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terça-feira, 8 de abril de 2014

A marquesa

Setembro era um mês especial. Os dias começavam a minguar, o calor deixava de suar e sentia o reinício das aulas a ameaçar. Mesmo assim gostava do setembro, ainda ia ao rio e saboreava os finais de tarde com sentido prazer. Nessa altura, em que se avizinhava o rebuliço das vindimas, via gente nova que procuravam beber a beleza da época. Atraídos pelo ouro do outono vinham de longe para se misturarem com as pessoas que aqui viviam, mas não se confundiam, eram diferentes, estranhos, bem cuidados e bem vestidos. Recordo de uma senhora, nada nova, vestida com cuidado, que usava toilletes que não se adaptavam ao local e aos costumes. Pintava-se com vermelhos vivos, usava chapéu, cada dia um diferente, mas sempre ridículo como convém a este tipo de gente. Tinha tiques estranhos. Todos paravam e comentavam, quem seria. Um dia "descobriram" que era uma marquesa. Todos a cumprimentavam com educação e, até, com alguma flexão. A senhora retribuía apenas com o olhar e um sorriso descorado não obstante os lábios de vermelho pintado. Caminhava com elegância e alguma tremulação empunhando um distinto e prateado bordão. Construiu os seus rituais. Saia e entrava na pensão à mesma hora, para descansar e para alguma reflexão. Nunca me aproximei da senhora, mas seduzia-me o seu comportamento e houve quem afirmasse que vinha para a Estação para ver ou se encontrar com o então "chefão". Não sei se é verdade ou não, o que sei é que destoava do ambiente de então. Via-a passear inúmeras vezes e a retirar da sua mala, um pequeno caderno onde escrevia com uma caneta grossa e dourada. Segui algumas vezes a "marquesa". Gostava de ver o seu andar e o rodopiar das belas sombrinhas que trazia. Todas diferentes, coloridas, com flores, arabescos, laços, rendinhas e outras coisas mais que me confundiam, se chovesse, pensei, deveriam desfazer-se à primeira escanevada. Identificava-a facilmente graças à cor e ao voltejar da sombrinha. Ia várias vezes até à quinta do presidente, parava, olhava, encostava-se ao muro, tirava o caderno e escrevia. Fechava o caderno e escondia-o na sua mala colorida. Era tudo colorido, espampanante e discordante de tudo o que via naqueles lugares e instantes. Passava em frente da casa do presidente, e a sombrinha rodopiava com tal velocidade criando figuras capazes de invejar o meu adorado caleidoscópio. Ia até à ponte do rio Dão, encostava-se, tirava o caderno da mala e escrevia com a sua grossa e bela caneta dourada. Depois regressava à pensão e aí ficava o resto do dia em reflexão. Havia um dia em que desaparecia e eu ficava triste. O mês de setembro chegava ao fim. No ano seguinte, quando os dias começavam a minguar, e o calor deixava de suar, e eu sentia o reinício das aulas a ameaçar, olhava para a pensão à espera de ver se a "marquesa" já tinha chegado ou não. Ficava contente quando a via a descer a calçada vestida à maneira, muito colorida, pintada de vermelho, sombrinha e mala na mão à procura do rio Dão, como se andasse à procura de alguma solução. Corria e avisava, a "marquesa" já veio, pois então. Sentia uma enorme satisfação, e a senhora, cujo nome nunca soube, fazia o mesmo que no ano anterior. Passeava, encostava-se à parede, tirava o seu caderno e escrevia com uma bela caneta grossa e dourada. Abria a sombrinha, colocava-a ao ombro, rodopiava-a e andava pelos mesmos sítios. Depois acabava o setembro, e o verão e a marquesa desapareciam para aparecerem no ano seguinte. Corria e avisava, a "marquesa" já veio, pois então. E assim aconteceu, até que um dia só apareceram setembro e o fim do verão.

4 comentários:

Bartolomeu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bartolomeu disse...

Para além da qualidade de sazonalidade que "todas" as marquesas possuem, ou a que se acham "amarradas", intriga-me o facto de não serem perpétuas... deviam; nobless oblige!

Ficava contente quando a via
a descer a calçada vestida
à maneira, muito colorida,
pintada de vermelho, mas não sorria

Sombrinha e mala na mão
à procura do rio Dão,
como se andasse à procura
de alguma solução.
Capaz de transformar a sua postura
dura,
Em doce requebro, com o chefe da estação.. o Durão (vá-se lá saber porquê)
;))))

Salvador Massano Cardoso disse...

:) espirituoso sem dúvida

Suzana Toscano disse...

Lindo texto, como sempre. Um abraço!