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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Finalmente a "evidência"...

Chamou-me a atenção a notícia do Público sobre o regime de excepção para produtos tradicionais que o Governo aprovou esta semana. Os famosos pastéis de Tentugal, vítimas de uma lei cega e desproporcionada, poderão ter agora um futuro mais risonho, pois o regime de excepção poderá autorizar o polémico “pincel de galinha” cuja função é pincelar de manteiga os deliciosos pastéis.
A economia dos produtos tradicionais parece ter razões para respirar fundo...
Finalmente o governo veio reconhecer que a actual legislação sobre a higiene e segurança alimentar, cujo guardião principal é a famosa ASAE, é inadequada e peca por excesso em relação a produtos alimentares que integram a gastronomia tradicional portuguesa. Finalmente o governo veio reconhecer que há muitos produtos alimentares tradicionais - doces, enchidos, queijos, bebidas, etc. - que pelas suas características de fabrico e armazenamento “necessitam de um regime com maior flexibilidade para que possam continuar a ser produzidos”.
É caso para dizer mais vale tarde do que nunca! Mas a situação não deixa de ser preocupante. São graves a facilidade e o facilitismo com que se produz legislação, sem cuidar de conhecer as realidades em questão, sem fazer uma abordagem especializada chamando ao processo os técnicos e os especialistas das matérias em análise e sem incluir uma abordagem necessariamente alargada e integrada que pondere os vários interesses em jogo. Mas mais graves são os prejuízos económicos que podem ser causados e outros muitas vezes intangíveis mas nem por isso de menor valor.
Mas não cantemos de satisfação. Aguardemos, então, para ver se os pastéis de Tentugal continuam tradicionais como sempre. E agora vou ver se petisco alguma coisa doce…

Matéria sensível!...


Isto começa a estar difícil para os amantes de praia, pelo menos no Algarve. O Comandante Reis Ágoas, à míngua de submarinos ou contratropedeiros para comandar, embarcou a esquadrinhar a lei e encontrou na falta de previsão legal para as massagens de praia o nicho de mercado que lhe faltava para fazer a sua celebridade perpétua. Como a lei não prevê, o Comandante não autoriza. Porque nunca se sabe como as massagens vão acabar. Em contrapartida, o Comandante sabe bem como costumam começar!...

À mínima aproximação furtiva, ao mais leve aperto de mão, ao mais deslaçado abraço, corre-se o sério risco de ver irromper, areia adentro, a corveta do Comandante e seus guarda-marinhas a considerar que tais intimidades não estão previstos na lei e a fazer parar a acção. Porque nunca se sabe como é que tal audácia irá terminar!...
Um amigo meu, espírito maldizente, referiu-me que tal se deveu ao facto de o Comandante se ter deixado enlear nos braços de alguma vestal guardiã do vício e da virtude e ter decidido estender o seu apostolado às praias. Mas, depois de reflectir, concluí que a acção do Comandante tem apenas a ver com a defesa do consumidor. É que, não se sabendo nem quando, nem como a massagem acaba, o preço não pode ser estipulado à partida. Quando muito, no final apenas poderia sofrer um ligeiro arredondamento. Mas sem a ASAE por perto, como ver se o ou a massagista aredondaram a massagem para o quartil superior ou para o inferior? E, nas massagens como nas taxas de juro, o arredondamento para cima ou para baixo é que é a matéria sensível!...

Cortejo fúnebre

Nos meus tempos de estudante, quando colaborava na disciplina que anos mais tarde viria a ser regente, tive conhecimento da seguinte história.
Num dia de Verão, quente como no Inferno, depois do almoço, um investigador descia a Rua de Saragoça em direcção à Faculdade de Medicina. No decurso do trajecto cruzou-se com uma carreta fúnebre. O esforço dos que puxavam a dita era mais do que evidente, já que rua é bastante íngreme. Atrás do corpo apenas o padre. Mais ninguém. O médico, pessoa muito austera e de forte personalidade, olhou desconsolado o quadro. Passou para o outro lado, retirou o chapéu e acompanhou até ao cemitério da Conchada o corpo de um ser que nunca soube quem era, mas que teve um acompanhante. Um único acompanhante. Não foi o próprio que contou este episódio. Houve quem o visse e lhe perguntasse de quem era o funeral. Disse que não sabia, mas tinha-lhe custado ver alguém a ser enterrado sem a companhia de uma alma viva, apesar da presença do padre.
Passados mais de 35 anos, lembrei-me deste episódio quando li o funeral do assaltante do banco morto a tiro. Morte em directo, funeral discreto. No cemitério de Benfica, num lugar esconso, baixou à terra o corpo de um criminoso acompanhado por três pessoas: o irmão, a cunhada e uma terceira pessoa. De acordo com a notícia, o sujeito até era religioso, mas não foi acompanhado por nenhum sacerdote, fosse de que Igreja fosse.
Será que os criminosos não têm alma?

terça-feira, 12 de agosto de 2008

“A realidade da verdade”!...

Desde os primórdios que o Homem teme as pragas. E com razão! De cada vez que surge uma, a impotência domina-o, libertando as emoções mais primitivas. De um modo geral, as pestes acompanham-se de uma estranha coloração.
A peste "negra" foi profundamente mortífera, provocando modificações demográficas, económicas, artísticas e culturais. Os corpos enegrecidos, devidos aos bubões, foram acompanhados de radicais e inesperados comportamentos morais e sociais. O Decameron de Boccaccio dá uma interessante ideia do sucedido. Mais tarde, outra peste, a "branca", dizimou populações, e continua a fazer das suas, liquidando os pobres pulmões de gente, sobretudo, pobre. Também aqui a miséria acabou por associar-se a obras geniais que vão da pintura à música, passando pela literatura, como se a morte anunciada apelasse à criatividade. Também a peste "azul" fez estragos, provocando a morte, a fuga e a ansiedade nas populações, não poupando nenhuma classe. A morte era quase sempre inevitável, sobrevindo, por vezes, em poucas horas, através de diarreias caudalosas. Estas são algumas de muitas epidemias reais, e “coloridas”, a que devemos agregar as pestes imaginárias, como a "Peste Escarlate", obra de Jack London, do início do século XX, que, num exercício imaginário, descreve o fim de quase todos os seres humanos, à excepção de alguns sobreviventes, representantes do melhor e do pior que caracteriza o Homem, prevendo que o ressurgimento da nova Humanidade não será muito diferente da que esteve preste a extinguir-se.
As pestes podem ser “negras”, “brancas”, “azuis” ou “escarlates”, mas também podem ser incolores. A falta da verdade é uma constante que atinge todos os sectores. Vejam-se os acontecimentos que afligem o nosso país para termos uma ideia de quão perigosa é esta peste. Pode não matar, mas causa ansiedade e inquietação permanente, enegrecendo e destruindo as almas.
Ao deparar-me com uma capela lateral da Catedral de Salamanca, chamou-me a atenção a designação da mesma: Nossa Senhora da Verdade! Nem mais! Da “Verdade”? Nunca tinha ouvido nada semelhante. De imediato, recordei-me de uma velha senhora, hoje velhíssima, que gostava de fazer promessas a tudo o que era santo. Óptima cozinheira - diga-se em abono da verdade -, tinha um espírito meio calhandreiro, rematando as suas intriguitas com a seguinte frase: - Minha senhora! Garanto-lhe que o que estou a dizer é a "realidade da verdade"! Realidade da verdade!
Fiquei integrado sobre o porquê da designação Nossa Senhora da Verdade que, em tempos, seria um bom motivo para mais uma promessa da velha cozinheira.
Curiosamente, no dia seguinte, a leitura de um jornal, permitiu-me conhecer a lenda da Nossa Senhora da Verdade.
Trata-se de uma imagem de Nossa Senhora com o Menino ao colo do século XIV. Mas foi no século XVII que se deu o milagre. Um cristão, aflito, pediu dinheiro emprestado a um judeu. Acordaram o prazo, a quantia e os respectivos juros. Na data aprazada o cristão cumpriu com os seus deveres. No entanto, o judeu viu uma excelente oportunidade para aumentar o lucro, fazendo queixa ao juiz de que o cristão não lhe tinha pago a dívida. Este, aterrorizado, apelou ajuda à Nossa Senhora, dizendo-lhe que a ia apresentar como sua testemunha. No dia do julgamento, o juiz, mais o escrivão e restante séquito, após questioná-lo se tinha alguma testemunha, dirigiram-se à Catedral e, de forma solene, perguntou à Nossa Senhora se era verdade que o cristão tinha pago a dívida ao judeu. Foi então que os presentes viram a Nossa Senhora a inclinar a cabeça afirmativamente, sempre que lhe era feita a pergunta, a que o escrivão se apressou a colocar em acta. Na parede existe um quadro dando fé do que se passou.
Uma lenda? Claro!
As lendas nascem quando a razão não consegue ir mais além. As lendas povoam o nosso imaginário. Sem elas ficamos amputados. Os tempos que vivemos não respeitam a verdade mas também não são capazes de originar lendas. E sem as lendas muitas pestes surgirão, incolores, invisíveis, mas nem por isso menos "mortíferas"...

Turbo vacas


A preocupação com o aquecimento global do nosso estimado planeta está a atingir as raias da paranóia. O Zé Mário Ferreira d'Almeida já falou aqui do contributo da gravatas para essa ameaça à vida no planeta mas, se esse pretexto serve para eliminar alguns excessos da civilização da abundância, como é o caso das temperaturas nos locais de trabalho, gélidas de Verão e asfixiantes de Inverno, ainda bem, talvez se acabe com as constipações em série e com a sensação desagradável de nunca acertarmos com a roupa que devíamos ter vestido para passar um dia confortável. Se, por arrasto, essa sensatez vai ainda permitir que os homens deixem de andar engravatados nos dias tórridos, nada a opor, até porque isso significa que nós, as mulheres, deixamos de andar com os pés gelados, porque no Verão parece mal andar de botas!
Mas a coisa ameaça ir muito mais longe. No Le Monde do passado dia 4 de Agosto vinha uma notícia sobre o alarmante contributo das vacas para o aquecimento global. Isso mesmo, das vacas ou, mais precisamente, do volume de gás metano de origem digestiva que essas selvagens libertam durante a ruminação. Ora, o Instituto Nacional de Investigação Agronómica (INRA) francês deitou mãos à titânica tarefa de combater a emissão desse puro veneno que, dizem também, fica a pairar por aí durante 12 anos. Em Julho anunciaram a descoberta: com a incorporação de óleo vegetais ricos em ácidos gordos polinsaturados na alimentação do gado, os animais ruminam sem poluir a atmosfera e poupam 7% da energia que expeliam sob a forma de bombinhas de metano. O bónus é que essa poupança, bem gerida, ainda pode reverter a favor da qualidade do leite. Claro que o objectivo que guia os cientistas é o contributo para o problema planetário, perseguindo tudo o que possa fazer oscilar a temperatura ideal e estável do planeta, mas se já agora as vaquinhas traduzirem em leite tudo o que comem, melhor…acaba-se o desperdício de deixar ir pelos ares parte da substância.
Não percebo nada de química ou de engenharia e sou bastante céptica quanto a estes grandes gestos de salvação do mundo, mas, ou me engano muito, ou o arrefecimento do planeta ainda vai dar origem a...turbo-vacas!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Coisas de Lisboa

Já ouviram falar dos radares de Lisboa?
Aqueles que servem para controlar a velocidade e vão apresentando umas contas aos mais distraídos. Esses mesmo!
Também já ouviram dizer que a instalação dos radares foi mal planeada?
A Câmara Municipal de Lisboa até criou uma Comissão para tratar do assunto.
A CARL - Comissão de Avaliação dos Radares de Lisboa.
Uns estavam muito preocupados porque havia demasiadas multas.
Outros achavam que o limite de velocidade devia subir para os 80 km por hora.
Até havia os que pediam a eliminação deste instrumento tão violento e penalizador.
Finalmente, lá arranjaram um consenso.
Os radares estavam mal localizados e urgia corrigir esta situação.
Passou quase um ano desde que se iniciou esta comédia.
Os radares permanecem nos mesmos locais.
A Comissão já não reúne.
E as multas continuam...
... é muito barulho para tão pouco!
A sucessão de notícias que saíram sobre este assunto, as declarações de "sábios" na matéria, a importância que o tema ganhou, os meses que passaram e a inconsequência das deliberações camarárias, são um bom exemplo do que podemos esperar deste tipo de "manobras".
Afinal, nada muda.
Mas não se assume que se queria mudar, nem se diz que o assunto morreu.
Esquece-se...
Este é mais um exemplo do jeito que alguns têm para "fazer política".
Pelo menos vai mantendo uns quantos entretidos...
... e outros a assistir.
Se não fosse tão confrangedor, até dava para rir.

À gravata devemos parte do aquecimento global


A imprensa revela outra verdade inconveniente que nos vem directamente da ONU - o contributo da gravata para as mudanças climáticas.
Espera-se que o governo português vá a tempo de considerar esta descoberta. É que aprovou recentemente uma proposta de Plano Nacional de Acção para a Eficiência Energética (não sei se ainda está em discussão pública), uma espécie de repositório de meritórias medidas para obter menores consumos de energia na indústria, nos transportes, em casa ou no escritório. Apesar de não se ter esquecido dos comportamentos individuais cuja soma é garante de muita poupança mas sobretudo porque é do enraizamento de novos hábitos que se faz a sustentabilidade, olvidou a medida mais radical alguma vez assumida contra as alterações climáticas - o fim da gravata.
Sim. O fim da gravata foi já decretado por Ban Ki-moon, o Secretário-Geral da ONU que lançou a "Cool UN", apelando a quem visite a sede das NU que não use essa peça de vestuário masculino que de vez em quando, segundo os ditâmes da moda, seduz também o outro género.
A ideia é reduzir o recurso ao ar condicionado, e a medida, só por si, permitirá poupar qualquer coisa como 66 mil euros por mês, evitando a emissão de 300 toneladas de dióxido de carbono. Um milhão de euros por ano, mais coisa menos coisa, o equivalente a uns bons barris de petróleo.

À atenção, pois, do ministro da economia e do seu colega do ambiente que devem desde já sugerir uma poupança nas reuniões dos conselhos de ministros, decidindo, em pertinente e formal resolução (como outrora com a substituição das garrafas de água de plástico pelas mais ecológicas feitas de vidro), que o colégio passe a reunir de t-shirt no verão e de camisolão no inverno.

Próxima etapa das verdades inconvenientes: a oficial descoberta de que a mini-saia permite poupar ainda mais energia do que a abolição da gravata. Aliás, o Governo já encomendou ao LNEC (muito desaproveitado nestes últimos tempos) um estudo para calcular a quantos barris de petróleo equivale tal medida, uma das que será certamente bem aceite por parte da população.

Amor com amor se paga

Às vezes somos surpreendidos com situações que nos tornam evidentes diferenças culturais de que nem suspeitamos e que criam momentos embaraçosos.
Há dias, passou-me à porta o velhote surdo-quase-mudo que mora na aldeia logo a seguir ao sítio onde temos a casa de férias e fins de semana, pára sempre a espreitar se nos vê e faz grandes cumprimentos com o seu sorriso desdentado. porque costumo dar-lhe boleia para Mafra quando o encontro pelo caminho. Dessa vez ficou à espera que eu fosse ter com ele, não se limitou a acenar com grandes gestos e seguir no seu passo arrastado mas ainda firme, e afinal queria perguntar-me se eu ia ficar por ali uns dias e se queria que ele me trouxesse uns ovos das galinhas que cria lá no seu quintal. Passou lá no dia seguinte, com duas dúzias de ovos e eu insisti para que me dissesse quanto era. Resistiu, meio envergonhado, entaramelou que não, que eu lhe dava boleia para Mafra, ele costuma vender alguns mas não era o caso, metade do que ele diz não se percebe, enfim, o certo é que acabei por ir buscar as moedas e pagar-lhe os ovos.
Hoje lá ia ele a passar à porta quando íamos a sair para a praia, ia muito bem arranjado e disse, sempre com muitos gestos em vez de palavras, que ia para uma festa no Sobreiro, uma distância enorme para um lisboeta viciado no carrinho. Oferecemos boleia, como de costume, abanou a cabeça desanimado, que não, que não era o nosso caminho, mas depois lá entrou e fomos mesmo deixá-lo ao seu destino, para nós foi um desvio de poucos minutos. Quando abriu a porta para sair hesitou, riu-se meio trocista e disse na sua linguagem enrolada: -“Agora se calhar devia perguntar quanto é que devo pela boleia, já que teimou em pagar-me os ovos!”
Fiquei envergonhada, a pensar que ainda há códigos de comportamento que subsistem e que nós quase nos esquecemos, com esta mania de que tudo tem um preço e se mede em dinheiro. Sem querer, ofendi o homem, eu é que fui surda ao seu gesto simples de gratidão, eliminando a possibilidade de ele me retribuir com o que tinha. Espero que ele me dê outra oportunidade de aprender a linguagem da humildade.

domingo, 10 de agosto de 2008

Ambas são redondas, mas são muito diferentes...

Ambas têm em comum a forma. São redondas. Ambas fazem o gosto de quem as aprecia. São saborosas. Em tudo o mais são diferentes…
Uma é a mistura de farinha, margarina, ovos, açúcar e fermento. A outra é constituída de vitaminas, sais minerais e fibras.
Uma é confeccionada na cozinha. A outra é apanhada da árvore.
Uma é doce, amarela e polvilhada de açúcar. A outra é fruta, com casca de várias cores.
Uma é a bola de Berlim, a outra é a maçã.
Uma é visita assídua das praias, a outra ainda não conseguiu visto para circular!
Vem isto a propósito das notícias recentemente vindas a público, que levantaram uma polémica muito modesta em relação à importância do assunto, sobre a proibição de distribuição de fruta nas praias do Algarve. Estava em causa uma acção da Associação de Produtores de Maçã de Alcobaça apoiada pela Fundação Portuguesa de Cardiologia conhecida por “Combata a obesidade à dentada”. O Professor Massano Cardoso no seu último texto fala-nos justamente dos problemas da obesidade.
Tudo se passa nas praias. Em época de férias, com as praias apinhadas de gente, as praias são naturalmente locais atractivos para campanhas de venda ou de publicidade de produtos. É evidente que as praias não podem nem devem transformar-se em feiras ou hipermercados na areia. São locais de consumo, sim, mas de descanso, sol e banhos. Mas se nas praias se vendem bolas de Berlim, não vejo porque razão não se podem vender ou oferecer maçãs ou outros produtos naturais. Enquanto que as primeiras são negativas para a saúde, as segundas combatem a obesidade.
A Direcção Geral de Saúde criticou a dualidade de critérios das autoridades marítimas (atenção que a DGS também é uma autoridade!) que viabiliza a venda de bolas de Berlim e impede a distribuição de maçãs, considerada por aquela autoridade de saúde uma boa iniciativa, por constituir uma acção de sensibilização e educação alimentar.
A Zona Marítima Sul defendeu-se justificando que a iniciativa da Associação de Produtores de Maça de Alcobaça se tratava de uma campanha publicitária, invocando que a lei, uma coisa chamada Plano do Ordenamento da Orla Costeira, que existe há dez anos, proíbe campanhas publicitárias nas praias.
E assim, com uma lei que tem dez anos, parada no tempo, com autoridades públicas que não se entendem e que opinam de forma distinta sobre o que pode e não pode ser vendido nas praias e em que condições, com a falta de bom senso e de responsabilidade a que muitas dessas autoridades já nos habituaram, são condenadas boas iniciativas em domínios muito relevantes como é o caso da saúde.
E assim, cá vamos, muito contentes, comendo bolas de Berlim!
Não tenho nada contra as bolas de Berlim, as ambulantes - que julgo até que têm os anos contados por causa da ASAE - e as outras, mas tenho contra a proibição de distribuição nas praias de maçãs ou outros produtos naturais que fazem bem à saúde e contra a cegueira de quem não vê que temos ainda um caminho muito longo a fazer na educação alimentar, na prevenção da doença e na promoção da saúde.

sábado, 9 de agosto de 2008

8-8-08, às 8.08h


Absolutamente fabulosa a abertura dos jogos olímpicos na China! Sob o signo do número 8, o número da prosperidade, o Ninho de Pássaro animou-se com anéis olímpicos e fadas, com música e dança, com mil e uma cenas de magia, de precisão, de arte, de som, de luz, de fogo de artifício, num espectáculo feérico em que desfilou a história milenar da China. Desde os guerreiros de terracota, a criação do papel, os 3 mil discípulos de Confúncio, a Rota da Seda, a Muralha da China, até à representação da diversidade étnica, tudo com jogos de luz e milagres da tecnologia, terminando com uma grande pomba a desenhar-se no gigantesco estádio ao som da música do pianista Lang Lang, uma orgia de criatividade e perícia como era impossível de imaginar. Maravilhoso.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

“PAC, doenças cardiovasculares e campanhas”...

Uma notícia do Diário de Notícias de hoje dá conta de um estudo da O.M.S., segundo o qual a Politica Agrícola Comum é acusada de matar milhares de europeus. De facto, a produção de certos produtos, nomeadamente carne e produtos lácteos, ricos em gorduras saturadas, é muito elevada levando à criação de toneladas de excedentes que, pelo menos há algum tempo atrás, eram utilizadas para alimentar as vacas, que acabavam por terem de comer os seus derivados! Obviamente que, a par de uma produção excessiva, frequentemente subsidiada, existe um consumo sem precedentes dos referidos produtos, ricos em gorduras nocivas, que acabam por entupir as canalizações dos cidadãos europeus, mas não dos africanos que passam fome de cão. Estes morrem mais cedo mas ao menos estão “protegidos” das doenças cardiovasculares! Cinismo típico do desenvolvimento económico. Se por um lado contribuem para a morte dos mais ricos, por outro, também, não deixam de “provocar” a morte dos mais pobres, já que as vacas dos primeiros têm mais direitos aos alimentos que os últimos.
As campanhas contra a obesidade e o consumo excessivo de certos produtos não têm tido sucesso e, pessoalmente, não acredito que venham a ter, enquanto não houver uma verdadeira politica educacional e promocional. Veja-se o exemplo simpático de uma campanha televisiva com esse objectivo. Bem ensaiada, melhor teatralizada, com posturas certas, mãos dispostas simetricamente, focando que as pessoas devem comer assim e assado. Comer várias vezes ao dia, privilegiar as verduras e as frutas, escolher produtos naturais, pobres em gordura, fazer exercício e mais alguns lugares comuns, que ninguém contesta, porque é tudo politica, nutricional e socialmente correcto, sempre acompanhado de simpáticos sorrisos e de contributos de "figuras públicas", são algumas das mensagens, através das quais se pretende alterar o curso dos acontecimentos. Mas conseguirão mesmo? Claro que não. No fundo, pode ser considerada como uma mais fonte de informação, óptima para aliviar as consciências dos responsáveis. É pena que não utilizem a campanha - patrocinada por uma grande companhia portuguesa, a Galp, que, com o aumento dos preços dos combustíveis e a estranha “lentidão” em os baixar, já fez mais para perder o peso do que qualquer outra, ao obrigar muitos portugueses a terem de andar a pé -, para denunciar, frontalmente, as campanhas publicitárias que aliciam os portugueses, sobretudo os mais jovens, a comerem alimentos energéticos, a inoperância do governo sobre os conteúdos das máquinas de distribuição automática nos estabelecimentos de ensino, a não prioridade do desporto como disciplina nuclear, as maquinações produzidas ao redor das alterações a certos alimentos transformando-os em nutracêuticos, à obscenidade televisiva das propriedades terapêuticas que vão desde as beringelas, passando, pelos melões, melancias, peras, alhos e cascas de outros frutos, “como podem ler nas páginas tal e tal do livro”, que já vendeu mais de 400.000 exemplares, e se forem os primeiros hoje a comprar ainda recebem um livrinho de receitas saudáveis. Este folclore conta com a conivência de célebres apresentadores de televisão e o inevitável “xotaque” brasileiro, talvez para dar mais crédito às mensagens de saúde dos novos missionários da New Age! No fundo, dinheirinho, bem contado.
Uma campanha contra a obesidade e doenças de origem alimentar tem que ser complementada com a denúncia frontal, nua e crua de muitos responsáveis que vão desde os “fazedores de dinheiro” e respectivos subsidio-dependentes até aos próprios governantes.
Pois! Pois é! E depois? Como é que iam ganhar a vidinha? Afinal, a PAC, além de matar alguns, alimenta a carteira de muitos produtores e é fonte de criatividade para “doces e energéticas” filantropias...



quinta-feira, 7 de agosto de 2008

"Depois de casa roubada trancas à porta"!

No mesmo dia, ontem quarta-feira, em que o Tribunal de Almada foi assaltado e foi levada uma caixa multibanco, o ministro da administração interna veio anunciar que a partir do próximo ano judicial – creio que será em Setembro - vão começar a ser aplicadas medidas para tornar os tribunais mais seguros, designadamente a instalação de equipamentos de videovigilância e a ligação das instalações judiciais a centrais de alarme. Questionado pelos jornalistas sobre o plano de implementação das medidas (tribunais abrangidos, data de conclusão dos trabalhos, etc.) o ministro da administração interna não adiantou mais informação e esclareceu que quaisquer concretizações do projecto “são prematuras, porque estão a ser estudadas”.
Realmente, quando se anuncia, no rescaldo de mais um acto de vandalismo contra um tribunal, que vão ser implementadas medidas a partir de Setembro de 2008 - medidas que há muito se impunham - não se entende como é que simultaneamente se afirma que é prematuro falar do projecto.
Acreditando que existem medidas estudadas e que a decisão de as implementar está tomada, não se compreende, então, porque é que uma matéria tão delicada e importante só agora foi tornada pública, à espera de mais um assalto a um tribunal, que fez mais uma vez as delícias da comunicação social!
Se o governo tem um plano, que no caso em apreço parece que é para dar e não para tirar, porque é que não anuncia as medidas em lugar de estar à espera que surjam mais problemas?
O que parece ser óbvio é que a falta de segurança de pessoas e bens nos locais e edifícios em que se “pratica” a justiça, nomeadamente os tribunais, quer pela não adequabilidade e degradação das instalações, quer pela violência de que se revestem certos actos praticados (agressões físicas, arrombamento de instalações, roubo de valores, etc.), contribui para fragilizar e enfraquecer ainda mais uma imagem debilitada da justiça e das instituições do Estado e aumentar o sentimento das populações de que a justiça funciona mal ou não funciona!
Com o actual estado das coisas não percebo sinceramente porque insiste o governo no caminho de “depois de casa roubada trancas à porta”. Caminho que, diga-se em abono da verdade, não é um exclusivo da justiça.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

“Os homens são tão capazes como as mulheres”...

A discriminação contra as mulheres constituiu uma linha de orientação intencionalmente fabricada e com interesses machistas. Ao longo dos tempos, a Humanidade assistiu a mudanças substanciais desde a serem reconhecidas como tendo alma, passando pelo direito ao voto e fazer “coisas” de homens como o serviço militar.
O Ministro da Defesa, Nuno Severiano Teixeira, obrigou a Marinha a “respeitar o princípio da igualdade entre homens e mulheres a todas as classes e especialidades”. Nem mais!
A discriminação feminina é difícil de compreender. De qualquer modo foi “legitimada” por correntes sociais e religiosas que relegaram as mulheres para um plano inferior.
Não acredito que Deus tenha criado em primeiro lugar Adão e, depois, através de uma costela do mesmo, retirada à má fila, enquanto dormia, ter feito a Eva. Mas é assim que começa o Livro Sagrado. Superioridade masculina à partida. Estou convicto que talvez tenha sido o contrário. Ou seja, a Natureza é por excelência feminina.
Certas obras literárias e científicas destacam a probabilidade de a estirpe humana básica e primordial ser feminina ou caminhar nesse sentido. O geneticista britânico, Steve Jones, escreveu, há algum tempo, um livro sobre a decadência do cromossoma Y. Uma chatice! Veja-se o que o autor chegou a afirmar: “A masculinidade é um processo que está sempre em decadência. Se olharmos a posição actual dos homens e das mulheres, não só social como emocionalmente, mas também biologicamente, verificamos que os homens se estão a sair muito pior do que antes.
Claro que os machos da espécie humana não vão desaparecer. Quando os machos aparecem na Natureza é muito difícil livrar-se deles. Acontece que algumas espécies podem feminizar-se, caso de alguns répteis ou anfíbios, mas não vão longe! Bom, podemos estar sossegados, não vão desaparecer os machos, embora possam ficar sem o Y. Os pássaros não têm o cromossoma Y e os crocodilos também não. Que raio de machos humanos irão surgir? Uma mistura de “pássaro e de crocodilo”?! Não importa!
Voltando aos primórdios da criação, Doris Lessing, Prémio Nobel da Literatura, em 2007, escreveu, nesse mesmo ano, a obra “A Fenda”. A autora justifica-a com a leitura de um artigo científico que defende a teoria de que os primeiros seres humanos terem sido mulheres. A partir daqui, numa narrativa ultra interessante, descreve o que acontece quando, numa comunidade apenas de mulheres, que controlam a natalidade e só têm filhos do sexo feminino, nasce o “Monstro”, um rapaz. Lá para o fim do livro, e após muitas “eras”, arranjaram maneira de se entenderem, as “fendas” e os “monstros”, também apodados de “esguichos”...
A frase: “As mulheres são tão capazes como os homens” da deputada do PS, Maria Carrilho, que li, a propósito da notícia sobre o fim da discriminação das mulheres no acesso aos Fuzileiros, deveria ser acompanhada de outra: “Os homens são tão capazes como as mulheres” com ou sem o cromossoma Y...
Esperemos!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Forma de encher chouriços!...

Maddie de manhã à noite. Maddie em notícias, entrevistas e comentários. Maddie entregue a jornalistas, especialistas, analistas, legalistas, psicólogos e juristas.
Maddie no centro de especulações delirantes. Maddie, na recuperação grotesca do melhor estilo inquisitorial.
Uma desbragada exploração da desgraça alheia, gratuita, sem tino, senso, ou finalidade é o alto critério jornalístico vigente.
Para a nossa rádio, televisão e jornais, Maddie é mera forma de encher chouriços.
Que o serviço público grotescamente acompanha.

De vez em quando lá vem uma boa notícia!

De vez em quando lá vem uma boa notícia! A partir de 2009 vai ser obrigatória a colocação de pulseiras electrónicas nos recém-nascidos e os acessos aos hospitais vão ter de ser equipados com sistemas de videovigilância com monitorização contínua e gravação de imagem de alta definição.
Com esta medida ganha reconhecimento a importância da segurança dos recém-nascidos nas maternidades e da eficácia da sua protecção contra actos de rapto.
A prevenção do roubo de um recém-nascido nos locais em que nos primeiros dias de vida são confiados à guarda de terceiros era há muito um imperativo. Esperemos que a lei seja efectivamente cumprida, impedindo que acontecimentos de transbordante alegria se transformem em severos pesadelos.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Será que querem (ou podem) regressar?

Escrevi sobre este assunto em Junho passado a propósito do regresso a Espanha de médicos espanhóis a trabalharem no SNS. O problema da falta de médicos no SNS, em particular em algumas especialidades, há muito que está diagnosticado.
Não deixo de me interrogar como foi possível não actuarmos em devido tempo para invertermos esta tendência, já que também há muito tempo que é conhecida a evolução demográfica que vem sendo traçada e o movimento crescente de necessidades de cuidados de saúde, quer por virtude do envelhecimento da população e pela melhoria, em geral, de acessibilidade da população ao sistema de saúde quer ainda pelos extraordinários progressos que cada dia que passa se registam na capacidade e eficácia médicas, designadamente em intervenções cirúrgicas e tratamentos médicos, em elementos auxiliares de diagnóstico, medicamentos, etc.
Provavelmente a resposta é a mesma que explica os atrasos em muitos outros sectores. Falta de visão e falta de estratégia fazem parte da possível resposta.
Nunca compreendi o porquê do corte drástico nas vagas para medicina que ocorreu em anos consecutivos não muito distantes, impondo notas completamente absurdas e conduzindo muitos jovens talentosos a realizarem a sua vocação em universidades estrangeiras ou pura e simplesmente a desistirem do caminho da medicina e a enveredarem por outras paragens tantas vezes equivocadas ou causadoras de grande frustração. Um erro que agora estamos e vamos continuar a pagar caro!
Vieram hoje a público dados importantes sobre a “fuga” de jovens para o estrangeiro para aí tirarem a licenciatura dos seus sonhos, sabe-se lá com que dificuldades e sacrifícios familiares e pessoais.
De acordo com a notícia de hoje do Público, 6% dos médicos que se registam na Ordem dos Médicos obtem o diploma no estrangeiro. Por exemplo, na Republica Checa existem 460 alunos portugueses a estudar medicina. Este país tem investido muitíssimo na oferta de ensino superior e especializado em diversos campos disciplinares a países estrangeiros. Uma estratégia que tem vindo a colher os seus frutos. Portugal figura já no seu portfólio!
A crise de falta de médicos está instalada e a expectativa é que se prolongue até 2015. Segundo a notícia, a Ministra da Saúde quer que os alunos portugueses que estão a tirar medicina no estrangeiro regressem a Portugal. Uma preocupação que lhe fica muito bem, mas que não se resolve só porque há uma vontade política para que retornem ao País. E já agora, estará o Estado interessado em pagar os custos em que incorreram as famílias para que os seus filhos prosseguissem no estrangeiro estudos aos quais o País “fechou a porta”?
Para tal há que resolver vários problemas graves do SNS. Será que o SNS tem objectivamente condições atractivas para os médicos aí exercerem a medicina? Este é um problema estruturante que não sendo resolvido, conduzirá ao acentuar da “fuga” de médicos para o sector privado e não atrairá os jovens médicos licenciados no estrangeiro. Assiste-se, aliás, a um défice de médicos por essa Europa fora e, portanto, a procura de jovens médicos é grande. Se não queremos agravar ainda mais os problemas que já temos, que alguns deles bem poderiam ter sido evitados, então tomemos as medidas certas e não nos fiquemos por processos de intenções!

domingo, 3 de agosto de 2008

“Mamas falsas”

A auto-estima e o bem-estar passam pelo corpo e pela aparência. É um facto.
Ao longo da vida sofremos alterações próprias do crescimento, da maturação e do envelhecimento. Saber viver com as naturais modificações constitui uma arte. Acontece que muitas pessoas não são capazes de lidar com algumas características ou modificações, ou porque não sabem ou porque não querem. Acresce que a tirania da moda, e os novos estereótipos de beleza, entretanto produzidos, “obrigam” muitas pessoas a fazer transformações, por vezes substanciais, nos seus corpos. Exceptuando certos casos clínicos, perfeitamente justificáveis, começa a ser alvo de atenção o elevado e crescente número de pessoas que procuram a “perfeição” física e a recusa em envelhecer.
É frequente ver na televisão, e noutros meios de comunicação, jovens senhoras a revelarem atributos mamários dignos de verdadeiras Vénus.
- Vejam o que a Natureza me deu!
Mamas de facto?
Sabemos que as mamas matam a fome aos que nascem e são fonte de prazer aos que já nasceram. Quando nascem são verdadeiros botões de rosa que amadurecem como deliciosas ameixas e que ao envelhecer se transformam em ternas lembranças. São as mamas da Natureza.
Mas as que nos são presenteadas são excessivamente redondas e simétricas. Não balanceiam. Não estremecem ao respirar. Não se deixam esmagar ao contacto ou descair languidamente. São mamas empertigadas e duras com mamilos virados para o céu como se fossem mísseis. São mamas artificiais, de plástico. Mamas falsas. Mamas que são fruto de verdadeiras “auto-mutilações”. Mamas padronizadas. Mamas da vaidade. Fazem-nos recordar um cesto com fruta, apetitosas ao olhar, de suaves pêssegos, carnudas maças, suculentas laranjas e frescas peras. Ao toque revelam a sua natureza: falsas. São mamas do engano, próprias de um mundo de cibernautas e amantes das frias facas.
O número de mulheres que se sujeitam a técnicas artificiais mamárias, sem razões clínicas aparentes, está num crescendo muito preocupante. Uma verdadeira epidemia com consequências difíceis de quantificar, mas que importa denunciar.
Sinal de beleza? Sinal da busca da perfeição? Sinal da negação do envelhecimento? Sinal de status?
Falsas afrodites…

O Arquipélago de Gulag

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Ainda guardo o livro.
E com ele a memória de Aleksandr Solzhenitsyn que hoje nos deixou com 89 anos.
A capa está velhinha, a lombada quase desfeita, as folhas muito amareladas.
Editado em Setembro de 1975 pela Bertrand, em pleno Verão quente do PREC, este livro foi uma arma fantástica para os confrontos que então se travaram.
Destruiu mitos, ajudou a formar convicções, expôs a tirania daqueles que se diziam os defensores da igualdade e fraternidade entre os homens.
Naqueles tempos de enorme confrontação, Solzhenitsyn trouxe-nos o lado absolutamente negro daquele comunismo e da sua indústria carcerária, que então nos tentavam impingir.
Em memória deste grande homem, deixo uma pequena transcrição do seu arquipélago:
“- Eu??? Poquê???
Pergunta repetida milhões e milhões de vezes antes de nós, e que nunca obteve resposta.
A detenção é uma transição instantânea e evidente, uma ruptura, a passagem de um estado a outro.
Ao longo da sinuosa rua da nossa vida caminhávamos felizes, ou arrastávamo-nos penosamente, encostados a não importa que taipais: taipais e taipais de madeira podre, de barro, de tijolo, de betão, de ferro fundido.
Pensaríamos no que existe para além deles? Nem com a vista, nem com o pensamento tentávamos penetrar no que havia por detrás, quando é ali mesmo, bem perto, a dois metros de nós, que começa o Arquipélago de GULAG.”

O tempora o mores! ou os milagres da lipo


A manicura que de vez em quando consegue fazer milagres das minhas mãos de jardineira-domingueira era, quando a conheci, uma jovem brasileira muito bonita, morena, de sobrancelhas grossas e cabelo preto, que destoava das suas colegas loirinhas e pálidas também por ser um tanto gorducha, ainda mal resolvidas as formas da adolescência. Quando fui lá uns largos meses depois ela estava com um ar muito abatido, a mexer-se com dificuldade na sua cadeirinha baixa e com uma faixa branca atada à volta do queixo, a dar um nó no alto da cabeça, como se tivesse um dor de dentes à moda antiga, quando se queria prender o cubo de gelo em cima da dor horrível. Perguntei-lhe a medo o que tinha, se tinha caído, parecia-me aquele aparato todo uma coisa bem estranha e além disso era impossível estender a mão com indiferença e deixar que trate de nós alguém que aparenta tanto sofrimento.
- Fiz umá lipó..., disse ela baixinho.
- Uma quê?, perguntei alarmada, aquilo soou-me a uma coisa grave, talvez lhe tivessem tirado os dentes, sei lá, mas pelo menos os da frente tinha, ou então tinha partido o queixo e havia um tratamento qualquer que eu desconhecia, pelo menos com esse nome.
- Umá lipó, insistiu ela carregando nas vogais, admirada como se eu tivesse caído da lua. -Vôcê sabe, não é?, tirei umas gordurinhas, aqui no queixo, também nas costas e nas cadeiras, uns retoques, ah, mas custa muito, não deu prá ficar em casa até passar, tive que trazer o pano por causa da cicatriz, ainda tá fresca, e aqui com o ar condicionado e os secadores não faz bem.
- Uma lipoaspiração? Tão nova? Mas não era gorda, uma dieta talvez fosse suficiente para se sentir melhor... , arrisquei eu, ainda abismada.
- Ai, isso não, ia levar um tempão, já viu, talvez um ano, assim foi melhor, custa um pouco mas é rápido!
Alguns meses depois, quem puxou a cadeirinha baixa para se sentar a tratar-me das unhas foi uma mulher magrissima, com óculos de massa escura e um ar de suburbana mal amanhado, a pele baça, madeixas no cabelo descolorado e uns brincos horríveis. Perguntei pela outra, a que costumava atender-me, e só quando vi o seu olhar espantado é que percebi que era ela, a brasileira pouco mais que adolescente que tinha feito a lipo.
- Não mi conhéce?, perguntou ela a rir, é por causa dos óculos, eu não usava, mas este trabalho cansa muito a vista.
Perguntei-lhe se estava contente com a sua nova imagem, assim tão magra, tinha ficado assim só com a operação? e ela suspirou fundo.
- Sim, é bom, mas não foi só da lipo, não, agora tenho que fazer uma dieta rigorosa p’rá não voltar a engordar, sabe? a lipó custa uma nota preta, tem que render, não dá para estragar...
Lembrei-me da manicura escanzelada e sofredora quando vi hoje num jornal um anúncio de uma clínica que promete vencer as marcas do tempo, “o que parecia impossível está agora ao alcance de todos”, perder duma penada as gorduras malditas, até nos joelhos!, mas desta vez sem cortes, nem dores, nem nada. Pim!, um ultra som e evapora-se tudo que é uma beleza. O mesmo jornal tinha um artigo algures a dizer que os investigadores brasileiros descobriram que a abominável e inútil gordura afinal tem muitas células estaminais, uma mina de ouro para outras aplicações médicas. É só uma questão de ser lipoaspirada para poder ser aproveitada, creio que na regeneração de tecidos...uma espécie de reciclagem, se bem entendo, não tarda nada começa a ser uma obrigação cívica ir aspirar gorduras para doar ao banco de células estaminais.
Há quem queira matar os sinais do tempo e quem não tenha tempo a perder, mas quem viu e quem vê a rapariguinha brasileira passar de morena gorducha a loiraça esquelética há-de concordar que às vezes era melhor que o tempo voltasse para trás!

sábado, 2 de agosto de 2008

As papoilas saltitantes!...IX

Afinal, a UEFA acabou por fazer a vontade ao Presidente do Benfica. O clube não participou no sorteio da pré-eliminatória da Liga dos Campeões!...
Deitado assim ao lixo o trabalho de advogados de luxo!...