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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O ambiente e as pessoas

Eu pensava que a defesa do ambiente se destinava preservar e a aumentar o bem-estar do ser humano, e não constituía nenhum valor em si, ou nenhuma finalidade de per si. Hoje de manhã, fiquei a saber o contrário, num destes programas da rádio de defesa do ambiente.
Contava a autora que a sílica era usada no processo de fabrico utilizado pela indústria de confecções para tornar os jeans rotos ou com ar de usados, antes de serem postos à venda. Como a sílica constituía um atentado ao meio ambiente, os consumidores deveriam abster-se da compra desse tipo de jeans. E terminava: o ambiente agradece.
Portanto, aí está a mensagem: não comprar esse tipo de jeans, porque faz mal ao ambiente; que faça mal às pessoas, isso não tem qualquer importância.
Percebe-se o que a menina queria dizer. Mas utilizar o ambiente como razão final e não as doenças que a sílica causa a quem a ela fica exposta vem apenas comprovar que, lá no fundo, as pessoas são uma segunda ou terceira derivada no mundo dos ambientalistas. Porque o ambiente está acima de tudo.

Vargas Llosa e a Jornada Mundial da Juventude

Excelente, o artigo de Mario Vargas Llosa no El País de hoje, sobre a Jornada Mundial da Juventude. Aqui fica um excerto:
" Es esto bueno o malo para la cultura de la libertad? Mientras el Estado sea laico y mantenga su independencia frente a todas las iglesias, a las que, claro está, debe respetar y permitir que actúen libremente, es bueno, porque una sociedad democrática no puede combatir eficazmente a sus enemigos -empezando por la corrupción- si sus instituciones no están firmemente respaldadas por valores éticos, si una rica vida espiritual no florece en su seno como un antídoto permanente a las fuerzas destructivas, disociadoras y anárquicas que suelen guiar la conducta individual cuando el ser humano se siente libre de toda responsabilidad".

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Terá pernas para andar?

Interessante a defesa da aplicação de um imposto que tribute a degradação dos recursos naturais e a poluição. Os números avançados impressionam. Se “Portugal aplicasse uma taxa de carbono de 10 euros por tonelada, sobre todas as emissões nacionais de CO2, “a receita obtida era a mesma” que a obtida pelo imposto extraordinário que vai cortar 50 por cento do subsídio de Natal dos portugueses”. A medida apresentada permitiria substituir e reduzir os impostos sobre o rendimento, aliviando a carga fiscal que incide directamente sobre o rendimento disponível das famílias e das empresas, e poderia constituir um incentivo para que as actividades económicas adoptassem procedimentos que reduzissem nos processos produtivos a emissão de CO2, contribuindo desta forma para o desenvolvimento sustentável, preservando o ambiente e protegendo os recursos naturais.
Evidentemente que a aplicação do imposto requer estudo e como tal tempo. Não é um imposto ao qual o governo pudesse deitar imediatamente a mão. Se é verdade que estamos numa situação de emergência, que temos um conjunto de obrigações perante os nossos credores que temos de cumprir escrupulosamente, não deixa de ser necessário pensarmos como podemos a médio prazo estruturar de forma diferente uma série de domínios que são fundamentais para emagrecer o Estado e revitalizar a economia. Será que este imposto tem "pernas para andar"?

Dizem que em Setembro se resolverá o problema do modelo de avaliação dos professores

Pode ser que então se comece a falar de educação. Vale mais tarde que nunca. Mas já não é cedo.


Porque não se tributam a si próprios?

1.O PS, depois da insistência no agravamento da tributação dos rendimentos de capital – ou seja dos juros dos Depósitos a Prazo e dos dividendos (ainda) distribuídos pelas empresas – vem agora preconizar, sempre com grande solenidade, a aplicação de uma sobretaxa de 3,5% sobre os lucros das empresas superiores a € 2 milhões.
2.Não sei se esta nova proposta é para fazer esquecer a anterior, por entretanto se terem apercebido do erro crasso que seria agravar a tributação dos rendimentos de capital no contexto extraordinário que a economia do País enfrenta...
3.Não sei, mas também pouco imposta pois para este Partido aquilo que realmente interessa, ao que parece, é agravar a tributação em todos os domínios, visando fornecer mais recursos para o Estado que, como sabemos, tem gerido exemplarmente recursos muito "escassos"...
4.Esta paranóia fiscal, vinda de um Partido cujo governo, saído de funções há escassos 2 meses, deixou o País à beira da asfixia financeira exactamente pela total falta de moderação nos gastos públicos – apesar de não ter tido tempo para concretizar alguns projectos megalómanos que nos teriam deixado na mais completa penúria por muitos mais anos – é tão insólita que poderá justificar uma análise de tipo freudiano.
5.É bem possível que esta boa gente ache mesmo, apesar de toda a evidência em contrário, que é com uma enorme azáfama tributária que as nações podem prosperar e que, quanto mais se tributar, maior será a riqueza das nações...
6.Sendo assim, provavelmente não terão cura e até seria simpático fazer-lhes a vontade – desde que nós possamos proteger-nos das suas ideias e sobretudo dos seus propósitos de tributação obsessiva...
7.Uma solução seria permitir-lhes que se tributassem a si próprios, podendo a AR autorizar, excepcionalmente, que as suas propostas de nova ou agravada tributação sejam aprovadas sob a condição de terem como incidência subjectiva apenas aqueles cidadãos contribuintes ou as empreas cujos dirigentes se afirmem partidários das propostas rosa...
8.Se for indispensável uma alteração constitucional para o efeito, pois certamente reuniria os 2/3 necessários...
9.Creio que, para além de justa socialmente e economicamente menos nociva, essa solução teria uma vantagem adicional: reforçaria consideravelmente a base de apoio popular das ideias rosa...

"Gene faustiano"...

Se há algo que me seduz até aos limites são as lendas. Considero-as poemas da existência, porque permitem, ou melhor, conseguem dar vida e significado ao inexplicável. Afinal de contas andamos à procura de quê? Andamos a ver se conseguimos encontrar o sentido das coisas, mas só através das lendas é que é possível satisfazer tamanha aspiração. A ciência ajuda um pouco nesta busca incessante do inexplicável ao legitimar alguns mitos e ao provocar a criação de outros, graças a Deus, Ele mesmo um mito. Paralelamente, a filosofia encarrega-se do restante, ao criar novas angústias em cima de angústias mortas.
Há muitos anos, era um recém-médico, li, numa bela manhã de verão, recordo-me perfeitamente, um artigo na Science, descrevendo que na gruta de Shanidar, atual Iraque, há muitos milhares de anos, neandertais tinham realizado uma cerimónia fúnebre e utilizaram flores. Fiquei impressionado com este gesto de uma espécie, ou subespécie, com as mesmas origens que a nossa, e com a qual convivemos durante dezenas de milhar de anos até se extinguirem ou serem "exterminados" por nós, Homo sapiens. É sabido que as características morfológicas destes "não humanos" são por demais conhecidas, mais robustos, com crânios maiores, arcadas supraciliares muito desenvolvidas e sem praticamente queixo, dando-lhes um ar de brutalidade complementado pelo arqueamento dos fémures, só para citar alguns aspetos. Conviveram durante dezenas ou centenas de milhar de anos com a nossa espécie até desaparecerem há cerca de trinta mil anos. Tudo aponta para que este cantinho, onde hoje vivemos, tenha sido o último refúgio dos representantes de seres "não humanos", seres que tiveram pouca sorte. Coisas do diabo!
Os cientistas têm feitos estudos extraordinários no sentido de encontrar as diferenças genéticas entre nós e os neandertais. Em breve será possível “identificar” o que nos tornou humanos. Até agora tudo aponta para que as diferenças não sejam tão substanciais como à partida pareciam ser. Tudo leva a crer que terá ocorrido uma mutação qualquer, não muito substancial, algo que estivesse na base da "loucura", originando o aparecimento do "gene faustiano". Ninguém sabe ao certo qual é e onde se encontra, mas tem de existir uma base genética para a notável capacidade que nos caracteriza, em termos de arte, de imaginação, de aventura, de descoberta e de angústia. As análises comparativas entre os sapiens e os neandertais revelam que estes últimos não se notabilizaram na criação e desenvolvimento de artefactos, nem de coesão social e seriam portadores de genes diferentes em termos de "produção óssea", dos da fala, dos genes do autismo, apesar de terem ido para a cama com os nossos antepassados, talvez seja por isso que, à exceção dos africanos, sejamos portadores de um a quatro por cento dos seus genes. Afinal não estão completamente extintos, parte dos seus genes vivem em nós. Mas as coisas não ficam por aqui, outros seres "não humanos", como os devisonanos, também desaparecidos, deixaram alguns dos seus genes na nossa espécie, e estou convicto de que o futuro ainda trará mais surpresas.
O mistério do desaparecimento dos neandertais, e de outros, será o menos relevante, porque o grande mistério é saber o que é que nos tornou humanos, uma espécie com tanto "sucesso" que substituiu tudo e continua a substituir ou destruir o que encontra pelo caminho. Não há evidência de que os outros "não humanos" tenham sido responsabilizados por qualquer substituição ou destruição do que quer que seja. A única que teve um sucesso dos diabos, ou à custa do diabo, foi a nossa. Uma casualidade terá provocado mutações nalguns genes inclinando-nos para a loucura, só assim se explica a notável capacidade para criar e destruir, para amar e odiar, para salvar e matar. Um gene faustiano à solta, e aqui, entra na lenda, uma de muitas lendas, a do pacto entre a alma desejosa de tantas coisas e um Mefistófeles simpático que lhe faz a vontade. Apetecia-me regressar ao bar de Leipzig, onde Goethe se inspirou numa lenda que se auto reproduz ao longo dos tempos para explicar a natureza humana, uma ótima ideia, mas fico-me com a recordação dos neandertais que um dia, mesmo apesar das limitações ante os sapiens, se lembraram de colocar algumas flores na tumba de um dos seus. Quem sabe se os tais “um a quatro por cento” de genes neandertais que transportamos não serão os responsáveis?

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Os doutoramentos de valor deteriorado

Que o ensino secundário foi transformado num modo de produção em que a quantidade é o objectivo e a qualidade até pode prejudicar as estatísticas, já é matéria conhecida. Suspeitava que esse processo já tinha chegado aos doutoramentos, tal a ânsia que o anterior Governo em propagandear os “investimentos” em I&D que nos colocavam na vanguarda da Europa. Suspeitava ainda eu que Mariano Gago estava assim a recrear nas universidades portuguesas, fora de tempo e de contexto, os planos quinquenais de produção soviéticos.
Acabo de confirmar tal suspeita, num magnífico texto do Prof. Doutor Pinto de Sá, Catedrático do Técnico, e autor do Blog A Ciência não é Neutra, um grande Blog sobre Ciência, Tecnologia e Políticas Tecnológicas. Num texto, também ele notável, sobre a retirada de Steve Jobs, remete para um outro, em que diz o seguinte:
Ou seja: com Bolonha, a componente curricular do doutoramento totaliza agora 5 anos e meio, menos que um Mestrado dos anos 80/90 e tanto como um Mestrado americano, além de que deixou de existir o requisito de ter feito o grau anterior com pelo menos 14 valores!
Por outro lado,
a Tese que antes não tinha componente curricular mas se estendia em regra por 4 ou 5 anos, agora é para 2 anos.
Em suma: o Mestrado actual curricularmente é menos do que a antiga licenciatura, e o Doutoramento actual totaliza menos cadeiras que o Mestrado dos anos 80/90, para já nem falar no doutoramento americano...
Quanto ao Doutoramento antigo, de tipicamente de 5 anos de Tese, pura e simplesmente desapareceu. Não há. Nem o correspondente treino de I&D!...
E ainda: "a faceta das pós-graduações americanas, que é talvez a mais útil, a da existência de uma componente curricular de elevado nível e exigência, não está interiorizada (diria mesmo que muitas das cadeiras de mestrado das escolas de engenharia portuguesas são uma fraude)".
Por isso, tanto "investimento", tanto "investimento", mas tão pouca inovação. Porque doutoramentos de valor normalizado são gasto puro, fábricas de encher chouriços.

Balbúrdia fiscal - mas havia necessidade?

1.No seu estilo muito próprio e contundente, justamente contundente, Pinho Cardão já deu o mote sobre o tema: “Taxai, taxai, que os tachistas vão ficar contentes...” – referindo a enorme confusão que na classe política e na comunicação social se instalou, nos últimos dias, sobre o tema da “tributação dos ricos”...
2.Confesso que não sei quase por onde começar tal o nível de confusão que se estabeleceu no tratamento deste tema e de disparate exibido pelos diversos quadrantes políticos na sua abordagem...
3.Parece que férias curtas fizeram mal aos políticos, melhor seria que tivessem ficado ao sol mais uns dias para assentar melhor as ideias...ou que apanhassem alguma chuva entretanto, regressando à cidade com a cabeça mais fresca...
4.Começando pelos habitualmente mais delirantes em matéria fiscal - BE e PCP – aqui chegou-se ao ponto de sustentar a tributação da riqueza/património, incluindo neste conceito “items” como as cabeças de gado e as jóias de família...
5.Já estou a ver os infelizes lavradores do Entre Douro e Minho, por exemplo - produtores de leite que suportam há muitos meses prejuízos causados pelas quedas do preço do leite - de mãos na cabeça com um imposto contra o qual a única defesa seria o abate puro e simples do efectivo pecuário, fazendo desaparecer a base de incidência do imposto...
6.Passando ao PS, apesar da mudança de liderança, parece continuar fidelíssimo ao propósito de arruinar a economia por todos os meios ao seu alcance, depois de a deixar num sufoco financeiro...e advoga, entusiasticamente, a tributação dos rendimentos de capital...
7.Para o PS os principais problemas da economia portuguesa continuam a ser o excesso de poupança e de investimento, é preciso contrariar essa perigosa tendência a qualquer preço...não têm mesmo cura estas excelentes criaturas...
8.Mas nem o PR escapou a esta avalanche de propostas sem nexo - apesar de ter recusado (e bem) a ideia da tributação do património sustentada por algumas opiniões - ao atirar para cima desta fogueira a proposta de voltar a tributar as doações e sucessões cuja tributação foi (e muito bem) eliminada ao tempo de M.F. Leite...Nada tenho já a herdar, falo com independência...
9.Salvou-se o Governo, com um prudente silencia sobre o tema, admitindo apenas e de forma cautelosa um imposto extraordinário, semelhante ao que acaba de ser aprovado em França, com uma sobretaxa sobre os rendimentos mais elevados (acima de € 500.000 e sobre a parcela que exceder este valor no caso de França) o que, a título excepcional até poderá ser aceitável...
10.Em Espanha, curiosamente, o Governo socialista acabou com qq especulações sobre o tema, afastando a hipótese de um imposto extra “sobre os ricos”...
11.Será que a nossa classe política continua a não entender que o principal problema da economia portuguesa reside no excesso de recursos que são consumidos pelo Estado –no sentido mais amplo – e que aumentos sucessivos de impostos só contribuem para eternizar esta situação?
12.Que balbúrdia fiscal esta...mas havia necessidade?

domingo, 28 de agosto de 2011

Por terras da Eslávia do Sul: Na Kraju- XXII


FIM.............
NA KRAJU (em croata).......KONEC (em esloveno)......
KPAJ (em sérvio).......HÁ KPAJOT (em macedónio)
E ainda falta o sérvio em cirílico e o bósnio nos dois alfabetos!A língua tem muita força.

E forçou que a identidade de cada nação pudesse perdurar para além dos tempos e das ditaduras!
UFF! E eu cheguei ao fim!...

Até Seguro se sente inseguro

Distraído, fiel à regra auto-imposta de atravessar a silly season longe da idiotice mediática, não me tinha apercebido do bruá dos últimos dias, motivado, creio, por uma notícia do ´Expresso´. Só dei conta da agitação há poucos minutos ao ouvir José Seguro confessar que sente insegurança quanto a esta coisa dos espiões nacionais. Pretexto para comentar o assunto, apesar de serem poucos que o consideram importante. A generalidade dos cidadãos não leva nem um bocadinho a sério as repetidas estórias envolvendo a espionagem nacional.
Os factos noticiados - que só se tornarão oficiais após a conclusão do inquérito que os confirme, salvo se os resultados constituírem segredo de Estado - sugerem-me os seguintes comentários. Primeiro, a fazer fé na notícia, o tráfico de informações que tem as secretas como agente, é, afinal de contas uma via de dois sentidos. Ficáramos a saber, há dias, que a espionagem em Portugal visa a recolha sigilosa de dados que  podem ser fornecidos também a empresas privadas, sendo esse procedimento normal se tiver que ver com interesses estratégicos da nação, dizem. Naturalmente que o juiz desse interesse é o próprio serviço, já que não consta que alguém a ele exterior controle o destino das informações nem aquilate do interesse no seu fornecimento. Mas agora foi revelado que pelo menos uma empresa privada de comunicações móveis forneceu dados sobre telefonemas feitos no caso por um jornalista, o que faz supor que seguirá o mesmo procedimento seja qual for o cidadão visado. Fica por saber se se trata de uma operação de permuta de informações, dação em pagamento ou qualquer outra forma de prestação recíproca. Seja como for, julgava eu - ingenuidade! - que tal conduta era punida como crime, e crime grave, mas estou convencido que alguém virá explicar - e o inquérito concluir - que é assim pela natureza da actividade das secretas, que é intrinseco da espionagem em qualquer democracia "pisar a linha" que separa a legalidade da ilegalidade, e por isso o(s) autor(es) estão antecipadamente absolvidos já que o catecismo das informações ensina que nestas coisas o fim sempre justifica os meios.
A segunda nota nada tem de irónico. Ao longo da existência dos serviços de informações em democracia, têm sido inúmeros os episódios que os envolvem e que envolvem agentes, responsáveis e tutelas. Obviamente que não ajuízo do mérito e da eficácia destes serviços (não tenho para isso o mínimo conhecimento),  estando cônscio, porém, da sua importância para a protecção do Estado democrático. O que já não aceito é que estes serviços ou quaisquer outros possam, por um lado, ser instrumentalizados por quem quer que seja, havendo repetidos sinais de que nem sempre assim foi. Mas sobretudo não posso compreender, e muito menos tolerar, que os serviços de informações estejam moldados para defender o Estado dos cidadãos, encarando como ameaças à democracia direitos e as liberdades que são a essência da própria democracia.
Espero bem que alguém, com responsabilidade, resolva por ordem no bordel em que se transformaram as informações em Portugal. Em tempo de crise profunda são poucos os imperativos. Que este seja um deles em nome do que existe de sagrado em democracia.

O corvo que tem raiva a gatos pretos

Não é fácil ser-se surpreendido ao fim de muitos anos de atividade profissional, mas ainda vai acontecendo e quando menos se espera. Vejo doentes em fases ditas terminais com todo o cortejo de sinais e sintomas de degeneração, os quais me incomodam sobremaneira, levando-me a equacionar muitas interrogações para as quais não consigo encontrar respostas, e as que ouço, sinceramente, mais valia que os seus autores estivessem calados, porque a par da ignorância adicionam arrogância. Recebi um telefonema a perguntar se não me importava de ir ver um velho doente, no duplo sentido do termo. - Claro que vou. Uma resposta acompanhada de alguma angústia despertada pela sucessão de recordações, entre as quais as últimas, quando o seu estado, bastante deteriorado, física e mentalmente, não prenunciava nada de bom. Tinha feito várias tentativas no sentido de corrigir algumas perturbações, há já algum tempo, mas não vislumbrava os resultados esperados, ou, melhor, desejados. Não questionei sobre o seu estado atual ou as razões para o pedido de visita, tinha tempo mais do que suficiente para ver in loco ao final da tarde. E foi o que aconteceu. Ao aproximar-me da residência comecei a exercitar a memória e a estratégia a seguir, mesmo sem o ter examinado. Velho, doente e incapacitado, uma tríade diabólica em que tropeço amiúde e que me deprime. O que é que poderei fazer? O sol, que hoje estava bastante simpático, fazia esforços para me alegrar, mas não conseguia, apenas me acalmou o suficiente para que esquecesse a minha angústia. Subo as escadas e estranhei que o corvo não começasse a crocitar. Vive há muitos anos debaixo das escadas, transformada em gaiola, e é um excelente animal de guarda. Não o ouvi e nem o vi. Subi as escadas a pensar que o animal deveria ter morrido. Que pena, morre tudo. Ao chegar ao cimo fui saudado pela filha e, por detrás, sentado num mocho à entrada para a cozinha, estava o senhor X. Não esperava que estivesse ali, com um ar bonacheirão, sorriso malandro e cheio de carnes. A imagem que estava à espera era deitado no sofá, boca aberta, olhar no vazio, corpo rígido, sem dizer coisa com coisa e com a saliva a escorrer pelo canto da boca. Qual quê! Estava ali, sentado, na posse de todas as suas faculdades mentais, prolixo, satisfeito por se mostrar que estava em forma, embora estivesse preocupado com a sua saúde. A filha disse-me que andava com medo de morrer. - Ai anda? Bom sinal! - Viva senhor X., o senhor está com um aspeto formidável! Nem quero acreditar. - Foram aqueles dois medicamentos que o senhor doutor lhe deu. Interveio a filha. - Ele anda, anda sozinho e muitas vezes sem a bengala. Vai até ao quintal e tudo. Enquanto a filha ia debitando o sucesso da sua recuperação, o senhor X, inchado de satisfação, fixava-me com um sorriso irónico, um sorriso destilado ao longo de décadas e décadas de vida bem recheada de experiências e de histórias que mereciam ser contadas. Dotado de uma capacidade argumentativa muito difícil de rebater, apesar de não ter formação escolar, obrigou-me, desde sempre, a um cuidado redobrado na forma como lidar com ele. Ai de mim se lhe desse pretexto para contra-argumentar, desfazia-me com uma lógica terrível, embora não lhe assistisse a razão. Depressa aprendi esta sua qualidade para me impor e fazer com que aceitasse os meus conselhos e determinações. - Enquanto se ia desenrolando estas cenas, o corvo lembrou-se de começar a crocitar. - Afinal está vivo. Ainda bem. Mas por que razão estará a crocitar? Olhei para baixo e vi um gato preto. Ah! Está explicado. O corvo tem raiva a gatos pretos e se pudesse decerto que lhe arrancaria os olhos. - Bom, este final de tarde está a correr melhor do que esperava, o sol está simpático, o corvo está vivo e o senhor X está em forma. Levantou-se com uma agilidade surpreendente e fomos para o sofá. Direito, sem ajuda, sentou-se e disse-me que andava preocupado com aqueles "ais" que lhe vem lá do fundo, suspiros que não consegue controlar. - Preciso de arrotar, para ver se isto sai. Arranje-me qualquer coisa para deixar de suspirar. Expliquei-lhe que não era sinal de perigo, às tantas eram saudades de outros tempos, das raparigas... - Olhou-me com um sorriso muito malicioso, dizendo: - Acha que sim? Era bom, era! Fui obrigado a admitir que as suas capacidades estavam a funcionar bem. Um pequeno teste, fácil de aplicar. - Mas esta coisa da barriga, parece que estou empanturrado, chateia-me. É nas voltas de Lua que isto me dá. - Ai sim? Então, eu vou-lhe dar um medicamento para tomar quando se sentir empanturrado nas mudanças de Lua. - Está bem! A conversa continuou ao redor de outros assuntos e pude ver que o senhor estava muito melhor. Até quando não sei. O senhor X. estava feliz e ficou melhor depois da visita. Eu também fiquei feliz.
Quando saí o velho corvo de guarda não grasnou.

sábado, 27 de agosto de 2011

A taxa e o tacho...

E, subitamente, parece que todos querem mais taxas e mais impostos. Que, como sempre, vão provocar mais despesa. E mais gente a viver do tacho.

Taxai, taxai, que os tachistas vão ficar contentes!...

Avante taxistas e tachistas. O futuro é vosso!...

A Bem da Nação.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Por terras da Eslávia do Sul: O Lago de Bled e os casamentos- XXI



A cerca de 50 quilómetros de Ljubljana, no Parque Nacional de Triglav, o Lago de Bled, de origem glaciar, e a sua ilha, um deslumbramento da natureza. Com o Castelo, tornou-se um destino turístico de primeira grandeza, pela placidez e suavidade das águas, pela harmonia e paz que irradia, pelo ambiente distendido que produz, pela sensação de beleza calma que provoca. A conjugação da superfície de água límpida com as altas montanhas que servem de fronteira à Itália e Áustria confluem numa paisagem que se impõe à mente e aos sentidos e se torna inesquecível.
Nas margens do lago, um majestoso Palácio onde veraneava o Rei da Jugoslávia. Pouco majestoso para Tito, que o mandou remodelar e ampliar e onde passava a saison com a sua corte. Mesmo assim pequeno para a sua grandeza, mandou construir ao lado um outro para um dos filhos. Certamente em nome da igualdade de oportunidades para a família.
O Palácio de Tito é hoje um hotel de grande luxo. A par de outros, porventura menos sofisticados, mas que albergaram famosos de todo o mundo, como Agatha Christie, em busca de sossego e das curativas águas termais, uma das riquezas da cidade.
No meio do lago, a igreja da Assunção, com origem no século VIII, muito procurada para casamentos e para chegar à qual é necessário subir mais de 300 degraus. E em que é obrigatório o noivo transportar a noiva ao colo escadas acima, sem vacilar, tropeçar ou ter qualquer quebra de ânimo. Dizem que quem aguenta de braço firme e ânimo forte a subida com a preciosa carga tem força moral para suportar todas as tempestades futuras. Se a noiva não é deixada a meio das escadas tem casamento feliz para a vida inteira. Se o noivo soçobra, a coisa pode dar para o torto…
Local ideal para casamentos: o castelo altaneiro e um lago suave e bonançoso constituem a melhor ilustração para um lindo conto de fadas.

"Gato escaldado da água fria tem medo"...

Como qualquer cidadão tenho acompanhado com muita preocupação a situação financeira e económica deste mundo esquisito e do eterno pobre Portugal, não obstante alguns períodos de riqueza que este último já conheceu, mas que deverá ter satisfeito apenas meia dúzia de nacionais, como é obvio. Não é preciso ser-se especialista, nem possuir grandes conhecimentos técnicos, para saber o que é que se passa. Afinal de contas é "apenas" um fenómeno que se observa frequentemente à escala familiar, agora intensificada pelo tamanho da nau e pelos disparates de quem elegemos ou dos quem se "elegem" para governar o povo, tudo isto à mistura com aldrabices capazes de envergonhar o mais hábil dos vigaristas. Gasta-se muito, produz-se pouco e vigariza-se sempre que se pode. As medidas para aumentar as receitas são fáceis de equacionar, e elas estão aí no máximo, ou melhor, já ultrapassaram, e de que maneira, os limites aceitáveis. Quanto à redução da despesa sente-se um estranho tremor, não sei se de medo ou se devido a alguma incapacidade neurológica a prever um desastre incontrolável. "A ver vamos, como dizem os cegos". Quanto aos vigaristas, não vejo grandes medidas na sua eliminação ou controlo, até penso, posso estar errado, que esta situação lhes pode ser favorável.
Quanto aos chamado "imposto sobre os mais ricos", proposto pelos próprios, os supermilionários, torço o nariz. Não é que ponha em causa a filantropia de alguns, muitas ações humanitárias desta particular fauna estão bem patenteadas e merecem o máximo respeito. Contudo, é preciso conhecer como é que são ou foram produzidas as suas fortunas. Não acredito que muitas delas se tenham baseado em "valores" adotados posteriormente quando passaram a ser ricos. Se a situação económica se agravar também irão sofrer as consequências e deixarão de obter mais lucros, assim, o melhor é prescindir, através de um imposto especial a pedido, de algum do seu património, aliviando tensões sociais e permitir que os estados consigam estabilizar ou inverter a crise (o que eu não creio), e ainda podem ficar bem no filme! Ah! Há qualquer coisa que não bate bem nesta história, pode não ser nada disto, mas que há não duvido. "Gato escaldado da água fria tem medo", e eu já levei muitos escaldões!

Intemporal...

Papeis trocados: empresas financiam os bancos...

1.De acordo com dados esta semana divulgados no Boletim Estatístico do BdeP, constata-se um fenómeno muito curioso:
– Os créditos concedidos (e outros activos detidos) pelo sistema bancário nacional às (sobre as) empresas não financeiras, no período de Junho/ 2010 a Junho/2011, caíram 1,8%, de € 142.506 milhões para € 139.921 milhões;
- Os depósitos das mesmas empresas nos bancos aumentaram, no mesmo período, de € 29.743 milhões (20,87% dos créditos) para € 31.229 milhões (22,7% dos créditos).
2.Estes dados revelam uma notável inversão de papéis entre a banca e as empresas: enquanto que em condições normais são os bancos que financiam as empresas, em Portugal e neste período em particular, são as empresas que financiam os bancos: e financiaram em nada menos que € 4.071 milhões (diminuição no crédito+aumento dos depósitos), ou seja quase 2,4% do PIB...
3.Esta anómala inversão nas relações entre o sistema bancário e as empresas é o resultado de uma anomalia ainda maior no funcionamento da economia portuguesa, ao longo dos últimos 15 anos, em que o recurso ao financiamento bancário, por parte de particulares e de empresas foi feito sem conta nem medida – muito por responsabilidade dos próprios bancos...
4.Esse descontrolo na concessão de crédito conduziu ao excesso de endividamento de empresas e de particulares, bem como à secagem das fontes de financiamento dos bancos que não conseguem crédito no exterior (com a excepção do apoio do BCE).
5. Caberá perguntar, nesta oportunidade, se este é também o “brilhante” resultado das inúmeras e fabulosas linhas de crédito, envolvendo centenas de milhões de Euros, com que o consulado socrático nos inundou (de anúncios, pelo menos), abrangendo todos os sectores de actividade, desde a agricultura até aos serviços, numa exibição de “luxúria” financeira poucas vezes vista...
6.O que se sabe é que os bancos se encontram sob forte necessidade de reduzir o nível de “alavancagem” (rácio entre “crédito concedido+activos” e “depósitos”), que no sistema bancário nacional andará ainda por 150%...
7.Mas isso está a custar muito à economia, sobretudo às empresas que se deixaram embalar nas facilidades de crédito e que agora se encontram sob fortíssima pressão dos bancos para reduzirem os níveis de exposição, enquanto vão suportando taxas de juro (mais uma pletora de comissões) que não raro excedem os 10%...
8...Enquanto as empresas mais solventes aproveitam (e bem) as altas taxas de juro com que os bancos remuneram os seus depósitos, o que explica a subida global dos depósitos...denotando uma preferência por “cash”, quem sabe mesmo se em detrimento de novos investimentos...
9.As empresas financiando os bancos...quem diria que chegaríamos a este ponto!

Um grande tom de azul e branco



















Logo, e pela quarta vez, o FCPorto no final da Super-Taça Europeia com o Barcelona. Um enorme encontro entre a melhor e a terceira melhor equipas do mundo, em 2011.
O Porto pode ganhar ou perder. Mas não é a vitória ou a derrota circunstancial que distingue os grandes clubes. O que os distingue é a capacidade de estarem muitas vezes a poder disputar as grandes vitórias. Mais uma vez o Porto lá está. Fazendo com o Barcelona o par das únicas duas equipas que conquistaram 3 troféus europeus no século XXI.
Nota: Os jornais desportivos de Lisboa e os que os fazem continuam a não ver nada para além da 2ª Circular. São mais cegos que o Proteu de Postojna.

Por terras da Eslávia do Sul: Maribor e Ptuj- XX




Não desesperem, caros leitores do 4R, que isto está a terminar! Até porque tenho que entrar em estágio para o jogo do Porto com o Barcelona!...
Maribor é a segunda maior cidade da Eslovénia, com 150.000 habitantes. Cidade interessante, circunstancionalmente porque emparelha com Guimarães como próxima Capital Europeia da Cultura, e porque ilustra a identidade eslovena como país de cultura ocidental. Está situada a 20 quilómetros da fronteira da Áustria e a uns meros 50 quilómetros da cidade austríaca de Graz. Até a Segunda Guerra Mundial, tinha uma significativa população germânica e até o nome alemão Marburg an der Drau. Esta influência germânica vem desde 1278, quando passou ao controle dos Habsburgos, em que se manteve até 1918, com uma ou outra pequena intermitência. Após a formação da Jugoslávia, a população alemã, que dominava a economia, foi perseguida por Tito e presa ou assassinada, na melhor das hipóteses obrigada a sair. Mas a influência ficou, ajudada aliás pela proximidade da Áustria. Cidade com história espelhada em monumentos diversos, como o Castelo, o edifício da Câmara Municipal e, aqui como na Croácia, a inevitável Igreja Franciscana, esta com a particularidade de ter sido rodeada por muralhas, de que uma parte ainda resta, de modo a defendê-la dos ataques otomanos. A Igreja simbolizava a relativa autonomia de que gozava a cidade e os seus habitantes e que urgia defender a todo o custo.
Não pode ainda deixar de ser visitada a pequena cidade de Ptuj, tida como a cidade mais antiga da Eslovénia. Com vestígios das Idades do Bronze e do Ferro, foi colonizada pelos Celtas, pertenceu ao Império Romano, foi devastada pelos Hunos, no ano 450, invadida pelos ávaros (uma tribo aparentada com os eslavos) e ocupada pelos eslavos em 572. Pertenceu depois aos franceses, ao Arcebispado de Salzburgo, acabando sob o controle do Império Alemão dos Habsburgos. Com a formação da Jugoslávia, os habitantes alemães tiveram a mesma sorte dos de Maribor.
Duas cidades antigas, bem conservadas e preservadas, dois espelhos da Eslovénia.

Nota: Curiosamente, o clube Maribor ficou no mesmo Grupo do SCBraga no sorteio da Liga Europa

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Destrunfar

Um multimilionário americano resolveu brincar com as dificuldades dos países e dos cidadãos para saírem da situação dramática em que se encontram e veio a público, com ar muito inocente, dizer que lhe parecia muito razoável que lhe pedissem para pagar mais impostos. A ele e aos outros milionários que conhece. Os jornais e os media entraram em frenesim absoluto, considerando logo a ideia fantástica, mas como é que ninguém se tinha lembrado disso até agora? E políticos, comentadores e estudiosos desataram logo a fazer cálculos, a abanar a cabeça a dizer que sim, a determinar o quantum da riqueza que anda por aí à solta, os olhos a transformarem-se em cifrões. Que ideia fantástica, podemos mesmo dizer que descobrimos a pólvora, ou o ovo de Colombo, para ser menos bélica, os mais-que-ricos, a quem ninguém se atrevia a incomodar, dispostos a pagar é aproveitar, e já, antes que se arrependam.
E eu a julgar que os capitais eram altamente voláteis, e eu a pensar que os rendimentos da riqueza eram difíceis de tributar assim, directamente, passa para cá x% do que resultou dos negócios, e das acções e aplicações, e da especulação, e das deslocalizações, os Governos sabem muito bem o que lhes fazer, vai ser um regalo e ainda por cima cala-se a esquerda refilona, aqui está a justiça social por uma pena.
Entretanto, enquanto o tal milionário deve estar a rir a bom rir dos papalvos que lhe pegaram na palavra e das vezes que a sua fotografia aparece nos jornais com a seta para cima, já as contas se desviam para tributar afinal, não as riquezas dos multimilionários mas as casinhas, as contas bancárias dos que têm depósitos, outra vez os salários (só os milionários!, esqueçamos que tudo é relativo) e já está tudo embrulhado a discutir o que é são afinal os ricos tributáveis e os que, tão certo como estarmos aqui, só serão ricos se e quanto deixarem que os considerem tributáveis.
Talvez fosse mais fácil pedir, humildemente, aos tais ricos que se oferecem generosamente para dar o seu óbulo para a crise que façam uma doação do que estão dispostos a pagar, por uma única vez entenda-se, mas que façam a doação, que a entreguem aos seus Governos, ordeiramente, em envelope fechado, e não se fala mais nisso. Sairia muito mais barato a todos, o dinheiro chegava direitinho aos cofres vazios sem ser preciso fazer mais leis, aumentar a especialização dos contabilistas, as inspecções, os cálculos das fortunas, fazer doutrina, fechar off shores, redefinir o que são capitais, etc, etc, etc. É que entretanto, no meio da discussão, nós gastámos o pouco que tínhamos para chegar ao pote de ouro e, claro, pelo caminho só vão sobrar os novos impostos que, certo certinho, vai acrescentar àqueles que já pagam, e que julgavam que não eram multimilionários. O tal riquíssimo deve estar a rir com vontade da sua proposta indecente. Ficámos todos a saber que os multimilionários só não pagam mais porque não os deixam. É o que se chama destrunfar.

Fernandito

Aproveitar as férias para visitar os mesmos locais constitui um ritual. Em princípio, não espero encontrar nada de novo, apenas reviver o passado, mas, por vezes, talvez antecipando a necessidade de, no futuro, desfrutar mais algumas lembranças, encontro coisas novas.
Vi na feira uma exposição sobre a imprensa regional do distrito, a primeira página do número um de jornais quase todos extintos. Ainda procurei alguns da minha terra, mas não os encontrei. Fiquei com pena e um pouco enraivecido. De qualquer modo, regozijei-me com algumas notícias produzidas nos finais da monarquia, no período da I República e no início do Estado Novo. Ainda nos queixamos da forma como se escreve hoje, mas se olharmos bem a raiva e o ódio estão bem patentes nalguns dos artigos da época, determinados pela luta entre monárquicos e católicos e republicanos. Chamou-me a atenção um artigo da "A Voz da Pátria", "quinzenário integralista", de Sernancelhe, em que o diretor, um padre, diz cobras e lagartos de Afonso "Pulha" da Costa e dos republicanos, mostrando as taxas de impostos a pagar, "Confisco de Bens!...". De acordo com o diretor, quem tiver um rendimento coletável anual de 20$000 pagará 3$690 (18%), de 100$000 pagará 28$970 (29%) e assim em crescendo até chegar aos 21.000$000 em que passará a pagar 22.979$000 (106%)! O padre Cândido Augusto Ramos Caldas afirma logo no início: "A república nada de proveito fez, roubando sempre, destruindo sempre, anichando sempre afilhados, fazendo novos-ricos, espalhando o dinheiro a rodos pela clientela faminta. Pasmai oh gentes!..."
No primeiro número da "Folha de Tondela", 18 de fevereiro de 1906, "semanário imparcial", chamou-me a atenção as notícias "Pelo Tribunal", publicitando os resultados das condenações e absolvições. Casimira de Jesus, de Vale dos Lobos, acusada de ofensas corporais foi condenada em 20 dias de multa a 100 réis nas custas e selos; Maria Emília de Santiago condenada por ofensa à moral pública na mesma multa; Casimiro Pimenta, de Caparrosa, condenado também por ofensa à moral pública, mas não pagou as custas por ser pobre. Dois outros foram acusados de pescarem com dinamite, um deles, o Joaquim Nunes Borges, de Ferreirós, foi condenado a 5$000 além das custas e selos, mas o Daniel da Silva Pereira, da Lageosa, foi absolvido. A par deste tipo de noticiário, são sempre nomeados os escrivães e os advogados. Deste modo, os putativos infratores poderiam saber quais os resultados caso se entregassem nas mãos de certos causídicos. Por exemplo, se tivessem a ideia de irem pescar com dinamite escolheriam o Dr. António da Costa Dias que patrocinou o Daniel da Lageosa, absolvido!
O número um do "Notícias de Tondela", "Trimensário defensor dos interesses do concelho de Tondela" (5 de junho de 1931), chama a atenção para a regularização do trânsito. Como o concelho está a passar por uma fase de desenvolvimento, o articulista noticia que desde há duas semanas existem placas indicativas de regularização do trânsito, "melhoramento de capital importância", atendendo ao trânsito crescente. E se não houvesse poderiam originar acidentes. "Os chauffeurs locais são respeitadores, mas os de fora não, que além do mais, passam pela nossa terra em corredias loucas, fazendo pouco caso dos 20 km à hora, velocidade esta que lhes só é permitido andarem dentro da área da vila. Não seria mau multar-se um, para exemplo de outros".
Outras notícias ou artigos poderiam ser aqui replicados, mas vou optar por um curto editorial publicado nos "Ecos do Caramulo", segunda série, presumo de 1931, "O Anjinho", referente à morte de uma criança. Um belo texto que merecia ser transcrito na totalidade, a marcar o sentimento que atinge as pessoas quando alguém, neste caso uma criança, desaparece."...O Fernandito, o meigo e gracioso Fernandito, que fez sonhar a seus pais as fagueiras e risonhas esperanças, desprendeu-se-lhes dos braços e como uma pombinha branca, de alvura imaculada, bateu as asitas e subiu apressadamente ao céu, onde era esperado pela divina orquestra dos anjos. Baldados foram os esforços empregados e impotente foi a ciência para salvar a vida ao pequenito, que era enlevo e o encanto de seus inconsoláveis pais, cujo golpe profundo ainda sangra constantemente e parece não cicatrizar-se tão depressa!”...
Velhas folhas, velhas notícias, coisas do dia-a-dia, vulgares ou não, fazem com que a vida seja temperada com outros sabores e condimentos, um passado que quer participar no presente, mesmo que ninguém se lembre do Fernandito...