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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Medidas para estimular a economia? O Estado que pague o que deve!

1.O Ministro da Economia terá hoje prometido, mais uma vez, medidas para “estimular” a economia, a tomar “dentro de semanas”.
2.Não pretendendo por em causa as boas intenções do Ministro, confesso que não sou grande apreciador deste tipo de pré-anúncios de medidas de apoio à actividade económica com que por exemplo o anterior Governo nos bombardeava incessantemente – e viu-se no que acabou!
3.Então as famosas "LINHAS de CRÉDITO" foram às dezenas, durante anos a fio, será que alguém sabe para que serviram?
4.Sempre entendi que quaisquer medidas de estímulo – até para não se criarem falsas expectativas – só devem ser notícia no momento em que são efectivamente tomadas e existam os meios e mecanismos para as aplicar...
5.Acresce que a criação de estímulos à economia por parte do Estado, nesta altura dos acontecimentos – excluindo os aumentos de impostos que também estimulam, com certeza, embora nesse caso o estímulo seja negativo – é assunto muito delicado, por duas razões: (i) a escassez de recursos para dar corpo a esses estímulos e (ii) a necessidade de direccionar quaisquer estímulos única e exclusivamente para os sectores que estão expostos à concorrência externa, que tenham potencial exportador ou de substituição de importações.
6.Mas há uma medida que o Estado poderia e deveria tomar, que já tarda, e que daria uma enorme ajuda a uma economia em que os atrasos de pagamentos entre empresas se têm vindo a agravar de forma assustadora, assumindo mesmo um carácter endémico e causando os maiores transtornos à gestão de um número incontável de empresas, algumas exportadoras (conheço diversos casos destes).
7.E essa medida até é bem simples: consiste em o Estado pagar o que deve (nem que seja só as dívidas com mais de 90 dias), aos mais variados sectores da economia, desde a construção aos fornecedores de serviços mais diversos, reduzindo a imensa montanha de dívidas de entidades públicas que o consulado socrático nos legou...
8.Já é mais do que tempo disso ser feito...mas, por favor: decidam fazer e anunciem, no mesmo dia!

Por terras da Eslávia do Sul: O comboio das Grutas de Postojna-XIX



Andar de comboio dentro de umas grutas nas margens de um rio subterrâneo e ver um animal que pode sobreviver 10 anos com uma única refeição é a experiência marcante de quem visita as Grutas de Postojna, na Eslovénia. A cerca de 30 km da cidade italiana de Trieste.
Grutas compridas e largas ou mais estreitas, quase cerradas, ou mais profundas ou mais superficiais, mais penhascosas ou mais aplanadas eu conhecia. Mais atractivas umas, outras, nem tanto. Mas nada como as Grutas de Postojna.
Compridas, largas e bem abertas, 20 quilómetros de galerias subterrâneas, como é próprio de umas grutas. Profundas, havendo pontos a 200 metros da superfície. Penhascosas, cheias de estalactites e estalagmites, algumas formando graciosas cortinas, elaboradas colunas e esculturas esbeltas. Largas, dando passagem a um pequeno comboio, por vezes em via dupla. Com a sensação indescritível de, nos seus 5 quilómetros, se percorrerem trechos de linha bordejando rios subterrâneos. Mas também com enormes salas planas e abobadadas, uma das quais de acústica impressionante e onde se efectuam concertos de grandes orquestras, creio que mensais.
No interior, um habitante autóctone, único no mundo, o proteu (proteus anguinus), animal esguio, 20 a 30 cm de comprimento, pele branca, parecida com a humana, quatro pequenas pernas, cego, mas de excelente olfacto e ouvido. É possível vê-lo numa armação preparada para o efeito. Feio e algo repugnante. Mas com uma virtude. É que pode guardar comida em grandes depósitos de lípidos e glicogénio no fígado (não sei bem o que é, mas foi o que ouvi…). Quando a comida é pouca, reduz o metabolismo, e pode reabsorver os seus próprios tecidos em casos extremos. Uma refeição chega a dar-lhe para dez, digo, dez anos sem mais comida!…
Nos tempos que correm, devia ser objecto de investigação aturada!...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O deserto dos Tártaros




Tenho andado muito absorvida com a leitura de “Linhas de Fractura”, do economista Raghuram Rajan (ed. Babel). Nesse livro, de uma leitura muito fácil, o autor faz um historial dos acontecimentos que considera mais relevantes nas últimas décadas ao nível do sistema financeiro e interpreta os sinais que foram sendo transmitidos e sistematicamente ignorados, até se chegar onde hoje estamos. Visto em retrospectiva, todas as peças do complicadíssimo puzzle parecem ganhar um sentido de fatalidade que legitima a pergunta que hoje tantos fazem “como foi possível”?
Quis o acaso que encontrasse à venda o filme baseado no livro “O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati, uma obra prima editada em 1950 e magistralmente passado ao cinema por Valério Zurlini. A leitura deste livro, ou ver o filme, ganham um significado muito impressivo na sequência da leitura do livro que acima refiro.
Dino Buzzati conta a história de um jovem tenente do então império austro húngaro, a quem é atribuído como primeiro posto o longínquo forte de Bastiano, no limite do deserto dos Tártaros.
O jovem oficial percorre a imensidão inóspita até chegar à muralha austera erguida sobre a pedras e virada para o nada, um forte construído na sequência de uma invasão acontecida há séculos mas depois da qual nada, absolutamente nada, fazia prever que voltasse a acontecer. Lá dentro, o regimento e os vários oficiais, todos provenientes da nobreza, cumpriam religiosamente os cerimoniais do exército e comportavam-se, formalmente, como se tudo o que fizessem fosse da maior importância, apesar de poucos acreditarem na utilidade da sua missão. Dia após dia, mês após mês, ano após ano, os rituais cumpriam-se com toda a pompa e o regulamento – absurdo, se olhado o vazio da realidade - impunha-se com o rigor de quem não admitia correr o risco de cometer qualquer erro que pusesse em perigo a missão oficial que ali os conservava.
Todos, desde o general que, em Roma, consumia os seus charutos, até aos oficiais mais antigos que consumiam a sua dignidade na aparência enfatuada dos galões, fingiam cumprir uma missão patriótica guardando o bastião do inimigo que todos supunham ser imaginário. No entanto, insidiosamente, foram ganhando consistência algumas suspeitas de que o inimigo, afinal, existia, e que se preparava, lentamente, longinquamente, para atacar. Alguns sinais emergiram das brumas persistentes no horizonte do bastião, o receio foi alastrando mas, absurdamente, este facto causou o maior desconforto nas cadeias de comando. Todas as tentativas de alertar foram abafadas. Há um episódio fantástico em que o inimigo é claramente visto através de uns binóculos potentes, tornando-se pois impossível, a partir daí, ignorá-lo. A reacção dos que ditavam a estratégia militar foi ordenar que o binóculo fosse confiscado, proibindo qualquer instrumento que pudesse mostrar a evidência. Além disso, para reforçar a ideia de que não havia perigo nenhum, desguarneceram o forte, afastando os oficiais mais esclarecidos e capazes de assumir o comando, deixando lá apenas os oficiais de mais baixa patente e alguns soldados.
Tal como nos mostra R.Rajan em “Linhas de Fractura”, no Deserto dos Tártaros da nossa realidade todas as instituições que tinham como razão de ser regular os mercados, estar atentos aos abusos e impedir os desvarios que conduziram o mundo ocidental a este descalabro, mantiveram os seus rituais, invocaram regulamentos para encobrir a sua incapacidade de agir e esvaziaram-se de sentido útil, fechando os olhos ao perigo e desvalorizando os que, com binóculos primeiro, e com evidência depois,viam que o perigo avançava.
Convido-vos a ler os dois livros, ou a ver o filme. Para muitos que já sofreram os primeiros embates, as consequências foram as mesmas. Sonhos, ilusões, vidas inteiras dedicadas a uma causa que supunham válida e em defesa de um bem comum, tudo desperdiçado. No ocidente, nosso bastião, luta-se agora, desordenadamente, contra o inimigo que de repente se concretizou, na esperança de que não tenha sido tarde demais e haja ainda tempo de reunir esforços e encontrar comandantes que impeçam o descalabro.

Banho santo

Coitadas das crianças que são levadas a mergulhar nas águas frias do Atlântico para afugentar os medos, hoje, dia de São Bartolomeu, o dia em que o diabo anda à solta. Se pudesse, quem mergulharia nas águas eram os pais, mas deixava-os estar uns bons segundos debaixo de água para ver se limpavam daqueles cérebros certas ideias. Lá que andem debaixo do andor do santo, ou deem três voltas à capela com os desgraçados galos pretos é o menos.

Por terras da Eslávia do Sul: A harmonia de Ljubljana- XVIII



Ljubljana, quase 300.000 habitantes, é a capital da Eslovénia. Não tem grandes monumentos, espampanantes edifícios públicos ou imponentes igrejas ou catedrais. Mas sobretudo a zona central tem uma harmonia intensa que lhe advém da graciosidade das construções, da proporcionalidade das praças, da ligeireza das pontes, mesmo dos diversos estilos arquitectónicos. Atributos que encontram a sua máxima expressão na praça principal, onde é glorificado o poeta nacionalista France Prešeren, e em que avulta como jóia arquitectónica a Igreja Franciscana dos anos 1600, voltada às esplanadas que bordejam o rio e às pontes que dão passagem para a cidade antiga, catedral e castelo medieval. Uma praça, mas também um hino à harmonia e à suavidade dos tons e das cores.
Na Catedral, a portada principal, em expressivos baixos-relevos miniaturais, conta toda a história eslovena.
Ljubljana é também uma cidade alegre, repleta de esplanadas junto ao rio e com uma movida trepidante, não desleixada ou farrapilha, mas de ar são, cuidada na apresentação, no modo de vestir e de estar, índice de educação e qualidade de vida.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Por terras da Eslávia do Sul: Eslovénia-XVII



Depois da Croácia, a Eslovénia, um país com uma superfície de 21.000 quilómetros quadrados e uma população um pouco aquém dos 2,1 milhões de habitantes, católicos, língua oficial, esloveno. Com fronteiras com a Itália, Áustria, Croácia e Hungria, e sem fronteira com a Sérvia, conseguiu escapar sem grandes danos ao conflito que pôs termo à ex-Jugoslávia.
Aliás, para além de estar ligada à Europa dita Ocidental pelas fronteiras norte (Áustria) e oeste (Itália), a Eslovénia, poupada ao domínio otomano, sempre culturalmente fez parte do mundo ocidental, integrando nomeadamente o Império de Habsburgo e, depois, o Áustro-Húngaro. Herança alemã e austríaca com influência na organização económica e no modo de ser, de estar e de viver dos eslovenos e que os diferencia dos vizinhos croatas, com hábitos muito mais próximos dos países do sul, como a Itália. A Eslovénia entrou na EU em 2004 e tem o euro por moeda. Sendo uma pequena economia - o PIB esloveno anda pelos 40 mil milhões de euros, um quarto do PIB português (Croácia, 50 milhões)-desde essa altura incrementou o seu desenvolvimento, atingindo um PIB per capita um pouco acima de 18.500 euros (Croácia (10.800 euros), ultrapassando Portugal (15.700 euros). Prova de maturidade e de inteligência está no facto de esse crescimento se fazer no respeito pela estabilidade das finanças públicas, com os défices bastante abaixo dos 3% e a dívida pública a decrescer de um máximo de 27,5% há uns anos para 22,5% em 2008, últimos dados a que acedi. Mais uma prova de que crescimento sustentável não se faz através da despesa pública e dos défices, mas de políticas públicas consistentes que preservam o equilíbrio orçamental.
Na bandeira eslovena, o brasão de armas com três cabeços, representação estilizada do Monte Trigav, nos Alpes Julianos, o mais alto da Eslovénia e cujas 3 cabeças constituem símbolo do país.

À descoberta de Portugal…

Há já algum tempo que tinha curiosidade de conhecer Rio de Onor. É uma pequena aldeia do Concelho de Bragança, situada no nordeste de Portugal. Faz fronteira com a sua homónima Rihonor de Castilla, aldeia situada do lado de Espanha. Duas aldeias separadas por um rio – Rio de Onor – mas unidas pela vida comunitária.
Depois da estada em Bragança, partimos rumo à descoberta das tradições de vida comunitária e do património medieval de Rio de Onor.
A distância física é relativamente curta, cerca de 20 km, e o caminho é agradável, embora demorado. A estrada nacional que faz a ligação entre Bragança e a fronteira atravessa o Parque Natural de Montesinho oferecendo vistas bonitas e variadas.
Tivemos a sorte de conhecer alguns dos membros da Família Mariano, o Avô, o Tio Mariano assim conhecido, a filha e uma neta que tinham ido passar o fim-de-semana com o pai e o avô. O Tio Mariano, é uma memória viva da terra, ali nasceu e permaneceu até aos tempos de hoje, um poço de sabedoria e um testemunho da organização da vida comunitária. A sua amabilidade e simplicidade proporcionaram-nos um convívio que não vamos esquecer.
É pena que Rio de Onor não esteja preparado para acolher os visitantes, para lhes contar e mostrar a sua história. Poderia ser um centro de importante atracção turística, mas não é. O visitante pouco documentado fica perdido e ainda que com algum estudo prévio não tem como conhecer e descobrir a sua identidade
Rio de Onor perdeu importância e relevo enquanto posição fronteiriça, está geograficamente muito distante dos grandes centros urbanos e longe da acessibilidade a infra-estruturas modernas e das promessas da abundância e do consumismo que empurraram as gerações mais novas a procurar novos lugares para construírem as suas vidas. “As coisas andam atrás dos donos” declarou o Tio Mariano!
Algo esquecida e abandonada, com o seu património medieval em visível estado de má conservação, encontra-se entregue aos 50 habitantes de idade avançada que ali vivem em permanência. Do lado de Espanha o panorama não é menos deprimente. Dois casais e três viúvas somam a população residente.
Rio de Onor foi-nos explicado pelo Tio Mariano. As tradições comunitárias já não são o que eram - a vida tradicional comunitária terminou nos anos 80 do século passado - mas ainda há assuntos e trabalhos agrícolas que são tratados em conjunto. Ainda subsiste um regime comunitário na administração rural. Existe uma área agrícola no centro da aldeia, na qual todas as famílias têm uma parcela de terreno, que é tratada nos mesmos dias por todos, para semear e para colher. E há também um lameiro com uma área apreciável que está dado de exploração mediante o pagamento de uma renda que é gerida comunitariamente. Com a população muito envelhecida, os poucos habitantes da aldeia perderam as boiadas e os rebanhos comunitários e muitos outros usos como por exemplo a utilização da água e a definição de caminhos públicos. Não têm dinheiro para manter a aldeia como gostariam.

O Tio Mariano sorria a recordar os tempos em que as cabras e as ovelhas dos rebanhos comunitários se encaminhavam, no final de uma jornada de pasto, para os currais dos seus donos. Conheciam a sua própria casa e não havia enganos. E com as boiadas passava-se o mesmo.
A tradição da vara também acabou. Era um pau que servia para assentar através de riscos gravados na madeira as faltas cometidas pelas famílias e os castigos decididos em Conselho. A organização comunitária obedecia a orientações com incidência no dia-a-dia das famílias e a regras de uso comunitário e dispunha de uma disciplina comunitária em que imperava a sanção social. Esta disciplina assentava num quadro de valores fundamentais comunitários em que se praticavam a comunhão e o compromisso, a solidariedade e a entreajuda. O Conselho comunitário reunia duas vezes por semana, era liderado por dois “mordomos” e nele participavam os chefes das famílias. Certo dia um chefe de família, que fora emigrante em França, denunciou no Conselho que a justiça se fazia nos tribunais e logo se iniciou o fim deste regime comunitário.
A conversa animada com o Tio Mariano já ia longa, muito para lá da tradicional hora de almoço da aldeia. Esperava-o um “cozido” à transmontana que abriu o apetite a todos. Tivemos que partir, mas com a enorme vontade de voltar e responder ao convite do Tio Mariano para uma visita guiada a Rio de Onor. Lá estaremos um dia destes....
Se queremos ser um país de turismo temos que acarinhar e investir no que de bom temos para mostrar. Rio de Onor é mais um caso triste de abandono. Nas mãos dos espanhóis ou dos franceses seria tratado com “pinças”. Perante a gravíssima crise económica e social em que nos encontramos resulta evidente a urgência de aproveitarmos os recursos naturais que temos. Talvez a agricultura comunitária não seja só passado e venha a constituir uma via para explorar a riqueza das terras abandonadas e trazer algum povoamento às zonas interiores do país…

Euro em colapso? Será exagero, mas sinais estranhos de desconforto acumulam-se...

1.Alan Greespan afirmou hoje que o Euro estará a entrar em colapso, ecoando, com especial ressonância, uma opinião muito popular do outro lado do Atlântico acerca de um futuro pouco auspicioso da zona Euro.
2.Embora considerando (eventualmente) excessiva a opinião de Greenspan, tenho a noção de que a moeda única europeia chegou a um ponto crítico a partir do qual se torna muito arriscado definir cenários para os meses mais próximos, já nem digo anos...
3.Vêm estas considerações a propósito de um bizarro negócio que parece ter sido já ajustado entre a Finlândia e a Grécia para que a primeira aceite participar no segundo programa de ajuda à segunda, genericamente acordado na cimeira europeia de 21 de Julho último.
4.Segundo esse negócio, a Grécia prestará à Finlândia uma caução especial, de € 500 milhões ao que consta, para viabilizar a participação da Finlândia no programa de ajuda, sob a forma de depósito numa “escrow account” que assim garantirá, exclusivamente a favor da Finlândia, o cumprimento das obrigações da Grécia no âmbito do dito programa...
5.Mas isto configura benefício para um credor apenas, situação absolutamente atípica e moralmente contestável, nomeadamente neste caso em que um conjunto de credores soberanos se une para prestar apoio a um dos membros do grupo que se encontra em extremas dificuldades financeiras...
6.O que parece extraordinário é o facto de este negócio, segundo consta, ter sido já alvitrado na dita cimeira de 21 de Julho sem que ninguém na altura tivesse levantado objecções – provavelmente ninguém se terá apercebido dos contornos extravagantes do mesmo...
7.Mas agora, que os contornos se tornaram conhecidos, levantou-se um coro de protestos por parte de outros países credores, com destaque para a Holanda que afirma querer igual tratamento sem o que não participará na ajuda à Grécia...
8.Mas a Finlândia já fez saber que, caso este acordo seja rejeitado por outros países, não será parte no programa de ajuda...
9.Este “súbito” imbróglio mais um - se não for ultrapassado rapidamente, é susceptível de bloquear a aprovação do programa de ajuda, atirando a Grécia, mais cedo do que se podia supor, para as águas revoltas do incumprimento da sua dívida pública...
10....E lançando novamente a confusão no seio do Euro, com as taxas de juro da dívida dos países em maior dificuldade a subirem de novo para patamares alucinantes...
11.Greespan pode estar a exagerar, admito que sim, mas antevê-se um Setembro muito agitado na zona Euro se este imbróglio não for urgentemente resolvido...e os sinais de desconforto vão-se acumulando...

Por terras da Eslávia do Sul: Encontros e Desencontros-XVI




Para surpresa minha, fiquei a saber que entre Dubrovnik (República de Ragusa) e Portugal também houve, ao longo da história, encontros e desencontros.
Um encontro traduziu-se no acolhimento generoso a muitos judeus portugueses expulsos por D. João III e que chegaram de barco a Dubrovnik em 1544. Acolhimento esse que já anteriormente fora prodigalizado a judeus espanhóis.
Um desencontro deu-se nos mares da índia e na Batalha de Diu, decisiva para a implantação dos portugueses na região e para o estabelecimento da rota marítima de transporte das especiarias.
A nova rota não interessava ao Império Otomano, na Turquia ou na Índia, nem ao Egipto, que pretendiam preservar as rotas terrestres, como também ameaçava também o “monopólio” do comércio mediterrânico, sobretudo nas mãos dos mercadores venezianos e ragusinos, mas também de outras cidades da península itálica.
Nessa histórica batalha de 1509, defrontaram-se a Armada Portuguesa comandada por D. Francisco de Almeida e uma aliança entre os Sultões de Calecut, de Gujarat e do Egipto, intervindo na preparação e no combate a República de Ragusa (e também a de Veneza), como consultora militar de guerra naval, dada a sua experiência como potência naval da altura.
Depois dessa batalha que os portugueses venceram e que mudou o domínio do comércio global, os Portugueses vieram a conquistar as posições estratégicas importantes de Ormuz, Goa, Colombo e Malaca, que sustentaram a prolongada presença portuguesa no Índico.
Nota: Tive, tivemos em Dubrovnik um guia extraordinário, no pleno sentido da palavra: culto, conhecedor da história do seu país e da de Portugal, citava Pessoa e Camões, expansivo, irónico, bem disposto e prestável, com uns tiques “gay” de verdadeiro espectáculo, ficando sem concluir se eram autênticos ou fabulosa imitação, se enganavam ou desenganavam. E quando falava na mulher, a dúvida de era saber qual a verdadeira natureza da dita…Um “belo” guia.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A leitura dos números...

No espaço de um ano, 36 mil famílias deixaram de receber o rendimento social de inserção. Sinal de redução da pobreza? Não necessariamente. Sinal de maior rigor na atribuição dos apoios sociais? Espera-se que sim.

É importante que a triagem seja feita de forma criteriosa, porque o rendimento social de inserção só deve ser solicitado por quem comprovadamente não tem recursos e não tem como os obter. Só com uma avaliação personalizada e rigorosa se conseguem evitar os cortes cegos que geram situações de injustiça.
Mas a pobreza é uma realidade bem presente entre nós e a crise que estamos a atravessar tende a agravar os casos de famílias carenciadas que precisam de ser apoiadas. A situação exige uma atitude muito diferente da época da abundância e do consumismo.
É nestas situações que o Estado deve cumprir com a função de protecção social. Sendo crescentes as necessidades e escassos os recursos, impõe-se um nível acrescido de exigência e vigilância na utilização dos dinheiros dos contribuintes, apoiando quem realmente enfrenta dificuldades económicas que não tem pelos seus próprios meios como lhes fazer frente.

Pesadelo do défice externo continua a atormentar-nos?

1.Foram hoje divulgadas pelo BdeP as contas externas para o 1º semestre de 2011, verificando-se uma redução de quase 18% do défice da balança corrente em relação ao mesmo período de 2010, de € 9.760 milhões para € 8.003 milhões.
2.A correcção de maior amplitude regista-se na balança comercial (ou de bens), cujo défice se reduziu de € 9.081 milhões no 1º semestre de 2010 para € 7.492 no semestre terminado em Junho, ou seja – 17,5%, graças a um crescimento das exportações (+17,7%) a ritmo muito superior ao das importações (+5,8%).
3.Mas em termos relativos a melhoria mais significativa foi registada nas transferências correntes, onde se apura um superavit de € 1.766 milhões, mais de duas vezes (+105,6%) o registado em idêntico período de 2010 (+ € 859 milhões).
4.Note-se, no entanto, que a melhoria nas transferências foi devida sobretudo às transferências públicas, + € 713 milhões, pelo que não é de esperar a repetição deste cenário no 2º semestre.
5.O maior problema do desequilíbrio externo está agora no défice dos rendimentos, a que aqui já aludi por mais de uma vez e que resulta do enorme endividamento externo que acumulamos ao longo dos últimos anos: no 1º semestre deste ano este défice agravou-se cerca de 30%, ascendendo a € 5.172 milhões, contra € 3.980 milhões na 1ª metade de 2010.
6.Como é fácil concluir, este agravamento do défice dos rendimentos, de € 1.192 milhões, “ESTRAGA” em boa parte (75%) a melhoria registada no défice comercial, que foi de € 1.589 milhões...
7....E, por este andar, arriscamo-nos a chegar ao final do ano com um défice dos rendimentos superior a € 10 mil milhões, ou seja qualquer coisa como 6% do PIB...
8.Quer isto dizer que os sacrifícios que os portugueses estão a fazer para contrair as suas despesas e com isso contribuir para uma redução do endividamento do País, acabam por ser neutralizados pelo aumento dos custos do endividamento externo que consome uma fatia cada vez mais elevada daquilo que conseguimos produzir.
9.E isto também significa que a tarefa de reduzir a dívida externa se torna quase impossível, uma vez que é indispensável contrair nova dívida para financiar uma parte dos juros, além da totalidade dos reembolsos...
10.Não quero ser excessivamente pessimista, mas não sei como é que nos vamos livrar deste pesadelo...
11.Ou será que ainda poderemos dar crédito à famosa tese - muito popular há 11 anos e que até há pouco nos manteve embalados nas delícias de um despesismo tresloucado - de que o endividamento externo era tema irrelevante numa União Monetária?

Por terras da Eslávia do Sul: A época da República de Ragusa-XV




As leis da república foram inovadoras para a época, contemplando, por exemplo a regulamentação do planeamento urbanístico. Também a república foi pioneira na área da saúde pública: criou o primeiro serviço médico em 1301, e a primeira farmácia em 1317, no Convento franciscano, aliás ainda em funcionamento e fundou, em 1377, o primeiro hospital de quarentena.
Na área social, um asilo para idosos foi fundado em 1347 e um orfanato em 1432, tendo concluído em 1436 o sistema de abastecimento de água, com 20 Km de comprimento. Para além de ter abolido na escravatura, como se disse, em 1418.
No período, Dubrovnik foi semeado de imponentes palácios privados e públicos, edifícios civis e religiosos. O Palácio do Reitor, centro do poder de Ragusa, lá está, agora Museu de Dubrovnik, e o Palácio de Sponza, outrora Casa da Moeda e agora Arquivo governamental. Entre os edifícios religiosos, para além das, segundo ouvi, 37 igrejas, os imponentes conventos, igrejas e colégios dos Franciscanos, Dominicanos e Jesuítas, assim como das Freiras de Santa Clara, cada complexo sensivelmente situados próximo de cada um dos cantos da cidade. E a Igreja de S. Braz, que significa para Dubrovnik o que S. Marcos é para Veneza.
Um complexo patrimonial românico, renascentista e barroco que torna a cidade um verdadeiro museu ao ar livre. E do qual a Placa, a grande avenida central, é a grande referência, de onde tudo irradia e aonde tudo converge.

domingo, 21 de agosto de 2011

Por terras da Eslávia do Sul-Dubrovnik-o encanto absoluto-XIV



Dubrovnik, maravilha da realização humana, natureza e obra potenciadas ao grau mais elevado da beleza e da harmonia. Raras vezes, como aqui, o génio do homem soube elevar ao máximo a generosidade da natureza. A cidade é de um indescritível fascínio. Uma concha meia rodeada por mar e meia envolvida por altas colinas, tornou-se cidade fortificada no século X, rodeando-se de inexpugnáveis muralhas protectoras de ataques e saques, muros fortes mas de uma estética impressionante. Tal defesa permitiu-lhe o desenvolvimento como cidade comercial marítima. Constituída no século XII como cidade-estado, capital da República de Ragusa, se foi obrigada a manter laços feudais ao Reino da Hungria ou a Veneza até ao século XIV, a partir daí e até 1808 Dubrovnik governou-se a si própria como república totalmente independente. Tornou-se uma cidade próspera, com uma frota de centenas e centenas de navios que comerciavam por todo o mundo conhecido e semeou o seu pequeno território de uma monumentalidade românica, renascentista e barroca, espantosa pela quantidade e pela harmoniosa estética. Por isso, Dubrovnik é bem Património da Humanidade.
Dividida ao meio pela Placa ou Stradun, que liga as portas nascente e poente, esta virada ao mar, a cidade desenvolve-se em ruas paralelas rectilíneas sucessivamente construídas em patamares mais elevados das duas colinas. A Placa constitui o passeio público, sempre repleto de visitantes (chegam a estar atracados 12 paquetes simultaneamente), que passeiam ou procuram os cafés e restaurantes, os edifícios históricos e os monumentos, criando uma atmosfera que surpreende e atrai.
A cidade está extraordinariamente bem conservada, para o que contribui a sólida construção dos edifícios em pedra, numa sucessão em que nenhum destoa e todos se complementam.
Só um povo civilizado e culto poderia fazer uma cidade assim. Por exemplo, Ragusa foi o primeiro estado a abolir a escravatura, logo em 1418, séculos antes de Portugal, tido como pioneiro no desmantelamento dessa odiosa forma de exploração humana. Mas outros aspectos deste grau civilizacional serão tratados no próximo texto.

"Silêncio de Deus"...


Li com algum interesse este artigo, de Bedoya, no El País. O papa falou de "Eclipse de Deus", mas não entendi muito bem o que pretende dizer com esta afirmação, quando, o mesmo, em 2006, no decurso da visita a Auschwitz, afirmou: "Porquê, Senhor, permaneceste calado?".
Um eclipse é coisa momentânea, cada um vê Deus à sua maneira ou não vê, tanto faz, mas pior do que qualquer "obstáculo" à sua visualização, determinado pela conduta humana, é o Seu silêncio, e, neste caso, Ratzinger tinha razão quando questionou o "silêncio de Deus"...

http://politica.elpais.com/politica/2011/08/20/actualidad/1313866483_133752.html#bloque_comentarios

Parque Expo: finalmente o FIM, 11 anos mais tarde que o devido...

1.Foi agora anunciada a decisão do Governo de extinguir a sociedade estatal Parque Expo (PE): num comentário curioso, H. Roseta disse, e bem na minha opinião, que esta empresa já deveria ter sido extinta há muito…
2.Muita gente já nem sabe ou se recorda que esta empresa foi criada em 1993, como sociedade de capitais públicos, com a incumbência de preparar e organizar a Exposição Mundial de 1998 – a Expo/98 como ficou conhecida - que havia sido confiada a Portugal, decisão interpretada como sinal de grande confiança na capacidade de realização do País -outros tempos…
3.Tratava-se à partida de uma tarefa extraordinariamente difícil, pois a área escolhida para localização do recinto da Expo – na zona oriental de Lisboa, junto à doca dos Olivais – era na altura ocupada em boa parte por uma gigantesca e pestilenta lixeira, de resíduos urbanos e industriais, resultado da acumulação de muitos milhares de toneladas de resíduos ao longo de décadas, parecendo quase impossível que ali se pudesse, no curto espaço de 5 anos, projectar e realizar uma exposição mundial, com todos os requisitos exigidos para esse tipo de certames.
4.Acrescia que na parte dos terrenos que não eram lixeira se encontravam instaladas dezenas de indústrias, com destaque para a refinaria de Cabo Ruivo, propriedade da Petrogal. Era necessário, em tempo record, conseguir negociar a cedência de todos os espaços ocupados por essas indústrias, pagando aos proprietários o preço acordado após duras negociações…
5.A pressão do tempo jogava contra a PE e a favor das empresas ali instaladas que sabiam que a PE precisava de concluir as negociações num tempo muito curto…
6.Fiz parte, como responsável financeiro, da primeira equipa de gestão da PE que, sob a presidência do Eng.º Cardoso e Cunha (que acumulava as funções de Comissário da Exposição Mundial), lançou mãos à obra na Primavera de 1993…
7.Dispúnhamos à partida de um capital financeiro (capital social realizado) de apenas 500.000 contos, manifestamente escasso face ao elevado volume dos investimentos previstos…
8.Trabalhamos sempre com um enorme entusiasmo e espírito de missão até finais de 1996, altura em que começamos a sentir que a baix(íssim)a política tinha começado a invadir a Parque Expo – a empresa constituía à altura um alvo muito apetecível para os inevitáveis boys…
9.Em Fevereiro de 1997 – pouco mais de 1 ano antes do início da Exposição Mundial – o Eng.º Cardoso e Cunha, o Dr. Medina Carreira (administrador não executivo, indicado pela C. M. Lisboa, na altura presidida por João Soares) e eu próprio, decidimos renunciar aos cargos que vínhamos exercendo na Parque Expo…
10.E renunciamos porque concluímos que a politização do projecto, que então tinha atingido um nível insuportável – com intrigas diárias na comunicação social que dificultavam gravemente o trabalho da equipa de gestão – punha em causa, entre outras coisas, o objectivo fundamental de cumprir um modelo de projecto financeiramente solvente e economicamente equilibrado, evitando sobrecarregar o Estado…
11.Foi ainda possível à equipa que se seguiu concluir o trabalho de realização da Expo/98, um sucesso significativo, registe-se. Muitos dos nossos comentadores estarão ainda recordados desse evento…
12.Quanto à PE, de acordo com os seus estatutos originais deveria ter sido extinta dois anos depois da Expo, ou seja até final do ano 2000 se não estou em erro…alienando parte do seu património a privados e a outra parte revertendo para o Estado.
13.O que justificou que esta empresa tivesse arrastado a sua existência até hoje, 11 anos após a data prevista para a sua extinção?
14.A explicação mais plausível será de índole patriótica - a satisfação de interesses de muitos boys (e girls), com natural prejuízo do interesse do Estado, que deverá ter perdido muitas dezenas ou mesmo algumas centenas de milhões de Euros para sustentar uma empresa que, sem qq justificação razoável se transformou ,durante anos e anos, em mais um sorvedouro de dinheiros públicos…
15.Seria pois mais do que justificado que o Governo, ao decidir – e muito bem – extinguir a PE, encarregasse uma entidade independente de elaborar um relatório completo e detalhado dos custos que esta empresa impôs ao País, especialmente na fase pós Expo/98 (um LIVRO NEGRO da PE?)…os portugueses têm direito a saber…
16.Muito, muito mais haveria a contar, mas este Posto já vai longuíssimo…

Por terras da Eslávia do Sul- Zagreb- XIII



Zagreb, maior cidade e capital da Croácia, tem cerca de 900.000 habitantes. Resultou da “fusão” de duas cidades (Kaptol e Gradec) erigidas em dois montes vizinhos por alturas do século XI, separados por um rio que corria no vale. Cidades rivais, não tiveram uma coexistência pacífica, combatendo-se frequentemente e de forma sanguinolenta, até que, no século XVII, fizeram as pazes e fundaram a cidade de Zagreb. O rio foi tapado e hoje constitui uma rua comercial vedada ao trânsito. Actualmente a cidade antiga, designada como a Alta, contrapõe-se à parte nova, a Baixa. É na Alta que se encontram os principais monumentos e edifícios religiosos e políticos, Catedral de S. Estêvão, do século XI, várias vezes destruída e reconstruída, os Palácios do Governo e o Parlamento, o imponente Teatro Nacional e os principais Museus.
Embora não tenha ainda não tenha entrado na UE, já foi aprovada a sua integração, pelo que a bandeira "europeia" flutua nos mastros do Palácio do Governo. Na mesma Praça, situam-se a igreja de S. Marcos, fundada no século XIII, que ostenta no telhado os brasões de armas da Croácia, Dalmácia, Eslavónia (outra província croata) e de Zagreb, e também o Parlamento.
Menciona-se ainda a Igreja de S. Francisco, quer pelo seu valor monumental, quer sobretudo por ser um dos símbolos da influência franciscana na Croácia. Os franciscanos foram tidos como os grandes promotores do ensino e da educação na Croácia, através das escolas que fundaram e que vieram a influenciar de forma marcante muita da identidade e da cultura croata.

sábado, 20 de agosto de 2011

Sons

Noite de verão, agradável, não muito quente, porque a meio de agosto começa a sentir-se, ao princípio da noite, uma brisa que arrefece e que a ribeira sabe aproveitar para, de forma silenciosa, se manifestar, em contraste com o cantar e às vezes a gritaria nervosa do inverno. As doze há muito que foram tocadas na torre, e os cantares da festa, que inundaram o espaço e as almas dos foliões, silenciaram-se, dando lugar aos assobios, ao queimar da pólvora e ao crepitar das explosões dos efeitos do fogo-de-artifício. Calou-se o fogo, mas ainda faltava um derradeiro som, o do morteiro. Um assobio mais longo e agudo fez-se ouvir, seguido do característico pequeno trovão. Acabou-se a festa, e eu entrei no silêncio.
O som do morteiro fez estragos, comecei a recordar outros sons, os dos comboios a entrarem na estação, obrigando os carris a ranger de dor e de raiva, as locomotivas a vapor, as grandes, poderosas, espumando como se fossem touros desejosos de largarem à desfilada, fazendo inveja às mais pequenas, as da via estreita, cujos apitos agudos faziam lembrar vozes de pré adolescentes. Os toques da sirene da fábrica de serração, a indicar as horas de entrar, de almoçar e de despegar, acompanhados dos barulhos das conversas dos operários, do pigarrear matinal, das buzinas e campainhas das bicicletas, logo substituídos pelo matraquear das máquinas, das cintas, do cortar prolongado e irritante dos troncos de árvores, ou do seu apagar para a hora de almoço, ou fim do dia, obrigavam-me a levantar, a ir almoçar e que eram mais do que horas para fazer os deveres de casa. Um relógio laboral que marcava a vida com o relógio da torre, o ritual dos comboios, a azáfama dos passageiros, o lançar ritmado das travessas transportadas às costas pelos carregadores, fazendo lembrar Cristos transformados em Sísifos, que mais pareciam condenados às galés do que seres livres, não emitiam sons, nem de dor nem de mágoa, mas à hora devida, o acumular de muitos meio quartilhos libertavam as línguas e, então, sabia que eram humanos. O som matinal da campainha da bicicleta do padeiro despertava-me o desejo de comer o pão fresco e ainda quente; o pregoar e as buzinadelas do peixeiro obrigavam-me a correr na expectativa de poder ver, debaixo do oleado, eventuais polvos no meio daquela salganhada toda; a corneta do petroleiro associava-a ao cheiro do café de cevada e aos brindes, cavalinhos de baquelite, de várias cores, cujas patas e cabeça balanceavam ao toque; o linguajar, ameaçador para mim, claro, dos ciganos a tentarem vender os seus produtos, dizia-me para não me aproximar muito, tinha medo de ser levado com eles por não comer a sopa. Outros sons, alguns arrepiantes, oriundos da vizinhança, e intensificados pela noite, verdadeiros gritos de dor, filhos de agressões de homens brutos e bêbados, perturbavam-me o sono. O que eu gostava mais era das salvas matinais de vinte e um morteiros a anunciar os dias festivos, mesmo sendo cedo não ficava minimamente perturbado, porque, assim que terminasse o bombardeamento, voltava a adormecer, mas o toque longínquo da sineta da quadrilha do compasso, sinal de que o dia seria dedicado a amêndoas, muitas e boas, ou não fosse a Páscoa sinónimo de fartura e de doçarias, despertava-me uma estranha gula. No verão ouvia-se ao longe sons musicais, frequentemente aos soluços, de acordo com a vontade do vento, denunciando agradáveis arraiais pelas aldeias vizinhas. Por vezes, os sinos entristeciam e faziam entristecer com os seus toques de dor, associando-se ao som da matraca que abria o cortejo da morte, outras não, até parecia que se tinham embriagado, tão alegres e repenicados eram os seus toques, já o mesmo não posso dizer da sirene dos bombeiros ao confirmar tragédias mais ou menos graves, de acordo com os diferentes toques e que mobilizava as pessoas num sufoco, fosse qual fosse a hora, de dia, de noite, com as pedras das calçadas e das ruas a ribombarem angústia e, por vezes, algum alívio. Quantas vezes, à distância, conseguia ouvir o barulho da canalhada a ecoar pelo vale, fazendo-me inveja por não poder mergulhar, também, nas águas tépidas e límpidas do rio, ou os estranhos e sonoros ruídos que ouvia no final do ano, associando-os a coisas novas e boas, que nem sempre ocorriam. Tantos sons! Até parece uma sinfonia, sinfonia da nostalgia, dando origem a novos sons que emergem da combinação de sons do passado, sons que não se esquecem e que a noite nunca conseguirá silenciar...


A liberdade deles

Eles são pelo casamento gay, pela adopção de crianças por homossexuais, pela eutanásia, pelas barrigas de aluguer. E manifestam publicamente esse direito.

Eles são pelo direito de ocupar ruas e praças durante dias e semanas, fazendo propriedade sua do que a todos pertence. Eles são os indignados a quem a sociedade tudo deve. E a quem se arrogam o direito de tudo exigir. E exibem publicamente esse direito, tornando-o matéria de facto.

Eles são pela sua total e plena liberdade, sem peias, nem entraves, nem princípios de qualquer ordem. E combatem na rua quem não a reconheça, cidadãos ou autoridade legítima.
Mas eles não reconhecem aos outros o simples gesto de se manifestarem por aquilo que defendem. E, no caso presente, de festejarem a visita do Papa a Madrid.
Eles têm o exclusivo das liberdades. Exclusivismo tal que os governos se vêem obrigados a justificar a actuação das forças policiais. Como se a sua obrigação não fosse a de reprimir quem atenta contra a lei. Mas eles já conquistaram também esse direito de não serem incomodados. A sociedade que aguente. Até um dia...

Para quando...


Vitimas da agressão financeira pelo desgoverno anterior fomos todos nós. Uns mais do que os outros, é certo. Mas antes da Madeira e dos madeirenses, certamente as gentes de muitas zonas do interior deprimido do continente, onde a riqueza distribuída é uma fracção da que se vem  destinando àquela Região Autónoma e o desemprego atinge niveis nunca vistos. Há que o dizer, com firmeza por uma vez, ao Sr. Dr. Jardim.

Por terras da Eslávia do Sul-Subitamente, a Bósnia-XII



De Split para Dubrobnik a viagem corre descansada na estrada do litoral, numa sucessão infindável de pequenas vilas e povoações, praias de pedra ou instaladas em plataformas de cimento, aproveitando as rochas. Cabe dizer que são raríssimas as praias de areia, se é que as há.

Mas eis que, de repente, surge uma fronteira e depare-se-nos a Bósnia. Uma tira de 15 quilómetros acordada entre as nações para que a Bósnia também pudesse chegar ao mar (No mapa, abaixo de Mostar, vê-se claramente a cor da Bósnia a chegar ao mar). Um exemplo das divisões políticas artificiais em que a história é fértil. Fronteira passada sem qualquer formalismo, como normalmente acontece por acordo entre os dois países. O que parece tanto mais estranho quanto as fronteiras entre a Eslovénia e a Croácia ainda são fronteiras à moda antiga.

Passada a estreita faixa, novamente na Crácia, a caminho de Dubrovnik. Para mim, uma das sete maravilhas do mundo. Lá chegaremos.