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domingo, 30 de março de 2014

Gosto do que faço...

Confesso que gosto do que faço, mesmo que me dê muito trabalho e algumas preocupações. Gosto. Gosto de ouvir as pessoas, gosto de as ajudar, gosto de conversar, gosto de aprender, gosto de ser um entre muitos, gente simples, gente dotada, gente sofredora, gente à espera de um sorriso, gente desejosa de ser compreendida, gente como eu, porque eu sou como o resto da gente. Partilho tragédias, dramas, alegrias e sou confessor, mentor e aparo qualquer dor. Converso de muitas maneiras, com palavras, com tiradas, com sorrisos e com silêncios. Não há dia que não aprenda, não há dia em que não saiba o que a vida é capaz de fazer. Amar, afrontar, ameaçar, matar, fazer rir e por outros a chorar é o quadro de um dia vulgar. Tudo anda num estranho pandemónio, nada para, nem o sol, nem as nuvens, nem as almas, nem os desejos, nem a esperança de um dia melhor.
senhora, vestida de negro, mais velha do que parecia, não disse de imediato o que sentia, algo de estranho no seu doce olhar me dizia que tinha cicatrizes de sofrida. Explicou a sua situação com a morte de um filho ocorrido há três meses, a mesma idade da minha filha mais velha. Estremeci. Mas não ficou por aqui, um outro, deve ir a seguir, com doença. Fiquei por aqui. Tenho que me defender. A senhora, simples, humilde, nunca perdeu o sorriso, delicado, estranho, uma espécie de mistura de ignorância e de esperança. Agredeci-lhe. Não compreendeu ou fingiu que não compreendeu. Saiu, meia alma, meio humana. Eu fiquei dorido da alma e atormentado no corpo. Fui para outra freguesia. Vi gente. Aprendi com o que ouvi. Deliciei-me com histórias, risos, medos, sustos e outras coisas com pessoas diferentes, pessoas que são capazes de ensinar quando estão à minha frente penetrando estranhamente na minha mente. Agradeço à minha gente. Surgiu o gago, não o via há um ano. Castiço. O bigode ombreava com o seu doce sorriso e bailava com o seu tartamudear. Perguntei-lhe pelo cinto com a fivela da Harley. Abriu os olhos e colocou de imediato as mãos no cinto, dizendo, não o trouxe. Como é que o senhor doutor se lembra do meu cinto? Como é que poderia esquecê-lo? Achei tão interessante a sua história. Como está a sua máquina? Está com problemas, queimou-se a bomba de água, e uma outra coisa qualquer, está no mecânico e tenho que pagar mais de quatrocentos euros! Fora isso, adoro a minha moto. Vou deitado a conduzir. Faz o gesto sempre a sorrir. Depois foi tempo para histórias, devaneios, manifestações de alegria, de felicidade, de risos e sei lá o que mais. A consulta foi residual. Estava bem, embora não se esquecesse do maldito desastre em que ia a mais de cento e oitenta a hora quando bateu na traseira de um carro. Ficou maltratado, perdeu parte de um pé e passou mais de dois meses no hospital, mas foi útil, senhor doutor, como não podia fumar deixei o vício. E um longo sorriso fez bailar novamente o seu olhar e o seu bigode. A conversa continuou, com ele, com outros, com outras e acabei por me enriquecer. Tanto meu Deus! Estou cada vez mais rico em histórias, em esperanças, em dores, em alegrias, em tudo que diga respeito à vida. Não posso deixar de agradecer ter vivido mais um dia e de o partilhar para ajudar quem queira saber qual o sentido da vida...

1 comentário:

Bartolomeu disse...

Friedrich Nietzche disse: « Dar estilo ao seu carácter... é uma arte deveras considerável que raramente se encontra! Para a exercer é necessário que o nosso olhar possa abranger tudo o que há de forças e de fraquezas na nossa natureza, e que as adaptemos em seguida a um plano concebido com gosto, até que cada uma apareça na sua razão e na sua beleza e que as próprias fraquezas seduzam os olhos. Aqui ter-se-á acrescentado uma grande massa de segunda natureza, nos pontos onde se terá tirado um pedaço da primeira, à custa, nos dois casos, de um paciente exercício e de um trabalho de todos os dias.»
Comecei a conduzir mota aos 14 anos, até aos 56 possui mais de 20 e nenhuma delas foi uma Harley. A minha preferência de início recaia nos modelos de moto-cross, depois de várias quedas e por algum respeito pelo esqueleto que é uma coisa frágil, mas consegue manter-nos na vertical, passei para os modelos de estrada, aí, enveredei pelas de maior cilindrada. Mas, o verdadeiro prazer que retiro da condução de mota, é a sensação forte de liberdade que ela me transmite.