1.As manifestações de indignação a que estamos a assistir, os discursos inflamados e ultra-demagógicos dos partidos que usam o rótulo de “esquerda” e as muitas expressões de “dolor” (alguma bem cínicas, diga-se de passagem) de uma boa parte dos comentadores políticos e económicos, têm uma base comum: a implosão do mito do Estado Providência.
2.Este mito foi cuidadosa e laboriosamente construído durante o Estado-Novo: dois dos grandes objectivos prosseguidos pelo Doutor Salazar consistiram na restauração da autoridade do Estado bem como da sua credibilidade financeira.
3.Autoridade do Estado e credibilidade financeira foram pois dois pilares fundamentais da política prosseguida desde o final da 1ª República até ao alvorecer do dia 25/IV/74: e cumpre reconhecer que, tanto no 1º caso através de métodos mais do que discutíveis, como no 2º caso através de uma rigorosa ortodoxia financeira, os objectivos em causa foram atingidos em elevado grau.
4.À sombra destes dois pilares foram também edificadas as bases de um Estado Providência, se bem que dentro de limites muito estreitos inicialmente. Apesar dessa estreiteza, o importante é que se criou uma convicção popular, fortíssima, de que qualquer compromisso do Estado era um compromisso sagrado, jamais deixaria de ser cumprido.
5.Com o marcelismo, fase final do Estado Novo, o Estado Providência sofreu um razoável alargamento, que até pode ser tido por ousado quando comparado ao conservadorismo do período anterior (datam desse período os primeiros sistemas de pensões sociais, em regime não-contributivo, por exemplo) – mas nada que pusesse em causa o carácter sagrado dos compromissos do Estado Providência.
6.Com o regime saído do 25/IV/74, o Estado Providência foi sujeito a um processo de “jumboização” - inicialmente através de métodos delirantes e altamente demagógicos, depois ainda com demagogia mas com a confiança dos recursos provenientes da Europa – acabando por converter-se num gigante que os nossos pobres (pobres de nós, é certo) governantes do final do século XX se convenceram que não só era possível ainda alargar como garantir para todo o sempre com a adesão ao Euro...
7.Por isso eles celebraram a entrada no Euro com uma euforia desmedida, que um observador, medianamente atento, não poderia deixar de considerar perfeitamente tonta – como aqui várias vezes assinalamos, de resto.
8.O mito do Estado Providência, que ainda conseguiu ser heroicamente alargado para abarcar essa estranha componente de especialíssimos favores a “friends” e a “friends of friends”, nomeadamente durante o lamentável consulado socrático, foi esticado até aos limites do desvario mais absoluto, aproximando-se cada vez mais do fim...
9....onde agora acabou por se precipitar, pondo termo a uma experiência de cerca de 80 anos, encharcado em dívidas que não consegue satisfazer, em compromissos que já não é capaz de cumprir, vergado ao peso de uma sobrecarga de benesses para as quais deixou de haver dinheiro...embora haja ainda muitas, esparsas e escondidas por esses sectores empresariais central, regional e local, tentando escapar a todo o custo mas que em breve serão por certo descobertas e erradicadas...
10.O Estado Providência implodiu, muitos portugueses estão boquiabertos, muitos genuinamente indignados, outros profissional e demagogicamente indignados - mas esta terá sido a forma mais suave de implosão...levem os protestos e a indignação suficientemente longe e ainda poderão conhecer uma segunda e bem mais violenta implosão do Estado Providência...