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terça-feira, 15 de julho de 2008

“Vigaristas, Ladrões e Assassinos”

Imaginem a seguinte cena: “Celimene é apenas Celimene. É uma actriz qualquer com a mania da celebridade e anseia atrair sobre si a atenção do público.” Imagina várias hipóteses, mas nenhuma lhe agrada à excepção de ser vítima de um roubo, ficando sem o seu colar de pérolas que aumenta à medida que vai despachando os seus amantes. Mas está com azar dos diabos, porque a virtude atingiu de tal forma o seu país deixando-o sem crimes! Uma verdadeira tragédia decretada pelo Sindicato de Vigaristas, Ladrões e Assassinos. Um simples roubo levaria à atenção de todas pessoas, já que há muito tempo não ocorre nenhum, colocando os magistrados em situação de pânico por não terem que julgar, o pessoal administrativo judicial a fazer palavras cruzadas, os polícias a palitar os dentes e a acariciar a pança, os guardas prisionais a dormitarem com as portas das prisões abertas. Enfim, uma verdadeira “catástrofe” social em que o pecado, a luxúria e o crime desapareceram com repercussões a todos os níveis, desde as floristas até ao padre que não sabe o que dizer, porque todo o pessoal é honesto e virtuoso, passando por certas profissões menos ortodoxas que perderam os seus clientes. Voltando a Celimene, esta procura uma agência de investigações e solicita um ladrão! O director fica surpreendido, mas a actriz diz que queria um ladrão a fingir. E explicou-lhe o porquê. De imediato, chama um funcionário, o Sr. Nebiche, e pede-lhe que simule o roubo do colar de pérolas da senhora. “Mas o vermelho da cólera e da indignação sobe às faces do honesto Sr. Nebiche.
- O quê, senhor director! Ousar propor-me tal coisa... Fazer o gesto de roubar! Credo! Roubar é feio, é hediondo. Ninguém rouba no nosso país. Os talhantes fazem questão de vender o peso exacto, sem ossos, sem gordura e a preço justo! Os intermediários cobram exactamente o que necessitam para viver, os financeiros já não especulam com a ignorância, a gente da Bolsa com a estupidez, e os políticos com as reles paixões dos eleitores. E queria que...tenho lágrimas nos olhos, senhor director!
Face a esta situação o director conta em seguida uma história interessante, concluindo que as coisas são como são. “Toda a gente é virtuosa. Os homens são íntegros e as mulheres pudicas, o vício refugiou-se noutro planeta, a Lua ou Saturno, os criminosos encolheram as garras. Já não há gangs, nem lupanares. Não devemos regozijar-nos?
- Que porcaria de época! Afirmou Celimene”.
Pois bem, este pequeno trecho foi retirado de uma obra muito interessante, intitulada “Vigaristas, Ladrões e Assassinos”, publicada em 1925, de Raymond Hesse, juiz de profissão e escritor nas horas vagas. Acabamos por verificar, de uma forma muito divertida, quais as consequências de uma sociedade sem crimes, sem vícios, só com homens e mulheres honrados e virtuosos. Uma catástrofe em termos económicos e sociais (!) ao ponto do ministro do interior chamar o Cavaleiro Doéter, presidente do Sindicato dos Vigaristas, Ladrões e Assassinos, e pedir-lhe por tudo que interrompesse a greve a qual foi aceite depois de terem chegado a acordo sobre os tratamentos e procedimentos a ter com os criminosos.
O Cavaleiro Doéter, na reunião do sindicato em que foi decretada a greve, tinha afirmado que uma sociedade pode viver sem virtudes, mas “só pode estiolar e desaparecer caso a perfeição lhe seja de súbito outorgada. Essa perfeição que todos os moralistas desejam, atingi-la-emos duma penada”.
Face ao conteúdo desta interessante obra, ficamos a saber que a sociedade portuguesa, apesar de tudo o que anda por aí, não vai desaparecer nem ser estiolada. Quanto ao perigo de uma “catástrofe nacional” o “Sindicato” tratará de impedir que tal aconteça...

Vigaristas, Ladrões e Assassinos – Raymond Hesse - &etc 2007 (ISBN 978-972-8539-94-8)

2 comentários:

Suzana Toscano disse...

Este texto fez-me lembrar "As intermitências da Morte", de José Saramago, em que a morte fica farta de ser sempre escorraçada, mal recebida e acusada de todas as infelicidades e entra em greve. Primeiro, resolve fazer a vontade aos que a criticam por chegar sem aviso - quando ela se defende dizendo que se farta de mandar sinais, mas que as pessoas nunca a levam a sério - e começa a mandar cartas aos escolhidos,criando imesos problemas. Depois fica mesmo sem actuar, as pessoas não morrem e o caos instala-se.
O mal e o bem, os bandidos e os santos, os falhados e os que têm sucesso, a vida e a morte, tudo isso faz parte da sociedade.Não é por sabermos que sempre existirão que vamos deixar de lutar por uma vida melhor, mas talvez nos ajude a relativizar os dramas.
Muito oportuno este texto, caro Prof. Massano. Sentimos a sua falta em Colares!

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Professor Massano Cardoso
Muito interessante a ficção de um mundo constituído exclusivamente de virtudes! E o que seria um mundo em que a vida venceria a morte para todo o sempre?
Dois quadros "idílicos" da natureza humana, pelos quais lutamos todos os dias, na busca de uma evolução cada vez mais perfeita, em que o bem prevaleça sobre o mal, a bondade supere a maldade, a graça desvie a desgraça e a vida aos poucos sobreviva por mais uns "segundos" à morte.
E é assim que a ficção nos impele a fazermos as nossas escolhas na busca do que é melhor!