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terça-feira, 6 de setembro de 2005
“Estava escrito”…
Não gosto de funerais. Confesso, também, que nunca ouvi ninguém dizer o contrário, a não ser os profissionais do ramo.
Com a idade, a probabilidade de participarmos nestes rituais aumenta exponencialmente de tal modo que só termina com o nosso.
Muitas vezes somos confrontados com expressões curiosas, sobretudo quando estamos perante doentes de idade avançada. Acabamos por os confortar dizendo: - Ora, está muito bem. Sim senhor! Ainda vai enterrar muita gente! É um pouco macabro, mas as pessoas aceitam-na com uma expressão feliz. Claro que o nosso objectivo é tentar que as pessoas vivam mais e com qualidade. Afinal, o que fazemos não é mais do que “endrominar” ou melhor, “rasurar” o que está escrito no livro da vida e da morte.
Desde pequeno que ouço dizer que está tudo escrito num livro, sobretudo o momento da morte de cada um. Imaginava-o de muitas formas e tamanhos a ser manuseado por um barbudo carrancudo a mando de Deus. Como só conseguia vê-lo de baixo para cima, limitava-me a contemplar a lombada e as capas. Por mais esforços que fizesse não conseguia ter “acesso” ao conteúdo. E, ainda bem! Memórias da infância, despertadas, a propósito do comportamento das pessoas, no último velório de um familiar que, ainda novo, foi vítima de morte súbita. Um par de senhoras, mãe e filha, aproximaram-se da viúva e descarregaram sem dó nem piedade: - Tinha que ser filha, estava escrito. Tinha o dia e a hora marcada. Arrepiei-me todo! Ambas, frequentadoras assíduas dos rituais católicos mostravam claramente que estavam impregnadas de arcaicos conceitos mitológicos, mesmo desconhecendo os nomes ou os atributos dos velhos deuses.
Estava escrito! Estava escrito o quê? Apeteceu-me dizer, e, ao mesmo tempo, recordei-me da leitura recente de um colunista em que fazia a apologia do cristianismo na morte do paganismo, no surgimento de novos valores e na libertação da mulher. Quanto ao surgimento de novos valores é óbvio que sim, quanto ao papel da “libertação e respeito pela mulher” já não estou tão certo, pelo menos durante muitos séculos. A morte do paganismo mitológico pelo cristianismo não é lá muito evidente, pelos vistos, porque há alguém que se entretém a escrever quando devemos nascer, adoecer e morrer. Que raio de entretenimento! Cá em baixo andamos a lutar contra esse livro misterioso que impregna a mente de muitas e muitas pessoas. As afirmações que fazem nesse sentido não são circunstanciais, são mesmas sentidas. Era bom que lhes explicassem que lá em “cima” não há livros de mercearia ou “tarados” que se divertem com a miséria dos seres humanos. Afinal, 2000 anos de cristianismo não conseguiram ainda, e nem sei se irão alguma vez conseguir, eliminar a função de deuses criados à semelhança dos homens e das mulheres.
Fugir o pé para o chinelo
E põem sempre muito cuidado na publicitação normal da sua actividade, de modo a projectarem uma imagem de excelência.
Por isso, mais chocante se torna que uma empresa portuguesa de referência tenha permitido que o seu nome venha associado, num anúncio televisivo, às mais rasteiras superstições.
Nesse anúncio de 40 segundos, em que é divulgado o patrocínio dos 3 maiores clubes portugueses de futebol, não é o valor ou a qualidade, mas a superstição que aparece como factor de sucesso.
Nesses 40 segundos, é possível ver o guarda-redes em atitudes do género de dar marradinhas na baliza, antes do jogo, para afastar o mau olhado ou a má sorte, ou do género de um jogador a benzer-se ou de outro a beijar uma medalha, ambos desconfiados dos dotes da sua equipa e confiados mais na protecção divina, ou de outro a exibir um amuleto qualquer por várias vezes, ou de um técnico a retirar do bolso e a tocar um estranho objecto, para atrair a boa fortuna!...
Em vez de se associar ao que de belo há no desporto, a PT aprovou um anúncio em que se explora o que de mais deprimente existe no espírito humano.
Se os antigos procuravam no desporto uma “mens sana in corpore sano”, uma mente sã num corpo são, a PT mais não faz do que se associar a mentes doentes, exibindo-as, de uma forma popularucha, aviltante e “pimba”.
Não creio que seja uma associação proveitosa.
E admira-me que um Conselho de Administração tão institucional e com representantes mais ou menos explícitos do Estado consinta em tal dislate.
A menos que se identifique com ele!...
Seria uma esclarecedora demonstração do nivelamento por baixo de uma empresa de elite!...
Manuais escolares
Eu só me pergunto porque não têm a mesma preocupação com o aumento dos preços dos bilhetes de futebol, do cinema ou porque não fazem contas ao consumo de revistas cor-de-rosa, aos livros cabalísticos, ao consumo de DVD's pornográficos ou ao que cada português gasta em média nas suas férias. Por favor, calculem quanto é que cada português gasta em tabaco, em whisky, ou em gasolina para acelerar nas auto-estradas. Aí não há escândalo.
Só há escândalo com o que os portugueses gastam em manuais escolares.
Mas se há alguém que vem demonstrar que os preços estão praticamente congelados desde 2003 (vá-se lá saber quem foi o doido que determinou tal aleivosia) ainda há quem responda: não me interessa, continua a ser um escândalo!
É assim que se eleva o valor social da educação.
Desabafei!
segunda-feira, 5 de setembro de 2005
A NATUREZA NÃO É CRUEL, É INDIFERENTE.
Activistas contra o aborto chegaram a “ver” a imagem de um feto de oito semanas no mapa de satélite do furacão Katrina. Muitos norte-americanos comungam da ideia de castigo divino e afirmam que se não houver mudanças maior castigo irá abater-se sobre aquele povo. Estamos a falar de cristãos que pretendem arregimentar soldados, ou melhor, mercenários para os seus exércitos. Mas, o Deus dos muçulmanos parece, aos olhos de muitos, também como responsável pela calamidade. A ponto de o furacão ser considerado como: “O terrorista Katrina é um soldado de Alá”.
A raiva e o ódio de muitos fundamentalistas muçulmanos revelam satisfação e regozijo pelo acontecimento. Mas, a intolerância de certos movimentos religiosos cristãos que procuram “explicar” certos fenómenos com os quais não se identificam, através da espada de um deus raivoso e vingativo, não é diferente. A intolerância religiosa-política é grave não augurando nada de bom para as nossas sociedades.
Todos estes movimentos exploram comportamentos primários disseminados pela grande maioria da população deste planeta. Estes trágicos acontecimentos são utilizados para recrutar mais adeptos ou para cimentar aqueles comportamentos. Nestas alturas, seria conveniente que os responsáveis saudáveis pelas diversas correntes religiosas – e são muitos, felizmente – viessem a terreiro para desmontar, criticar e repudiar o comportamento dos radicais religiosos e apelar à tolerância de todos, face às tragédias naturais. A natureza não é cruel, é indiferente. O homem consegue ser cruel e não é indiferente, mas a indiferença de muitos não deixa de alimentar a crueldade de outros.
Mário Soares-globalista contra a globalização!...
Para além de ser contra a guerra do Iraque, o Dr. Mário Soares também é contra a globalização.
E se posso entender a sua posição no primeiro caso, já não a compreendo no segundo, face à prática da sua vida.
A globalização esbate fronteiras, de modo a colocar os produtos, produzidos onde quer que seja, em todo o lado.
E qual tem sido a postura do Dr. Mário Soares?
Começou por ser um “globalista”, lutando contra o “isolacionismo” português: percorreu mundo a "vender" a oposição democrática".
Depois, como Presidente da Internacional Socialista, procurou “vender” o produto socialismo por todo o globo, apresentando-o na matiz (socialismo alemão, social democracia sueca, terceira via…) mais adequada ao mercado objectivo, isto é, ao país em causa.
Como qualquer executivo de uma multinacional, deu várias voltas ao mundo para colocar o produto, procurando internacionalizar a marca.
Sendo então um entusiasta da globalização do produto socialismo, mal se compreende que combata a globalização de outros produtos, tão legítimos ou tão legais como esse produto ideológico.
Como Presidente da República, certamente com o objectivo de colocar a marca Portugal ou a de produtos portugueses, também viajou pelo universo, com empresários, artistas, intelectuais e muitos jornalistas.
Chegou mesmo a dirigir acções que um qualquer Director de Marketing de uma Multinacional não desdenharia, promovendo impressivas sessões publicitárias em mercados difíceis para Portugal, por exemplo nas Seychelles, através da exibição da técnica de montar tartarugas….
Dirão algumas más-línguas que o Dr. Mário Soares não pretendeu, nas suas viagens de circum-navegação, colocar outros produtos que não fosse a si próprio.
Parece-me excessivo concordar com tal afirmação. Mas, mesmo que assim fosse, tratar-se-ia sempre de uma operação de colocação globalizada de um produto, que seria a sua própria imagem.
Assim, não compreendo por que razão o Dr. Mário Soares, comportando-se como um globalista, é contra a globalização.
A continuar!...
Não me apetece mais do que poesia
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinicius de Moraes
Leituras à esquerda...
O Post de Rui Pena Pires sobre Manuel Maria Carrilho (Não há skip que limpe esta nódoa!) só abona a favor da boa política.
A entrevista de Valter Lemos (Secretário de Estado da Educação) ao Público, em especial a prioridade dada ao reordenamento das escolas do 1.º ciclo (Não será exagero prometer o encerramento das escolas do 1.º ciclo com menos de vinte alunos até ao final da legislatura? Se conseguir encerrar uma boa parte das que têm menos de 10 alunos já será muito bom).
Medeiros Ferreira anuncia-se (com alguma água benta) no programa de logo à noita da RTP1 (Prós e Contras). Como cartão de visita, traça um rasgado elogia à Fátima Campos Ferreira. Tese surpreendente: "A cidadania passa hoje muito pela televisão".
Vital Moreira aproveita a tragédia de Nova Orleães para dissertar contra o "Estado mínimo". Paulo Pedroso segue as mesmas pisadas (Quanto custa o subfinanciamento do Estado?).
domingo, 4 de setembro de 2005
Palavras Cruzadas
É verdade que era preciso mostrar obra feita e deixar para segundo plano a incrível reviravolta que a acção do Governo representa em relação ao programa eleitoral que tinha levado àquela mesma praça os entusiásticos militantes. Mas logo escolheu três factos que em nada se devem aos seus méritos e da sua equipa: "resolvemos o problema da colocação dos professores!!" é falso, porque quem concluiu essa tarefa com muito êxito foi a anterior ministra da Educação Carmo Seabra, este Governo limitou-se a colher os louros; "tivémos um êxito nunca visto no combate à evasão fiscal" como se fosse possível, em apenas 5 meses, melhorar a máquina fiscal de modo a ter resultados espectaculares! Claro que há resultados muito bons, mas tal deve-se ao trabalho intenso anteriormente desenvolvido e à eficácia do Director Geral, que foi praticamente demolido quando a então Ministra das Finanças decidiu muito corajosamente nomeá-lo! "acabámos com a iniquidade das aposentações antecipadas na função pública, era inadmissível as pessoas poderem sair com 49 anos" pena é que não tenha dito isso quando era oposição e o Governo de Barroso revogou a lei que permitia antecipar as aposentações... O que não houve!, sobre o ataque aos direitos adquiridos, as inconstitucionalidades, a agressão aos funcionários, o erro de se impedir com isso a entrada de gente nova! Caíu o Carmo e a Trindade, o PS votou contra todas as leis que introduziram reformas na Administração Pública, incluindo a aposentação antecipada e a Lei da Mobilidade, de que agora são grandes defensores.
Enfim, mais vale tarde do que nunca, mas que as medidas não são da sua autoria, isso não são.
Também achei notável apresentar Mário Soares como o garante da estabilidade e factor de união de todos os portugueses porque "a Presidência da República não é para fazer oposição"... Pois não. Por isso é que Soares fez Presidências Abertas quando achava que Guterres não fazia o seu papel devidamente, por isso é que convocou o Portugal que Futuro, por isso é foi "fixe" quando apoiou a "guerra" à barragem de Foz Côa porque as gravuras não sabiam nadar... Também deve ser por isso que Soares já foi dizendo que não é preciso saber economia e o Primeiro Ministro não se cansou de falar no combate ao défice e na importância da redução da despesa.
Os militantes do Partido Socialistas devem estar um pouco confusos...
A força das convicções
Quando teve oportunidade institucional de por em prática as suas doutrinas socialistas, optou por colocar o socialismo numa gaveta mais ou menos entreaberta ou mais ou menos fechada, porventura por reconhecer que não resolvia os nossos problemas.
No entanto, é, e continua para muitos, o ex-libris do socialismo português.
Mário Soares, antes de ser Primeiro-Ministro, apelou ao fim dos grandes grupos económicos, que também denominava de monopólios, sendo responsável indirecto pelo desmantelar de muitas das nossas melhores empresas e pela fuga dos seus principais accionistas.
Quando foi Primeiro-Ministro, convidou muitos empresários e gestores a regressar, para reconstruir a economia.
Mário Soares combateu, e bem, o isolacionismo português.
Teve nesse isolacionismo um bom argumento para viajar pelo mundo inteiro, assinando protocolos de cooperação, económicos, culturais e muitos mais, dos quais se destacará o assinado com as Seychelles, verdadeiramente estrutural para o nosso país.
Muitos dos que combatia na véspera eram os seus convidados especiais para essas viagens.
Mário Soares foi agredido na Marinha Grande, numa campanha eleitoral e, justamente, protestou por não ter protecção policial; quando Presidente, competindo-lhe também assegurar a lei e a ordem pública, não se coibiu de dizer, numa Presidência Aberta, que não precisamos, cá, de polícias!...
Há pouco tempo, jurou que não seria candidato a Presidente da República; há menos tempo ainda, "aceitou" apresentar a sua candidatura!...
Homem de uma só fé e de um só querer!...
O Cuco e a política
Dois ou três factos políticos recentes fizeram-me recordar uma imagem utilizada há cerca de sete anos por José Pacheco Pereira para criticar a então política de inaugurações de António Guterres. Chamava-lhe JPP a “política do cuco” dada a irresistível tentação de se fazer festim com obra alheia. O cuco é conhecido precisamente por colocar os ovos no ninho de outras aves, aproveitando a sua ausência momentânea.
Entre as muitas espécies de cucos, destaque-se o "cuco canoro":
Depois de 12 ou 13 dias de incubação, algumas vezes um pouco antes dos outros filhotes nascerem, nasce o cuco, que antes de 10 horas de vida começa a jogar para fora do ninho seus "irmãos" ou os ovos, até ficar só e ter só p/ ele a atenção da fêmea que, em pouco tempo, fica muito menor que seu "filho".
Muito semelhante no seu comportamento é o "cuco rabilongo":
O cuco-rabilongo, ou cuco-real, é parasita dos corvídeos e das pegas-rabudas, de tal maneira que existem poucos casos de cucos-rabilongos em ninhos de outras aves. A fêmea do rabilongo, aproveitando a ausência das pegas, põe o ovo no seu ninho – às vezes dois – e depois abandona a região. O pequeno cuco-rabilongo, ao contrário do cuco-canoro, convive com seus meio-irmãos no ninho, ao invés de eliminá-los. Mas, mesmo assim, tem um processo muito mais sutil e refinado para exceder as pegas que compartilham o ninho com ele. Durante a alimentação dos filhos, as mães se sentem estimuladas a introduzir alimentos nas fauces destes devido à cor rosada e reluzente no interior das mesmas. Uma força irresistível atrai as aves para o ninho habitado pelas criaturas extremamente atraentes que apresentam cores fortes no interior de seus bicos.
Depois de ver alguns cartazes eleitorais e de ouvir o Primeiro-ministro no seu discurso de “rentrée” sou levado a concluir que este governo e alguns autarcas estão a transformar-se numa família de cucos, onde à falta de “ninho” novo se põem os ovos no ninho dos outros. Refiro-me a autarcas que em menos de um ano conseguiram erradicar as barracas do seu concelho, ou de Sócrates que parece ter inventado uma solução milagrosa para facilitar a fixação dos docentes nas escolas.
Confesso que neste exercício só não gosto de fazer o papel de pega-rabuda.
sábado, 3 de setembro de 2005
sexta-feira, 2 de setembro de 2005
As televisões fala-barato
Uma estação de televisão portuguesa, no seu programa de hoje, dia 2 de Setembro, género forum, de recolha de comentários dos telespectadores, resolveu inquiri-los sobre as inundações de Nova Orleães. E a estação púbica, que hoje passou os primeiros trinta minutos do seu noticiário mais importante, o das 20 horas, a falar de N. Orleães? Trinta minutos que chegam, nas televisões civilizadas, para cobrir o que de mais importante se deu no país e no mundo!... |
A cama está feita!
A opção é simples: ou nos entretemos a criticar o subsídio de residência do Ministro Teixeira dos Santos (absolutamente legal!) ou defendemos o princípio de que a competência paga-se bem, como é o caso de Paulo Macedo, com resultados mais do que visíveis (mas, agora, de legalidade obtusa).
Ah! um pequeno pormenor: um é "político" o outro um conceituado "técnico", facto que não é tão despiciendo quanto se possa pensar.
quinta-feira, 1 de setembro de 2005
O Sorriso
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso."
Eugénio de Andrade
De regresso a um ano de trabalho "novinho em folha" demorei-me um pouco a pensar como iria encetar esta folha em branco e assim retomar o agradável convívio no Quarta República. Os temas da política nacional estão já comentados de forma imbatível neste blog e voltarão certamente à baila de mil e uma formas sempre espantosas. As catástrofes que se abateram nos vários continentes obrigam-nos a sair da estreiteza dos nossos dissabores mas não queria começar por aí.
Prefiro começar com um sorriso, essa forma de expressão tão abandonada e no entanto tão forte, tão poderosa, capaz de quebrar barreiras, de dar alento, de transmitir afecto, simpatia, compaixão ou alegria.
Também pode significar troça ou desprezo, mas esses são só esgares, não merecem que se lhes chame sorriso, basta ver como surgem facilmente, sem aquele impulso de alma que torna um sorriso inconfundível e substitui as palavras imperfeitas que quer significar.
Mas já podemos chamar à categoria de sorriso a expressão que vi na cara de uns amigos que vivem há muito fora do nosso país e a quem relatei alguns episódios da nossa política nacional.É aquela expressão entre o divertido e o incrédulo, própria de quem não sabe ao certo se estamos a falar a sério ou a pregar uma partida...
É fácil ir esquecendo de sorrir, do mesmo modo que é fácil ir deixando de reparar nos outros ou de ter coragem para manter a vontade de lutar por dias melhores.
Li há pouco tempo no jornal que foi feito um estudo sobre o sorriso - ou a falta dele - em Portugal e parece que as conclusões tiram o sorriso mais tenaz, sobretudo porque o tal estudo se baseou nas fotografias que os jornais publicam dos políticos e aí, compreende-se! nem sombra dele. Diga-se, em abono da verdade, que é uma questão de critério jornalístico, se calhar conluiados para dar um dispensável contributo para a tão mediática falta de auto estima - recentemente elevada à categoria de fundamento para candidaturas presidenciais. Para não referir as vezes em que lá escapa uma expressãomais alegre e logo é essa que é escolhida para ilustrar a notícia de mais uma medida gravosa. Aí deve ser a categoria farta dos sorrisos cruéis!
Seja como for, mesmo que se comece com um sorriso menos atraente, sempre é melhor do que não saber sorrir de maneira nenhuma, ou achar que já nem vale a pena fazer o esforço.
Um sorriso tem um retorno quase certo, não exige qualificações, não custa nada e é comum a todas as classes sociais. Talvez seja a forma mais simples de começar a combater a depressão nacional que nem as férias conseguiram curar.
O Quarta República tem dado um contributo activo para essa terapia, mas não é demais recordar o tema.
Um bom ano de trabalho e um sorriso de muita simpatia.
Zapoï
Na Rússia também se observa este comportamento. Mas, apresenta uma particularidade que é beber o mais rapidamente possível para atingir o grau de inconsciência e permanecer bêbado durante dias e, nalguns casos, semanas. Designa-se este fenómeno por zapoï. A situação é muito grave, atinge sobretudo os homens na sua fase mais produtiva, está na base de muitas mortes, começa a ter impacto na produtividade, é um sério sinal de alcoolismo, que pode ser um dos factores responsáveis pela redução da esperança de vida que, entre 1989 a 1994, se reduziu em seis anos nos homens e em três nas mulheres, colocando este país na cauda dos países industrializados com valores idênticos aos do Senegal.
É certo que a falta de esperança aliada à tradicional alma russa explique este comportamento.
Recordo-me que há cerca de 13 anos, numa estadia em Moscovo, um colega do Azerbeijão disponibilizou-se para me ajudar a comprar duas garrafas de vodka especial. Após a compra, convidou-me a beber um cálice à boa maneira dos locais. "Em Roma sê romano"e vai daí bebi o cálice de uma só vez. O que senti foi: “acabei de beber a alma do Rasputine”! A mucosa bucal e da língua desapareceram num ápice. O meu olhar devia estar tão transtornado que o azerbaijanês perguntou se eu me sentia bem. Quando me explicou que o vodka especial tinha só 75 graus ia desmaiando.
Escusado será dizer como passei o resto do tempo.
Quem analisar o comportamento político de alguns portugueses poderá concluir que muitos bebem à zapoï embriagando-se o mais rapidamente possível, tentando manter-se inebriados durante o máximo tempo possível. Se a situação continuar ainda nos arriscamos, não propriamente a uma redução da esperança de vida, mas, a uma redução na esperança em viver. É evidente a sensação de tristeza e de desânimo na nossa sociedade, testemunhados por muitos, sobretudo nos mais jovens, facto que poderá explicar algum do seu comportamento, nomeadamente o consumo das bebidas. É preciso evitar o zapoï (alcoólico) dos jovens e, sobretudo, o zapoï (político) de alguns responsáveis do nosso país.
A ler ainda...
O texto de José Pacheco Pereira sobre "MÁRIO SOARES, JESUS, FINANÇAS E BIBLIOTECAS" no Abrupto.
A reflexão de O Reformista sobre a magistratura presidencial.
Sim, aceito
Querer: ambicionar; pretender; desejar; apetecer.
Hipocrisia (do grego hypocrisia, forma poética de hypocrisis, desempenho de um papel num teatro); impostura; fingimento; manifestação de virtudes ou de sentimentos que realmente se não tem.
Mário Soares desempenhou bem o seu papel no palco.
Ambiciona e pretende ser Presidente; apetece-lhe sê-lo.
Tratar-se-ia a si próprio com dignidade e trataria com dignidade os Portugueses se o dissesse claramente.
A ler ...
A minha escola
Não tenho por hábito nem os princípios me autorizam a falar e escrever sobre a minha vida privada e a da minha família. Contudo, a opção que hoje concretizei sai parcialmente da esfera do privado para ganhar uma minúscula expressão pública que me liberta do recato que estas situações aconselham. Como o 4R não é propriamente a Caras, a VIP ou a Maria, nem tem coluna social, julgo que não me levarão a mal a narrativa.
O meu filho João (3 anos) teve o seu primeiro dia de escola. De há mais de um ano que me debatia com o embaraço da escolha, mesmo que orientado para encontrar o melhor que pudesse proporcionar à criança. O desafio não estava só em encontrar uma “boa escola”, impunha-me que optasse por um modelo de escola que correspondesse, ainda que parcialmente, ao que entendo dever ser uma escola, enquanto projecto educativo e modelo organizacional.
A opção recaiu sobre a Associação Escola 31 de Janeiro, localizada na Parede, Concelho de Cascais. Não tive de recolher muita informação, dado que há muito dispunha da mesma, tendo acompanhado de perto a sua evolução nos últimos seis anos. Como o próprio nome sugere, trata-se de uma velha instituição de origem republicana, fundada em 1911, de carácter associativo, sem fins lucrativos e que desenvolve um projecto educativo que consegue conciliar de forma feliz a exigência, o rigor e a inovação pedagógica.
É uma escola sobrevivente. Integra-se num grande movimento que se desenvolveu a partir do último terço do século XIX e que se saldou por uma rede extensa de escolas comunitárias, sedeadas em associações culturais ou “sociedades de instrução”, resultantes da iniciativa dos cidadãos preocupados em “derramar a instrução pública” por todos os estratos da sociedade. Desse grande movimento, poucas conseguiram resistir até aos nossos dias. Desde a década de 50 do século XX que a generalização da “escola pública” levou ao encerramento destes pilares da cidadania, incapazes de concorrer com a gratuitidade e a progressiva cartelização das escolas do Estado.
Mais do que um resquício do passado, esta escola e este modelo é um projecto de futuro. Queiram os cidadãos tomar nas suas mãos a educação dos seus filhos e a organização autonómica das nossas escolas que o resquício se transformará num amplo movimento de reforma da sociedade portuguesa.
A minha opção está feita.
Viva o alho!
Acabo de ouvir uma entrevista com um naturopata que faz a apologia do alho. A entrevistadora atacou o senhor com as opiniões da sua avó que já apontava para os benefícios do alho.
O douto naturopata começa a historiar a importância do alho afirmando que na construção das pirâmides foram utilizados mais de 750.000 toneladas. Aqui está, provavelmente, um dos segredos da construção das pirâmides!
As virtudes são imensas, segundo o senhor: hipertensão, doenças cardiovasculares, cancro, sistema imunológico, actua como estimulante das células “natural killer”, antioxidante, colesterol, reumatismos inflamatórios, para quem faz quimio e radioterapia, tuberculose, seropositivos, cancro do fígado… Daqui a pouco deve continuar a enunciar as virtudes.
Ah! Agora, em Setembro e Outubro é bom para começar a comer alho para fazer prevenção.
Está aconselhado em todas as idades. Também afirmou que o melhor é o alho envelhecido. Tem mais propriedades que o puro! Apresentou uma receita caseira que consiste em colocar alhos em aguardente. Depois é só tomar. Não sei se às colheradas ou se às gotinhas…
De acordo com o senhor é um óptimo purificador do sangue.
Enfim, imagino que, hoje, muitos portugueses vão começar a atacar os dentinhos de alho numa tentativa de tirar partido das suas propriedades terapêuticas.
Eu não sei se a entrevistadora fez um intervalo rápido por motivos de programação ou por causa do mau hálito do naturapata.
Também não sei se existe ou não uma confraria do alho para defender as suas virtudes e benefícios. Mas se existir deve ser cá uma ambiente capaz de correr com qualquer iniciado. Recordo-me das queixas que muitos diplomatas teciam a propósito de Generalíssimo Franco. O velho ditador espanhol tinha o hábito de mastigar constantemente alho desde os tempos da Guerra Civil espanhola. Andava sempre com dentes de alho no bolso. Ninguém conseguia permanecer por muito tempo num círculo com alguns metros ao redor de Franco. Aqui está um belo exemplo de cortina contra indesejados.
No meu caso, e tirando o bacalhau assado, não tenho grande simpatia por ele. Quando a minha avó se lembrava de tratar as “bichas” obrigava-me a usar um colar de alhos, enquanto dormia, e às vezes esfregava-me mesmo no peito…
Ah! Já me esquecia. Uma doente minha, que anda sempre actualizada em função da naturopatia, acabou de substituir a estatina que andava a tomar por alho. Ora como os alhos são mais baratos que as estatinas e atendendo que cerca de 50% da população portuguesa sofre de hipercolesterolemia ainda nos arriscamos a que senhor ministro da saúde disponibilize alhos aos nossos concidadãos. Nos supermercados já se vendem. Agora poderiam vendê-los nas farmácias…
quarta-feira, 31 de agosto de 2005
Soares, nada de novo
terça-feira, 30 de agosto de 2005
Uma certa soberba
Nenhuma novidade, sendo todavia estranha a atenção que alguns dos media dedicam às não intenções dos não-candidatos.
O que verdeiramente começa a irritar é a incontida soberba com que Alegre se conduziu e conduz neste assunto das presidenciais. O mesmo se pode dizer de Soares. Ouço na SIC pela enésima vez Mário Soares a responder a um daqueles jornalistas-analistas-comentadores (que tocantemente não esconde o enlevo quase hipnótico pela vetusta figura!), que só se candidata para travar o passeio que Cavaco Silva preparava para a Avenida da Liberdade (infeliz imagem, a de ver alguém ser impedido de passear pela avenida que é da liberdade...).
Mas um e outro escondem mal a enormidade dos respectivos egos e a irresistível ambição que os move. Acham que o destino é de esquerda e são eles os predestinados.
Enfim, pode a esquerda não estar à míngua de candidatos. Mas que está cada vez mais velha, e com tiques de decrepitude, ai lá isso está!
Gato por lebre, ou o caso TVI
gato por lebre
Muito se vem falando do caso da venda a uma empresa espanhola de uma participação importante do capital da TVI e, ao mesmo tempo, da prorrogação das licenças de emissão dos operadores privados por mais 15 anos.
Conheço razoavelmente o enquadramento da questão, até porque, conjuntamente com Proença de Carvalho, Carlos Barbosa, Maria Elisa e Nuno Sintra Torres, fui um quatro subscritores do Projecto TV1, que se apresentou a concurso, em 1991, para a concessão de 2 novos canais de televisão privada, projecto esse que foi vencido, em benefício dos projectos SIC e TVI.
Nos termos da Lei, a Alta Autoridade para a Comunicação Social pronunciou-se, então, sobre os projectos, considerando que todos eles reuniam os requisitos mínimos necessários e que tinham a ver com a programação, tempos de emissão, origem dos programas, nacional ou estrangeira, cobertura do território, meios técnicos, equilíbrio financeiro e outros.
Será curioso recordar que, na sua apreciação, a AACS considerou o projecto da TVI, entre os três, como o “projecto mais modesto, quantitativamente moderado e qualitativamente menos exigente, em que a predominância da defesa dos valores do humanismo cristão influencia coerentemente o conteúdo e o estilo dos programas”.
Embora esta característica da programação não contasse da Resolução referente à concessão, ninguém duvidou de que a atribuição da licença teve tudo a ver com o facto de serem Instituições ligadas à Igreja Católica o seu principal promotor e os garantes do perfil da programação.
Passados alguns, poucos, anos os accionistas promotores da TVI, face à fragilidade financeira revelada, foram obrigados a encontrar novos accionistas. Mercê de sucessivos processos de reconstituição do capital, os accionistas fundadores vieram a dar lugar a outros accionistas que em nada participaram no projecto da fundação.
Como resultado, da TVI apenas ficou o nome, porquanto a linha de programação foi totalmente alterada, face aos novos objectivos traçados para a empresa.
A nova linha de programação em nada passou a corresponder àquele que esteve na base da concessão da licença.
Face a tão completa transformação, o facto seria, na opinião de muitos, motivo suficiente para a cessação da licença de emissão.
Não me lembro de alguém, na altura, pedir a cessação da mesma, com base em que o projecto nada tinha a ver com o que foi licenciado.
No meio da turbulência gerada com a venda aos espanhóis, foi, agora, suscitada a questão da renovação da licença por mais 15 anos.
É óbvio que tal teria que acontecer.
Terminando as actuais licenças em 2007, ninguém iria investir com o horizonte temporal de 2 anos e, para mais, sabendo que o tipo de emissão em nada se identificava com o que tinha sido proposto.
Do meu ponto de vista, e mais até do que a questão da nacionalidade do capital, interessará saber qual o perfil de programação que estará na base das novas licenças e como é que elas serão acompanhadas.
Pois, se tal não acontecer, estar-se-á, novamente, a licenciar lebre e a servir-se gato.
À martelada…
Ultimamente, temos assistido à publicitação do consumo dos genéricos em Portugal versus o Reino Unido, além de alguns debates e comentários sobre o seu uso e não uso, quer dentro, quer fora da classe médica. Um dos principais problemas dos genéricos prende-se com a confiança nos mesmos.
Afinal, os genéricos são ou não de confiança? Podemos, nós, prescritores e utilizadores confiar nos mesmos? A autoridade responsável pela introdução no mercado é ou não credível? O ministro da Saúde (seja ele quem for) garante ou não a eficácia e a eficiência dos genéricos?
Pessoalmente, desde há muitos anos, tenho optado, sempre que possível, pelo fármaco mais barato e nunca tive qualquer preconceito contra os genéricos, porque parto do princípio de que há garantias absolutas sobre as suas características e propriedades. No entanto, são inúmeras as histórias que se contam entre os médicos a este propósito. E, muitas delas não abonam nada a favor de alguns. Também tenho as minhas, e uma delas é absolutamente incrível. Expliquei a uma doente de idade que lhe ia prescrever um genérico em vez do medicamento de marca, porque era mais barato. A doente perguntou-me logo: - E é de confiança, senhor doutor? Disse-lhe, naturalmente, que era o mesmo medicamento. Passadas cerca de quatro semanas, entrou-me no consultório e disse-me de chofre: - Senhor doutor, não quero tomar mais o último medicamento que me prescreveu, quero o anterior! Fiquei surpreendido e perguntei-lhe quais as razões para o pedido que, digo com toda a franqueza, achei insólito. Respondeu-me da seguinte maneira: - Olhe senhor doutor, eu ainda tinha dois ou três comprimidos do medicamento anterior e coloquei um num copo de água. Sabe o que aconteceu? E eu respondi surpreendido: - Não minha senhora! - Pois bem, ao fim de um quarto de hora estava desfeito. - Ah! E depois? – Depois, coloquei o comprimido novo e sabe o que aconteceu? Nem respondi. Continuou a minha simpática velhinha: - Ao fim de 48 horas ainda não se tinha desfeito! E sabe o que tive que fazer para o desfazer? Cada vez ficava mais atrapalhado. - Pois bem! Tive que utilizar o martelo do meu marido, senhor doutor. Só assim é que o transformei em pó. E, agora diga-me se tenho ou não razão. Fiquei numa situação de verdadeiro “embaraço científico” perante tamanha técnica caseira de “biodisponibilidade” utilizada por uma doente muito curiosa. Balbuciei qualquer coisa tal como: - Com certeza a fábrica que fez o medicamento deve ter “apertado” demais o comprimido… Não sei se ficou convencida com a resposta, mas eu não fiquei!
Resta saber se, relativamente aos genéricos em causa, os estudos efectuados garantem ou não a eficácia dos mesmos, porque a saúde dos doentes é sagrada e merece todo o respeito. E, já agora, deveríamos sacar as devidas responsabilidades relativamente a algumas situações, nem que seja à martelada…
segunda-feira, 29 de agosto de 2005
Dos revolucionários tempos da Constituinte republicana
Cidadão José Cordeiro Junior.- Tendo visto nos jornaes de hontem que nas Constituintes foi apresentado um projecto de lei pelo Exmo. Sr. Innocencio Camacho, para que fossem contemplados com a pensão animal de 300$000 réis todos os sargentos que foram promovidos a officiaes no movimento revolucionario de 5 de outubro, peço a V. Exa. para em meu nome declarar peremptoriamente á Exa. ma Camara, sem desprimor para ninguem, que não acceito tal pensão, por achar em primeiro logar que, no momento actual em que o país atravessa uma crise financeira tão aguda, não deverei concorrer para o aggravamento d'essa crise recebendo pensões, e, em segundo logar, porque, tendo tomado parte nos movimentos revolucionarios de 28 de janeiro, de que V. Exa. é fiel testemunha e no dia 5 de outubro, todos os meus insignificantes serviços prestados, quer num quer noutro movimento, em beneficio da nossa tão querida Patria, já foram largamente recompensados pela honrosa promoção ao posto de tenente que me foi conferida por decreto de 22 de outubro do anno proximo passado.
Saude e Fraternidade.
Lisboa, 14 de julho de 1911. = Artur Celestino Sangreman Henriques, tenente da Guarda Nacional Republica, ex-sargento ajudante de artilharia n.° 1".
Dos preciosos tempos da Constituinte de 1975
"Solicito a seguinte rectificação ao n.º 89 do Diário da Assembleia Constituinte: na p. 2877, col. 2.ª, l. 34, a seguir à expressão «meu amigo», acrescentar, além de uma vírgula, o seguinte: «comemos da mesma gamela».
Lisboa, 5 de Dezembro de 1975. - Fernando Barbosa Gonçalves (Deputado do PPD)"
:)
A "golpada" do referendo e as presidenciais
Paulo Gorjão viu muito bem este cenário e Vital Moreira entretem-se a mandar poeira para os olhos de quem o lê. Somos todos parvinhos...
domingo, 28 de agosto de 2005
Autarquias: uma agenda para o debate político – 3
A ingenuidade "independente" de Carmona Rodrigues revelada pela negociação abortada de lugares nos órgãos de gestão das empresas municiais, recebendo em troca o apoio político do PND e do PPM, é pretexto para um novo ponto da agenda para o debate político sobre as autarquias. Já abordámos este tema das empresas municipais em posts anteriores (consulte-se aqui, aqui e aqui), mas pelo que aconteceu entretanto julgo que vale a pena voltarmos ao assunto.
A participação dos Municípios no capital de empresas cujo fim é o de satisfazer de forma mais eficaz e com valor acrescentado as necessidades de defesa do interesse público e a qualidade do serviço prestado às comunidades locais, é, a meu ver, benéfico e vantajoso para esses mesmos municípios, desde que a gestão empresarial, em confronto com a gestão administrativa, se traduza em vantagens iniludíveis para o interesse público. Esta última condição é decisiva para a viabilidade de uma empresa municipal.
Neste contexto, não é compreensível que a designação dos gestores dessas empresas se submeta ao primado da lógica política. Aceito que essa nomeação se oriente por critérios de confiança política, mas é indispensável que eles se sujeitem prioritariamente a critérios de competência de gestão.
No caso da nomeação de vereadores para os órgãos de gestão das empresas municipais o efeito parece-me ser ainda mais perverso: um membro de um órgão (Câmara) que tutela a empresa é ao mesmo tempo tutelado, gerando uma promiscuidade pouco saudável. É razoável a nomeação de vereadores para órgãos de representação dos accionistas (AG’s) ou de fiscalização (CF’s), nunca para órgãos executivos.
Infelizmente não é este o princípio que orienta as nomeações para cargos executivos de empresas municipais nem a sua lógica tem a ver com a defesa do interesse público.
Seria bom que os diferentes candidatos às presidências camarárias das mais importantes autarquias pudessem ser questionados sobre esta opção. Esclareceriam decerto muitas dúvidas que por aí andam.
O efeito placebo
Ninguém sabe qual dos três cientistas; Thomas Sydenham, Armand Trousseau ou William Osler, é o responsável pela afirmação: quando aparece um novo medicamento, o melhor será aplicá-lo o mais rapidamente possível e no maior número de pessoas.
Todo o fármaco tem também um efeito placebo e o mesmo não pode ser ignorado, já que, quando aparece, está aureolado de enormes expectativas. Os médicos são os primeiros a entusiasmarem-se e anseiam por utilizá-lo. Quando iniciam a prescrição, transmitem aos seus doentes expectativas de melhorias significativas. Os doentes "sentem" isso. É durante o período de introdução que se irá observar resultados muito positivos, os quais constituem o somatório do "verdadeiro" efeito do produto e do efeito placebo que acarreta. Por este motivo, os autores citados já afirmavam que se devia tratar o máximo número possível de doentes, enquanto a nova droga tenha ainda poder para curar.
Os políticos utilizam o "efeito placebo" de uma forma abusiva. Convinha saber um pouco mais dos efeitos reais e biológicos do mesmo. A associação dos efeitos "terapêuticos" reais das medidas, com o efeito placebo, poderia criar "bem-estar" individual e colectivo, circunstância que deveria ajudar a curar muitas maleitas sociais. Mas, não podem esquecer que devem tratar o máximo número possível dos problemas, enquanto as novas terapêuticas ainda tenham poder para curar...
“Similia Similibus Curantur”
Samuel Hahnemann, médico alemão, com base no princípio “Similia Similibus Curantur”, de que “o semelhante cura o semelhante”, originou uma corrente à qual muitas pessoas se apegaram com fé e determinação propiciando o nascimento e o desenvolvimento de uma indústria lucrativa.
A busca de uma teoria, que garantisse a idoneidade científica, levou ao dislate de aproveitar um trabalho célebre, publicado na revista Nature, em 1988, pelo francês Benveniste. Neste artigo, o imunologista definiu aquilo que poderia ser considerada como a “memória da água”. Após o desaparecimento do princípio activo, através de várias diluições, a água ficava com a memória da substância e, deste modo, continuaria a originar os efeitos. Posteriormente, foi verificada a ausência da reprodutibilidade das experiências pelo próprio editor, John Maddox, auxiliado pelo mágico e denunciador de pseudo-cientistas James Randi e o investigador de fraudes Walter Stewart.
Caiu em descrédito a tão desejada base científica da homeopatia.
Apesar das críticas a esta corrente terapêutica, que já vem desde os tempos de Hahnemann, são incontáveis as pessoas, muitas com nível cultural elevado, que defendem as virtudes das medicinas ditas alternativas. Pessoalmente sinto uma tremenda dificuldade em debater, e em tentar mudar, o comportamento destas pessoas. A explicação é muito simples: as pessoas que as praticam invocam motivos que mergulham mais na fé do que na razão. Ora, fé e razão, apesar de poderem conviver, não são miscíveis. Sendo assim, não vale a pena argumentar cientificamente contra quem nos responde com a fé. O pior é que muitas doenças não são compatíveis com o efeito placebo da homeopatia e, ao fim de algum tempo, desaparece o entusiasmo e a crença é substituída pelo desespero obrigando-os a regressarem ou a procurarem os convencionais, os alopatas.
O respeito pelo ser humano impede, naturalmente, de fazer qualquer crítica ou comentário. Mas, o mal apresenta-se, muitas vezes, em fases avançadas e, ao que eu saiba, até agora, nenhum homeopata foi acusado de erro médico ou de negligência por má prática.
Praticar homeopatia é uma forma segura de ganhar a vida, estar protegido de algum litígio legal e permanecer imune – como é óbvio – a imperativos morais.
Carl Sagan afirmou um dia que “a má ciência combate-se com a boa ciência”. Parafraseando-o, podemos afirmar que a má medicina combate-se com a boa prática médica.
Há, no entanto, necessidade de realçar um aspecto ligado à homeopatia que pode ajudar a explicar o efeito placebo: o facto de saberem ouvir as pessoas. Todos temos consciência deste pormenor que é saber ouvir e dar atenção às pessoas. Só este facto, praticado pelos homeopatas, amigos, familiares, padres, bruxas, astrólogos, psicólogos, assistentes sociais e até médicos, entre outros, contribuem para a saúde de muitos. É imperativo reintroduzir a nobre forma de actuar que é ouvir e dar importância às pessoas que, na classe médica, atendendo ao cada vez mais elevado tecnicismo, se está a perder.
Quanto aos aspectos científicos, os homeopatas afirmam que, no seu caso, as regras utilizadas pela ciência convencional não se lhes aplicam. Conceito interessante. Também não se aplicam às bruxas.
A crendice é violenta e por vezes irredutível. Quanto a mim lá terei de limitar a sorrir e a dizer que não são assuntos do meu rosário, quando sou confrontado pelas afirmações categóricas dos seus defensores. É uma forma de respeitar a liberdade de cada um e, ao mesmo tempo, evito ser estiolado perante situações que acabam, algumas vezes, em dramas terríveis.
Qual é o médico que não tenha uma ou mais histórias que comprovem certas desgraças?
sexta-feira, 26 de agosto de 2005
Notícias de Portugal, lá fora
Sente-se isso quando saímos do País e estamos mais atentos ao que relatam sobre nós os meios de comunicação locais e internacionais.
É triste a sensação de ver Portugal ser notícia pelas piores razões. Sentia-a de novo. Em finais de 2002 estava longe e foram as cheias a notícia. Tempos depois, recorrentemente, a ideia de que eramos um País onde campeava a pedofilia. Agora as imagens do horror da floresta em chamas, do desespero e desnorte de gente simples, da ajuda de outros países a pretexto de não termos os meios de combate à situação. Nenhuma referência ao heroísmo de muitos.
Estive estes últimos dias fora. Foram dias de notícias sobre os incêndios nas principais cadeias internacionais. Dir-se-á que nada aconteceu neste rectângulo que merecesse honras de notícia nos media transnacionais. E talvez nada tenha acontecido de relevo. Lidos alguns dos posts deste e de outros blogues, de facto parece que "tudo como dantes, quartel-general em Abrantes"...
Notícias de portugueses, lá onde estive, de dois somente. Um comentário ácido à fraqueza da liderança - no meio de uma pouco honrosa comparação com Prodi - de Durão Barroso numa Europa alargada que exige lideres fortes e com ascendência sobre os políticos nacionais . E uma reportagem - muito simpática para o próprio, extensa e pormenorizada - sobre uma deslocação de António Guterres a campos de refugiados.
Tirando isso, sobra o produto nacional de que nos fala o Pinho Cardão e que vende bem lá fora: o futebol. Deu até para ver uns resumos e uns comentários divertidos sobre a entrada de algumas equipas no campeonato...
Não perdi porém a esperança de, numa próxima deslocação, elevar o som da TV no dia em que for noticiado que a economia de Portugal cresceu bem acima da média europeia.
Só espero que me deixem gozar suficientemente o sabor desse momento, e não me acordem intempestivamente...
As Três Parcas
As três Parcas
As três Parcas que tecem os errados
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.
Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.
E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério
Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.
(Sophia de Mello Breyner)
Desde que o homem é homem sempre procurou viver mais anos. E, continua a procurar, incessantemente, a imortalidade e a eterna juventude.
Na sua interpretação das causas e efeitos, criou as parcas ou as moiras, colocando o futuro nas suas mãos.
Enquanto Clotho fia o fio da vida, Lachesis decide o seu destino e Atropos espera, avidamente, o momento de o cortar.
As experiências e a investigação na área do envelhecimento têm sofrido impulsos enormes nos últimos anos. A ponto de nalguns animais se ter conseguido duplicar o tempo de vida.
As melhorias das condições de vida e do comportamento humano aliadas à intervenção deliberada das ciências da saúde foram determinantes para o aumento da sobrevivência da nossa espécie verificada em alguns cantinhos privilegiados deste planeta. Mas, os factores genéticos são, sem sombra de dúvida, essenciais na compreensão deste fenómeno.
Se as descobertas feitas até ao momento passarem a ser aplicadas nos seres humanos, ainda nos arriscamos a viver muito mais e, consequentemente, a ter de trabalhar até mais tarde adiando a idade da reforma lá muito mais para a frente.
Mário Soares na sua entrevista à SIC, a propósito de ter a idade que tem, disse: - Não tenho culpa da idade que tenho. É uma graça ter chegado aqui e com as minhas faculdades a actuarem. É uma graça!
É verdade, é uma graça e, muito provavelmente, Clotho soube, no seu caso, fiar bem o fio, enquanto Lachesis vai decidindo o seu destino. Sinceramente espero que Atropos ande distraída não só em relação a este gerontocrata assim como a todos nós.
A existência de um gene denominado Clotho parece suprimir o envelhecimento nos ratinhos. O homem também tem este gene. Assim, é muito provável que genes modificados possam aumentar a sobrevivência nos seres humanos à semelhança do verificado nos ratinhos. Como este gene está na origem de uma “hormona” específica, veja-se o que poderia acontecer nos próximos tempos: várias individualidades (à excepção dos que tem genes Clotho de primeira água) a correrem diariamente para as salas de chuto assistidas onde, prazenteiramente, se injectam com a hormona anti-envelhecimento dirigindo-se logo a seguir para os seus gabinetes de trabalho a fim de decidirem o futuro do país. Ou, então, a obrigação de os contribuintes terem de tomar a sua dose diária – de preferência sob vigilância directa de um superior – para que possam permanecer activos e, deste modo, adiar a reforma.
Um dia, ainda poderá acontecer alguém candidatar-se aos 100, ou aos 110 anos a qualquer cargo, basta que tenha a graça de ter bons genes. No caso de não os ter, então, use e abuse de “Clotho”, a hormona anti-envelhecimento.
Coitada da Atropos…
O futebol - produto internacionalmente competitivo
A par das paixões que suscita, o futebol também carrega o ónus de ver os seus dirigentes todos os dias na praça pública, muitas vezes por motivos menos recomendáveis.
No entanto, e apesar disso, o futebol vem constituindo um dos produtos portugueses internacionalmente mais competitivos.
A Selecção Nacional é vice-campeã europeia e ocupa um dos lugares cimeiros do ranking da FIFA(Federação Internacional do futebol association).
O produto futebol da Futebol Clube do Porto venceu a 2ª maior competição da UEFA(União Europeia do futebol association), em 2003 e a maior competição europeia de clubes, em 2004(Liga dos Campeões).
Ainda no final do ano passado ganhou a Taça Intercontinental, o que lhe dá o direito de ainda ostentar o título de Campeão do Mundo de Clubes.
Tal se deve à reestruturação pela qual passaram os clubes, após a sua organização em empresas promotoras de espectáculos de futebol.
Os clubes já são grandes empresas em Portugal.
Por exemplo a SAD (Sociedade Anónima Desportiva) do F.C. Porto é uma das maiores empresas portuguesas.
O seu volume de negócios, da ordem dos 55 milhões de euros, coloca-a nas 350 a 400 maiores empresas portuguesas, na companhia de empresas bem conhecidas como a Têxtil Manuel Gonçalves, os STCP ou a RTP.
Em termos do valor acrescentado que a sua actividade gera, a SAD do F.C.P. encontra-se nas 150 maiores empresas do país, a par de outras como a Nabeiro, a CIN, ou a Lisnave.
A SAD do F.C.P. é também, e aqui o espanto poderá ser maior, uma das maiores exportadoras portuguesas: com 100 milhões de euros de vendas ao exterior, materializadas na cedência de direitos desportivos de futebolistas, em 2004, é uma das 50 maiores exportadoras nacionais, com dimensão semelhante, no ano, à das exportações da Siemens ou da Lameirinho.
A exportação tem sido uma actividade consistente nos últimos anos.
Só neste defeso (Junho a Agosto) a cedência de direitos desportivos por parte da SAD doF.C.P. atingiu os 32,5 milhões de euros.
O futebol deixou de ser só paixão e tornou-se uma actividade económica relevante, devendo também ser apreciado por este ângulo.
quinta-feira, 25 de agosto de 2005
"Homens, mulheres e inteligência"...
Volta e não volta vem à baila a problemática das diferenças sexuais e “rácicas”. Aliás, um dos co-autores deste estudo, Richard Lynn, já foi alvo de críticas pelas suas posições eugénicas.
Em 1994, o livro de Richard J. Herrnstein, The Bell Curve, apontava para a inferioridade intelectual dos “afro-americanos”. Os trabalhos de Richard Fynn constituíram algumas das principais referências bibliográficas de Herrnstein.
Em 2002, Fynn publicou um artigo intitulado “Skin color and intelligence in African Americans”. Neste trabalho, o autor fez a afirmação de que os “afro-americanos” com pele mais clara eram mais inteligentes do que os tinham a pele mais escura!
O facto de os homens terem cérebros mais pesados ou serem capazes de realizarem certas tarefas com mais facilidade que as mulheres não é suficiente para tamanha descriminação e muito menos fazer quaisquer afirmações de superioridade.
Quando li a notícia recordei-me de algumas ex-colegas parlamentares que não se iriam calar perante estas conclusões.
Só muito recentemente é que as mulheres começaram a ter oportunidades. Veja-se o caso da frequência do ensino superior. Num passado recente era predominantemente masculina. Hoje, está “feminizada”. Recordo-me que há alguns anos os meus alunos eram maioritariamente homens. Agora, até fico “inibido” perante tamanha plateia de meninas. São tantas e tantas que quando aparece um rapaz até parece um milagre!
Depois digam que os homens são mais inteligentes do que as mulheres…
Autarquias: uma agenda para o debate político – 2
As recentes declarações de Paulo Morais à revista Visão (não há link, mas como alternativa consulte-se uma síntese aqui) são pretexto para mais este post sobre política autárquica. Esclareça-se, antes de mais, que tenho uma profunda admiração e uma já antiga relação de amizade com Paulo Morais, ainda que não fale com ele vai para três anos.
Paulo Morais ao afirmar que “existe uma preocupante promiscuidade entre diversas forças políticas, dirigentes partidários, famosos escritórios de advogados e certos grupos empresariais” não está a revelar-nos nada de novo. Todos sabemos que, infelizmente, assim acontece. O problema está em saber em que se traduz essa promiscuidade: benefícios ilícitos? Ilegalidades? Delapidação do património público? Corrupção? Financiamento e branqueamento de capitais?
Paulo Morais não pode acusar na generalidade e remeter para as suas memórias a identidade dos referidos casos. São perfeitamente compreensíveis as reacções de Fernando Ruas (se conhece essas situações que as denuncie a quem de direito) ou mesmo de João Teixeira Lopes solicitando intervenção do PGR.
Mas o que se deduz das declarações de Paulo Morais é bem mais importante: na Câmara do Porto, com em tantas outras por esse país fora, a decisão política tem um elevado poder discricionário de aprovar ou não projectos imobiliários. Eu não creio que possa competir a um vereador com o pelouro do urbanismo a capacidade de aprovar ou não um projecto só porque é um “mamarracho”, porque se acha agradável a arquitectura, ou porque entende que deveria ter mais um piso ou menos dois. Das duas uma: ou o vereador está a exorbitar a sua competência ou o sistema de planeamento e gestão urbanística não funciona (ou funciona mal), deixando à decisão política a margem de intervenção discricionária que não deveria existir.
Quem tem conhecimento e experiência autárquica sabe que a qualidade desse sistema de planeamento e gestão urbanística está na relação inversa do risco de discricionariedade e este na relação directa com o poder de conceder favores.
Dos oito anos que passei numa autarquia retenho uma frase de um grande urbanizador que reagiu assim às críticas que eu dirigia sobre alguns projectos imobiliários: “Senhor Professor, nós só fazemos o que a lei e os senhores nos deixam fazer”. Se a “lei” é fraca e os “senhores” também, é natural que surjam denúncias como a de Paulo Morais.
quarta-feira, 24 de agosto de 2005
“Intelligent Design”: neo-creacionismo ou pós-evolucionismo?
As declarações de George Bush no princípio deste mês relativas ao direito de nas escolas americanas se poderem ensinar “diferentes ideias e teorias” sobre a origem e evolução da humanidade reacendeu o debate na sociedade americana entre creacionistas e evolucionistas. Os primeiros desejosos de validar a “cientificidade” de uma concepção religiosa, os segundos cerrando fileiras em torno da diferença entre crença e ciência.
Mas o que o discurso de Bush traz como novidade para a opinião pública é a alusão à chamada “intelligent design theory”, uma visão que desafia o adquirido científico e promove a ideia da existência de uma força “invisível” por detrás do desenvolvimento da humanidade.
Aparentemente, poderíamos pensar que se trata de uma espécie de neo-creacionismo, um segundo fôlego mais sustentado e verosímil dos creacionistas no eterno combate pela afirmação das suas posições, maioritariamente identificadas com os grupos cristãos. Só aparentemente!
Num artigo publicado em 2004 nos Proceedings of Biological Society of Washington, mas só recentemente tornado acessível na net, o Dr. Stephen C. Meyer argumenta que nenhuma teoria materialista da evolução dá qualquer contributo para identificar a origem da informação necessária para construir novas formas animais. Ele propõe o “intelligent design” como uma explicação alternativa para a origem da informação biológica necessária. O próprio título do artigo é elucidativo: “Intelligent design: the origin of biological information and the higher taxonomic categories”.
Vale a pena ler.
terça-feira, 23 de agosto de 2005
Informação, ou arte de encher chouriços?
Dezenas de fogos continuam incontroláveis em todo o país. A situação mais grave é em Coimbra (ou em Viseu, ou em Abrantes…). Já arderam dezenas de milhar de hectares de mata, há casas queimadas, culturas perdidas e o fogo já chega a alguns dos bairros novos da cidade.
No Governo Civil está a decorrer uma reunião, com vista a estudar a criação de um Gabinete de Crise.
Vamos ligar ao Serviço de Protecção Civil.
.Serviço de Protecção Civil: Boa Noite. De facto, três dezenas de fogos continuam incontroláveis em todo o país. A situação mais grave é em Coimbra, onde já arderam dezenas de milhar de hectares de mata, há casas queimadas, culturas perdidas e o fogo já chegou às imediações da cidade.
Está em estudo a entrada em funcionamento do Gabinete de Crise.
.Pivot de um telejornal:
Muito obrigado. Vamos agora ligar ao nosso colega presente no local, em Coimbra.
.Jornalista presente no local:
De facto, continuam incontroláveis os incêndios ao redor de Coimbra. Segundo a Protecção Civil, já arderam dezenas de milhar de hectares de mata, há casas queimadas, culturas perdidas e o fogo já chegou às imediações da cidade.
Está neste momento a terminar a reunião no Governo Civil, onde esteve sobre a mesa a entrada em funcionamento do Gabinete de Crise.
Muito boa-noite, Sr. Governador Civil. Pode fazer-nos o ponto da situação dos incêndios em Coimbra?
.Governador Civil:
A situação é grave e, apesar do trabalho meritório dos bombeiros, continuam incontroláveis alguns focos de incêndio no distrito de Coimbra.
A prioridade são as pessoas, mas os prejuízos materiais são elevados: já arderam dezenas de milhar de hectares de mata, há casas queimadas, culturas perdidas e o fogo, como é visível, já atingiu a própria cidade.
Estamos a estudar a implantação de um Gabinete de Crise.
.Jornalista: Muito obrigado. Está assim dado o ponto da situação em Coimbra.
Atenção Estúdios.
.Pivot do Telejornal:
Muito obrigado.
Prosseguindo neste tema, vamos ligar à Direcção Nacional dos Bombeiros.
Sr. Director: pode-nos informar sobre a real situação dos fogos?
.Director Nacional dos Bombeiros: A situação é grave…….
Pivot do Telejornal: Tem interesse agora ouvir o Sr. Presidente da Câmara de Coimbra, um concelho dos mais atingidos pelos fogos. Ele encontra-se junto ao nosso posto de reportagem. Sr. Presidente: como avalia a situação?
.Presidente da Câmara: A situação continua dramática, já que o fogo atingiu casas da própria cidade. Faltam meios aéreos e nota-se descoordenação, pese o meritório e esforçado trabalho dos bombeiros…por isso, arderam milhares de hectares de floresta, perderam-se culturas e muitas casa foram destruídas...
Assim vai a ”informação” sobre o flagelo dos incêndios
O objectivo não é, obviamente informar, mas encher tempo de telejornais, utilizando a desgraça das populações para, sem escrúpulos, fixar audiências…
Os telejornais transformaram-se em fábricas de encher chouriços!...
Ecocídio
Acordar às 3 horas da manhã com a sensação de afogamento em pleno ar é de por em pânico qualquer um. Tive vontade de fugir para Coimbra para ver se conseguia respirar. Mas se tivesse ido àquela hora não teria melhor sorte. Também ardia. De manhã quando entrei na cidade foi como se tivesse entrado num mundo diferente. Uma nuvem castanha dourada tapava completamente a cidade. Ao longo da nova circular, de um lado, emergiam colunas de fumo em terrenos completamente devastados, do outro, chamas e mais chamas. Ao chegar a casa olho para a encosta já queimada e, mesmo assim, as labaredas, obstinadamente, começaram a destruir mais uma habitação.
As pessoas andam tristes e sentem-se impotentes face ao drama que nos atinge de norte a sul. Apontam-se como causas: as condições climatéricas, a falta de limpeza das florestas, o mau ordenamento, os interesses económicos ligados às madeiras e à construção, os pirómanos (muitos deles alimentados pelas notícias), a falta de meios de luta contra os fogos, insuficientes medidas políticas de prevenção florestal, mão leve ou levíssima da justiça e negligência grosseira. Enfim, causas perfeitamente identificadas e que não podemos por em causa. Mas há uma – tem de ser – que deve ser equacionada e sem a qual não é possível explicar esta peste: maldade. Há um verdadeiro terrorismo nacional. Se virmos bem, o acto mais simples de realizar, em termos de terrorismo, é foguear. Basta andar pelos mais variados caminhos do país para verificar que, deitar fogo, capaz de destruir riqueza e vidas, é de uma simplicidade atroz. Não precisam de tecnologias de ponta para fazerem bombas químicas, biológicas ou convencionais.
Esta causa – terrorismo – tem de ser tomada em linha de conta, até, porque está a tomar conta das populações. Nas minhas conversas por estes lados já muitos me disseram: - Está a ver? Eles já cá estão! - Mas eles quem? Pergunto. - Os da Al Quaeda, ou lá como se chamam. - Qual Al Quaeda, qual quê! São terroristas, sim, mas são nossos.
Importa saber o que leva algumas pessoas a provocarem verdadeiros ecocídios. Tem de haver factores sociais susceptíveis de desencadear comportamentos anómalos nalguns indivíduos mal estruturados.
Aos gritos de desespero das pessoas associam-se os sons explosivos das árvores a serem vitimadas, verdadeiros gritos de morte.
Alguns povos do Norte da Europa acreditam que nas árvores habitam bons espíritos e têm muito respeito, resquícios das épocas em que os adoravam. Em Portugal, o diabo, que anda à solta, acaba por expulsá-los. O inferno reina entre nós.
O que representa a candidatura de Mário Soares?
Já os meus amigos republicanos dissertaram sobre a candidatura de Mário Soares, na blogosfera o tema é recorrente, nos jornais sucedem-se as cartas de apoio. Regressado de férias até me sinto mal se não escrever qualquer coisa. Aqui vão cinco ideias (nada inovadoras) mas que poderão ajudar a perceber a valia actual do candidato Mário Soares:
- Mário Soares é um candidato de terceira escolha – Primeiro foi Guterres que se “refugiou”, o segundo foi Vitorino que se “encolheu”, Alegre poderia ser a quarta e para não dispersar ainda há Almeida Santos. Freitas do Amaral foi claramente descartado.
- Mário Soares é o candidato da situação – A sua indicação, perante a opinião pública, partiu da iniciativa do Secretário-geral do PS e Primeiro-ministro José Sócrates, foi validada e saudada pelo aparelho do partido (Federações), os seus apoio estão a ser recrutados a partir dos Governadores Civis e dos notáveis de esquerda. É claramente uma candidatura partidária.
- Mário Soares gostaria de ser o candidato da “Esquerda” – para centrar o debate na oposição esquerda/direita, mas, pelo que tenho ouvido não o será: o PCP quer apresentar candidato próprio e o BE não andará longe da mesma opção. Só o receio de uma vitória de Cavaco à primeira volta os faz tremer.[Actualização]O PCP avança com Jerónimo de Sousa o que limita as hipóteses de Soares. Neste contexto não é crível que o BE dispense a apresentação de candidato próprio (Fernando Rosas?). Pode não ser um "passeio" de Cavaco Silva pela "Avenida da Liberdade", mas acho que vale a pena apostar na vitória à primeira volta.
- Mário Soares será o candidato da Velha Europa – Quer externa quer internamente são os paradigmas da Velha Europa que são personificados pela candidatura de Soares: tudo o que há de mais retrógrado e que faz travar o ressurgimento europeu estará presente no seu programa. Basta recensear os temas e as posições políticas dos últimos seis anos.
- O que vai Mário Soares prometer à base social de apoio do PS que entretanto se zangou com o Governo? O que vai prometer aos funcionários públicos, aos professores, à classe média das vilas e cidades que se sente enganada por José Sócrates? Nada, resta-lhe acenar com o espantalho do “cavaquismo” e da direita autoritária, ou seja, uma campanha por baixo. Julgo que Cavaco Silva saberá lidar com esses estratagemas.
segunda-feira, 22 de agosto de 2005
“Não quero que morra sozinha”…
A SIDA, quer queiramos quer não, tem uma componente política muito forte que não devemos ignorar. A este propósito revi um pequeno texto escrito na sequência da minha participação numa reunião internacional.
Numa conferência internacional dedicada ao tema SIDA em África, patrocinada pela Associação Europeia de Parlamentares para a África, foi descrita e analisada o panorama actual neste continente. Situação dramática em que os milhões constituem a unidade básica da contagem dos mortos e dos que adoecem. Quando se entra nestas esferas quantitativas dos fenómenos, ficamos um pouco anestesiados, pois só com muita dificuldade é que somos capazes de “destrinçar” quatro de cinco ou seis milhões!
Um dos oradores, professor de economia de uma universidade do sul da África fez uma abordagem muito interessante sob o ponto de vista sociológico e científico. Mas, o que me tocou mais, além dos números e das taxas de infectados, que, nalguns países, ultrapassam os 30% foi uma pequena história. Contou o conferencista que, um certo dia, um reverendo encontrou uma anciã a trabalhar, transportando uma criança ao colo. Surpreendido, perguntou-lhe: - Avó porque é que está a trabalhar e ainda por cima com uma criança ao colo? A velha respondeu-lhe: - A criança tem sida e vai morrer. Quando morrer não quero que esteja sozinha.
Trata-se do mais evidente sinal de desagregação familiar, à qual se associa a falta de professores que vão morrendo, a morte de parlamentares e dos poucos técnicos, o não registo nos cadernos eleitorais, o comprometimento do próprio e incipiente sistema democrático, enfim a desestruturação total das sociedades, pondo em causa a própria essência da negritude.
A SIDA é um problema médico, com relevância particular em saúde pública, mas é, também, um grave problema político que urge resolver. Ao Ocidente compete contribuir de uma forma mais eficiente para a solução das graves dificuldades que vão pondo em causa a sobrevivência do continente africano.
Ave Maria Catholic Fund
Não, não se trata de qualquer iniciativa da Igreja Católica, mas da acção da economia de mercado, que tem a suprema qualidade de ajustar o tipo de produtos oferecidos aos desígnios das populações.
Na área financeira esse ajustamento é evidente em múltiplas situações, desde o crédito à habitação até à oferta de produtos financeiros muito sofisticados.
Tendo notado uma tendência de um número elevado de pessoas no sentido de condenarem práticas abusivas das empresas, os Bancos americanos lançaram os Fundos de Investimentos Éticos, que seleccionam as empresas em que propõem aplicações de acordo com exigentes padrões de responsabilidade social.
Assim, os Fundos Éticos não investem em empresas de tabacos ou de bebidas alcoólicas, que atentem contra o ambiente, que produzam armamento, que tenham comportamentos contabilísticos ou fiscais desadequados.
Acontece que os investidores não se têm queixado das rentabilidades obtidas!...
Ultimamente, também na América, foram lançados por diversas entidades financeiras os Fundos Católicos, cujas aplicações são orientadas pelos princípios da Religião Católica.
Estes princípios levam a excluir aplicações em empresas com actividades “associadas a práticas abortivas, à pornografia, ou que concedam benefícios especiais a empregados solteiros”, entre outras exclusões.
O Ave Maria Catholic Value é o melhor exemplo desta filosofia de investimento.
Trata-se de um Fundo criado em 2001, e que apresentou nos últimos 3 anos uma rentabilidade de 18%, uma excelente rentabilidade.
Com efeito, no mesmo período, o Standard & Poor,s 500, representativo das 500 maiores empresas cotadas na Bolsa de Nova Yorque teve uma rentabilidade de 12%.
Devido aos princípios em que assenta e às rentabilidades obtidas, o Ave Maria Catholic Fund tem sido um verdadeiro sucesso.
Ultimamente desinvestiu as aplicações numa empresa de “T-shirts”, pelo facto de esta ter começado a comercializar uma linha de camisolas consideradas "demoníacas", mas o desinvestimento traduziu-se em apreciáveis mais valias!...
Não tardarão muito estes Fundos em Portugal.
Fogos e Florestas, a propósito das “causas estruturais”
O Primeiro-ministro José Sócrates tem destas coisas: quando a contestação à actuação do Governo no combate aos incêndios começa a “queimar”, vira a agulheta para a contestação e deixa a floresta a arder. A peregrina proposta de debate em torno das “causas estruturais” dos incêndios não é mais do que tentar apagar a contestação quando o que se pretende é apagar os fogos.
No meio da manobra é curioso ver como reage o maior partido da oposição. Quanto à proposta, pelas palavras do seu porta-voz, “parece pouco”. Mas o mais curioso é o autêntico acto de contrição que se lhe segue (cito a partir da edição impressa do Público): Instado a comentar as palavras do Chefe do Governo, Azevedo Soares admitiu que os anteriores governos descuraram igualmente as políticas de prevenção dos incêndios: “É necessário reconhecer isso”. “As medidas tomadas pelos responsáveis não têm sido famosas e não se pode esconder esta realidade”.
Fico atónito com o que leio e fico com a impressão que não existiu um Ministro chamado Armando Sevinate Pinto, que não existiu um Plano de Prevenção e Protecção da Floresta contra Incêndios (das melhores iniciativas que se tomaram neste domínio e com as medidas estruturais todas lá metidas!) e que o PSD não esteve no Governo nos últimos anos. O remate final das declarações é esfusiante: O PSD não pretende transformar a questão dos incêndios “num terreno de combate político”. Chama-se a isto sacrificar o combate externo ao ataque interno.
Será excesso de humildade democrática a raiar a auto-flagelação?
Não, não é. É a incorrigível ambição de querer ganhar credibilidade descredibilizando os outros, mesmo os que são do próprio partido.
Já conheço esse truque.
Autarquias: uma agenda para o debate político – 1
É de uma pobreza franciscana o contributo das lideranças partidárias para a qualificação das políticas autárquicas e para a sua valorização no debate político. A iniciativa mais sonante terá sido a (diferida) limitação dos cargos executivos das autarquias. Para uns terá sido um “acordo histórico”, para mim foi mais uma forma de lançar “lama” sobre os presidentes de câmara, quando a iniciativa se justificaria para todos os cargos executivos. Ainda que não previsto na Constituição, sou defensor da generalização do princípio a todos os detentores de cargos políticos.
Se os partidos se querem credibilizar perante a opinião pública, antes de aplicar o princípio aos autarcas deveriam aplicá-lo nas estruturas partidárias aos dirigentes das Concelhias e Distritais de onde emana o poder de influenciar e fazer eleger delegados aos congressos, de propor e aprovar candidatos às autarquias e de elaborar as listas de deputados. Depois de o fazerem os partidos ganhariam crédito e capital político para o exigirem para os restantes cargos. Assim, mais tarde ou mais cedo, não há crédito, há descrédito.
A guerra surda (e suja!) de listas e de posições que antecede os actos eleitorais são um reflexo do enquistamento destas estruturas e um dos principais factores de descrédito da política partidária. Há dirigentes partidários que ocupam os mesmos lugares há décadas e isso só é possível porque o propósito da sua acção é o de reproduzirem esse poder e não o de incorporarem na política a dinâmica e os anseios das comunidades onde se inserem.
Nos primeiros dez a quinze anos do regime democrático português em que os partidos precisaram de recrutar aqueles que mais se distinguiam na sociedade, de forma a sustentar a sua implantação, houve crescimento e qualificação da classe política. A partir da altura em que se consolidou esse regime, as estruturas partidárias fecharam-se sobre si mesmas e qualquer novo recruta que se disponibiliza deixa de ser um valor acrescentado para se transformar numa ameaça a quem está no poder. A única forma de romper com esta lógica tem sido o recurso sistemático aos “independentes” que acabam por entrar “por cima” quando o deveriam fazer “por baixo”.
O que vamos votar no próximo dia 9 de Outubro, em grande parte, é o resultado deste estado da “coisa” partidária. Pois, votemos…
Triste espectáculo
Parece que o melhor que cada um tem a esperar dos seus autarcas é que não sejam corruptos, por isso se proclama "Mãos limpas" ou "Em boas mãos" ou outras subtilezas parecidas, como o "Polvorosa" ou "Seriedade", como se no momento do ajuste de contas se possa dizer alto o que se calou até então.
Confesso que não gosto do estilo. Se há coisas a denunciar, que se denunciem com frontalidade, para que se não repitam e sejam punidas, mas dar a entender que todos sabem mas que ainda assim se convive bem com isso é que realmente me repugna.
A política não se credibiliza pela negativa mas pela afirmação clara de princípios de conduta que depois têm que ser evidentes para a população.
Quem ande pelo País fora fica com a ideia de que somos um povo de acusadores anónimos, de "não-sei-se-estás-a-perceber..." , aumentando o descrédito e a suspeição sobre todos os que se atrevem a entrar "no meio".
Pode ser que ainda se corrija esta tendência, mas o que está à vista já é suficientemente mau para nos alarmarmos.
Graffitis e obesidade
Os que vivem em zonas com poucos espaços verdes, com graffitis e lixo são mais obesas relativamente aos que vivem em zonas mais convidativas. As diferenças são significativas. É óbvio que, neste estudo, possam haver algumas variáveis de confundimento. Mesmo assim, não deixa de ser preocupante que, em muitas zonas das nossas cidades, as taxas de construção e, consequentemente, de ocupação, sejam elevadas, ao passo que os espaços verdes começam a rarear. Também é verdade que, nestas áreas, em que o excesso de construção é uma realidade começam a aparecer mais graffitis.
A obesidade e o excesso de peso começam a tomar proporções epidémicas. Todas as medidas são bem-vindas. Se for possível, combater os grafitis, os lixos e o excesso de construção, talvez os nossos compatriotas disponham de mais espaços verdes para se exercitarem em ambientes agradáveis.
Quem diria que os autarcas – responsáveis pelo ordenamento – poderiam também ter a sua quota-parte de responsabilidade na obesidade? Alguns são “obesos”, mas as causas são outras…
domingo, 21 de agosto de 2005
Violência psicológica
No Futebol, cuja Super Liga está a começar, tal violência também existe, a recato ou à plena luz e de que maneira.
Apresento 3 exemplos, entre muitos.
Eles são expressivos, porque evidenciam da maneira de ser dos dirigentes, todos figuras públicas e considerados elite da sociedade portuguesa.
1. Caso Miguel
O jogador do Benfica, Miguel, queixa-se de que o seu contrato foi “violentado”, isto é, alterado pelo Benfica, pelo que o rescindiu, para negociar com um clube estrangeiro.
O Benfica nega, mas entra nas negociações e estabelece contratualmente com o clube interessado na cedência, o Valência, uma cláusula em que Miguel teria que ler um comunicado, obviamente feito pelo Benfica. Nesse comunicado, jogador afirma que o está a ler de forma livre e voluntária, pede perdão aos sócios do Benfica pelo seu comportamento e elogia até a actuação do Presidente da Instituição que o obriga a tal leitura.
Após a mesma, o jogador afirma, preto no branco, que fora obrigado a tal acto, como condição da transferência.
A violência de que se revestiu o acto de leitura do comunicado para o jogador foi visível nas diversas transmissões televisivas, que explicitaram o pouco que conta a dignidade humana.
2. Caso Ricardo Carvalho
O jogador do Chelsea, Ricardo Carvalho afirmou a jornais portugueses que não compreendia que o seu treinador, Mourinho, não o escolhesse como titular do Chelsea.
Face aos regulamentos do clube, foi multado em cerca de 150.000 euros, correspondentes a 2 semanas de vencimento.
Aconteceu, no entanto, que, no primeiro treino após as declarações, Ricardo Carvalho foi repreendido pelo treinador na frente de todos os jogadores do Chelsea, e ridicularizado o seu QI, por não ter capacidade de compreensão do treinador.
3. Caso Nuno Valente
O jogador do F.C.Porto Nuno Valente foi “aconselhado” pelo seu clube a desistir de representar a selecção nacional, com base no facto de o seu estado físico não aguentar a sobreposição de jogos.
Como Nuno Valente não seguiu o “conselho”, deixou, inicialmente, de ser convocado para os jogos do F.C.Porto e, ultimamente, tem sido “obrigado” a treinar sozinho.
Se tudo isto acontece com figuras conhecidas e ídolos do público, o que não se passará com a generalidade das pessoas?











