimento e mais emprego. Mas não chega para convergir
https://eco.pt/2017/03/29/banco-de-portugal-preve-mais-crescimento-e-mais-emprego-mas-nao-chega-para-convergir/
Governo vai rever meta do PIB para perto de 2%
https://eco.pt/2017/03/29/governo-vai-rever-meta-do-pib-para-perto-de-2/
Juros de Portugal voltam a baixar dos 4%
https://eco.pt/2017/03/29/juros-de-portugal-voltam-a-baixar-dos-4/

Pinho Cardão disse...

Tudo isso são boas notícias. E seriam muito melhores se não fossem as políticas erradas do governo da geringonça. Acontece que a economia teima em resistir, apesar do governo que há.

Manuel Silva disse...

Senhor Pinho cardão:
Pois... é isso... boas notícias...
Para si, desde Agosto de 2015 não se passou nada no resto do mundo, especialmente nos países para onde exportávamos mais: Angola; Brasil; EUA; Alemanha, até a Venezuela.
E não houve problema nenhum com a banca, não foi preciso fazer subir a dívida para capitalizar a CGD, resolver o Banif, agora o NB.
Tanto assim era que a banca nunca foi assunto discutido em Conselho de Ministros nos tempos do anterior governo (Assunção Cristas dixit).
Moral da história: tudo o que aconteceu de bom, foi por mero acaso ou por circunstâncias alheias.
Tudo o que aconteceu de mau, foi por culpa do governo.
Com posts como os seus depois admira-se da frequência do Quarta República e da «vivacidade» do debate.
Por mim, dou por encerrada definitivamente a minha participação aqui.
Divirtam-se a trocar galhardetes.

Pinho Cardão disse...

Pois então muito bom dia. E bons dias, que o 4R deseja o bem para todos.
Ficou-lhe é mal não agradecer o acolhimento a quem nunca lhe barrou a porta,pese a agressividade com que sempre a franqueou.

Oscar Maximo disse...

"Eles não entendem como é ridículo atribuir grande importâncias às centésimas, nas percentagens do défice".
Parece que a vida para além do défice já deu o que tinha a dar. Mas ela existe e a prova é que a maioria do aumento da dívida não está incluído no défice. Assim, é mais apropriado falar dos centésimos da divida, também e só para entreter.