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sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Os Partidos e a confiança dos portugueses

A vitória de Cavaco Silva e o excelente resultado de Manuel Alegre recoloca no centro do debate político o problema da confiança dos portugueses nos partidos políticos. Todos sabemos que as eleições presidenciais não são uma escolha entre alternativas partidárias, porém sabemos também que o apoio mais ou menos manifesto das estruturas partidárias a cada um dos candidatos deixou de ter valor acrescentado positivo. Antes pelo contrário, o caso Manuel Alegre cuja candidatura se faz à revelia - e em alguns aspectos por oposição - aos partidos políticos, vem demonstrar que esse apoio poderá ter valor acrescentado negativo.

Os portugueses não têm confiança nos partidos políticos. Esta conclusão é de há muito conhecida e foi retratada de forma objectiva nos resultados do Eurobarómetro divulgado em Setembro último.

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Questionados sobre se confiam ou não nas instituições políticas os portugueses e os europeus demonstram de forma inequívoca confiarem muito pouco nos (por ordem do gráfico) parlamentos nacionais, nos governos, nos partidos políticos e no sistema de justiça. Porém, é de longe nos partidos políticos que os níveis de confiança são mais baixos.
O que parece mais relevante é o facto de o nível de desconfiança nos partidos políticos em Portugal ser precisamente igual à média apurada nos 25 países da UE.
Quer em Portugal, quer na Europa, há uma manifesta crise de confiança nos sistemas políticos e nas instituições das democracias representativas. Os partidos políticos, enquanto "players" centrais deste sistema concitam a maior desconfiança.
É bom que se tenham em conta estes resultados na reflexão sobre o papel dos partidos, a sua organização, a sua prática, a sua cultura e o seu papel nos sistemas representativos.
Se o PSD, no processo de regeneração que se pretende iniciar, ignorar este quadro, dificilmente poderá encontrar saída para um futuro mais auspicioso.

11 comentários:

Rui MCB disse...

Muito sinceramente desejo que o PSD tenha sucesso quer no reconhecimento do problema quer na abordagem ao mesmo. O primeiro partido a fazê-lo vai ter uma "vantagem competitiva" muito interessante durante alguns anos... De caminho ganhamos todos.

Jorge Lucio disse...

Caro David Justino,
A sua análise comparativa UE25-Portugal, parece-me genericamente correcta, mas há um ponto que talvez mereça uma nota particular: a única (!) pergunta que tem uma apreciação positiva, mesmo que pequena (50-45) é a do sistema de justiça na UE25. Curiosamente, ou talvez não, há hoje em Portugal uma convergência de opiniões em que o deficiente funcionamento da Justiça é uma das razões críticas para o fraco desempenho de Portugal.
Indiscutivelmente, talvez mais do que reformar os partidos, dever-se-ia começar por aqui.

MBA disse...

Há uma corrente que anda por aí que defende basicamente isto: quanto maior o nível de abstenção nas eleições, maior a qualidade da democracia ou, pelo menos, menor a percepção que os eleitores têm da necessidade de ir votar para alterar qualquer coisa.

A teoria é certamente discutível, mas se nos lembrarmos dos 99,999% de ida às urnas nas primeiras eleições livres de Timor Leste, há uns anos, e a fraca participação eleitoral aqui em Portugal, podemos concluir basicamente uma de duas coisas: ou os portugueses acham que a democracia está bem, e não vale a pena ir votar; ou então acham que o seu voto não irá fazer a diferença. E se não nos interessamos pelas coisas, é porque elas não estão assim tão mal.

Há uma espécie de terceira via a estes argumentos, e como eu acho que este é o verdadeiro, preocupa-me mais: é o de os cidadãos acharem que "isto" está tão mal que nem vale a pena ir votar porque são todos iguais. Mas se é este o caso, gostava de perceber, caro David Justino, se é com Marques Mendes, ex-secretário de Estado de Cavaco (futuro Presidente da República), ex-ministro de Durão Barroso (actual presidente da Comissão Europeia) e ex-líder parlamentar de Marcelo Rebelo de Sousa (se a memória não me falha) que essa regeneração vai acontecer.
Abraços.

Tonibler disse...

Caro djustino,

Esse desejo/aviso com que encerra o seu post parece-me que está a pedir demais. Também eu pensava que a empresa que foi criada para estudar o novo aeroporto dissesse que o novo aeroporto não servia para nada e eles iriam para o desemprego....Pedir ao partido político que arranje forma de perder poder, clientelas, facções, correntes, dinheiro...Bem, há sempre aquela que é a última a morrer.

Ruvasa disse...

"Ecce" o busílis da questão, Tonibler.

Tudo o resto, com licença de todos quantos aqui participam, é endrominação. Pura e simples.

Aquela que seria a última a morrer... está finada há muito.

Cumprimentos

Ruben

O Reformista disse...

1- O povo mais uma vez deu uma lição democrática e lembrou que ninguém é dono dos seus votos. votação era para presidente da república e não partidária. Não se pode extrair a ilacção de que os portugueses não confiam nos partidos. Simplesmente que não andam a reboque deles.Os partdidos servem os cidadãos e não o contrário

2- Sobre o Congresso do PSD espero que não sejas apenas as directas e que sirva por um lado para repensar o sistema político e por outro para corrigir algumas pequenas coisas que deturpam gravemente a vida democrática do partido. Sobre isto tenciono apresentar propostas de alteração dos estatutos. O problema está nas assinaturas de delegados que serão necessárias.Contarei como s amigos da 4ª República se com eles vierem a concordar.

David Justino disse...

Se algum mérito o "post" possa ter centra-se na necessidade de compreender que o problema da confiança no sistema político e,dentro desde, nos partidos vai muito mais além da forma de eleição do respectivo líder. Problemas como os da ética política ou, de uma forma mais geral, os da cultura política, não traduzíveis em normas explícitas e regulamentares, exigem, acima de tudo, uma credibilização dos actores políticos e da prática política.
Como se compatibiliza esta preocupação com o da mediatização da vida política? Como se faz boa política quando o populismo torna-se bem mais eficaz na captação dos votos? Como se pode ter uma estratégia de longo prazo se o que é valorizado é o imediato?
Face a tudo isto a minha esperança já não é muita. O que me resta é a limitada esperança de se criar um nicho de mudança que o tempo poderá transformar num vasto movimento de reforma do sistema político.
Aposto apenas um ténue raio de luz que anuncie um novo dia.
Quanto a Marques Mendes, não creio que seja esse o problema. O problema principal não está só nos intérpretes, está nos procedimentos e nas concepções. Os intérpretes vêm depois. Cada coisa a seu tempo.

Suzana Toscano disse...

Concordo com o Reformista, não é destas eleições que podemos tirar conclusões sobre a confiança nos Partidos, ainda que o problema em si possa existir e seja sempre oportuno não dar as coisas por adquiridas. os partidos, tal como as instituições, não podem cristalizar em modelos que já tiveram o seu papel, pois têm que dar resposta a uma realidade que muda a grande velocidade, mas daí a desanimar vai uma grande distância não é, DJustino? Quanto a Manuel Alegre, não tiro quaisquer conclusões sobre a importância dos partidos a esse propósito. Alegre viveu sempre num Partido, é a imagem de um Partido e o produto de um Partido ao qual, de resto, não renunciou. E, se tivesse sido candidato pelo PS, os votos não teriam sido menos de certeza (embora CS ganhasse sempre à 1ª =)

O Reformista disse...

Pois é Suzana. O pior é que até Alegre não percebeu e já se anda a interrogar com o que há-de fazer com os "seus" votos.

Ps. O Reformista está a "acordar".

Suzana Toscano disse...

Não sabe o que fazer com os votos e a criação de um "movimento cívico" é patética porque não houve um motivo nem uma ideia agregadora, vão tentar inventá-la agora. E,entretanto, Manuel Alegre "mete baixa" porque não sabe o que fazer com ele próprio! Foi um aprendiz de feiticeiro...

Anónimo disse...

Alegre & C.ia ao menos tiveram a clarividência de perceber que não há espaço para mais um partido à esquerda.
A experiência do PRD nasceu de circunstâncias únicas, não digo irrepetíveis, mas que se não afigura que sejam as actuais ou possam surgir num futuro próximo.
Alguém que presumo ser desse grupo comentava ontem que era necessário dar continuidade à mensagem de Manuel Alegre para combater o bloco central dos interesses. É mais um dos muitos chavões de que é feita a política nacional. A esquerda que não gosta de Sócrates encontrou aí um modo de transmitir que, sob a sua batuta, afinal o PS não se distingue do PSD.
Para além disso, que é patente, para mim permanece um mistério: qual é, afinal, a mensagem legada por Manuel Alegre? O que propôs de novo, que projectos fracturantes, que outros caminhos alternativos apontou para que se possa à volta deles fundar um movimento?
A ideia de criar um movimento cívico - na impossibilidade de criar o partido político - parece-me ter mais a ver com a incapacidade de alguns se afirmarem no PS, do que qualquer outra motivação designadamente de carácter politico-ideológico.
O tempo (e a necessidade...) se encarregarão de refrear o entusiasmo de alguns, e de devolver Manuel Alegre, após a "baixa", à bancada parlamentar do Partido Socialista na qual, como até aqui, votará solidariamente com os seus camaradas de partido as principais medidas propostas pelo governo, com um assomo, aqui e ali, de rebelião no propósito de afimar a sua autonomia.
Sócrates sorrirá. Não, Sócrates já sorri...