Vamos lá então fazer as contas… certas!
Dos cerca de EUR 2300 milhões que o Governo veio dizer que custam as propostas da Oposição que foram debatidas na sexta-feira passada no Parlamento, apenas cerca de EUR 380 milhões têm francas possibilidades de ver a luz do dia.
E isto porque
- A proposta do PCP e do BE que visava dar a reforma completa, sem penalizações, a quem tenha trabalhado e descontado 40 anos (independentemente da idade) foi reprovada. De acordo com o Governo, custava EUR 960 milhões.
- A proposta do PSD de reduzir a taxa social única em 2 pontos percentuais para os empregadores em 2010 – e só em 2010 –, e cujo custo ascendia a cerca de EUR 735 milhões, foi também reprovada.
- A redução do pagamento por conta em sede de IRC, proposta pelo CDS, é um simples diferimento do momento em que o dinheiro dá entrada nos cofres públicos. Assim, se for aprovada na especialidade, terá impacto negativo em 2010 (menos receita, porque as empresas vão entregar menos imposto antecipado) – mas positivo em 2011, altura em que o IRC relativo a 2010 é liquidado. A partir daí não haverá mais impactos.
Restam, assim, a extinção do Pagamento Especial por Conta (PEC) sobre as empresas (avaliado em cerca de EUR 300 milhões) e a suspensão do Código Contributivo da Segurança Social em 2010 (cujo agravamento sobre empregadores e empregados ascenderia a cerca de EUR 80 milhões). Ah, e a extensão do prazo de concessão do subsídio de desemprego em 6 meses durante 2010 – e apenas em 2010 –, apresentada pelo PSD, que ainda não foi discutida (sê-lo-á em breve, e aposto que será aprovada), e cujo custo acenderá a cerca de EUR 120 milhões.
Juntando esta última proposta estamos, assim, a falar de cerca de EUR 500 milhões, ou cerca de 0.3% do PIB.
Não está, aqui, em causa se as medidas rejeitadas beneficiariam ou não a economia – e eu considero, em particular, que a descida da taxa social única em 2 pontos percentuais para todos os empregadores seria importante para defender o emprego no próximo ano, pelo que foi uma pena que não tivesse sido aprovada. Não. O que está em causa é a dramatização – mesmo vitimização – do Executivo perante o resultado adverso da votação de 6ª feira passada.
José Sócrates acusou a Oposição de ser “desleal” (por não apresentar estas medidas no quadro do Orçamento do Estado para 2010), e de aumentar a despesa. Desleal?... Mas as medidas apenas entrarão em vigor em 2010 – naturalmente, no quadro do Orçamento do Estado (OE)!!!... E, francamente: medidas que aumentam a despesa?!... Haja paciência!... Apenas uma, a da extensão do subsídio de desemprego em 6 meses o faz – apenas em 2010 (o que significa que, em 2011, a despesa desce pelo mesmo valor), e por um montante que nem chega a 0.1% do PIB… As outras propõem uma redução da receita, visando proporcionar alguma folga às empresas, sobretudo em 2010.
Vejamos:
- O PEC é uma espécie de colecta mínima indiscriminada, pelo que o seu fim irá beneficiar as empresas que habitualmente não pagam IRC (as outras podem abater no ano seguinte os pagamentos feitos, quando o IRC for liquidado). A sua criação visou combater a fraude e evasão fiscais, colocando todas as empresas a pagar. Os progressos feitos no sistema informático da máquina fiscal nos últimos anos deverão, em princípio, conseguir garantir o pagamento do imposto que é devido – e, assim, sendo, a maior parte da receita que não é cobrada em 2010 deverá sê-lo em 2011… beneficiando, então, os cofres públicos;
- O código contributivo será suspenso em 2010, havendo a possibilidade de esta versão – que aumenta a carga fiscal sobre empresas e trabalhadores – ou uma versão que venha a ser trabalhada, vigorarem a partir de 2011…
Uma nota ainda quando à redução dos prazos de pagamento do IVA às empresas por parte do Estado e ao pagamento de juros por parte deste quando se atrasa nos pagamentos: nada mais justo. O pagamento a tempo e horas deve ser a regra para a toda a sociedade – e o Estado não pode continuar a dar péssimos exemplos nesta matéria. Isto além de que pagar em prazos mais curtos também beneficia a tesouraria das empresas em tempo de dificuldades – e não implica despesa adicional, porque os pagamentos teriam sempre que ser feitos (apenas o prazo é antecipado)... Assim sendo, impacto nas contas públicas… só existirá, na situação absolutamente condenável, de o Estado não pagar a horas –, o que acarretará o (justo) pagamento de juros.
É, portanto, devido a 0.3% do PIB – e apenas em 2010 – que José Sócrates e Teixeira dos Santos fingiram entrar em pânico. Haja paciência e, acima de tudo, pudor, para não confundirem os portugueses. Não há nenhum aumento de despesa a partir de 2011. E impacto do lado da receita, a partir desse ano, é também negligenciável. Ora, não foi a Teixeira dos Santos que ouvimos dizer que seria a partir de 2011 que se iria preocupar em reduzir o défice público?... Será então melhor que se concentre nessa tarefa, para não repetir o rotundo fracasso do período entre 2005 e 2008, em que a consolidação orçamental do lado da despesa, tão apregoada aos 4 ventos através do PRACE, produziu ZERO de resultados. Mas essa afirmação do Ministro das Finanças significa também que ele próprio considera que, em 2010, a economia terá que ser uma prioridade – com o que concordo inteiramente!... Oxalá!...
Quanto a Sócrates, é bom que perceba que, ao contrário do que afirmou (“está para nascer o Primeiro-Ministro que faça melhor do que eu com o défice”), está é para nascer o Primeiro-Ministro que faça pior do que ele com o défice e as contas públicas em geral (e a trajectória explosiva da dívida pública? E o endividamento oculto?)…
Enfim, tudo somado, creio que estas reacções não são para levar a sério. Em minha opinião, elas decorrem, fundamentalmente, do facto de quer José Sócrates, quer Teixeira dos Santos, não estarem ainda habituados a conviver com maioria relativa. Mas, como alguém que conhecemos dizia, ainda há cerca de 4 anos e meio, “habituem-se!”: a maioria absoluta acabou-se. Ou, como dizia um antigo Primeiro-Ministro, de quem também todos nos recordamos, “é a vida!”. São os custos da democracia; há que aprender a conviver com eles. Já agora, se não for pedir muito, de forma séria. Como convém a quem comanda os destinos de um país.
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Um cogumelo muito especial...
Este extraordinário cogumelo, lindíssimo no tamanho, na forma, na textura, na cor e no brilho, é digno de apreciação. Desenvolveu-se em muito pouco tempo com a chegada do frio e agora faz as delícias dos habitantes do bairro.
Está suportado no tronco de uma das muitas árvores frondosas que embelezam e dão vida ao bairro onde vivo em Lisboa. Ainda hoje de manhã por lá passei com a preocupação de ver se alguém lhe tinha feito mal. Continuava viçoso. Espero bem que ninguém se lembre de o apanhar na mira de fazer um qualquer cozinhado para o Natal.
Mas o perigo maior vem de outras bandas. São as brigadas do vereador José Sá Fernandes que ordenou o abate de umas boas dezenas de árvores "doentes" no Jardim do Príncipe Real, um abate controverso que tem sido objecto de várias denúncias.
domingo, 29 de novembro de 2009
Ministro da Economia?
Vieira da Silva tomou posse como Ministro da Economia.
Não sei se é. Creio mesmo que foi engano.
Até agora, a acção ministerial mais notada foi acusar a justiça de espionagem política.
Está certo. Cada qual fala do que sabe. E a mais não pode ser obrigado.
Quanto à economia, já tanto lhe faz.
Não sei se é. Creio mesmo que foi engano.
Até agora, a acção ministerial mais notada foi acusar a justiça de espionagem política.
Está certo. Cada qual fala do que sabe. E a mais não pode ser obrigado.
Quanto à economia, já tanto lhe faz.
A bondade escondida...
Hoje de manhã, como acontece normalmente ao Domingo quando estou em Lisboa, fui ao supermercado fazer as compras habituais para a semana. Àquela hora costumo encontrar à porta da loja um homem que aparenta 60 anos, que passa ali uma boa parte do dia à procura de ajuda por parte dos clientes do supermercado. É um homem que veste uma certa pobreza envergonhada, discreto, sossegado, educado, que não precisa de pedir pois lemos nos seus olhos a amargura da vida que o leva àquela condição. Sinto que encontra naquele lugar uma espécie de amparo “familiar”, pois já fez conhecimento com algumas pessoas que ali se deslocam.Quando saí a porta da loja, já o tinha cumprimentado quando entrei, reparei que o homem tinha na mão um ou dois sacos do Banco Alimentar. Tinha já preparado alguma coisa para lhe oferecer, quando me segredou que estava a juntar algum dinheiro para ir lá dentro ajudar o Banco Alimentar. E, de imediato, explicou-me, sorrindo, que queria ser solidário com aqueles que mais precisam. E, sem que eu tivesse tempo para retorquir, acrescentou que há pessoas que ainda têm mais privações que ele.
Fiquei emocionada com a nobreza de alma deste homem. Um Homem com letra grande. Estamos sempre a aprender e às vezes os melhores exemplos vêem de quem não se espera. Hoje ganhei o dia...
Míscaros e regionalismos

Hoje de manhã fui às compras e encontrei uma preciosidade: míscaros! É altura deles, bem sei, mas nos últimos anos, não sei se por causa das chuvas se por não haver quem saiba ou queira ir apanhá-los aos pinhais para os vender, são raros e muito caros. Estes eram lindos, enormes e cheios de areia, a um preço decente, e comprei logo 2 kgs.
É claro que passei uma boa hora a lavá-los, escová-los um a um, raspá-los delicadamente com uma faca afiada para tirar a pele e lembrei-me entretanto, a olhar os meus dedos encarquilhados da água e o cano a entupir com a areia, porque é que a minha mãe resmungava quando o meu pai trazia sacos enormes cheios de míscaros, uma autêntica guloseima para a tribo com costela da Covilhã pelo lado paterno.
Depois deste trabalhão fiquei desolada a pensar que não tinha um “nativo” tão apreciador como era o meu pai para partilhar a iguaria, e então telefonei ao irmão dele, a convidá-lo para o almoço, o meu tio tem já 90 anos mas é uma força da natureza e grande apreciador de petiscos.
- Tens míscaros?, dizia ele do outro lado, e já os cozinhaste? Tem que ser com a receita da Covilhã, vê lá não os estragues com invenções, isso tem um preceito, a tua avó é que os fazia bem…
E fez questão de me ditar tudo com detalhe, incluindo o modo de picar a cebola, o lume baixinho para a água ir evaporando e, no fim, os ovos misturados mas já com o lume apagado. Eu ouvi tudo mas resolvi deitar no refogado umas lasquitas de bacon, como a minha mãe fazia, só para “abrir”, dizia ela, o sabor dos cogumelos, mas ela é lisboeta e nunca gostou muito dos bairrismos serranos.
Foi um dia muito bem passado com um conversador incansável, a lembrar-se da inimizade ancestral “dos” da Covilhã com “os” de Castelo Branco, duas comunidades que se distinguem logo pelos petiscos que uns sabem fazer e outros não (nos míscaros, claro, mas também nos pastéis de molho e na panela no forno) e que se mimoseavam com epítetos vários, os primeiros eram os “lãzudos”, que retribuíam chamando “rolheiros” aos outros, que fabricavam rolhas mas os humilhavam porque tinham que ir para lá viver se queriam ir para o liceu, na Covilhã só havia escola primária.
Os de Alcains também eram segregados e a certa altura ocorreu-me que o meu pai nunca queria parar no Fundão quando íamos à Serra. -Então e os do Fundão, tio, esses não eram inimigos? E ele fez-se muito sério e respondeu logo:
- Oh, do Fundão, nem homem, nem mulher, nem cão!
E começou logo a pôr defeitos nos míscaros, um bocado mal humorado, que lhe parecia que eu afinal não tinha seguido a receita à risca porque tinham um ligeiro gosto a gordura de toucinho…Palavra que, quando fizer a panela no forno, vou cumprir os preceitos da Covilhã e levar os regionalismos a sério!
É claro que passei uma boa hora a lavá-los, escová-los um a um, raspá-los delicadamente com uma faca afiada para tirar a pele e lembrei-me entretanto, a olhar os meus dedos encarquilhados da água e o cano a entupir com a areia, porque é que a minha mãe resmungava quando o meu pai trazia sacos enormes cheios de míscaros, uma autêntica guloseima para a tribo com costela da Covilhã pelo lado paterno.
Depois deste trabalhão fiquei desolada a pensar que não tinha um “nativo” tão apreciador como era o meu pai para partilhar a iguaria, e então telefonei ao irmão dele, a convidá-lo para o almoço, o meu tio tem já 90 anos mas é uma força da natureza e grande apreciador de petiscos.
- Tens míscaros?, dizia ele do outro lado, e já os cozinhaste? Tem que ser com a receita da Covilhã, vê lá não os estragues com invenções, isso tem um preceito, a tua avó é que os fazia bem…
E fez questão de me ditar tudo com detalhe, incluindo o modo de picar a cebola, o lume baixinho para a água ir evaporando e, no fim, os ovos misturados mas já com o lume apagado. Eu ouvi tudo mas resolvi deitar no refogado umas lasquitas de bacon, como a minha mãe fazia, só para “abrir”, dizia ela, o sabor dos cogumelos, mas ela é lisboeta e nunca gostou muito dos bairrismos serranos.
Foi um dia muito bem passado com um conversador incansável, a lembrar-se da inimizade ancestral “dos” da Covilhã com “os” de Castelo Branco, duas comunidades que se distinguem logo pelos petiscos que uns sabem fazer e outros não (nos míscaros, claro, mas também nos pastéis de molho e na panela no forno) e que se mimoseavam com epítetos vários, os primeiros eram os “lãzudos”, que retribuíam chamando “rolheiros” aos outros, que fabricavam rolhas mas os humilhavam porque tinham que ir para lá viver se queriam ir para o liceu, na Covilhã só havia escola primária.
Os de Alcains também eram segregados e a certa altura ocorreu-me que o meu pai nunca queria parar no Fundão quando íamos à Serra. -Então e os do Fundão, tio, esses não eram inimigos? E ele fez-se muito sério e respondeu logo:
- Oh, do Fundão, nem homem, nem mulher, nem cão!
E começou logo a pôr defeitos nos míscaros, um bocado mal humorado, que lhe parecia que eu afinal não tinha seguido a receita à risca porque tinham um ligeiro gosto a gordura de toucinho…Palavra que, quando fizer a panela no forno, vou cumprir os preceitos da Covilhã e levar os regionalismos a sério!
À procura de justificações...
O que somos em cada momento é sempre um somatório do que fomos. O passado explica quem somos e porquê, o que somos capazes de fazer e as nossas dificuldades, o que nos distingue dos outros e porquê. Para nos conhecermos e perspectivarmos o futuro não devemos ignorar o passado. Temos que com ele conviver, porque ele faz parte da nossa personalidade e identidade. Podemos, isso sim, actuar sobre ele, por exemplo aprendendo com os erros e repetindo os sucessos. Se tudo isto é verdade na vida de uma pessoa, funciona também na vida de uma nação e de um povo.Vem tudo isto a propósito da entrevista de António Barreto hoje publicada no jornal i. António Barreto chama a atenção para as marcas do passado do País no traçado do presente e do futuro, não apenas numa perspectiva histórica e factual que é fundamental conhecer, mas também numa perspectiva transformadora em que a compreensão da herança do passado é fundamental para operar as mudanças necessárias e urgentes:
(...)
- Qual a falta mais gritante?
- Qual a falta mais gritante?
Parece-me óbvio que há uma falta de empresários, de capitalistas. Será um problema ancestral? Vem da nossa maneira passada de viver e de gastar? Dos desperdícios? Do facto de os ricos portugueses terem vivido à sombra do Estado durante 200, 300 ou 400 anos? De o Estado ter ocupado tudo desde os Descobrimentos? Não quero ir por aí, mas o resultado é este. Há poucos empresários, poucos capitalistas com capitais, as elites são fracas e têm uma noção medíocre do serviço público. É raríssimo encontrar ricos, poderosos, famílias antigas, com um sentimento forte do contributo que podem dar à sociedade.
- Que mais falta?
Falta literacia. Tínhamos há 30 anos a mesma taxa de analfabetismo que a Inglaterra de 1800. Em matéria de alfabetização havia 150 anos de atraso. Porque é que os portugueses não lêem jornais? A falta de hábito de ler os jornais é muito importante, porque o jornal é a fonte de informação que mais está virada para o raciocínio, o pensamento, a participação.
Quem vê televisão está geralmente em posição passiva.
- Mas hoje a imagem é rainha. O apetite por um jornal nunca igualará o da televisão...
Mas quem tem como informação exclusiva a televisão subordina o raciocínio, o pensamento, o estudo, o lápis que toma as notas, às emoções. É mais fácil ser livre e independente com um papel na frente do que diante de uma imagem que é fabricada com som e se dirige às emoções e aos sentimentos e não à razão - ou pouco à razão. Sou consumidor de televisão e da net, mas o que quero dizer é que, ao contrário de todos os países europeus, quando os portugueses começaram a aceder à escola e a aprender a ler, nos anos 50 e 60, já havia televisão. Não se fez o caminho que todos os outros países da Europa fizeram, que foi dois séculos a lerem jornais e só depois com uma passagem gradual para a rádio e para a televisão.
(...)
No mundo sem fronteiras em que estamos integrados, abertos à concorrência e entregues à nossa capacidade de criar riqueza aproveitando as oportunidades que a economia global tem para oferecer, as marcas do passado, algumas delas bem pesadas, continuam a pesar muitíssimo por não termos sido capazes de antecipar os problemas e perceber as mudanças necessárias e em alguns casos a sua urgência. O tempo passou e muito lentamente sem quase nos apercebermos disso fomos empobrecendo. Diz António Barreto que agora estamos a iniciar um percurso para a irrelevância e o desaparecimento.
No mundo sem fronteiras em que estamos integrados, abertos à concorrência e entregues à nossa capacidade de criar riqueza aproveitando as oportunidades que a economia global tem para oferecer, as marcas do passado, algumas delas bem pesadas, continuam a pesar muitíssimo por não termos sido capazes de antecipar os problemas e perceber as mudanças necessárias e em alguns casos a sua urgência. O tempo passou e muito lentamente sem quase nos apercebermos disso fomos empobrecendo. Diz António Barreto que agora estamos a iniciar um percurso para a irrelevância e o desaparecimento.
Fica, contudo, a velha questão sobre porque fomos incompetentes para compreender as nossas fragilidades e debilidades e para fazer as correctas opções? Se os nossos parceiros europeus, em particular os de Leste, melhor ou menos bem, o fizeram porque persistimos em ficar para trás? A falta de liderança parece ser, a meu ver, a resposta para o ponto a que chegámos. Refiro-me também à "liderança" colectiva no sentido da existência de uma clara consciência e de uma vontade assumida capazes de impor a mudança.
sábado, 28 de novembro de 2009
Seguindo um par de botas

Confesso a minha relutância, - que era absoluta até há poucas semanas, - em fazer compras pela net, faz-me confusão escolher por catálogo, encomendar a criaturas que não vejo e com quem não falo, enviar o número do meu cartão para o espaço cibernético, enfim, um verdadeiro bloqueio geracional.
Mas fui a Londres há poucos dias e vi que muitos jovens usavam umas botas fantásticas, forradas a lá de carneiro da Austrália, exactamente o que procurava há que tempos para uma das minhas filhas, algures nessa Europa gélida. Mas o preço era exorbitante e comentei com surpresa como é podia ser tão popular uma coisa tão cara, mesmo considerando que uma actriz conhecida usou esse modelo num concerto, o preço era dissuasor de modas. Compram na net, disseram-me logo, custa 30% do preço que vê na loja.
Apliquei-me então a vencer a minha relutância e encomendei as botas no meio virtual, depois de várias tentativas. Depois fiquei em pânico porque o site dava que eu tinha feito não uma, ou duas, mas sete encomendas, todas iguais, apesar de me parecer que só tinha pago uma. Fiz um pedido de socorro para a minha filha e pouco depois recebia um link fantástico que me permite ver o “estado da compra” – sete encomendas mas só uma paga, uf! – e ainda seguir on line o “avanço” da encomenda no seu trajecto. Vi então que as botas australianas que vi em Londres saíram de uma cidade algures na China, seguiram para Beijing e daí já partiram rumo à Europa, calculam que chegue ao destino dentro de 3 dias.
Agora sigo fascinada o progresso da encomenda de um par de botas, talvez ainda faça uma surpresa aos correios e me apresente a perguntar por ela no preciso momento em que a desembarquem à porta!
Mas fui a Londres há poucos dias e vi que muitos jovens usavam umas botas fantásticas, forradas a lá de carneiro da Austrália, exactamente o que procurava há que tempos para uma das minhas filhas, algures nessa Europa gélida. Mas o preço era exorbitante e comentei com surpresa como é podia ser tão popular uma coisa tão cara, mesmo considerando que uma actriz conhecida usou esse modelo num concerto, o preço era dissuasor de modas. Compram na net, disseram-me logo, custa 30% do preço que vê na loja.
Apliquei-me então a vencer a minha relutância e encomendei as botas no meio virtual, depois de várias tentativas. Depois fiquei em pânico porque o site dava que eu tinha feito não uma, ou duas, mas sete encomendas, todas iguais, apesar de me parecer que só tinha pago uma. Fiz um pedido de socorro para a minha filha e pouco depois recebia um link fantástico que me permite ver o “estado da compra” – sete encomendas mas só uma paga, uf! – e ainda seguir on line o “avanço” da encomenda no seu trajecto. Vi então que as botas australianas que vi em Londres saíram de uma cidade algures na China, seguiram para Beijing e daí já partiram rumo à Europa, calculam que chegue ao destino dentro de 3 dias.
Agora sigo fascinada o progresso da encomenda de um par de botas, talvez ainda faça uma surpresa aos correios e me apresente a perguntar por ela no preciso momento em que a desembarquem à porta!
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Solidariedade social para caçar mais uns cobres
A não entrada em vigor do Código Contributivo prejudica irremediavelmente o controle das contas públicas, acaba de referir o Ministro das Finanças (cito de memória).
Afinal, os altos desígnios políticos propalados pelo Governo e pelo Ministro Vieira da Silva aquando da aprovação do Código Contributivo, Lei 110/2009, de maior justiça social, de modernização das relações sociais, de combate da concorrência desleal, de reforço da segurança social pública, de combate ao trabalho precário e de defesa, com equilíbrio, do emprego de todos os trabalhadores, foram hoje completamente pulverizados pelo insigne Ministro Teixeira dos Santos.
Afinal, os altos desígnios políticos propalados pelo Governo e pelo Ministro Vieira da Silva aquando da aprovação do Código Contributivo, Lei 110/2009, de maior justiça social, de modernização das relações sociais, de combate da concorrência desleal, de reforço da segurança social pública, de combate ao trabalho precário e de defesa, com equilíbrio, do emprego de todos os trabalhadores, foram hoje completamente pulverizados pelo insigne Ministro Teixeira dos Santos.
Pois é. Afinal de contas, e mais uma vez, a exploração da solidariedade social para caçar mais uns cobres. Levada a cabo pelo Governo.
Haja vergonha!...
Nota: Citei de cor, mas parece-me ter sido fiel. As palavras de Teixeira dos Santos foram as seguintes: “Se a Assembleia da República vier a confirmar [o adiamento do Código Contributivo], cria-se um quadro muito preocupante em termos do reequilíbrio. Com este quadro que a oposição criou, eu não posso aceitar, não há condições para levar a cabo a consolidação” .
Crise do DUBAI e a economia mundial
1. Os mercados financeiros foram abalados, neste final de semana, pela inesperada decisão das autoridades financeiras do DUBAI de suspender, até final de Maio de 2010, o pagamento de dívida externa da principal Holding estatal, a DUBAI World e de uma participada desta para o mercado imobiliário, a Nakheel.
2. A cidade do DUBAI era até agora considerado um caso de sucesso no Médio Oriente e em particular nos Emiratos Árabes, em termos de desenvolvimento económico, nela tendo sido lançados nos últimos anos projectos de investimento “fabulosos”, atraindo capitais externos em grande escala em busca de rentabilidades muito generosas.
3. Esta atractividade do DUBAI e dos grandiosos projectos que caracterizavam o seu modelo de desenvolvimento conduziu a uma situação de elevado endividamento, que segundo as fontes noticiosas atingiu mais de USD 80 mil milhões (1/3 do PIB português), tendo recentemente aumentado bastante apesar da crise internacional e da quebra no mercado imobiliário.
4. Muito provavelmente esta situação vai requerer, como noutros casos do passado, uma reestruturação global da dívida, envolvendo negociações extremamente complexas com o mundo de financiadores daquelas entidades, incluindo talvez uma parcial transformação de créditos em capital ainda que remível a prazo.
5. Os próximos 6 meses que dura a moratória imposta pelas autoridades do DUBAI deverão envolver frenéticas negociações, devendo constituir uma fértil fonte de notícias para a imprensa especializada.
6. Este acontecimento, pela enorme repercussão que teve nos mercados financeiros e de mercadorias, vem colocar nova questão no processo de recuperação económica a que se vem assistindo um pouco por todo o Mundo: a sustentabilidade dessa recuperação.
7. Com efeito, uma boa parte dessa recuperação deve-se à noção de que os sistemas financeiros das economias mais desenvolvidas atingiram uma fase de estabilidade, graças nomeadamente aos apoios oficiais recebidos, gerando expectativas de que, com essa estabilidade, a economia teria condições para crescer de forma mais sustentada.
8. Se fenómenos com este vierem colocar novas dúvidas sobre a saúde dos sistemas financeiros, isso pode rapidamente por termo às expectativas de retoma económica.
9. Por outro lado, esta situação pode vir a perturbar os planos da chamada “exit strategy” anunciada pelas autoridades financeiras e monetárias das principais economias e que consiste na retirada gradual dos apoios concedidos em especial pelos bancos centrais aos sistemas bancários...se, de um momento para o outro, essa “exit strategy” tivesse que ser revista – adiada “sine die” por exemplo - isso pode estimular bolhas especulativas em mercados de activos de risco, suscitando novos riscos de uma “buble burst”, com todo o seu cortejo de implicações económicas. Nouriel Roubini bem tem avisado...
10. Para países como Portugal, os efeitos desta “mini-crise”, combinados com problemas internos bem conhecidos, pode vir a traduzir-se num agravamento do custo da nossa dívida ao exterior que é a última coisa de que precisávamos neste momento...
11. Esperemos pois que esta crise fique o mais possível confinada ao DUBAI e seus credores, deixando-nos com os problemas que temos e que nos bastam...
2. A cidade do DUBAI era até agora considerado um caso de sucesso no Médio Oriente e em particular nos Emiratos Árabes, em termos de desenvolvimento económico, nela tendo sido lançados nos últimos anos projectos de investimento “fabulosos”, atraindo capitais externos em grande escala em busca de rentabilidades muito generosas.
3. Esta atractividade do DUBAI e dos grandiosos projectos que caracterizavam o seu modelo de desenvolvimento conduziu a uma situação de elevado endividamento, que segundo as fontes noticiosas atingiu mais de USD 80 mil milhões (1/3 do PIB português), tendo recentemente aumentado bastante apesar da crise internacional e da quebra no mercado imobiliário.
4. Muito provavelmente esta situação vai requerer, como noutros casos do passado, uma reestruturação global da dívida, envolvendo negociações extremamente complexas com o mundo de financiadores daquelas entidades, incluindo talvez uma parcial transformação de créditos em capital ainda que remível a prazo.
5. Os próximos 6 meses que dura a moratória imposta pelas autoridades do DUBAI deverão envolver frenéticas negociações, devendo constituir uma fértil fonte de notícias para a imprensa especializada.
6. Este acontecimento, pela enorme repercussão que teve nos mercados financeiros e de mercadorias, vem colocar nova questão no processo de recuperação económica a que se vem assistindo um pouco por todo o Mundo: a sustentabilidade dessa recuperação.
7. Com efeito, uma boa parte dessa recuperação deve-se à noção de que os sistemas financeiros das economias mais desenvolvidas atingiram uma fase de estabilidade, graças nomeadamente aos apoios oficiais recebidos, gerando expectativas de que, com essa estabilidade, a economia teria condições para crescer de forma mais sustentada.
8. Se fenómenos com este vierem colocar novas dúvidas sobre a saúde dos sistemas financeiros, isso pode rapidamente por termo às expectativas de retoma económica.
9. Por outro lado, esta situação pode vir a perturbar os planos da chamada “exit strategy” anunciada pelas autoridades financeiras e monetárias das principais economias e que consiste na retirada gradual dos apoios concedidos em especial pelos bancos centrais aos sistemas bancários...se, de um momento para o outro, essa “exit strategy” tivesse que ser revista – adiada “sine die” por exemplo - isso pode estimular bolhas especulativas em mercados de activos de risco, suscitando novos riscos de uma “buble burst”, com todo o seu cortejo de implicações económicas. Nouriel Roubini bem tem avisado...
10. Para países como Portugal, os efeitos desta “mini-crise”, combinados com problemas internos bem conhecidos, pode vir a traduzir-se num agravamento do custo da nossa dívida ao exterior que é a última coisa de que precisávamos neste momento...
11. Esperemos pois que esta crise fique o mais possível confinada ao DUBAI e seus credores, deixando-nos com os problemas que temos e que nos bastam...
A tradição do Thanksgiving Day

Em 1621, o Mayflower aportava ao porto de Plymouth, no actual Estado de Massachussets, cheio de homens, mulheres e crianças inglesas fugidas das perseguições religiosas.
Chegados ao porto onde esperavam construir uma nova vida de acordo com as suas convicções, os Peregrinos (Pilgrims) começaram a instalar-se, construíram as suas casas de madeira e tentaram lavrar a terra que ocuparam, mas o Inverno rigoroso apanhou-os sem provisões, com abrigos precários e morreram mais de metade dos que tinham conseguido superar a dura travessia de mar.
Só não morreram todos porque houve um índio, Squanto, que, com a sua tribo, os ajudou a semear milho, a caçar e a pescar com os instrumentos que usavam, a construir abrigos e a curar as doenças.
Foi assim que os sobreviventes puderam fazer a primeira colheita e celebraram os novos tempos de abundância convidando os índios que os tinham ajudado para, com eles, darem Graças pela benesse que tinham recebido.
Manda a tradição que no Thanksgiving se convide para a ceia de peru, compota e puré de abóbora, alguém que tenha acabado de chegar de fora, como forma de lhe manifestar o acolhimento que há séculos lhes permitiu sobreviver na América.
Visitei Plymouth no ano em que estive nos EUA, lá está o barco com figurantes vestidos ao rigor da época, podem ver-se toscos talhões de terra semeados com milho e, no museu de cera, revivemos com um realismo impressionante todos os tormentos daqueles ingleses que atravessaram o oceano em busca da liberdade.
No Thanksgiving fomos convidados para a ceia por uma hondurenha casada com um americano, a família reunia-se toda em casa da sogra, nos arredores.
Levámos algumas garrafas de um bom vinho português, de acordo com a nossa própria tradição, e fomos recebidos pela dona da casa, uma americana de meia idade com um ar triste e um tanto alheado, que se animou logo quando recebeu o nosso tributo para o jantar.
Havia imensa gente no jantar e só voltámos a encontrar a senhora já no fim da ceia, ria muito divertida e junto dela duas das garrafas vazias. Contou-nos então que o bom vinho português tínha-a ajudado a superar uma difícil prova porque, passados vinte anos de divórcio, essa era a primeira vez que voltara a ver o ex marido que, a convite do filho, se tinha apresentado à ceia na companhia da actual mulher, visivelmente mais jovem do que a nossa anfitriã. E ria-se muito alto, olhava feroz para o casal e dizia, Não a acham tão gira?, ele tem bom gosto, nisso não mudou, Viram as fotografias na sala, viram como eu fui uma jovem tão atraente, ah, olhem para ele, quem é que se julga, também está velho, ela é que o vai deixar, vão ver, ele não percebe mas ela olha-o com desdém, vê-se nos olhos…
Deixámo-la nas suas recordações, e nós viemos com as nossas. A lembrança de um Dia de Acção de Graças, um delicioso peru e uma família de todas as raças misturadas, a ajustar contas antigas.
Chegados ao porto onde esperavam construir uma nova vida de acordo com as suas convicções, os Peregrinos (Pilgrims) começaram a instalar-se, construíram as suas casas de madeira e tentaram lavrar a terra que ocuparam, mas o Inverno rigoroso apanhou-os sem provisões, com abrigos precários e morreram mais de metade dos que tinham conseguido superar a dura travessia de mar.
Só não morreram todos porque houve um índio, Squanto, que, com a sua tribo, os ajudou a semear milho, a caçar e a pescar com os instrumentos que usavam, a construir abrigos e a curar as doenças.
Foi assim que os sobreviventes puderam fazer a primeira colheita e celebraram os novos tempos de abundância convidando os índios que os tinham ajudado para, com eles, darem Graças pela benesse que tinham recebido.
Manda a tradição que no Thanksgiving se convide para a ceia de peru, compota e puré de abóbora, alguém que tenha acabado de chegar de fora, como forma de lhe manifestar o acolhimento que há séculos lhes permitiu sobreviver na América.
Visitei Plymouth no ano em que estive nos EUA, lá está o barco com figurantes vestidos ao rigor da época, podem ver-se toscos talhões de terra semeados com milho e, no museu de cera, revivemos com um realismo impressionante todos os tormentos daqueles ingleses que atravessaram o oceano em busca da liberdade.
No Thanksgiving fomos convidados para a ceia por uma hondurenha casada com um americano, a família reunia-se toda em casa da sogra, nos arredores.
Levámos algumas garrafas de um bom vinho português, de acordo com a nossa própria tradição, e fomos recebidos pela dona da casa, uma americana de meia idade com um ar triste e um tanto alheado, que se animou logo quando recebeu o nosso tributo para o jantar.
Havia imensa gente no jantar e só voltámos a encontrar a senhora já no fim da ceia, ria muito divertida e junto dela duas das garrafas vazias. Contou-nos então que o bom vinho português tínha-a ajudado a superar uma difícil prova porque, passados vinte anos de divórcio, essa era a primeira vez que voltara a ver o ex marido que, a convite do filho, se tinha apresentado à ceia na companhia da actual mulher, visivelmente mais jovem do que a nossa anfitriã. E ria-se muito alto, olhava feroz para o casal e dizia, Não a acham tão gira?, ele tem bom gosto, nisso não mudou, Viram as fotografias na sala, viram como eu fui uma jovem tão atraente, ah, olhem para ele, quem é que se julga, também está velho, ela é que o vai deixar, vão ver, ele não percebe mas ela olha-o com desdém, vê-se nos olhos…
Deixámo-la nas suas recordações, e nós viemos com as nossas. A lembrança de um Dia de Acção de Graças, um delicioso peru e uma família de todas as raças misturadas, a ajustar contas antigas.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Quando tudo é corrupção, nada é corrupção!...
Na onda que passa, a “corrupção” é palavra da moda e, de geometria variável, aplica-se a todas as situações. O conceito foi democratizado, e abrange indistintamente a “grande corrupção” do Freeport e a “pequena corrupção” da sucata; a “criminosa” gestão do BPN e as “negociatas” do Terminal de Contentores; a “fraude” dos Contratos de adjudicação das auto-estradas e o “roubo” inerente aos contratos de adjudicação de submarinos. Tudo é democraticamente tratado por igual: casos que estão em Tribunal, casos em processo de averiguações e casos em que se pretendem averiguações para os “réus” irem a Tribunal.
No entanto, trata-se de situações muitos diferentes. Uma negociação de preço das auto-estradas por alterações supervenientes de condições financeiras e de acesso ao crédito, que as houve, e que respeitam à vida das concessões, nada tem a ver com negócios rápidos de sucatas a troco de brindes, mesmo que automóveis.
A onda é avassaladora e tudo arrasta. Fabricam-se “réus” e produzem-se “corruptos” e “corruptores” da noite para a manhã. Por atacado, ou a conta gotas, os nomes e as caras são exibidos diariamente nas televisões, à entrada e saída dos Tribunais. E assim sumariamente julgados. O julgamento verdadeiro pode assim esperar, que a produção de prova só é complexa quando é necessário provar, não quando é necessário acusar.
No meio de tudo isto, o Governo em vez de produzir legislação eficaz que regule os processos e defenda os cidadãos presumivelmente inocentes, tem a suprema hipocrisia de falar de "espionagem política", se os acusados lhe são de feição, ou de aconselhar a que se deixe a justiça funcionar, se os acusados lhe são indiferentes.
A corrupção é um dos maiores males que nos pode atingir: abala a sociedade, destruindo importantes valores, e abala a economia, destruindo um dos seus pilares, a concorrência.
No entanto, trata-se de situações muitos diferentes. Uma negociação de preço das auto-estradas por alterações supervenientes de condições financeiras e de acesso ao crédito, que as houve, e que respeitam à vida das concessões, nada tem a ver com negócios rápidos de sucatas a troco de brindes, mesmo que automóveis.
A onda é avassaladora e tudo arrasta. Fabricam-se “réus” e produzem-se “corruptos” e “corruptores” da noite para a manhã. Por atacado, ou a conta gotas, os nomes e as caras são exibidos diariamente nas televisões, à entrada e saída dos Tribunais. E assim sumariamente julgados. O julgamento verdadeiro pode assim esperar, que a produção de prova só é complexa quando é necessário provar, não quando é necessário acusar.
No meio de tudo isto, o Governo em vez de produzir legislação eficaz que regule os processos e defenda os cidadãos presumivelmente inocentes, tem a suprema hipocrisia de falar de "espionagem política", se os acusados lhe são de feição, ou de aconselhar a que se deixe a justiça funcionar, se os acusados lhe são indiferentes.
A corrupção é um dos maiores males que nos pode atingir: abala a sociedade, destruindo importantes valores, e abala a economia, destruindo um dos seus pilares, a concorrência.
Mas o espectáculo actual não dissuade a corrupção, antes a promove. É que, quando tudo é corrupção, e os processos demoram anos, nada é corrupção!...
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Uma Recondução Acertada
Na semana passada, o Presidente da República reconduziu, por proposta do Governo, o Presidente do Tribunal de Contas, Guilherme Oliveira Martins para um novo mandato de três anos.
Esteve bem o Governo ao propor; esteve bem o Presidente da República ao reconduzir. E fica Portugal a ganhar com a renovação de funções de Oliveira Martins.
Sou insuspeito para abordar o tema: Oliveira Martins é próximo de um partido diferente (o PS) daquele a que pertenço (o PSD) e o facto de ter passado directamente do Grupo Parlamentar do PS (onde era Vice-Presidente) para a Presidência do Tribunal de Contas não foi propriamente tranquilizante, se é que me faço entender…
Pela minha parte, transmiti, nessa altura, a Guilherme Oliveira Martins, de forma privada, as felicitações pelas funções que iria desempenhar, devido às características de independência, honestidade e isenção que, já nessa altura, via na sua pessoa. Mas, também nessa ocasião, na minha qualidade de Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do PSD, critiquei a forma como entrou em funções no Tribunal de Contas, com uma divulgação que foi entendida como pouco adequada da Conta Geral do Estado de 2004, quer em termos de conteúdo (com menções a operações que não tinham sido propriamente pacíficas, mas que tinham sido realizadas em 2003, como a titularização de créditos fiscais e da Segurança Social, e também a integração das responsabilidades em pensões dos CTT), quer de forma, com a divulgação desse relatório a ter lugar numa sala de conferências em plena Assembleia da República, uma sala reservada a Deputados e não a outras personalidades… Ora, tendo sido Oliveira Martins Deputado do Partido Socialista até ter entrado no Tribunal de Contas, percebe-se que a gestão daquele primeiro momento mediático não terá sido a mais cuidada.
Entretanto, o tempo foi passando – e, como sempre acontece, isso permite-nos encarar as coisas de outra forma, e traz a verdade ao de cima.
Assim, não me caem os parentes na lama se admitir que, vista hoje, à distância, a reacção do PSD foi manifestamente exagerada…
… e que “aquela” entrada de Oliveira Martins no Tribunal de Contas se tratou, mesmo, de um mero – e pequeníssimo – acidente de percurso. Daí para cá, creio não estar a cometer nenhum exagero, por um lado, e a resumir tudo o que queria referir, por outro, se afirmar que toda a independência e seriedade que na altura achei que iria pautar a sua actuação no Tribunal de Contas têm sido amplamente confirmadas. Isto, claro, para já não falar na competência…
E como chegámos, agora, à justíssima recondução de Guilherme Oliveira Martins – toma posse amanhã, 26 de Novembro –, pareceu-me da mais elementar justiça publicar este post. E desejar, apenas, que o Presidente do Tribunal de Contas continue a desempenhar as suas funções como aconteceu até agora!...
Esteve bem o Governo ao propor; esteve bem o Presidente da República ao reconduzir. E fica Portugal a ganhar com a renovação de funções de Oliveira Martins.
Sou insuspeito para abordar o tema: Oliveira Martins é próximo de um partido diferente (o PS) daquele a que pertenço (o PSD) e o facto de ter passado directamente do Grupo Parlamentar do PS (onde era Vice-Presidente) para a Presidência do Tribunal de Contas não foi propriamente tranquilizante, se é que me faço entender…
Pela minha parte, transmiti, nessa altura, a Guilherme Oliveira Martins, de forma privada, as felicitações pelas funções que iria desempenhar, devido às características de independência, honestidade e isenção que, já nessa altura, via na sua pessoa. Mas, também nessa ocasião, na minha qualidade de Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do PSD, critiquei a forma como entrou em funções no Tribunal de Contas, com uma divulgação que foi entendida como pouco adequada da Conta Geral do Estado de 2004, quer em termos de conteúdo (com menções a operações que não tinham sido propriamente pacíficas, mas que tinham sido realizadas em 2003, como a titularização de créditos fiscais e da Segurança Social, e também a integração das responsabilidades em pensões dos CTT), quer de forma, com a divulgação desse relatório a ter lugar numa sala de conferências em plena Assembleia da República, uma sala reservada a Deputados e não a outras personalidades… Ora, tendo sido Oliveira Martins Deputado do Partido Socialista até ter entrado no Tribunal de Contas, percebe-se que a gestão daquele primeiro momento mediático não terá sido a mais cuidada.
Entretanto, o tempo foi passando – e, como sempre acontece, isso permite-nos encarar as coisas de outra forma, e traz a verdade ao de cima.
Assim, não me caem os parentes na lama se admitir que, vista hoje, à distância, a reacção do PSD foi manifestamente exagerada…
… e que “aquela” entrada de Oliveira Martins no Tribunal de Contas se tratou, mesmo, de um mero – e pequeníssimo – acidente de percurso. Daí para cá, creio não estar a cometer nenhum exagero, por um lado, e a resumir tudo o que queria referir, por outro, se afirmar que toda a independência e seriedade que na altura achei que iria pautar a sua actuação no Tribunal de Contas têm sido amplamente confirmadas. Isto, claro, para já não falar na competência…
E como chegámos, agora, à justíssima recondução de Guilherme Oliveira Martins – toma posse amanhã, 26 de Novembro –, pareceu-me da mais elementar justiça publicar este post. E desejar, apenas, que o Presidente do Tribunal de Contas continue a desempenhar as suas funções como aconteceu até agora!...
O oráculo do 4R
Bom, não é bem oráculo. O oráculo era sábio na forma como predizia o futuro incerto. Em Portugal, e em matéria de impostos, o futuro é totalmente claro. Para os incautos, que ainda há, aqui fica ele desvendado.
20 de Agosto de 2009- Governo afasta Orçamento Rectificativo
10 de Novembro de 2009- Governo diz que é muito cedo para saber se há Orçamento Rectificativo.
19 de Novembro de 2009- Governo apresenta Orçamento Rectificativo
22 de Novembro de 2009- Vítor Constâncio afirma que será necessário pôr em prática novas medidas até 2013 para controlar o défice orçamental, que podem passar por um aumento dos impostos.
24 de Novembro de 2009- O Ministro das Finanças nega o aumento de impostos
24 e Novembro de 2009- José Sócrates afasta qualquer hipótese de aumento dos impostos, frisando que o Orçamento para 2010 irá apostar na recuperação do emprego e crescimento económico.
24 de Novembro de 2009- O governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, nega ter defendido o aumento dos impostos para breve, frisando que a subida da carga fiscal é apenas uma hipótese teórica para reduzir o défice até 2013.
Primavera de 2010- No lançamento do Relatório da Primavera, o Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, defende o aumento dos impostos, como forma de equilibrar as contas públicas.
Maio de 2010- Teixeira dos Santos refere que as contas públicas estão controladas e desmente qualquer aumento de impostos
Julho de 2010- Na última sessão do Parlamento antes de férias, e em resposta a pergunta do líder da bancada do PSD, José Sócrates diz que o aumento do emprego e a recuperação económica são incompatíveis com subida de impostos. Como o PSD devia saber.
Agosto de 2010- Teixeira dos Santos, refere que as contas públicas estão controladas e desmente qualquer aumento de impostos. Digo e repito, salientou o Ministro.
Setembro de 2010- Na sua 1ª Sessão após as férias, o Parlamento vai apreciar o Orçamento Rectificativo para 2010, onde se prevê um aumento de impostos, como forma de contrabalançar o aumento da despesa exigido pelo esforço de recuperação económica. IRS e Imposto sobre Combustíveis entre os impostos que aumentam, já com efeitos no 4º Trimestre do ano.
24 de Novembro de 2009- O Ministro das Finanças nega o aumento de impostos
24 e Novembro de 2009- José Sócrates afasta qualquer hipótese de aumento dos impostos, frisando que o Orçamento para 2010 irá apostar na recuperação do emprego e crescimento económico.
24 de Novembro de 2009- O governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, nega ter defendido o aumento dos impostos para breve, frisando que a subida da carga fiscal é apenas uma hipótese teórica para reduzir o défice até 2013.
Primavera de 2010- No lançamento do Relatório da Primavera, o Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, defende o aumento dos impostos, como forma de equilibrar as contas públicas.
Maio de 2010- Teixeira dos Santos refere que as contas públicas estão controladas e desmente qualquer aumento de impostos
Julho de 2010- Na última sessão do Parlamento antes de férias, e em resposta a pergunta do líder da bancada do PSD, José Sócrates diz que o aumento do emprego e a recuperação económica são incompatíveis com subida de impostos. Como o PSD devia saber.
Agosto de 2010- Teixeira dos Santos, refere que as contas públicas estão controladas e desmente qualquer aumento de impostos. Digo e repito, salientou o Ministro.
Setembro de 2010- Na sua 1ª Sessão após as férias, o Parlamento vai apreciar o Orçamento Rectificativo para 2010, onde se prevê um aumento de impostos, como forma de contrabalançar o aumento da despesa exigido pelo esforço de recuperação económica. IRS e Imposto sobre Combustíveis entre os impostos que aumentam, já com efeitos no 4º Trimestre do ano.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
A propósito do artigo de Pedro Lomba, intitulado "A apologia da ignorância", publicado no jornal Público de ontem, lembrei-me do poema de Luis de Camões que, já no séc. XVI, constatava com tristeza como as circunstâncias levam a que se mude de opinião com toda a facilidade e como isso muda também a confiança.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Públicas virtudes...vícios privados
Tudo é possível...
Imaginemos, por momentos, que estamos em aparente estado de coma a ver, ouvir e sentir tudo o que se passa à nossa à volta, mas totalmente impossibilitados de comunicar estas faculdades aos que nos rodeiam, a família, os amigos e os médicos que pensam que estamos em coma.É difícil fazer um tal exercício. Mas foi o que aconteceu a um doente que viveu durante mais de duas décadas num estado, imagino eu, de grande angústia e desespero, consciente da realidade à sua volta.
Durante "todo este tempo eu tentava gritar, mas não havia nada para as pessoas ouvirem". É assim que o belga Rom Houben, de 46 anos, descreve o martírio de viver um falso coma e não conseguir comunicar com os médicos e as pessoas que o visitaram durante 23 anos.
O médico neurologista Steven Laureys descobriu, depois de realizar alguns exames de tomografia de última geração, que afinal Rom Houben, apesar de ter perdido o controlo do seu próprio corpo, estava consciente do que se passava à sua volta.
Este médico acredita que podem existir muitos outros casos semelhantes de falso coma e alerta para o facto de poder haver um diagnóstico errado em relação a casos de doentes classificados em estado vegetativo.
Embora sendo uma história de horror, este caso acabou por ter um final feliz, mas poderia não ter sido assim…
É uma lição de vida e um sinal de esperança e de aviso para a humanidade. O corpo humano tem ainda muito de desconhecido e a medicina continua a fazer milagres. O debate sobre o direito de morrer não pode estar encerrado e o direito de viver continua a ter uma grande força. A vida é uma permanente descoberta, uma fonte inesgotável de inigmas.
O doente manifestou ainda esperança no futuro: "Quero ler, falar com os meus amigos através do computador e apreciar a vida, agora que as pessoas sabem que não estou morto."
Durante "todo este tempo eu tentava gritar, mas não havia nada para as pessoas ouvirem". É assim que o belga Rom Houben, de 46 anos, descreve o martírio de viver um falso coma e não conseguir comunicar com os médicos e as pessoas que o visitaram durante 23 anos.
O médico neurologista Steven Laureys descobriu, depois de realizar alguns exames de tomografia de última geração, que afinal Rom Houben, apesar de ter perdido o controlo do seu próprio corpo, estava consciente do que se passava à sua volta.
Este médico acredita que podem existir muitos outros casos semelhantes de falso coma e alerta para o facto de poder haver um diagnóstico errado em relação a casos de doentes classificados em estado vegetativo.
Embora sendo uma história de horror, este caso acabou por ter um final feliz, mas poderia não ter sido assim…
É uma lição de vida e um sinal de esperança e de aviso para a humanidade. O corpo humano tem ainda muito de desconhecido e a medicina continua a fazer milagres. O debate sobre o direito de morrer não pode estar encerrado e o direito de viver continua a ter uma grande força. A vida é uma permanente descoberta, uma fonte inesgotável de inigmas.
O doente manifestou ainda esperança no futuro: "Quero ler, falar com os meus amigos através do computador e apreciar a vida, agora que as pessoas sabem que não estou morto."
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
5.500 posts!...

Com o último texto publicado pelo Tavares Moreira atingimos 5.500 posts.
Política, economia, finanças e poesia, questões sociais, ciência, humor e filosofia, ambiente, justiça, histórias de vida e de muitas vidas, muito do país por aqui tem perpassado.
Expressando as vivências pessoais e profissionais de cada um dos Autores.
Vincando as nossas opiniões livres, farpeando atitudes, políticas e costumes, mas procurando sempre respeitar as pessoas.
Cinco mil e quinhentos textos, dois livros e várias edições.
De gente que não se conhecia e que circunstancialmente um dia se conheceu. E que, sem qualquer pacto editorial, foi escrevendo o que sentia. De forma séria, mas sem se levar muito a sério. E sempre de forma honesta, simples e transparente. Assinando com os nossos nomes próprios.
A quem nos lê e a quem nos comenta o nosso obrigado.
Subir impostos mais uma vez? Não, obrigado!
1. Como seria de esperar, começam a ouvir-se vozes sustentando a necessidade de mais um aumento de impostos em Portugal, como “solução” para recuperar um mínimo equilíbrio orçamental, subitamente perdido depois de ter soçobrado uma consolidação orçamental que, como aqui temos sustentado, era bem mais aparente e frágil do que real, fundando-se no crescimento excessivo da receita fiscal e em receitas extraordinárias, não repetíveis.
2. Como o Governo não o pode fazer para não perder a face, são alguns “compagnons de route” que avançam a ideia...percebe-se. Assim, foi hoje noticiado que o Gv/BdeP propõe essa solução, na nossa perspectiva totalmente contra-indicada.
3. Aqui no 4R temos sustentado a tese (vide, “inter alia”, os abundantes e bem documentados textos de Pinho Cardão dedicados a esse tema) de que a carga fiscal atingiu níveis exagerados para um País do nível de desenvolvimento e de rendimento do nosso, havendo por isso um único caminho a apontar na política fiscal - baixar os impostos, nomeadamente os que incidem sobre o rendimento de pessoas singulares e colectivas, os quais constituem um forte desincentivo ao investimento nos sectores concorrenciais da economia.
5. O País enfrenta com efeito um sério problema estrutural de insuficiente competitividade, o qual decorre, a nosso juízo, do excesso de peso dos sectores que se encontram protegidos da concorrência, a começar no Estado - com as suas extensas e gastadoras administrações centrais, regionais e locais, incluindo empresas públicas e participadas e todo o rol de adventícios - os quais consomem recursos em excesso, deixando à míngua e impondo custos de contexto cada vez mais elevados aos sectores expostos à concorrência que têm sofrido, alguns de forma brutal, todo o impacto da crise económica.
6. Vir propor como solução neste quadro um aumento de impostos significa que se pretende transferir ainda mais recursos a favor dos sectores protegidos, agravando a factura fiscal das Famílias e das empresas expostas à concorrência, o que, se bem entendo, só contribuiria para aprofundar o problema da falta de competitividade...
7. A esta luz, confesso que estas propostas me deixam perplexo, tanto mais quando são sugeridas por pessoas que têm insistentemente chamado a atenção para o problema da competitividade...
8. Entenderão tais pessoas que a competitividade se recupera “engordando” os sectores públicos e protegidos, fornecendo-lhes cada vez mais recursos, agravando em última análise o problema estrutural? Recursos esses retirados aos sectores concorrenciais que precisam de ser estimulados e não sacrificados?
9 Assim não vamos lá...com propostas destas a tendência de empobrecimento do País prosseguirá a sua trajectória de irreversibilidade...
10. Espero que a nova composição parlamentar tenha pelo menos a virtude de impedir que propostas destas se convertam algum dia em matéria de lei...ainda bem que "a maioria absoluta está agora na AR". Subir impostos, mais uma vez? Não obrigado!
2. Como o Governo não o pode fazer para não perder a face, são alguns “compagnons de route” que avançam a ideia...percebe-se. Assim, foi hoje noticiado que o Gv/BdeP propõe essa solução, na nossa perspectiva totalmente contra-indicada.
3. Aqui no 4R temos sustentado a tese (vide, “inter alia”, os abundantes e bem documentados textos de Pinho Cardão dedicados a esse tema) de que a carga fiscal atingiu níveis exagerados para um País do nível de desenvolvimento e de rendimento do nosso, havendo por isso um único caminho a apontar na política fiscal - baixar os impostos, nomeadamente os que incidem sobre o rendimento de pessoas singulares e colectivas, os quais constituem um forte desincentivo ao investimento nos sectores concorrenciais da economia.
5. O País enfrenta com efeito um sério problema estrutural de insuficiente competitividade, o qual decorre, a nosso juízo, do excesso de peso dos sectores que se encontram protegidos da concorrência, a começar no Estado - com as suas extensas e gastadoras administrações centrais, regionais e locais, incluindo empresas públicas e participadas e todo o rol de adventícios - os quais consomem recursos em excesso, deixando à míngua e impondo custos de contexto cada vez mais elevados aos sectores expostos à concorrência que têm sofrido, alguns de forma brutal, todo o impacto da crise económica.
6. Vir propor como solução neste quadro um aumento de impostos significa que se pretende transferir ainda mais recursos a favor dos sectores protegidos, agravando a factura fiscal das Famílias e das empresas expostas à concorrência, o que, se bem entendo, só contribuiria para aprofundar o problema da falta de competitividade...
7. A esta luz, confesso que estas propostas me deixam perplexo, tanto mais quando são sugeridas por pessoas que têm insistentemente chamado a atenção para o problema da competitividade...
8. Entenderão tais pessoas que a competitividade se recupera “engordando” os sectores públicos e protegidos, fornecendo-lhes cada vez mais recursos, agravando em última análise o problema estrutural? Recursos esses retirados aos sectores concorrenciais que precisam de ser estimulados e não sacrificados?
9 Assim não vamos lá...com propostas destas a tendência de empobrecimento do País prosseguirá a sua trajectória de irreversibilidade...
10. Espero que a nova composição parlamentar tenha pelo menos a virtude de impedir que propostas destas se convertam algum dia em matéria de lei...ainda bem que "a maioria absoluta está agora na AR". Subir impostos, mais uma vez? Não obrigado!
O Distribuidor do M.A.I.
O Diário da República nunca foi um dos meus jornais preferidos e só muito violentado e em desespero de causa o leio. E penso que, quem por missão ou profissão tem que o ler devia mesmo ter um subsídio especial de trabalhos forçados. Mas às vezes encontram-se por lá umas cenas pitorescas, como a que um amigo me fez chegar através do D.R. 2ª Série, nº 225 de 19 de Novembro. D.R. esse que traz um grande número de nomeações feitas pelos novos membros do Governo, claro está para colaboração no “meu gabinete”, frase que define missões de elevada responsabilidade e íntima confiança política: secretárias, adjuntos, assessores, etc.
Mas se assessor a mais ou a menos já não faz mossa, uma nomeação chama particularmente a tenção: a contratação de um cidadão “para exercer as funções de distribuidor no meu gabinete”. Portanto, um distribuidor da confiança política e pessoal do Secretário de Estado.
Um grande distribuidor! Dei por mim a matutar sobre que preclara e distinta função seria essa.
Distribuidor de trabalho não me parece, pela própria natureza do conceito e do lugar.
Distribuidor de envelopes ou malas com dinheiro, também não, pois vêm sempre de fora para dentro e a distribuição de dentro para fora reveste outras características.
Distribuidor de preservativos, não, pois o Ministério não é uma escola de ensino básico. Distribuidor de produtos herbalife nutricionais para controle de peso, kit básico e concentrado, também não me parece, e seria mais próprio do Ministério da Saúde
Distribuidor de bacalhau, pizzas e caldo verde, não me parece ainda, competiria mais à Solidariedade Social.
Também poderia tratar-se de distribuidor de sabão anti-bacteriano por infra-vermelhos, mas o pessoal não teme a gripe A, não haveria consumidores.
Mas se assessor a mais ou a menos já não faz mossa, uma nomeação chama particularmente a tenção: a contratação de um cidadão “para exercer as funções de distribuidor no meu gabinete”. Portanto, um distribuidor da confiança política e pessoal do Secretário de Estado.
Um grande distribuidor! Dei por mim a matutar sobre que preclara e distinta função seria essa.
Distribuidor de trabalho não me parece, pela própria natureza do conceito e do lugar.
Distribuidor de envelopes ou malas com dinheiro, também não, pois vêm sempre de fora para dentro e a distribuição de dentro para fora reveste outras características.
Distribuidor de preservativos, não, pois o Ministério não é uma escola de ensino básico. Distribuidor de produtos herbalife nutricionais para controle de peso, kit básico e concentrado, também não me parece, e seria mais próprio do Ministério da Saúde
Distribuidor de bacalhau, pizzas e caldo verde, não me parece ainda, competiria mais à Solidariedade Social.
Também poderia tratar-se de distribuidor de sabão anti-bacteriano por infra-vermelhos, mas o pessoal não teme a gripe A, não haveria consumidores.
Ocorreu-me então que, tratando-se do Ministério que administra as polícias, talvez a distribuição pudesse ser de paint-balls, de modo a marcar os ladrões que são presos e logo libertados; mas não, atentaria contra os direitos humanos.
Num último e reflexivo esforço, creio ter encontrado a solução: sendo o novo Orçamento um Orçamento redistribuidor, não tem mesmo que haver um distribuidor?
Num último e reflexivo esforço, creio ter encontrado a solução: sendo o novo Orçamento um Orçamento redistribuidor, não tem mesmo que haver um distribuidor?
Sensata, pois, e justificada nomeação. E o distribuidor, o primeiro beneficiário!...
domingo, 22 de novembro de 2009
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