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sábado, 8 de março de 2014

A maçã da consciência...

O ritual da morte não se esgota no funeral, continua com as habituais manifestações religiosas. Numa sociedade equilibrada, e que se pretende justa, é perfeitamente compreensível que se mantenham vivas, porque ajudam os que não necessitam delas e conforta os que nelas se reveem.
Estive atento. Vi como procediam. Ouvia com atenção as prédicas, as leituras e as orações. Comparei-as com o meu tempo de criança. Tantas diferenças na forma e no conteúdo. Cerimónias distintas. Olhei para o templo e recordei alguns momentos que ali passei. Emoções, medos, alegrias e tristezas confundiram-se naquele momento. Esfreguei os olhos e afastei os pensamentos para outra ocasião. Entretive-me a ver a beleza dos ornamentos, das imagens conhecidas e dos altares bem cuidados. 

Escutei com particular atenção um dos mais sedutores episódios da Bíblia, quando a serpente seduziu Eva para comer o fruto da árvore que estava no meio do paraíso, fruto interdito. Convenceu-a. E ainda bem. Embora a interpretação feita em termos religiosos tenha sido um desafio a Deus, um sacrilégio que motivou a sua expulsão do paraíso, mesmo assim Eva, e depois Adão, fizeram o que tinham que fazer, comer o fruto da árvore proibida, o fruto da árvore do conhecimento. Se não o fizessem ainda estaríamos hoje no paraíso, um estranho paraíso, em que não tínhamos conhecimento da nossa existência. Viver no paraíso é viver na ignorância, é viver no desconhecimento da existência, é não ter consciência de si próprio, é não saber que há futuro e não saber que se vai morrer. Viver no paraíso é o que fazem os animais que não têm consciência da sua existência nem do que lhes vai acontecer. O paraíso não é compatível com a consciência de si mesmo. Mas o homem, ou melhor, a mulher, em primeiro lugar, comeu o fruto da árvore do conhecimento. Este momento é o mais belo de toda a existência do Homem, porque marca, simbolicamente, o momento do nascimento da consciência, a marca espiritual do homem, aquilo que o torna distinto das outras espécies. Ao tomar consciência da sua existência perdeu a "inocência", soube que havia futuro, presente e passado, soube que iria morrer, soube que era um ser muito frágil, soube que poderia candidatar-se a ser também um deus. Assustou-se, e continua assustado. Mas ainda bem que comeram esse fruto, o fruto do conhecimento, o fruto que lhe permitiu saborear o amor, escrever poemas, pintar o mundo e os sentimentos, sentir a dor, viver a esperança, chorar de alegria e amar sem fim mesmo que saiba que vai morrer. Afinal, o que seria do mundo se não tivesse desobedecido a Deus? Seria um estranho e vazio paraíso sem sentido. Será que Deus saberia que isto iria acontecer? Uma pergunta que só terá resposta quando o homem se transformar num deus, mas para isso precisa de comer o outro fruto, o fruto da árvore da vida, que ainda lá está, espero eu! Entretanto vamos entretendo com os poemas das fantasias, sejam os religiosos, sejam os outros, aqueles de que eu mais gosto. Sempre é uma forma de poesia, pelo menos é a minha poesia...

4 comentários:

jotaC disse...

Tal como o caro Professor diz, é uma das passagens bíblicas mais sedutoras (acho que toda a gente conhece), a despoletar uma belíssima dissertação sobre o fruto proíbido, em sentido contrário...

Ilustre Mandatário do Réu disse...

A árvore era do "conhecimento do bem e do mal" e não do "conhecimento" apenas. Adão e Eva conheciam os animais e as plantas do paraíso -- tinham por isso conhecimento.

Não conheciam o bem e o mal, que é um conhecimento muito particular, do domínio da ética/moral.

Bartolomeu disse...

Exatamente como afirma o Ilustre Mandatário do Réu. Aliás, sabemos que ao longo da sua jornada, apesar da expulsão de Adão e de Eva do Paraíso por terem trincado a mação da árvore do conhecimento; a Humanidade continua perdida e ignorante e continua sem saber distinguir, tanto no domínio da ética e da moral, como noutros, o bem, do mal.
Arrisco afirmar que Florbela Espanca tentou a antítese deste episódio bíblico, quando concebeu o seu poema: "Ser poeta", que representa (do meu ponto de vista) a diáspora da humanidade, em busca de uma essência perdida, ou simplesmente sonhada, mas nunca alcançada.

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!

E assim vamos, percorrendo as veredas desta vida; cantando uns aos outros, poemas daquilo que julgamos querer, sem sabermos concretamente se o queremos.

Diogo disse...

Caro Professor:

Eu (ateu) nunca encarei este acontecimento bíblico desta forma.

Acho que representa a passagem do primata homem da «floresta» para a «savana». De uma vida paradisíaca do homem na floresta para a vida na savana. De uma vida sobretudo frugívora e insectívora para uma existência sobretudo carnívora (mais cansativa porque a caça exige um esforço muito maior, e mais perigosa porque em competição com os grandes carnívoros).