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sábado, 30 de agosto de 2008

"Vingança dos magistrados?"...

Fiquei estupefacto com o que li a propósito da “brandura dos juízes” face ao crescendo da criminalidade em Portugal.
O Governo adoptou um conjunto de medidas face ao “excesso de brandura na aplicação da lei”. É mau se for verdade esta afirmação, não a de adopção de medidas, mas a da tal brandura. Mas é muito pior se for verdade que esta atitude resulte de uma espécie de “vingança” dos magistrados. Aqui fiquei de boca aberta e meio azougado. Como?! Os juízes e os procuradores estão a tomar atitudes deste género, pondo em causa a segurança e a garantia dos direitos dos cidadãos? A última e a mais importante reserva da identidade nacional tem procedimentos deste tipo? Se não tivermos confiança no sistema judicial, o que é que vai ser de nós? Pobres cidadãos!
Eu sei que o nosso país é um país de incendiários, muitos dos quais andam a botar fogo, sem saber porquê? Deram-lhe para aquilo! Agora, magistrados a serem acusados de “vingança” por lhes terem sido retirados privilégios, ou por não estarem de acordo com as leis ou o sistema em que estão inseridos, é que eu não consigo compreender. Não consigo mesmo e não posso deixar de afirmar que me sinto mal, desgostoso e sem esperança.
Pobre país!

Os casos do Kosovo, da Ossétia do Sul e da Abcásia

A firmeza com que o Ocidente procura manifestar a sua oposição ao reconhecimento pela Rússia da independência da Ossétia e da Abcásia está obviamente abalada na sua credibilidade. Carecendo de credibilidade, não tem efectividade. É a efectividade que domina nas relações entre Estados.
No início do ano as principais potencias europeias e os EUA rejubilaram com a declaração unilateral da independência do Kosovo, desprezando a aquisição de séculos de diplomacia que ensina que nas relações internacionais o gesto mais delicado é justamente o reconhecimento de novas soberanias, sobretudo - como neste caso - quando tal gesto é susceptível de alterar equilíbrios regionais.
Na Europa, poucos líderes revelaram a prudência e a sabedoria que o caso justificava. Um deles contrariou o clima de excitação que se gerou com a ideia do nascimento de mais um Estado e com as promessas de fornecer a incubadora, tal era a fragilidade do nascente, ao dizer que «toda a declaração unilateral de independência gera grande preocupação. Devemos continuar a analisar a evolução da situação e, em devido tempo, envolvendo todos os órgãos de soberania, tomar uma decisão». Avisou que o seu País não tinha de se precipitar no reconhecimento de um Estado numa região onde a autonomização plena daquele território era factor de agravamento de uma estabilidade precária.
Foi em 22 de Fevereiro de 2008, o líder chama-se Cavaco Silva e é Presidente de uma das repúblicas com menos influência na União Europeia...

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

“A injustiça social mata”!

O que acontece quando se combinam más politicas, maus governantes e péssimos economistas? Uma mortandade em grande escala!
Já tive oportunidade, no ano passado, de falar sobre o síndroma do status. Agora, a O.M.S. revela que o efeito “tóxico” daquela associação é devastadora.
A injustiça social é um factor muito importante para explicar muito do sofrimento e morte dos seres humanos, numa escala verdadeiramente dramática. Mata mesmo, sendo perfeitamente evitável tantas mortes.
Andam os responsáveis e as autoridades muito preocupados com o cancro, com a sida, com a diabetes, com a obesidade, com as doenças cardiovasculares, com as toxicodependências, entre outras, quando muitas das doenças não são mais do que diferentes “outcomes” das mesmas causas!
Hoje, no The Independent, um artigo assinado por James Macintyre aborda este assunto. Merece ser lido, porque obriga-nos a reflectir.
É preciso ir às raízes dos problemas...

A regra e a excepção

Já estava a dramatizar interiormente o facto de não ter havido hoje qualquer assalto a Banco, Tribunal, ou Caixa multibanco. A dramatizar, pois não haver assalto apenas comprovaria que a regra é a do assalto.
Fiquei mais descansado agora, que ouvi ter sido assaltada uma Agência da Caixa Geral de Depósitos.
Como o Governo nos diz que tal criminalidade é excepção, deve-se desdramatizar o assalto, que confirma a regra do não assalto.
Mas, não tendo havido, nos últimos tempos, dia sem assaltos, só posso pensar que o significado das palavras também foi assaltado e violentado.
Regra passou a significar excepção e excepção passou a significar regra.
Desdramatizemos, pois!...

“Discriminação”

Fala-se muito sobre os direitos dos seres humanos que, na prática, nem sempre são respeitados, independentemente da sociedade, da religião e do país. Em pleno século XXI, a escravatura continua a existir, o tráfico de seres humanos é uma realidade, a perseguição política e religiosa é uma constante, a exploração dos mais fracos é uma indústria em crescendo e certas formas de terrorismo social ganham contornos obscenos.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, afirma, solenemente, no seu artigo primeiro, que “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Princípio universal que deveria ser a marca da modernidade mas que tarda em se impor. Na mesma Declaração, o artigo sétimo afirma textualmente: “Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação”.
O nosso país também permite a discriminação, em várias áreas, dentro das quais se destaca a recusa em fazer seguros de vida – obrigatórios para a aquisição de bens indispensáveis -, por parte das seguradoras, a certas pessoas, por serem doentes ou portadoras de deficiência.
A Associação Portuguesa de Deficientes revela que nenhuma das reclamações apresentadas foram aceites em 2007.
O senhor Provedor da Justiça já condenou as “reiteradas práticas discriminatórias” das seguradoras.
Relatos de pessoas a quem foram recusados fazer qualquer seguro por serem portadoras de doenças infecciosas, oncológicas e outras constituem uma espécie de folclore para as seguradoras cuja atenção se centra nos mais “puros”, nos “mais saudáveis”, nos candidatos a longevos, “ávidas” em fazer exames a torto e a direito, a que não será estranho, num futuro próximo, centrar-se, inclusive, no próprio genoma. Um comportamento típico de uma forma de “eugenismo” social, “aceite”, despudoradamente, pela sociedade e pelo poder político.
Esquecem-se que a maioria irá sofrer, por exemplo, de uma qualquer forma de cancro. No entanto, nos tempos actuais, este problema deve ser considerado como um doença crónica que, na maioria dos casos, é tratável e, em muitos outros, até, curável. A situação actual vai originar que uma pessoa acabe por “apanhar” não um só cancro, mas, até, dois ou mais! É verdade! Ou seja, os tratamentos actuais permitem que um ser humano viva tanto ao ponto de não morrer dessa doença, como, inclusive ainda se arrisca a sofrer mais um ou dois. Começa a ser comum. Sendo assim, justificar-se-á a negação de um seguro de vida? E quanto a certas doenças infecciosas, os tratamentos permitem uma taxa de sobrevivência quase idêntica aos que não sofrem e, às vezes, paradoxo dos paradoxos, muitos doentes crónicos acabam por viver mais do que os ditos “saudáveis”.
A política de descriminação em vigor deve ser denunciada e combatida por todos os meios ao nosso dispor. Para esse efeito devemos obrigar o poder político para que tenha uma intervenção mais dura, mais repressiva contra as arbitrariedades de indústrias altamente lucrativas e que exprimem formas eugénicas lamentáveis.
No fundo, não devemos esquecer que já estamos doentes ou a caminho de o ser...

Se o quisermos ver...

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O ridiculo-trágico não dá vontade de rir...


Em dois meses foram assaltados três tribunais, três. Ontem foi a vez do Tribunal de Cascais, de onde os larápios "limparam", pela calada da noite, a caixa multibanco. Não se preocuparam em arrombar o aparelho para mais ligeiramente abandonarem o local que se supunha não só não atraír como amedrontar ladrões (pelos vistos os tribunais só metem medo a gente séria e honesta...). Não. Levaram a própria caixa multibanco! O sistema de videovigilância (que se encontra instalado), não funcionou. E portanto não há forma fácil de identificar os autores do crime. O alarme (também existente), não soou. E por isso foram as trabalhadoras da limpeza (sem aspas) que deram pela coisa, sabe-se lá quantas horas após o sucesso.
Há não muito tempo um agente da autoridade (assim em tempos chamado com propriedade) foi perseguido por aqueles que deveria perseguir. Ao ponto de se ver agredido no local onde se refugiou e onde noutras eras de má memória a polícia agredia e só lamentava as que caíam no chão - nem mais nem menos do que a própria esquadra da polícia!
Também este ano, em plena sala de audiência de um tribunal, um magistrado foi agredido por aquele que acabara de condenar para que justamente de futuro não agredisse mais ninguém. Não houve uma alma que prevenisse ou parasse a agressão ao simbolo da autoridade do Estado que é o juiz.
Perante estes casos, que se não fossem trágicos seriam justificadamente cómicos, será que o problema está na lei, como o inefável secretário de estado adjunto do ministro do interior, José Magalhães, deu ontem a entender?
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ADENDA - Conhecido o comunicado do PGR, nota-se que as "sugestões" do senhor Procurador para um mais eficaz combate ao crime violento, são afinal um libelo acusatório contra a revisão conjuntural da lei penal. Disso dá nota na edição de hoje - 29/08 - o editorial do DN. Pergunto-me, contudo, se a clara proposta do Procurador-Geral para uma nova mexida na lei, agora a pretexto do excessivo "garantismo" (que sempre serviu para justificar a musculação dos poderes do Estado e a contracção dos direitos dos cidadãos), não será afinal o apelo à prática que o PGR implicitamente censurou.
Só para se ter uma noção da instabilidade legislativa no domínio do direito criminal, em 25 anos de vigência do Código Penal foram feitas cerca de 30 alterações. Terão variado tanto neste periodo os valores sociais que carecem deste tipo de tutela? Ou procurou-se com a alteração da lei dar solução a casos mais impressivos; ou então disfarçar a incapacidade das instituições do Estado encarregues de duas das funções mais relevantes da soberania, a justiça e a segurança?

Tanto tempo perdido…

Numa época em que o Serviço Nacional de Saúde tem falta de médicos e em que temos vindo a acolher no nosso País médicos imigrantes era totalmente incompreensível que os nossos governantes não criassem condições para que estas pessoas pudessem em Portugal exercer medicina.
Finalmente, foi dado um passo muito importante, para permitir a integração profissional de médicos imigrantes que tenham obtido a licenciatura fora da União Europeia, em países com os quais Portugal não tem acordos de reconhecimento automático de habilitações, e que sejam portadores de experiência na prática da medicina
Trata-se de uma orientação política do mais elementar bom senso, em que para além de ajudar a concretizar a tão apregoada política de imigração inclusiva, traduz-se no reconhecimento e valorização das capacidade e aptidões dos médicos imigrantes e ajuda a resolver as carências que se verificam no âmbito da prestação de cuidados de saúde.
O governo aprovou recentemente o programa “Integração profissional de médicos imigrantes”, que vai abranger 150 médicos imigrantes. Creio que a população médica imigrante residente é bastante superior. Mas, enfim, já é um passo. E apesar da infindável burocracia que é colocada na instrução das candidaturas e de discutíveis alguns aspectos relativos aos critérios de admissão definidos e à exigência de provas e apoios monetários que serão concedidos ao médicos imigrantes, o facto de a Fundação Calouste Gulbenkian assumir a coordenação geral do programa é uma garantia de que o programa vai ser correctamente gerido e serão cumpridos os objectivos.
Sempre me questionei porque razão esta decisão política e outras da mesma natureza com idêntico alcance tardam em acontecer. Se há sector em que ambas as partes saem inquestionavelmente beneficiadas é o da saúde. Com a integração profissional dos médicos imigrantes ficamos todos a ganhar.
Lembro-me de ter contactado, já lá vão alguns anos, com um pintor ucraniano numa ida a casa de uma das minhas irmãs que estava então a fazer umas obras de remodelação. O homem tinha sido recomendado por uns amigos por ser de confiança, cumpridor e primoroso no trabalho que fazia. Era um homem dos seus 40 anos, educado, culto e de trato simpático e respeitador, médico licenciado na Ucrânia, especialista em cardiologia com uns bons anos de exercício da medicina. Tinha chegado a Portugal há pouco tempo, mas já falava português. Lembro-me perfeitamente de me invadir um sentimento de pena e uma ideia de injustiça por ver aquele médico a cumprir uma profissão que não era a sua, pelo simples facto de ter que sobreviver e de não lhe serem reconhecidas em Portugal as suas habilitações médicas. Contudo, gostava dos portugueses e era aqui que pretendia viver com a mulher. A mulher era licenciada em música e tinha sido professora na Ucrânia. Falou-me, se a memória não me falha, de uma filha pequenita que queria ver crescer a falar português. Apreciei a sua modéstia mas também o seu orgulho de médico quando me disse que os seus conhecimentos e experiência de médico poderiam aproveitar o nosso sistema de saúde.
Oxalá tenha a sorte de ser contemplado no programa agora aprovado e que os seus sonhos tenham agora uma possibilidade de se tornar realidade!

Não houve acidente!...

O post do Prof. Massano sobre o inquérito ao acidente da Linha do Tua que não sabe explicar as causas do dito e o subsequente comentário do Zuricher fez-me recordar uma outra história, verídica, de um acidente na CP, que aprendi nos tempos em que exerci actividade profissional na Sorefame, um importante e internacionalmente prestigiado construtor de carruagens de comboios, que não conseguiu resistir aos erros dos governos e à concorrência internacional.
Num qualquer ano das décadas de cinquenta ou sessenta, deu-se um descarrilamento de grandes proporções de um comboio da CP, felizmente sem danos pessoais de monta, mas com significativos prejuízos patrimoniais. Seguiu-se o inevitável e obrigatório inquérito.
No seu plano de trabalhos, o inquiridor ouviu o chefe da estação, o maquinista e o ajudante, o homem que batia com um martelo nas rodas antes de o comboio partir, o controlador que autorizou a partida, o agulheiro do local, o revisor, o electricista-chefe e o mecânico-chefe, o serviço de manutenção, o engenheiro-chefe da via e obras e os engenheiros-chefe dos mais diversos departamentos da empresa.
Dos depoimentos recolhidos, verificou que o comboio partira no segundo exacto, que a via estava desimpedida, que a manutenção das linhas e travessas tinha sido efectuada no mês anterior, que a máquina e carruagens eram recentes e estavam como novas, que a sinalização tinha funcionado a cem por cento, que o maquinista e ajudante tinham descansado bem na noite anterior e cumprido escrupulosamente a lista de tarefas e, nomeadamente, não tinham excedido a velocidade, que o agulheiro não trocara o trajecto, enfim, que tinham sido cumpridos todos os procedimentos regulamentares.
Ficou perplexo o inquiridor, que pediu mais uns dias ao Conselho de Administração para novas averiguações. Consultado o Governo do Prof. Salazar (nesse tempo e agora, as coisas são iguais…), foram-lhe concedidos mais três dias.
Gastou meio dia em mais umas averiguações e ficou com o resto do tempo para pensar e redigir as conclusões. Depois de profunda reflexão, pegou da caneta para redigir a conclusão final.
Conclusão
“Ouvidos os departamentos e responsáveis envolvidos, as suas chefias e sub-chefias, inquirido o chefe da estação de partida e os chefes das estações imediatamente anterior e posterior ao acidente, o agulheiro de serviço, o controlador da via, os operários da manutenção, os electricistas, os mecânicos e o maquinista, e todo o restante pessoal que consta do Inquérito e que, por isso, me dispenso de agora citar, e tendo todos evidenciado e comprovado de forma exaustiva o integral cumprimento das as normas em vigor, conclui-se: Não houve acidente!...
Dizem as más línguas que o CA não apreciou totalmente o teor das Conclusões, pelo que acidentado ficou o Inquiridor, alvo, ele próprio, de um inquérito disciplinar. Suma injustiça!...
A reparação foi, no entanto, feita, quando foi nomeado Administrador da empresa, dizia-se!...

Auxílio espanhol

Os autarcas de Elvas e Campo Maior “querem que as crianças dos seus concelhos passem a ter acesso à pediatria do Hospital Infanta Cristina, em Badajoz”. Já foi contactada a Junta da Estremadura.
Os nossos concidadãos, que vivem na raia, já vão nascer ao outro lado, onde compram as batatas, os alhos e os presuntos, enchem os depósitos dos carros e agora querem que os seus filhos sejam seguidos e tratados pelos médicos espanhóis. Por este andar, e para facilitar as coisas, porque é que não pedem a efectiva e real integração no reino de Espanha? Em vez de andarem aos bochechos, já que de Lisboa, pelos vistos, não podem esperar muito.
Pobre país!

“Gooooolo”....

Levanto-me, ligo a televisão e dou de caras com um “directo” sobre bairros problemáticos que estão a ser alvo de intervenção policial.
A jornalista relata com um entusiasmo típico de um jogo de futebol ou a entrada triunfante de uma qualquer estrela que, até, me fez estremecer. “Não podem passar carros, só pessoas a pé, lá ao fundo estamos a ver a polícia que começou esta intervenção preventiva às sete horas, com ajuda de um helicóptero a iluminar a zona. Agora, parece-nos, sim, está a ser detido um indivíduo. Um individuo está a ser detido em directo pela policia”, com um entusiasmo idêntico ao locutor desportivo quando grita goooolo... E se o locutor for do Benfica passa a ser gooooooooooooooooooooooolo!!!
Bom. Aqui está como o Governo decide fazer prevenção e dar publicidade ao povão de que está a actuar e em força. Quantos aos ditos criminosos e marginais vão, com toda a certeza, tirar um dia de férias, aproveitam para ir à praia ou, então, sentam-se em frente da TV a beber chá e a comer torradinhas divertindo-se com os nosso programas televisivos e directos!
Pobre país!

Tempos sombrios

Quase sem darmos por isso, entre as notícias da crise financeira, da crise energética, da crise dos cereais e da crise social, foi ganhando espaço a crise da paz. Há uns tempos ouvíamos falar dos avanços e recuos no Médio Oriente, ou das negaças e ameaças do Irão e dos seus planos nucleares, ou do Darfur, ou da mal resolvida tensão nos Balcãs, ou de uns estertores no Afeganistão. Tudo problemas mais ou menos longínquos ou, pelo menos, noticiados casa a caso.
Mas o muro de Berlim estava caído e bem caído, a Europa ia de vento em popa a abranger mais e mais países no sentido Leste e seguíamos embalados na ideia de que a Rússia se ia chegando para lá, encerrada nas sua máfias e nos seus novos milionários. O Kosovo era um problema político e o Direito Internacional acomoda muitas leituras.
A América, enredada no Iraque, está em processo eleitoral e anima os noticiários com candidatos brilhantes e convenções fantásticas, prometendo que vai renascer para um mundo novo.
Não sei se foi a Georgia que fez juntar as peças todas, tornando patente o frágil equilíbrio da paz mundial, ou se já é resultado das rápidas mudanças geopolíticas que baralharam tudo.
De repente, é analisada com preocupação a fraca capacidade militar da União Europeia, o tom de voz entre a Rússia e os Estados Unidos é aterrador, os analistas afirmam que a ameaça do Irão é para levar muito a sério e que foi um grave erro decretar a fraqueza russa antes de tempo.
Ouvimos as promessas eleitorais de Obama, mais que tentadoras, mais que justas – educação e saúde para todos – e perguntamo-nos se a América vai desistir do orçamento militar. E se a Europa vai armar-se até aos dentes, desarmando-se das políticas sociais.
De repente, muitas vozes afirmam que o Irão é uma ameaça real e de curto prazo e que, em caso de guerra, fecha a rota do petróleo. A China irá servir-se a África e a Europa sofrerá uma enorme escassez.
Se lermos atentamente as notícias e os múltiplos artigos de análise e opinião sobre a realidade geopolítica que se desenha todos os dias, reparamos que a hipótese de uma guerra é admitida com contornos cada vez mais nítidos. Como já não tínhamos memória.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Desdramatizar!...

Se quase todos os dias são assaltados Bancos… desdramatiza-se.
Se só num dia foram assaltados três Bancos... desdramatiza-se.
Se diariamente são assaltadas gasolineiras…desdramatiza-se.
Se diariamente há vários assaltos por “carjacking”…desdramatiza-se
Se os ladrões atingem inocentes…desdramatiza-se.
Se os ladrões atingem polícias…desdramatiza-se ao quadrado
Se os réus atingem os juízes nos Tribunais…dramatiza-se por um dia
Se os polícias atingem os malfeitores no curso de perseguições…dramatiza-se e promovem-se inquéritos
Se os polícias não ousam entrar nos bairros conflituosos…desdramatiza-se
Se os polícias ousam meter um dedo que seja nos bairros conflituosos…dramatiza-se
Desdramatiza-se a favor dos gatunos e malfeitores, dramatiza-se em desfavor das autoridades.
Se os Tribunais mandam para a rua tipos apanhados em flagrante em assaltos com armas…desdramatiza-se
Desdramatiza o Governo, desdramatizam os Ministros, desdramatiza o Parlamento, desdramatiza a Coordenação da Segurança.
Por isso, sem drama nem tragédia, impune e à vontade, o crime acaba por compensar.
Mas tem havido crimes?

Inquéritos para quê?

Uma série de quatro acidentes ocorridos na linha do Tua no curto espaço de tempo de dezoito meses com vítimas mortais, sendo que três deles em 2008, dois inquéritos de descarrilamentos passados cujos relatórios nunca foram publicamente revelados e um inquérito preliminar sobre a tragédia do dia 22 de Agosto que prontamente foi mandado fazer pelo governo mas que nada conclui sobre as causas do descarrilamento constituem factos intrigantes e preocupantes.
Esta longa história de sucessivos acidentes graves e mortais, intercalados de sucessivos anúncios de inquéritos - inexistentes ou inconclusivos no apuramento de causas e responsabilidades e na apresentação de recomendações ou alertas - de apoio à decisão política e técnica, combinada com sucessivos anúncios de reabertura da linha condimentados com promessas de bom funcionamento dos comboios, de total controlo técnico e de segurança garantida para a circulação de passageiros e pessoal técnico não é, por mais voltas que se dê, uma história normal.
Não deixa, contudo, de revelar contornos de uma certa normalidade a ausência de rigor com que se tomam decisões políticas e técnicas importantes e igualmente graves pelo impacto que provocam no bem-estar dos cidadãos e o facilitismo com que os decisores lidam com a coisa pública.
Porque é que em Portugal os inquéritos mandados fazer pelos governos para apurar causas e responsabilidades de desastres e acidentes não chegam ao fim, se é que alguma vez se iniciam? Porque razão não são conhecidos os resultados, não se apuram as causas e se determinam responsabilidades - sejam políticas, de gestão ou técnicas - e não são devidas explicações cabais ao País? Porque é que se vive permanentemente o jogo do empurra, no qual não há vencidos, ninguém tem culpas, as responsabilidades são enjeitadas? Porque é que será assim tão difícil assumir os erros ou assumir opções falhadas ou mal explicadas?
Porque é que é normal que aceitemos que a culpa morra solteira? E uso o plural porque há aqui uma atitude colectiva!
Há muitos porquês que se colocam, mas na normalidade o que não temos é respostas satisfatórias. Conduzir a coisa pública com omissões graves de escrutínio como é o caso da triste história da linha do Tua não é saudável, incute desconfiança e insegurança e descredibiliza a decisão política.
Mas ainda a propósito do acidente da linha do Tua, sabe-se agora que o Gabinete de Investigação de Segurança e de Acidentes Ferroviários (GISAF) criado em 2007 através de um decreto-lei não está a funcionar. A constituição de um órgão independente dos operadores ferroviários para investigar desastres ferroviários resulta de uma directiva comunitária. O governo cuidou de responder formalmente à obrigação comunitária, mas não cuidou da sua operacionalização. É bom lembrar que o inquérito ao acidente de 22 de Agosto foi cometido a uma comissão que é constituída por operadores ferroviários, em lugar de a sua investigação ser entregue a peritos ou entidades independentes.
E não vale a pena dizer mais nada sobre este episódio porque facilmente se percebe que, por todas as razões e mais algumas, o acidente de sexta-feira da linha do Tua - e o mesmo se poderá dizer em relação aos outros acidentes que aí ocorreram no passado recente, que tanto quanto julgo saber não foram investigados ou, pelo menos, não se conhecem os resultados - impõe uma investigação por uma entidade independente.
Com um relatório ao inquérito, ainda que preliminar, que conclui que não foram detectadas quaisquer causas para o descarrilamento, certificando que não existe qualquer problema nem com a linha nem com a automotora (pese embora o disco que regista a velocidade da automotora não ter sido disponibilizado à comissão de investigação por se encontrar na posse do Ministério Público!?) há razões de sobra para continuar a investigar até haver uma explicação. Zero de explicações é um resultado, ou melhor um não resultado, que não se pode aceitar.
Até lá, esperemos que a linha continue encerrada, mas não por muito tempo. Aguardemos que a investigação não se eternize, porque a acontecer teríamos a eternização do encerramento da bonita linha do Tua.

Ilusões e risco

Num artigo muito interessante publicado no DE, Antonio Ramalho explica o fenómeno da “democratização” da crise financeira com origem no subprime ou seja, como um assunto complexo parece de repente muito simples depois de mediatizado até ao infinito de modo a torná-lo quase banal e arrumá-lo rapidamente entre os temas já entendidos.
No entanto, lembra o autor, os agora vilipendiados banqueiros americanos eram, há um ano, o modelo de eficiência; o sistema financeiro era referência para regulações, auditorias externas e supervisões independentes; e tudo o que havia de mais fiável e sofisticado é agora considerado a raiz de todos os males.
Parece simples, encontrou-se o “culpado” e tudo parece recompor-se para se retomar o caminho como se os grandes males tivessem sido eliminados. Ao que parece, o mesmo caminho, ou seja, o da ilusão de que é possível proteger os clientes de todos os riscos, repassando-os sucessivamente como se, algures nesse processo, ele se evaporasse. Perdendo-se-lhe o rasto é o mesmo que apagá-lo do mapa? Não é. Também na área financeira a lei da natureza é inexorável: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Muitas vezes, como se vê, o resultado são crises graves, que não melhoram se estivermos mais preocupados em acalmar os ânimos do que em esclarecer devidamente sobre o que é preciso realmente corrigir. As falsas promessas, por exemplo.

Pobre país! Pobre saúde!

Os cuidados de saúde em Portugal têm sido protagonistas de inúmeras situações conflituosas, anedóticas e de atentados contra os interesses dos nossos concidadãos. Raro é o dia em que não surgem notícias a confirmar algum pessimismo ao redor de um dos sectores mais sensíveis de qualquer sociedade.
Quando as preocupações financeiras predominam, deve-se, com toda a naturalidade, combater o desperdício e melhorar a eficiência dos serviços. Só que, por vezes, o estrangulamento financeiro deve ser de tal ordem que acabam por tomar soluções difíceis de compreender.
A notícia de que “marcar exames às varizes vai passar a demorar meses”, porque não há comparticipação na realização de certos exames venosos e arteriais aos membros inferiores, passando estes a serem realizados nos serviços oficiais, vai originar desconforto, mal-estar e até problemas graves numa população cada vez mais envelhecida e cada vez mais doente com repercussões vasculares nos membros inferiores. Os custos de um diagnóstico e tratamento tardios deverão ser astronómicos no futuro, face à “poupança” do presente. Tudo isto, porque há patologias de “primeira”, outras de “segunda” e ainda outras “de somenos importância”. Quem determina o “ranking”? Algum poder profissional, associativo, técnico, politico e económico.
Outra notícia foca o problema da jovem criança timorense com um tumor cerebral. Tanta cobertura, tanto mediatismo, com jornais, revistas, entrevistas, reportagens, imagens da menina, do pai da menina e do tumor. Tanto! Porquê meu Deus? Será que a menina não merece um pouco de mais respeito pela sua intimidade? Haverá necessidade de tanta cobertura? Não bastaria noticiar o caso e o movimento de solidariedade que permitiu a sua vinda ao nosso país? Um verdadeiro exemplo de uma forma de exploração em que o sofrimento de alguém é exposto de uma foram obscena.
Mas há ainda mais. A maternidade Alfredo da Costa está a rebentar pelas costuras com os partos e os atendimentos às grávidas. Razões? Nem é preciso explicar! O que me confrange é saber que um hospital da Capital teve que encerrar as urgências obstétricas devido a doença súbita de um chefe de equipa. Em Lisboa? Sim, em Lisboa, capital do reino e de um ex-império também se observa fenómenos deste tipo. Como é possível? Não sei! Até gostava que alguém me explicasse.
Mas há mais! Os H.U.C., hospital de referência e de orgulho nacional vai passar a EPE (entidade pública empresarial). Dizem que é para se tornar mais eficiente! Talvez seja. O que eu não acho graça nenhuma é a informação de que o capital estatutário ser um pouco superior a cinco milhões de euros, muito longe do que foi atribuído aos hospitais de Santa Maria e do São João. Há quem diga que não chega para cobrir os custos de exploração. O seu presidente, e meu colega, veio dizer que é apenas a primeira “tranche” do capital a realizar ao longo dos cinco anos. À pergunta: - Qual o montante final? O senhor presidente ignora de momento! Ignora?!! Mau, mau! Então, o representante máximo de uma instituição altamente prestigiada ignora o total da dotação a atribuir ao longo de cinco anos do plano de desenvolvimento estratégico? Será que ignora mesmo? Ou não quererá dizer?
Pobre país! Faz-me lembrar o náufrago da série cómica televisiva que, esperançado de regressar à Pátria, pede para o deixarem na ilha, quando soube o que se passa por aqui...
Pobre país! Pobre saúde!

Reformas arredondadas

O Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, falando ontem aos jornalistas na vila alentejana do Crato, garantiu que o Governo vai prosseguir as reformas de fundo essenciais para o País.
Reformas, reformas de fundo que conheça, só a do arredondamento das taxas de juro!... Como o próprio nome indica...
Ficamos então a saber que o Governo vai prosseguir as reformas em redondo. Dão voltas sobre si próprias, mas não saem do mesmo sítio!...

Linha do Tua

Acabo de ouvir na rádio que o relatório entregue ao senhor ministro sobre o recente acidente na linha do Tua “não revelou quaisquer problemas na via e na automotora”. Que alivio! Já podemos respirar mais à vontade.
Bom! A notícia é apenas o “cabeçalho” de um relatório que não li...

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Vai um sumo?

É conhecido desde algum tempo que o sumo de certos frutos interferem com a absorção de certas substâncias. Os sumos de toranja e de uvas podem aumentar a absorção de algumas substâncias podendo originar situações graves de intoxicação medicamentosa. Agora, no decurso da última conferência da Sociedade Química Norte-Americana, uma equipa de cientistas veio revelar que os sumos de toranja, de laranja e de maçã, cujas virtudes têm sido publicitadas, interferem e também reduzem a absorção de substâncias tais como antibióticos, antihipertensores, imunossupressores e antineoplásicas.
Pois é! Temos que ter atenção com os sumos se estivermos a tomar certos fármacos.
Gostava de saber a opinião dos que andam a “combater o colesterol à dentada”, promovendo as maçãs, se pensam passar para “cuidado, não beba sumo de maça, porque pode afogar os seus medicamentos”. É o dizes!
Vá lá, não se inquiete muito. Continue a dar dentadas nas maçãs, a beber um sumo de laranja, mas evite o de toranja, e se gostar de sumo de maçã, então, não o beba com os medicamentos...

"En mathématiques, les filles font jeu égal avec les garçons"

Se não estou em erro, de vez em quando, o Tonibler costuma fazer referências às diferenças entre os sexos no que respeita às capacidades matemáticas.
E agora, Tonibler?