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domingo, 23 de março de 2014

O impacto da crise...

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) alerta no estudo recentemente publicado Society at a Glance 2014 para as desigualdades em Portugal. A OCDE faz um alerta para os efeitos sociais das políticas de austeridade que têm sido prosseguidas. Os dados citados pelo estudo não constituem novidade, mas para quem dúvidas tivesse Portugal é o país que apresenta o maior nível de desigualdade na distribuição do rendimento dos países europeus que integram a OCDE. Os apoios sociais não cresceram em linha com os problemas económicos, pelo contrário, foram reduzidos.
A OCDE alerta para a falta de equidade na distribuição dos custos da crise e chama a atenção para a necessidade de Portugal rever as suas políticas de protecção social, designadamente a redução do número de desempregados – 6 em 10 - que não auferem subsídio de desemprego, recomenda prioridade à protecção dos mais pobres e apoio às famílias em maior desvantagem económica, designadamente apoio às crianças e investimento selectivo na requalificação dos desempregados.
Perante este retrato social, é razoável que nos questionemos sobre os limites das políticas de austeridade e as suas consequências, isto é, sobre a sua adequação à realidade económica e social do país. O mesmo será dizer, que futuro queremos ter e como lá chegar. A impossibilidade de vastos grupos da população poderem ter uma vida digna e acesso a bens económicos essenciais e a sua exclusão da vida económica e social constituem um entrave à mobilização do país para seguir em frente…

18 comentários:

Carlos Peixeira Marques disse...

Sobre a questão da desigualdade, nomeadamente desigualdade nas transferências sociais, seria interessante verificar se o retrato mudou (ou mudaria) com os cortes nas pensões da CGA e a diminuição dos benefícios ao IRS - é que os dados do relatório são de 2010! E esses dados mostram que os que estão (estavam) relativamente bem na vida são os mais beneficiados pela política dita redistributiva.

Zuricher disse...

Cara Margarida, não serão estes os sintomas dum país a empobrecer, algo tão visto e re-visto em África, América Latina e partes da Ásia ao longo do século XX?

Portugal poderia ser a Singapura da Europa Ocidental mas pouco se faz para isso...

Bartolomeu disse...

Cara Dr. Margarida, constata-se por este estudo recente, que a OCDE, nunca esteve em Portugal ou, se alguma vez esteve, não o compreendeu, não lhe perscrutou o murmúrio que lhe sobe das entranhas. Se tivesse, se conhecesse o país e as suas origens, talvez compreendesse que desde o ano de 1096 em que Afonso VI, Rei de Leão e Castela deu a sua filha ilegítima Teresa e o condado de Porto Cale (ou Porto do Cálix, como alguns historiadores o designam) ao Conde D. Henrique, pai do nosso primeiro Rei, Afonso de Portugal, este país foi sempre, sem exceção, uma manta de feudos. E a cada feudo, correspondeu sempre um Senhor que detinha uma certa parte de poder sujeito ao poder do Rei, mas, de forma esquiva, exercido a bel-prazer do seu detentor. Ora, como este modelo de antanho se prolonga até aos nossos dias, bem pode a OCDE e todos os santinhos peregrinar consensos e publicar relatórios que a coisa nunca se irá alterar. E vou revelar-lhe porque motivo nunca se alterará; porque os nossos primeiros reis da primeira dinastia, conquistaram o território aos mouros, expulsaram-nos e obrigaram os que ficaram a converter-se a uma fé que não era a sua e eles, por sua vez, rogaram-lhes pragas muito fortes que imagino, não tenham sido simpáticas. Nos reinados seguintes, começámos a preparar-nos para conquistar os mares. quando descobrimos novas terras e novas gentes, tornamo-las nossos escravos, obrigamo-las a converter-se a uma fé que não era a sua, vendemo-las e fizemos fortunas com esse negócio. Imagino que essas pobres gentes também nos tenham rogado pragas tenebrosas. Explorámos as riquezas de outros povos e com isso alguns portugueses e a própria coroa, lucraram fabulosas fortunas, tudo a coberto de uma evangelização, da propagação de uma fé que não era a dos povos que conquistámos, escravizámos e explorámos, mas que também não era a nossa. Esse espírito de malandros de escravizadores, ficou-nos gravado a fogo no código genético. Hoje, como não existem povos disponíveis para que possamos exercer este nosso impulso incontrolável, voltámo-nos contra nós próprios, os mais fortes, os que detêm o poder, os tais dos feudos, escravizam os mais fracos, os velhos, os doentes, os desempregados, os empregados, os que professam a mesma fé, os que processam fé diferente. Estamos em plena era Dantesca, cara Drª. Margarida. Era esta que a OCDE não pode compreender nem entrever, porque é uma expiação por que temos de passar, um calvário que teremos de percorrer até à crucificação. Depois... talvez renasçamos limpos de pecado e possamos recomeçar uma nova era. A ver vamos...

Luis Moreira disse...

Recebemos 10 milhões por hora x 24 horas x 365 dias x 10 anos. E é por causa da austeridade que somos os mais pobres e mais desiguais? Ou porque somos um estado abocanhado por interesses poderoso que partem e repartem e ficam com a maior parte?

opjj disse...

V.Exª. apresenta números que custam a crer. Diz que 6 em cada 10 não recebe subsídio de desemprego!
Onde estão apresentados esses nºs?
Ouço tantos e cada um diz o que quer.
Há dias numa TV falava de 13.000 manifestantes, passado 2 horas já dizia 3.000. Inconsciência!
Cumps.

Carlos Sério disse...

Multiplicam-se em manobras para amarrar o PS às novas medidas de austeridade que se avizinham para 90% dos portuguesas que não para os 10% restantes que continuam a aumentar as suas fortunas. Para estes a “crise” foi a melhor coisa que lhes aconteceu.

Sim, porque da riqueza que o país produz todos os dias, se uns empobrecem outros necessariamente enriquecem. O dinheiro não se perde, apenas muda de mãos. E a Troika e o governo querem que assim aconteça. Estão ambos descaradamente ao serviço dos ricos e muito ricos.

Portanto, quando se fala, quando se pergunta, se os portuguesas estão hoje melhor ou pior do que antes da Troika, a resposta será que cerca de 90% estão muito piores e cerca de 10% estão muito melhores.

Claro que para estes 10% que vêm enriquecendo cada vez mais, o País está melhor, pois eles sempre tiveram a presunção de falar em nome do país. Para eles, o país são eles próprios e os seus interesses, o resto não conta. Aproveitaram-se da crise para sacar dinheiro dos que trabalham por conta de outrem e dos pequenos e médios empresários, que continuam a ver as suas empresas descapitalizadas e a falir.

Assim, depois da Troika o que teremos é um país mais desigual, com 90% da população portuguesa mais pobre e espoliada nos seus rendimentos, a trabalharem mais e sem direitos, com o aceso à Saúde e Educação mais caro e difícil, com os jovens quadros a fugirem do país (do governo) que os maltrata, com o património do Estado vendido ao desbarato aos afortunados, com mais desemprego, mais dívida, mais recessão (três anos seguidos de que resultou um decréscimo da riqueza anual produzida no país em mais de 9.400 milhões de euros em 2013 e se somarmos os decréscimos nestes últimos três anos obtemos um saldo global negativo de cerca de 19.000 milhões de euros), mas com os 10% de portugueses mais ricos, mais ricos ainda com as suas fortunas grandemente aumentadas.

É este o Portugal depois da “ajuda” da Troika e de um governo que se confunde com ela.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro opjj
São dados oficiais. Os números citados no meu texto estão no estudo da OCDE, coerentes com os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística e da Segurança Social.
Dados em Dezembro de 2013:
- A população desempregada ascendia - estatísticas do INE - a 826,7 milhares de pessoas (ver aqui file:///C:/Users/Margarida/Downloads/05IE4t2013%20(1).pdf).
- Estavam a receber subsídio de desemprego - informação da SS - 309 milhares de desempregados (ver aqui http://www4.seg-social.pt/estatisticas).

Bmonteiro disse...

That is the economy...
Desde que o Premier Cavaco construiu o Centro Cultural de Belém (falta um módulo, que o anterior patrão do CCB queria construir, pagava Sócrates). Até que um novo super museu dos Coches lhe possa fazer frente.
Vale, que em breve ali perto, um super museu 'pago' pelo benfeitor Mexia.
A bem do Regime.

Antonio Cristovao disse...

Bem mencionado. A "crise" dos policias e dos militares não deve tirar o sono a ninguem, mas esta de que aqui m.bem fala deve, e agora, não quando a "crise" acabar.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Carlos Peixeira Marques
O estudo trabalha com dados, dependendo das variáveis, de 2011 e 2012. Já existem dados sobre a pobreza relativos a 2011, publicados pelo INE. Com as restrições financeiras impostas às prestações sociais - abono de família, RSI, subsídios de desemprego, etc. - a situação de lá para cá não terá melhorado.
Caro Zuricker
Tem toda a razão. Poderíamos ser muito mais. Tenho uma amiga minha holandesa que costuma dizer que Portugal tem tudo, mas que lhe falta uma coisa essencial: saber pensar.
Caro Bartolomeu
Convém não esquecer a história, faz parte da cultura dos povos. Os estudos não mudam nada, assim como a utilidade dos muitos diagnósticos que foram sendo feitos de nada serviram. Temos uma forte tendência para a "negação". Efeitos da história?
Caro Luis Moreira
Não sabemos tomar conta de nós.
Caro Carlos Sério
Não tenho nada contra os ricos, tomara que nós tivéssemos mais investidores e empreendedores a gerar riqueza. Há problemas com o nosso modelo de desenvolvimento - economia e redistribuição de riqueza. Deveríamos, muito antes da Troika, discutir estes aspectos tão essenciais para a vida das pessoas e do bem estar colectivo. Não o fizemos e continuamos sem o fazer.
Caro Bmonterio
E temos muito mais para acrescentar à lista, auto-estradas não faltam...
Caro Antonio Cristovao
Tem alguma "bola de cristal" sobre a data do fim da crise?

Carlos Sério disse...

Como a Margarida também eu não tenho nada contra os ricos.
A questão não é essa. A questão reside no modelo de desenvolvimento, nas medidas políticas governativas que favorecem e são dirigidas ao aumento das desigualdades sociais, ao favorecimento dos interesses dos 10% mais ricos. E o modelo de desenvolvimento diz respeito a todos nós. E eu, como social-democrata, (como os 74 do manifesto) insurjo-me contra este modelo, não pessoalmente contra qualquer rico.

Quanto à questão que levanta sobre o investimento, a coisa também não é tão linear assim e merece discussão. Muita da riqueza na mão dos investidores não é dirigida à produção que cria emprego mas à especulação financeira. Repare nestas observações:
“O dinheiro que é ganho com a produção de mercadorias é uma ninharia se comparado com a quantidade de dinheiro que se obtém movimentando dinheiro de um lado para o outro. De todos os lucros empresariais dos estados Unidos, 40% advêm do sector financeiro, contra apenas 10% da indústria transformador. (Raymond Dalio 2004)”.

O que levou até Alan Greenspan a afirmar: “Pergunto-me se a riqueza ainda necessita de algum tipo de indústria transformadora. (Alan Greenspan)”.

O domínio actual do capital financeiro sobre o produtivo alterou, está a alterar profundamente o modelo de desenvolvimento e é gerador de crises, fracos crescimentos, desemprego e aumento das desigualdades.

Diogo disse...

Em dois comentários que fiz em dois posts anteriores: «A Questão da Dívida» e «Um esclarecimento sobre a minha participação de ontem no Fórum de Políticas Públicas do ISCTE», referi o mecanismo pelo qual os bancos perpetram uma roubalheira colossal aos países da EU. Nenhum dos distintos autores deste blogue apontou qualquer crítica.

Em resumo «O BCE não pode comprar directamente a dívida ao Estado português, mas já pode comprá-la aos bancos (os celebérrimos mercados) que a adquirem. E, então, o esquema especulativo montado pela UE e pelo BCE para enriquecer a banca à custa dos contribuintes, das famílias, e do Estado português é o seguinte: a banca empresta às famílias, às empresas e ao Estado português cobrando taxas de juro que variam entre 5% e 12%, ou mesmo mais, depois pega nessa divida, titularizando-a, e vende-a ao BCE obtendo empréstimos a uma taxa de juros de apenas 1%. De 2008 a 2011 - EM APENAS TRÊS ANOS A DIFERENÇA DE TAXAS DE JURO DEU À BANCA PORTUGUESA UM LUCRO DE 3.828 MILHÕES DE EUROS»


Acontece que, para além deste roubo habitual, a Banca tem ainda por hábito criar ciclos de Expansão Económica e de Recessão Económica.

Na fase de expansão económica, a Banca (que tem o condão de criar o dinheiro a partir do nada) aumenta o volume de dinheiro em circulação (diminuindo os juros e facilitando os empréstimos, por exemplo), fazendo com que Estados, Empresas e Famílias invistam mais e consumam mais, provocando um aumento um aumento geral da riqueza. É a época da «sementeira».

Para criar a fase da recessão económica, a Banca diminui o volume de dinheiro em circulação (aumentando os juros e dificultando os empréstimos, por exemplo), fazendo com que Estados, Empresas e Famílias invistam menos e consumam menos, provocando um aumento um aumento geral da pobreza. É a época da «colheita».

Nesta fase da colheita, a Banca apodera-se das Empresas e da riqueza produzida por elas e pelas Famílias. É a «Austeridade»…

Carlos Sério disse...

Só mais duas achegas , cara Margarida

Bancos e investidores que compraram títulos da dívida portuguesa tiveram uma rendibilidade excepcional: 57% no ano de 2012, a mais alta da Europa, segundo o ranking elaborado pela agência de informações económicas Bloomberg, em conjunto com a EFFAS – European Federation of Financial Analysts Societies.

Num estudo recente do The Guardian, o enriquecimento dos multimilionários através dos paraísos fiscais, soma mais de 21 bilhões de dólares, (o PIB somado dos USA e Japão) e a cifra pode chegar aos 32 bilhões como afirma o artigo.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Carlos Sério
Um modelo de desenvolvimento hostil ao investimento não tem futuro: é a justiça que não funciona, é o complexo regime de licenciamentos e a burocracia administrativa imparável, é a instabilidade fiscal e muitos outros custos de funcionamento. Estamos há décadas para resolver estes problemas. Só cresceremos com investimento estrangeiro, não temos capital, estamos endividados.

Carlos Peixeira Marques disse...

Cara Margarida Corrêa de Aguiar:
Os dados a que me referi (desigualdade nas transferências sociais - "Most cash transfers go to higher-income groups") são de 2010 e p.f. não os ligue à austeridade, porque nesse tempo vivíamos num paraíso e o meu salário até foi aumentado em 2009!
O link é este.
Cumprimentos.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Peixeira Marques
Agradeço o esclarecimento. Os dados hoje publicados pelo INE sobre pobreza e desigualdade reportados a 2012 incorporam uma parte dos "cortes". Penso que encontrará resposta para a sua pergunta.

Carlos Peixeira Marques disse...

OK, obrigado. Hei-de ver os dados quando tiver tempo, mas já fui ver o destaque:
As transferências do Estado (pensões, doença, desemprego, RSI...) em 2012 "retiram" 28,2% da pop. da pobreza; em 2010 esse (e)feito cifrava-se em 24,5%.
Dito de outro modo: o aumento da taxa de risco de pobreza de 2010 para 2012 foi de "apenas" 0,7 p.p. e teria sido de 4,4 p.p. sem transferências do Estado.

Carlos Sério disse...

Cara Margarida,
uma vez mais a questão do investimento merece um novo reparo.
Hoje o capital é dirigido maioritariamente para o "investimento financeiro" especulativo em detrimento do investimento produtivo pela simples razão (dada a liberdade que goza o capital) de que desse modo se obtêm uma maior e mais rápida acumulação.
Repare no seguinte:
"Actualmente no mundo financeiro, ninguém sabe o que fazer com os derivativos cujo valor é de 480 milhões de milhões de dólares e que na realidade não existem. Isto significa que o valor deste dinheiro fictício supera 8 vezes o PIB da economia mundial (60 milhões de milhões de dólares) e 3 vezes toda a riqueza mundial (150 milhões de milhões de dólares). Na realidade é uma borbulha financeira artificialmente criada pelos especuladores que em algum momento pode rebentar toda a economia mundial".