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quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Rudolfo, a rena do nariz vermelho


É pena que o Pai Natal surja só como o grande obreiro da dinâmica comercial, o gordo bem disposto que nos convida a comprar os presentes que se cobiçam nas montras das lojas. De certo modo, a mágica do Grande Dia foi cilindrada pela euforia das compras e só com muito esforço conseguimos recuperar o imaginário infantil que nos acompanhou tantos anos.
O Pai Natal de que me lembro só entrava na história como o transportador das prendas, que guiava o carro das renas vindo de um país frio e distante, uma espécie de Rei Mago da modernidade que desse modo se juntava à celebração do nascimento de Jesus...
A notoriedade deste ajudante veio da dificuldade que teve num dia de intenso nevoeiro que impedia de ver o caminho para todas as casas onde devia chegar. Havia então uma pequena rena que não conseguia entrar nas brincadeiras porque tinha o nariz muito vermelho, tão vermelho e luminoso que as outras o afastavam quando jogavam às escondidas. Vivia muito triste com a troça dos outros, até que nesse dia teve a sua grande oportunidade, porque afinal o seu defeito era uma vantagem que nenhum dos outros conseguia superar: ele podia ir à frente do trenó, iluminando no meio do nevoeiro!
É essa música que ouvimos por todos os lados quando procuramos rechear os sapatinhos. Convém lembrar que ela celebra um lugar para todos, que ensina que onde os outros só vêem fraqueza e motivo de rejeição pode estar uma força e uma capacidade que pode ser tão valiosa quanto a nossa sensibilidade para a ver e acolher.
Rudolfo ficou para a história porque era diferente. Sem ele, o Pai Natal teria ficado perdido no nevoeiro…


Rudolph, the red-nosed reindeer
had a very shiny nose
and if you ever saw it
you would even say it glows.
All of the other reindeer
used to laugh and call him names
they never let poor Rudolph
join in any reindeer games.
Then one foggy Christmas eve
Santa came to say:
"Rudolph with your nose so bright
won't you guide my sleigh tonight?"
Then how the reindeer loved him
as they shouted out with glee (yippee)
"Rudolph, the red-nosed reindeer
you'll go down in history."

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Natal laico!...

Entrei numa livraria. O livro Eu Carolina continua a vender-se em grande escala. Em pouco tempo, vi três sujeitos a saírem com a D. Carolina na mão. Falavam de futebol, claro!...
Desatinados com o desempenho das suas equipas, muitos adeptos mais intelectualizados encontram lenitivo no best-seller do momento e nele juram encontrar a explicação dos seus minguados resultados desportivos.
Fico com pena. Além de não passarem a ganhar, perdem uns euros na compra e ainda têm que a levar a D. Carolina para casa!...

“Está doente? Vá a Cuba!”…

O estado de saúde de Fidel Castro tem sido objecto de várias opiniões. De acordo com o governo cubano, o senhor não tem cancro. Teve um problema intestinal (hemorragia) e foi operado. Agora chamaram um cirurgião espanhol que afirmou que estava a recuperar muito bem. Aliás se é verdade a sua expressão: “A sua condição física é excelente, a actividade intelectual permanece intacta – eu diria fantástica – e está a recuperar bem da operação”, então, o homem irá aparecer um dia destes em grande! Só não percebo duas coisas. Por que razão foi chamado o médico catalão, se o senhor está a recuperar tão bem? E se o homem está doente, por que é que não vai a Cuba? Não é aí que estão os médicos que fazem curas maravilhosas? Pelo menos, é o que demonstra as frequentes reportagens televisivas e peditórios para obter cura naquelas paragens…

“Jogar na divisão dos macacos”…

Os estudos que se debruçam sobre as capacidades mentais dos animais são sedutores, já que podem por em causa determinados princípios em que se baseia a singularidade humana.
A teoria da mente, que permite pensar os que os outros pensam, característica da nossa espécie, parece que se estende aos grandes macacos.
Falar de consciência é muito complexo. Parte dos elementos que a constituem encontram-se nalguns animais, mas os grandes macacos são os únicos que mostram evidências de uma mente semelhante aos seres humanos, como demonstram estudos recentes A ser assim, ainda poderemos assistir a verdadeiras revoluções, não só em termos de bem-estar animal, como também ao reconhecimento dos seus direitos, originando graves problemas à nossa espécie, excepto se entretanto desaparecerem…
Em termos de direitos, sempre é melhor atribui-los aos macacos do que aos robôs! E é melhor que seja o mais rápido possível, porque, de acordo com um cientista do governo britânico, responsável por um relatório em que são elaboradas projecções para os próximos 50 anos, os robôs, que entretanto irão sofrer transformações inimagináveis, passarão a votar, adquirindo direitos que os macacos de hoje nem “pensam”! Tudo, porque sendo “conscientes” vão querer ter direitos.
O escritor checo, Karel Èapek, que em 1921 criou o termo robô (da palavra checa “robota”, trabalho pesado e servidão), anteviu o dia em que nos libertariam do trabalho pesado, mas decerto ficaria surpreendido com a rapidez com que se libertariam do nosso controlo.
A ficção científica tem perspectivado não só esse momento, como também o surgimento de uma inteligência artificial “superior”.
Neste preciso momento, já há robôs que se auto reparam, e alguns são mesmo “artistas”! No último caso, um português está a tentar criar máquinas capazes de fazerem “arte” ! Há mesmo quem considere que os futuros “seres”, dotados de inteligência artificial, serão o resultado natural da evolução das espécies, ao ponto de, quando olharem para o passado, terem, também, o seu próprio Charles Darwin. Levanta-se uma dúvida, será que haverá lugar para “seres inteligentes artificiais” “criacionistas”?
Algumas destas perspectivas, que aparentemente nos fazem sorrir, não deverão deixar de ser equacionadas. Mas entre reconhecer direitos aos grandes macacos ou aos futuros “robôs”, prefiro aqueles, porque pode acontecer que um dia estes últimos não os reconheçam, e quem sabe o que nos poderá, também, acontecer.
Alguém se imagina a jogar na divisão dos macacos?

O Governo da reacção

Segundo a imprensa desta manhã, o senhor Secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor quer que a Autoridade da Concorrência avalie os preços dos combustíveis, mais elevados em Portugal que nos restantes países, numa altura em que a alta do euro beneficia os países importadores de crude e seus derivados. E que o preço do crude nos mercados internacionais estabilizou em pouco mais de 60 dólares, 10 dólares abaixo (salvo erro) do preço que motivou o último aumento dos combustíveis sentido pelos consumidores portugueses, acrescento eu.
Por aqui já tínhamos assinalado a situação que aparenta contornos de intolerável cartelização. Parece que o dia de Natal fez despertar o Senhor Secretário de Estado para o problema. Bendito espírito de Natal...
Valendo sempre mais a reacção tardia do que a omissão, anota-se aqui a atitude do governante.
Duas notas, porém.
A primeira tem que ver com esta forma de governar por impulso. Rara é a iniciativa do Governo que se antecipa à denúncia reiterada dos cidadãos, suas organizações ou instituições. É cada vez mais um governo de reacção, que agita só depois de se ver agitado.
A segunda nota é para assinalar que o senhor Ministro da Economia parece não existir para estas questões. E, todavia, esta como outras (por exemplo as do arrastamento inacreditável dos processos das OPA lançadas sobre a PT e o BPI), são questões que em muito excedem o âmbito da defesa do consumidor que preocupam o senhor Secretário de Estado Serrasqueiro. São problemas da economia, cuja saúde só se garante se o Governo estiver atento às práticas lesivas da livre concorrência e agir em conformidade por iniciativa própria.
E não se diga, como têm tentado dizer vários dos governantes, que as questões da concorrência são do domínio exclusivo da Autoridade da Concorrência, porque a própria conduta interventiva do Executivo noutras situações nas quais não hesitou em desautorizar entidades reguladoras, frontalmente desmente quem apresenta tal desculpa. É certo que nesses casos igualmente o Governo, como agora, actuou por reacção. Mas fez sentir a sua autoridade e quis transmitir que não anda a dormir na forma.
Veremos se os interesses da Galp, e da sua posição no mercado, não falam mais alto do que este ruidoso silêncio do senhor Ministro Pinho, neste caso do preço dos combustíveis...

domingo, 24 de dezembro de 2006

O outro “Menino”!

A imagem televisiva de Piergiorgio Welby numa total imobilidade, e com um ar de tristeza profunda em que apenas sobressaía um ligeiro acenar das pálpebras, única ligação ao mundo, deverá ter chocado muitas pessoas. Sofrendo de grave distrofia muscular, acabou por ficar paralisado, tendo o seu estado de saúde piorado substancialmente nas últimas semanas. O italiano mantinha-se vivo à custa de respiração artificial, sendo alimentado através de um tubo. Condenado a morrer, as medidas tomadas estavam a prolongar a vida em condições bastante deploráveis e não dignas da condição humana.
Nos últimos anos as técnicas destinadas a prolongar a vida têm tido um notável desenvolvimento e progresso. Nada a opor se as mesmas respeitarem a dignidade, mas quando se tornam excessivas e desproporcionadas poderão constituir uma violação dos direitos humanos. No caso vertente, o doente solicitou permissão para morrer. Não pediu que o matassem, apenas que não continuassem com certas medidas. A justiça italiana reconheceu que “tinha o direito constitucional de ser desligada a máquina que o mantinha vivo”. Mas ao mesmo tempo invocou que os médicos têm a obrigação legal de utilizar práticas de ressuscitação!
Houve um médico que desligou a máquina, respeitando a vontade do doente. Agora corre riscos de vir a ser julgado e preso por eutanásia.
Neste caso ninguém matou deliberadamente o doente, apenas foi suspensa uma terapêutica por recusa do mesmo. Os doentes devem ter esse direito. Aliás a problemática do testamento vital vai estar, brevemente, na ordem do dia.
Hoje, as inúmeras e sofisticadas medidas terapêuticas permitem manter as pessoas “vivas” em condições impensáveis há alguns anos. Recordo-me dos meus tempos de estudante, em que não haviam ainda medidas deste cariz, de ter lido uma frase do prémio Nobel da Medicina de 1960, Sir Macfarlane Burnet, que, a propósito das medidas de ressuscitação já existentes, embora muito aquém das actuais, dizia que andava com um cartão na sua carteira onde pedia para que não fosse sujeito a medidas de ressuscitação, se as mesmas pudessem por em causa a sua condição de ser humano, “exigindo” morrer com dignidade. Nunca mais esqueci aquela frase.
Recordo-me do “Menino”, era assim que o chamávamos. Na sua cadeira de rodas, com dificuldades tremendas em mexer os braços, vendia lotaria. Sempre alegre e bem disposto apesar de sofrer de distrofia muscular, a qual já tinha vitimado outros irmãos.
Toda a vida pós escolar da altura fazia-se no jardim, quando os dias estavam bons, ou debaixo da arcada do café, nos chuvosos. Mas fazia-se à volta do “Menino”. Era o ponto de referência. Quando me perguntavam para onde ia, dizia: - Vou brincar para ao pé do “Menino”! Ninguém se opunha. Já tinha alguma idade, mas não deixava de ser o “Menino”.
Houve uma altura em que o “Menino” não aparecia com muito frequência. Ia rareando a sua presença. Começámos a andar tristes. Um dia ficámos a saber que o “Menino” nunca mais ia aparecer, e fomos com ele ao cemitério atrás do padre. Teve uma morte natural e um funeral cristão.
Piergiorgio Welby não teve funeral cristão, mas teve uma morte adiada!
No dia do Menino, uma recordação de um outro “Menino”…

Uma recordação de Natal...

Das minhas recordações de Natal, não esqueço, nunca, a crença absoluta que eu e os meus irmãos tínhamos quando éramos crianças na descida pela chaminé do Pai Natal – velhinho, encarnado, com um barrete enfiado na cabeça e uma longa barba branca – que à meia noite vinha pôr no nosso sapatinho uma prenda, que nós iríamos encontrar ao acordar.
Meia-noite! Era a hora fantástica. Lembro-me que me esforçava por não adormecer antes da chegada do Pai Natal. Tinha muita vontade mas ao mesmo tempo algum medo de o ver: no entanto, nunca podia ficar acordada até àquela hora e, no dia seguinte, o meu primeiro olhar ia para o meu sapatinho colocado estrategicamente junto à chaminé.
Causavam-me uma enorme emoção, uma espécie de magia encantada, os presentinhos embrulhados em papel de muitas cores e com as formas que faziam imaginar e sonhar se o Pai Natal tinha recebido a minha carta e atendido aos meus pedidos.
Saltava da cama e corria descalça para me apoderar do meu tesouro, a pensar que tinha sido bem comportada durante o ano e merecedora das atenções do Pai Natal.
Recordo, também, a enorme desilusão que tive quando descobri que o Pai Natal "não existia", mas logo percebi o amor ainda maior dos meus Pais pelos filhos. E foi, então, que percebi o significado do Natal.
A magia do Natal é composta de alegria e felicidade e, por isso, agradeço ao Pai Natal – que nunca vou esquecer – por tão bem me ter ensinado o significado do sapatinho.
Obrigada a todos por partilhar esta recordação.
FELIZ NATAL, com muitos sapatinhos cheios de presentes...

História de um Natal

Era uma noite de Natal chuvosa e fria, como eram as noites da minha terra beirã. As bátegas de água sopradas pelo vento batiam em rajadas nas janelas da casa, altas como portas, e mais adensavam o frio que se sentia, quando se saía da lareira.
Terminara a consoada, com os meus pais e a minha irmã (nunca conheci avós, cedo desaparecidos), com uma tia e com a minha madrinha que viviam connosco, com a Deolinda, criada de há longos anos, que dava uma mão na casa e outras nas terras, a Silvina, miúda de dez ou onze anos e a terceira classe, cuja principal tarefa era “ir” com as ovelhas e o João, que dava um jeito na lavoura (ainda o Sr. Emídio, a que me referi o ano passado, não fazia parte do jantar...) e já tinham passado dois ou três grupos a cantar as Janeiras. Estava agora chegado o momento de pôr o sapatinho na lareira, dar um beijo a todos e ir para a cama. Pois, nessa noite, teimei, com a ajuda da minha irmã, que todos deviam deixar o sapato, já que o Menino Jesus era bom e devia ter prendas para todos. Explicavam-me então que a noite era invernosa e, com tanto vento, o Pai Natal, para poder subir aos telhados e descer pelas chaminés, não podia trazer nem saco muito grande nem cheio. Dizia eu que o Menino Jesus podia tudo. Podia, mas quem trazia as prendas era o Pai Natal e o saco molhado pesava muito, mais do que ele podia aguentar sem cair…mas nada me convencia, nem o facto de me dizerem que o Pai Natal tinha longas barbas, tão longas que o atormentavam tanto como a idade, e que até já andava com as costas muito tortas, mal podia com um saco levezinho…Por isso, eu devia era ter pena do Pai Natal!...
Já a minha madrinha me tinha colocado a botija na cama para aquecer os lençóis e não deixar arrefecer os pés e continuava naquela luta. Para o ano, se estiver bom tempo, o Pai Natal vai lembrar-se de todos, dizia o meu Pai. Pedi então que, pelo menos, a Silvina, que também era pequenina, deixasse o tamanco na chaminé. Foi neste transe que a minha mãe enfim condescendeu, logo se via se o Pai Natal tinha lembranças que chegassem… Mas, se as prendas não fossem suficientes, elas eram para os donos dos sapatos em que estivessem e depois não me podia queixar!... Só então fui para a cama e até rezei uma avé-maria a pedir para que todos fossem contemplados, não sei se por solidariedade profunda ou por medo de nada me calhar…Mas devo ter dormido serenamente, como se dorme numa noite de Natal.
No dia seguinte, ainda a luz das estrelas estava viva no céu, ouço gritar a Silvina junto à minha cama: menino, menino, vá ver a lareira, vá ver a lareira, há lá prendas para todos!…
Levantei-me de um salto e em todos os sapatos havia um pequeno embrulho!…
Levei o meu para a cama e, embalado na ideia de que o Menino Jesus de facto é mesmo bom e poderoso, comi um bombom e tornei a adormecer docemente, até me chamarem para ir à missa de Natal. Excitada estava a Silvina, dava-me beijos e abraços, pois tinha sido a primeira vez que fora contemplada pelo Menino Jesus!...
Estão a ver, dizia eu aos meus pais, se não tinha teimado em pôr os sapatos…
Pois é, se fores bom, há sempre um Menino Jesus que vai velar por ti!...

sábado, 23 de dezembro de 2006

Prenda de Natal

Acabei de ver que o 4R-Quarta República foi votado como um dos melhores blogs colectivos no concurso Conjurados 2006 do blog Restaurador da Independência!...Uma bela prenda de Natal para o 4R!...
Embora não andemos a conjurar nada, mas apenas a divertirmo-nos neste espaço virtual de uma ainda inexistente quarta república, agradecemos a distinção que nos deram os blogs que em nós votaram e desejamos ao Restaurador os maiores êxitos nos seus independentistas propósitos e nas iniciativas que promove. E damos, obviamente, os maiores parabéns aos distinguidos, aos que ficaram antes de nós...o que é obra..., mas também aos que ficaram depois...mas muito bem antecedidos!...

Boas- Festas!...

A todos um Bom Natal, com saúde, concórdia, solidariedade e alegria de viver!

Para mim, o Natal ainda é o de quando era pequeno: a noite da consoada e a ternura do sapato na chaminé à espera da prenda do Menino Jesus... E também a cerimónia do beijar o Menino recém-nascido, na missa da manhã fria do dia seguinte e a memória das canções que aí entoávamos:

Correi pastorinhos
Depressa a Belém
Com alma e carinho
Por Deus nosso bem!...

Pequenino, está deitado,
Nas palhinhas Deus infante
E não há no céu estrelado
Astro de ouro mais brilhante!...

Mais que à estrela do Oriente
Mais que o ouro dos Reis Magos
Jesus quer ao inocente
E aos pobres quer afagos!...

É por isso que nada me fará abdicar de enviar as Boas-Festas com um cartão alusivo ao presépio, afinal a razão de ser da época que festejamos.
Para todos os autores do 4R, comentadores habituais, comentadores esporádicos e visitantes os votos de um excelente Natal!

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

O Presépio, o Marklin e a Estrela

O Prof. Massano Cardoso desafiou e aqui estou eu com mais uma história…à falta de concorrência, enquanto se resolvem os problemas informáticos no 4R!
O Marklin era o comboio eléctrico que fazia o sonho de qualquer homem adulto que tivesse mantido a sua alma de criança. Por isso ele aguardava ansioso o nascimento de um filho varão que lhe desse o pretexto para comprar a máquina. Tinha caído na asneira de fazer aquela promessa – “Se for um rapaz, compro um Marklin” e agora estava preso aquela premissa, mais tarde as filhas haviam de lhe cobrar a imprevidência –“Então não festejava se fosse uma filha porquê?” E ele respondia, meio envergonhado – “Foi uma patetice como outra qualquer, podia ter comprado o Marklin logo à primeira…”
A família soube logo que o 5º filho era um rapaz quando o viu chegar, radiante, com um grande embrulho debaixo do braço. E, em vez de dizerem “É um rapaz!” gritaram “Chegou o Marklin!”, como se se tivesse quebrado um enguiço
O comboio integrou o grupo por direito próprio e em pouco tempo cresceu em peças, carris, carruagens e figuras várias, a um ritmo tal que a pequena cidade ocupava em breve uma boa parte de um quarto que lhe estava dedicado.
O problema pôs-se quando foi preciso fazer o Presépio e já não havia onde o montar. Nem pensar em deixar na caixa algumas peças do Presépio e estava fora de questão desalojar o brinquedo.
Foi então que ele teve a ideia:”Vamos ter o Presépio mais giro que já se viu, com um comboio eléctrico a passar junto às palhinhas!” E meteu-se a construir uma montanha de papel verde e castanho, com uma armação de arame que lhe garantia a forma irregular, com socalcos para as figurinhas se manterem em pé, um planalto para a cabana, uns pedregulhos para os camelos dos Reis Magos. A montanha tinha um túnel de lés a lés e era armada bem no meio do estaleiro do Marklin. Desviavam-se os carris para passarem o túnel e, até ao Dia de Reis, o comboio enfeitava o Presépio, ou o Presépio enquadrava o comboio, quem é que vai decidir?, passando sem cessar por entre o musgo e as ovelhas, cancelas que subiam e desciam, o castelo de Herodes, os pastores ajoelhados ou o poço da Samaritana, a uma distância prudente da cabana de Belém e do caminho íngreme por onde seguiam pachorrentamente os camelos com os Reis Magos. Mais tarde, fez-se um desvio para dar espaço à banda de música, que ficou em equilíbrio instável no sopé da montanha, junto à nora.
A única coisa que ofuscava o Marklin e o seu ronronar monótono era a estrela que brilhava por cima da cabana, a acender e a apagar, como se estivesse suspensa no céu a iluminar o mundo de contrastes impossíveis, onde se fez espaço para todas as vontades.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Feliz Natal 4R


Um recente inquérito diz que as pessoas sentem uma angústia acrescida no Natal, porque é a altura em que há uma grande pressão para comprar, para se sentir tentado por ter o que se oferece aos nossos olhos de modo tentador. Também porque é uma espécie de “intervalo” durante o qual se há uma espécie de legitimidade para se gastar mais do que o bom senso e a realidade do dia-a-dia aconselham.
Eu acho que é o tempo em que gostaríamos especialmente de dizer às pessoas que nos são queridas como gostamos delas. Como foram importantes quando nos acompanharam durante o ano que passou e como confiamos na sua presença amiga no ano que agora chega. E muitas vezes achamos que nos exprimimos mal, que o presente ou as palavrinhas no cartão ou no mail soam iguais a tantos outros gestos, logo agora que queríamos mesmo dizer-lhes que são especiais. E reparamos que devíamos ter preparado com tempo esse momento, que os dias passaram e fica tudo nas entrelinhas, diluído numa ritual que é mais do que isso mas que parece apenas isso.
Mas o que é importante é que se tente e, se ficar essa mágoa de não ter sido possível dizer tudo como queríamos, sempre temos os outros dias todos para ir melhorando…
Os meus votos de um Bom Natal para todos os 4republicanos, a cada um agradeço a companhia, a partilha e os excelentes momentos que tem sido possível passar aqui neste espaço imprevisível de encontro e afinidade. E muitas, muitas prendas, das que marcam esta data de uma forma sempre renovada!

Sindicatos especiais

Por mais que a realidade me force à compreensão, ainda não entendi que sentido faz a existência de organizações sindicais de magistrados judiciais. Esta minha confessada resistência deriva, talvez, de não ver o conjunto dos juizes como uma classe profissional.
Existindo o sindicato, parecer-me-ia porém que a sua actuação se deveria limitar à defesa dos direitos e interesses legítimos da profissão de juiz.
Mas também não. Descubro hoje que o sindicato também é fonte produtora de doutrina jurídica, certamente com o propósito de influenciar a jurisprudência dos Tribunais que são órgãos de soberania que têm precisamente os juizes como titulares.
Segundo os nossos atentos media, a associação sindical dos nossos juizes entende que as normas que visam prevenir e reprimir a violência doméstica não se aplicam aos homossexuais que vivam sob o mesmo tecto, em comunhão de mesa e habitação.
Pretenderá esta especial associação sindical substituir os velhos Assentos dos tribunais superiores por directivas sindicais de aplicação da lei?
Eis uma nova faceta do neo-corporativismo. De consequências imprevisíveis, de resto. Que poderá acontecer ao relapso juiz sindicalizado que, interpretando o seu estatuto de independência, julgue contra a doutrina sindical e condene um homossexual agressor? Correrá o risco de expulsão do sindicato por conduta desviante das boas práticas da judicatura, ainda que tenha as quotas em dia?

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Liberdade para as vítimas de Kadafi


Hoje foi confirmado mais uma vez a condenação à morte de cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano pelos tribunais líbios devido a uma hipotética bioconspiração. São acusados de infectarem deliberadamente 428 crianças no hospital de Benghazi com o VIH/SIDA. Este processo arrasta-se desde há alguns anos e é uma perfeita obscenidade. Em tempos, especialistas de renome internacional, na área da SIDA, demonstraram a inocência dos profissionais de saúde apontando para as péssimas condições dos hospitais líbios como sendo o factor responsável.
Em 3 de Maio de 2005 escrevi uma nota a este propósito sob o título “Bioconspiração”.
A Comissão Europeia e o seu respectivo presidente acabam de denunciar esta horrível decisão. Mas não chega. Não sendo necessário dissertar sobre as características do governo líbio e do seu esquizofrénico chefe, porque todos o conhecem, é vital que a comunidade internacional o pressione de forma ímpar, a fim de evitar o “assassínio legal” de seis profissionais de saúde. Deveria haver um boicote total aquele país que não respeita os direitos, as liberdades e sobretudo, neste caso concreto, a generosidade e o altruísmo de seis seres humanos cuja causa é, precisamente, a saúde e o bem-estar de outros seres humanos.

É fartar vilanagem!...

A coisa que dá pelo nome de Apito Dourado realmente promete.
Logo depois de ouvido pelo Juiz de Instrução, Gilberto Madaíl, o tal que confunde “arrolado” com acusado, veio dizer a público estar autorizado pelo Juiz a revelar que o processo estava a decorrer a grande velocidade e terminaria, o mais tardar, em fins de Fevereiro.
Dois ou três dias depois, veio a verificar-se ou que Madaíl também confundiu o prazo, ou então que o Juiz se equivocou, já que admitiu ter que prorrogar o prazo para Março.
Ontem, D. Carolina Salgado foi também ouvida pelo Juiz de Instrução. Pois, segundo o Diário de Notícias de hoje, o magistrado considerou "importante" o depoimento de D. Carolina.
Pelos vistos, em tal Juízo, ao frio da noite ou ao calor do dia, as transparências são plenas e o relato hard ou core das sessões, quando não transmitido on-line, é transmitido em diferido para gáudio da plateia, pouco tempo depois.
Como nas telenovelas, os Tribunais podem assim ir conhecendo as reacções dos espectadores e adequar os procedimentos.
Assim formalmente garantido, o julgamento popular pode continuar!...

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

“Misérias uterinas"

Saber porque é que as doenças ocorrem é vital para as combater e prevenir, contribuindo para que possamos viver mais e com qualidade. Dentro das diversas teorias, algumas começam a ter certa relevância não só pelo impacto que possam causar, mas sobretudo, porque na sua essência mexem com determinados valores, explicando muito do inexplicável.
O desenvolvimento intra-uterino é influenciado por muitos factores, nomeadamente alimentares. Mas também o período a seguir ao nascimento é muito vulnerável às condições ambientais. Tanto num caso, como noutro, podem ocorrer modificações na expressão de certos genes (“ligam-se” uns e “desligam-se” outros de acordo com as exigências da situação) que irão acompanhar o indivíduo. A hipótese segundo a qual muitas doenças crónicas têm origem neste período ganha alguma credibilidade. Por exemplo, as pessoas que à nascença tinham pouco peso – condicionado por más condições alimentares durante a gestação – têm mais probabilidade de virem a sofrer, décadas mais tarde, doenças cardiovasculares. Quase que poderíamos afirmar que o tal “ligar e desligar”, à nascença, foi o mais adequado perante a falta de alimentos. Uma forma de adaptação, sensata sem dúvida. Mas com o tempo essa adaptação não será a melhor, sobretudo se o indivíduo for confrontado com a “abundância”. Deste desajustamento sairá alguma desordem que pode materializar-se num risco cardiovascular acrescido. “Misérias uterinas”! No entanto, os problemas não se cingem apenas a aspectos de saúde, estendem-se, também, ao sucesso socioeconómico. Os recém-nascidos menos robustos, que foram gerados em períodos de fome ou de epidemias, revelavam menos probabilidades de ingressarem no ensino superior. Os homens mais tarde auferiam menos proventos, além de serem mais pobres, relativamente aos seus descendentes e outros da mesma geração.
A saúde dos adultos depende, em parte, das condições em que decorrem o desenvolvimento intra-uterino e os primeiros tempos de vida. Mas não se esgota na área da saúde, já que ocorrem sequelas socioeconómicas nada desprezíveis, comprometendo o desenvolvimento de muitos povos onde a fome e as péssimas condições de alimentação e de higiene são uma realidade. As “misérias uterinas” não se esgotam naquele momento, mas prolongam-se no tempo com graves consequências para a saúde das pessoas, e bem-estar das comunidades, comprovando que uma política de boa saúde pré-natal se acompanha, no futuro, de um efeito muito forte em termos de ganhos.

As patuscadas...e os patuscos!...


Recebi mais um convite para um jantar do PSD, agora o Jantar de Natal da Secção.
Desde que, em Maio de 2005, passei de “independente” a militante encartado, integrando uma lista de 31 novos “recrutas” especialmente convidados para celebrar o 31º Aniversário do Partido, convites para almoços e jantares têm sido mais que muitos.
Aliás, e para bem começar, até posso referir que a cerimónia de entronização se celebrou com um banquete em Santarém!...
Com o avolumar dos convites, normalmente para celebrar um qualquer acontecimento com a presença do líder nacional ou distrital, quis-me parecer que a Direcção considerou que o meu valor acrescentado de militante seria a minha presença nesses frequentes repastos.
E como nunca fui convidado para mais nada, muito menos para trabalhar, o que é óptimo, fiquei definitivamente convencido que esse era mesmo o único e exclusivo valor acrescentado que a Direcção considerou no convite de adesão.
Infelizmente, esse valor vai-se esvaindo, porque não tenho comparecido muito….
Enfim…um partido de patuscadas e de alguns bons patuscos...a começar por mim, obviamente!...
Mas que querem, eu gosto do PSD e, para que não surjam dúvidas, independentemente do chefe cozinheiro!...

domingo, 17 de dezembro de 2006

“Vegetarianos e quociente de inteligência”…

Nas minhas idas a Lisboa, cada vez mais frequentes, devido a uma crescente força centrípeta, lembrando arrogantemente aos pobres cidadãos (da província!) onde se situa a sede do poder, acabo, de vez em quando, por ser convidado para almoçar com simpáticas colaboradoras. Nada de especial, excepto o facto de serem almoços vegetarianos. Na minha qualidade de médico, acabo por ser alvo de atenções especiais (o que não deixa de ser agradável!), mas tenho de ouvir verdadeiras dissertações sobre as múltiplas virtudes dos pratos propostos. Por exemplo quando falam de um determinado tipo de sopa bombardeiam-me com coisas do género: - Vai ver que gosta, e além do mais faz bem ao fígado, ao coração, aos rins, ao colesterol, ao cérebro, olhe faz bem a tudo! Percebe? Está a ver não está, são coisas fabulosas que o senhor doutor tem que saber! Claro que simpática e educadamente vou anuindo com um ligeiro sorriso e um discreto acenar de cabeça. É evidente que, de um modo geral, os produtos vegetais são bons. Por outro lado o excesso de consumo de produtos animais, nomeadamente carnes vermelhas e gorduras saturadas têm sido responsabilizados por inúmeros problemas de saúde, desde certas formas de cancro à aterosclerose.
Há necessidade de modificar certos hábitos, seleccionando certos produtos alimentares e evitar excessos de outros. Enquanto ia a pensar nestas coisas já estava a comer a sopita que, diga-se em abono da verdade, era agradável, embora, reflexamente, começasse a recordar as saborosíssimas sopas com que sempre fui mimoseado. E também são vegetarianas, tirando uma ou outra.
A par destas reflexões, recordei-me de um trabalho publicado numa importante revista médica internacional em que se concluía que os que optaram pelo regime vegetariano, em crianças tinham quocientes de inteligência superiores aos não vegetarianos, e eram mais saudáveis. Talvez, o facto de terem Q.I. mais elevados facilitasse a aquisição de estilos de vida mais saudáveis, nos quais se integra a opção vegetariana que, sendo habitualmente saudável, face a muitas outras opções, evitariam o aparecimento de muitas doenças.
De facto, as minhas acompanhantes apresentam traços inquestionáveis de inteligência superior, corroborando os achados.
Passando ao restante prato com “simulacros” de “carne vegetariana”, cujos nomes e classificações e formas de confeccionar iam debitando com uma força e confiança notáveis, também consegui comer. No entanto, confesso que – quando ingeria os produtos – me perpassou pela mente coisas como torresmos, dobrada, rojões e outras coisas que dispenso de enunciar. O pior foi a bebida. Não quis, naturalmente, pedir algo que pudesse contrariar o ritual e, deste modo, bebi chá. Fiquei tranquilo, embora preferisse beber água ou um vinhito, mas como adoro chá, pensei que não teria problemas. Pois foi! Não gostei daquele chá e não consegui bebê-lo todo. Às tantas deveria ser um chá “apropriado” para acompanhar os alimentos. Não desgostei de todo da refeição, nem passei fome e reconheço naturais virtudes aos vegetais e frutas na alimentação humana. Quanto ao resto, opção vegetariana, acabo por concluir, através do citado estudo, que devo estar uns pontos abaixo dos valores encontrados no Q.I. dos vegetarianos. Não sei se me fazem falta, mas, em contrapartida, ao contribuir pela opção omnívora, propicia-me alguns prazeres gastronómicos que não dispenso. Sem abusos, claro!

Cesteiro que faz um cesto...

Segundo notícias veiculadas ontem por parte de alguns candidatos, terá havido fortes irregularidades nas eleições para a Comissão Política Distrital de Aveiro e para a Secção de Algés do PSD.
Não sei se é verdade ou mentira ou se, no caso de Algés, o facto não se insere na campanha que Helena Lopes da Costa move contra Marques Mendes.
Mas sei que as sucessivas irregularidades apontadas em actos eleitorais dos diversos partidos evidenciam a forma como alguns dos mais “proeminentes” militantes de base se posicionam na vida política: vencer, vencer a todo o custo, não olhando a meios, mas simplesmente aos fins.
A questão é que se trata de pessoas normalmente já com responsabilidades políticas nas Autarquias e em outros órgãos de poder e que, mais tarde ou mais cedo, serão Secretários de Estado ou Ministros.
Ora, a serem verdadeiras as irregularidades, essa gente, como muita que ascendeu a cargos elevados à custa de “aldrabices” similares, não merece qualquer confiança. Porque, cesteiro que faz um cesto...
Compete à Comissão de Fiscalização do PSD averiguar e punir quem praticou as irregularidades ou, se não as houve, castigar quem propalou falsidades.
Para que se sintam bem no Partido os que não pactuam com tais métodos.

sábado, 16 de dezembro de 2006

Calçada à Portuguesa, uma distinção...

Até que enfim! "Já era tempo de fazer justiça aos calceteiros".
Foi ontem inaugurada pela Câmara Municipal de Lisboa na Baixa Pombalina – Rua da Vitória, em frente à igreja de São Nicolau – uma estátua de homenagem ao Calceteiro de Lisboa. Trata-se de uma obra do escultor Sérgio Stichinni composta por duas figuras em bronze: um calceteiro a esculpir a pedra e um ajudante com o maço a bater a pedra.
Lisboa é provavelmente a única cidade de todo o mundo em que vale mesmo a pena olhar para o chão. Peixes, flores, pássaros e caleidoscópios ondulados e muitos outros motivos artísticos adornam as praças e passeios públicos em rendilhados de pedra, que envelhecem com as memórias de quem por cima deles anda.
É genial o embelezamento do chão público com os pequenos cubos de pedra preta e branca, uma solução ecológica e esteticamente colorida e brilhante.
A calçada à portuguesa é uma distinção nacional, genuinamente artesanal, em que com uns martelinhos de 800 gramas, se cortam ali mesmo pequenos cubos de calcário, granito ou basalto, que artisticamente combinados revelam uma faceta da nossa cultura.
É portanto muito merecido o monumento ao Calceteiro de Lisboa.
Seria importante que a Câmara Municipal de Lisboa não se ficasse por esta homenagem e invertesse a redução drástica do número de profissionais calceteiros ao seu serviço e promovesse esta profissão, de modo a que a calçada à portuguesa continue a brilhar como nos tempos antigos.
Não é com os 20 calceteiros actualmente ao serviço da Câmara e com o trabalho dos empreiteiros cuja aptidão técnica é muitos vezes deficitária que iremos manter o ex-libris nacional que é a calçada à portuguesa.
Se por um lado, a calçada à portuguesa nos põe de cabeça baixa, pedindo-nos que olhemos para o chão, por outro lado, é-nos exigido que saibamos estar com a cabeça bem levantada, que tiremos partido deste e de todos os outros valores nacionais.