1. A notícia financeira de maior destaque, hoje, é certamente a do regresso da Grécia ao mercado primário da dívida pública, com uma emissão de € 3 mil milhões, ao prazo de 5 anos: esta emissão teve o melhor acolhimento pelo mercado, traduzido numa procura que terá excedido € 20 mil milhões (quase 7 vezes o montante proposto), e numa taxa média de colocação ligeiramente inferior a 5%.
2. É curiosa esta recepção calorosa dispensada à Grécia, depois de uma ausência de cerca de 3,5 anos e de dois turbulentos resgates, o segundo dos quais em Fevereiro/Março de 2012, envolvendo uma dura reestruturação da dívida pública, que impôs aos credores privados elevadas perdas (forçados a um “hair-cut” de cerca de 50%)…
3. … cumprindo recordar os prejuízos elevados de alguns bancos portugueses que tinham investido em dívida helénica na convicção de que nunca deixaria de ser paga integralmente…
4. Este acolhimento quase caloroso dos mercados deverá constituir um estímulo para que a Grécia, apesar das imensas dificuldades com que se tem deparado para implementar as necessárias reformas - designadamente eliminando excessos quase obscenos de um “Estado Social”, com benesses totalmente incomportáveis (como os 16 salários a funcionários públicos) - prossiga o programa de reformas que já lhe permite apresentar um saldo orçamental primário positivo.
5. Este estímulo poderá ser importante, numa altura em que a dívida pública grega, embora detida em mais de 80% por credores oficiais, atinge a elevada fasquia de 175% do PIB (compara a 130% para Portugal e Itália), e a economia carece ainda de reformas ao nível dos mercados de factores e de produtos que lhe facultem maior agilidade e um crescimento sustentado.
6. Por cá o “mood” é outro, prossegue a ofensiva primaveril dos 74 ou + proponentes da reestruturação, os quais ainda ontem fizeram deslocar à AR uma respeitável delegação para depositar a sua mensagem de esperança no Parlamento.
7. O exemplo da reestruturação da dívida grega, que levou as taxas de juro implícitas na cotação da dívida (yields), no prazo de 10 anos, para níveis superiores a 30%, constituirá certamente um forte estímulo para que em Portugal se dê finalmente ouvidos a esta oportuna e patriótica proposta.
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quinta-feira, 10 de abril de 2014
Diálogo tridimensional, internacional, intergeracional e, claro, virtual
-"Queridas europeias, aqui vai foto do vosso velho carro que aqui deixaram à espera das feriazinhas que tardam, acabado de chegar a casa, todo pintado, desamolgado, mecanicamente revisto e, o que foi mais difícil, sem nódoas nos estofos (:-( ).Para que o aproveitem bem, vindo cá mais vezes e não vos falte nada, sobretudo que não inventem mais pretextos para pedir o carro do pai emprestado!, parece saído do stand!!
-Wow! Vais vendê-lo? Não acredito!
- Essa agora! É para durar mais 10 anos! O próximo serão vocês a comprá-lo!
-VENDER O NOSSO QUERIDO CARRO?!?!?!!? JAMAIS! Está maravilhoso! Não o deixem à chuva. Nem mal estacionado. Nem sem gasolina. Nem debaixo do poste onde há pombos. Nem estacionado ao lado de carros velhos. Nem ao lado de Jeeps. Nem..
Ohhh, que saudades do meu carrinho, aqui dava-me um jeitão!Obrigada pai, obrigada papás:)))"
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Reduzir horas de trabalho para poupar...
Gostamos muito de nos socorrer dos países nórdicos pelo seu exemplo de sucesso nas mais variadas áreas para justificar as nossas escolhas. Surgem invariavelmente como boas referências.
A Suécia vai fazer uma experiência interessante: reduzir as horas de trabalho dos funcionários públicos para poupar dinheiro, mantendo as suas remunerações inalteradas. O que a cidade de Gohtenburg espera é que a produtividade destes trabalhadores aumente. Estranho? Nem por isso. Por cá ainda estamos na fase de aumentar as horas de trabalho...
20 anos depois do genocídio no Ruanda
A propósito da Guerra Civil e do genocídio no Ruanda, de que se assinala agora o 20º aniversário com as atrozes memórias dessas chacinas mas também com notícias sobre a recuperação do país - agora até é apelidado de Singapura de África ! - recomendo vivamente o notável texto no Malomil aqui. Aliás, recomendo todos os textos no Malomil, são sempre surpreendentes e muito bons, há alturas em que é preciso reconhecer todo o mérito e qualidade à concorrência :))
terça-feira, 8 de abril de 2014
A marquesa
Setembro era um mês especial. Os dias começavam a minguar, o calor
deixava de suar e sentia o reinício das aulas a ameaçar. Mesmo assim
gostava do setembro, ainda ia ao rio e saboreava os finais de tarde com
sentido prazer. Nessa altura, em que se avizinhava o rebuliço das
vindimas, via gente nova que procuravam beber a beleza da época.
Atraídos pelo ouro do outono vinham de longe para
se misturarem com as pessoas que aqui viviam, mas não se confundiam,
eram diferentes, estranhos, bem cuidados e bem vestidos. Recordo de uma
senhora, nada nova, vestida com cuidado, que usava toilletes que não se
adaptavam ao local e aos costumes. Pintava-se com vermelhos vivos, usava
chapéu, cada dia um diferente, mas sempre ridículo como convém a este
tipo de gente. Tinha tiques estranhos. Todos paravam e comentavam, quem
seria. Um dia "descobriram" que era uma marquesa. Todos a cumprimentavam
com educação e, até, com alguma flexão. A senhora retribuía apenas com o
olhar e um sorriso descorado não obstante os lábios de vermelho
pintado. Caminhava com elegância e alguma tremulação empunhando um
distinto e prateado bordão. Construiu os seus rituais. Saia e entrava na
pensão à mesma hora, para descansar e para alguma reflexão. Nunca me
aproximei da senhora, mas seduzia-me o seu comportamento e houve quem
afirmasse que vinha para a Estação para ver ou se encontrar com o então
"chefão". Não sei se é verdade ou não, o que sei é que destoava do
ambiente de então. Via-a passear inúmeras vezes e a retirar da sua mala,
um pequeno caderno onde escrevia com uma caneta grossa e dourada. Segui
algumas vezes a "marquesa". Gostava de ver o seu andar e o rodopiar das
belas sombrinhas que trazia. Todas diferentes, coloridas, com flores,
arabescos, laços, rendinhas e outras coisas mais que me confundiam, se
chovesse, pensei, deveriam desfazer-se à primeira escanevada.
Identificava-a facilmente graças à cor e ao voltejar da sombrinha. Ia
várias vezes até à quinta do presidente, parava, olhava, encostava-se ao
muro, tirava o caderno e escrevia. Fechava o caderno e escondia-o na
sua mala colorida. Era tudo colorido, espampanante e discordante de tudo
o que via naqueles lugares e instantes. Passava em frente da casa do
presidente, e a sombrinha rodopiava com tal velocidade criando figuras
capazes de invejar o meu adorado caleidoscópio. Ia até à ponte do rio
Dão, encostava-se, tirava o caderno da mala e escrevia com a sua grossa e
bela caneta dourada. Depois regressava à pensão e aí ficava o resto do
dia em reflexão. Havia um dia em que desaparecia e eu ficava triste. O
mês de setembro chegava ao fim. No ano seguinte, quando os dias
começavam a minguar, e o calor deixava de suar, e eu sentia o reinício
das aulas a ameaçar, olhava para a pensão à espera de ver se a
"marquesa" já tinha chegado ou não. Ficava contente quando a via a
descer a calçada vestida à maneira, muito colorida, pintada de vermelho,
sombrinha e mala na mão à procura do rio Dão, como se andasse à procura
de alguma solução. Corria e avisava, a "marquesa" já veio, pois então.
Sentia uma enorme satisfação, e a senhora, cujo nome nunca soube, fazia o
mesmo que no ano anterior. Passeava, encostava-se à parede, tirava o
seu caderno e escrevia com uma bela caneta grossa e dourada. Abria a
sombrinha, colocava-a ao ombro, rodopiava-a e andava pelos mesmos
sítios. Depois acabava o setembro, e o verão e a marquesa desapareciam
para aparecerem no ano seguinte. Corria e avisava, a "marquesa" já veio,
pois então. E assim aconteceu, até que um dia só apareceram setembro e o
fim do verão.
Almoço de domingo
As
rotinas de almoçar aos domingos foram alteradas este ano. Durante muito
tempo fui a uma espécie de "caverna" sociológica onde comiam pessoas de
outras eras e épocas transplantadas para o nosso tempo, era uma espécie
de "portal" onde podia ver, falar e conviver com almas que traziam
consigo o passado para o meu presente. Tantas conversas ouvi, tantas
crónicas escrevi e quanto aprendi.
Depois acabou. Fiquei triste e andei à procura de um local para
substituir a minha "caverna". Acabei por encontrar um espaço, agradável,
simpático e com boa comida. Agora, que se já se passaram várias semanas
desde o início do ano, estou a adaptar-me ao meu novo espaço. Já não é a
minha velha "caverna", agora é uma área muito mais moderna. Mesmo
assim, começo a registar instantes que me ajudam a digerir os meus
momentos de almoço de domingo. Olho-os e analiso-os com discrição e
muita atenção.
Hoje, o farfalhudo e sombrio "bigodes", atacava com desespero esfomeado o pobre cabrito. Revirava as peças do jovem animal e, calado, mastigava-o com prazer. O seu companheiro, que estava de costas, não me permitiu ver o que sentia ou fazia. Ao lado, um casal popular e meio pretensioso falava e comungava o repasto. Dali tem de sair qualquer coisa, pensei.
O almoço decorreu com naturalidade e satisfação. No final, o "bigodes" sombrio comentou qualquer coisa com a empregada. Vi que se sentiu um pouco incomodada. Liguei as antenas e ouvi-o a dizer que faltava qualquer coisa. A empregada respondeu que tinha, não sei o quê, então era pouco, disse o "bigodes", que rematou, sobranceira e parolamente, "não estava grande espingarda". Bacoco, pensei, então o gajo mamou o cabrito com um desejo voluptuoso e agora vem dizer que não estava grande espingarda. Bacoco, pensei.
Ao lado, o casal popular e meio pretensioso tinha pedido a conta. - Com fatura? Perguntou a empregada. - Se for com fatura ainda pode ganhar um Mercedes. - Não preciso, já tenho dois, disse o pretensioso. - Fatura! Fatura para quê? Disse a mulher. - O que eles querem é saber quem come fora de casa, porque se comem fora é porque têm dinheiro e depois aplicam mais impostos. São uns sabidos esses gajos das finanças. Não queremos faturas, porque não queremos que "eles" saibam que andamos a comer fora. Não queriam mais nada!
Enfim, afinal pode ser que arranje matéria para viajar, não no passado, mas num presente diferente do meu. De qualquer modo, posso afiançar que o grelhado estava mesmo muito bom. Delicioso e as conversas também.
Hoje, o farfalhudo e sombrio "bigodes", atacava com desespero esfomeado o pobre cabrito. Revirava as peças do jovem animal e, calado, mastigava-o com prazer. O seu companheiro, que estava de costas, não me permitiu ver o que sentia ou fazia. Ao lado, um casal popular e meio pretensioso falava e comungava o repasto. Dali tem de sair qualquer coisa, pensei.
O almoço decorreu com naturalidade e satisfação. No final, o "bigodes" sombrio comentou qualquer coisa com a empregada. Vi que se sentiu um pouco incomodada. Liguei as antenas e ouvi-o a dizer que faltava qualquer coisa. A empregada respondeu que tinha, não sei o quê, então era pouco, disse o "bigodes", que rematou, sobranceira e parolamente, "não estava grande espingarda". Bacoco, pensei, então o gajo mamou o cabrito com um desejo voluptuoso e agora vem dizer que não estava grande espingarda. Bacoco, pensei.
Ao lado, o casal popular e meio pretensioso tinha pedido a conta. - Com fatura? Perguntou a empregada. - Se for com fatura ainda pode ganhar um Mercedes. - Não preciso, já tenho dois, disse o pretensioso. - Fatura! Fatura para quê? Disse a mulher. - O que eles querem é saber quem come fora de casa, porque se comem fora é porque têm dinheiro e depois aplicam mais impostos. São uns sabidos esses gajos das finanças. Não queremos faturas, porque não queremos que "eles" saibam que andamos a comer fora. Não queriam mais nada!
Enfim, afinal pode ser que arranje matéria para viajar, não no passado, mas num presente diferente do meu. De qualquer modo, posso afiançar que o grelhado estava mesmo muito bom. Delicioso e as conversas também.
Lembranças no futuro
Enfiei-me pela montanha e fui dar à aldeia de xisto perdida entre aqueles montes belos e sensuais enfeitados de envergonhadas urzes. Não estava previsto a visita, mas o dia convidava a isso, o sol tinha aparecido e aquecido a vontade de espairecer.
- Vamos lá abaixo beber uma água fresca?
- Vamos.
- No ano passado compraste um cesto naquela venda em que o dono assobiava e cantava sem cessar.
- Comprei. Está na cozinha. Vou ver se compro outro, não igual, ficam bem na cozinha.
De facto, está apetrechada de artigos típicos e populares do país dando-lhe cor, alegria, realçando a simplicidade de outros tempos. A conversa continuou enquanto a descida durou, relembrando o seu hábito que é adquirir qualquer coisa que obrigue a recordar os locais, as gentes e os costumes por onde passou. Relembrou um engenheiro francês que nunca conheceu, mas do qual herdou pequenas e grandes coisas a testemunhar os inúmeros locais por onde viajou. Curioso, pensei, herdar objetos, formas de estar e imitar alguém é dar vida e significado quem anda pelo além. Pequenas coisas ou objetos simples são suficientes para alegrar e dar vida à imaginação. A alimentação dos espíritos faz-se à custa de lembranças no futuro.
-Então vamos à venda do castiço. Fomos direitinho. Estava sentado da parte de fora ao lado de um estendal de artesanato variado. Estava a assobiar. Da outra vez estava a cantar. Saudei-o e entrei na venda. As mesmas coisas, desarrumadas, com o mesmo cheiro, algum pó e materiais velhos e decadentes. Não consegui encontrar nada que me atraísse. Da parte de fora, agora a cantar, a pedinchar e a lamentar-se, usando as mesmas frases do ano passado, a minha mulher entregou-lhe uma pequena cesta e perguntou o preço. Pegou na cesta e depois de três ou quatro hum! avançou:- Vinte, vinte, bem posso fazer-lhe por trinta. Sorriu e continuou a revirar e a passar para dezasseis, até que lhe a entregou e disse: - Fica por doze e ainda perco! Mas se quiser uma mais pequena. Olhe aquela é mais pequena. Peguei nela e vi que era do mesmo tamanho. Peguei noutra ao lado, que era do mesmo tamanho, e tinha uma pequena etiqueta a dizer dez euros. - Afinal esta é de dez euros e do mesmo tamanho. Calou-se e fez a pergunta do ano passado: - De onde são os senhores? - De Coimbra. - Ah! Coimbra, Coimbra. Uma filha minha trabalhou numa loja na baixa e tenho lá uma irmã há sessenta anos, que é freira, e fiz milhares de quilómetros até lá, era taxista e levava pessoas doentes. Sim senhor, pensei, o homem é coerente, conta as coisas da mesma maneira. Desta vez não disse que tinha guardado as suas aventuras e experiências em cadernos que davam para um filme e um bom livro. Com a cesta na mão e uma nota de dez euros na outra continuamos a conversar, até lhe a passar para a mão. Aceitou como se não tivesse dado por nada, desejou-me boa viagem e até à próxima. Sentou-se e começou a cantarolar canções antigas da montanha, divertidas, na sua voz esganiçada. Um verdadeiro cigano das serranias de Portugal.
Valeu a pena a viagem, o pequeno cesto de palha entrelaçada, a conversa, a história e a lembrança que irá habitar a velha cozinha para um dia ser recordada.
- Vamos lá abaixo beber uma água fresca?
- Vamos.
- No ano passado compraste um cesto naquela venda em que o dono assobiava e cantava sem cessar.
- Comprei. Está na cozinha. Vou ver se compro outro, não igual, ficam bem na cozinha.
De facto, está apetrechada de artigos típicos e populares do país dando-lhe cor, alegria, realçando a simplicidade de outros tempos. A conversa continuou enquanto a descida durou, relembrando o seu hábito que é adquirir qualquer coisa que obrigue a recordar os locais, as gentes e os costumes por onde passou. Relembrou um engenheiro francês que nunca conheceu, mas do qual herdou pequenas e grandes coisas a testemunhar os inúmeros locais por onde viajou. Curioso, pensei, herdar objetos, formas de estar e imitar alguém é dar vida e significado quem anda pelo além. Pequenas coisas ou objetos simples são suficientes para alegrar e dar vida à imaginação. A alimentação dos espíritos faz-se à custa de lembranças no futuro.
-Então vamos à venda do castiço. Fomos direitinho. Estava sentado da parte de fora ao lado de um estendal de artesanato variado. Estava a assobiar. Da outra vez estava a cantar. Saudei-o e entrei na venda. As mesmas coisas, desarrumadas, com o mesmo cheiro, algum pó e materiais velhos e decadentes. Não consegui encontrar nada que me atraísse. Da parte de fora, agora a cantar, a pedinchar e a lamentar-se, usando as mesmas frases do ano passado, a minha mulher entregou-lhe uma pequena cesta e perguntou o preço. Pegou na cesta e depois de três ou quatro hum! avançou:- Vinte, vinte, bem posso fazer-lhe por trinta. Sorriu e continuou a revirar e a passar para dezasseis, até que lhe a entregou e disse: - Fica por doze e ainda perco! Mas se quiser uma mais pequena. Olhe aquela é mais pequena. Peguei nela e vi que era do mesmo tamanho. Peguei noutra ao lado, que era do mesmo tamanho, e tinha uma pequena etiqueta a dizer dez euros. - Afinal esta é de dez euros e do mesmo tamanho. Calou-se e fez a pergunta do ano passado: - De onde são os senhores? - De Coimbra. - Ah! Coimbra, Coimbra. Uma filha minha trabalhou numa loja na baixa e tenho lá uma irmã há sessenta anos, que é freira, e fiz milhares de quilómetros até lá, era taxista e levava pessoas doentes. Sim senhor, pensei, o homem é coerente, conta as coisas da mesma maneira. Desta vez não disse que tinha guardado as suas aventuras e experiências em cadernos que davam para um filme e um bom livro. Com a cesta na mão e uma nota de dez euros na outra continuamos a conversar, até lhe a passar para a mão. Aceitou como se não tivesse dado por nada, desejou-me boa viagem e até à próxima. Sentou-se e começou a cantarolar canções antigas da montanha, divertidas, na sua voz esganiçada. Um verdadeiro cigano das serranias de Portugal.
Valeu a pena a viagem, o pequeno cesto de palha entrelaçada, a conversa, a história e a lembrança que irá habitar a velha cozinha para um dia ser recordada.
Neosocialismo
Michel Sapin, Ministro das Finanças do Governo francês, intitula-se, a si próprio, como o Schauble francês. E, fazendo jus ao nome, mal foi empossado, de imediato correu a visitar o seu mestre e, agora, homólogo alemão, acompanhado do Ministro da Eonomia, André Montbourg.
E logo em Berlim, para não perder tempo, prometeu colocar as finanças públicas francesas em ordem.
Neoliberal, Michel Sapin? Nada disso, que horror!...Neosocialista é que é!...
(notícia e declarações recolhidas no DN de hoje, 8 de Abril, de que não foi possível obter link)
PS: E o mesmo acontecerá a alguém que por cá gosta de ser visto como muito seguro, caso o acaso o envie algum dia a Berlim. Palpita-me.
O telemóvel
A fila na caixa do supermercado já tinha várias pessoas que esperavam pacientemente que a mulher que estava a ser atendida resolvesse as suas dúvidas sobre a política de descontos de cada produto. Pessoa de aspecto humilde mas citadina, devia pertencer àquela classe pouco média em acentuado declínio, que passou a escrutinar severamente o preço de cada produto e a seleccionar os que lhe valiam ou não a despesa. O facto é que, pergunta atrás de pergunta, confirmava que afinal o bodo aos pobres dos descontos não era assim tão evidente, algumas coisas só teriam baixa se levasse dois, a embalagem em saldo não era a azul mas a verde, enfim, a empregada atendia-a pacientemente, mandava confirmar, disposta a correr aquele calvário que preenche as suas horas de trabalho. Entra então no supermercado um jovem casal com ar aflito, dirigem-se os dois àquela caixa e perguntam em voz alta, não ficou aqui um telemóvel, estivemos aqui agora mesmo a pagar e quando chegámos ao carro demos por falta dele, deve ter ficado aqui quando arrumávamos as compras nos sacos...
A caixeira disse, quase indiferente, que não tinha dado por nada mas a tal cliente que ainda não tinha encerrado a sua lista de compras largou num desatino a tirar as coisas dos seus sacos, arrastou com a mão as que ainda estavam no espaço da caixa, dizia alvoraçada, eu não vi nenhum telemóvel, se ficou aqui, aqui está, podem ver, mas como não estava lá telefone nenhum e o casal não se dava por achado, a mulher começou a abrir a mala num gesto de pânico, mostrando o conteúdo aos dois e depois à empregada da caixa e depois virando-se para a fila, quase em lágrimas, podem ver, eu não tenho aqui telemóvel nenhum, o meu ficou em casa, não tenho dinheiro para o carregar, mas não tenho inveja de quem tem, Deus me livre se fiquei com alguma coisa que não me pertença, podem ver, vejam, não está aqui nada, e escancarava a mala para que fiscalizassem, submetendo-se àquilo como se estivesse habituada a suspeitas injustas. A cena era tão constrangedora que alguns viravam a cara, para nem sequer olhar, outros saíram da fila e mudaram de caixa, o casal ficou parado, em silêncio pasmado, por fim, consolaram a mulher, deixe estar, deixe estar, que ideia a sua, ninguém a está a acusar de nada.
Por fim, lá pegou nos seus sacos de compras e saíu, a olhar rancorosa à sua volta, não fosse alguém ainda duvidar do paradeiro do telemóvel do casal, posso ser pobre mas nunca roubei nada a ninguém, graças a Deus.
domingo, 6 de abril de 2014
O que o Papa Francisco nos traz de volta
"Não há esforço de 'pacificação' duradouro com uma sociedade que abandona parte de si mesma.
"[A crise financeira mundial tem origem] numa profunda crise antropológica com a criação de ídolos novos, o culto do dinheiro e a ditadura de uma economia sem rosto, nem objetivo verdadeiramente humano."
"Aquilo que domina são as dinâmicas de uma economia e de finanças carentes de ética: assim, homens e mulheres são sacrificados aos ídolos do lucro e do consumo, é a cultura do descartável."
"Um povo que não escuta os seus avós é um povo morto."
Estas e outras frases e temas das suas intervenções públicas fizeram do Papa Francisco um fenómeno de popularidade e de sabedoria, um Papa do povo que todos invocam e repetem. No entanto, se lermos bem tudo o que diz e o modo como o diz, ficamos desconcertados, tal a simplicidade e até a evidência das verdades e das preocupações que traz a público, aquilo a que há não muitos anos chamaríamos banalidades e princípios comuns de conduta em qualquer sociedade com pretensões de civilização. Precisamente o que mais me impressiona é que seja preciso hoje invocar a autoridade e o carisma papal para se pronunciarem como válidas e importantes muitas das formas de pensar e de viver que noutras épocas bem próximas estariam na agenda das democracias e dos políticos com pretensões de ser eleitos, sendo consideradas elementares para o progresso da Humanidade. Cuidar dos mais velhos e dos mais fracos, o dinheiro não pode governar o mundo, as pessoas não são descartáveis, enfim, é bem um sinal dos tempos que seja preciso ser o Papa a falar para se reparar como tais princípios e valores foram ficando...descartados da nossa realidade. O Papa Francisco usa a sua autoridade e o seu ministério para as agendar de novo, para insistir, pode ser que, depois de acolhidas com surpresa e espanto, sirvam para repararmos como afinal são essenciais e nos escandalizarmos sobre quando e como foi possível esquecermo-nos delas.
Como é bonita a Primavera!
Como é bonita a Primavera! Apaixonante, tudo ganha vida, cor, energia, forma, magia. Aqui do meu jardim, chama-se "little prince"...
sábado, 5 de abril de 2014
Poupar sim, mas é preciso mais...
É uma boa notícia. Tardia, parece, é caso para
perguntarmos porque só agora esta decisão. Não me impressiona particularmente o
valor adiantado da poupança. Se há poupança de despesa pública com a redução de
despesas com pessoal e funcionamento, pela transformação de três em um, tão ou
mais importante é a eficácia da gestão da nova agência. Não basta cortar, é preciso "reformar". É necessário que as organizações disponham das competências necessárias, de um
modelo de gestão e dos instrumentos adequados, de um modelo institucional que garanta que são seguidas as melhores práticas. Sem estes ingredientes não há bons resultados. Sobre este
assunto não fomos informados. Tratando-se do QREN aqueles princípios são ainda
mais exigentes…
Rotação de funções e saneamento
Deu grossos títulos nos jornais a notícia da atribuição de novas funções à magistrada do ministério público que dirigia a unidade de combate ao crime violento. Ela própria se declarou vítima de saneamento.
Não quero comentar o caso específico, por óbvio e natural desconhecimento dos factos. Mas, abstraindo do caso concreto, a situação ilustra o que de pior existe na função pública, que é a cultura de os funcionários se considerarem donos do seu posto de trabalho. Se um funcionário é convidado ou obrigado a mudar de função, aqui d`el-rei, que é saneamento. E tem, de imediato, acolhimento na arcaica comunicação social que persistimos em ter.
Ora a mudança de posto de trabalho traz novas experiências, enriquecimento pessoal e profissional, uma visão mais alargada da área de actuação, e uma melhor compreensão do todo onde se insere. A polivalência de funções é um activo e uma mais-valia quer para o funcionário, quer para o serviço. Mas não, o funcionário entende que uma rotação para outro serviço é saneamento. Enquanto persistir esta cultura do lugar inamovível, não há, nem pode haver, gestão de pessoal. E, não havendo gestão, o bom funcionário é sempre a primeira vítima da mediania instalada. Com prejuízo para todos. Mas é o estado que temos. E que tantos adoram, embora lhe sofram as consequências. Masoquismo, pois.
7.201.226 €uros!
Segundo a DECO é este o montante que traduz o locupletamento do Estado em IMI cobrado a mais até ao dia de hoje, apurado - creio eu - com base nos dados recolhidos pelo simulador que pôs à disposição na sua página da Internet. Um montante que traduz um bocadinho da realidade. O Fisco arrecada receitas de um novo imposto, oculto, resultante da não atualização deliberada dos fatores que permitem apurar o valor patrimonial dos bens imobiliários, em especial o preço por metro quadrado no concelho em que se localiza o prédio e a idade do imóvel (índice de vetustez). Um imposto que é filho de uma conveniente mas nem por isso decente omissão da administração tributária. Mas também de uma incompreensível ausência de indignação geral.
Existirão poucos países no mundo onde esta situação não atingirá foros de escândalo. Portugal é um destes. Denunciada a situação num momento onde a carga fiscal ultrapassou tudo o que é razoável, a denúncia da DECO não levantou qualquer onda de protesto. Uma indiferença que, pese embora deixar tranquilos os responsáveis governamentais, deveria preocupar quem tem da democracia a ideia de um sistema em que o escrutínio público se faz justamente nestes casos de desprezo pelos direitos dos cidadãos. Mais: a necessidade de uma reação firme da sociedade civil era tanto mais esperada quando é evidente a deserção, neste como noutros casos de atropelo a direitos, de quem representa os cidadãos nos fora políticos.
A esta inércia só escapou a DECO que não só denunciou mais esta situação de agressão fiscal, como também colocou à disposição dos cidadãos, no seu site, um simulador para cálculo do valor legal de IMI e instruções simples e claras para requerer a atualização do valor patrimonial dos prédios e consequente correção dos valores a pagar. Uma iniciativa que merece o louvor à DECO que aqui deixo publicamente registado, mas que deveria ser secundada pela onda de indignação que infelizmente não foi capaz de levantar.
Enquanto isto, o Fisco oferece "prémios à cidadania fiscal" garantindo automóveis em troca de faturas, sem que falte a parolice da exibição televisiva do triste espetáculo. Pena é que só se exijam bons exemplos e bons comportamentos aos cidadãos, e nunca a quem os deveria servir...
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Um Hollande realista
Depois do devaneio à l`Hollande, depressa ultrapassado, a França deixou-se dos sonhos socialistas e começa seriamente a voltar à realidade.
O novo 1º Ministro, Manuel Valls, não foi de modas nem politicamente correcto em relação ao passado. Logo na sua primeira intervenção pública, no Telejornal da TF1, afirmou que "não há outra opção se não reduzir os défices públicos", pois "é uma questão de credibilidade para a França".
É que Valls sabe bem que a França vem perdendo competitividade, e que a carga fiscal suga os meios necessários à reorganização empresarial,ao investimento, à adopção de novas tecnologias, à inovação.
E sabe que, sem isso, não há economia forte, nem emprego, nem rendimento para distribuir.
E Valls também sabe que estados endividados, défices elevados e fiscalidade excessiva não são de molde a aplicar políticas keynesianas, tão defendidas pelo seu partido.
Que Hollande, seja dito, logo abandonou, no dia seguinte a ser eleito. Mas que o discípulo Seguro ainda teima em defender para Portugal. Com renegociações de dívida, de modo a criar uma folga que permita a tal "aposta no crescimento". Com mais despesa pública, geradora de mais dívida, uma receita segura para o descalabro.
PERIFÉRICOS deixaram de ser "PERIFÉRICOS"?
1. As obrigações do Tesouro Português, ao prazo de 10 anos, estão a transaccionar-se hoje a um preço que tem implícita uma taxa rendimento (yield) de 3,93% (já muito abaixo da famosa taxa “Machete”)...
2. Este será o nível de juro (yield) mais baixo desde Dezembro de 2009, ou seja 15 meses antes da derrocada financeira que culminou mais de 15 anos de vida fácil e indisciplinada, sobretudo no capítulo das finanças públicas, e que, como sabemos, na recta final assumiu características de autêntico delírio financeiro.
3. Ontem o Tesouro de Espanha colocou dívida no mercado a 5, 10 e 12 anos, arrecadando €5.583 milhões e obtendo taxas de juro das mais baixas de sempre:
- A 5 anos, 1,86%
- A 10 anos, 3,29%
- A 12 anos, 3,55% (mínimo histórico).
4. Há dois dias foi notícia o facto de as yields da dívida pública portuguesa se encontrarem a nível inferior ao de dívidas comparáveis de 36% dos países com ratings melhores do que o atribuído à dívida portuguesa...
5. Também há dois dias o F. Times noticiava que empresas sediadas em países da periferia do Euro estarem a conseguir emitir dívida no mercado a taxas de juro inferiores às conseguidas por empresas sediadas em alguns dos países considerados da sub-zona “core” do Euro...e Portugal seria um dos casos assinalados (recordo as condições excepcionalmente favoráveis de uma emissão de obrigações da BRISA, ao prazo de 7 anos, há cerca de 2 semanas).
6. Aqui chegados cabe perguntar: então os PERIFÉRICOS já perderam o estatuto de “PERIFÉRICOS”, agora só conservam o nome? E passaram, como que por encanto, a merece todas as atenções e a preferência dos mercados?
7. E os mercados deixaram cair a sua perversidade, depois de, durante mais de três anos, terem sido acusados de pecaminosa cumplicidade com as políticas neo-liberais? O que terão a dizer sobre esta nova realidade os muitos e ilustres Comentadores domésticos, políticos e não-políticos, Crescimentistas na sua maioria, que acusaram os mercados de todas as malfeitorias contra os pobres países PERIFÉRICOS?
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Os Lusíadas
Cheguei cedo. Conheço bem a cidade e o local. Ao descer a avenida lembrei-me de pessoas da minha idade, quis recordar os seus nomes mas não consegui. Não interessa, do passado fica pouca coisa, apenas algumas recordações, sentimentos e saudosas emoções.
O esqueleto da zona não sofreu grandes alterações, apenas as carnes, tendões e músculos é que são diferentes, contrariando a velhice, rejuvenesceu, mas com tristeza e saudade de vidas de outrora.
Cheguei cedo. Fui dar uma volta e beber um café. Na esquina encontrei um. Ainda lá está. Entrei e sentei-me. Olhei por uma janela agora voltada para a enorme rotunda. Em tempos permitia ver a estação, agora não. Olhei para a parede e vi uma enorme fotografia de uma velha locomotiva a vapor. Pensei, deve ser a mesma que daqui me levou para casa há quase meio século. Nesse dia fiz algo que nunca esqueci. Tive de ir a Viseu comprar Os Lusíadas. Ia para o quinto ano e na minha terra não se vendiam livros. Comprar Os Lusíadas foi um verdadeiro ato iniciático. Senti-me muito importante. A partir de agora sou alguém, vou ler e estudar Os Lusíadas. Ouvia, incessantemente, que era muito confuso e extraordinariamente complicado, sobretudo na divisão das orações. Deixá-lo, pensei. Na ânsia de o começar a ler, deu-me para decorar os primeiros versos. Entendia que passaria à condição de erudito assim que chegasse a casa. Assim fiz. Sentado naquele local, junto à janela de um dia belo e quente de setembro, comecei a memorizar, depois de beber um "nescafé". Que estilo! Aos 15 anos, sentado num café a ler Os Lusíadas, um momento inesquecível.
"As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram"
Novo Reino, que tanto sublimaram"
Não foi fácil. Recordo, sobretudo quando tropeçava na Taprobana, que não sabia dizer como devia ser e trocava por Trabopana e coisas semelhantes. Era uma inquietação. Mesmo durante a viagem de comboio, provavelmente puxada pela máquina que estava na foto da parede, memorizei várias vezes, até suspirar de alívio quando consegui dizer Taprobana, os primeiros versos. Que raio de nome o Luís de Camões escolheu. Mas onde ficava a dita Taprobana? Devia ser para os lados da África, adiantei. Ao chegar a casa, no "rápido" que devia andar a pouco mais do que 25Km/ hora, mostrei triunfantemente o primeiro livro que comprei sozinho. - Já sei os primeiros versos. Decorei-os. - Ai sim? Então diz lá. Comecei, mas ao chegar à dita cuja, meti as mãos pelos pés, engasguei-me e disse: - Que chatice. - Espera aí, engano-me sempre. Li novamente e disse: -...Taprobana... Em perigos e guerras esforçados...
E foi assim que comecei a ler Os Lusíadas há quase cinquenta anos...
O poder das palavras...
Assisti ontem a
uma palestra sobre Filosofia da Hermenêutica, dedicada às palavras: objectivos
do uso da palavra, o seu significado, poder dos veículos de comunicação da
palavra, os efeitos perversos da palavra, os signos, entre outros aspectos
importantes para compreender a importância das palavras na vida, no
conhecimento do mundo e na interpretação das coisas.
Um dos efeitos perversos do uso
das palavras é que as mesmas são utilizadas para se dizer o que não se quer, para
omitir o que deveria ser dito. A semântica ganha grande intensidade quando o
poder da palavra é pervertido ao entrar num jogo de linguagem que visa ocultar
a realidade das coisas.
Lembrei-me como este efeito tem
vindo a ganhar peso no discurso político. A proliferação de palavras e
expressões que são usadas para classificar uma acção, ideia ou facto é um
fenómeno que tomou conta da linguagem política no espaço público, tendo como
resultado - obejctivo ou consequência - a geração de um clima de confusão, incerteza e desconfiança. Lançam-se
hipóteses mais ou menos verosímeis, criam-se expectativas mais ou menos elevadas e avançam-se não
soluções com contornos possíveis de soluções, tudo a bem de uma vitoriosa contabilidade
político-partidária.
Veja-se por exemplo a saída do programa
de ajustamento da Troika que entrou no dia-a-dia mediático. A especulação tem
sido alimentada pelo jogo de palavras, jogo este que serve também o objectivo da especulação. Há que alimentar o tema, as palavras aí estão para o fazer. Não faltam palavras ora para dizerem a mesma coisa,
ora para dizer o seu contrário, ora para deixar no ar uma adivinhação do que
pode vir a ser ou não ser, ora para justificar a coisa que tiver que ser:
resgate, saída limpa, saída menos limpa, programa cautelar, programa cautelar
soft, seguro, carta de conforto. Um outro caso bem ilustrativo. Não faltam palavras para
categorizar as medidas políticas sobre os salários e as pensões: ora são cortes,
ora são reduções, mas também são ajustamentos e substituições, são retroactivos
mas também retrospectivos, dizem-se temporários e permanentes, mas são
definitivos, têm adicionais mas sem agravamentos.
A quem serve tanta semântica? Aí estão os efeitos perversos do uso das palavras, quem as usa sabe ou deveria saber o que com elas
quer ou não fazer, porque muitas delas dizem demais ou nada querem dizer…
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Repartição à l`Hollandaise
Pode-se criticar Hollande por muita coisa, mas nunca pelo carinho que ele devota às mães dos seus filhos.
Ségolène, mãe de quatro, entrou agora para o Governo, com a pasta da Ecologia, Desenvolvimento e Energia. E Anne Hidalgo, mãe de um, contemporâneo de um segolenezinho, ao que vem sendo publicado sem desmentido, foi encaminhada para Presidente da Câmara de Paris.
Homem com um enorme portfollio, mas administrador previdente e generoso. Um socialista que sabe repartir. Que nunca lhe falte a gratidão dos seus!...
Emoção
Levantei-me cedo. Esta noite sonhei que nem um perdido, vi e vivi aquilo que julgava ser real, mas não, afinal era tudo uma fantasia. Toca o alarme e toca a levantar. Fiquei aborrecido, não porque os sonhos fossem grande coisa, belos, prazenteiros ou coloridos, foram depressa esquecidos, mas por ter de viver um novo dia atormentado pelo dever. Cheguei à estação, senti o incómodo do frio e o calor de uma pequena conversa. A estação é o melhor sítio para encontrar quem não encontramos no dia-a-dia. Antes que dissesse qualquer coisa, adiantei, hoje vou em sentido contrário, vou para o Porto, vou argumentar uma tese. Riu-se, não sei se da minha espontaneidade ou com inveja, porque ter de ir todas as semanas a Lisboa cansa e enjoa. Ainda falámos de algumas coisas. O resto fica para outro dia, ocasiões não irão faltar. Boa viagem, boa viagem, repliquei.
Chego cedo, chego sempre cedo e parto sempre cedo, não gosto de entrar em conflito com o tempo, causa-me angústia e medo, sendo assim prefiro chegar e partir mais cedo.
A candidata foi minha aluna, reconheceu-me e disse logo de chofre, foi meu professor há vinte e três anos. Credo, pensei eu, há tanto tempo. Ainda ontem, à noite, escura e fria, uma senhora simpática, no final de uma audição em que a minha neta atuou, e que me convidou a assistir, aproximou-se com suavidade e elegância e disse, não resisto a cumprimentá-lo, foi meu professor há vinte e três anos. Beijou-me. Fiquei satisfeito com o beijo, com a recordação e a sensação de ter contribuído para despertar uma agradável emoção.
As provas correram bem. Fiz uma pequena intervenção, realçando alguns aspectos que provocaram alguma emoção na candidata e nos restantes membros, como tive oportunidade de sentir no final. Longe mim saber que era capaz de provocar alguma emoção. A palavra, quando dita no seu verdadeiro lugar, na mina de ouro da argumentação, tem esse condão, que é transformar o trivial em emoção. No final cumprimentei-a e felicitei-a dentro do espaço e das conveniências da ocasião. Ao sair, via-a ainda mais uma vez na sala. Cumprimentou-me novamente e obrigou-me ir ter com ela. Abraçou-me e agradeceu com tão sentida emoção a ponto de ouvir o acelerar do coração. É curioso despertar e sentir o verdadeiro sentido de uma emoção. Foi o que fiz e foi o que senti. Fiquei feliz. Ainda me perguntou se não ia almoçar. Vontade não me faltou, mas estava desejoso de ir ao restaurante da estação para comer algo que é tradição, tripas à moda do Porto. Disse-lhe que ficava para uma outra oportunidade. Estou crente de que há sempre uma nova oportunidade. O taxista quis que fosse para as Devesas. Não quero, quero ir para Campanhã. Mas é mais barato. Não importa, quero ir para Campanhã. Eu faço o que o cliente mandar. Obrigado. Cheguei, entrei no restaurante e não tinha lugar. Indicaram-me um, mas já estava ocupado. Não faz mal, o senhor vai sair. Sentei-me, olhei para o senhor, e aquelas faces fizeram-me recordar a última visita a um santuário da gastronomia. Faces vermelhuscas, com um copo de uísque, a testemunhar que deveria ser o mesmo que vi da última vez. Com um sinal sorridente obrigou-me a sentar. A lista caiu-me nas mãos e não encontrei as tripas. Carago! E agora? Optei por um cozido à portuguesa. E que cozido! Travessa bem abastecida. Comi mais do que devia, mas teve que ser porque não tinha ninguém por companhia. Soube-me bem o ambiente da "tasca", as conversas dos demais e a simpatia do pessoal. Fiz um pequeno historial do dia, e ainda não passou muito tempo depois do meio-dia. Agora, sentado numa estação fria, dou azo a um desejo, descrevo a sensação de um novo dia transformado numa fonte de emoção.
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