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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Baby Down

Uma empresa espanhola lançou no mercado umas bonecas iguais às crianças com síndrome de Down, as Baby Down, e parece que também já há bonecos carecas para imitar as crianças que fazem quimioterapia e mesmo um ursinho ao qual se podem tirar os órgãos para melhor compreensão das crianças que vão ser operadas.
A notícia, que veio no Público (P2) de há poucos dias, diz que esta novidade provocou imensas reacções a favor e contra. A favor, os que acham que esta é uma excelente forma de habituar as crianças a conviver com a diferença e que as bonecas não devem ser todas altas, loiras e magras como essa tola da Barbie. Contra, os que dizem que as crianças devem construir os seus sonhos e criar ideais, não faz sentido nenhum meter-lhes à frente uma boneca que é tudo o que ela não deve querer ser, tal como as pessoas com esta doença gostariam muito de a não ter. “Promover a beleza da diferença”, como dizem os autores, só vai contribuir para marcar ainda mais essa diferença, diz a associação de mães com filhos deficientes.
Confesso que fiquei chocada quando li a notícia, a ideia desagradou-me por instinto, parece-me que esta onda do “socialmente correcto” tem mais probabilidade de prejudicar do que ajudar. Primeiro, porque as crianças têm reacções instintivas e não é através de uma boneca, que vai fazer parte do seu mundo pessoal, que elas vão desenvolver sentimentos solidários ou tolerantes. É com o convívio com outras crianças que se relacionam e aprendem o que são as diferenças, sejam elas de que tipo for, sobretudo as que não podem ser superadas porque nascem com as pessoas, é preciso aprender a viver com elas.
Depois, porque uma criança mongolóide não tem bem a noção da sua diferença até uma certa idade e, se tiver, é porque tem a doença num grau que já lhe permite querer mas é ser como os outros, sofre com essa diferença, duvido muito que lhe agrade ter uma boneca que é exactamente o que ela não quer ser.
O que me parece é que estamos a atribuir às crianças uma boa parte dos nossos próprios preconceitos de adultos, como se a cabela delas funcionasse como a nossa. Não querer ver as diferenças, tratar tudo como “igual”, é a melhor forma de ignorar o que tem que ser cautelosamente acompanhado, esta comercialização de um conceito de igualdade corre o risco de tornar as crianças indiferentes ao que é realmente diferente.

5 comentários:

jotaC disse...

Cara Dra. Suzana Toscano:
Ganhar dinheiro à custa das particularidades destas crianças e jovens revela, a meu ver, desrespeito pelas próprias crianças, e falta de bom senso de quem promove um negócio destes...
O seu último parágrafo expressa muito bem, a ponderação que se impõe sempre que, mesmo com boas intenções, haja intenção de fazer coisas para pessoas diferentes...

Paulo disse...

Cara Suzana Toscano,

Interessante esta sua posta. A tal boneca já foi lançada em dezembro de 2007. A associação do sindrome de down en españa tem uma revista dedicada ao tema:

http://www.sindromedown.net/NR/rdonlyres/7140432E-6446-49BD-9B05-10586E572A81/15713/downbaja.pdf

A superjugete (que já comercializa a nenuco e a barbie) vende o boneco por 25 euros, 3 euros vão para a fundação down en españa. O boneco tem um aspeco normalíssimo e não se parece com os tais "mongolóides" com que fui contactando ao longo da vida.

Mais um clássico do dilema: É lícito ganhar dinheiro com a "miséria" alheia se parte do dinheiro reverter para os "miseráveis"?

Cumprimentos,
Paulo

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
Não sei sinceramente se este género de bonecas (ou bonecos, pois segundo li a Baby Down tem versão feminina e versão masculina) pode ajudar as dificuldades de integração social das pessoas afectadas pela síndrome de Down. Li também a propósito do lançamento da Baby Down que a comercialização das bonecas de diferentes raças favorece a sua integração social.
Não sei o que pensar de mais este comércio à custa de diferenças estigmatizantes do "nicho de mercado" da síndrome de Down. Sei que não gosto. Não haveria melhor forma de obter financiamento para apoiar a fundação Down?

Suzana Toscano disse...

Caro paulo, acho que Jotac já respondeu ao seu dilema, há um desrespeito pelas pessoas nesta forma de comercializar com o que se quer "defender", no fundo são utilizadas e neste caso nem se sabe com que consequências.Trabalhei em tempos a tomar conta d euma jovem mongolõide, ela detestava que a olhassem como uma coisa estranha, queria ser como os outros e não "uma doente" como ela dizia. Tenho uma sobrinha com a mesma doença, anda na escola pública, vive muito feliz com os colegas e professores, nunca me passaria pela cabeça meter-lhe à frente uma boneca que lhe fizesse lembrar o que todos se esforçam por fazê-la ultrapassar.
Sim, Margarida, também acho que deve haver muitas outras formas, isto é uma ostentação de "espírito compreensivo", até uma forma de arrogância.

Caroline Reis (Brasil) disse...

Tenho uma filha com síndrome de down chamada Sofia e não sei como irá se comportar quando crescer.Acredito que ela se sentirá nornal, porque a tratamos assim. Muitas pessoas não se aceitam porque a sociedade os excluem , independente de serem sindrômicos ou não.
Nunca tive preconceitos, principalmente em relação a aparencias, independentemente disso achei a boneca bonita. Minha filha tem pouquíssimos traços típicos, pessoas que estão acostumadas a ver crianças com caracteríscas marcantes, não percebem estas em minha filha. Somente médicos as reconhecem nela.
A baby down possui sim características de down, mas convivemos com crianças sem deficiências que por problemas respiratótios por exemplo ficam com a língua para fora da boca, muitas que nascem com dedos separados, tortos ou até mesmo sem eles, entre outras características.
Enfim, poderia escrever muito sobre isso, mas não é o caso.
O que percebo é que esse cuidado exagerado em tentar acabar com o preconceito sem ressaltar as diferenças, acaba provocando o contrário. Além de mãe, sou professora e temos sim que entender as diferenças porque elas existem em crianças - sindrômicas, doentes ou "normais" - que possuem certas limitações e estas devem ser respeitadas. Somente entendendo-as e respeitando as diferenças é que viveremos em um mundo melhor. Ignorá-las (fingir que não existem)não resolve nada.
Uma criança com down bem estimulada fica com um QI limítrofe, ou seja, muitas pessoas "normais" são limítrofes.
O que me incomoda é o uso do termo mongolismo. Isso ERA usado pois estas crianças tem características das nascidas na Mongólia. É um termo pejorativo. Crianças NÃO estimuladas corretamente, ou algumas que nascem com traços mais marcantes, é que ficam dependentes e com retardo mental.
Em relação a venda, temos que ser realistas, vivemos em um mundo capitalista. Apesar de ganharem dinheiro, Instituições e crianças estão sendo ajudas e é isso que importa. A ajuda é precisa porque os gastos com estimulação é grande e muitas famílias não podem arcar com isso.
Uma criança com Down não é miserável, é uma criança NORMAL.
Minha filha vai andar, rir, falar, interagir, brincar, estudar, amar e ser amada. Tudo isso depende de estímulos e se não existem recursos financeiros para tal, ou se os pais possuem preconceito, vergonha ou não foram bem orientados,elas não se desenvolvem.
Aí sim estas crianças tormam-se incapacitadas, ficam agrssivas e tudo mais que se costumava ver a tempos atrás.
Todos na minha família a amamos muito e nínguém ficou triste com seu nascimento.
Para falar a verdade, poucas crianças como a minha filha possuem poucas características físicas e cognitivas desta síndrome, da mesma forma que os baby down. Fico feliz por isso porque não quero que ela sofra com o preconceito, mas se sua aparência fosse diferente, a assumiria da mesma forma!
Eu compraria a boneca.