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sexta-feira, 18 de julho de 2008

Justiça que dificilmente se mantém de pé


Hoje, último dia de uma sessão legislativa fértil em debates parlamentares estéreis, a maioria aprovou, sozinha, o novo mapa judiciário. Não houve abstenções mas discordância frontal e declarada de todas as bancadas da oposição. À esquerda e à direita.

A questão da organização judiciária é complexa. Não permite aqui uma análise ainda que perfunctória do que significa a conversão das 231 comarcas actualmente existentes em 39 circunscrições ou tribunais regionais, divididos por cinco distritos judiciais para além das outras medidas que o decreto que agora segue para promulgação consagra, em especial no que respeita ao governo dos tribunais.
Devo confessar que nem sequer estou em desacordo com os princípios gerais da reforma do chamado mapa judiciário. As dúvidas que tenho incidem sobre algumas das soluções. Embora, como tenho escrito repetidamente, a crise da justiça não está a meu ver nas suas estruturas nem na sua organização, está nos actores, em todos os actores judiciários sem excepção. Sem olvidar a cegueira do poder político, neste plano mais aguda do que a cegueira da própria justiça.
O que me importa aqui assinalar é a ausência de sensatez da maioria PS. A deliberada preferência por esta forma de soberba política que nada tem que ver com o interesse do País e que se materializa na imposição da sua reforma contra todos, num sector onde se sabe que o êxito de qualquer mudança depende da convicção e do empenho daqueles que a têm de protagonizar.

Dirão alguns que governar é decidir. E que é esse o mandato do governo e da maioria que obedientemente o sustenta no parlamento. Decidir muitas vezes contra interesses corporativos a favor do interesse geral.
Estou de acordo.
Mas convém reparar que neste caso se legisla não contra os interesses de grupo ou de alguns grupos, mas contra praticamente todos. E sobretudo contra o raro consenso que se formou ao redor da ideia de que é necessário um pacto para a reforma da justiça, condição essencial do desenvolvimento do País, porque é isso, para além do direito ao acesso à justiça, que fundamentalmente está em causa.

A par da dissolução do animus da Nação, continua imparável a degradação corporal da justiça, condenada a sobreviver sem crédto de quem quer que seja, e sobretudo sem dignidade.

Estão verdes...não prestam...

Uma raposa, morta de fome, viu penduradas nas grades de uma viçosa parreira alguns cachos de uvas negras e maduras. Então, usou de todos os seus dotes, artimanhas e artifícios para as apanhar, mas não conseguiu. Desanimada, deu meia volta e foi -se embora, exclamando: estão verdes, não prestam...só os cães as podem tragar...Isto dizia Esopo, há 2.600 anos!....
Ontem, ficámos a saber que o Presidente do Benfica, apesar de se constituir parte interessada na UEFA, não queria a participação do clube na Liga dos Campeões, caso o FCPorto fosse punido e impedido de participar!...
Estão verdes...não prestam...

Noites da Cigarra


As Noites da Cigarra em Mafra trazem aqui ao burgo alguma animação aos veraneantes. No Jardim do Cerco, mesmo junto ao Convento, arma-se um grande palco e a plateia de cadeirinhas estende-se na relva, debaixo do arvoredo, sobretudo plátanos. Hoje foi a vez de Madeleine Peyroux, que fez esquecer o frio com a sua linda voz e o seu grupo de “cool jazz”, uma noite de “love songs” num cenário de filme romântico.
Os pardalitos é que estranharam, esvoaçavam de uma árvore para outra e mudavam de cor quando passavam nos feixes de luz, ora vermelhos, ora azuis, ora amarelos, as asinhas aflitas a baterem rápidas integravam o ambiente como se acompanhassem o ritmo das palmas.
À saída lá estava a banca de venda do pão, o nosso vizinho padeiro não perdoou quando nos viu passar distraídos e gritou: “Então, vizinhos, hoje não vai uma queijadinha?” Voltámos atrás para o cumprimentar, à entrada não era ele que ali estava, já não contávamos encontrá-lo, e ele explicou que só tinha chegado agora para trazer pão com chouriço “está aqui, bem quentinho, levem um que este ofereço eu”.
E lá viémos nós a comer aquela delícia pela rua fora, qual frio qual quê, o pão ainda a queimar as mãos e o ventinho fresco da noite a espalhar as últimas notas das canções no jardim...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Dignidade intocada!...


-Olha, diz-me a minha mulher, leva lá isso para casa, apontando para uma esfregona que tinha no porta-bagagens.

-Ah, isso é que não levo. Era o que faltava!.... Além do mais é um atentado à minha dignidade, replico eu. Andar de esfregona dez metros na via pública? Nem pensar!...

-Isso não é uma esfregona, é uma MOPA!...

-Uma Mopa? Se é uma Mopa, o caso é outro...

E lá levei o objecto que é tudo igual a esfregona, mas se chama Mopa...

A esfregona foi promovida e a minha dignidade ficou intacta!...

Papoilas saltitantes VIII

Já chegou o Pablo Aimar!...Em jacto privado, como convém ao pessoal da sua estirpe.
Se fizer metade, em golos, do que fez em capas de jornais, é uma excelente aquisição!...

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Será assim tão fantástico?

Uma notícia que li no Jornal de Notícias dá conta que a Câmara Municipal da Maia vai lançar o chamado “caderno digital” no próximo não lectivo. Os primeiros beneficiários serão os alunos das escolas primárias da Maia.
O “caderno digital” vai acabar com os cadernos de papel, os lápis, as canetas, as borrachas e todo o material necessário à escrita manual. Acaba assim a escrita de uma redacção numa folha de papel pautado ou as contas e a prova dos nove numa folha de papel quadriculado.
Não percebi se acaba também a leitura do livro. É possível que sim, que com o novo sistema os alunos passem a aprender a ler no ecrã informático. Porque não? E acabam também as mochilas que as crianças transportam com os seus haveres escolares. Não têm mais que carregar tais incómodos. A mochila é transformada pelas novas tecnologias numa levíssima pen-drive. É só colocar no bolso. Formidável!
É claro que o “caderno digital” pressupõe que os alunos tenham computador em casa, facilitando, segundo dizem os entendidos da Câmara da Maia, um melhor acompanhamento da evolução escolar dos alunos por parte dos pais.
O sistema vai custar 400.000 €, incluindo as pen-drives e a instalação em todas as salas de aula de quadros virtuais e interactivos que permitem visualizar o sistema. Uma espécie de ecrã de computador em tamanho grande. Os velhos quadros de ardósia, os paus de giz e os apagadores têm, portanto, os dias contados.
Esta mudança abrupta de hábitos escolares e de modos de ensinar e de aprender, em particular quando falamos da escola primária e, portanto, de crianças de tenra idade que aqui percorrem os primeiros anos de vida escolar, levanta-me as maiores dúvidas quanto aos efeitos positivos que pode provocar na sua educação e formação.
Não seria mais aconselhável procurar conciliar o “caderno físico” com o "caderno digital”? Será que são incompatíveis ou não será que se poderiam completar porque desenvolvem aptidões diferentes e possibilitam o contacto e o desenvolvimento de sensibilidades diferentes no modo como o conhecimento pode ser apresentado e utilizado? Será bom para crianças tão pequenas não terem contacto físico com uma folha de papel, não sentirem o percorrer das folhas de um caderno ou de um livro? Será bom para as crianças não descobrirem e aprenderem a “desenhar” a sua própria letra?
Enfim, existem muitas outras perguntas e dúvidas, tal é a dimensão que pode ter o efeito guilhotina sobre o “caderno físico”! Já agora a pen drive poderia também incluir a malfadada máquina de calcular, não é?

Coitados!

Um em cada cinco parlamentares britânicos sofre de doença mental provocada pelo stress...
E em Portugal? Nem me atrevo a escrever o que estou a pensar. Aguardo “palpites” e “diagnósticos” por parte de quem lê o 4R (os deputados da AR não podem fazer comentários sobre este tema!).
;-)

Não tarda e classificam-na como doença profissional! Sempre pode ter algumas vantagens...

O pudim instantâneo

Recebi um e-mail.
Dizia o seguinte:
"PSD a perder terreno. Se as eleições legislativas fossem hoje, o PS venceria com maioria relativa. A sondagem realizada pela Universidade Católica para o JN, a RTP e a Antena 1 revela que o PSD de Manuela Ferreira Leite vale tanto como o de Menezes."
E termina indicando-me um link para um artigo do Jornal de Notícias que comprova a afirmação.
A dedução é simples.
Se tens um pedaço de açucar e o atiras à água, o resultado é imediato. Este dissolve-se.
E basta adaptar este fenómeno à nossa vida política.
Se Manuela Ferreira Leite é eleita líder do PSD, tem que ganhar na sondagem seguinte.
Aliás, fico intrigado como é que semelhante sondagem demorou tanto tempo a ser publicada.
Tal como a receita do pudim instantâneo, devia ter saído na véspera do Congresso do PSD.

Impostos: Vítor Constâncio vs José Sócrates – e agora?!...

Na entrevista do passado dia 2 de Julho à RTP, o Primeiro-Ministro José Sócrates deixou-me muito positivamente surpreendido pela mudança na argumentação no que toca à política fiscal em Portugal. Resumidamente – pois já comentei esta mudança num texto anterior –, disse então José Sócrates que, à luz da actual situação económica, voltaria a tomar a decisão de descer o IVA de 21% para 20%, uma medida que entrou em vigor no passado dia 1 de Julho. E até referiu que “hoje até encontro mais razões para descer o IVA”, lembrando que os cerca de 250 milhões de euros que o Estado deixa de receber vão “ficar na economia para ajudar as famílias e as empresas para enfrentarem momentos difíceis”.

Claro que a base para a mudança da argumentação de José Sócrates foi o facto de haver eleições em 2009 – mas, ainda assim, mesmo assentando em pressupostos errados, não deixo de considerar positiva a alteração.

Acontece que ontem, na apresentação do Boletim de Verão do Banco de Portugal, Vítor Constâncio considerou que a actual situação económica implica continuar a consolidação orçamental e não descer impostos.

Concordo inteiramente com Vítor Constâncio quando refere que a consolidação orçamental deve continuar; já lamento não o ter ouvido referir que, ao contrário do que tem sucedido nos últimos anos, tal deve acontecer do lado das despesas públicas – e, sobretudo, nas despesas de funcionamento. Porque isso é que é saudável e sustentável.

Contudo, discordo em absoluto – como aliás já várias vezes afirmei publicamente – da postura do Governador do Banco de Portugal na questão fiscal. Desde logo porque a consolidação orçamental deve ser realizada do lado da despesa e não da receita; e depois porque, na área fiscal, está maioritariamente instalada no nosso país uma corrente que a política fiscal deve ser pró-cíclica – e não anti-cíclica como, acertadamente, devia acontecer, para amortecer os ciclos económicos. É a mentalidade “quando as ‘coisas’ não vão bem não se deve baixar os impostos, e só quando as ‘coisas’ melhorarem é que isso se poderá fazer” – exactamente o oposto da minha posição e… também do que a Teoria Económica estabelece. Ah, e já agora: do que Portugal carece desesperadamente, como do pão para a boca – e sem o que não iremos voltar a crescer como precisamos.

Mas, o que daqui também decorre e é verdadeiramente interessante é verificar qual será a posição prevalecente em matéria fiscal até ao final do próximo ano (que é ano eleitoral), sabendo-se como, até agora, o Governo se tem apoiado (e muito…) nas posições do Banco de Portugal.

Se for a posição de José Sócrates, pois teremos novas descidas de impostos – e, mesmo que assentes em pressupostos (eleitorais) errados, elas serão, em minha opinião bem-vindas e apenas pecam por (muito) tardias; se for a de Vítor Constâncio, descidas de impostos… nem vê-las!...

A não ser que José Sócrates mude outra vez de opinião… Aí deixaria de haver divergência – só que perdíamos todos, independentemente, claro, de haver ou não eleições!... Mas não, não me parece que vá mudar – afinal, há mesmo eleições em 2009!...

Aceitam-se apostas sobre o que vai acontecer nesta área…

PIB: antepenúltima revisão em baixa...

Foi ontem anunciada uma “substancial” revisão em baixa do crescimento do PIB para o corrente ano, agora da autoria do BdeP.

De degrau em degrau, o PIB lá vai descendo:

- 2,2%, na previsão inicial do Governo base para apresentação da proposta de OE/2008;

- 2,0% (e de 2,3% para 2009...) previsão do BdeP no Inverno, não alterada até agora;

- 1,5%, primeira revisão em baixa do Governo, anunciada há pouco mais de um mês

- 1,2%, nesta revisão do BdeP (que o então “pessimista” FMI tinha avançado já em Abril...)

A grande questão que neste momento se pode colocar – e só ouvi uma jornalista a levanta-la, Graça Franco, uma das mais lúcidas comentadoras destes assuntos que conheço, políticos nem um – é a de saber se esta será a última revisão em baixa do crescimento para 2008 – quanto ao de 2009 nem vale a pena tratar agora, é exercício de pura adivinhação tamanhas são as incertezas.

Para responder a esta questão, importa atentar no considerando que precede a apresentação do novo quadro de previsões do BdeP:
“ Esta projecção encontra-se rodeada por níveis de incerteza particularmente elevados e apresenta riscos descendentes significativos sobre a actividade económica ASSOCIADOS, no essencial, à duração e magnitude da turbulência nos mercados financeiros.....”.

Este considerando, redigido na linguagem arredondada e não comprometedora que vem caracterizando estas previsões, tem para mim a seguinte interpretação: preparem-se para novas revisões em baixa, lá para o Outono e o Inverno.
Seria politicamente pouco agradável o BdeP emitir agora uma previsão que fosse considerada arrasadora e que desmentisse, de forma “cruel”, a previsão há tão pouco tempo anunciada pelo Governo.
Nesta coisa de previsão económica em Portugal, também estamos a ser tratados como bebés: remédio às colherinhas, para não ficarmos com uma sensação de enjoo muito forte...
Lá para Dezembro, o PIB já nem chegará a 1% (se é que...) mas, nessa altura, com mais duas colherinhas “no papo” não sofreremos tanto o impacto da notícia...

Por estas e por outras é que vamos de mal a pior...

Humor ministerial II-A troca directa

Nos tempos que correm, temos que fazer das fraquezas forças e explorar o lado mais favorável de todas as coisas. Por exemplo, os Ministros são maus, mas dizem coisas divertidíssimas. Temos que as aproveitar!... A primeira Grande Entrevista do Ministro da Cultura, na circunstância, ao Expresso, não é uma pérola, mas uma verdadeira constelação de pérolas humorísticas. Cada qual mais brilhante que as outras.
Já me referi ao seu lúcido propósito de substituir a actual rede subsidiodependentes pela contratualização da subsidiodependência. De facto, um contrato bem elaborado resolve liminarmente a questão e dá estabilidade aos dependentes...
Ao mesmo tempo, o Ministro propõe-se o nobre projecto de requalificar o património. Como? Facílimo, “angariando junto das empresas de obras públicas 1% do valor de cada empreitada que lhes for adjudicada…”!...
Genial forma esta de criar e multiplicar dinheiro, através da intermediação empresarial!... Claro que as empresas nem pensarão nunca em onerar as empreitadas com mais 1%, e jamais lhes passará pela cabeça apresentar umas simbolicazitas revisões de preços, a bem da requalificação…O Orçamento paga e o valor desembocará, pujante e viçoso, directamente na acção cultural. Claro que só quando as empresas se lembrarem, o que não se afigura matéria fácil…De qualquer forma, procedimento limpo, expedito e verdadeiramente multiplicador!...
Mais genial ainda é a forma como a massa vai desaguar no mar da requalificação: “ o valor é doado sob a forma de trabalho de requalificação no terreno”!... Regresso inovador aos tempos da pré-moeda, sob a forma de troca directa!...
Palpita-me que esse vai ser o trabalho mais caro do mundo. Um dia, mesmo sem horas extraordinárias, e lá se vai o 1%!...
Mas talvez não seja assim. Talvez o Ministro se precate. Criando uma Empresa Pública para andar de olho vivo sobre os 1% e fiscalizar as requalificações. Claro que nada vai sobrar para estas, mas o Ministro deixa obra fina e faz um vistaço!...
Assim se governa, em bom português!...

Papoilas saltitantes VII

Rui Costa deslocou-se mais uma vez a Saragoça e não quer voltar sem o Aimar, diz A Bola.
Assim sendo, palpita-me que o Rui se prepara para a solução extrema: assinar também pelo Saragoça!...
Depois, virão ambos a Lisboa comunicar o facto...

As papoilas saltitantes VI

O Pablo Aimar está mesmo...mesmo...mesmo aí a chegar!...
A demora deve-se a não terem conseguido "contratualizar" o mesmo cavalo que trouxe Isabel de Aragão a Portugal, em 1289.

Baby Down

Uma empresa espanhola lançou no mercado umas bonecas iguais às crianças com síndrome de Down, as Baby Down, e parece que também já há bonecos carecas para imitar as crianças que fazem quimioterapia e mesmo um ursinho ao qual se podem tirar os órgãos para melhor compreensão das crianças que vão ser operadas.
A notícia, que veio no Público (P2) de há poucos dias, diz que esta novidade provocou imensas reacções a favor e contra. A favor, os que acham que esta é uma excelente forma de habituar as crianças a conviver com a diferença e que as bonecas não devem ser todas altas, loiras e magras como essa tola da Barbie. Contra, os que dizem que as crianças devem construir os seus sonhos e criar ideais, não faz sentido nenhum meter-lhes à frente uma boneca que é tudo o que ela não deve querer ser, tal como as pessoas com esta doença gostariam muito de a não ter. “Promover a beleza da diferença”, como dizem os autores, só vai contribuir para marcar ainda mais essa diferença, diz a associação de mães com filhos deficientes.
Confesso que fiquei chocada quando li a notícia, a ideia desagradou-me por instinto, parece-me que esta onda do “socialmente correcto” tem mais probabilidade de prejudicar do que ajudar. Primeiro, porque as crianças têm reacções instintivas e não é através de uma boneca, que vai fazer parte do seu mundo pessoal, que elas vão desenvolver sentimentos solidários ou tolerantes. É com o convívio com outras crianças que se relacionam e aprendem o que são as diferenças, sejam elas de que tipo for, sobretudo as que não podem ser superadas porque nascem com as pessoas, é preciso aprender a viver com elas.
Depois, porque uma criança mongolóide não tem bem a noção da sua diferença até uma certa idade e, se tiver, é porque tem a doença num grau que já lhe permite querer mas é ser como os outros, sofre com essa diferença, duvido muito que lhe agrade ter uma boneca que é exactamente o que ela não quer ser.
O que me parece é que estamos a atribuir às crianças uma boa parte dos nossos próprios preconceitos de adultos, como se a cabela delas funcionasse como a nossa. Não querer ver as diferenças, tratar tudo como “igual”, é a melhor forma de ignorar o que tem que ser cautelosamente acompanhado, esta comercialização de um conceito de igualdade corre o risco de tornar as crianças indiferentes ao que é realmente diferente.

terça-feira, 15 de julho de 2008

“Vigaristas, Ladrões e Assassinos”

Imaginem a seguinte cena: “Celimene é apenas Celimene. É uma actriz qualquer com a mania da celebridade e anseia atrair sobre si a atenção do público.” Imagina várias hipóteses, mas nenhuma lhe agrada à excepção de ser vítima de um roubo, ficando sem o seu colar de pérolas que aumenta à medida que vai despachando os seus amantes. Mas está com azar dos diabos, porque a virtude atingiu de tal forma o seu país deixando-o sem crimes! Uma verdadeira tragédia decretada pelo Sindicato de Vigaristas, Ladrões e Assassinos. Um simples roubo levaria à atenção de todas pessoas, já que há muito tempo não ocorre nenhum, colocando os magistrados em situação de pânico por não terem que julgar, o pessoal administrativo judicial a fazer palavras cruzadas, os polícias a palitar os dentes e a acariciar a pança, os guardas prisionais a dormitarem com as portas das prisões abertas. Enfim, uma verdadeira “catástrofe” social em que o pecado, a luxúria e o crime desapareceram com repercussões a todos os níveis, desde as floristas até ao padre que não sabe o que dizer, porque todo o pessoal é honesto e virtuoso, passando por certas profissões menos ortodoxas que perderam os seus clientes. Voltando a Celimene, esta procura uma agência de investigações e solicita um ladrão! O director fica surpreendido, mas a actriz diz que queria um ladrão a fingir. E explicou-lhe o porquê. De imediato, chama um funcionário, o Sr. Nebiche, e pede-lhe que simule o roubo do colar de pérolas da senhora. “Mas o vermelho da cólera e da indignação sobe às faces do honesto Sr. Nebiche.
- O quê, senhor director! Ousar propor-me tal coisa... Fazer o gesto de roubar! Credo! Roubar é feio, é hediondo. Ninguém rouba no nosso país. Os talhantes fazem questão de vender o peso exacto, sem ossos, sem gordura e a preço justo! Os intermediários cobram exactamente o que necessitam para viver, os financeiros já não especulam com a ignorância, a gente da Bolsa com a estupidez, e os políticos com as reles paixões dos eleitores. E queria que...tenho lágrimas nos olhos, senhor director!
Face a esta situação o director conta em seguida uma história interessante, concluindo que as coisas são como são. “Toda a gente é virtuosa. Os homens são íntegros e as mulheres pudicas, o vício refugiou-se noutro planeta, a Lua ou Saturno, os criminosos encolheram as garras. Já não há gangs, nem lupanares. Não devemos regozijar-nos?
- Que porcaria de época! Afirmou Celimene”.
Pois bem, este pequeno trecho foi retirado de uma obra muito interessante, intitulada “Vigaristas, Ladrões e Assassinos”, publicada em 1925, de Raymond Hesse, juiz de profissão e escritor nas horas vagas. Acabamos por verificar, de uma forma muito divertida, quais as consequências de uma sociedade sem crimes, sem vícios, só com homens e mulheres honrados e virtuosos. Uma catástrofe em termos económicos e sociais (!) ao ponto do ministro do interior chamar o Cavaleiro Doéter, presidente do Sindicato dos Vigaristas, Ladrões e Assassinos, e pedir-lhe por tudo que interrompesse a greve a qual foi aceite depois de terem chegado a acordo sobre os tratamentos e procedimentos a ter com os criminosos.
O Cavaleiro Doéter, na reunião do sindicato em que foi decretada a greve, tinha afirmado que uma sociedade pode viver sem virtudes, mas “só pode estiolar e desaparecer caso a perfeição lhe seja de súbito outorgada. Essa perfeição que todos os moralistas desejam, atingi-la-emos duma penada”.
Face ao conteúdo desta interessante obra, ficamos a saber que a sociedade portuguesa, apesar de tudo o que anda por aí, não vai desaparecer nem ser estiolada. Quanto ao perigo de uma “catástrofe nacional” o “Sindicato” tratará de impedir que tal aconteça...

Vigaristas, Ladrões e Assassinos – Raymond Hesse - &etc 2007 (ISBN 978-972-8539-94-8)

Humor ministerial: contratualizar a subsidiodependência!...

Com o PIB a descer e a inflação a subir, o tempo não está para graças. O que vale é que os nossos Ministros, mascarados com pose institucional, mas pingona, nos vão fazendo rir...Um dos ministros que mais me diverte, possivelmente porque temos o mesmo apelido, é o Ministro Pinho. O Ministro Pinho é um manancial de piada!...Agora, descobri um outro espécimen que promete não lhe ficar atrás, sobretudo porque o humor é mais refinado: o Ministro da Cultura, Pinto Ribeiro. Em entrevista ao Expresso, declara de imediato que “faz política, para outros fazerem cultura”. Confecções fazem-se nas fábricas, remédios nos laboratórios, agricultura, na terra. Eu próprio faço cultura de morangos, feijão, alface, tomates, couves, salsa e coentros, para a minha subsistência. E também faço cultura de uns litros de vinho, que a água vai estando mais cara do que o petróleo. Fiquei a saber que o Ministro faz política para eu fazer cultura. Estou-lhe muito agradecido. Só não lhe ofereço um pêro, porque um Ministro ganha bem, muito bem, para aquilo que faz, que é dar entrevistas nos jornais e nas televisões...
Ora, para além da terra, onde mais é que se faz cultura? Pensando bem, os lugares por excelência da fabricação de cultura são as oficinas de cultura. As oficinas de cultura são a mais autêntica realização cultural do regime: são oficinas, porque fazer cultura é qualquer coisa como fazer armários em série e por atacado. O seu fim último e único é justificar um afadigado Pelouro Cultural na Câmara. E havendo Pelouro Cultural, é porque se faz cultura. Claro que há outras formas de fazer cultura, por exemplo a cultura do subsídio. A cultura do subsídio não é fácil, mas é rendosa. Veja-se só trabalhão que não dá fazer um filme para poder corresponder aos refinados gostos de, vá lá, vinte cinéfilos, onde se incluem os artistas e o pai e a mãe do realizador. A mulher, não, que jurou não aguentar mais…Dá trabalho, mas propicia dez anos de regalada vida a preparar a próxima fita, almoçando e jantando na barra do Gambrinus.
Todavia, neste capítulo, o Ministro é radical, mesmo revolucionário. Não aprova a rede existente de subsidiodependentes. Como tal, o Ministro Pinto Ribeiro, num golpe de mestre, propõe-se “contratualizar essa rede”. Genial!
Subsidiodependentes a contrato!... Com recibo verde ou a prazo, pergunto eu? Não, o melhor é integrá-los desde já!...
Não é cheio de humor este Ministro? (A continuar)...

“Querem fazer-nos de parvos? Era o que mais faltava!”

A situação económica do pais não é muito boa, como é do conhecimento geral, agravada pelo que vai por esse mundo fora, aumentos constantes do preço do petróleo e crise do mercado americano. Não sou grande, nem pequeno, perito nestas matérias, mas vou acompanhando o que se passa. Já começo a perceber a linguagem, mas não consigo perceber como é que o PM e outras altas individualidades têm o atrevimento de dizer que há um ano não era previsível que estivéssemos nesta situação! Digo isto, porque as explicações e previsões já tinham sido anunciadas há muito tempo. Recordo-me de há poucos anos terem sido feitas previsões de que a médio prazo o barril do petróleo chegaria aos valores actuais e, até, mesmo superiores. Quanto à crise americana muitos peritos já tinham advertido para os efeitos deste fenómeno na Europa. Alguém acredita que pessoas altamente colocadas, com contactos e informações privilegiadas, não tinham conhecimento destas situações, tirando, claro está, aquele ministro com ar meio-enjoado que disse que a crise já tinha passado?
Querem fazer-nos de parvos? Era o que mais faltava!

Perspectivas Sombrias & Falta de Competitividade

As perspectivas para a economia portuguesa em 2008 e 2009, hoje divulgadas pelo Banco de Portugal vieram, infelizmente, confirmar o que já se suspeitava: o crescimento será raquítico (1.2% este ano, 1.3% em 2009) e abaixo quer da média da Zona Euro, quer da União Europeia.
Vítor Constâncio referiu que se deve essencialmente à conjuntura externa o abrandamento que se verificará: taxas de juro mais elevadas, forte aumento do preço do barril de petróleo, desaceleração das exportações…

Ora, o problema é que todos os países têm enfrentado (e continuarão a enfrentar) esta conjuntura – mas, no entanto, o abrandamento da nossa economia será maior do que para a generalidade da Europa. E esta é que é a grande questão… é que continuam sem estar reunidas as condições que nos façam crescer acima da Europa de forma sustentada. Ao sabor dos ciclos económicos, sim, mas acima. E não ao sabor dos ciclos económicos, mas abaixo, como desde o início desta década vem consecutivamente acontecendo.

Mas sobre isto, infelizmente, não ouvi uma palavra ao Governador do Banco de Portugal…

Mais uma vez o refiro: as nossas dificuldades são estruturais, continuam por resolver e residem na falta de competitividade e atractividade da nossa economia. O que é espelhado pela evolução assustadora do défice externo projectada para 2008 e 2009: 10.6% e 11.1% do PIB, ao nível do que de pior alguma vez tivemos!... Ou seja: mais de 10% do que gastamos anualmente em Portugal terá que vir do estrangeiro – agravando a média de quase 9% registada entre 2000 e 2007!... Ora este é que é o verdadeiro défice que enfrentamos (muito mais do que o “famoso” défice das contas públicas) e que reflecte a nossa falta de competitividade. Enquanto esta situação não for alterada, a desgraça económica em que temos vindo a viver irá perpetuar-se – e Portugal continuará todos os anos a perder terreno para a Europa e o (elevado) desemprego não descerá.

Quando tomará a (falta de) competitividade da economia portuguesa o lugar cimeiro nas nossas prioridades – que há já tantos anos lhe devia ter sido atribuído?!...


Nota: Duas perguntas de algibeira: onde andam (i) o crescimento de 3% em 2009 e (ii) a criação de 150 mil postos de trabalho líquidos, ambos prometidos por José Sócrates em Fevereiro de 2005 (e que já então se sabia serem impossível de cumprir)?...

Papoilas saltitantes V

Forças misteriosas estão a impedir a chegada de Pablo Aimar!...
Coragem, benfiquistas, não esmoreçam: vêm aí umas manhãs de nevoeiro!...

Papoilas saltitantes IV

Então o Pablo Aimar ainda não chegou?
Saragoça fica bem longe...