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quinta-feira, 25 de maio de 2006

Cesariana


No debate televisivo sobre o encerramento das maternidades, o senhor ministro da saúde “denunciou” várias taxas de cesarianas que, nalgumas maternidades, atingiam valores muito elevados. Este facto, aliado aos comentários dos meus colegas do 4R, suscitou-me uma pequena reflexão.
Estamos perante uma prática cuja utilidade é por demais evidente, ao permitir salvar inúmeras crianças e respectivas mães. O problema coloca-se na excessiva utilização da mesma. A O.M.S. recomenda que a cirurgia seja utilizada em casos excepcionais, ou seja, em cerca de 10% dos casos. Sendo assim, como se explicam taxas de 30%, 40% 50% e 60%, para não falar de verdadeiras “cesarianites” epidémicas verificadas em hospitais de alguns países, onde atingem 80 a 90% dos partos?!
No decurso do debate, o presidente do colégio de obstetrícia e ginecologia afirmou que o aumento da prática de cesarianas tinha a ver com o receio dos “litígios”. É certo que um parto, aparentemente normal, pode, inesperadamente, sofrer algum percalço com riscos para ambos. Este fenómeno tem sido descrito em vários países, traduzindo uma crescente medicina defensiva. A par deste facto, existem outros, tais como a “exigência” ou “preferência” por parte da mulher, ou interesses económicos, já que a sua prática é mais comum no sector privado. Os especialistas também invocam desvantagens nesta solução ao não ser propiciado as condições fisiológicas de um parto vaginal. A eventual maior segurança foi posta em causa, através de um recém-publicado trabalho da O.M.S., segundo o qual, a cesariana aumenta o risco de morte pós parto.
Em termos evolucionários, coloca-se uma hipótese interessante. Os bebés nascem com um cérebro não totalmente desenvolvido. Se ocorresse nos seres humanos o que acontece com outros primatas, seria o bom e o bonito. Não havia pélvis que permitisse a expulsão do feto! Há quem aponte para a possibilidade de aumento do cérebro humano. Sendo assim, a prática da cesariana, que começa a ser exageradamente comum, permitiria, ao fazer um by-pass às vias normais, “satisfazer” aquela tendência, originando no futuro o aparecimento do Homo sapiens “cabeçudo”!
Em síntese, temos de saber quais as razões para o aumento desta prática cirúrgica, além de ponderar as consequências negativas da sua utilização, que começam a ser evidentes, e evitar ao máximo que se generalize, porque poderia originar, no futuro, o nascimento de verdadeiros cabeçudos, o que não significa que fossem mais espertos que os actuais!
Já agora, como não poderiam sair por via baixa, como é que se resolveriam certas situações, na falta de uma maternidade ou de um obstetra na vizinhança? Hoje, mesmo que não cheguem a tempo, a Natureza “sabe” dar uma mãozinha quando chegar a hora…

4 comentários:

BCastafiore disse...

Levanta aqui uma questão deveras pertinente, caro professor. Permita-me acrescentar também o número elevado de episiotomias que se vão verificando hoje em dia nas nossas maternidades - percentagens que superam os 70%, segundo tenho lido, quando a OMS aponta para uma percentagem ideal de 10%.Leva-nos talvez a perguntar se os nossos obstetras não andarão demasiado "nervosos"...

Tonibler disse...

A desculpa do litígio parece-me absurda em Portugal e, ainda por cima, dada por alguém da ordem. Um médico para ser condenado por alguma é preciso que se demonstre que inseriu chumbo no corpo da vítima com a ajuda de uma arma de fogo e desde que a ordem concorde que isso não é uma prática normal.

Há o factor das histórias, que ninguém fala. Parece-me algo absurdo que em hospitais com milhões de contos de equipamento sofisticado continuem a haver histórias de cordões umbilicais em volta do pescoço e de mal formações no nascimento devido a casos semelhantes.

Anónimo disse...

Também me impressionou o testemunho do presidente do colégio de obstetricia e ginecologia da Ordem dos Médicos, quando explicou a elevada taxa de cesariana com os receios que muitos médicos têm de se verem responsabilizados por erro médico. E mais impressão me fez quando deu como exemplo os Estados Unidos da América.
Espero que essa não seja a razão para evitar o parto natural. Porque tal significaria que o interesse predominante não era o da saúde da mãe, nem do bébé, mas sim a avaliação do risco do ponto de vista de eventual litígio - logo o exclusivo interesse do médico. E ainda por cima um interesse de mera precaução, baseada em deficiente informação desde logo porque os parâmetros da responsabilização civel não são entre nós sequer aproximados (quanto mais equiparáveis!) aos dos EUA (em que a responsabilidade é quase objectiva como se sabe). Para além disso o nível de litigiosidade que tem como fundamento a suspeita de erro médico em Portugal é muito reduzido, não justificando o receio que o médico ali manifestou. Existe aliás a percepção pública de que ao invés é muito dificil responsabilizar o médico, como disso dá notícia, com a clareza habitual, o nosso caro Tonibler.
Como é de esperar que a posição expressa pelo decerto ilustre médico que veiculou a ideia, não corresponda a uma orientação, explicita ou não, da Ordem dos Médicos. Mas tão só a uma errada, ou mal informada, opinião pessoal.

Agora que a taxa de cesarianas em algumas maternidades públicas é impressionantemente elevada, mesmo atendendo ao número de cabeçudos que por aí andam, ai lá isso é!
Será que os estudos que permitiram chegar a essas taxas permitem também perceber se muitas das cesarianas são feitas aos fins de semana? É que há dias num agradável almoço um bom Amigo chamou-me a atenção que esse era um dado que permitiria perceber melhor a coisa...

Salvador Massano Cardoso disse...

Meu caro amigo Ferreira d´Almeida.

Lembro-me de alguns trabalhos interessantes sobre o dia da semana em que nascem mais e menos crianças. O título de um deles era o seguinte: “Onde estão os bebés dos domingos?” Nesse estudo verificou-se uma redução acentuada, enquanto às sextas… Mas em Israel nascem normalmente aos domingos, mas aos sábados… Enfim!