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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Para desanuviar!...

"...Escolhi o FCPorto, porque estava a 400 quilómetros de Lisboa, ou seja, onde se encontra o poder, e no Porto era mais difícil triunfar..."
José Mourinho, citado por A Bola, em entrevista ao Canal do Inter de Milão.
Com tal lufada de ar fresco, até se esquece o exagero quilométrico...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A política e a Justiça, a cada um o seu lugar

A judicialização da política é uma tendência crescente que gera as maiores confusões e lança necessariamente o descrédito sobre a justiça e sobre a política. Sobre a justiça porque falha necessariamente no esclarecimento ou resolução de questões de natureza política quando se limita, como deve, a usar as armas que lhe competem. Sobre a política porque se fica com a sensação que as responsabilidades políticas são escamoteadas a coberto da inacção da justiça, como se esta fosse cúmplice daquela.
A tendência resulta, a meu ver, de uma tentativa frouxa de compensar a debilidade e a falta de coragem e transparência na política remetendo para as instituições judiciárias a responsabilidade de actuarem como guardiãs da moralidade e da lisura de comportamentos, como se fosse essa a sua competência e a sua razão determinante. Não é, e isso, que deveria ser de cristalina evidência, deixou de o ser porque as leis são muitas vezes determinadas por casos políticos, dirigidas a circunstâncias nebulosas que depois geram trapalhadas interpretativas e, finalmente, porque boa parte dos actos legislativos é atravessada por explicações pouco mais que panfletárias. É assim como se se quisesse fazer crer que tudo o que não é crime é admitido na política, e não é.
A justiça não trata da moral, nem da ética, nem da responsabilidade política, nem tem que fazer cálculos políticos, é profundamente errado que quando há uma crise política ela seja de imediato remetida para o foro judicial e tudo se transforme numa batalha de leis para cá, leis para lá, e todos se comportam como arguidos inocentes ou inocentes que podiam muito bem ser arguidos. No meio disto tudo, desaparece a política e sobem ao palco os juízes, atarantados com os seus códigos e linguagem própria, a explicarem o que ninguém entende e a deixar tudo ainda mais nebuloso, como era inevitável.
A incompreensão desta imbróglio é tão grande que assistimos hoje a jornalistas a perguntar ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça como é que ele decidiria caso fosse o seu colega, ou então o que é que ele pensava “como cidadão” de um processo de que obviamente só podia ter conhecimento como juiz.
O resultado para a Justiça é, por um lado, muito mau, porque parece, injustamente a meu ver, que está a encobrir atrás de formalidades aquilo que parece poder deslindar. Por outro, é bom que não se deixe tentar pela politização da justiça onde a querem emparedar.
À política o que é da política, à justiça o que é da Justiça, para bem de ambas e de todos nós, por muito difícil que pareça.

Radiografia de uma providência cautelar


No fim...só...

Sócrates não tinha conhecimento formal das diligências da compra da TVI pela PT...
Sócrates não tinha conhecimento formal das diligências da compra...
Sócrates não tinha conhecimento formal das diligências...
Sócrates não tinha conhecimento formal...
Sócrates não tinha conhecimento...
Sócrates não tinha...
Sócrates não...
Sócrates...
Só...
...

Conhecimento formal!...

Sócrates não tem qualquer conhecimento formal do congelamento dos salários da função pública até 2013.

Euro: 2º assalto de um longo combate começou...

1. Teve significativo impacto nos mercados internacionais de dívida um relatório de análise divulgado esta semana pela Moody’s, no qual é feita uma análise fina à situação e perspectivas das finanças públicas dos “famosos”: Espanha Grécia e Portugal.
2. Nesse documento a Moody’s apresenta diversos cenários de evolução das dívidas públicas destes países, concluindo que, no cenário mais desfavorável de crescimento da dívida:
- A Grécia chegaria a 2015 com um rácio juros da dívida/receitas orçamentais de 20%;
- Para Espanha e Portugal esse rácio seria de 14% e de 15%, respectivamente.
3. Com estas previsões, era óbvio concluir que por muito más que se apresentem, as situações da Espanha e de Portugal não eram comparáveis à da Grécia – ponto que a Moody’s reconheceu.
4. Tanto bastou para que os mercados acalmassem em relação às dívidas dos dois países ibéricos, permitindo por exemplo que o IGCP tivesse colocado ontem no mercado € 3 mil milhões de obrigações do Tesouro a 10 anos, com um cupão de 4,80% - com uma procura bastante superior mas que, a ser satisfeita, teria feito subir o cupão.
5. Entretanto, na cimeira europeia de ontem parece ter sido encontrado consenso para enquadrar um apoio às medidas que a Grécia terá de tomar com vista a resolver a sua fragilíssima situação financeira.
6. Apesar de não se conhecerem os detalhes desse consenso, a notícia da sua obtenção teve também por efeito acalmar os mercados, incluindo os de acções, de uma forma geral mas especialmente em relação à Grécia.
7. Em conclusão, o 1º round da crise da zona Euro parece estar terminado sem ida ao tapete.
8. Este é todavia um combate que, de acordo com as regras aplicáveis, terá pelo menos mais 3 assaltos, e é muito importante, dadas as características da luta, conseguir aguentá-los – 2011, 2012 e 2013.
9. Se tal acontecer, as hipóteses de o Euro não ser forçado a um K.O. serão elevadas.
Mas se assim não for, as coisas tornar-se-ão bem mais difíceis.
10. Estamos numa longa e penosa prova de resistência, com inúmeros obstáculos de percurso (alguns imprevisíveis), importa não descansar...nem dormir, tampouco.

As verdades informais...

Se eu, em segredo, convencer um empresário amigo a comprar uma empresa que me "prejudica", para que ela fique em boas mãos, claro que não tenho, nem quero ter, conhecimento formal de qualquer diligência que posteriormente venha a ser feita.
E, se me perguntarem se tive conhecimento formal, nego. Ninguém me enviou a notícia em carta registada com aviso de recepção.
Se me perguntarem se tive conhecimento informal, fujo...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Candidatos, códigos e previsões

Há poucos momentos um dos nossos clarividentes comentadores políticos, exímios em dissecar estratégias, propósitos e entendimentos de bastidor que talvez-tivesse-havido-mas-se-não-houve-foi-pena, terminava a sua alocução sobre os candidatos à liderança do PSD dizendo “não sei dizer imediatamente quem é que vai ficar em segundo ou em terceiro lugar…”, ditando com displicência a vitória do que “já partiu com avanço”. Dizia-se perplexo com a candidatura de Paulo Rangel e de Aguiar Branco porque se dirigiam "ao mesmo eleitorado", como se os eleitores de todos os que se candidatam não fossem todos os militantes do Partido. E antecipava divisões, calculava os pesos relativos dos apoios e concluia, em resumo, que estava baralhado com as estratégias...
É interessante fazer zapping logo a seguir a uma notícia que sai um pouco do que tinha sido previsto ou decretado pelos cálculos dos nossos analistas de serviço. A quantidade de palpites, de previsões e de subtilezas reveladas por segundo é fascinante e em poucos minutos são descritos cenários, intrigas e conluios que logo fazem esquecer a realidade. Mas há um traço comum que me parece poder identificar-se e esse é o de que tudo tem que passar-se de acordo com um código qualquer que eles adoptaram, um código de regras monótonas e secas, de tácticas insinuadas para os espertos desvendarem. Um código que lhes serve de guião e que ignora que a politica é feita de imprevisibilidade e não de controlos e de acordos de secretaria, que cada situação exige uma resposta, que a ambição dita impulsos, exige riscos e, com sorte, que nem tudo é calculado ao milímetro porque quem arrisca sabe e aceita que pode ganhar ou perder no terreno democrático. Nesse tal código já não existem ideais, esperança ou desejo de combater por uma causa em que se acredita. Nesse código clama-se pela renovação, pela capacidade de surpreender e de seduzir, mas só se admite o engano, o malabarismo ou a jogada de bastidor. Nesse código viciado não existe lugar para o pleno exercício democrático, já só existe lugar para jogos de poder, no sentido da apropriação e não no sentido de serviço.
Por mim, que acredito nas virtudes da democracia e do debate aceso de ideias sem insultos nem insinuações, que acredito que há quem queira pôr as suas capacidades ao serviço de todos e se sujeite à escolha em liberdade, por mim espero bem que esse código seja banido e dê espaço a uma vivência democrática em que seja o voto esclarecido a decidir quem é o melhor candidato entre todos os que se apresentarem.

A síndroma de Ulisses

Há cerca de três anos tive o grato prazer de apresentar um livro de um colega sobre “Bioética, reflexões a propósito”. Uma pequena obra seleta e profunda para quem anda nas andanças da saúde. A capa era bela, representando a chegada de Ulisses ao palácio de Alcínoo. Fui obrigado a especular sobre o porquê da sua escolha, qual o simbolismo que o autor pretenderia transmitir debaixo daquela representação.
No canto VII, Homero descreve a entrada de Odisseu no palácio. Atena, disfarçada de garota, informa-o onde procurar ajuda para regressar à sua Pátria.
No fundo, ao selecionar a figura de Odisseu ou Ulisses, o autor pretendeu, com toda a certeza, dizer que o ser humano está em contínua transformação e que há forças misteriosas que podem ajudar a vencer as barreiras e os perigos, mesmo aqueles que consideramos intransponíveis e que a “nossa aparência, a maneira como nos veem ou nos vemos a nós próprios, é subjetiva, transforma-nos conforme o olhar que sobre nós incide” (Frederico Lourenço). Fiquei seduzido pela beleza da capa e pelo miolo da obra.
De vez em quando, surgem a boiar no meu córtex lembranças dos meus comentários e análises. Os gatilhos são, habitualmente, palavras, imagens, cheiros, calor, frio, vento, e muitos mais. Agora, ao passear entre livros, chamou-me a atenção a capa de um romance, A Síndrome de Ulisses, de Santiago Gamboa, que despertou da letargia a minha apresentação de há três anos. Por hábito, tenho o estranho condão de me deixar apaixonar à primeira olhadela. Fisguei-o sem o folhear, sem ler algumas linhas. A capa era sedutora. Uma estátua de mármore de uma mulher sentada, costas nuas e róseas a olhar para a Torre Eiffel. Um romance sobre as atribulações dos emigrantes, que, longe das suas terras e famílias, sofrem no corpo e na alma as amarguras do exílio. Tal como Ulisses, desejam chegar aos seus destinos, às suas origens. Mas penam. Muitos penam e até morrem. Os psiquiatras e antropólogos chamam-lhe a Síndrome de Ulisses. Mas, em medicina, também pode ter um outro significado. Refere-se às “viagens” que um desgraçado tem que dar até acabar por ser declarado “oficialmente” como saudável, e que, afinal, nunca tinha sido doente! Começa a ser inquietante a fabricação, a rotulagem e a suspeita de doenças em pessoas que são perfeitamente saudáveis. Os casos de falsos positivos, o excesso de preocupação por parte dos pais, avós, amigos e familiares, aliados à medicina defensiva, alimentam a procura de cuidados e exames cada vez mais sofisticados para situações ditas normais. Alguns casos são caricatos, embora, noutras ocasiões, as consequências das “viagens homéricas” sejam bastante gravosas. O suspeito entra numa jigajoga estonteante, numa jornada cujo fim não sabe qual vai ser. Um verdadeiro Ulisses, ansioso por conhecer o caminho até casa, até à segurança dos seus, até à desejada tranquilidade. Palpita-me que andam por aí muitos a sofrer desta síndroma. É notória a ausência de Atena, que poderia ajudar a encurtar a viajem e até mesmo impedi-la. Mas esta coisa dos deuses já não é o que era. É preciso muita força e muita coragem, próprias de um Odisseu, para transpor as barreiras e os perigos que alguns se entretêm a construir para dificultar a vida aos seus semelhantes. O que é certo é que deste modo vão ganhando a vidazinha...

Que crédito?

Em poucos dias assistimos a comunicações de dois membros do governo que em ar sério e grave, em directo e sem direito a perguntas da comunicação social, deram conta da sua indignação e prometeram empenhamentos.
O primeiro foi o sr. ministro das finanças no dia em que foi aprovada a lei das finanças regionais, insurgindo-se contra o sinal negativo para os mercados internacionais que significava a maior despesa pública resultante daquela aprovação. A verdade é que o sinal tornou-se um gigantesco letreiro, tal a dramatização feita pelo governante. Independentemente disso, aquelas palavras soaram a falso ante a ausência de exempos do passado ou de propostas concretas no presente, dadas pelo ministro e pelo governo, de sinal contrário ao da questão surgida com as finanças insulares. No mesmo dia soube-se do aumento de despesa proposta com aquisições de viaturas, por exemplo.
Philosophum non fact barba...
Ontem, foi a vez do sr. ministro da justiça se indignar publicamente contra a violação do segredo de justiça e com os ataques aos senhores PGR e presidente do STJ. Desconfio que estes últimos dispensariam bem a solidariedade ministerial. Mas no que toca à condenação da violação do segredo de justiça, as palavras do senhor ministro, no propósito de restituir credibilidade à justiça, são um acto falhado porque, infelizmente, nenhum protuguês as pode julgar sinceras mas motivadas pela circunstância de a vítima se chamar José Sócrates.
O actual ministro da justiça é um alto quadro do PS; na anterior legislatura foi líder do grupo parlamentar da maioria. Que eu me tenha dado conta (e desde já me penitencio se estive distraído...) nunca ouvi da boca do Dr. Alberto Martins um discurso tão indignado quanto o de ontem, nos casos de violação de segredo de justiça que aconteceram nos últimos anos quase diariamente, violações da lei que foram tão criminosas como são as que motivaram a comunicação ao País do ministro. E também não conheço nenhuma iniciativa legislativa destinada a combater o criminoso flagelo da violação do segredo de justiça, da autoria ou estimulada pelo actual ministro quando chefiava um grupo parlamentar que tinha a maioria no órgão que detém a plenitude do poder legislativo.
Sábio, pois, o velho provérbio: a barba não faz o filósofo...

Organizem-se!...

"O primeiro-ministro não tem que fazer considerações sobre conversas privadas, que deveriam ter permanecido no foro privado e que apenas foram divulgadas de forma parcelar e descontextualizada".
Francisco Assis, Líder Parlamentar do PS, dia 8 de Fevereiro, de manhã.

"A divulgação de escutas, que me foram feitas, pelo semanário Sol é um acto criminoso, é um acto ilegal. É um crime contra as pessoas, desde logo contra a sua privacidade, porque essas escutas, como foram consideradas sem relevância criminal, regressam ao domínio privado..."
José Sócrates, dia 9 de Fevereiro, à tarde.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Marasmo mental...

Interessante a visão que nos é dada pelo autor deste artigo publicado no Jornal i com o título “Receita contra a recessão: sair do marasmo mental”.
As crises e as euforias sejam elas económicas, financeiras ou de outra natureza, apresentam normalmente em comum sentimentos e comportamentos que têm muito de psicológico e emocional, a que acresce a facilidade com que se propagam.
Se no caso das crises, os sentimentos de receio, aversão ao risco, saturação e desconfiança induzem comportamentos caracterizados pelo imobilismo e apatia, já nas euforias se passa precisamente o contrário, a confiança nos outros e no futuro dá lugar à esperança e à vontade de realizar e superar.
Com efeito, as crises para serem ultrapassadas precisam de ânimo, de pensamento positivo, de confiança para acreditar em melhores dias. Atitudes que não se mudam com um estalar de dedos ou só porque alguém anuncia ou decreta que vai ser diferente. A vontade de mudar e superar e a confiança ganham-se quando as pessoas acreditam em planos, sabem ou percebem o que têm que fazer e para onde vão e depositam esperança nas vantagens e benefícios que poderão recolher. A sua experiência em processos de idêntica natureza pode também constituir uma mais-valia ou o contrário. Não havendo essa vontade, pode ser grande a perda do não aproveitamento da janela de oportunidade de transformar as crises em desafios, inovando e reformando.
É como diz o autor do artigo, “é com uma boa atitude mental que as crises se vencem”. A educação e a cultura, os padrões de valores e os percursos recentes de passados mais ou menos bem resolvidos poderão fazer toda a diferença na abertura dessa atitude.
Sair do marasmo mental não é tarefa fácil!

Por onde andarão os resíduos?

Uma revista enfiada no meio de um jornal convidou-me a folheá-la com uma certa rapidez. De repente deparo-me com um artigo intitulado “A solução para os resíduos industriais perigosos” da autoria do diretor-geral da ECODEAL.(a)
Atendendo à problemática da coincineração, que ainda perdura, decidi ler com muita atenção o seu conteúdo.
O autor descreve uma unidade CIRVER (centro integrado de recuperação, valorização e eliminação de resíduos perigosos). Acompanhei de perto a definição e a discussão destes centros que constituem uma forma diferente de tratar a maioria dos resíduos industriais perigosos sem recorrer à incineração. De facto, o que fica por queimar é muito pouco. Recordo que, na altura, os defensores da coincineração não admitiam haver melhor solução do que a queima nas cimenteiras.
Os CIRVER foram, na altura, e ainda recentemente, desvalorizados e denegridos como alternativa à coincineração. No entanto, constituem uma eficientíssima solução. De acordo com o artigo, “Portugal possui atualmente das melhores instalações da Europa para o tratamento dos seus resíduos perigosos”. Nem mais! As técnicas utilizadas, a vigilância, a segurança e a qualidade de todos os procedimentos, assim como a validação do sistema de monitorização, o acesso aos eleitos locais, e a outras autoridades regionais, às instalações e à documentação são de realçar e de louvar. Transparência total!
Esta unidade tratou num ano e meio 84 mil toneladas. No entanto, a empresa, segundo Manuel Simões, defronta-se com os seguintes aspetos que passo a transcrever:
“As quantidades de resíduos industriais perigosos rececionadas pela ECODEAL estão abaixo das 254 mil toneladas referidas no estudo do mercado que serviu de base ao concurso público e ao dimensionamento e construção da ECODEAL.
A ausência total de resíduos em algumas das unidades construídas por obrigação do concurso público regulado pelo Decreto-Lei nº3/2004.
Este desvio nas quantidades rececionadas de resíduos e a ausência de resíduos em algumas unidades, levou a que a ECODEAL tenha pedido às autoridades competentes medidas no sentido de melhorar a fiscalização da correta gestão de resíduos perigosos em Portugal, adotar o princípio europeu da proximidade e da autossuficiência na eliminação de resíduos, melhorar os procedimentos de controlo da efetiva recuperação/valorização de resíduos e em definitivo trabalhar para defender a cara e moderna infraestrutura de tratamento de resíduos que tanto dinheiro e tempo custaram ao país”.
Curioso! Por onde andarão os resíduos industriais perigosos? Não existem? Têm que existir. Mas se existem não deveriam ser encaminhados para os CIRVER? O que fica para queimar é uma pequena fração. Será que os altos responsáveis governamentais irão esclarecer os portugueses relativamente a este assunto? Ou será que irão aproveitar o efeito da passagem do tempo? Com o tempo, muitos sentem que os músculos perdem a força, os ossos fragilizam-se, os cérebros tornam-se menos ativos e até os corações se “amanteigam” perante os argumentos e a força dos mandantes, esquecendo-se de uma luta em que as dúvidas científicas, a propósito dos efeitos nefastos no meio ambiente e na saúde dos cidadãos, foram “vencidas” pelos “argumentos” políticos e judiciais.
É certo que alguns do que andaram na luta contra a coincineração desapareceram a recordar o “desaparecimento” atual de muitas e muitas dezenas de milhares de toneladas de resíduos. Afinal, tudo desaparece. É uma mera questão de tempo. Até os resíduos!

(a) “A solução para os resíduos industriais perigosos”. Manuel Simões in País Positivo – Fevereiro -´10 – Nº 34, página 100.

Fechadura italiana

Porque será que nos últimos tempos me vem frequentemente à memória o que o Partido Socialista dizia do Sr. Silvio Berlusconi ?

Um Governo acorrentado

"…A divulgação de escutas…é um acto criminoso, é um acto ilegal… é um crime contra a Justiça …", referiu hoje o Primeiro-Ministro ,José Sócrates.
Em Portugal, há leis que impõem o segredo de justiça e todos os dias o segredo de justiça é violado. Sem que, lamentavelmente, alguma sanção recaia sobre quem prevarica. O Primeiro-Ministro é apenas mais uma vítima.
O problema ou está na lei ou em quem a aplica ou não faz aplicar.
Se a lei é insuficiente, reformule o Governo a lei. Se os Magistrados não a aplicam, e ninguém é sancionado, force o Governo a demissão dos responsáveis, invocando a justa causa de não assegurarem que a lei se cumpra. No quadro da lei vigente ou propondo novas normas.
Mas o Governo está atado de pés e mãos: não pode legislar nem sobre a justiça, nem sobre a comunicação social, acusado que seria de legislar em favor do Primeiro-Ministro.
Um Governo assim acorrentado, não é um Governo. É um prisioneiro.

Vistos de Belgrado


É verdade que vivemos tempos especialmente deprimentes, pelo menos enquanto se discute o orçamento de Estado e nos vaticinam os piores tormentos para os anos vindouros. Como se não bastasse, temos bombistas na belíssima Vila de Óbidos, programas na televisão que nos massacram com o espectro de terramotos já ali ao virar da esquina e sei lá que mais pragas do Egipto. No entanto, somos um povo ordeiro e acolhedor, somos gente de trabalho, em geral sentimos compaixão e solidariedade pelo próximo, aceitamos sacrifícios como se nunca viéssemos a ter direito à felicidade.
Os nossos jovens representam-nos muito bem quando se mudam para terras distantes e trazem-nos uma frescura especial nas suas apreciações quando voltam de visita.
Ontem contaram-me que uma jovem licenciada foi ensinar português para Belgrado, esteve lá um ano como leitora e voltou agora, cheia de planos para se fazer ao caminho outra vez. Ensinar português na Sérvia?, perguntei admirada, e tinha alunos? Que sim, tinha cerca de 120 alunos, lotação esgotada, disse que há lá uma espécie de culto por este minúsculo país à beira mar plantado por causa do filme de Wim Wenders, The Lisbon Story e porque durante a guerra os Madre de Deus deram lá um concerto, um oásis de doçura e encanto no meio da brutalidade. O facto é que se tornou uma espécie de moda falar de Portugal, saber a nossa geografia, os nossos cantares e, claro, conhecer a nossa língua. Disse ainda que é frequente os jovens indicarem como a viagem dos seus sonhos vir conhecer Portugal…
Já que visto daqui não encontramos motivos para alegrias ao menos que os que olham de fora saibam ver os nossos encantos e não se deixem ofuscar pelas nossas mazelas!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"Dizer" Fernando Pessoa...


Fui na semana passada ao Teatro Villaret ouvir e ver “dizer” Fernando Pessoa por Jô Soares, o famoso apresentador e actor brasileiro mais conhecido pelo “Gordo”.
Foram 45 minutos de enorme prazer, em que doze textos de Fernando Pessoa e do seu heterónimo Álvaro de Campos foram “ditos” com sotaque português por Jô Soares, a sós, acompanhado de uma decoração minimalista aquecida por uma luz doce e suave e envolvida por uma selecção musical primorosa, por entre retratos de Fernando Pessoa magicamente colocados no palco no qual não faltaram a mesa e a cadeira pessoanas.
Cada palavra “dita”, uma por uma, transportou cada um dos espectadores presentes para o tempo e o espaço de cada retrato de vida declamado, como se cada um de nós estivesse a viver uma história, se revisse como um seu protagonista, recordando ou imaginando a sua própria história.
“Dizer” Fernando Pessoa com graça e humor, contidos na simplicidade e sobriedade do estar e sentir, é uma forma talentosa de enaltecer a sua grande obra, mas também de fazer chegar àqueles que não sendo poetas encontram e descobrem em Fernando Pessoa sentidos de vida e sentimentos da vida que de tão comuns e extraordinários que são escapam à memória viva e ficam quase sempre esquecidos e arrumados nas gavetas do tempo.
Pena que este espectáculo tenha terminado, justamente na sexta-feira passada, e tenha estado em cartaz tão pouco tempo. Pode ser que regresse. Vale muito a pena. Aqui fica um dos textos “ditos” que mais gostei.

Aniversário


No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhaslágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

A confirmação de políticas loucas

Com referência aos Estádio Municipais de Aveiro, Coimbra, Leiria e Faro:
Custo global dos estádios – 189 milhões; custo com obras complementares – 271 milhões
Empréstimos contraídos pelas Câmaras -184 milhões.
Comparticipação directa do Estado – 55 milhões
Serviço da dívida (ano) – 11,3 milhões; manutenção (ano) – 2,8 milhões
Estes, ou outros quatro, eram dispensáveis para o Euro, mas fizeram-se.
Custam por ano, em serviço da dívida e manutenção, 14,1 milhões de euros.
Em Faro, não há jogos. Em Aveiro, já houve propostas de demolição. Em Leiria, as assistências são diminutas. Em Coimbra, pede-se um novo estádio mais pequeno e menos custoso.
Investimento público irracional: nunca poderia justificar-se pela rentabilidade ou pelos benefícios sociais.
Em tempo de recursos escassos, a melhor alternativa encontrada foi deitar 189 milhões de euros ao lixo. Assim em fatias de 14,1 milhões de euros por ano.
O tal investimento público que ajuda a economia.
Nota: Números tirados da edição do Público de 7.02.2010-Os Estádios do Euro

Almunia para a rua...ou o estado a que chegamos!

1. Nos últimos dias têm chovido as críticas e as manifestações de desagravo, de vários quadrantes e sectores patrióticos, contra supostas declarações recentes do Comissário J. Almunia que terá ousado equiparar a situação de Portugal à da Grécia.
2. Estas críticas e manifestações de desagravo seguem-se às que foram dirigidas às agências de “rating” – num registo algo contraditório, na medida em que os críticos enfatizavam ao mesmo tempo a falta de credibilidade dessas maldosas instituições...o que justificaria, a ser verdade, não nos preocuparmos com a sua opinião...
3. Iguais manifestações de repúdio atingiram os mercados, pelo seu comportamento especulativo, rejeitando comprar dívida pública portuguesa ao preço desejado pelo emitente...esquecendo que nisto dos empréstimos em mercado, a taxa tem de reflectir a procura e a oferta de dívida – se a oferta é muito alta, a taxa não pode deixar de reflectir essa realidade, se o emitente tem real necessidade de vender os títulos...
4. Mas as mais violentas e patrióticas declarações têm agora como alvo o Comissário Almunia, que já ouviu duras reprimendas do Presidente da República, de um dos mais “talentosos” comentadores económicos de fim-de-semana, da AEP, da AIP, de várias corporações de bombeiros e associações recreativas e culturais, culminando hoje num comunicado público muito violento da Associação de Municípios Portugueses, reclamando a demissão de Almunia...
5. A luta continua, Almunia para a rua!
6. Esta triste situação faz-me recordar as manifestações de desagravo da minha juventude, quando se organizavam “manifestações de desagravo” sempre que os inimigos externos nos desconsideravam mais ou menos violentamente – organizadas pelas diferentes corporações da época fervorosas defensoras do regime democrático...
7. Estamos a voltar 40 a 50 anos atrás - a história repete-se - só mudam os inimigos externos, dos actuais tampouco se falava na época (quase não havia dívida pública externa, há que reconhecer).
8. Almunia deve ter por esta altura “as orelhas a arder” e certamente pensará duas vezes na próxima oportunidade que tiver de pronunciar-se sobre Portugal...o seu lugar estará mesmo em risco, depois deste comunicado da AMP...
9. A que estado chegamos!

Estudos corridos a Alta Velocidade

Há estudos e estudos e ainda há os estudos da Alta Velocidade da RAVE.
Tráfego de passageiros entre Lisboa e Caia
Estudos iniciais: 1,8 milhões( 4.931,5 passageiros/dia). Mas, com tal número, provou-se que o investimento não seria rentável.
Estudo de Setembro de 2009: 6,7 milhões (18.356 passageiros/dia, quase 4 vezes mais). Projecto rentável.
Valor da hora poupada por passageiro entre Lisboa e Caia
Estudos iniciais: 11,93 euros
Estudo de Setembro de 2009: 26 euros.
Valor Actual Líquido do Projecto
Estudos iniciais: Negativo: -1,1 mil milhões de euros
Estudo de Setembro de 2009: Positivo, 383 milhões de euros
Exploração
Estudos iniciais: Ruinosa- diferença entre recebimentos e pagamentos = - 6.372 milhões de euros.
Estudo de Setembro de 2009: Rentabilidade positiva
Receita fiscal: entre estudos, aumenta 63 mil milhões de euros ao fim de 30 anos.
Assim, sim, valeu a pena mais um estudo. Bem adequado ao que se pretendia!...
Nota: Os dados que se apresentam foram retirados do artigo do Prof. João Duque, Director do ISEG, na última edição do Expresso, de 6 de Fevereiro de 2009.

Por este caminho o PM ainda adere à 4R

«Eu acho absolutamente lamentável esse jornalismo que posso classificar como jornalismo de buraco de fechadura, baseado em escutas telefónicas, em conversas privadas, que não têm relevância criminal, com o objectivo de atacar pessoas», palavras do PM, numa intervenção em Vila Viçosa no dia 6 de Fevereiro.

No dia anterior, aqui, no 4R, escrevia-se o seguinte a propósito de alguns eventos da semana:

«Há a unir todos estes factos um indisfarçável padrão. A atracção pelo buraco da fechadura. O gosto pelo disse-que-disse, uma rendição doentia ao voyerismo, um desprezo absoluto pela privacidade. Alguém me recordava com acerto que um País pequeno como o nosso deve a eficácia da polícia política que existiu no período da ditadura a uma das maiores redes de informadores dos países ocidentais. Se existe gene que identifica um povo, este deve ser o que individualiza o nosso. Um gene, porém, avariado que torna cada vez mais doentio o corpo em que se alojou. Razão tem Vasco Pulido Valente na nota que escreveu no Público: este País nunca se habituou à liberdade. Por este caminho, jamais se habituará...»

Suspeito que o sentimento dos apoiantes do nosso PM que deixam rasto indignado na caixa de comentários ao que por aqui se escreve, não colhe grande aceitação junto do próprio...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A liderança segundo Benjamin Zander

Há dias fui ouvir a conferência de Benjamin Zander à Casa da Música. Zander é o director da Orquestra Filarmónica de Boston e é professor e um grande comunicador sobretudo porque fala com uma enorme paixão do seu trabalho e estimula os outros a conseguirem tirar o mesmo prazer do que fazem. Para além das inúmeras histórias que contou para ilustrar a sua tese de que um grande lider é como um bom maestro, porque consegue tirar de cada pessoa o seu talento para que o conjunto resulte num trabalho que supera todos, resolveu mostrá-lo na prática.
A Orquestra do Norte chegou ao palco sem que o maestro conhecesse qualquer dos seus membros ou alguma vez tivesse falado com eles. Deixou que o grupo tocasse primeiro uma música sozinho. À audiência o resultado soou harmonioso, parecia que não precisavam de maestro nenhum que pudesse acrescentar beleza e harmonia ao seu trabalho.
Mas ele começou por explicar a peça, quem era o seu autor, o que ele teria pretendido exprimir com aquela música e, quase sem se dar por isso, foi apontando onde é que se podia melhorar, ora fazendo os violinos tocar mais alto, ora mandando entrar o contrabaixo, ora improvisando onde lhe parecia que o andamento merecia ter mais força. Interrompia várias vezes para explicar qual era a sua ideia e incitava os músicos a não recearem ir além do que parecia estar escrito na pauta, e o resultado era extraordinário, a música tornou-se empolgante e já não apenas bonita e harmoniosa. Fez o mesmo com as peças seguintes e a orquestra seguia-o com cada vez mais facilidade, as resistências iniciais desapareceram e todos tocavam com emoção, muito para além da correcção técnica.
Num destes exercícios começou por fazer tocar só um dos instrumentos, depois outro, a seguir outro, de modo a que quem estava a ouvir pudesse distinguir com clareza o som de cada um no conjunto. A certa altura entraram os violinos e sobrepuseram-se, teve que os corrigir porque não deixavam que os outros contribuíssem para o conjunto e todos ficavam a perder. Não eram os outros que tinham que tocar mais alto, disse ele, cada um tinha que deixar espaço que para tons suaves, era preciso que todos pudessem ser ouvidos, e mostrava a diferença, oiçam agora, já viram como fazia falta aquele que desaparecia? Também fez notar que uma orquestra toca muito melhor se compreender o que interpreta, não basta seguir as instruções da pauta, é preciso interiorizá-la e dar-lhe vida com o talento e a confiança de cada um.
Zander usa com insistência a imagem dos olhos a brilhar, diz que é a melhor forma de um líder compreender se as pessoas estão a segui-lo ou não, se estão envolvidas, porque só assim ele poderá confiar que vão fazer o seu melhor. E fez notar que o maestro é silencioso, não toca nenhum instrumento, não se dirige aos músicos enquanto tocam, são os seus movimentos que os guiam e que cada um segue sabendo que ele está atento ao conjunto e ao interesse de todos.

Ruído e direitos dos cidadãos

Não sei se Júlio César sofria ou não de insónias, mas caso sofresse, e razões para as ter não lhe deveriam faltar, com toda a certeza, seriam agravadas pelo barulho provocado pelas bigas, uma espécie de cabriolet da época puxado por dois cavalos que, naquelas avenidas de pedras, produziam um ruído ensurdecedor. Não esteve com meias medidas. Proibiu a circulação em certas horas, sobretudo durante a noite. Que eu saiba, e também não consigo imaginar, este regulamento não era violado. Sabe-se lá quais seriam as consequências! Às tantas poderiam chegar a um silêncio sepulcral. Esta medida de proteção do meio ambiente, importante contributo para a qualidade de vida, manteve-se com os seus sucessores, acabando por chegar a todas as cidades do império. Séculos antes (VI aC), os etruscos já delimitavam as zonas da cidade destinadas ao repouso das zonas de trabalho e se houvesse zonas dedicadas ao entretenimento também deveriam ter a mesma atitude. Ou seja, as preocupações com as fontes do ruído não são de hoje.
As consequências da exposição ao ruído são variadas, perturbações da capacidade auditiva, agressão do sistema endócrino, curiosamente um dos principais pontos de choque, alterações do sono, perturbações comportamentais, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, perda de produtividade laboral e escolar, enfim, infindáveis manifestações biológicas e sociais.
A política de prevenção e de controlo da exposição às várias fontes de ruído estão muito bem definidas, a nível ocupacional e a nível geral. Regulamentos não faltam. O pior é a aplicação prática e a fiscalização dos mesmos. Dentro das várias fontes de ruído destaco a que tem a ver com o divertimento. Sendo uma manifestação cultural é desejável que seja cultivada e desenvolvida mas sem ser fonte de problemas para a saúde. Quando ocorre um evento esporádico, barulhento, ao ponto de perturbar o descanso, pode-se afirmar que não causará grande mal ao mundo, porque a nossa capacidade de recuperação rapidamente compensará qualquer efeito negativo. Mas o mesmo já não se poderá dizer quando a agressão se transforma num continuum ou se repete de tal modo que nem dá tempo a que se proceda à tal recuperação. Neste caso, surgirão, inevitavelmente, manifestações negativas.
O licenciamento de atividades de diversão em locais vocacionados ao repouso terá de ser repensado. Não faz sentido o que observamos. Ter-se-á de encontrar soluções que passarão, entre outras, pela escolha de áreas destinadas a esse efeito, dentro ou fora da cidade, mas nunca em zonas residenciais.
O não respeito pela legislação já começa a originar situações complicadas para os não cumpridores. Não entre nós, povo tradicionalmente tolerante, ou melhor, laxista, mas, na vizinha Espanha, as coisas estão a complicar-se para os prevaricadores. O Supremo Tribunal confirmou a sentença que condenou a dona de um pub de Barcelona a cinco anos de prisão como responsável de um delito contra o meio ambiente além das indemnizações aos vizinhos. No seu estabelecimento funcionava até às três da madrugada um conjunto musical que “perturbou gravemente a vida familiar e a saúde psíquica de quatro vizinhos”. Não cumpriu com as determinações da municipalidade e o tribunal não teve dúvidas em condená-la após queixas dos vizinhos. Uma demonstração inequívoca de defesa dos interesses da qualidade de vida dos cidadãos. Afinal, as regras etruscas e romanas têm razão de ser. Tardam, mas acabam por ser cumpridas, nem que seja muitos séculos depois, e à traulitada!

Louçã contra Louçã


Não foi sem algum constrangimento que comprei o livro Economia(s) de Francisco Louçã e José Castro Caldas, editado em Dezembro passado, persuadido que fui, nos almoços periódicos que fazemos, por alguns bons amigos e colegas economistas de diversas e opostas tendências, que já o haviam lido.
Claro que sabia que a valia técnica de Louçã no domínio da teoria económica era reconhecida nos meios universitários e até por economistas muito distantes da sua área ideológica. Para mim, no entanto, era-me difícil esse reconhecimento, tal a “versatilidade”, para não usar outra expressão, com que, na pele do político, trata as questões económicas.
De qualquer forma, mandei embrulhar muito bem os dois exemplares que comprei (um era para um colega), não fosse algum amigo encontrar-me com 2 livros tão suspeitos...
Acontece que o livro é um dos melhores manuais de economia de autores portugueses que já vi, tratando de forma muito conseguida e harmónica princípios básicos, o pensamento das diversas escolas e dos principais economistas, e ilustrando o todo com estatísticas e números da economia europeia, americana e portuguesa.
Claro que algumas das conclusões têm forte base ideológica; mas os autores têm o mérito de não iludir as diversas doutrinas em confronto. E, quando assim é, cada qual pode concluir por si.
Em síntese, interrogo-me como é que eu, alguma vez, puderia recomendar um livro de Francisco Louçã?
No entanto, faço-o, porque o livro tem mérito. E também porque a sua leitura será o melhor remédio para fugir, rapidamente e em força, das soluções e políticas que Louçã defende.

Sumaríssimo!...

"Hoje em dia, uma pessoa ter uma opinião é um perigo..."
Jorge Baptista, comentador de futebol, depois de, segundo ele, ter sido agredido por Carlos Queirós, no túnel, digo, na Sala VIP do Aeroporto de Lisboa.
E ainda dizem que no futebol só se pensa com os pés!...

sábado, 6 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A simplicidade de um "Sorriso"...


Rosa Lobato de Faria


Sorriso

O sorriso é uma chave

Que abre portas e janelas.

Entre muitas coisas mágicas

O sorriso é uma delas.

O sorriso é simpatia

Também pode ser amor.

O sorriso tem magia

Tem ternura e calor.

O sorriso dá carinho

O sorriso faz amigos.

Constrói tu, no teu caminho

Uma ponte de sorrisos.

O estado a que chegámos!...

O Estado assegura a liberdade e a independência dos órgãos de comunicação social perante o poder político e o poder económico, impondo o princípio da especialidade das empresas titulares de órgãos de informação geral, tratando-as e apoiando-as de forma não discriminatória e impedindo a sua concentração, designadamente através de participações múltiplas ou cruzadas.
Artigo 38.º, nº 4 da Constituição da República

E o Governo ? E o Primeiro-Ministro? Asseguram?

Ora aqui está uma notícia!

"PGR ordena inquérito à divulgação das escutas".
O País está seguro dos bons e rápidos resultados desta investigação.

Duas fantásticas declarações...

1. Numa intervenção aguardada com expectativa sobre o “escaldante” tema da Lei das Finanças Regionais (LFR) terão constado, entre outras, duas frases que particularmente me sensibilizam:
- “Não poderíamos dar um sinal + errado neste momento”
- “Temos de defender a credibilidade da política orçamental”
2. Relativamente à primeira, será caso para perguntar se este sinal é comparável, em termos de nível de erro, ao animador défice de 9,3% quando, não muito tempo antes, o Governo mantinha convictamente uma projecção de 5,9%.
3. Este pequeníssimo lapso, de quase € 6 mil milhões, teve, como agora constatamos, efeitos devastadores na confiança dos mercados – por força de um espírito animalesco ou outro, pouco importa.
Pergunto-me como é possível ignorar esta realidade indesmentível e vir agora afirmar que com a aprovação da LFR se está a dar o sinal + errado...
O sinal + errado já foi dado bem antes da aprovação da LFR e os seus efeitos devastadores estão bem à vista e continua a ser dado com a encenação de uma crise política artificialíssima em cima de uma REAL crise económica e financeira.
4. Mas a 2ª frase é ainda mais enternecedora...depois da perda total da credibilidade da política orçamental, vir sustentar que é necessário defender a credibilidade dessa política é, no mínimo, um sinal de funambulismo reforçado.
5. Que credibilidade resta ainda que possa ser defendida?
6. Para que não restem dúvidas, devo acrescentar que não sou defensor desta iniciativa conjunta dos Partidos da Oposição, pela razão simples de que considero o esforço de ajustamento orçamental da actual proposta de OE/2010 largamente insuficiente e, apesar disso, enormes os riscos de derrapagem que, a verificarem-se, serão fatais...
7. Perante este cenário, aprovar uma LFR que implica aumento de despesa, ainda que microscópica quando comparado à calamidade do engano no défice de 2009, está errado na minha análise...
8. Em síntese, temos uma nova manifestação de perda acelerada de faculdades visuais, mas, como é apenas mais uma em série infindável, muitos já nem se dão conta...alguns “media” até dedicaram comentários laudatórios a estas declarações – os do costume, claro está...

Um País profundamente enfermo

Não são só os problemas económicos que trazem o País profundamente doente. É acima de tudo uma perda acentuada dos valores do respeito e da decência nas relações entre as pessoas. Sem respeito e sem decência, a degenerescência social é inevitável e as crispações e ódios gerados só podem conduzir ao abismo. Sei que volto ao mesmo. Mas ao mesmo voltarei enquanto tiver possibilidades de me expressar.

Há dias fez-se um vendaval a propósito do "caso Mário Crespo". Se descontarmos o facto da censura do seu artigo no Jornal de Notícias - esse sim, grave -, tudo se resume a um estória em que alguém contou a Crespo uma conversa entre o Primeiro-Ministro e um director da SIC. Uma conversa à mesa de um restaurante, privada, por mais elevado que tivesse sido o tom de voz em que o Engº Sócrates se expressou.

No princípio da semana fomos surpreendidos com a notícia de que três vice-presidentes do grupo parlamentar do PS tinham elaborado um projecto de lei assumidamente destinado a transformar cada cidadão, ou pelo menos cada cidadão com alma de pide, num polícia fiscal dos seus concidadãos em pretenso nome da banição da corrupção, permitindo-lhe controlar os rendimentos brutos do vizinho, exibidos na Internet, e concluir se eram ou não compatíveis com os seus sinais exteriores de rendimento. Naturalmente o objectivo só podia ser o de favorecer a delação, erguida assim ao altar dos deveres de cidadania, pois de outro modo não se vislumbra a utilidade da bufaria colectiva que se pretendia outorgada por lei...

Hoje o semanário Sol publica o despacho de um senhor juiz que extrai conclusões não validadas pelo órgão superior do poder judiciário a partir de uma escuta, não confirmando os fumos de crime que o senhor juiz surpreendeu nas conversas telefónicas interceptadas pela polícia. Dá-se pois valor, mais uma vez, a uma conclusão considerada ilegal a partir de escutas ainda que legítimas. O que a lei proíbe não é considerado limite, pelo que se lê no editorial do jornal, e o decantado "interesse público" da notícia submerge direitos que a herança da Revolução Francesa trouxe às constituições do Estade de Direito, repeitador dos direitos individuais e assente no império da lei.

Há a unir todos estes factos um indisfarçavel padrão. A atracção pelo buraco da fechadura. O gosto pelo disse-que-disse, uma rendição doentia ao voyerismo, um desprezo absoluto pela privacidade. Alguém me recordava com acerto que um País pequeno como o nosso deve a eficácia da polícia política que existiu no período da ditadura a uma das maiores redes de informadores dos países ocidentais. Se existe gene que identifica um povo, este deve ser o que individualiza o nosso. Um gene, porém, avariado que torna cada vez mais doentio o corpo em que se alojou. Razão tem Vasco Pulido Valente na nota que escreveu no Público: este País nunca se habituou à liberdade. Por este caminho, jamais se habituará...

Vacinas e autismo

Uma das maiores conquistas da humanidade prende-se com a descoberta e a utilização das vacinas. Centenas de milhões de pessoas devem a vida a esta prática que se tornou rotineira e abrangente face ao complexo mundo de inúmeros “microagressores”. Apesar de todas as conquistas e aperfeiçoamento tecnológicos associados às maravilhosas evidências científicas neste setor, mesmo assim existem detratores que põem em causa as suas vantagens. Todos têm direito à sua opinião, mesmo que não seja racional e inteligente. Neste caso não há muito a fazer. Se forem adultos, então que se amanhem. Não querem ser vacinados? Bom, podem não querer, mas para algumas são obrigados por imposição da legislação. E ainda bem. As medidas legislativas que impõem a obrigatoriedade de vacinação contra certas doenças é uma forma de proteger a saúde de cidadãos. Na prática, o não respeito não se faz acompanhar de medidas sancionatórias. Certo é que pode ter algumas consequências, como não permitir a matrícula nalgum estabelecimento de ensino e, até, dificultar ou impedir o acesso à atividade profissional. Situações limite que, na prática, não são atingidas, porque as pessoas acabam por as acatar. O pior são alguns grupos que recusam sistematicamente a vacinação por motivos “ecológicos” ou doutrinários. Nestes casos, as crianças poderão ser as principais vítimas dos preconceitos paternais que podem por em causa a saúde dos filhos, levando-os à morte. É compreensível que, caso surjam evidências de perigo para a saúde das crianças, provenientes da vacinação, os opositores se sintam “legitimados” nas suas condutas. Foi o que aconteceu quando a partir de um estudo publicado em 1998, numa revista médica altamente prestigiada, The Lancet, se estabeleceu uma relação entre o autismo e a composição de algumas vacinas que continham uma substância denominada timerosal, um derivado do mercúrio.
O autismo é uma situação problemática em que as crianças ficam afetadas na comunicação e no relacionamento, podendo ser altamente disfuncional em termos comportamentais. Existem estudos de que este problema está em crescendo. As causas não são bem conhecidas e além dos fatores genéticos são apontadas outras, externas, resultantes de exposição a toxinas e infeções. O estudo em causa veio reforçar a opinião de alguns pais que viam naquela prática a causa dos males dos seus filhos. Durante todo este tempo, acompanhei com algum interesse o debate e a investigação a propósito desta associação que levou a reformular a composição de algumas vacinas e ao crescente medo em vacinar a pequenada, sobretudo com a vacina tríplice, que na Inglaterra chegou a atingir foros de recusa altamente preocupantes ao ponto de causar apreensão face a novas epidemias do sarampo, com todas as terríveis consequências que esta doença pode provocar. No meio disto tudo, os pedidos de indemnização devidos à utilização do timerosal não se fizeram esperar. Entretanto, os vários estudos epidemiológicos começaram a não conseguirem evidenciar a tal associação e muito menos estabelecer os nexos de causalidade. Mas a situação começou a impregnar as sociedades ao mais alto nível e com intensidade muito forte nos restantes, pelo que foi quase impossível desfazer a ideia inicial.
Pois bem, agora, ao fim de 12 anos, a revisa médica britânica acaba de retirar do seu arquivo o polémico artigo. Esta retratação surge na sequência de um pedido formal nesse sentido efetuado noutra publicação científica, The British Medical Journal. Afinal, o autor do artigo, Andrew Wakefield, é acusado de má conduta científica. Trabalhava para os advogados de pais que achavam que os filhos tinham sido vítimas das vacinas. Todo o processo de investigação foi posto em causa, em termos de metodologia científica e ética com desprezo total pelos interesses e direitos das crianças. Wakefield e os restantes coautores correm riscos de virem a ser penalizados.
A má conduta e a fraude científica constituem realidades que não devemos escamotear e que podem perigar a segurança e o bem-estar de outros, alimentando, muitas vezes, certas pessoas que aguardam ansiosamente por factos ou informações suscetíveis de legitimar as suas condutas ou doutrinas, mais do que discutíveis, a raiarem mesmo o crime.
E agora? Agora, não vai ser nada fácil descontaminar a poluição mental provocada.

O terrorismo intelectual

Ofereceram-me o livro “Le terrorisme intellectuel”, de Jean Sévillia, jornalista e director de redacção no Figaro Magazine, conhecido por denunciar a censura moral e os preconceitos históricos alimentados pelas várias tendências políticas e intelectuais em França. Segundo o autor, a liberdade tem sido sucessivamente apropriada por grupos de intelectuais que se arrogam detentores da verdade em cada época, dominando a cena política, cultural e mediática sem deixar espaço nem oportunidade a que correntes de pensamento divergentes entrem no debate. A título de exemplo, essas elites “em 1950 exaltavam Estaline, em 1960 garantiam que a descolonização traria a felicidade aos povos além mar, em 1965 inflamavam-se por Mao ou Fidel, em 1968 queriam abolir todos os constrangimentos sociais, em 1975 saudavam a vitória do comunismo na Indochina (…)nos anos 90 afirmavam que o tempo das nações, da família e das religiões tinha terminado”.
O livro contém um levantamento noticioso em cada época em torno dos diferentes acontecimentos, com declarações e reacções dessas elites e dos seus protagonistas, numa retrospectiva impressionante, como se pudéssemos ver um filme a andar para trás.
“Durante cinquenta anos, os espíritos refractários a estes discursos foram desacreditados e os seus argumentos votados ao silêncio.É isto o terrorismo intelectual. Recorrendo à amálgama, ao processo de intenções e à caça às bruxas, este mecanismo totalitário impede qualquer debate sobre as questões que comprometem o futuro”.
Não sei o que diria o autor sobre os actuais fenómenos do politicamente correcto, dos seus processos, da sua sucessão permanente, da sua imposição e ainda do facto de muito desse pensamento dominante nem chegar muitas vezes a resultar da reflexão entre intelectuais…

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Poupança ou desperdício?

Os jornais dos últimos dias(quase todos) trazem-nos várias notícias que, a confirmar-se, merecem alguma reflexão para além dos habituais parâmetros das leituras orçamentais. O combate ao défice inclui, como sempre, a decisão de uma nova redução de pessoal, depois da afirmada redução de 65 000 nos últimos anos. Devo dizer que esta métrica me faz alguma confusão, uma vez que não percebo como é que se contabiliza essa poupança como virtuosa sem esclarecer que tipo de funcionários é que saíram (em geral para a reforma) e vão continuar a sair.
Uma nova alteração no regime de reforma e pensões irá provocar uma verdadeira corrida à reforma antecipada, o que constituirá certamente uma preciosa ajuda a que se alcance a tal meta da nova redução. Com esta alteração anuncia-se que “o Governo quer poupar 28 milhões de euros nas pensões”, reduzindo a média anual nas pensões futuras em 1244 € (Correio da Manhã de ontem).
Não tenho dúvidas de que, em termos contabilísticos, se gastará talvez menos dinheiro na respectiva classificação orçamental com o peso dos salários, o que eu pergunto é se o que se vai poupar compensa, mesmo em termos financeiros, o que se vai perder. Por outras palavras, não entendo como é que o que se paga em salário, por exemplo, a um médico no auge da sua carreira, ou a um professor com larga experiência, ou a um técnico qualificado num ministério, é inscrito apenas na coluna da despesa e não se atribui nenhum valor à contraprestação do seu trabalho. Se sair poupa-se porque o que produz parece não ter nenhum valor económico?…Gostaria de saber qual é a empresa privada onde este discurso fosse o eleito para estimular a produtividade e a competitividade, primeiro investe-se na formação, dá-se experiência, deixa-se criar nome e competências e depois anuncia-se que e que o que se espera é que se vão embora quanto antes. E, de seguida, apresenta-se aos accionistas um enorme êxito na redução de despesas, sem referir a consequência e dimensão da consistente redução da capacidade operacional da empresa no seu “core business…”
Curiosamente, os mesmos jornais dão notícia de ruptura em vários serviços do Sistema Nacional de Saúde, por falta de médicos qualificados ou simplesmente de médicos, havendo no entanto verbas para contratar empresas que por sua vez contrataram médicos que por esta via vão “prestar serviços” aos hospitais e centros de saúde. Calculo que estas despesas não sejam contadas como despesa de pessoal, mantendo-se assim os níveis de aplauso quanto à poupança na respectiva rubrica. Mas também dizem que há uma total incapacidade de o sector público de saúde concorrer com a contratação de médicos pelo sector privado, que está a absorver quer os que se reformaram antes de tempo para fugir “à poupança” com as novas regras, quer os que optam por carreiras e salários mais atractivos neste sector. É certo que continuamos a manter a rubrica “investimentos” em bom ritmo, pelo menos é o que dizem, e que vamos construir mais uns 5 ou 6 hospitais, todos muito bem equipados. O problema é que não há quem fique lá a trabalhar… Poupança ou desperdício?

Quem se lixa é o... caribú...

1. Os alunos do ensino secundário estão em luta e não foram hoje às aulas, “porque querem ver resolvidos três problemas: educação sexual, estatuto do aluno e falta de liberdade nas escolas. Já… “ - Uma aluna do Secundário, no Público.
2. O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, designou o comportamento dos investidores como «animal spirit», declarando ainda que estiveram muito focados numa presa, a Grécia, e agora viraram-se para outra, para nós, mas sem razão».
3. Os mercados não se preocupam com a realidade da situação económica, baseando-se apenas em juízos à priori e de impressões para fundamentar as avaliações- José Sócrates ao Libération.
4. Três Vice-Presidentes do Grupo Parlamentar do PS anunciaram um projecto que visava tornar públicos os rendimentos brutos declarados dos Contribuintes-Público.
5. Um lince ibérico macho com cinco anos seguido por telemetria entrou em Portugal pela zona de Moura-Barrancos, vindo de Huelva, na última semana de Janeiro e por cá ficou durante três dias. Acreditamos que os animais usam este corredor entrando em território português. Desta vez a novidade é que conseguimos confirmá-lo, referiu Sandra Moutinho, assessora do ICNB. Mais contou que as autoridades espanholas pediram autorização a Portugal para capturarem o Caribu.
Então, mas só o Caribu é que tem que ser capturado?

Sem palavras


Espírito animalesco dos mercados? Só nos faltava mais esta!

1. Um alto responsável do Governo terá afirmado hoje que “Portugal é agora o alvo do espírito animalesco dos mercados". Depois de zurzirem as agências de “rating”, com os brilhantes resultados de que vamos tendo conhecimento, a vociferação volta-se agora contra os mercados...
2. Cabe perguntar se esse “espírito animalesco dos mercados” será o mesmo que levou muitos milhares de portugueses a desfazer-se dos certificados de aforro de que eram titulares, ao longo do último ano, apesar da “generosidade” extraordinária da política do Governo no que se refere à remuneração deste instrumento de poupança?
3. Direi que tudo indica que sim, embora o mesmo responsável não o tenha explicitado (admito que não se tenha recordado desse outro fenómeno de comportamento animalesco, neste caso dos aforradores portugueses)...
4. Com efeito, a mensagem sub-liminar destas declarações que se vão sucedendo em catadupa, para denunciar a conspiração financeira mundial em curso contra o nosso País, é a de quando os mercados não adquirem os instrumentos de dívida emitidos pela República lusa ao preço pretendido pelo Governo, então estão a comportar-se de modo animalesco.
5. Por outras palavras, os mercados têm de entender que a verba de € 5,5 mil milhões inscrita no OE/2010 para Juros e outros Encargos da Dívida não dá para pagar taxas de juro mais elevadas do que as que estiveram subjacentes a esse cálculo orçamental...qualquer proposta de aquisição de dívida da República que implique o risco de furar essa verba é rotulada de comportamento animalesco...
6. O Governo parece esquecer 2 pormenores da sua (ir)responsabilidade que contribuíram para este comportamento animalesco:
- A decisão “esperta” de agravar o défice de 2009 à última hora...ao que parece, segundo diversos comentadores, para ganhar folga (?) em 2010...lançando uma enorme dúvida no animalesco mercado quanto à real situação nas finanças públicas...
- A decisão, desta semana, de não colocar na íntegra uma emissão de Bilhetes do Tesouro, anunciada para € 500 milhões e encurtada para € 300 milhões não por falta de procura mas por não gostar das taxas oferecidas...criando no animalesco mercado um sentimento de reserva em relação ao futuro financiamento do défice + outras necessidades não incluídas no défice.
7. Só nos faltava mesmo mais este episódio na gloriosa cruzada contra os inimigos externos e neste caso, não esqueçamos, contra os pobres investidores em Certificados de Aforro...

Enquanto o País político se entretem com controvérsias inúteis...

"Os mercados continuam a dar sinais claros de preocupação para com Portugal. O preço dos CDS sobre Obrigações do Tesouro a cinco anos superou hoje os 200 pontos, um novo recorde"

"Trichet foge a pergunta directa sobre Portugal"


"O PSI 20 regista esta manhã um dos piores desempenhos do mundo, com a queda próxima de 3,5 por cento a significar uma perda de 820,3 milhões de euros, praticamente o preço da terceira travessia sobre o rio Tejo".

"Lisboa apresenta o desempenho mais negativo no mundo e saltou para as manchetes dos 'sites' internacionais dos principais media financeiros".

Não é hora de ganharem juizo?

Em 6 anos de Sócrates, a dívida pública sobe exponencialmente!...

Mas, francamente, o que podem os credores internacionais fazer quando, nestes anos de Sócrates, a dívida pública quase duplica em termos de PIB, em 2009 necessitámos de empréstimos superiores a 14 mil milhões de euros, em 2010 está previsto igual montante, e em 2011 dificilmente será menos? Que podem fazer as agências de rating quando olham para o volume e a evolução dívida pública portuguesa, senão constatar o descalabro em que estamos metidos? Os números oficiais do Instituto da Gestão da Dívida Pública aí estão para evidenciar esse enorme buraco, cada vez mais descontrolado.
Nos anos da governação de Sócrates, o aumento da dívida pública foi o seguinte:
2005- 11,1 mil milhões de euros
2006- 6,8 mil milhões de euros
2007- 4,2 mil milhões de euros
2008- 5,7 mil milhões de euros
2009- 14,3 mil milhões de euros
2010- 14 mil milhões de euros.
Nos 6 anos de 2005 a 2010, a dívida aumentou 56,1 mil milhões de euros, passando de 90,7 mil milhões para 146,8 mil milhões de euros. E se, em 2004, significava 60% do PIB, em 2009 representa 79,4% e em 2010 vai aproximar-se dos 90%.
Se a estes valores da dívida directa juntarmos cerca de 30 mil milhões de euros de dívida indirecta das empresas públicas deficitárias e que o Estado terá que honrar e ainda o valor actual dos compromissos com as PPPs no montante de cerca de 26 mil milhões de euros, teremos um valor global de 203 mil milhões de euros, equivalente a 122% do PIB. Em apenas 6 anos, a dívida pública sobe exponencialmente.
O risco de crédito é, de facto, enorme. Os credores e agências de rating apenas vêem o óbvio.
Por cá, o pensamento oficial insiste em negar a evidência. Para continuar na senda do despesismo de que é exemplo o aumento da despesa corrente previsto para 2010.
Mas querem o Governo e os "pensadores" a soldo fazer de nós parvos ou quê?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Os Deuses Devem Estar Loucos...


A iniciativa da divulgação na Internet do rendimento de todos os cidadãos trouxe-me à memória o filme “Os Deuses Devem Estar Loucos”…
Foi realmente um momento de excesso de criatividade. Qual terá sido a fonte de inspiração?
Não é com certeza com este tipo de medidas que se combate a corrupção, que bem precisa de ser reforçado e de mostrar resultados. Uma iniciativa que morreu à nascença, com uma actuação pronta do presidente do grupo parlamentar do PS, que ainda assim não evitou a critica generalizada de tão desconcertante iniciativa.

Zurzir as agências de "rating" parece dar óptimos resultados...

1. Bem avisava ontem Vítor Bento: não vale a pena atacar as agências de “rating”. Com os erros que lhes possam ser assacados a verdade é que os mercados lhes dão atenção. Atacá-las pode ter efeitos contraproducentes...
2. Notícias de hoje: risco da dívida pública portuguesa é o que mais sobe no mundo. O preço de um seguro para cobrir o risco de incumprimento de Portugal atingiu hoje um novo máximo histórico. Os CDS (credit default swaps) sobre OT’s a 5 anos são os que mais sobem em todo o mundo...
3. Também de hoje: "spread" das obrigações do Tesouro a 10 anos sobe para 144 pontos base, o mais elevado desde Abril de 2009 (zénite da crise financeira)...
4. Ainda de hoje: IGCP coloca apenas € 300 milhões de bilhetes do Tesouro a 1 ano, de uma anunciada oferta de € 500 milhões, por não querer aceitar propostas com taxas consideradas demasiadamente elevadas...
5. Conclusão (eventualmente chocante): as declarações de políticos e de outras altas individualidades repudiando os avisos das agências de “rating” estão efectivamente produzindo um óptimo resultado; a República agradece o serviço e pede que façam o favor de continuar, não desarmem perante estes inimigos externos...

Os "tansos" fiscais!... II

(Continuação)
O Governo enfrenta a necessidade de novo aumento do IVA e de impostos indirectos...Vítor Constâncio, na Conferência da Antena 1.
Portugal tem, actualmente, um nível de esforço fiscal relativo que é, em 2009, 24,3% superior à média europeia...(Reflexões sobre Política Económica-Instituto Sá Carneiro)
Chegado ao fim da tarde, o “tanso” pensará que já pagou os todos os impostos do dia.
Mete-se na viatura para voltar para casa e lembra-se que terá pagar o selo do carro e que também já está atrasado no pagamento da taxa de licenciamento e da taxa sobre o valor de adjudicação de obras públicas, e até dos juros compensatórios.
Não irá ainda escapar às taxas de portagem, ou a uma qualquer taxa florestal, ou às taxas de fiscalização de actividades comerciais e industriais, e, em muitos casos, aos emolumentos consulares e a outras taxas que, à falta de objecto, o Estado chama Taxas diversas. Ao chegar a casa, sobre a qual teve que pagar ou Sisa, se a casa tem já uns anos, ou o IMIT, se a casa é mais nova, ou Imposto de Selo, se se tratou de uma doação, espera, enfim, descansar. Mas cai na tentação de ver o correio.
Encontra quatro cartas das Finanças: a primeira do IRS, com um adicional a pagar, a segunda do IRC, com um pagamento por conta, a terceira do IMI, referente à casa que possui, e ainda a última, a quarta, que lhe manda pagar uma tarifa de conservação de saneamento!...Encontra e abre mais duas cartas, uma da EDP e outra, da PT.
Na factura da EDP, vê que sobre o preço da electricidade tem que pagar a Taxa de Exploração DGGE e ainda a Contribuição audiovisual, para ver televisão e ouvir rádio, tudo adicionado com um inevitável IVA. E na factura da PT verifica que tem que pagar a Taxa Municipal dos Direitos de Passagem que o operador repercute sobre o cliente!...
Janta a pensar nisto tudo e ainda se lembra de algumas multas ou de algumas coimas por pagar ou outras penalidades por atraso na entrega de uma qualquer declaração obrigatória.
Vai para cama dormir. Toma um Valium para repousar e, com ele, não escapa a mais um imposto, o IVA de 5% sobre os medicamentos. Mais relaxado, adormece e começa a sonhar. Sonha com a compra de uma espingarda para, em legítima defesa, se defender de quem assim, de toda a forma e feitio, lhe vai ao bolso. E quando, meticulosamente, começa a colocar os destinatários por ordem de prioridades, acorda estremunhado, ao lembrar-se que, ao adquirir a espingarda, para além da licença de caça, ainda terá que pagar o imposto de uso e porte de arma!...
Perdido o sono, abre a televisão e vê os habituais economistas professores, os clássicos comentaristas doutores e os clássicos pensadores, mas todos professores doutores, a dizer que os impostos têm que subir e que assim é que os portugueses ficarão bem!...
Nota:"Tanso fiscal" foi uma expressão criada pelo saudoso Dr. Leonardo Ferraz de Carvalho.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Agora sou eu quem tem uma dúvida...

"Acontece que, no domingo à noite, o director do JN o contactou dando-lhe conta das dúvidas que lhe causava o texto que Mário Crespo enviara para publicação no dia seguinte" - Nota da Direcção do Jornal de Notícias sobre o artigo de opinião de Mário Crespo.

Pergunta a minha inocente curiosidade: quem terá ajudado o director do Jornal de Notícias a superar a dúvida?

A bola de neve

Era previsível. A um governo que perdeu a oportunidade de fazer a verdadeira reforma do Estado, sucedeu um governo que enfraquece cada dia que passa.
A celebrada inversão de marcha nas políticas de gestão de recursos humanos na Educação está já a dar os seus resultados. O sindicato independente dos médicos veio avisar: "se o governo abrir excepções para outros grupos profissionais, como os professores, na alteração das quotas previstas para progressão nas carreiras da função pública, então os médicos exigirão o mesmo".

Quantos mais "corpos especiais" da Administração Pública se apresentarão com o mesmo discurso?

Os "tansos" fiscais!...

O Governo enfrenta a necessidade de novo aumento do IVA e de impostos indirectos...Vítor Constâncio, na Conferência da Antena 1.
Portugal tem, actualmente, um nível de esforço fiscal relativo que é, em 2009, 24,3% superior à média europeia...(Reflexões sobre Política Económica-Instituto Sá Carneiro)
Logo de manhã, ao tomar banho, para além da a água, o tanso está a pagar uma quota de serviço, uma tarifa de tratamento, duas taxas de saneamento, uma fixa, outra variável e o IVA a 5%. As taxas significam 2/3 e a água 1/3 da factura.
Entra no carro, dá à chave e logo paga um imposto sobre os combustíveis e ainda o IVA por cima da gasolina e do imposto. E já nem lhe vem à cabeça os impostos sobre impostos que pagou aquando da compra da viatura. Pára para tomar o pequeno-almoço e paga IVA sobre o bolo e o café com leite, compra um maço de tabaco e é esportulado do imposto sobre o tabaco.
Fumando ou não fumando, a malha fiscal persegue-o em toda a manhã: se levanta cinco cheques no Multibanco paga imposto de selo, se tem que se sujeitar a qualquer acto burocrático paga imposto de selo, paga imposto de selo na ida ao notário, numa escritura pública, num processo de habilitações de herdeiros, numa procuração, numa renda, numa qualquer operação bancária!...
Se compra uma raspadinha, paga imposto de selo sobre jogos, se compra um bilhete de lotaria, paga imposto de selo sobre lotarias, se mete o totoloto ou o totobola, paga o imposto de selo sobre as apostas mútuas.
Se compra o jornal para ler ao almoço, paga IVA, e se pretende espairecer com um digestivo, suporta o IABA, bonito nome para denominar o Imposto sobre o álcool e bebidas alcoólicas.
Da parte da tarde, continua a labuta e a luta. Se tem um assunto em tribunal, paga taxa de justiça, se precisa de registar um filho, paga a taxa do registo civil, se precisa de registar um prédio, paga a taxa de registo predial e se precisa de registar um acto da sociedade, paga uma taxa de registo comercial, se precisa de ir ao hospital, paga taxa moderadora, se vai ao talho, paga a taxa de comercialização e abate de gados, se compra umas acções na bolsa, paga a taxa sobre operações de bolsa, se tem filhos na Universidade, paga as propinas.
Lá mais para o fim do dia, e numa qualquer aquisição, poderá acontecer estar a pagar uma qualquer taxa vinícola, ou uma taxa de portos, um qualquer emolumento sobre qualquer situação desconhecida ou uma taxa sobre o controlo metrológico e de qualidade, obviamente para ser bem servido…
A continuar, que a procissão vai no adro...

Sonata de Outono ou o eterno ajuste de contas


Sonata de Outono é um daqueles filmes que doem de cada vez que se vê.
No confronto cruel entre uma mãe e uma filha colocamo-nos na posição de uma e de outra, ora acusando ora sendo acusadas, ora sentindo a dor da criança que queria um amor exclusivo e absoluto a que se acha com direito, ora captando a perplexidade da mulher adulta que não quis renunciar à glória de um talento reconhecido.
O filme trata de um ajuste de contas que sempre chega à vida de qualquer mulher, com mais ou menos violência. Se escolheu ser o centro afectivo da família, o seu suporte incondicional e exclusivo, mais tarde será ela a cobrar aos filhos, incrédulos, o preço do vazio que resta depois de eles saírem de casa. Quantas vezes é esse diálogo ao contrário, as mães a fazer a pergunta afiada, “porque é que nunca repararam que eu existia? Devem-me isso, essa dedicação e essa renúncia”. Se arriscou ter êxito e não apenas ajudar ao sustento da família, esse tempo é sempre visto como “roubado” à família, é um abuso apenas tolerado e aberta ou insidiosamente apontado como “a culpa” de tudo o que possa correr mal na vida familiar. Como se uma mulher tivesse obrigação de se realizar na maternidade e tudo o resto fossem divagações apenas permitidas com transitória condescendência. É dessa culpa terrível que nos fala Bergman, pela voz da filha, culpa agravada pela "inconsciência" demonstrada pela mãe ao invocar em sua defesa os seus feitos como pianista. A filha não a ouve, critica-lhe os êxitos como se cada um fosse o símbolo da privação suportada pelas filhas, um egoísmo intolerável que tinha agora o dever de expiar, não podia partir sem carregar esse peso com ela. No filme é muito interessante reparar que a grande vingança da filha foi que assumiu ela o que pensou ser o fardo da mãe, a irmã doente, a casa, o isolamento e a solidão, tornando-se a prova viva do sofrimento que a outra não aceitou. Estou aqui, não vês, onde tu devias estar, não tinhas o direito de viver uma vida diferente desta, deves-me isso, roubaste-me a minha vida, fiquei no teu lugar, a cuidar da menina doente. Massacra-a com a memória das suas ausências, nem por um momento mostra interesse ou orgulho no êxito da pianista, nem por um momento se compadece do seu esforço, da sua luta, dos obstáculos que encontrou e venceu. Nem por um momento lhe ocorreu retribuir o amor que exigia.
Bergman expõe um conflito em que os homens são ausentes e que, apesar de todos os progressos, não é hoje menos actual, apenas o descreve com uma terrível análise de sentimentos a que nos desabituámos.
A baixa de natalidade aí está a demonstrá-lo, a dissolução das famílias também, o adiamento da maternidade ou o fracos índices de lugares de topo ocupados pelas mulheres são sinais evidentes de que há conciliações bem difíceis e que a culpa continua a ser um sentimento insuportável que poucas ousam arriscar.

Contradições do "espírito positivo"

Uma das grandes contradições da nossa época é o diktat do espírito positivo, a negação do sofrimento e a fuga permanente a tudo o que possa causar flutuações de humor ou simples desconforto afectivo, porque se criou uma baixa tolerância às contrariedades. Poderíamos chamar-lhe a época do hino à felicidade individual se isso não fosse contrariado a cada momento por medos sucessivos lançados sobre o colectivo, medo do terrorismo, medo das doenças, medo das falências, medo dos despedimentos, medo do fracasso, medo, enfim, de perder num ápice tudo aquilo em que se baseia afinal a tão legítima felicidade individual.
Este exercício de resistência à infelicidade dá lugar a uma atitude artificial que leva à solidão e ao desespero.
A verdade é que as angústias pessoais, as incertezas ou os desgostos não doem menos do que antes, só que agora não lhes damos tempo a escoar-se, escondemo-los, disfarçamos, e são vividos com uma impaciência e uma ansiedade de corpos estranhos que devem ser segregados e expulsos antes que alguém repare que se fraquejou no espírito positivo.
O resultado disto é muito enganoso para quem vive as situações, sobretudo os jovens, porque se sentem perdidos e não encontram forma de explicar os sentimentos dolorosos que persistem ou as angústias que nascem lá bem fundo e que deveriam ceder às primeiras varridelas, mas afinal agarram-se e ficam ali, a moer, sem conseguirem exprimir-se. De certa forma, banimos o direito ao luto, quando morre algum ente querido, ficamos constrangidos perante o choro e a dor, incitamos a vencê-la ignorando-a, quando afinal ela precisa de tempo para ser sentida, para dominar primeiro até dar espaço ao consolo e, por fim, à habituação. A ausência, ou a mudança, precisam de tempo para adaptação, se saltarmos as etapas dessa transformação ficam recalcadas em revolta ou em frustração, encruam em vez de amadurecer.
Mas não são só os desgostos que sofrem este recalcamento. Também as coisas boas da vida, como é o caso da maternidade, que é hoje exaltada como um estado de felicidade absoluta, uma alegria que explode no exacto momento em que se sabe a notícia e a jovem mãe deve a partir daí mostrar um sorriso lindo e tranquilo. Ora, o que acontece na maior parte dos casos é que o primeiro impacto é de uma enorme angústia perante uma revolução próxima que não deixará nada como dantes e que ocupará a vida daí em diante. O peso da responsabilidade, o medo de não ser capaz, quantas vezes o desejo de voltar à liberdade que se está a ponto de perder, tudo acrescido das mil e uma teorias que ensinam que um filho merece tudo, que esses seres encantadores contam simplesmente connosco para todo o sempre é um choque terrível para quem vivia uma juventude serena, protegida e despreocupada. Passar de filha a mãe é um salto brutal, e esconder isso com teorias suaves não ajuda nada porque cria sentimentos de culpa, as pessoas julgam que são anormais, que têm reacções malévolas que os outros não podem suspeitar e vivem sozinhas numa angústia injusta e cruel que lhes traz um sofrimento inútil.
Esta época de espírito positivo tem este lado muito negativo, é que só se fala das vantagens e está-se cada vez menos preparado e atento para as dificuldades, tornando as pessoas muito vulneráveis ao medo e às incertezas.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

100 dias de governo

Cumprem-se 100 dias de governo e tornou-se hábito fazer um balanço do arranque do novo executivo após este tempo. O que melhor caracteriza estes 100 dias? Por um lado a oposição a algumas políticas do governo anterior. Por outro, uma preocupante continuidade no que é essencial para o País.
O caso mais evidente de oposição ao governo anterior é o da educação. Com uma nova ministra, e apesar do primeiro-ministro ser o mesmo (numa versão todavia mais soft) que meses antes jurava firmeza nas medidas aprovadas em conselho de ministros e nos múltiplos e quilométricos despachos da anterior equipa ministerial, em menos de um fósforo lá se foi a convicção sobre a justeza da alteração das carreiras ou sobre o modelo de avaliação dos professores.
Na justiça afinal a questão das férias judiciais - que a par da venda de medicamentos fora das farmácias constituiram as medidas com que o governo anterior anunciou a sua vontade reformista inabalável - cedeu lugar à compreensão pelo desgosto de alguns actores judiciários e, mais semana menos semana, lá se verá o regresso ao passado, com o mapa judiciário (essa anunciada mãe das reformas judiciárias) esquecido.
Na agricultura o esforço é agora desfazer o desastre que foi a passagem pela pasta do anterior titular, ensaindo-se com charme uma aproximação aos agricultores que contrasta com a postura do anterior ministro que parecia admitir a existência de agricultura sem agricultores.
Nas finanças o ministro assume que afinal o déficite é um problema e a dimensão da dívida soberana uma dor de cabeça.
Nas obras públicas o ministro manda parar (ou sujeita-se à ordem para parar) a hemorrogia do betão e para o TGV Porto-Vigo e - suprema condenação do discurso anterior - julga insustentável o nível de endividamento de algumas empresas públicas do sector.
Depois, existem as marcas impressas ao longo de 5 anos de governação PS, que se mantêm, e essas são essenciais. Hoje o governo quis dar um sinal de que na essência é coerente. Esse sinal foi a pompa e circunstância com que anunciou o lançamento da primeira pedra do novo museu dos coches, obra que custará uns largos milhões num contexto em que já ninguém duvida que o empobrecimento do País se acentua a um ritmo que as políticas de novo-riquismo dos últimos tempos iludiram. Haverá simbolo mais acabado da tendência para o sumptuário do que esta obra que só pode ser entendida como a celebração do despautério das finanças públicas que caracterizou uma das piores fases da I república?

Agências de "rating": faz sentido "colar" Portugal à Grécia?

1. Um conhecido Banqueiro, em entrevista hoje conhecida a um também bem conhecido diário, usa, a propósito deste tema, uma expressão curiosa, que diz mais ou menos isto: “Porque raio as agências de “rating” ligam Portugal à Grécia?”.
2. Em discurso ontem proferido, o quase-candidato à Presidência Manuel Alegre desferiu fortes críticas às agências de “rating, dizendo que, para além de muito desacreditadas, terão querido fazer uma pressão intolerável sobre o OE para 2010...
3. Quanto às declarações de Alegre, parece que poderemos limitar-nos a perguntar o seguinte: se as agências de “rating” estão assim tão desacreditadas, qual o motivo da nossa preocupação com os comentários e avisos das mesmas?
Para quê perdermos tempo ou, pior ainda, afligirmo-nos com o que dizem de nós?
4. Quanto à interrogação do Banqueiro, o assunto pode merecer um pouco mais de reflexão – haverá porventura algum motivo sério para que alguém, agências de “rating” ou qualquer outra entidade, faça uma colagem entre a nossa situação e a da Grécia?
5. Uma interessante resposta é dada por um muito reputado economista, Daniel Gros, Director do “Centre for European Policy Studies” (Bruxelas), em artigo publicado na edição da última 6.ª Feira do F. Times. Nesse artigo, intitulado “Greek burdens ensure some Pigs won’t fly”, Gros estabelece uma estreita relação entre as situações da Grécia e de Portugal, separando-as dos casos de Espanha e da Irlanda por aquelas serem, na sua análise, bem mais graves.
6. Gros põe em evidência a baixíssima taxa de poupança bruta da Grécia (7,2% do PIB) e de Portugal (10,2%), muito inferiores à média da zona Euro (20%) e também muito inferiores às da Espanha (19%) e da Irlanda (17%).
7. A situação da taxa de poupança em Portugal e na Grécia significa que não podemos financiar por essa via o investimento (público e privado) e o consumo de capital.
Com taxas de poupança tão baixas, tanto a Grécia como Portugal não têm conseguido financiar nem um nível mínimo do investimento líquido com recursos gerados internamente – e daí a necessidade de se endividarem pesadamente no exterior, ano após ano, situação que, pelos vistos, pelo menos pela nossa parte vai continuar...
8. O caso da Grécia é especialmente grave segundo Gros pois, praticamente desde a criação da zona Euro, tem gerado uma poupança líquida negativa - insuficiente mesmo para cobrir o consumo de capital, atingindo essa deficiência 5,1% do PIB em 2008.
9. Mas acontece que em 2008 só Portugal teve um resultado pior que o da Grécia...
10. Gros observa que mesmo os estados do Báltico, apesar de terem tido de financiar uma euforia na construção, se encontram numa posição bem melhor do que a Grécia e Portugal, apresentando uma poupança líquida positiva confortável...
11. Esta grave insuficiência de poupança, combinada com uma elevada dívida externa, torna a solução dos desequilíbrios de Portugal e da Grécia extraordinariamente penosos: “salvar um país que está consumindo excessivamente faz sentido se e só se a comunidade política desse país aceitar que aquilo que se requer é mais do que um ajustamento orçamental...” (para conhecer recomendações concretas de Gros, sugiro a leitura do artigo em causa).
12. Será que as situações de Portugal e da Grécia são então muito similares como argumenta, com aparente solidez, Daniel Gros?
Se assim for, justificar-se-á fustigar as agências de “rating”?
Não seria melhor dedicarmo-nos, sem mais demora, a fazer o trabalho de casa?

Cinco anos de má política I

Cinco anos do 1º Governo de Sócrates (2005 a 2009) permitem fazer o balanço da política orçamental e verificar quanto ela foi incorrecta, por isso, dinamizadora da crise e incapaz de provocar a viragem económica.
De 2005 a 2008, a política fiscal do Governo teve como reflexo a subida do montante arrecadado pelos impostos, a uma taxa média anual de 5,7%, enquanto o crescimento do PIB foi de 0,9% em média anual.
Este exagero de apropriação pelo Estado da riqueza gerada pela economia é a principal causa interna que explica o insignificante crescimento.
A poupança dos particulares e empresas foi drasticamente sugada, o investimento diminuiu 0,6% em média anual. Com a diminuição do investimento, o desemprego naturalmente cresceu e a galinha dos ovos de ouro dos impostos definhou.
Pior ainda, as consequências reflectiram-se em 2009, com o Governo sem meios, mesmo numa perspectiva keynesiana, de intervenção real para alterar a situação. A quebra da receita fiscal foi superior a 12% em 2009 e o PIB diminuiu 2,6%, traduzindo praticamente uma estagnação da economia no quinquénio(crescimento médio anual de 0,2% de 2005 a 2009).
Dir-se-á que o Governo prejudicou a economia para salvar as Finanças Públicas. Mesmo que alguém pudesse reconhecer mérito nesse propósito, nem isso, lamentavelmente, é verdade.
(Continua)