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domingo, 28 de maio de 2006

Por terras do Congresso do PSD- VIII-O meu discurso-parte I

Como ontem referi, e depois de ter “caricaturado”, ao longo destas crónicas, muitos dos discursos, falta de moral seria não apresentar o que preparei para o Congresso, furtando-me assim à crítica.
Pois quem vai à guerra… Bom, aqui vai o dito, dividido em dois módulos de cerca de 3 minutos cada.

Caros Companheiros:
Dado que o tempo é escasso e não tendo grande jeito para a retórica, optei por reduzir a minha intervenção a contar uma pequena história, respeitante a uma pessoa que conheci no decorrer da minha carreira profissional, feita na área das empresas industriais e de serviços e da banca. Tratando-se de uma história, e como sou optimista, pode ser que me ouçam; mas sei que corro o grave risco, a esta hora da noite, de adormecer definitivamente o auditório. A ver vamos!...
Era uma vez um Presidente, o Presidente e principal dono de uma empresa, por sinal americana, que fundara há uns trinta anos, que crescera, se tornara multinacional e actuava à escala global.
Esse Presidente era visto como tendo um comportamento bastante singular: por um lado, era conhecido como adepto de uma gestão muito participada, promovendo frequentes reuniões com as diversas hierarquias, mesmo as mais baixas, a que fazia questão de estar presente e sobretudo tinha o hábito de recrutar para postos chave da empresa pessoas com culturas muito diversas ou que já tinham provado, em empresas concorrentes, estar nos antípodas da sua prática empresarial.
Dados os êxitos da sua empresa, calcorreava o mundo como convidado para muitas conferências e simpósios nos mais variados sítios.
Um dia, no período de perguntas de uma conferência para que fora convidado na Universidade de Harvard, a fim de explicar o sucesso da sua empresa, um dos participantes levantou-se e questionou-o desta maneira: Sr. Presidente, gostava que me respondesse a duas questões. A primeira é a seguinte: é conhecido o seu gosto por uma gestão muito participada, mas que leva a perdas grandes de tempo. Ora sendo o senhor praticamente o detentor exclusivo do capital das suas empresas, por que é que as principais decisões não são tomadas imediatamente por si? E a segunda: também é sabido que o senhor frequentemente recruta colaboradores que já evidenciaram uma cultura e uma prática empresariais completamente diferentes da sua. Não traz essa sua opção atritos e dificuldades de decisão para dentro da empresa?
O Presidente respondeu de forma simples, como simples era a sua maneira de ser.
Quanto à primeira questão, respondeu o Presidente, gostava de lhe dizer que sou o detentor exclusivo do capital, mas não sou o detentor exclusivo do bom-senso. Por isso, procuro ouvir o maior número de pessoas. Não me arrependo, já que a sua contribuição tem sido relevante para a tomada das medidas certas que fizeram o que esta empresa é.
Quanto à segunda questão, gostava de lhe dizer que
sempre considerei estarem a mais nas minhas empresas os colaboradores que pensam exactamente como eu. Se pensam como eu, não são precisos, bastaria eu!…
Se não tivesse podido adquirir mais três minutos no mercado de tempos, teria ficado por aqui, com uma frase do género:
Caros Companheiros: todos sabemos que um Partido político não é uma empresa, mas estes dois bons princípios de gestão a que aludi gostava de os ver concretizados no nosso Partido. Aliás, o Presidente do Partido tem falado de renovação e, no ponto 7 da sua moção, refere mesmo, a bold, para melhor se ver, que “o partido tem de se abrir mais à participação activa dos seus militantes”. É tempo assim de passar da retórica, em que todos convêm, para a prática, em que muitos discordam. E por aqui me fico, que o meu tempo chegou ao fim. Muito obrigado pela vossa atenção.

Mas, com mais três minutos adquiridos no mercado de tempos, a conclusão será mais desenvolvida no capítulo seguinte.

sábado, 27 de maio de 2006

Por Terras do Congresso do PSD- VII

Como já contei há dois dias, eu estava inscrito em 15º lugar numa das quatro listas de inscrições para intervir no Congresso, logo após o meu companheiro Miguel Frasquilho. Feitas as contas, a 3 minutos por militante inscrito, seriam necessários, contas por grosso, 180 minutos para chegar a minha vez. Como, por efeito do mercado secundário de tempos que também referi, aos oradores inscritos deveriam corresponder cerca de 30 oradores efectivos, adicionei mais 30 minutos correspondentes à chamada e deslocação dos oradores. Somei ainda mais 60 minutos para alguns Notáveis não inscritos, pelo que, ao todo, teria que esperar 270 minutos, isto é, 4h 30m. Como os oradores começaram a falar às 15h 30 minutos, isso significava que pelas 20 horas chegaria a minha vez.
Isso deu-me tempo para pensar no que iria dizer, levando eventualmente em conta, positiva ou negativamente, o que ia ouvindo.
Já tinha, contudo, assente que o meu discurso consistiria em contar uma história da vida real que exemplificasse, de forma imediata, o que eu esperava da nova liderança. Mas não encontrava nenhuma que incluísse os três aspectos, apenas três, que queria salientar. Uma tipificava dois deles e outra um, sendo este talvez o mais importante.
Dei a ler uma das histórias ao Miguel, meu companheiro de mesa, que a achou engraçadota e apropriada para o fim em vista. E disse-me que me podia ceder 3 minutos dos seus, que obtivera no mercado secundário de tempos e de que não necessitava. Aceitei, dado que esses três minutos me permitiam explanar as conclusões da história, em vez de deixar a coisa em suspenso, para cada qual tirar as suas conclusões. Mas não sabia bem se os iria utilizar. Pelo sim, pelo não, entretive-me, então, em escrever as conclusões. Entretanto, face ao decorrer dos trabalhos, comecei a pensar se a outra história não seria mais apropriada, face ao que ia ouvindo. E peguei também da pena, para escrever os tópicos da mesma e as respectivas conclusões.
O tempo ia passando e verifiquei que não me tinha enganado nas contas, tanto assim que, pouco depois das 19 horas, o nosso amigo Frasquilho foi chamado ao púlpito para debitar o seu discurso. Excelente discurso, diga-se, ou não fosse Membro e Autor da 4R.
Assim sendo, seriam necessários, em bom rigor, mais uns 15 minutos para chegar a minha vez.
Tinha então que me decidir finalmente entre duas histórias, cada uma com dois módulos, a história propriamente dita e as conclusões, cada qual com três minutos, e assim optar por um discurso de três ou seis minutos, aproveitando uma cedência de tempo. Deitei uma moeda ao ar, que o Frasquilho apanhou e ainda não me restituiu, vi a sorte e esperei a minha vez.
Esperei, mas por vicissitudes diversas que não vem ao caso explicar, acabei por livrar os militantes de mais um discurso.
Mas tendo caricaturado os discursos dos outros neste Blog, malfeito seria proteger o meu do olhar alheio. Por isso, a primeira das histórias constituirá o próximo capítulo.
Quero ainda dizer aos mais curiosos que os códigos a que ontem aludi serão revelados em breve!...

"Deputados sabichões!"...

A forte contestação à lei da “procriação medicamente assistida” assenta no facto do homem ter, hoje, a capacidade de interferir na criação da "vida" e de a utilizar em prol da própria vida, assim como responder aos anseios dos que procuram um milagre, nomeadamente, a possibilidade de poderem procriar. O homem consegue dar respostas a muitas situações que, durante muito tempo, foram consideradas como do exclusivo domínio do divino. Deixou de o ser e, por esse motivo, começou a ser considerado um perigo para a essência de determinadas correntes doutrinárias. Claro que há riscos de desvios, porque o que tem como origem o ser humano tanto pode dar para o bem como para o mal. A ética, as convenções e as medidas legislativas têm como objectivo evitar condutas perigosas ou desviantes. Se não existisse este perigo, ou se tudo continuasse numa esfera transcendental, não eram precisas quaisquer iniciativas, como é óbvio. No entanto, os argumentos aduzidos para colocar em cheque a tomada de posição dos representantes da nação, não me convencem.
Hoje, num artigo subordinado ao título, “Os Deputados Sabichões”, o autor constrói alguns exemplos que poderão ocorrer da aprovação da lei.
Assim, a actual lei permitirá que uma senhora conceba artificialmente sem dizer nada ao marido. É pouco provável que tal aconteça! O articulista esquece que os chamados “filhos de cucos” (“discrepância paternal”) existem, e a prevalência chega, nalgumas comunidades, a atingir cifras muito elevadas (1 a 30% de acordo com as culturas, cerca de 3,7% na Grã-Bretanha, por exemplo). Que eu saiba, as senhoras que aceitam os espermatozóides de “cucos” não dizem nada ao marido, com a agravante de terem cometido um grave pecado!
Foca o caso de dois jovens, concebidos artificialmente, que pretendem juntar os trapinhos, mas vivem na angústia de serem irmãos, porque desconhecem os dadores. A probabilidade de tal vir a acontecer deve ser extremamente baixa, na medida em que tem de haver restrições ao número de doações e limites ao número de fecundações. Atendendo à realidade social, quantos casos de incesto não terão ocorrido fruto do fenómeno já descrito, sobretudo em pequenas comunidades que durante séculos viveram fechadas?
Mais caricato é a argumentação, segundo a qual, um meio psicopata, desejoso de ter mil filhos e sabendo que não há qualquer limite para ser dador (!) (obviamente que os responsáveis irão definir as respectivas regras) poder doar o seu sémen ao universo. Mas quem vai receber e armazenar o sémen nos diferentes centros - que tem de ser acreditados e controlados - são loucos? É certo que não faltam psicopatas, e completos, a reproduzirem-se por esse mundo fora, mas isso é outra coisa.
Deverão ser, naturalmente, evitados a todo transe a produção de embriões excedentários, mas, quando as circunstâncias o determinarem, e não havendo projecto parental em alternativa, não me ofende que possam ser utilizados a favor do bem da humanidade. Sempre é mais digno do que a sua pura destruição ou eliminação num qualquer esgoto.
Tentar denegrir uma lei com estes argumentos não me parece justo. Além do mais, os senhores deputados ouvem e fazem audiências com múltiplas entidades e autoridades para se inteirarem das melhores soluções. Não são sabichões, são apenas representantes do povo, e por isso legitimados, para, em seu nome, legislar, com todos os riscos e imperfeições que caracterizam os seres humanos, mas sempre com o objectivo de regulamentar a nossa vida, de acordo com as ideias, princípios e aspirações humanas, neste velho e eternamente imperfeito, mas encantador planeta.
Viver em democracia é isto mesmo. Quando se verificar que uma lei não serve, modifica-se ou substitui-se por outra. As leis não são dogmas, e ainda bem...
Está de parabéns a Assembleia da República e estamos nós, também, por termos preenchido um vazio legislativo nada dignificante.

E esta, hein?!...

Ontem, todo o país ficou a saber, com espanto, e pela própria boca do Primeiro-Ministro, no Debate Mensal na Assembleia da República que, agora, ao contrário do que sucedeu no período 2002-2004, a venda de património imobiliário do Estado é considerada “boa gestão”.

Dantes, em 2003, por exemplo, o mesmo José Sócrates, então Deputado da Oposição, considerava todas as receitas extraordinárias – incluindo, portanto, a venda de património – como “manigâncias”... Mas agora... como enquanto investido nas suas funções de Primeiro-Ministro disse que as contas públicas não teriam truques, nem habilidades, nem manigâncias como tinha acontecido entre 2002 e 2004 (referindo-se, claro às receitas extraordinárias)... ora aí está a boa gestão!...

Não há dúvidas, mudam-se os trempos, mudam-se as vontades e... as designações.

No entanto, para além de referir esta curiosa mudança de nomenclatura do Deputado José Sócrates para o Primeiro-Ministro José Sócrates, não posso, ainda, deixar de referir que o Engenheiro Sócrates parece esquecer-se que os pioneiros na utilização de medidas extraordinárias do lado da receita foram os governos do Partido Socialista: em 1997 – ano em que seria decidida a participação de Portugal na União Económica e Monetária –, com a integração do fundo de pensões do BNU na Caixa Geral de Aposentações; e em 2000 com as receitas resultantes das vendas das licenças de telemóveis da terceira geração (UMTS). Governos em que, curiosamente, o Engenheiro José Sócrates participou, quer enquanto Secretário de Estado, quer enquanto Ministro!...

Então na altura, as receitas extraordinárias serviam e, pelos vistos eram até muito úteis; depois, entre 2002 e 2004, já eram manigâncias; agora, a venda de património – que é irrepetível, pois não se pode vender o mesmo edifício duas vezes, por exemplo –, já é uma medida de boa gestão!... E esta hein?!...

Creio que nem o modo muito pouco elegante, roçando, aliás, mesmo a má-criação e a ofensa pessoal, como o Engenheiro José Sócrates se me dirigiu no debate mensal de ontem – pois foi minha, enquanto Deputado do PSD, a pergunta sobre este tema – conseguiu desviar a atenção de todos quer (i) para os ziguezagues no tempo do actual Primeiro-Ministro sobre o tema “receitas extraordinárias”; quer (ii) para o facto de se ter comprometido a não as usar e agora ir, de facto, usá-las... em vendas de património imobiliário, estimadas pelo Ministro das Finanças em cerca de EUR 200 milhões – mas que, por mais medidas de boa gestão que sejam, é inegável que são, ao mesmo tempo, receitas extraordinárias!

Mais comentários para quê?!... É a política no seu melhor... perdão, corrijo: no seu pior, e que, por isso, devia ser evitado a todo o custo...

Poesia

Era o odor das árvores
cedendo ao peso dos maduros
frutos de Verão
Era a terra ressequida
e ao longe o mar, manso rumor
Era o clamor das cigarras
gritando sede no pino da tarde
E eras tu
o sol acrescentado
ao sol que nos queimava.

Em tempo de calor, sabe bem uma brisa refrescante.
Nestas tardes compridas de fim de primavera, uma pausa para sentir um bom poema é alento para mais umas horas de trabalho "forçado". No 4 R gostamos de poesia. Pois daqui saudamos um dos maiores poetas portugueses vivos, além do mais homem de grandes qualidades humanas e profissionais, o meu amigo Torquato da Luz, ex-jornalista, ex-Director de jornais, mas homem de mil ofícios. Desde há uns tempos que tem mais um: o blog de poesia Ofício Diário, com acesso www.oficiodiario.blogspot.com .
Acabei de o visitar e retirei a pérola que acima deixei.

sexta-feira, 26 de maio de 2006

Método natural...

É do conhecimento geral que a Igreja Católica e, sobretudo, os movimentos pró-vida, só admitem a prática do controlo da fertilidade através do método dito natural, proibindo quaisquer outras, contraceptivos orais, preservativos e uso da pílula do dia seguinte, além de condenarem todas as formas de destruição de embriões. Não pretendendo fazer quaisquer juízos de valor acerca das suas posições, não posso deixar de citar um trabalho recente publicado no Journal of Medical Ethics*, onde o autor afirma que o “ritmo natural” pode matar mais embriões do que os outros métodos. Esta afirmação obrigou-me a uma análise atenta para compreender melhor a afirmação.
O método natural assenta na abstinência durante o período mais fértil. Para uma mulher com ciclo regular, 28 dias, significa que o risco de engravidar ocorre entre o décimo e o décimo sétimo dia. Este método até funciona, mas deve parte do sucesso ao facto dos embriões concebidos nas franjas do período dito fértil serem menos viáveis dos que são concebidos no meio do ciclo. Apesar das limitações, o autor aponta para duas a três perdas de embriões por cada ovo que consiga sobreviver.
Sendo assim, o investigador questiona se é justo esta atitude, “promoção” da morte de embriões, em função da organização da vida sexual. Além do mais questiona o que aconteceria se as largas centenas de milhões de mulheres deixassem de tomar contraceptivos orais, ou se os homens abandonassem o uso de preservativos e aderissem ao método do controlo natural? Ocorreria uma tremenda mortandade embrionária!
Dá que pensar…

*Journal of Medical Ethics 2006;32:355-356
REPRODUCTIVE ETHICS
The rhythm method and embryonic death
L Bovens London School of Economics and Political Science, Department of Philosophy, Logic, and Scientific Method, Houghton Street, London WC2A 2AE, UK.

Por Terras do Congresso do PSD-Os Códigos- VI

Aprendi no Congresso, aliás com alguma estupefacção, que nem tudo o que era dito significava o que se dizia. Isto é, algumas palavras, algumas expressões ou algumas locuções não valiam pelo seu valor facial, mas deviam ser interpretadas de acordo com uma chave secreta que só a experiência de muitos Congressos punha ao alcance dos mais atentos.
Foi um Militante ilustre, que se tornou para mim um verdadeiro Mestre, que me fez esta revelação espantosa. E deu-me, para afinar o apetite por esses mistérios, dois exemplos.
Ora veja este exemplo, disse-me o Mestre: um Notável jura no Congresso inteira fidelidade ao líder e, para salientar essa fidelidade, até refere que já dele discordou num ou noutro assunto ou até, noutros Congressos, apoiou o candidato opositor. Mas isso é passado, agora o líder pode contar com ele!...
O que é que pensa que isso significa, perguntou-me o Mestre, fitando-me com um ar superior, como presumo que é o do Professor Massano quando, num júri de doutoramento, faz uma pergunta mais capciosa a um doutorando...
Desprevenido, respondi que a frase era clara e não era passível de grandes interpretações…
Pois aí é que o meu amigo se engana. E nem sei o que veio fazer ao Congresso, disse-me o Mestre…
Mas vou dar-lhe outro exemplo: um Militante com experiência autárquica exalta no Congresso o papel das Autarquias no serviço às populações, afirma a sua plena realização nessas funções, não as trocando por quaisquer outras, enquanto o povo nele manifestar a sua confiança, e pede a atenção do líder para o estrangulamento financeiro das autarquias.
O meu amigo sabe o que isto significa, pergunta-me o Mestre?
Aí já nem tive coragem de responder e, muito complexado, lá lhe fui dizendo que… porventura…não é… se isso não significa isso mesmo…é porque significa outra coisa…mas eu era novato…o melhor é dizer-me, que eu sòzinho não alcanço…
Com um braço em cima do meu ombro, disse-me literalmente: ora pense lá um bocado…Perante o meu olhar atónito, condescendeu: não se preocupe, que amanhã eu conto-lhe!...

Farmácias…

As medidas enunciadas pelo senhor primeiro-ministro, a propósito das farmácias, merecem alguns comentários.
O facto do proprietário deixar de ser, obrigatoriamente, um farmacêutico, é perfeitamente natural e há muito que deveria ter sido tomada.
Anunciou, também, a criação de 300 novas farmácias. Seria interessante saber como chegou a este número. Houve factores condicionantes? Terá sido imposto pela todo-poderosa ANF que, estranhamente, vai assinar o acordo, embora considere que o modelo actual é o melhor para os doentes? Não consigo perceber esta atitude!
Há medidas muito curiosas, tais como, reduzir a distância mínima de 500 para 350 metros! Provavelmente, deve ser para não cansar muito os pobres doentes ao terem que procurar as diferentes farmácias! Aqui está uma medida pouco saudável, redução do exercício físico.
Baixar a capitação de 4.000 habitantes para 3.500, para instalar uma nova farmácia, tem impacto? Atendendo à redução da população que ocorre em grande parte do território, não vejo grandes vantagens nesta medida.
O facto de ser possível instalar uma farmácia em qualquer local, independentemente da capitação, desde que não exista mais nenhuma num raio de dois quilómetros é interessante.
Imaginem chegar a um concelho deste país colocar no respectivo mapa a ponta de um compasso numa farmácia e traçar o tal raio correspondente a dois quilómetros. Vão apanhar as já existentes, as quais, por sua vez, vão somando os respectivos círculos de influência de tal modo que o espaço onde possa ser criada a nova farmácia ficará em qualquer monte alentejano, numa azenha ou num moinho de vento perdidos pelas cercanias, se não cair numa zona protegida ou no meio de uma albufeira. Enfim, devem ter feito muitos cálculos!
A medida anunciada, de particular relevância, diz respeito à unidose. Sim senhor. É assim mesmo! As vantagens são mais do que evidentes. Também ouvi o senhor primeiro-ministro anunciar a criação de farmácias hospitalares e nos centros de saúde. As vantagens são tantas que apelo para a sua rápida implementação de modo a resolver a angústia dos doentes e seus familiares.
No fundo, tirando algumas medidas que devem ter sido objecto de negociação com o poderoso lóbi das farmácias, e que tem como objectivo perpetuar alguns interesses, considero as medidas anunciadas como correctas e merecedoras de louvor.

Bumpy ride

Permito-me assinalar alguns episódios ou notícias da semana que está a findar.
Destaco, em primeiro lugar, declarações proferidas na 3ªFeira por dois responsáveis governamentais.
O Ministro das Obras Públicas prometia (pela enésima vez?) que o Governo vai lançar investimentos fortíssimos na construção, contabilizando 17.200 milhões euros só nos projectos da OTA, Alta Velocidade, Plano Rodoviário Nacional e plataformas logísticas.
É o que se pode chamar um verdadeiro “festival de despesa”.Viva a despesa, abaixo o pessimismo!
Não é difícil imaginar quem esfregue as mãos de contentamento ao ouvir este tipo de declarações.
Nós, os simples contribuintes, devemos justificadamente “levar as mãos à cabeça”.

No mesmo dia, o Ministro da Economia e da Inovação (chamarei, para simplificar, Eco-inova), proferia um comentário, em reacção às mais recentes previsões da OCDE, que tenho procurado decifrar.
Afirmava, citando “A melhor prova de que há medidas que podem ter um impacto positivo no curto prazo é o facto de que nem a OCDE conseguiu detectar a viragem da economia portuguesa”.
Relativamente a esta arrojada afirmação, o que me deixa mais intrigado é que não tenha havido qualquer reacção por parte dos habituais comentadores, pelo menos de que me tenha dado conta.

Hoje, encontro na imprensa diária a notícia segundo a qual os municípios portugueses terão continuado a reforçar os seus quadros de pessoal, ao ritmo de 19 pessoas por dia, em 2005. Mais 6.900 funcionários, em números redondos.
Viva a despesa, abaixo o pessimismo!

Tudo isto depois de, no início da semana, a OCDE ter baixado a previsão de crescimento da economia portuguesa para este ano. Segundo esta organização, o PIB não deverá crescer mais do que 0,7%, o que, a confirmar-se - esperemos bem que não - significaria um recuo considerável em relação à previsão do Governo, incorporada na proposta do OE para 2006, que era de 1,1%. E seria menos de 1/3 do ritmo de crescimento previsto para a União Europeia.
Contra esta última previsão, como vimos, a arrojada, embora algo enigmática declaração do Ministro da Eco-inova, de que “nem a OCDE conseguiu detectar a viragem na economia portuguesa”.
No entanto, pensando melhor, se a viragem da economia portuguesa é assim tão recente que a OCDE em Maio, não se tinha dela apercebido, então também – por forte maioria de razão - a previsão de crescimento de 1,1%, apresentada pelo Governo na proposta de OE para 2006, antes do início do corrente ano, não podia ter tido em conta essa viragem.
Contas feitas, a conclusão que temos forçosamente de extrair, para dermos razão ao Ministro, será que a economia deverá crescer este ano mais de 1,1%. Talvez 1,5%?
Teríamos 1,1% da previsão inicial mais 0,4% da viragem (modesta viragem, mas convém não exagerar...).
Uma verdadeira “bumpy ride”, esta semana de notícias.
Cintos bem apertados, recomenda-se.

O meu clube está a ficar igual aos outros!...


O meu clube está igual aos outros!... Li hoje que o FCP ia dispensar o jogador César Peixoto, com quem tem contrato por mais um ano. É situação infelizmente já normal, esta de não se cumprirem os contratos, e também no FCP. Mas o que tem de especial este caso do César Peixoto é que o jogador desde há uns sete meses que vem a recuperar de uma grave lesão, ao serviço do clube. E, nestes casos, o clube costumava renovar o contrato com o jogador lesionado por mais um ano, como prova de que os atletas podiam contar com o clube nos dias maus. E isso criava espírito de corpo e a tal mística que fazia ganhar jogos.
Também não há memória de um capitão da equipa prestigiado, como Jorge Costa, terminar a carreira noutro clube. Pelo contrário, os dois últimos grandes capitães, João Pinto e Aloísio, ficaram ao serviço do clube, como símbolo de dedicação a ser visto por todos.
Ganharam o Campeonato e a Taça. Mas, com esta prática, tenho a intuição de que não irão longe!...
O meu clube está a ficar igual aos outros!...

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Por Terras do Congresso do PSD-Os Notáveis- V

Isto já está a tornar-se tão aborrecido como alguns discursos. Mas, já que comecei, vou até ao fim. Que fique para memória futura!...
Antes de entrar na estrutura do discurso dos Notáveis, permitam-me mais uma nota pessoal. É que, animado pelo Miguel Frasquilho, nas circunstâncias que ontem referi, definitivamente decidi-me a fazer um discurso e perguntei-lhe quais as formalidades. Ele amavelmente disse-me que se ia inscrever e inscrevia-me também. E assim fez. O Miguel era o 14º e eu o 15º numa das quatro listas de inscrições, a partir das quais, alternadamente, os oradores iam sendo chamados.
Enquanto esperava, sentado, pela minha vez, ia dando umas olhadelas para saber quantos Notáveis estariam no Congresso: que diabo, seria uma honra extrema vislumbrar, pelo menos, alguns… Olhava… olhava…e não via nada!...Mas eles deviam seguramente estar lá, o meu golpe de vista é que estava um pouco embotado, pensava eu. Socorri-me novamente do Frasquilho. Oh Miguel, não vejo nenhum Notável!...Diz-me o Miguel: eu também não…tirando nós os dois, claro!...Fiquei deveras enternecido!...
Tendo assim ficado sem matéria para este capítulo, usei o subterfúgio de dividir casta superior em duas sub-castas: a dos Notáveis e a dos Muito Notáveis. Os “Muito Notáveis” são os “notáveis” cuja notabilidade sobe precisamente por não terem ido ao Congresso, enquanto os meramente Notáveis, se não forem ao Congresso, ninguém se lembra deles!...
Ora qual é a estrutura do discurso de um Notável?
Um Notável, com a experiência de já ter participado em, pelos menos, vinte dos vinte e nove Congressos do PSD, e de ter estado pelo menos em cinco governos, chega sempre sorridente ao púlpito. E a primeira coisa que faz é animar o pessoal, com três sonoras invocações PSD… PSD…PSD!..., ao mesmo tempo que agita o braço levantado com o médio e o indicador bem esticados. A notabilidade mede-se, logo aí, pelo número de vezes que os militantes repetem o estribilho!...
Restabelecido o silêncio, e evocados pelo nome quase todos os presentes (o Notável faz questão de evidenciar que conhece muitos militantes pelo nome…), começa propriamente o discurso. E imediatamente invoca uma ameaça exterior. Não é que a comunicação social referiu que o Congresso estava morno? Morno, este Congresso? Os militantes indignam-se e deitam cá para fora a indignação com fortes gritos PSD...PSD!...Eufórico com o efeito, o Notável recorda novmente que o Presidente do Partido, eleito directamente pelos Militantes, com toda a legitimidade que daí advém, deve ter o apoio de todos, e logo aí lhe jura o seu apoio pessoal. Mas aqui faz incidir uma segunda particularidade, quando enfatiza que já discordou do líder e até esteve em campos opostos, mas isso não impede que esteja, agora, com todas as suas forças novamente ao seu lado. Embalado nestas juras, não dá pelo passar do tempo. E quando começa a transmitir ao Congresso a primeira de apenas duas ideias, que o tempo é escasso, a Drª Manuela confirma e diz-lhe que o tempo acabou. Mas nada de irremediável, que o Notável não possa suplantar. Acena que sim para a Presidente e volta-se, em gesto imponente, para a Mesa da Comissão Política, reiniciando solenemente a oratória com as palavras: Meu Caro Marques Mendes... Esta intimidade vale-lhe mais uns minutos e mais uma chamada de atenção. Mas nada que um segundo Meu Caro Marques Mendes não possa ainda resolver…até que o olhar intimidatório da Dra Manuela e, sobretudo, o receio de que ela possa vir a ser futuramente líder do partido, já não lhe permitem um terceiro Meu Caro Marques Mendes!...
Com um Viva o PSD termina o discurso, que teve princípio, teve meio…e quase não tinha fim!…E quanto a ideias? Ainda estou a tentar repescá-las…mas se a Drª Manuela nem deu tempo de as expor?...
Nos capítulos seguintes revelarei os Códigos do Congresso e farei referência ao meu iluminado discurso.

Cesariana


No debate televisivo sobre o encerramento das maternidades, o senhor ministro da saúde “denunciou” várias taxas de cesarianas que, nalgumas maternidades, atingiam valores muito elevados. Este facto, aliado aos comentários dos meus colegas do 4R, suscitou-me uma pequena reflexão.
Estamos perante uma prática cuja utilidade é por demais evidente, ao permitir salvar inúmeras crianças e respectivas mães. O problema coloca-se na excessiva utilização da mesma. A O.M.S. recomenda que a cirurgia seja utilizada em casos excepcionais, ou seja, em cerca de 10% dos casos. Sendo assim, como se explicam taxas de 30%, 40% 50% e 60%, para não falar de verdadeiras “cesarianites” epidémicas verificadas em hospitais de alguns países, onde atingem 80 a 90% dos partos?!
No decurso do debate, o presidente do colégio de obstetrícia e ginecologia afirmou que o aumento da prática de cesarianas tinha a ver com o receio dos “litígios”. É certo que um parto, aparentemente normal, pode, inesperadamente, sofrer algum percalço com riscos para ambos. Este fenómeno tem sido descrito em vários países, traduzindo uma crescente medicina defensiva. A par deste facto, existem outros, tais como a “exigência” ou “preferência” por parte da mulher, ou interesses económicos, já que a sua prática é mais comum no sector privado. Os especialistas também invocam desvantagens nesta solução ao não ser propiciado as condições fisiológicas de um parto vaginal. A eventual maior segurança foi posta em causa, através de um recém-publicado trabalho da O.M.S., segundo o qual, a cesariana aumenta o risco de morte pós parto.
Em termos evolucionários, coloca-se uma hipótese interessante. Os bebés nascem com um cérebro não totalmente desenvolvido. Se ocorresse nos seres humanos o que acontece com outros primatas, seria o bom e o bonito. Não havia pélvis que permitisse a expulsão do feto! Há quem aponte para a possibilidade de aumento do cérebro humano. Sendo assim, a prática da cesariana, que começa a ser exageradamente comum, permitiria, ao fazer um by-pass às vias normais, “satisfazer” aquela tendência, originando no futuro o aparecimento do Homo sapiens “cabeçudo”!
Em síntese, temos de saber quais as razões para o aumento desta prática cirúrgica, além de ponderar as consequências negativas da sua utilização, que começam a ser evidentes, e evitar ao máximo que se generalize, porque poderia originar, no futuro, o nascimento de verdadeiros cabeçudos, o que não significa que fossem mais espertos que os actuais!
Já agora, como não poderiam sair por via baixa, como é que se resolveriam certas situações, na falta de uma maternidade ou de um obstetra na vizinhança? Hoje, mesmo que não cheguem a tempo, a Natureza “sabe” dar uma mãozinha quando chegar a hora…

A buRRocracia...

Esta é mais uma história do país do "Simplex".
Numa Conservatória do Registo Predial, uma pessoa entregou um conjunto de documentos tendo em vista o registo de algumas propriedades rústicas.
Um dos documentos, oriundo da Direcção-Geral dos Recursos Florestais, estava incompleto: o funcionário que o elaborou esqueceu-se de colocar a data quando o assinou e havia umas caixinhas para por umas cruzes que não estavam preenchidas.
Vai daí, a Senhora Conservadora exigiu que o documento fosse corrigido.
Apesar de saber que o documento tinha sido elaborado num serviço que ficava a mais de 100 Km do local da Conservatória, a Senhora Conservadora foi totalmente intransigente - "o documento tem que ser rectificado naquele serviço".
Em desespero, e para não andar mais de 100 km, a pessoa dirigiu-se ao serviço da Zona Agrária que ficava num edifício contíguo ao da Conservatória e explicou o problema ao seu responsável.
O responsável pela Zona Agrária começou por lançar uma série de impropérios sobre a Conservadora. Depois agarrou no telemóvel e ligou para o serviço que elaborou o documento.
Falou com o chefe.
Seguidamente, agarrou no documento, preencheu a data, colocou as cruzinhas e disse: "o problema está resolvido, pode entregar o documento".
Sabem o que aconteceu?
Na Conservatória nem sequer perguntaram onde é que o documento fora rectificado...
... a Senhora Conservadora aceitou-o!

Não olhes para o que eu faço...

... liga antes ao que eu digo.
Parece ser um dos lemas da governação.
Quem não se lembra da firmeza com que o senhor Primeiro-Ministro defendeu as SCUT com o argumento da solidariedade devida às regiões menos desenvolvidas? (em tempos dizia-se "mais deprimidas", locução de facto hoje inadequada face à depressão geral...).
Pois o Jornal de Negócios dava conta que o Secretário de Estado das Obras Públicas anunciou que as novas infra-estruturas rodoviárias, mesmo algumas da rede complementar, passam a ser construídas e exploradas em regime de concessão com portagem.
Se assim vier a ser será singular a situação. Teremos rodovias com perfil de auto-estrada constituindo itinerários principais - algumas servindo as regiões mais desenvolvidas -, que continuarão a ser exploradas em regime de SCUT, isto é, pagas pelo orçamento do Estado. E outras estradas, algumas delas no interior do País, pagas segundo o princípio do utilizador-pagador.
Não se percebe a lógica desta política nem se ouve qualquer explicação para esta dualidade.
A não ser que a razão resida na escassez de meios públicos para o financiamento das novas estradas.
Mas se assim é, nenhum sentido faz manter, por exemplo, a A22, mais conhecida como Via do Infante, sem portagem.
Se não é assim, então não se entende porque se insiste em investir em novas estradas com perfis que muitas vezes não são sequer justificadas pelo tráfego médio diário estimado num horizonte temporal próximo.
Como igualmente não se percebe, sendo a situação financeira do País tão grave, porque é que se insiste no investimento na expansão da rede rodoviária nacional que satisfaz na situação actual, com suficiência, as necessidades do País.
Duas notas adicionais.
Primeiro para estranhar que ninguém denuncie a ausência de verdade do argumento segundo o qual os novos investimentos rodoviários são indispensáveis para atenuar as desigualdades regionais. Será que ninguém repara que as estradas que se anunciam são as concessões da Grande Lisboa, do Douro Litoral ou as ligações entre a A1 e A8 nas zonas de Leiria e do Carregado?
A segunda igualmente para estranhar que a oposição não desperte desta dormência em que decaiu de modo a acompanhar as políticas sectoriais e a questionar o Governo sobre a total ausência de uma política de conservação daquela parte da rede rodoviária que garante o direito fundamental à livre circulação, isto é, o conjunto de estradas que sob jurisdição do Estado ligam as localidades deste País, que não são IC nem IP nem auto-estradas, mas que constituem as únicas alternativas às vias pagas.
Será que o Governo se prepara para lançar portagens também nessas estradas de modo a financiar a sua reabilitação?

A lei do penacho


Quando as dificuldades tendem a apagar o estado de graça e a crítica certeira começa a incomodar, é dos livros que se deve manobrar no sentido da distracção.
É assim que deve ser entendida a recente iniciativa do PS de rever a lei do protocolo do Estado.
Não há outra razão para explicar esta súbita preocupação pela magna questão da distribuição de cadeiras nas cerimónias e repastos oficiais, justamente numa altura em que o País vive graves problemas, a exigir o trabalho e a concentração dos políticos na sua resolução, muito em especial a atenção e dedicação redobradas dos parlamentares.

O que espanta é que haja quem, politicamente experiente, caia no logro de combater a medida sem perceber que combatê-la é garantir sucesso à estratégia de a encarecer.

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Por Terras do Congresso do PSD- IV- Os Discursos

Antes de ir ao tema de fundo, permitam-me um pequeno parêntesis, para contar algo de mais pessoal. Depois de ouvir vários discursos cuja estrutura descrevi com o rigor que é meu timbre, disse ao Miguel Frasquilho, meu Companheiro de Mesa, que me sentia com coragem e vontade de me inscrever para também falar. O Miguel foi um amigo, um verdadeiro amigo, pois animou-me e incentivou-me, dizendo que eu era perfeitamente capaz de fazer um discurso igual!...Fiquei tão desvanecido que até lhe ofereci o jantar!...
Passando adiante, irei abordar a estrutura oratória da casta Aspirantes a Notáveis. Estes discursos já fiam mais fino!... Para melhor se perceber o conteúdo, convém dar uns traços gerais sobre a casta. Os Aspirantes a Notáveis estão num limbo partidário. Segregados das castas inferiores, ainda não foram aceites pelas castas superiores. Se estas compreendem que os Aspirantes a Notáveis lhes podem dar algum apoio, sobretudo temem que o seu lugar possa ser usurpado por eles. O Aspirante sabe isso, pelo que o discurso é o discurso de uma vida e dirige-se directamente ao líder.
Assim, o Aspirante a Notável nunca inicia o seu discurso dirigindo-se aos diversos membros da Mesa, como os antecedentes. Isso nunca!...O Aspirante a Notável começa o seu discurso por uma saudação muito especial ao Presidente da Comissão Política Nacional, a que junta o nome para que ninguém tenha dúvidas, salientando que é um vencedor, face à grandiosa vitória nas recentes eleições directas no partido. Aí o Aspirante a Notável vê um acto premonitório para as Legislativas de 2009, em que as qualidades do líder e a desastrada governação socialista imporão a sua vitória e a vitória do Partido. Mas avisa que é preciso trabalhar e logo manifesta que se encontra totalmente disponível para ajudar. (Para melhor se entender esta parte, convém referir que a altura é oportuna, pois é o momento em que as negociações para os órgãos do Partido estão no auge…).
Só depois desta introdução é que o Aspirante a Notável saúda os outros órgãos do partido, mas com uma particularidade que deve ser notada e que consiste em aditar ao cargo o nome próprio do seu titular. Na saudação é integrado, pela primeira vez, o Presidente da Distrital, o Presidente da Concelhia e o Presidente da Câmara da terra que acolhe o Congresso, se é social-democrata, claro. Depois de uma palavra personalizada para os Convidados, Participantes e Observadores, inicia finalmente o seu discurso aos Companheiros, para expor duas ou três ideias, nãomais... Desgraçadamente, mal enunciada a primeira, soa o gong da Drª Manuela, lançando alguma perplexidade no orador. Ainda tenta mais três minutos, referindo cedências adicionais de tempos. Perante o olhar desconfiado da Sra. Presidente, que lhe pede para ser breve, deixa explicitada a sua mágoa por não ter podido iniciar verdadeiramente a sua intervenção e expor devidamente as suas ideias. Termina, agradecendo a atenção com que o ouviram, mas lamentavelmente esquece-se de dizer Viva o PSD. Mas nada que não tenha remédio!... Ainda mal tem saído do púlpito, logo um militante, num àparte oportuno, o substitui no grito Viva o PSD, logo correspondido após algum riso inicial!...
Enfim, o discurso de uma vida que, nas próprias palavras do orador, nem chegou a começar!...
Escalpelizarei seguidamente o discurso dos Notáveis, abordarei de forma independente o meu próprio discurso e, em tempo de códigos, lançarei alguma luz sobre os códigos do Congresso.

A propósito da situação de Timor...

...ocorre-me a pergunta: existe mesmo uma coisa conhecida por CPLP?

terça-feira, 23 de maio de 2006

Por Terras do Congresso do PSD- III-Os Discursos

Depois de descrever o perfil dos Congressistas, irei dar uma breve nota sobre a estrutura dos discursos, de acordo com a casta em que os militantes se inserem.
Nos Congressos, o tempo de discurso é inversamente proporcional à nobreza da casta. O que é natural, dado que os espécimens das castas mais baixas devem guardar a voz essencialmente para aplaudir o líder, enquanto os espécimens das castas mais nobres têm que propor de novo todas aquelas ideias brilhantes já ouvidas em Congressos anteriores, mas que não conseguiram realizar nas múltiplas vezes que estiveram no Governo.
O discurso do Militante de Base não iniciado em Congressos, que integra a casta inferior, articula-se nas seguintes três partes:
-a primeira, que consiste na evocação. O bom militante de base começa por evocar pausadamente as pessoas a quem se vai dirigir: o Presidente da Mesa do Congresso, o Presidente da Comissão Política Nacional, o Presidente do Conselho de Jurisdição Nacional. A seguir saúda a JSD e os TSD,s e logo depois os Companheiros.
-a segunda, que consiste em situar o discurso no tempo social-democrata. Nesta parte, o militante salienta então que este é o primeiro Congresso após as eleições directas, em que todos os militantes puderam livremente escolher o seu líder. Seguem-se profundos elogios ao carácter, seriedade e capacidade do líder e às qualidades que tem para se opor ao Governo do Eng. José Sócrates, que está a desgraçar este nosso Portugal.
Neste momento, contudo, a Presidente do Congresso, Dra. Manuela Ferreira Leite, bate duas vezes no microfone, fazendo um ruído cavo e assustador, a avisar o orador que terminou o seu tempo.
-a terceira, em que o orador, disciplinado e cordato, lamenta não ter tempo para explanar as suas ideias e termina com o grito patriótico Viva o PSD. Os Companheiros correspondem e envolvem o orador numa salva de palmas.
Este é o tipo de discurso de que francamente mais gostei, porque tem princípio, meio e fim e sobretudo porque percebi integralmente tudo o que o orador pretendeu dizer: saudou os presentes, situou o Congresso na vida do PSD, louvou o líder, iniciou uma crítica ao Governo e disse Viva o PSD. Tudo em três minutos.
A casta seguinte, a que pertence o Militante de Base experimentado em Congressos já dispõe de 6 minutos e o discurso é mais sofisticado. A sofisticação consiste em três pequenos aditamentos nada dispiciendos.
Na evocação inicial, e após se ter dirigido aos órgãos do Partido, o Militante, olha solenemente para as galerias e saúda também os Ilustres Convidados, Observadores e Participantes, algo que passou despercebido ao Militante não iniciado, assim como distingue claramente as Companheiras dos Companheiros, procedimento essencial para concitar especialmente as atenções de um dos géneros. O último “aperfeiçoamento” consiste em ser mais incisivo na crítica ao Governo, embrenhando-se em explicitar a má governação, com exemplos factuais, como o fecho das maternidades. Mas ainda mal acabou o primeiro exemplo, já a Presidente do Congresso bate assustadoramente no microfone, a avisar o orador que terminou o seu tempo. Disciplinadamente, o orador lamenta não ter tempo para mais, dá um Viva o PSD e sai sob aplausos.
Confesso também que gostei deste discurso, basicamente pelas mesmas razões do primeiro, já que teve princípio, meio e fim e ideias assentes e totalmente perceptíveis: saudação, louvor ao líder, crítica ao Governo, cortesia extrema perante todos os circunstantes, disciplina na obediência à Drª Manuela e a vibração sentida do Viva o PSD!...
Na próxima Nota dissecarei os restantes discursos, nomeadamente os dos Aspirantes a Notáveis e dos Notáveis, os quais todos têm princípio, quase todos se perdem no meio, e a maioria não tem fim!...

Bons ventos


A crer nos dados revelados pelos serviços de estatística da UE a capacidade de produção de energia eólica em Portugal duplicou em 2004, situando-se em 4,3% do total da energia produzida, aproximando-se assim da média europeia (4,8%).

“31 de Maio. Mais um dia”…

O DIA MUNDIAL SEM TABACO realiza-se no próximo dia 31 de Maio.
O tema deste ano é: “Tabaco mata sob todas as formas”.

Caros não fumadores, ex-fumadores e fumadores, apesar de se tratar mais um dia, entre tantos outros, convém tecer algumas considerações a este propósito, numa perspectiva científica, técnica, social e ética, mas nunca numa perspectiva moralista. Deste modo, quem estiver aborrecido ou com insónias vá ao O Quarto da República e talvez consiga adormecer mais rapidamente ou descarregar o seu mal-estar com a minha prosa proposta para esse dia…