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domingo, 29 de julho de 2018

"Morte e anjos"...

Comecei muito cedo a lidar com a morte. Tão cedo a ponto de não a levar a sério, ou melhor, como se fosse a coisa mais natural do mundo. E é. Na altura ficava triste quando conhecia as pessoas. Sabia que a morte as levava e que nunca mais iria vê-las. Achava injusto, porque gostava de as ouvir, sobretudo quando contavam histórias. Sou um apaixonado por histórias, ainda hoje me comporto como se fosse uma criança sedenta de ouvir narrativas, Morria um parente, um amigo, um conhecido e eu perdia a fonte de muitas histórias. Agora, que estou a escrever sobre a morte, perpassam-me pela mente flashes de muitas. Sobrepõem-se umas às outras com cor, com som, com risos, com lágrimas, com fantasias e com curiosidades de todas as formas e feitios. São as lembranças dos meus mortos, dos mais velhos, dos que me ensinaram. Também recordo outras mortes, como se fosse hoje, de meninos com a minha idade com os quais brinquei. Neste caso não são histórias, mas peças de teatro, reais, tão reais que levaram comigo parte de mim, ficando eu com a saudade, fragmentos das suas almas. Também convivi com a morte de quem não conhecia, gente sem história e sem nada, alguns respiraram poucos minutos ou horas e outros nem chegaram a saborear o ar que eu respirava. Não contaram histórias, mas eu conto-as em seu nome. Quando as levava à terra, para serem transformadas em anjos de Deus, ficava na dúvida sobre esta forma horrível de as matar assim que nasciam para O poderem servir. Ficava na dúvida sobre a Sua bondade. É verdade, recordo estes pensamentos quando via as pequenas caixas de cartão branco, ou urnas miniaturas, a serem lançadas na cova e ter de deitar, no final, dois ou três torrões de terra sagrada sobre eles. Olhava em redor. Desconfiados do que estaria a pensar, diziam-me: - São anjos que o Senhor escolheu para O servir. Ouvia e ficava num silêncio inquiridor e sofredor. Mas hoje, passado tanto tempo, digo o que sentia, uma enorme tristeza e um sentimento de injustiça que não se adequava ao que me apregoavam a propósito de Deus e suas virtudes. No regresso, com as mãos pintadas de terra, e enfiadas nos bolsos dos calções, punha em causa tudo o que ouvia. Sentia-me cúmplice de atos pouco justos. - Se Deus é tão poderoso e bondoso como dizem, então, porque não "fabricava" anjos de outra forma? Matar crianças à nascença não era correto. As mães que punham os seus filhos nas minhas mãos choravam. Eu vi e ouvi, mais do que uma vez.
Queria falar sobre a morte, essa constante da humanidade. Queria dissertar sobre o medo que encerra e a dor que provoca. Afinal não consegui, porque acabei de contar uma história sobre os que nunca tiveram nome, que mal saborearam o ar da Terra, e que foram condenados a terem de servir no exército do Senhor.
Olho para as mãos. Parece-me vê-las enfeitadas de terra avermelhada e quente...
Doem.

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