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terça-feira, 18 de outubro de 2011

O nosso problema não é só a falta de economia...

... é também a abundância de estupidez.
O caso é de hoje. Um sacerdote que dirige uma instituição de solidariedade social foi constituído arguido pelo Ministério Público após denúncia da ASAE. Responde - para já no inquérito - pelo crime de descaminho. Conta-me o ilustre colega que o assiste juridicamente que os fatos resumem-se a isto: há uns tempos os senhores inspetores da ASAE, seguramente no cumprimento da lei, entenderam que a instituição em causa não poderia consumir uns poucos frangos, destinados, como todos os demais géneros que recolhia, a alimentar quem não tem meios para o fazer. Os prestimosos inspetores proibiram o consumo e obrigaram ao congelamento e guarda dos frangos, creio eu como prova da infração. Decorreram entretanto quatro anos sem que a ASAE ou qualquer autoridade reclamassem o "corpo de delito". O agora arguido terá entretanto mandado limpar o local onde se encontravam depositados os frangos, desembaraçando-se dos ditos. Crime, veio a concluir a ASAE, no que para já foi acompanhada pelo MP que nao arquivou liminarmente a participação. Um medonho descaminho de frangos, previsto e punido com uma pena que pode chegar a 5 anos de prisão.

Há muito que reclamo do legislador que seja contido, em especial ao legislador penal que muda constantemente a lei sem que mudem, ao mesmo ritmo, os valores dignos de tutela. Mas em face de casos como este rogo-lhe que preveja, como carácter de urgência, um crime mais. O crime de estupidez danosa. E que puna esse crime severamente. Seria um importante avanço civilizacional.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

"Haja respeito"

É altura de disciplinar o comportamento dos nutricionistas que estão em tudo, fomentando o consumo dos mais variados produtos, sejam eles alimentares, supletivos, terapêuticos ou o que valha. Não consigo perceber como se prestam a certos anúncios ou participação em programas televisivos, arrogando-se no direito de aconselhar os pobres dos espeCtadores a comerem aquilo que eles consideram ser os produtos mais "saudáveis". Comportam-se como uma nova religião a lembrar os teleenvagelistas ou os fraldiqueiros que nas feiras pretendem enganar os papalvos a comprarem alguns dos seus produtos.
Estou farto. Repito, não compreendo como pessoas licenciadas, mestres por ventura, se prestam a estas atividades. Sacerdotes, sacerdotisas, bispas, bispos, só falta um papa, a quererem impor os seus conselhos. São inúmeros os exemplos, o último tem a ver com o minuto "Hipersaudável" com a prestação lastimosa da "princesa do nada", que, neste caso, deve receber qualquer coisa, "nada" é que não.
Hiper saudável? Onde foram buscar tamanho conceito? Ah, pois! Ao Continente, pelos vistos.
Senhores nutricionistas, defendam a vossa profissão, mas evitem cair neste comportamento pseudo religioso que não abona nada em vosso favor, antes pelo contrário. Eu sei que a vida está difícil para todos, mas embarcar nestas iniciativas, e noutras que andam por aí, não é a melhor maneira de serem úteis à sociedade.
Não sei se os senhores já têm ou não uma ordem que consiga disciplinar, através do respetivo código deontológico, as regras para a vossa atuação e intervenção públicas e publicitárias, mas seria bom que tivessem. Cada vez que vejo anúncios desta natureza a minha opinião negativa sobre o vosso papel acentua-se. Eu sei que há nutricionistas que sabem respeitar as regras do jogo, mas acabam por ser atingidos pelas asneiras e condutas menos corretas de alguns dos seus colegas. Acabem com isto, o mais depressa possível.
Haja respeito!

A implosão do mito do Estado Porvidência...

1.As manifestações de indignação a que estamos a assistir, os discursos inflamados e ultra-demagógicos dos partidos que usam o rótulo de “esquerda” e as muitas expressões de “dolor” (alguma bem cínicas, diga-se de passagem) de uma boa parte dos comentadores políticos e económicos, têm uma base comum: a implosão do mito do Estado Providência.
2.Este mito foi cuidadosa e laboriosamente construído durante o Estado-Novo: dois dos grandes objectivos prosseguidos pelo Doutor Salazar consistiram na restauração da autoridade do Estado bem como da sua credibilidade financeira.
3.Autoridade do Estado e credibilidade financeira foram pois dois pilares fundamentais da política prosseguida desde o final da 1ª República até ao alvorecer do dia 25/IV/74: e cumpre reconhecer que, tanto no 1º caso através de métodos mais do que discutíveis, como no 2º caso através de uma rigorosa ortodoxia financeira, os objectivos em causa foram atingidos em elevado grau.
4.À sombra destes dois pilares foram também edificadas as bases de um Estado Providência, se bem que dentro de limites muito estreitos inicialmente. Apesar dessa estreiteza, o importante é que se criou uma convicção popular, fortíssima, de que qualquer compromisso do Estado era um compromisso sagrado, jamais deixaria de ser cumprido.
5.Com o marcelismo, fase final do Estado Novo, o Estado Providência sofreu um razoável alargamento, que até pode ser tido por ousado quando comparado ao conservadorismo do período anterior (datam desse período os primeiros sistemas de pensões sociais, em regime não-contributivo, por exemplo) – mas nada que pusesse em causa o carácter sagrado dos compromissos do Estado Providência.
6.Com o regime saído do 25/IV/74, o Estado Providência foi sujeito a um processo de “jumboização” - inicialmente através de métodos delirantes e altamente demagógicos, depois ainda com demagogia mas com a confiança dos recursos provenientes da Europa – acabando por converter-se num gigante que os nossos pobres (pobres de nós, é certo) governantes do final do século XX se convenceram que não só era possível ainda alargar como garantir para todo o sempre com a adesão ao Euro...
7.Por isso eles celebraram a entrada no Euro com uma euforia desmedida, que um observador, medianamente atento, não poderia deixar de considerar perfeitamente tonta – como aqui várias vezes assinalamos, de resto.
8.O mito do Estado Providência, que ainda conseguiu ser heroicamente alargado para abarcar essa estranha componente de especialíssimos favores a “friends” e a “friends of friends”, nomeadamente durante o lamentável consulado socrático, foi esticado até aos limites do desvario mais absoluto, aproximando-se cada vez mais do fim...
9....onde agora acabou por se precipitar, pondo termo a uma experiência de cerca de 80 anos, encharcado em dívidas que não consegue satisfazer, em compromissos que já não é capaz de cumprir, vergado ao peso de uma sobrecarga de benesses para as quais deixou de haver dinheiro...embora haja ainda muitas, esparsas e escondidas por esses sectores empresariais central, regional e local, tentando escapar a todo o custo mas que em breve serão por certo descobertas e erradicadas...
10.O Estado Providência implodiu, muitos portugueses estão boquiabertos, muitos genuinamente indignados, outros profissional e demagogicamente indignados - mas esta terá sido a forma mais suave de implosão...levem os protestos e a indignação suficientemente longe e ainda poderão conhecer uma segunda e bem mais violenta implosão do Estado Providência...

Uma boa semana

Chacun à sa place...

Vi, com espanto e preocupação, um jovem político apelar ao poder judicial para julgar a actuação do poder político. Vi, com espanto e preocupação, que tal ideia tenha merecido um (por enquanto) mediano aplauso e que pareça a muito boa gente que essa é a melhor forma de “castigar” quem deixou tantos e tão graves problemas para resolver. A judicialização da política é uma tentação fácil, que parece acalmar as desconfianças sempre acicatadas contra a “classe política” - que a própria classe é pródiga em alimentar - mas é uma táctica perigosa que mina a democracia e desfoca por completo o que é a missão de cada um. Uma coisa são escolhas politicas erradas, opções discutíveis, certezas que se revelaram enganos, ilusões frustradas, rumos perversos. Uma coisa são até as boas ou as más intenções, se quisermos também julgar as motivações, sempre subjectivas e escorregadias na sua avaliação. Outra coisa, muito diferente, são os crimes, os prejuízos causados com dolo ou negligência grave, a corrupção ou outras formas danosas de utilizar o poder de que se dispôs, violando a lei. Confundir os dois planos é muito perigoso, se os políticos se viram para os juízes quando não sabem o que fazer em política, os juízes deixarão de ser juízes para passar a ser políticos. E esta é uma confusão que não pode trazer nada de bom nem para os políticos, nem para os juízes, nem para os cidadãos, nem para a democracia e o bom governo dos povos.
Cabe aos jovens trazer novos olhares à política, novas formas de agir, de pensar, abrir uma nova esperança para os caminhos da democracia e do progresso em liberdade, não é certamente pedindo ajuda à justiça para julgar o que não lhe compete ao mesmo tempo que se lhe pede que julgue, depressa e bem, o que lhe cabe, que se preparam novos tempos e novos caminhos. Todos, políticos e juízes, sairão muito mal dessa armadilha. Não é só nas urnas que se faz o julgamento político, isso é fundamental mas não se esgota aí, a democracia cumpre-se pela oportunidade de actuação diferente, pela afirmação clara de novos valores, de novas atitudes e de, por essa via, demonstrar que é possível fazer muito melhor.
Havendo, como certamente, infelizmente, haverá, muito boas razões para reflectirmos sobre o percurso que nos trouxe até este amargo desabrigo em que nos encontramos, deixemos a política aos políticos, e os juízes aos tribunais. “Chacun à sa place et les vaches seront bien gardées”.

domingo, 16 de outubro de 2011

De quando em vez, uma voz verdadeira

Quatro meses de Governo é que desequilibraram o país? Ou foram seis anos de mentira?
Sem partidarismos, fosse este partido ou o outro ou outra coligação que lá estivesses. Não nos enganem mais..
Em relação a situação a que chegamos até agora, eu continuo a espera que os responsáveis como aconteceu em outros país sejam chamados a dizer-nos porque é que fizeram negócios do estado absolutamente ruinosos?
E o Sr. Procurador da Republica foi avisado por Juízes ou ex-Juízes do tribunal de contas que tem os relatórios todos de que é que esta a espera para se por a investigar a sério o que é que foi feito?
Que se chamem pessoas que continuam, alguns no Parlamento, a justificar o injustificável e que respondam não só em termos políticos mas em termos judiciais, respondam ao país, que foi muito grave o que fizeram. E aqui há governantes, ministros, secretários de estado e outros que já haviam de estar a responder por isto...
José Gomes Ferreira, na SIC

sábado, 15 de outubro de 2011

"Golpe de vista"

O que é que podem ter em comum uma carta de amor, uma prova de maratona e um plágio de um aluno do ensino superior? Respondo de imediato, "golpe de vista".
Ler cartas de amor não faz parte dos meus hábitos, mas não tenho culpa que algumas pessoas mais "descuidadas" permitam que os testemunhos da sua paixão acabem por cair entre papeladas e documentos diversos. Foi o que me aconteceu há tempos. Entrei numas "velharias" e deparei-me com um conjunto de postais e fotografias interessantes. Adquiri-os e, em casa, no meio daquele conjunto, saiu-me uma deliciosa prenda, uma carta de amor. Letra cuidada, escrita em 12 de dezembro de 1967, dirigida à amada, "gatinha carocha". Fiz algum esforço para encontrar o significado da associação entre "gatos e carochas", mas, prontamente, desisti, porque nestas coisas de amor, a lógica não funciona. De qualquer modo, reconheço que o rapaz tinha imaginação que não se limitava somente às formas de tratamento. Depois de relatos sobre as aulas, testes, frio e coisas miúdas fáceis de entender, o apolo pergunta à amada pelos exercícios. "Os teus exercícios correram bem? Não quero que te tornes numa menina exasperadamente trabalhadora, pois não vale a pena esforçares-te tanto. O que é preciso é calma e golpe de vista". Golpe de vista? Que belo conselho, e logo numa carta de amor! Não tenho dúvida que o seu autor deverá ter utilizado este princípio ao longo da vida. Julgo que este tipo de declaração é a melhor prova, já que foi proferida numa altura em que a alma está totalmente despida.
Abro o jornal e uma curta notícia chamou-me a atenção. Numa prova de maratona um atleta ficou em terceiro lugar, mas fez parte da prova de autocarro. O autocarro destinava-se a recolher as pessoas que assistiam à corrida. O atleta decidiu desistir e aproveitou a boleia, mas, ao fim de algum tempo, sentindo-se com forças, saiu e reiniciou a prova, conseguindo o terceiro lugar. Alguns colegas, não se tendo apercebido de terem sido ultrapassados, reclamaram. O herói “brônzeo” indignou-se com tamanha infâmia, mas não conseguiu levar avante a sua esperteza. Olhando bem, este atleta limitou-se a aplicar o princípio "golpe de vista".
O terceiro caso é paradigmático da falta de honestidade. Aluno do ensino superior, já licenciado, com vivência prática, utilizou um estudo publicado como sendo um dos trabalhos exigidos para ser avaliado numa disciplina. Trabalho muito bem feito, demasiado perfeito e profundo para a matéria em questão. Bastou copiar uma frase e o motor de busca fez o restante. Em 0,2 segundo foi identificado o original. Tudo igual, exceto nas referências bibliográficas, as quais ficaram muito reduzidas, presumo que, talvez, pelo trabalho que lhe dariam a copiar. Mais um caso de "golpe de vista".
Um jovem apaixonado a aconselhar que o mais importante é ter "golpe de vista", um atleta a usar o golpe de vista para aproveitar a boleia do autocarro e um profissional a apropriar-se do trabalho de terceiros, constituem três fotografias de falta de caráter que comprometem o crescimento da sociedade e que se multiplicam aos milhões por esse mundo fora. Importa, pois, estar atento, desenvolvendo mecanismos antigolpe de vista, abrindo bem o olho. Como é compreensível as cartas de amor são inacessíveis, mas um dia, mesmo passados quarenta e quatro anos, podem acabar por denunciar certas tendências. Quando o amor não consegue vencer o "golpe de vista"...

Choques eléctricos...

Num momento em que a economia está a atravessar sérias dificuldades, o excesso de custos na tarifa da electricidade é um factor que penaliza os consumidores e um factor de perda de competitividade do sector exportador, do qual em muito dependemos para sair da crise.
O sector da electricidade regista um défice tarifário de 1,8 mil milhões de euros que tenderá a agravar-se se não forem tomadas medidas para reduzir os “custos de interesse económico geral - CIEG”, também conhecidos por custos políticos. Estes custos têm vindo a crescer de forma galopante. Para se ter uma dimensão do problema, estes números são elucidativos: entre 2000 e 2011 cresceram de 200 milhões de euros para 2,5 mil milhões euros, sendo que 2 mil milhões de euros foram gerados entre 2006 e 2011. Em 2011, os CIEG pesavam na factura da electricidade entre 45% e 50%, isto é, apenas metade da factura diz respeito ao consumo (energia e redes).
Cerca de 80% dos CIEG dizem respeito a subsídios às energias renováveis e a compensações para compensar as eléctricas pela liberalização do sector. Em 2011 a primeira parcela atinge 1,25 mil milhões de euros e a segunda parcela ascende a 800 milhões de euros. Se nada for feito para reduzir estes custos, iremos ter um gravíssimo problema tarifário por muitos anos. Não só não teremos capacidade de pagar o défice tarifário existente, como vamos agravá-lo. Actualmente os consumidores são chamados a pagar anualmente, através da factura da electricidade, 180 milhões de euros de amortização e encargos financeiros por conta da dívida.
A situação tal como está é insustentável, sendo necessário, como ficou previsto no programa assinado com a Troika, que o governo encontre opções e soluções para reduzir os subsídios às energias renováveis e limitar as compensações à produção de electricidade.
Para evitar aumentos em 2012 da tarifa de electricidade entre 30% e 50% (valores anunciados pelo governo), o governo aprovou esta semana um decreto-lei que procede ao diferimento excepcional de custos de acquisição de energia e de custos das energias renováveis. Ou seja, estes custos que deveriam ser pagos pelos consumidores em 2012 são adiados para anos futuros, agravando assim o défice tarifário. Foi noticiado que estes custos ascendem a mais de 900 milhões de euros. Com esta medida, contém-se o aumento da tarifa da electricidade em torno de uma variação que, ainda assim, se deverá situar entre 5% e 7%, a que se soma o aumento do IVA para a taxa normal de 23%.
Em 2013 como vai ser? Volta-se a fazer outro diferimento excepcional? E vamos de diferimento em diferimento excepcional, não pagando os custos da electricidade, adiando, sine die, o seu pagamento no futuro? Vamos continuar a alimentar um défice tarifário que não seremos capazes de resolver? O ponto é este, temos ou não capacidade para manter o actual nível das rendas dos subsídios das renováveis e das compensações à produção de electricidade? A resposta é, não temos. Só temos um caminho, renegociar as condições contratadas. Segundo a edição de hoje do jornal Expresso, o governo estudou medidas para desagravar estes custos, mas a poucos dias do anúncio da tarifa da electricidade em 17 de Outubro, não quis avançar com a decisão, falou mais alto a privatização da EDP.

Venha o suicídio em vez deste suplício!

"Não há alternativa? Há sempre alternativa mesmo como uma pistola apontada à cabeça" - Nicolau Santos, hoje.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Nudismo e doenças infecciosas...



Os seres humanos são muito esquisitos, até se esquecem da sua condição animal. Julgam que estão nesta vida com direitos próprios, fazendo de conta que são deuses, talvez até sejam, mas de terceiríssima ordem. Coitados. "Coitado é corno"! Dizem lá para as minhas bandas; tenho que ter muito cuidado com esta palavra, uma entre poucas que me provoca uma certa inibição. Mas hoje apetece-me dizer: coitados. Lembram-se de coisas que nem passa pela cabeça do diabo, o que não é difícil graças à natureza deste, que, julgo, nunca se preocupou com micróbios ou infeções, que é muito improvável de apanhar no inferno, ambiente inóspito à transmissão de doenças infecciosas. O inferno ainda deve ser pior do que o planeta Marte, esterilizado, pelo que é fácil de concluir que as bactérias e os vírus não vão para o inferno, mas mandam muitos de nós para lá. 
A paranoia das doenças infecciosas é recorrente. Lembram-se das ameaças da gripe A, da gripe aviária e da pneumonia atípica? Só para falar das mais recentes. Entre as medidas propaladas até à exaustão destacaram-se o não contacto com as mãos, deixar de andar aos beijinhos, não aproximar muito uns dos outros e a necessidade da desinfeção contínua das mãos, dos objetos, das maçanetas, das mesas, enfim, uma verdadeira loucura, tudo isto devido ao medo de contrair e propagar os vírus. Nalguns países até foram tomadas medidas normativas e legislativas de caráter obrigatório. 
Agora imaginem uma proposta de lei a obrigar os nudistas de uma cidade, São Francisco, a terem de utilizar uma proteção para cobrir os assentos públicos antes de se sentarem. Quais assentos públicos? Assentos dos transportes, cadeiras de cafés e de restaurantes! As razões assentam na hipótese de que a nudez poder aumentar a propagação de doenças infecciosas. É muito difícil compreender como é possível tal coisa, ou seja alguém lembrar-se de uma iniciativa desta natureza, por várias razões, a pele é uma boa capa protetora e, mesmo naqueles casos de infeções feco-orais, não se visualiza grande hipótese de risco, a não ser que se ande borrado, o que é muito feio para um nudista que se preze, e, mesmo assim, se nos lembrássemos da contaminação com bactérias e vírus, que diariamente andamos a disseminar, então, teríamos de andar de luvas, máscaras e a desinfectar-nos constantemente. Parece que muitas pessoas consideram estar perante uma boa ideia; estamos a falar dos que se julgam ser superiores, provavelmente “não humanos”, intocáveis, indignos de serem “apalpados” ou vítimas de infeções e que fazem tudo para não se cruzarem com os microorganismos, mas não se importam de mexer naquelas notas verdes, deliciosas, de toque especial e que, por vezes, deverão comportar por centímetro quadrado mais bactérias do que um traseiro mal limpo. Que raio de ideia a de obrigarem os nudistas a usar um protetor, antes de se sentarem, em assentos públicos. Mas será normal andar nu em locais públicos? Sei lá, às tantas até é! Neste caso, para não incomodarem os nudistas - terem de andar com as tais capas protetoras às costas ou debaixo dos sovacos -, o melhor é arranjar uns dispositivos semelhantes aos utilizados para apanhar os resíduos fecais dos caninos, colocando-os à porta dos cafés e restaurantes ou no interior dos transportes públicos. Já agora podiam ser acompanhados de um frasquinho de água-de-colónia, até vinha a propósito...

Pasmai, gentes...e tende medo, muito medo...

Só nos faltava esta!...

Teixeira dos Santos profere a Oração de Sapiência na abertura do ano lectivo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto!..... Dia 20 de Outubro, 17 horas!...

Aqui fica o Convite do Director.

Desgraçada Faculdade. Desgraçado país!...Há que ter medo...muito medo...

(Notícia chegada ao 4R através da nossa comentadora Isabel, no post anterior. Muito obrigado)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Calamidade pública

Calamidade pública foram os Governos de Sócrates e não faltaram textos demonstrativos, aqui, no 4R. Só governos incompetentes em absoluto e economistas cegos de nascença não eram capazes de ver a desgraça que iam cavando.

E ficou também comprovada, como também sempre aqui se disse, a colossal virtude da despesa pública para degradar a economia e a vida dos cidadãos.

Por ironia, dos maus governantes, grande parte são agora deputados, que outro emprego não arranjaram, outros, imagine-se, são professores de Economia e Finanças, locais de excelência para continuar a propagar o mal. Por absurdo, continuamos todos a pagar o ordenado a quem devia ser despedido com justa causa.

Por sua vez, o ex-1º Ministro dedica-se à filosofia em Paris. Longe da cicuta que abundantemente fez tomar aos portugueses. Infelizmente, o crime por vezes compensa.

Cimentar o leito de um rio...

Lembro-me perfeitamente a primeira vez que o vi. Início de uma tarde de primavera; céu muito transparente, ar cristalino, puro e frio a querer limpar as tristezas da vida. Leito estreito, verduras a bordejar as delicadas margens, magotes de longos cabelos verdes ondulando à sua passagem, uns debaixo da água, outros aflorando como querendo resfolegar. Limpo, muito limpo como qualquer um ao nascer. Assim era aquele esboço de rio despejado docemente das entranhas da serrania envolvente. Inocente. Ao final da tarde, atraído pela sua beleza, voltei ao lugar, meio mágico, vazio de humanos mas cheio de encantos. Tinham-me dito que só corre assim durante um breve período de tempo. Chegado ao fim da primavera começa a secar e no verão desaparece, regressando no ano seguinte, mas só depois dos ventres escondidos e vazios da serra se encherem com as águas das chuvas do inverno, que matam a sede sôfrega dos quentes calcários. Passado um ano revivi a beleza do seu renascer, que se tem perpetuado ao longo dos tempos, maravilhando os que sabem ler os seus sinais, os seus anseios, as suas esperanças e, ao mesmo tempo, criando uma atmosfera de ansiedade face ao caminho que irá mais uma vez galgar, silenciosa e solitariamente. Agora que o outono começa a dar pequenos passos, houve alguém que se lembrou de rasgar e cimentar o seu leito e, não satisfeito, emparedar as margens, impedindo o contacto fisíco com a flora verdejante que ambos anseiam todos os anos realizar como se tratasse de um longo e carinhoso amplexo amoroso. Malditos humanos, frios, distantes, insensíveis, capazes de quebrar uma aliança de milénios a pretexto de algo que não sabe explicar. Intromete-se onde não deve. É o caso deste rio que, ao nascer, puro e doce, se vai ver envolvido pela mão humana em camas artificiais e aprisionado por frias paredes, roubando-lhe a liberdade e a identidade, como se tratasse da fonte de um qualquer tanque de rega, que irá aprisionar as águas para apodrecer no verão. A loucura de uns irá provocar a ira de águas que só querem correr quando lhes interessa. Aprisionar um jovem e delicado rio à nascença? Para quê? Para deleite de quem? Dos que pretendem ver um espelho de água? Para poderem passear pelas suas margens? Se for para ver a verdadeira beleza, mais valia esperar pela primavera e, ao início ou ao final da tarde, debruçar-se e escutar o que ele tem a dizer...

How are you feeling today?

(How are you feeling today?
Percentage of people reporting more positive than negative emotion in one typical day, 2010)


Todos sabemos que cada povo tem a sua linguagem cifrada, a linguagem transmite códigos de comportamento que só os “nativos” conseguem decifrar. Uma das características dos portugueses é nunca manifestarem contentamento com o que quer que seja, sobretudo não o fazerem abertamente, é um bocado mal visto, quase um pudor supersticioso, assumir que se está bem na vida, que se é feliz, que chega muito bem o que se tem, etc. A pergunta ”Como estás?” deve assegurar um tempo mínimo para uma resposta dúbia sobre as contrariedades da vida, a doença ou as angústias sobre a duração da saúde ou das alegrias. Assim assim, vai-se andando, podia estar pior, mais ou menos, por agora, quando mal nunca pior, etc, são expressões que todos temos que decifrar tendo em conta o interlocutor ou o contexto.
Vem isto a propósito de a OCDE ter lançado ontem um relatório intitulado How’s Life? Measuring well-being, que apresenta um retrato dos países baseado num novo” indicador de felicidade”, o qual pretende pelo menos complementar os habituais indicadores que medem o progresso dos povos pelo PIB. Esta novidade vem na sequência de um relatório apresentado há dois anos pela Comissão Stiglitz ao Presidente francês, no qual se criticava os actuais métodos de avaliação da riqueza dos povos por não espelharem o bem estar, mas apenas a actividade económica e a produção de bens.
How’s Life ? considera a avaliação de onze factores: rendimento, saúde, ambiente, sentido de comunidade, habitação, segurança, emprego, educação, governo, equilíbrio entre vida profissional e vida familiar, satisfação geral. A identificação dos vários graus de satisfação foi obtida através de inquéritos às populações e é aqui que entra este devaneio sobre as cifras de linguagem e atitude.
Os portugueses, claro, ficaram em 38º lugar entre 40 países, pior só mesmo os chineses e os húngaros, estão infelizes, desconfiados, endividados, desempregados ou ganham pouco, têm pouco tempo para o lazer e para o convívio com os amigos. Isso é tudo verdade, mas também é verdade que as condições de vida melhoraram muito substancialmente nas últimas décadas e que uma das razões do endividamento do país e das famílias é precisamente o ter-se obtido muitos bens materiais e condições de assistência com que antes nem se sonhava.
No final do inquérito vem a pergunta emocional “como se sente hoje?”. Mal, respondem os portugueses. Pior que os gregos, que os indianos, muito pior que os chineses. Os islandeses que, se bem me lembro, faliram há pouco tempo, são os segundos mais bem dispostos, logo a seguir aos radiantes dinamarqueses. Mas não sabemos se na terra deles é ou não costume mostrar satisfação com o que se tem.
Estes índices de felicidade são realmente um grande desafio a quem queira tirar deles conclusões seguras, talvez fosse mais útil fazer um inquérito sobre “o que é que o faria um cidadão feliz?”, sempre se criava uma dificuldade na resposta.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

"Dar a côdea"

Trôpego, arrastando os pés, como é próprio de quem tem o privilégio de chegar a idades avançadas, conseguiu galgar a escadaria, demorando mais tempo que o habitual, antecipação de um final que tento esconjurar todas as vezes que o vejo, e já o vejo há mais de vinte e cinco anos, quando sofreu um acidente vascular cerebral. Nada fazia prever que conseguisse sobreviver tantos anos, mas recuperou; ainda bem, para seu contentamento e dos familiares, e também para mim, porque acabei de conhecer muitas e divertidas histórias. O riso, ultimamente, é diferente, mais intenso, menos controlável, incapaz de o desligar, como se tivesse sofrido um curto-circuito, intensificando-se alegremente quando me meto com ele. Subitamente, os ombros começam a tremelicar, libertando sons de felicidade, com tendência a prolongar-se no tempo, sinal de que o córtex frontal já não é o que foi em tempos. - Então, como vai isso? O momento e a pergunta obrigam-no a ter de fazer um esforço para que a expressão facial se ajuste à situação. Não consegue completamente, embora uma mão invisível tente rodar o reóstato do riso, baixando-o até a ponto de conseguir aquilo que poderá ser considerado o mais próximo do estado normal. Ao atingir este estado, baixa a cabeça, e os seus olhos, embaciados, conseguem transmitir alguma tristeza e ansiedade quanto ao futuro. Um pequeno compasso de espera e a síntese do seu pensamento fica bem expressa: - Oh, estou a dar a côdea, senhor doutor. Estou a dar a côdea. Não é a primeira vez que lança esta expressão, que nunca ouvi a mais ninguém. Da primeira vez, fiquei um pouco surpreso, mas não me foi difícil chegar à conclusão quanto ao significado, atendendo à pergunta e à situação. - Dar a côdea? Outra vez? Dar a côdea, porquê? Já não tem miolo? Olhe que a sua côdea deve estar muito dura e não vejo quem é que a possa comer. Ao ouvir as minhas palavras, desprendeu-se da posição cabisbaixa e soltou um sorriso, simultaneamente alegre e interrogante; pelo menos esqueceu-se do sentimento de apreensão que a idade, a doença e a degradação continuada lhes estão a provocar.
Dar a côdea, dar a última coisa que se tem para matar a fome. Pão, sinónimo de vida. Ao vê-lo, à noite, em cima da mesa, a atrair a minha atenção, tentei resistir-lhe e lembrei-me deste pequeno episódio, mas, para matar saudades, ingeri uma pequena porção da broa, comendo precisamente a côdea, deixando de lado o miolo. Um pouco dura, mas não tão dura como algumas vezes tive oportunidade de verificar noutros tempos, em que era senhora e rainha da alimentação do povo. De súbito, muitas imagens e sensações foram despertadas, desde sabores escondidos a pequenos episódios, como a de uma sardinha embrulhada em broa, cujo aspeto amarelado se intensificou com o sumo oleoso provocando uma combinação gustativa muito difícil de repetir; o ritual da compra que a meio da tarde ia fazer a uma vizinha ou, então, ver as mulheres a cozinharem no forno, depois de assistir a práticas meio religiosas e meio pagãs, que não mais se repetem e que me marcaram. Não desgostava do miolo da broa, mas preferia a côdea, dura, saborosa, grossa, exigindo cuidado para não dar cabo de algum dente, que, depois de domesticada, deixava um travo de prazer que se arrastava no tempo. Foi pena não ter recordado estes episódios durante a tarde, quando ouvi a expressão "dar a côdea". É natural, certas lembranças têm mais força quando despertadas pela boca. Foi o caso. Se um dia destes ouvir novamente "estou a dar côdea", então terei de responder: - Muito bem, então dê-ma, sempre gostei de côdea, ao menos não me faz mal, desperta-me sensações únicas e é fonte de lembranças que alegram a vida...

Para quê a criação de um "sad bank"-Resposta a Tavares Moreira

1. Em post intitulado “Para quê a criação de um “sad bank”, o meu amigo Tavares Moreira insurge-se contra a aventada ideia passar os créditos detidos pelos bancos sobre o sector público para um novo Banco ou veículo financeiro, desfazendo-se assim desses “activos”.
Por uma vez, alguma teria que ser, aqui amigavelmente divirjo do meu amigo Tavares Moreira. E, dada a importância que o tema assume para o financiamento da economia e das empresas, decidi fazer um post de resposta, e não um simples comentário.
2. É certo que os Bancos apoiaram em crédito a política keinesianeira (nem lhe chamo keynesiana, por respeito a Keynes) levada a cabo pelos governos de Sócrates, de investimentos em megalómanas e desnecessárias obras públicas, PPPs, etc e tal, que conhecemos.
3. É também certo que foi essa colossal despesa pública que levou aos colossais défices, à colossal carga fiscal e à colossal dívida pública. E certo é ainda que foi essa colossal dívida pública que levou às contínuas baixas de rating da República.
4. Certo é também que essas baixas de rating foram automaticamente replicadas nos Bancos, um dos motivos que levou a que o mercado, depois de se fechar à República, também se tivesse fechado aos Bancos. A única fonte de liquidez, neste momento, é o BCE, aliás cada vez mais difícil porque a baixa do rating da República afecta o valor das contra-garantias, em Obrigações do Tesouro, que os Bancos têm que prestar.
5. Daqui resulta que a Banca não tem liquidez para financiar a economia.
6. Acresce a este facto que os Bancos foram obrigados pelos Reguladores europeu e nacional(B. Portugal) a diminuir o rácio Crédito/Depósitos de 150% para 120% até ao fim de 2013. Isso leva a que não haja, nem um cêntimo, para financiar as empresas, a não ser alguma migalha que possa resultar de um lento aumento dos depósitos ou de um não menos lento movimento de redução do crédito.
7. Assim sendo, faria todo o sentido que o Estado pagasse as dívidas que as empresas públicas deficitárias nunca conseguirão pagar e que o Estado tem que assumir, ou já assumiu, através de avales prestados. E que atingem, segundo notícias públicas, cerca de 40 mil milhões de euros.
8. Este reembolso permitiria reduzir o numerador do rácio citado, libertando, assim, fundos para acudir às necessidades das empresas.
9. Como será difícil ou impossível o Estado fazê-lo já, nasceu a ideia de criar o tal veículo ou Banco, para onde sairiam as dívidas do sector público, libertando fundos para a economia real.
1o. Caso uma ou outra das alternativas não seja concretizada, quem sofre são as empresas, que não conseguem qualquer crédito dos principais Bancos. E, no fim, a economia e o emprego.
11. A linha de recapitalização, se aumenta a solvência dos Bancos, não vai influir em nenhum dos termos do rácio Crédito/Depósitos, pelo que é de nulo efeito para o financiamento da economia. E a falta de financiamento é o principal estrangulamento actual das empresas.
12. Pelo que, em termos de efeito benéfico para a economia, a ideia não é insensata, nem insensata é a ideia de alterar o destino dos 12 mil milhões de euros de recapitalização para reembolso de dívida do estado e sector empresarial.

E é o que se me oferece dizer. E esta de dois autores do 4R, ainda por cima amigos de há 40 anos, estarem em oposição? E, logo, pública!...

Existe mesmo?

Atraso na promoção turística, pouca notoriedade e reduzida oferta hoteleira ajudam a comprometer um investimento de 33 milhões de euros”. É assim que a ANA justifica o insucesso do aeroporto de Beja. Um aeroporto que está às “moscas”, mas que as Orientações Estratégicas para o Sistema Aeroportuário Português de 2006 faziam prever que em 2015 o aeroporto de Beja seria um êxito, com um movimento de um milhão de passageiros. Desde o voo inaugural - tirado a ferros pelo anterior governo e merecedor de grande festa - até agora chegaram e partiram 798 passageiros.
Diz agora a ANA que a inexistência de praias e a distância até à costa não favorecem a procura deste aeroporto e que a oferta hoteleira no Alentejo é de reduzida dimensão e diversidade.
Mas o presidente da Empresa de Desenvolvimento do Aeroporto de Beja, com extinção à vista determinada por este governo, é que não desiste de defender a sua dama. Afirma que, apesar da falta de passageiros, “valeu a pena ter sido construída a infra-estrutura”, lembrando que o seu custo foi financiado totalmente pela União Europeia e que a crise internacional é a culpada de tudo. Esta obra é um excelente exemplo de megalomania e de esbanjamento de dinheiros públicos. Dá que pensar…

Para quê a criação de um "sad bank"?

1.Tem sido aventada, nos últimos dias, a hipótese, ao que consta inspirada por alguns banqueiros e pela APB, visando a criação de um novo “banco”, um tal “bad bank”, para o qual seriam transferidos – SEM QQ PERDA, presume-se... – os créditos detidos pelos bancos sobre o sector público, em especial o empresarial - estatal, regional e autárquico...
2.Á guisa de comentário histórico, devo notar que estes mesmos bancos que agora mostram tanta pressa em verem-se livres dos créditos sobre as entidades públicas, estiveram extremamente activos, ao longo dos últimos 10 ou 15 anos – muito fortemente nos últimos 6, certamente - na concessão desses créditos, não constando que alguma vez se tivessem mostrado contrariados com tal política de generosidade creditícia...
3.Ainda no mesmo plano histórico, estamos ainda recordados das opiniões expressas em público por banqueiros de grande notoriedade e influência, apoiando, sem reservas, a política de promoção de grandes obras públicas do anterior governo, subscrevendo o notável argumento de que esses “investimentos” eram benéficos para o desenvolvimento económico...como agora abundantemente se comprova, de resto...
4.Acresce que, tanto quanto sei (posso não saber tudo) o Estado não tem incumprido as suas obrigações financeiras para com os bancos, pagando-lhes os juros e o capital das suas dívidas a tempo e horas...prática que, como bem se sabe, não tem seguido em relação a muitíssimas empresas não financeiras, causando-lhes os maiores transtornos com os atrasos de pagamento em que incorre...
5.Sinto assim alguma dificuldade em perceber esta súbita preocupação dos banqueiros exigindo que o Estado lhes pague o que deve...porque será que de uma política de total abertura e generosidade no apoio creditício às entidades públicas, especialmente empresas, passaram para esta posição de exigir que essas entidades paguem o que lhes devem, e até o façam antes do vencimento?
6.Essa preocupação vai ao ponto de “recomendarem” ao governo a criação do tal banco novo, para armazenar "crédito velho" de que pretendem ver-se livres, utilizando para realizar o capital desse novo banco os € 12 mil milhões consignados no acordo com a “troika” para aumentos do capital de bancos carecidos...
7.Um banco que seria assim detido a 100% pelo Estado para conceder crédito ao próprio Estado? Será que isto faz sentido?
8.E que créditos sobre o Estado (nos seus diferentes níveis) seriam transferidos para esse novo banco – só os detidos pelos bancos portugueses? Bancos como por exemplo o Dexia não teriam tb direito a ceder a este novo banco os seus créditos sobre o sector autárquico português? Convém lembrar que, segundo a “recomendação”, o capital deste banco seria constituído por capitais internacionais...
9.Não me parece muito adequada a expressão “bad bank” para caracterizar a nova instituição financeira supostamente recomendada pelos banqueiros...permito-me por isso sugerir a de “sad bank”, que traduz melhor uma ideia não muito feliz, bem mais triste que feliz...

Escusavam de ouvir isto...

A apreciação de Putin sobre a grande confusão em que a Europa se deixou enredar. Ou será apenas uma maneira de dizer "resolvam lá os vossos problemas sozinhos, já que são tão ricos?"

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Pureza microbiológica...

A comunicação social tem, nos últimos tempos, vindo a substituir as revistas científicas, órgãos privilegiados para publicar os estudos de investigação. Confesso que esta mudança de paradigma começa a causar alguma perturbação pelo eventual impacto no comportamento das pessoas. Pode-se sempre afirmar que é uma maneira correta de transmitir o conhecimento, contribuindo para o bem-estar das comunidades. Mas será mesmo assim? Não haverá necessidade de um período de debate e de reflexão na comunidade científica antes de informar o mundo o que é que se está a passar de facto? As conclusões dos estudos não serão demasiado prematuras? Não poderão condicionar, por vezes, de forma irreversível, certas atitudes e comportamentos? Temo que sim. Esta minha reflexão surge na sequência de uma notícia em que os autores verificaram que "Quase metade das crianças em idade pré-escolar tem alojada no nariz uma bactéria, responsável por vários tipos de infeções. Destas, 9% são portadoras de uma estirpe resistente a antibióticos". Os autores concluem pela necessidade de instaurar medidas higiénicas para evitar problemas, nomeadamente a necessidade de "lavagem das mãos com frequência e sempre depois de assoar o nariz a uma criança, não partilhar lenços, nem guardá-los nos bolsos depois de usados são algumas das regras que todas as escolas devem instituir. É também aconselhável lavar e desinfetar frequentemente os brinquedos e arejar bem os espaços."
Não tenho nada contra as medidas higiénicas, aliás considero-as como as principais responsáveis pela conquista da saúde e da longevidade humanas. O que me preocupa é a tendência crescente da higienização como se o ser humano devesse evitar contactar com o fabuloso mundo dos microrganismos, vivendo num ambiente permanentemente assético, qual sala de cirurgia. A interiorização de certos conceitos pode ser perigosa. Um dos grandes perigos da atualidade tem a ver com o excesso de cuidados, que está na base de crescentes problemas de saúde, etiquetadas como o paradoxo da higienização. Temo, face à forma com são noticiadas certas pesquisas, que muitos concidadãos possam levar demasiado longe algumas das medidas de higiene enunciadas. Neste caso concreto, estafilococos resistentes a antibióticos, alguns pais ainda poderão, um dia destes, solicitar informações adicionais sobre a prevalência das ditas bactérias nas ventas das criancinhas frequentadoras do estabelecimento escolar. Um diálogo deste género poderá vir a ser real: - Desculpe, mas como pai (ou mãe) responsável queria saber qual a prevalência do estafilococo MSRA (resistente a antibióticos) nos narizes dos meninos que frequentam a escola. Sabe, eu não quero que o meu filho venha a ser contagiado com essa bactéria, correndo o risco de poder sofrer uma infeção com um gérmen resistente aos antibióticos. Também quero saber se disponibilizam lenços de papel não utilizados pelos outros meninos. O meu filho tem tido uma educação muito higiénica. A conversa deverá continuar à volta da assepsia ou coisa que o valha. Entretanto, o puto, de mão dada com o pai, indiferente à conversa de chacha, e que o ultrapassa de todo, faz aquilo que qualquer miúdo em certa idade costuma fazer. Mete o dedo no nariz, tira um valente macaco e mete-o na boca para se deleitar com o seu doce sabor, borrifando-se para as toneladas de estafilococos, sejam ou não resistentes aos antibióticos, respeitando, escrupulosamente, as regras da vida, ou seja, o contacto com o mundo envolvente, indiferente ao discurso assético, melhor, patético dos pais, temerosos das bactérias, porque leram qualquer coisa sobre esta matéria e não estão dispostos a partilhar este mundo com essas miseráveis, execráveis, estúpidas e abelhudas formas de vida. Coitada da dirigente da escola a ter que buscar à pressa, meio atarantada, os últimos relatórios provando que as meninas e os meninos da instituição são verdadeiros exemplos de pureza microbiológica. Pois é, pureza microbiológica, pureza política, pureza social, assepsia de ideias, enfim, a estupidez acaba sempre por vingar...