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domingo, 31 de agosto de 2008

Depois...seja o que Deus quiser!...

Ouvi hoje no canal de televisão de serviço público a notícia de que o Governo tinha decidido baixar o preço de alguns medicamentos genéricos.
A propósito, o Canal ouviu a opinião de empresas farmacêuticas, que referiram não poder suportar os novos preços, tendo que encerrar algumas unidades produtivas.
Depois, o Canal foi ouvir o Governo, que desdramatizou a situação, dizendo que a medida estava tomada e depois analisaria as consequências.
Não podemos ser exigentes, nem esperar outra coisa dos nossos dedicados Ministros. Coitados deles, sempre em movimento, sempre em visitas, sempre no social, sempre diante do microfone, sempre em palestras e inaugurações e simpósios e conferências, como é que podem ter tempo para analisar o que quer que seja? Limitam-se a assinar o que os seus meninós assessores lhes apresentam e, depois, seja o que Deus quiser!...
Se houver reclamações, logo se vê!...

O discurso de Denver e Alvin Toffler

Há muito tempo que não ouvia tantos elogios ao discurso de um político como tenho ouvido e lido sobre o já quase canonizado “Discurso de Denver”. Brilhante, emocionante, sentido, capaz de mobilizar, de electrizar, de arrastar multidões, o rol de adjectivos há muito votados à poeira das redacções foi recuperado, polido e aplicado como metal refulgente.
Agrada-me assistir ao renascimento da oratória como arte apreciada, é bom ver que as pessoas ainda se comovem com palavras, com gestos, com entoações e com tiradas sentimentais. Mas não deixa de ser surpreendente ver como tanta gente tão exigente quanto ao concreto, às certezas absolutas, às promessas realizáveis e à garantia de que um político tem que assegurar que o futuro fica preso nas suas mãos, olhe embevecida as lágrimas a correr pelas faces dos congressistas, estremeça perante os relatos de origens humildes, subida a pulso, famílias destroçadas superadas com amor, enfim, tudo o que julgaríamos condenado à troça e e ao crivo impiedoso dos planos estratégicos, fudamentos e meios para os por em prática. Ao crivo da realidade, em suma, tão seca, tão pouco poética, tão maçadora.
Devo dizer que me fascina a personalidade assumida por Obama, adoro vê-lo em palco, tão elegante, tão à vontade, aquele sorriso aberto, aquele olhar directo, como se nem lhe passasse pela cabeça o fracasso. “Não sou eu que estou em causa, são vocês”, diz ele, num gesto genial que o confunde com os eleitores, que o funde com os eleitores, que parece humilde – faça-se em mim a vossa vontade – mas que é afinal de uma imensa e irresistível soberba, eu sou o vosso salvador.
Notável, aquela mistura de religião, de comunicação, de manipulação, de sentimento, uma combinação explosiva que se entende bem na América, mas que me causa a maior perplexidade quando vejo os que aqui cativa. Obama fala da mãe, do pai, da avó branca e do avô negro, exibe família, a mulher e os filhos como núcleo indestrutível e fonte primeira da sua força e da sua fiabilidade, põe a testemunhar por ele os meios irmãos, os cunhados, sublinha que sem a família não era nada. A família é a raíz de tudo e a razão para continuar.
Não percebi bem qual era a posição dele quanto aos temas "fracturantes" que por cá se agendam, mas peos vistos não terá importância. Muito politicamente correcto na arte de não ferir susceptibilidades, nem para que sim nem para que não, cada palavra milimetricamente escolhida para só poder significar o que cada um quiser ouvir.
Alvim Toffler, sociólogo e futurólogo, disse em entrevista à SIC que não acredita em nenhuma das promessas de Obama (nem de nenhum político), que seria impossível, ainda que ele o quisesse, cumprir o que anuncia,uma vez que teria que recolher apoios, financiamentos, e ganhar o processo político de elaboração das leis, tudo muito difícil e demorado. Portanto, não é por acreditar no que ele diz que vai votar nele, nem espera nenhuma mudança na política global americana. Vai votar nele porque acha importante mostrar ao Mundo que a América elegeu um negro para Presidente e, com isso, pedir perdão aos negros pelo que a América lhes fez. Segundo Alvim T.,”é um dever de todos os americanos que os redimirá de uma história de relações inter-raciais difíceis.”
Pareceu-me essa afirmação bastante racista em si mesma mas, além disso, duvido que o Mundo, no estado em que está e com as graves crises que o atormentam, fique impressionado com essa lição da América. Terá que haver outro motivo qualquer para votar Obama. A menos que seja por exclusão de partes, por comparação com o outro candidato, mas isso não explica a “obamomania” que entusiasma tanto a nossa esquerda moderna e bem pensante.

sábado, 30 de agosto de 2008

Benfica-Porto!...

Está aí o Benfica-Porto.
Tenho ouvido dizer que o FCPorto está mais forte este ano. Mas, sem Bosingwa, por transacção normal, sem Paulo Assunção, por gestão irracional, e sem Quaresma, por questão de absoluta sobrevivência financeira, a ideia carece de longa demonstração.
No lado direito, Sapunaru e Fucile darão conta do recado, mas não são o Bosingwa.
Nolado esquerdo, e à falta de melhor prova, defesa ainda não há, desde o momento em que saiu o Nuno Valente, já lá vão 4 anos. Apesar de compras por grosso, como Lucas Mareque, Areias, Ezequias, Marek Cech, Lino, e agora Benitez, tem sido um defesa direito, Fucile, a fazer o lugar.
Compras caras e por atacado, 10 milhões de euros, também têm sido feitas para o lugar de Paulo Assunção: Bollati, Kazmierkzak, Fernando, Luís Aguiar (num total de 3,5 milhões de euros), Tomás Costa e Guarín (6,2 milhões de euros). Só os ordenados a esta gente, fora o investimento, davam para pagar ao Paulo Assunção o que ele merecia e ainda sobrava dinheiro…é caso para dizer que seis não substituem um!...
Bom, e afalta que o Quaresma fará!...
Com o Benfica, por certo que o treinador Jesualdo reservará mais uma das suas extravagâncias, como faz quase sempre que joga contra um clube importante. E que, normalmente, não dão bom resultado.
O Benfica fez, este ano, um louvável esforço para equilibrar o Campeonato, contratando uma meia-dúzia de nomes famosos. Sossega-me, todavia, um pouco o facto de nomes famosos nem sempre corresponderem a jogadores tão decisivos como os pintam ou, por falta de tempo, constituirem equipa entrosada.
De modo que…não sei o que hoje irá acontecer.
Que ganhem os melhores jogadores e a melhor equipa que, no todo, e apesar de tudo, até dos devaneios de Jesualdo, me parece a do Porto!...

A ler...

... no Estados d´Alma, de José Manuel Constantino, "O problema é das leis?".

“Apagar o mundo”...

Li hoje o relato de uma drama vivido por um controlador aéreo português e um piloto solitário que acabou por sucumbir no oceano Atlântico. A última hora e meia de vida de um amante da poesia que sabia não poder chegar a terra. Ambos sabiam o que ia acontecer. O português conseguiu, naquelas dramáticas circunstâncias, encetar um diálogo. Um diálogo de poesia, já que era também poeta e recitou poemas de autores portugueses e da sua própria autoria. O piloto levava como companhia um livro de poemas. Uma hora e meia de poesia.
Vou guardar o relato do açoriano que tem vivido um pesadelo. Ivo, de sua graça, desabafa à jornalista que: “Acho que não voltarei a falar sobre isto. Quando recordo o sucedido dou comigo numa espécie de labirinto do qual não consigo sair”. A jornalista encerra a história afirmando: “Quer libertar-se da voz que o acompanha. Quer deixar morrer a história de morte que lhe marca a vida”.

Teixeira de Pascoaes escreveu um dia o seguinte verso:

O homem, ao morrer, apaga com o último suspiro,
o mundo em que viveu.

"Vingança dos magistrados?"...

Fiquei estupefacto com o que li a propósito da “brandura dos juízes” face ao crescendo da criminalidade em Portugal.
O Governo adoptou um conjunto de medidas face ao “excesso de brandura na aplicação da lei”. É mau se for verdade esta afirmação, não a de adopção de medidas, mas a da tal brandura. Mas é muito pior se for verdade que esta atitude resulte de uma espécie de “vingança” dos magistrados. Aqui fiquei de boca aberta e meio azougado. Como?! Os juízes e os procuradores estão a tomar atitudes deste género, pondo em causa a segurança e a garantia dos direitos dos cidadãos? A última e a mais importante reserva da identidade nacional tem procedimentos deste tipo? Se não tivermos confiança no sistema judicial, o que é que vai ser de nós? Pobres cidadãos!
Eu sei que o nosso país é um país de incendiários, muitos dos quais andam a botar fogo, sem saber porquê? Deram-lhe para aquilo! Agora, magistrados a serem acusados de “vingança” por lhes terem sido retirados privilégios, ou por não estarem de acordo com as leis ou o sistema em que estão inseridos, é que eu não consigo compreender. Não consigo mesmo e não posso deixar de afirmar que me sinto mal, desgostoso e sem esperança.
Pobre país!

Os casos do Kosovo, da Ossétia do Sul e da Abcásia

A firmeza com que o Ocidente procura manifestar a sua oposição ao reconhecimento pela Rússia da independência da Ossétia e da Abcásia está obviamente abalada na sua credibilidade. Carecendo de credibilidade, não tem efectividade. É a efectividade que domina nas relações entre Estados.
No início do ano as principais potencias europeias e os EUA rejubilaram com a declaração unilateral da independência do Kosovo, desprezando a aquisição de séculos de diplomacia que ensina que nas relações internacionais o gesto mais delicado é justamente o reconhecimento de novas soberanias, sobretudo - como neste caso - quando tal gesto é susceptível de alterar equilíbrios regionais.
Na Europa, poucos líderes revelaram a prudência e a sabedoria que o caso justificava. Um deles contrariou o clima de excitação que se gerou com a ideia do nascimento de mais um Estado e com as promessas de fornecer a incubadora, tal era a fragilidade do nascente, ao dizer que «toda a declaração unilateral de independência gera grande preocupação. Devemos continuar a analisar a evolução da situação e, em devido tempo, envolvendo todos os órgãos de soberania, tomar uma decisão». Avisou que o seu País não tinha de se precipitar no reconhecimento de um Estado numa região onde a autonomização plena daquele território era factor de agravamento de uma estabilidade precária.
Foi em 22 de Fevereiro de 2008, o líder chama-se Cavaco Silva e é Presidente de uma das repúblicas com menos influência na União Europeia...

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

“A injustiça social mata”!

O que acontece quando se combinam más politicas, maus governantes e péssimos economistas? Uma mortandade em grande escala!
Já tive oportunidade, no ano passado, de falar sobre o síndroma do status. Agora, a O.M.S. revela que o efeito “tóxico” daquela associação é devastadora.
A injustiça social é um factor muito importante para explicar muito do sofrimento e morte dos seres humanos, numa escala verdadeiramente dramática. Mata mesmo, sendo perfeitamente evitável tantas mortes.
Andam os responsáveis e as autoridades muito preocupados com o cancro, com a sida, com a diabetes, com a obesidade, com as doenças cardiovasculares, com as toxicodependências, entre outras, quando muitas das doenças não são mais do que diferentes “outcomes” das mesmas causas!
Hoje, no The Independent, um artigo assinado por James Macintyre aborda este assunto. Merece ser lido, porque obriga-nos a reflectir.
É preciso ir às raízes dos problemas...

A regra e a excepção

Já estava a dramatizar interiormente o facto de não ter havido hoje qualquer assalto a Banco, Tribunal, ou Caixa multibanco. A dramatizar, pois não haver assalto apenas comprovaria que a regra é a do assalto.
Fiquei mais descansado agora, que ouvi ter sido assaltada uma Agência da Caixa Geral de Depósitos.
Como o Governo nos diz que tal criminalidade é excepção, deve-se desdramatizar o assalto, que confirma a regra do não assalto.
Mas, não tendo havido, nos últimos tempos, dia sem assaltos, só posso pensar que o significado das palavras também foi assaltado e violentado.
Regra passou a significar excepção e excepção passou a significar regra.
Desdramatizemos, pois!...

“Discriminação”

Fala-se muito sobre os direitos dos seres humanos que, na prática, nem sempre são respeitados, independentemente da sociedade, da religião e do país. Em pleno século XXI, a escravatura continua a existir, o tráfico de seres humanos é uma realidade, a perseguição política e religiosa é uma constante, a exploração dos mais fracos é uma indústria em crescendo e certas formas de terrorismo social ganham contornos obscenos.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, afirma, solenemente, no seu artigo primeiro, que “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Princípio universal que deveria ser a marca da modernidade mas que tarda em se impor. Na mesma Declaração, o artigo sétimo afirma textualmente: “Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação”.
O nosso país também permite a discriminação, em várias áreas, dentro das quais se destaca a recusa em fazer seguros de vida – obrigatórios para a aquisição de bens indispensáveis -, por parte das seguradoras, a certas pessoas, por serem doentes ou portadoras de deficiência.
A Associação Portuguesa de Deficientes revela que nenhuma das reclamações apresentadas foram aceites em 2007.
O senhor Provedor da Justiça já condenou as “reiteradas práticas discriminatórias” das seguradoras.
Relatos de pessoas a quem foram recusados fazer qualquer seguro por serem portadoras de doenças infecciosas, oncológicas e outras constituem uma espécie de folclore para as seguradoras cuja atenção se centra nos mais “puros”, nos “mais saudáveis”, nos candidatos a longevos, “ávidas” em fazer exames a torto e a direito, a que não será estranho, num futuro próximo, centrar-se, inclusive, no próprio genoma. Um comportamento típico de uma forma de “eugenismo” social, “aceite”, despudoradamente, pela sociedade e pelo poder político.
Esquecem-se que a maioria irá sofrer, por exemplo, de uma qualquer forma de cancro. No entanto, nos tempos actuais, este problema deve ser considerado como um doença crónica que, na maioria dos casos, é tratável e, em muitos outros, até, curável. A situação actual vai originar que uma pessoa acabe por “apanhar” não um só cancro, mas, até, dois ou mais! É verdade! Ou seja, os tratamentos actuais permitem que um ser humano viva tanto ao ponto de não morrer dessa doença, como, inclusive ainda se arrisca a sofrer mais um ou dois. Começa a ser comum. Sendo assim, justificar-se-á a negação de um seguro de vida? E quanto a certas doenças infecciosas, os tratamentos permitem uma taxa de sobrevivência quase idêntica aos que não sofrem e, às vezes, paradoxo dos paradoxos, muitos doentes crónicos acabam por viver mais do que os ditos “saudáveis”.
A política de descriminação em vigor deve ser denunciada e combatida por todos os meios ao nosso dispor. Para esse efeito devemos obrigar o poder político para que tenha uma intervenção mais dura, mais repressiva contra as arbitrariedades de indústrias altamente lucrativas e que exprimem formas eugénicas lamentáveis.
No fundo, não devemos esquecer que já estamos doentes ou a caminho de o ser...

Se o quisermos ver...

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O ridiculo-trágico não dá vontade de rir...


Em dois meses foram assaltados três tribunais, três. Ontem foi a vez do Tribunal de Cascais, de onde os larápios "limparam", pela calada da noite, a caixa multibanco. Não se preocuparam em arrombar o aparelho para mais ligeiramente abandonarem o local que se supunha não só não atraír como amedrontar ladrões (pelos vistos os tribunais só metem medo a gente séria e honesta...). Não. Levaram a própria caixa multibanco! O sistema de videovigilância (que se encontra instalado), não funcionou. E portanto não há forma fácil de identificar os autores do crime. O alarme (também existente), não soou. E por isso foram as trabalhadoras da limpeza (sem aspas) que deram pela coisa, sabe-se lá quantas horas após o sucesso.
Há não muito tempo um agente da autoridade (assim em tempos chamado com propriedade) foi perseguido por aqueles que deveria perseguir. Ao ponto de se ver agredido no local onde se refugiou e onde noutras eras de má memória a polícia agredia e só lamentava as que caíam no chão - nem mais nem menos do que a própria esquadra da polícia!
Também este ano, em plena sala de audiência de um tribunal, um magistrado foi agredido por aquele que acabara de condenar para que justamente de futuro não agredisse mais ninguém. Não houve uma alma que prevenisse ou parasse a agressão ao simbolo da autoridade do Estado que é o juiz.
Perante estes casos, que se não fossem trágicos seriam justificadamente cómicos, será que o problema está na lei, como o inefável secretário de estado adjunto do ministro do interior, José Magalhães, deu ontem a entender?
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ADENDA - Conhecido o comunicado do PGR, nota-se que as "sugestões" do senhor Procurador para um mais eficaz combate ao crime violento, são afinal um libelo acusatório contra a revisão conjuntural da lei penal. Disso dá nota na edição de hoje - 29/08 - o editorial do DN. Pergunto-me, contudo, se a clara proposta do Procurador-Geral para uma nova mexida na lei, agora a pretexto do excessivo "garantismo" (que sempre serviu para justificar a musculação dos poderes do Estado e a contracção dos direitos dos cidadãos), não será afinal o apelo à prática que o PGR implicitamente censurou.
Só para se ter uma noção da instabilidade legislativa no domínio do direito criminal, em 25 anos de vigência do Código Penal foram feitas cerca de 30 alterações. Terão variado tanto neste periodo os valores sociais que carecem deste tipo de tutela? Ou procurou-se com a alteração da lei dar solução a casos mais impressivos; ou então disfarçar a incapacidade das instituições do Estado encarregues de duas das funções mais relevantes da soberania, a justiça e a segurança?

Tanto tempo perdido…

Numa época em que o Serviço Nacional de Saúde tem falta de médicos e em que temos vindo a acolher no nosso País médicos imigrantes era totalmente incompreensível que os nossos governantes não criassem condições para que estas pessoas pudessem em Portugal exercer medicina.
Finalmente, foi dado um passo muito importante, para permitir a integração profissional de médicos imigrantes que tenham obtido a licenciatura fora da União Europeia, em países com os quais Portugal não tem acordos de reconhecimento automático de habilitações, e que sejam portadores de experiência na prática da medicina
Trata-se de uma orientação política do mais elementar bom senso, em que para além de ajudar a concretizar a tão apregoada política de imigração inclusiva, traduz-se no reconhecimento e valorização das capacidade e aptidões dos médicos imigrantes e ajuda a resolver as carências que se verificam no âmbito da prestação de cuidados de saúde.
O governo aprovou recentemente o programa “Integração profissional de médicos imigrantes”, que vai abranger 150 médicos imigrantes. Creio que a população médica imigrante residente é bastante superior. Mas, enfim, já é um passo. E apesar da infindável burocracia que é colocada na instrução das candidaturas e de discutíveis alguns aspectos relativos aos critérios de admissão definidos e à exigência de provas e apoios monetários que serão concedidos ao médicos imigrantes, o facto de a Fundação Calouste Gulbenkian assumir a coordenação geral do programa é uma garantia de que o programa vai ser correctamente gerido e serão cumpridos os objectivos.
Sempre me questionei porque razão esta decisão política e outras da mesma natureza com idêntico alcance tardam em acontecer. Se há sector em que ambas as partes saem inquestionavelmente beneficiadas é o da saúde. Com a integração profissional dos médicos imigrantes ficamos todos a ganhar.
Lembro-me de ter contactado, já lá vão alguns anos, com um pintor ucraniano numa ida a casa de uma das minhas irmãs que estava então a fazer umas obras de remodelação. O homem tinha sido recomendado por uns amigos por ser de confiança, cumpridor e primoroso no trabalho que fazia. Era um homem dos seus 40 anos, educado, culto e de trato simpático e respeitador, médico licenciado na Ucrânia, especialista em cardiologia com uns bons anos de exercício da medicina. Tinha chegado a Portugal há pouco tempo, mas já falava português. Lembro-me perfeitamente de me invadir um sentimento de pena e uma ideia de injustiça por ver aquele médico a cumprir uma profissão que não era a sua, pelo simples facto de ter que sobreviver e de não lhe serem reconhecidas em Portugal as suas habilitações médicas. Contudo, gostava dos portugueses e era aqui que pretendia viver com a mulher. A mulher era licenciada em música e tinha sido professora na Ucrânia. Falou-me, se a memória não me falha, de uma filha pequenita que queria ver crescer a falar português. Apreciei a sua modéstia mas também o seu orgulho de médico quando me disse que os seus conhecimentos e experiência de médico poderiam aproveitar o nosso sistema de saúde.
Oxalá tenha a sorte de ser contemplado no programa agora aprovado e que os seus sonhos tenham agora uma possibilidade de se tornar realidade!

Não houve acidente!...

O post do Prof. Massano sobre o inquérito ao acidente da Linha do Tua que não sabe explicar as causas do dito e o subsequente comentário do Zuricher fez-me recordar uma outra história, verídica, de um acidente na CP, que aprendi nos tempos em que exerci actividade profissional na Sorefame, um importante e internacionalmente prestigiado construtor de carruagens de comboios, que não conseguiu resistir aos erros dos governos e à concorrência internacional.
Num qualquer ano das décadas de cinquenta ou sessenta, deu-se um descarrilamento de grandes proporções de um comboio da CP, felizmente sem danos pessoais de monta, mas com significativos prejuízos patrimoniais. Seguiu-se o inevitável e obrigatório inquérito.
No seu plano de trabalhos, o inquiridor ouviu o chefe da estação, o maquinista e o ajudante, o homem que batia com um martelo nas rodas antes de o comboio partir, o controlador que autorizou a partida, o agulheiro do local, o revisor, o electricista-chefe e o mecânico-chefe, o serviço de manutenção, o engenheiro-chefe da via e obras e os engenheiros-chefe dos mais diversos departamentos da empresa.
Dos depoimentos recolhidos, verificou que o comboio partira no segundo exacto, que a via estava desimpedida, que a manutenção das linhas e travessas tinha sido efectuada no mês anterior, que a máquina e carruagens eram recentes e estavam como novas, que a sinalização tinha funcionado a cem por cento, que o maquinista e ajudante tinham descansado bem na noite anterior e cumprido escrupulosamente a lista de tarefas e, nomeadamente, não tinham excedido a velocidade, que o agulheiro não trocara o trajecto, enfim, que tinham sido cumpridos todos os procedimentos regulamentares.
Ficou perplexo o inquiridor, que pediu mais uns dias ao Conselho de Administração para novas averiguações. Consultado o Governo do Prof. Salazar (nesse tempo e agora, as coisas são iguais…), foram-lhe concedidos mais três dias.
Gastou meio dia em mais umas averiguações e ficou com o resto do tempo para pensar e redigir as conclusões. Depois de profunda reflexão, pegou da caneta para redigir a conclusão final.
Conclusão
“Ouvidos os departamentos e responsáveis envolvidos, as suas chefias e sub-chefias, inquirido o chefe da estação de partida e os chefes das estações imediatamente anterior e posterior ao acidente, o agulheiro de serviço, o controlador da via, os operários da manutenção, os electricistas, os mecânicos e o maquinista, e todo o restante pessoal que consta do Inquérito e que, por isso, me dispenso de agora citar, e tendo todos evidenciado e comprovado de forma exaustiva o integral cumprimento das as normas em vigor, conclui-se: Não houve acidente!...
Dizem as más línguas que o CA não apreciou totalmente o teor das Conclusões, pelo que acidentado ficou o Inquiridor, alvo, ele próprio, de um inquérito disciplinar. Suma injustiça!...
A reparação foi, no entanto, feita, quando foi nomeado Administrador da empresa, dizia-se!...

Auxílio espanhol

Os autarcas de Elvas e Campo Maior “querem que as crianças dos seus concelhos passem a ter acesso à pediatria do Hospital Infanta Cristina, em Badajoz”. Já foi contactada a Junta da Estremadura.
Os nossos concidadãos, que vivem na raia, já vão nascer ao outro lado, onde compram as batatas, os alhos e os presuntos, enchem os depósitos dos carros e agora querem que os seus filhos sejam seguidos e tratados pelos médicos espanhóis. Por este andar, e para facilitar as coisas, porque é que não pedem a efectiva e real integração no reino de Espanha? Em vez de andarem aos bochechos, já que de Lisboa, pelos vistos, não podem esperar muito.
Pobre país!

“Gooooolo”....

Levanto-me, ligo a televisão e dou de caras com um “directo” sobre bairros problemáticos que estão a ser alvo de intervenção policial.
A jornalista relata com um entusiasmo típico de um jogo de futebol ou a entrada triunfante de uma qualquer estrela que, até, me fez estremecer. “Não podem passar carros, só pessoas a pé, lá ao fundo estamos a ver a polícia que começou esta intervenção preventiva às sete horas, com ajuda de um helicóptero a iluminar a zona. Agora, parece-nos, sim, está a ser detido um indivíduo. Um individuo está a ser detido em directo pela policia”, com um entusiasmo idêntico ao locutor desportivo quando grita goooolo... E se o locutor for do Benfica passa a ser gooooooooooooooooooooooolo!!!
Bom. Aqui está como o Governo decide fazer prevenção e dar publicidade ao povão de que está a actuar e em força. Quantos aos ditos criminosos e marginais vão, com toda a certeza, tirar um dia de férias, aproveitam para ir à praia ou, então, sentam-se em frente da TV a beber chá e a comer torradinhas divertindo-se com os nosso programas televisivos e directos!
Pobre país!

Tempos sombrios

Quase sem darmos por isso, entre as notícias da crise financeira, da crise energética, da crise dos cereais e da crise social, foi ganhando espaço a crise da paz. Há uns tempos ouvíamos falar dos avanços e recuos no Médio Oriente, ou das negaças e ameaças do Irão e dos seus planos nucleares, ou do Darfur, ou da mal resolvida tensão nos Balcãs, ou de uns estertores no Afeganistão. Tudo problemas mais ou menos longínquos ou, pelo menos, noticiados casa a caso.
Mas o muro de Berlim estava caído e bem caído, a Europa ia de vento em popa a abranger mais e mais países no sentido Leste e seguíamos embalados na ideia de que a Rússia se ia chegando para lá, encerrada nas sua máfias e nos seus novos milionários. O Kosovo era um problema político e o Direito Internacional acomoda muitas leituras.
A América, enredada no Iraque, está em processo eleitoral e anima os noticiários com candidatos brilhantes e convenções fantásticas, prometendo que vai renascer para um mundo novo.
Não sei se foi a Georgia que fez juntar as peças todas, tornando patente o frágil equilíbrio da paz mundial, ou se já é resultado das rápidas mudanças geopolíticas que baralharam tudo.
De repente, é analisada com preocupação a fraca capacidade militar da União Europeia, o tom de voz entre a Rússia e os Estados Unidos é aterrador, os analistas afirmam que a ameaça do Irão é para levar muito a sério e que foi um grave erro decretar a fraqueza russa antes de tempo.
Ouvimos as promessas eleitorais de Obama, mais que tentadoras, mais que justas – educação e saúde para todos – e perguntamo-nos se a América vai desistir do orçamento militar. E se a Europa vai armar-se até aos dentes, desarmando-se das políticas sociais.
De repente, muitas vozes afirmam que o Irão é uma ameaça real e de curto prazo e que, em caso de guerra, fecha a rota do petróleo. A China irá servir-se a África e a Europa sofrerá uma enorme escassez.
Se lermos atentamente as notícias e os múltiplos artigos de análise e opinião sobre a realidade geopolítica que se desenha todos os dias, reparamos que a hipótese de uma guerra é admitida com contornos cada vez mais nítidos. Como já não tínhamos memória.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Desdramatizar!...

Se quase todos os dias são assaltados Bancos… desdramatiza-se.
Se só num dia foram assaltados três Bancos... desdramatiza-se.
Se diariamente são assaltadas gasolineiras…desdramatiza-se.
Se diariamente há vários assaltos por “carjacking”…desdramatiza-se
Se os ladrões atingem inocentes…desdramatiza-se.
Se os ladrões atingem polícias…desdramatiza-se ao quadrado
Se os réus atingem os juízes nos Tribunais…dramatiza-se por um dia
Se os polícias atingem os malfeitores no curso de perseguições…dramatiza-se e promovem-se inquéritos
Se os polícias não ousam entrar nos bairros conflituosos…desdramatiza-se
Se os polícias ousam meter um dedo que seja nos bairros conflituosos…dramatiza-se
Desdramatiza-se a favor dos gatunos e malfeitores, dramatiza-se em desfavor das autoridades.
Se os Tribunais mandam para a rua tipos apanhados em flagrante em assaltos com armas…desdramatiza-se
Desdramatiza o Governo, desdramatizam os Ministros, desdramatiza o Parlamento, desdramatiza a Coordenação da Segurança.
Por isso, sem drama nem tragédia, impune e à vontade, o crime acaba por compensar.
Mas tem havido crimes?

Inquéritos para quê?

Uma série de quatro acidentes ocorridos na linha do Tua no curto espaço de tempo de dezoito meses com vítimas mortais, sendo que três deles em 2008, dois inquéritos de descarrilamentos passados cujos relatórios nunca foram publicamente revelados e um inquérito preliminar sobre a tragédia do dia 22 de Agosto que prontamente foi mandado fazer pelo governo mas que nada conclui sobre as causas do descarrilamento constituem factos intrigantes e preocupantes.
Esta longa história de sucessivos acidentes graves e mortais, intercalados de sucessivos anúncios de inquéritos - inexistentes ou inconclusivos no apuramento de causas e responsabilidades e na apresentação de recomendações ou alertas - de apoio à decisão política e técnica, combinada com sucessivos anúncios de reabertura da linha condimentados com promessas de bom funcionamento dos comboios, de total controlo técnico e de segurança garantida para a circulação de passageiros e pessoal técnico não é, por mais voltas que se dê, uma história normal.
Não deixa, contudo, de revelar contornos de uma certa normalidade a ausência de rigor com que se tomam decisões políticas e técnicas importantes e igualmente graves pelo impacto que provocam no bem-estar dos cidadãos e o facilitismo com que os decisores lidam com a coisa pública.
Porque é que em Portugal os inquéritos mandados fazer pelos governos para apurar causas e responsabilidades de desastres e acidentes não chegam ao fim, se é que alguma vez se iniciam? Porque razão não são conhecidos os resultados, não se apuram as causas e se determinam responsabilidades - sejam políticas, de gestão ou técnicas - e não são devidas explicações cabais ao País? Porque é que se vive permanentemente o jogo do empurra, no qual não há vencidos, ninguém tem culpas, as responsabilidades são enjeitadas? Porque é que será assim tão difícil assumir os erros ou assumir opções falhadas ou mal explicadas?
Porque é que é normal que aceitemos que a culpa morra solteira? E uso o plural porque há aqui uma atitude colectiva!
Há muitos porquês que se colocam, mas na normalidade o que não temos é respostas satisfatórias. Conduzir a coisa pública com omissões graves de escrutínio como é o caso da triste história da linha do Tua não é saudável, incute desconfiança e insegurança e descredibiliza a decisão política.
Mas ainda a propósito do acidente da linha do Tua, sabe-se agora que o Gabinete de Investigação de Segurança e de Acidentes Ferroviários (GISAF) criado em 2007 através de um decreto-lei não está a funcionar. A constituição de um órgão independente dos operadores ferroviários para investigar desastres ferroviários resulta de uma directiva comunitária. O governo cuidou de responder formalmente à obrigação comunitária, mas não cuidou da sua operacionalização. É bom lembrar que o inquérito ao acidente de 22 de Agosto foi cometido a uma comissão que é constituída por operadores ferroviários, em lugar de a sua investigação ser entregue a peritos ou entidades independentes.
E não vale a pena dizer mais nada sobre este episódio porque facilmente se percebe que, por todas as razões e mais algumas, o acidente de sexta-feira da linha do Tua - e o mesmo se poderá dizer em relação aos outros acidentes que aí ocorreram no passado recente, que tanto quanto julgo saber não foram investigados ou, pelo menos, não se conhecem os resultados - impõe uma investigação por uma entidade independente.
Com um relatório ao inquérito, ainda que preliminar, que conclui que não foram detectadas quaisquer causas para o descarrilamento, certificando que não existe qualquer problema nem com a linha nem com a automotora (pese embora o disco que regista a velocidade da automotora não ter sido disponibilizado à comissão de investigação por se encontrar na posse do Ministério Público!?) há razões de sobra para continuar a investigar até haver uma explicação. Zero de explicações é um resultado, ou melhor um não resultado, que não se pode aceitar.
Até lá, esperemos que a linha continue encerrada, mas não por muito tempo. Aguardemos que a investigação não se eternize, porque a acontecer teríamos a eternização do encerramento da bonita linha do Tua.

Ilusões e risco

Num artigo muito interessante publicado no DE, Antonio Ramalho explica o fenómeno da “democratização” da crise financeira com origem no subprime ou seja, como um assunto complexo parece de repente muito simples depois de mediatizado até ao infinito de modo a torná-lo quase banal e arrumá-lo rapidamente entre os temas já entendidos.
No entanto, lembra o autor, os agora vilipendiados banqueiros americanos eram, há um ano, o modelo de eficiência; o sistema financeiro era referência para regulações, auditorias externas e supervisões independentes; e tudo o que havia de mais fiável e sofisticado é agora considerado a raiz de todos os males.
Parece simples, encontrou-se o “culpado” e tudo parece recompor-se para se retomar o caminho como se os grandes males tivessem sido eliminados. Ao que parece, o mesmo caminho, ou seja, o da ilusão de que é possível proteger os clientes de todos os riscos, repassando-os sucessivamente como se, algures nesse processo, ele se evaporasse. Perdendo-se-lhe o rasto é o mesmo que apagá-lo do mapa? Não é. Também na área financeira a lei da natureza é inexorável: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Muitas vezes, como se vê, o resultado são crises graves, que não melhoram se estivermos mais preocupados em acalmar os ânimos do que em esclarecer devidamente sobre o que é preciso realmente corrigir. As falsas promessas, por exemplo.

Pobre país! Pobre saúde!

Os cuidados de saúde em Portugal têm sido protagonistas de inúmeras situações conflituosas, anedóticas e de atentados contra os interesses dos nossos concidadãos. Raro é o dia em que não surgem notícias a confirmar algum pessimismo ao redor de um dos sectores mais sensíveis de qualquer sociedade.
Quando as preocupações financeiras predominam, deve-se, com toda a naturalidade, combater o desperdício e melhorar a eficiência dos serviços. Só que, por vezes, o estrangulamento financeiro deve ser de tal ordem que acabam por tomar soluções difíceis de compreender.
A notícia de que “marcar exames às varizes vai passar a demorar meses”, porque não há comparticipação na realização de certos exames venosos e arteriais aos membros inferiores, passando estes a serem realizados nos serviços oficiais, vai originar desconforto, mal-estar e até problemas graves numa população cada vez mais envelhecida e cada vez mais doente com repercussões vasculares nos membros inferiores. Os custos de um diagnóstico e tratamento tardios deverão ser astronómicos no futuro, face à “poupança” do presente. Tudo isto, porque há patologias de “primeira”, outras de “segunda” e ainda outras “de somenos importância”. Quem determina o “ranking”? Algum poder profissional, associativo, técnico, politico e económico.
Outra notícia foca o problema da jovem criança timorense com um tumor cerebral. Tanta cobertura, tanto mediatismo, com jornais, revistas, entrevistas, reportagens, imagens da menina, do pai da menina e do tumor. Tanto! Porquê meu Deus? Será que a menina não merece um pouco de mais respeito pela sua intimidade? Haverá necessidade de tanta cobertura? Não bastaria noticiar o caso e o movimento de solidariedade que permitiu a sua vinda ao nosso país? Um verdadeiro exemplo de uma forma de exploração em que o sofrimento de alguém é exposto de uma foram obscena.
Mas há ainda mais. A maternidade Alfredo da Costa está a rebentar pelas costuras com os partos e os atendimentos às grávidas. Razões? Nem é preciso explicar! O que me confrange é saber que um hospital da Capital teve que encerrar as urgências obstétricas devido a doença súbita de um chefe de equipa. Em Lisboa? Sim, em Lisboa, capital do reino e de um ex-império também se observa fenómenos deste tipo. Como é possível? Não sei! Até gostava que alguém me explicasse.
Mas há mais! Os H.U.C., hospital de referência e de orgulho nacional vai passar a EPE (entidade pública empresarial). Dizem que é para se tornar mais eficiente! Talvez seja. O que eu não acho graça nenhuma é a informação de que o capital estatutário ser um pouco superior a cinco milhões de euros, muito longe do que foi atribuído aos hospitais de Santa Maria e do São João. Há quem diga que não chega para cobrir os custos de exploração. O seu presidente, e meu colega, veio dizer que é apenas a primeira “tranche” do capital a realizar ao longo dos cinco anos. À pergunta: - Qual o montante final? O senhor presidente ignora de momento! Ignora?!! Mau, mau! Então, o representante máximo de uma instituição altamente prestigiada ignora o total da dotação a atribuir ao longo de cinco anos do plano de desenvolvimento estratégico? Será que ignora mesmo? Ou não quererá dizer?
Pobre país! Faz-me lembrar o náufrago da série cómica televisiva que, esperançado de regressar à Pátria, pede para o deixarem na ilha, quando soube o que se passa por aqui...
Pobre país! Pobre saúde!

Reformas arredondadas

O Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, falando ontem aos jornalistas na vila alentejana do Crato, garantiu que o Governo vai prosseguir as reformas de fundo essenciais para o País.
Reformas, reformas de fundo que conheça, só a do arredondamento das taxas de juro!... Como o próprio nome indica...
Ficamos então a saber que o Governo vai prosseguir as reformas em redondo. Dão voltas sobre si próprias, mas não saem do mesmo sítio!...

Linha do Tua

Acabo de ouvir na rádio que o relatório entregue ao senhor ministro sobre o recente acidente na linha do Tua “não revelou quaisquer problemas na via e na automotora”. Que alivio! Já podemos respirar mais à vontade.
Bom! A notícia é apenas o “cabeçalho” de um relatório que não li...

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Vai um sumo?

É conhecido desde algum tempo que o sumo de certos frutos interferem com a absorção de certas substâncias. Os sumos de toranja e de uvas podem aumentar a absorção de algumas substâncias podendo originar situações graves de intoxicação medicamentosa. Agora, no decurso da última conferência da Sociedade Química Norte-Americana, uma equipa de cientistas veio revelar que os sumos de toranja, de laranja e de maçã, cujas virtudes têm sido publicitadas, interferem e também reduzem a absorção de substâncias tais como antibióticos, antihipertensores, imunossupressores e antineoplásicas.
Pois é! Temos que ter atenção com os sumos se estivermos a tomar certos fármacos.
Gostava de saber a opinião dos que andam a “combater o colesterol à dentada”, promovendo as maçãs, se pensam passar para “cuidado, não beba sumo de maça, porque pode afogar os seus medicamentos”. É o dizes!
Vá lá, não se inquiete muito. Continue a dar dentadas nas maçãs, a beber um sumo de laranja, mas evite o de toranja, e se gostar de sumo de maçã, então, não o beba com os medicamentos...

"En mathématiques, les filles font jeu égal avec les garçons"

Se não estou em erro, de vez em quando, o Tonibler costuma fazer referências às diferenças entre os sexos no que respeita às capacidades matemáticas.
E agora, Tonibler?

No pasa nada


Na manhã de hoje, que a comunicação social tenha notado, foram assaltados com violência dois bancos, duas estações de serviço e uma estação dos CTT.
Numa só manhã.
Se durante o resto do dia não ocorrer algo de mais assinalável, as estatísticas revelarão que nada de especialmente gravoso aconteceu.
Tudo ocorrências dentro da média.
Nada de preocupante.

Adenda. Afinal ao inicio da tarde foi assaltado mais um banco em Lisboa. Andam por aí criminosos desatentos ás estatísticas...
Adenda 2.Não me parece que haja uma grande alteração relativamente aquilo que tem sido habitual. Em termos matemáticos (?!), não posso dizer se há mais ou menos. Há com certeza um aumento de relevo mediático” - Leonel de Carvalho, responsável pelo Gabinete Coordenador de Segurança à TSF sobre os mais recentes crimes violentos. O MAI e o outrora loquaz secretário de estado José Magalhães concordarão. Valha-nos a matemática para nos sentirmos seguros!

“O heresiarca”...

Maurice Vlaminck, Retrato de Guillaume Apollinaire (1903)


Uma jovem iraquiana, artilhada com explosivos, desistiu do suicídio ao entregar-se às autoridades, ao contrário de três mulheres que na semana passada se fizeram explodir durante uma peregrinação xiita. Desta vez, o Profeta estaria, provavelmente, mais atento, e deverá ter soprado ao ouvido da jovem, dizendo-lhe para não cometer tamanha atrocidade, alertando-a para o facto de que o fundamentalismo religioso que impera por aí ser a maior estupidez humana.
O que eu não sabia é da existência de uma “brigada do pudor”. Dois judeus ultra-ordoxos, daqueles que usam canudinhos nos cabelos, casacas negras, chapéus, e andam quase sempre a abanar a cabeça, de um jeito semelhante a alguns animais bem conhecidos, mas decerto muito mais espertos que muitos seres humanos, espancaram uma mulher judaica divorciada no apartamento desta, enquanto um terceiro incendiou uma loja de roupa (não especificam que tipo de roupa, mas presumo que não é difícil adivinhar). Neste caso Jeová devia estar distraído. Não gosto de dar conselhos aos deuses, mas acho que deveria escolher melhor os seus correligionários, porque senão ainda se arrisca a andar em má companhia!
Por fim, fiquei decepcionado pelo facto de não ter ido avante o projecto de um padre italiano que queria fazer um concurso para “Miss Freira”. Teve que arrepiar caminho, vá-se lá saber por que carga de água! De acordo com o padre, “O concurso da freira mais bonita tinha por único objectivo dar a conhecer através da Internet um aspecto positivo da vida das religiosas”. A pretensão do padre é mais do que justa, tentando desmistificar que as freiras não são todas velhas, feias, tristes e rabugentas. Eu acredito, piamente, que deve haver muitas freiras simpáticas, cheias de vitalidade e lindas. Basta consultar alguma literatura e histórias para ficarmos com a ideia de que beleza e vitalidade foi coisa que nunca faltou às freiras...
Espero que não venha a ser rotulado de herético por ter escrevinhado estas breves palavras que não são mais do que uma síntese, e de uma simples reflexão, com base em três notícias publicadas hoje, curiosamente o dia em que escritor francês Guillaume Apollinaire nasceu, em 1880, e morto 38 anos devido à gripe espanhola. Como era francês tem direito à designação de gripe espanhola, se fosse português passava a ser a pneumónica.
Ponho-me a pensar se a genialidade e a provocação tão típicas de Apollinaire não teriam enriquecido a sua colectânea de contos, “O Heresiarca & C.ª”, com estas notícias...

CR7- A cabeça e os pés

No último mês, diz o DN de anteontem, Cristiano Ronaldo, a par de um novo Rolls Royce Phantom comprado por 426.000 euros, ainda com matrícula convencional, gastou mais 188.000 euros na compra da matrícula CR7 para o seu Bentley.
Parece que o moço não pode agora passar sem a personalização dos objectos com a marca CR7, estendendo-a a telemóveis incrustados com pedras preciosas, a brincos de diamantes, e, em geral, às jóias que adquire, mas também aos jeans, a almofadas de sofás, à cama em que dorme e às mesas em que come. Até o fundo da piscina não escapa e está a ser decorada com mosaicos em forma de CR7.
Para assinalar a pertença, mesmo que transitória, algumas das namoradas já foram também presenteadas com brincos CR7.
Na minha opinião, não é criticável, muito menos condenável, devendo até ser considerado quem, respeitando a legalidade e princípios éticos, pelo trabalho, pelo espírito de iniciativa e liderança, ou pelos talentos com que nasceu ou soube adquirir, ganhe muito dinheiro.
Ao contrário, não tenho qualquer consideração por quem esbanja gratuitamente riqueza pessoalmente ganha ou herdada, não procurando, nem lhe dando, entre as diversas alternativas ao dispor, um fim socialmente útil.
Cristiano Ronaldo nasceu com um enorme talento para o futebol e, com a ajuda de quem teve a sorte de encontrar no Sporting e no Manchester, pôde elevar esse talento ao nível dos maiores do mundo. Tornou-se um ícone do marketing, potenciado pelo poder da principal marca que o patrocina, a Nike. É apresentado como um exemplo e nomeado como embaixador de tudo e alguma coisa. O mérito é-lhe reconhecido no enorme ordenado que ganha.
É, contudo, ofensiva a forma como o desbarata.
Endeusado como nunca, porventura mal aconselhado, Ronaldo passa por uma má fase, bem evidenciada no futebol praticado no último Campeonato da Europa ou nas peripécias de querer fazer prevalecer a sua vontade de transferência, rasgando o contrato com o Manchester. Oxalá se trate de devaneios passageiros.
Porque, onde falta a cabeça, os pés de pouco servem.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

“Demência”...

Convivi sempre com pessoas de idade e aprendi muito com elas.
O conceito de que a idade acarreta bom-senso, paz, serenidade e sabedoria é verdadeiro mas só em parte. Acompanha-a outras facetas, ângulos sombrios e tristes, marcados pelo arrependimento, subversão, doença, sofrimento e a estranha percepção de que o fim está ao virar da esquina mais próxima.
O livro, “A mesa de limão”, de Julian Barnes, escritor britânico, demonstra, através de vários contos as diferentes realidades emergentes no decurso do envelhecimento. A escolha do título, baseou-se na simbologia chinesa, segundo a qual o limão representa a morte.
Ao mesmo tempo que lia esta obra, deliciava-me com uma outra, “Gente de palmo e meio” de Augusto Gil. Os contos deste genial autor focam as crianças com as suas aspirações, visões do mundo, virtudes, traquinices, medos, desejos, insegurança, tragédias, alegrias e sempre muita esperança mesmo entre os mais desafortunados; em perfeito contraste com a obra de Barnes. Augusto Gil oferece-nos doces e suculentas laranjas que, com o tempo, e na perspectiva “barniana”, acabarão por se transmutar em amargos limões.
A primeira vez que tive a noção do que era a demência ocorreu quando tinha acabado de entrar na faculdade. A tia São, que conheci sempre velha, e que tinha perdido o único filho quando era nova e depois o marido, era uma pessoa alegre, seca de carnes, com um permanente sorriso infantil, encantadora, exímia contadora de estórias, fazia de tudo e, sobretudo, adorava conversar. Vivia num concelho vizinho e, sempre que a visitava, fazia-me uma festa dos diabos, do género: - Oh Manelzito, como estás crescido! E logo a seguir: - E como vai a escola? Contava-me estórias e preparava-me um lanche em que era obrigado a comer um pão enorme de centeio, quentinho, barrado, generosamente, com manteiga e ornamentado com uma boa lasca de presunto, acompanhado, quase sempre, de uma valente caneca de café de cevada. Mas, às vezes, sobretudo no Verão, sem que mais ninguém soubesse, ofertava-me um copito de vinho morangueiro, fraquito, que surripiava na adega, onde me levava a pretexto de qualquer coisa. – Não digas a ninguém que eu te dei o vinho! Estás a ouvir? Era a única vez que ficava séria! Claro que não me fazia rogado!
Quando adoeceu, foi para casa da minha avó. Ao princípio não me apercebi bem o que se passava. Tinha longos momentos de lucidez. Mas de tempos a tempos, virava-se para mim e dizia: - Oh Manelzito, como estás crescido! Como vai a escola? E eu lá lhe dizia, claro. Passados pouco minutos, depois de silêncios confrangedores, olhava para mim e perguntava: - Quem és tu? – Então tia, não me está a reconhecer? Olhava, olhava e dizia com expressão de satisfação: - Oh Manelzito, como estás crescido! E como vai a escola? Depois abria a janela da sua mente e conversava normalmente, contando coisas do passado e interessantes estórias, algumas das quais nunca tinha ouvido, sempre com o seu sorriso infantil.
Com o tempo, a lucidez foi-se apagando e os períodos de reconhecimento do género: - “Oh Manelzito, como estás crescido! E como vai a escola?”, tornaram-se menos frequentes, até que a janela do tino se fechou definitivamente e ficámos sem o seu sorriso infantil e sem as estórias encantadoras, passando o resto da vida, se é que se pudesse chamar vida, num estado lastimável.
Recordei-me da tia São, mulher do povo, dura, simples e culta, que poucas vezes deverá ter saído de um círculo com um raio de dez quilómetros, devido aos seus contos - a lembrar, embora à distância, Augusto Gil, obrigando-me no fim a retirar as conclusões morais dos mesmos. E só me largava quando ficava satisfeita. Um verdadeiro exame oral! -, e devido à notícia segundo a qual a antiga primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, se encontra demente, conforme relata a sua filha num livro.
O fenómeno da demência está a tomar proporções epidémicas. Ainda há dias, a imagem de Adolfo Suarez, que desempenhou um papel importante na transição democrática em Espanha, ao lado do rei, desconhecendo o papel que teve naquele país, incomodou-me. Outros exemplos de políticos famosos que exerceram com brilhantismo as suas actividades acabaram por vir a sofrer desta terrível doença, caso de Ronald Reagan.
É estranho que muitas pessoas brilhantes, quer tenham sido presidentes, primeiros-ministros, cientistas, artistas ou simples mulheres e homens do povo, mas que revelaram um qualquer traço de superioridade ou até de genialidade, acabem por perder o juízo.
Será que estamos perante um caso de pleiotropia? Vantagem na vida adulta e desvantagem na velhice? Laranjas doces que acabam por transformar-se em limões?
Mas, pensando bem, quem quer comer laranjas amargas?!

Convenções americanas

"Ficarão a saber quem nós somos, quais são os nossos valores e como é que educamos os nossos filhos" – assim falou Obama aos seus eleitores, incentivando-os a conhecer melhor a sua história pessoal e a da sua família. A sua mulher, Michele, será a oradora no 1º dia da Convenção. Madeleine Albright, democrata, considera que ele tem que dar a conhecer-se aos americanos que não foram os seus apoiantes porque ainda há muitos que não sabem quem ele é. O comentador da notícia explicou que Obama tem uma "história" diferente da da generalidade dos americanos e que tem que provar que, apesar disso, é um americano "como os outros".
A luta entre o candidato democrata e o republicano promete ser renhida e, em matéria de experiência política, as comparações ganham agora uma nova dimensão. Adensadas as nuvens em matéria de segurança interna e conflitos internacionais, os americanos estão a pensar duas vezes se se deixam ir em “modas” ou se têm que pesar o seu voto com critérios mais sólidos. Obama, pelos vistos, acha que o “carácter pessoal” ainda não foi suficientemente posto à prova, nem mesmo na prestação que ambos os candidatos tiveram que vencer quando foram a um encontro realizado pela igreja evangélica, em que a última pergunta, perante uma plateia imensa, foi “Qual foi o seu maior pecado?” Assim mesmo, como se houvesse o direito de devassar em directo para as tv’s a consciência de cada um, sendo que a absolvição, ou não, é uma decisão colectiva que só sairá no dia do voto.
Convenhamos que ambos estiveram à altura da hipocrisia da pergunta com a hipocrisia da resposta. Obama disse que o seu maior pecado era ter tido um comportamento egoísta (??) quando experimentou droga e álcool na sua juventude, MacCain disse que lamentava não ter conseguido “salvar” o seu primeiro casamento. Ficaram assim anulados estes pontos negros daquelas almas e, pelo menos, são duas armas de arremesso que ficam em casa dos opositores. A confissão na praça pública sempre tem outra emoção e dá garantia aos eleitores de que um não volta a ser egoísta e que o outro é fiel à mulher. Relevante, sem dúvida, falta agora saber como é que educam os filhos.

Ministro "enjaulado"!...

Temos que prestar a devida homenagem a Manuel Pinho, denominado Ministro da Economia, tantas vezes injustiçado. Neste último fim-de-semana, em visita de trabalho ao Algarve, mostrou denodado esforço e profunda dedicação pela coisa pública, ao ponto de estar pessoalmente presente em grandes realizações que evidenciam aos mais cépticos o entusiasmo com que apoia e dinamiza alguns importantes sectores da economia nacional.
Foi uma viagem sacrificada, mesmo com risco da própria vida, da qual Manuel Pinho diz ter sobrevivido, mas que lhe proporcionou “sensações únicas”. “Nesta visita ao Algarve, tive muitas sensações únicas. Na sexta-feira, fiz uma volta ao Autódromo de Portimão com o Tiago Monteiro. Sobrevivi a essa experiência, foi muito interessante, mas não quero repetir”, diz o Ministro. Claro que agradecemos os riscos que correu, a bem da nação!...
No sábado, para relaxar, mas cumprindo rigorosamente o plano estabelecido, o que, aliás, é raro, nomeadamente nas visitas ao estrangeiro, Manuel Pinho foi obrigado a nadar durante uma hora com Michael Phelps, na piscina de um hotel de Vilamoura. “Foi um encontro fortuito. O Phelps é uma pessoa simples e entusiasta. Foi uma conversa simpática em que ele revelou o que é preciso para ser campeão”. Muito bem!...
Ainda com os músculos doridos, esperava-o ainda o pior. É que, a seguir, Manuel Pinho teve que sair da piscina, tomar banho e aprimorar-se para acompanhar Catherine Deneuve, em Loulé, a uma visita a uma exposição de arte contemporânea, numa mina de sal gema, a 280 metros de profundidade. O intenso prazer de ser cavalheiro de companhia de Catherine não atenuou o incómodo de ser transportado a tal profundidade num elevador que, segundo o DN, se “assemelhava a uma jaula”. Isto é, a visita ao Algarve acabou com Manuel Pinho “enjaulado”!....
Convenhamos que não é tratamento que se dê a Ministro, e logo para acabar um fim-de-semana de ministerial trabalho tão alucinante e fatigante!...
Claro que pode recuperar durante a semana. A economia tem obrigação de devolver o sossego ao seu Ministro!...
Nota: Tratou-se de uma visita ao Algarve, disse o Ministro ao DN. Portanto, trabalho. Claro que, no período de férias, o Ministro dará a devida atenção à economia. Acontece que Ministro pouco tempo tem para férias...

Chiado: teremos aprendido com a catástrofe?


«Há muitos edifícios que estão devolutos e temos um grande receio que se possa dar uma catástrofe na baixa como foi o incêndio do Chiado. Temos que fazer tudo o que está ao nosso alcance para evitar essa situação». As palavras são do Arq. Manuel Salgado, vereador da Câmara Municipal de Lisboa. É bom que os responsáveis se lembrem de Santa Bárbara antes de trovejar. Quem conhece a baixa de Lisboa sabe bem que a repetição da tragédia, se nada for feito, é infelizmente uma possbilidade bem próxima.

Para lá das avisadas palavras do responsável pelo urbanismo, falta perceber, agora que o novo regime do arrendamento urbano já provou não ser solução, o que é afinal "fazer tudo ao nosso alcance". Agora, não um ou dois anos depois de um acontecimento trágico que deveria mobilizar para a reconstrução mas também para a aprendizagem. Agora, que transcorreram duas décadas desde o incêndio que devorou o coração de Lisboa.


domingo, 24 de agosto de 2008

Poligamia e longevidade masculina...

Como é do conhecimento geral a esperança de vida das mulheres é superior à dos homens na ordem dos 6 a 8 anos.
Agora, um estudo veio demonstrar que os homens poligâmicos vivem mais do que os monogâmicos...
Interessante!

“Combater o colesterol à dentada”!...

Afirmar que a fruta é um produto indispensável e que faz bem à saúde é um lugar comum que dispensa mais comentários. A variedade é imensa e, de um modo geral, partilham de características idênticas ainda que em concentrações diferentes.
Presumo que qualquer um terá a sua fruta preferida. É natural. A minha é a maçã. Desde que me conheço que adoro maçãs. Além das suas qualidades sápidas, há outras que me levaram a preferi-la. Rija, fácil de transportar, resistente ao choque e brincadeiras de crianças, não largava sumo, não se desfazia nos bolsitos, ao contrário do pêssego, da pêra, da ameixa, não ficava traumatizada com “hematomas”, como as bananas, e não deixava cheiro nos dedos, como as laranjas. Gostava, igualmente, das formas, dos diferentes tamanhos, das cores, das texturas, dos sabores e, sobretudo, de dar dentadas e comer a casca. Em contrapartida, detestava o ritual civilizacional, que me era imposto às refeições, de descascá-las ou cortá-las com faço e garfo. Para um miúdo, ansioso por se libertar do altar da mesa, o momento da sobremesa era um martírio, porque manejar a faca e o garfo para a cortar em pedaços exigia uma destreza própria de um cirurgião. Um tormento, um esforço “hercúleo”, demorava tempos infinitos, estragava mais do que comia e a gula em a saborear ficava sempre insatisfeita e tinha que a matar aos bochechos, o que não me satisfazia mesmo nada. Habitualmente, pedia licença para me ausentar antes desse momento, mas perguntavam logo: - E a fruta? A maçã? Respondia que não fazia mal, levava-a no bolso e depois comia-a. Fazia este espectáculo, para evitar aquele ritual e, sobretudo, para ter o prazer de a comer à dentada, o que fazia de imediato, às escondidas, logo que me ausentava. Um alivio! Um prazer!
Claro que naquela altura, comer uma maçã à dentada era fácil, o pior veio mais tarde, quando os dentes começaram a mostrar fragilidades.
Recordo-me que há poucos anos, na véspera de uma conferência que ia realizar em Lisboa, sobre “Colesterol e Doenças Cardiovasculares”, fiquei num simpático hotel, daqueles que têm o hábito de ofertar um cestinho de fruta. Como cheguei um pouco tarde e o jantar já tinha sido esmoído, ao entrar no quarto, ressaltou, com uma beleza digno de registo, um cesto contendo belas peças de fruta, entre as quais se destacavam duas sedutoras maçãs. Lindas, redondas, avermelhadas, brilhando com um encanto especial do género: dá-me uma dentada! Pensei logo que só uma maçã poderia ter o efeito que teve na Eva. Nem o pêssego, nem a banana, nem a laranja, nem a pêra, nem o kiwi, nem a ameixa poderia seduzir quem quer que fosse. De facto, só a maçã! Vai daí e retirei a primeira, esfreguei-a como se estivesse a retirar um pó imaginário e dei-lhe uma valente dentada. Foi então que um dos incisivos claudicou, ficando reduzido a metade. Irra! Parti o dente! Estou tramado! Amanhã vou fazer uma conferência sobre o “Colesterol e as Doenças Cardiovasculares” meio desdentado. Além deste aspecto, o raio da língua, curiosa, lambia, estupidamente, o rebordo do dente fracturado, ficando dorida. Olhei para o pedaço que faltava na maçã, uma sugestiva cratera, que não teve tempo de acastanhar-se, à qual perdoei o mal que me tinha feito e embalei no seu sensual convite, agora como mais cuidado e utilizando os caninos, até chegar ao caroço. Olhei para a irmã gémea e dei-lhe o mesmo destino. Mesmo assim, confesso, soube-me bem.
No dia seguinte, lá fiz a minha conferência, explicando os vários factores de risco, a evolução das doenças, a forma de reduzir a hipercolesterolemia, sem fazer afirmações do género: “combata o colesterol à dentada”, tal como agora estamos a assistir, por parte de uma associação de produtores de maçãs!
Esta coisa de usar o “mal”, neste caso personificado pelo colesterol, como fonte de promoção de certos produtos, começa a ser uma perigosa mania, que não se restringe apenas ao consumo de maçãs, já que inclui iogurtes, manteigas com “metade de gorduras(!)”, leites modificados, sardinhas de conserva, “tintitos”, pão sem colesterol (!), alhos, beringelas e muito mais produtos. Qualquer dia, ainda aparece uma associação de frutos de pilriteiros a afirmar que os pilritos são do melhor que há para combater o colesterol, ou então os produtores de ginjas a proclamarem alto e em bom som que o melhor são as ginjas. - Com ou sem “elas”? -Com “elas” devem ser muito mais eficazes!
No caso dos pilritos e das ginjas não é necessário dar dentadas. Mas, quando tiverem que as dar, caso das maçãs, cuidado com os dentes! Vejam lá se os incisivos aguentam com as trincadelas no fruto “proibido”. Trincadelas sem dúvida saborosas, mas é preciso ter dentes! Se tiverem dúvidas, usem faca e garfo ou mesmo uma navalhita. Quanto às dentadas dos promotores comerciais não há perigo nenhum de ficarem sem os dentes, porque são postiços e sabem morder à maneira!
Quanto ao colesterol, se a “dentada” não der resultado, não fiquem preocupados, porque o prazer de comer uma maçã é superior a qualquer redução do colesterol...

1.000 dias de radioso azul e branco!...

Faz hoje 1.000 dias, mil dias, que o FCPorto se mantém ininterruptamente no 1º lugar dos Campeonatos da Liga Profissional de Futebol. Dois anos e nove meses consecutivamente à frente!...
Discretamente, para não se saber muito, um jornal assinalou o feito.
Assinala-se também aqui no 4R!...
Os autores benfiquistas e sportinguistas não se importarão e os nossos comentadores, também bons desportistas, sabem reconhecer a qualidade!...

sábado, 23 de agosto de 2008

O veto e as críticas ao veto


Têm sido muitas e de vários quadrantes as críticas ao veto político ao decreto da AR que visa alterar as regras do divórcio.
Conhecia o decreto mas não as razões do senhor Presidente da República para a recusa de promulgação. Entretanto fui ouvindo repetidos comentadores dizer que os invocados motivos de natureza jurídica deixavam muito a desejar.
Só hoje pude ler a mensagem do senhor Presidente em que comunica à AR as razões do veto.
Duas anotações.
Não vejo ali argumentação técnico-jurídica, mas discordâncias claras e motivadas quanto ao novo regime do divórcio e, sobretudo, ao novo modelo de casamento a que conduz. Veto por razões políticas, claramente.
Segunda. Concordo com a intenção do legislador de não fazer depender o divórcio da culpa. Pela simples razão de que sendo o casamento, para mim, uma união de afectos, cessando o afecto poucos serão os motivos que podem levar a manter-se deveres que, pela sua natureza pessoal, só o formalismo jurídico concebe que continuem a vincular ambos os conjuges. Muito menos devem ser razões patrimoniais a justificar uma comunhão de vida que pelo menos um dos membros do casal não deseja.
Mas concordando eu com a intenção que subjaz ao decreto, não posso deixar de reconhecer que a mensagem do PR dá que pensar, sobretudo pelas considerações que tece à falta de garantia de cumprimento dos deveres dos conjuges que se mantêm inalterados na lei comum, à desprotecção do conjuge mais fraco (a mulher nalgumas circunstâncias, pese embora a liberdade de obter facilmente o divórcio ser noutras o definitivo remédio) e à prognose quanto aos efeitos do novo regime.
Concluo que gratuitas não são as razões presidenciais (das quais é absolutamente legítimo discordar). Gratuitas são - como é hábito - as críticas de quem "acha", julga e opina sem conhecer.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Espírito olímpico III



“Não foi uma competição justa. Lutei um pouco contra os árbitros, parecia uma luta contra quatro..."


Telma Monteiro, atleta olímpica e do Benfica-9ª no judo 52 Kg.





A moça já ganhou muitas provas e é uma campeã, pese o infeliz resultado de Pequim. Mas apreendeu depressa a mística benfiquista... Quando não se ganha...

Insegurança - realidade ou criação mediática?

Os telejornais de ontem dividiram-se entre a boa nova da medalha de ouro conquistada para Portugal por Nelson Évora, e repetidos casos de criminalidade violenta e organizada, numa onda que dá a sensação não ter precedentes.
O repetido zapping encontrou sempre a notícia de mais situações de carjacking, assaltos á mão armada a estações de serviço, a bancos e ourivesarias, tiros disparados sem qualquer hesitação em direcção a quem pretendeu defender o que era seu, apreensões de armas ilegais, agressões a agentes da autoridade, detenções, perseguições e meliantes a monte.
Jornais de hoje dão conta que nos últimos tempos, já depois da alteração da lei que prometia tornar mais dificil a aquisição e detenção de armas de fogo, aumentou substancialmente o número de cidadãos portugueses que sentiram necessidade de comprar e licenciar uma arma de defesa pessoal.
Consequência de um aumento real da criminalidade organizada e mais violenta? Ou mera sensação de insegurança resultante, designadamente, da exposição e exploração mediáticas dos casos que vão fazendo o dia-a-dia das notícias?
A edição do ´Expresso´ de amanhã analisa o fenómeno olhando para as estatísticas. E chega á conclusão que não existe hoje mais criminalidade violenta do que a registada há cinco anos. O que se passará é, assim, segundo as conclusões a que chega o ´Expresso´, a criação de um ambiente em que as pessoas se sentem mais inseguras.
Mesmo que se admita que as estatísticas criminais permitem esta ilacção, a verdade é que os portugueses não podem ficar descansados com ela. A ser assim, significa que os factores que nos últimos anos têm posto em causa a brandura dos costumes nacionais e o tradicional clima de paz e segurança (de que se alimentava o melhor turismo, por exemplo) não foram erradicados, antes se mantêm mesmo que não se tenham agravado. Significa, no fundo, que os atentados à liberdade, à integridade e até à vida das pessoas, como aos bens, não infletiram em número e não se alteraram em gravidade.
Seria espantoso que o resultado fosse outro.
Com efeito, nos últimos tempos é notório que o Estado enfraqueceu. O Estado de Direito é fraco e esta democracia encolhe-se perante a violência que, em situações extremas, reza a História que a põe em causa. Fraco, seja pela perda constante da credibilidade e da confiança públicas nos aparelhos de justiça e de segurança. Seja pela vulnerabilidade a que a abertura das fronteiras no espaço da UE expôs o País, ainda recentemente anotada, de modo implícito, pelo General Leonel de Carvalho a propósito de um últimos casos de crimes sofisticados.
Ora, o primeiro sintoma de um Estado fraco é esta sensação de insegurança, extraia-se o que se extrair das estatísticas, que leva cada vez mais pessoas de bem a adquirir armas de fogo para se protegerem. Sintoma agravado por uma onda politicamente correcta segundo os melhores canones da doutrina bloquista: (i) pelo crime é sempre a sociedade a responsável, nunca o criminoso (sobretudo se pertencente a uma minoria); (ii) qualquer medida de reforço do aparelho repressivo, por via normativa ou por reforço de meios materiais das forças encarregadas de manter a ordem e combater o crime, é de comum entendida como o trilhar a passos largos do tenebroso caminho do securitarismo; (iii) a falta de apoio e estímulo ás polícias sempre suspeitas (e não raras vezes acusadas) de propenderem para a desproporção na utilização dos meios, atitude que chega ao ponto de se condenar nos agentes da lei o que sociológos, psicologos, juristas, analistas mais variados e até políticos imediatamente procuram compreender e até justificar quando se trata dos mesmos meios empregues pelos criminosos.

Não faltará quem pense que o Estado se tornou cobarde na luta contra a criminalidade violenta. E que as máquinas da justiça e da segurança parecem mobilizar-se mais com os apitos dourados e outras questões do género, do que com estes fenómenos que fazem com que um País, outrora tranquilo, tenha receio de sair à noite ou coloca em sobressalto os pais ou os conjuges sempre que os seus se atrasam no regresso a casa. Amanhã ler-se-à no semanário que esse receio não é hoje mais justificado do que o era nos últimos anos. Pode ser que não seja. Mas é isso que nos faz dormir mais descansados?

Investimento estrangeiro em terras: nova forma de colonialismo?

A recente turbulência nos mercados de matérias-primas agrícolas e, em especial, as políticas restritivas adoptadas por países produtores – das restrições impostas à exportação de arroz pela Índia, pelo Vietnam e pelo Egipto, ao bloqueio da Ucrânia aos embarques de trigo ou à imposição pela Argentina de um imposto extraordinário sobre as exportações de cereais – levaram alguns países importadores a repensar a sua estratégia de abastecimento desses produtos.
Curiosa a estratégia adoptada entre outros por países do Golfo grandes produtores de petróleo e também pela China, que consiste em adquirir extensas áreas de terra arável em países produtores de cereais para aí realizarem investimentos em plantações e garantirem por essa forma, para o futuro, os abastecimentos que têm estado sujeitos a enormes contingências.

Este tema mereceu destaque num interessante e desenvolvido texto publicado na edição do F. Times de 20 do corrente.
Entre os países investidores, cabe referir a Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos, para além da China e da Coreia do Sul.
Entre os países destinatários deste novo tipo de investimento destacam-se o Sudão, a Etiópia, a Ucrânia e o Kazakistão.
Caso notável é o do Sudão, onde o governo local demarcou 17 grandes áreas, num total de 880.000 hectares, para projectos de investimento estrangeiro na agricultura.
Também na Etiópia os responsáveis governamentais têm mostrado grande interesse na captação de investimento estrangeiro deste novo tipo, sendo provável que os sauditas venham a assumir aqui um papel importante.
Algumas organizações internacionais têm chamado a atenção para os riscos destas operações de investimento estrangeiro, as quais implicam a celebração de acordos entre investidores e países recipientes do investimento que, entre outras vantagens, dão aos investidores total autonomia na política comercial, não ficando por exemplo sujeitos s quaisquer restrições à exportação que venham a ser decretadas em tempos de crise.
Compreende-se perfeitamente que os investidores pretendam obter estas garantias – de outro modo não teriam as suas necessidades satisfeitas quando mais precisam.
Mas também se compreende que, em futuras crises de abastecimentos, nomeadamente nos países onde os projectos se situam, causará algum embaraço verificar que parte da produção interna desses bens seja dirigida para o exterior, para satisfazer as necessidades de populações com níveis de vida incomparavelmente superiores...
Jacques Diouf, Director-Geral da FAO, refere mesmo a expressão “neo-colonialismo” para caracterizar este tipo de acordos de investimento.
Direi, num breve comentário, que até poderá ser “neo-colonialismo”: só que neste caso estaremos perante um novo figurino de colonialismo, um colonialismo de tipo contratual, em que o “colonizado” aceita livremente as condições desejadas pelo “colonizador”.
Algum progresso em relação a anteriores formas de colonialismo, há que reconhecer...

"Brincar" aos polícias e aos ladrões...

Francamente que não entendo este tipo de actuações por parte da justiça. Será falta de sensibilidade dos juízes, falta de formação, má aplicação da lei, inadequação da lei à realidade, falta de informação? A situação relatada pelo JN é motivo de preocupação. A ajudar ao clima de violência que se tem vindo a verificar, com especial ênfase neste Verão, junta-se a perplexidade da descoordenação no seu combate por parte de operadores policiais e judiciais como sugere a história relatada na notícia. Fica-se com a sensação de que as polícias puxam para um lado e os tribunais puxam para o outro!
Não percebo o que pode levar um delegado do Ministério Público a deixar ir em liberdade dois assaltantes detidos pela polícia, neste caso a GNR da Mealhada, prescindindo da sua apresentação a um juiz de instrução, apanhados na posse do produto do roubo, depois de assaltarem à mão armada uma bomba de combustível, munidos de caçadeiras e pistolas.
Não sei que danos pessoais e patrimoniais provocaram, o que sei é que andam armados, aos tiros, colcando em perigo, mais do que tudo, vidas humanas e contribuindo para a insegurança de pessoas e bens.
Será que é necessário que tenham que resultar vítimas mortais para que a nossa justiça leve a sério estes casos?
Afinal, decorridas 48 horas sobre o assalto à bomba de combustível, os mesmos assaltantes seriam capturados pela Polícia Judiciária em Setúbal, por suspeitas de terem realizado vários assaltos à mão armada a restaurantes e sequestro de pessoas, tendo sido presentes a um juiz do tribunal de Setúbal.
Pergunto-me porque é que não há informação cadastral centralizada à qual as autoridades policiais e os tribunais possam aceder em qualquer ponto do País para se inteirarem sobre o histórico criminal de cidadãos? Será que a Mealhada e Setúbal dispunham da mesma informação?
É que a actualização permanente da informação e a sua acessibilidade em tempo útil por quem dela necessita para aplicar a justiça são factores fundamentais no combate à criminalidade.
Não deveríamos evitar este tipos de episódios? É assim tão difícil corrigir estes erros? Não temos outras coisas mais divertidas para fazer que andar a “brincar” aos polícias e aos ladrões?

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Sobreendividamento ou a história do Feijoeiro Mágico


O DN de ontem conta que 60% dos sobreendividados portugueses têm três a dez empréstimos e que, só até Julho, já quase mil famílias pediram ajuda à Deco, mais 26,2% do que há um ano. Causa perplexidade que haja pessoas a acumular empréstimos a este ponto, uns atrás dos outros, uns para tapar os outros, sei lá, deve ser um desespero ir ao banco pedir mais e mais sabendo-se que se tem cada vez menos capacidade de saldar as dívidas. Mas o que é mais impressionante é que as principais causas do endividamento são o desemprego (53%), a doença (18%), o divórcio (15%) ou seja, não será por leviandade ou consumismo fútil que se ultrapassa o orçamento familiar mas é a alteração imprevista das circunstâncias da vida que provoca a dimensão desta sangria. Será imprudência, por não se prever esses azares, será porque se vive o dia a dia sem poupar para os períodos mais negros, será porque é difícil ou se tem vergonha de reduzir o nível de vida quando o infortúnio bate à porta?
O que parece, no entanto, é que não são as viagens a Punta Cana ou a compra de automóvel de maior cilindrada que leva as famílias ao garrote, pelo menos a generalidade, mas a necessidade de sobreviver quando a vida dá uma volta má. A publicidade para incentivar o recurso aos empréstimos é tão intensa que deve ser uma tortura, para quem necessita, resistir, parece tudo tão fácil! Venha cá, nós ajudamos, de que é que está à espera? Os bancos chamam, as pessoas vão, no fim enredam-se num emaranhado que as sufoca.
Mas o mais grave é que os bancos devem saber que ainda falta cativar os mais fracos, os que são mesmo fúteis, que não precisam de dinheiro para viver normalmente mas que cobiçam bens que não caberiam nunca no seu orçamento e, esgotado o filão dos aflitos, assestam baterias aos que ainda vivem descansados. Apesar de todos os avisos sobre o alarmante nível de endividamento das famílias portugueses, a publicidade é impiedosa e tão agressiva que se torna repugnante. Já não é para se aproveitar do estado de necessidade, mas para criar essa miséria onde ela ainda não se estabeleceu. Veja-se os anúncios da Caixa Geral de Depósitos, instituição pública, nobre e respeitável, e que devia, se não ser uma referência, ao menos não dar o mau exemplo. A campanha que corre há uns dias incita ao crédito para se comprar…uma moto de água! “Já decidi, realizei o meu sonho, sem pagar nada!” Lá para Outubro, depois de umas corridas no mar com a bela máquina, logo se pensa nesse detalhe. Venha, está à espera de quê, para quê privar-se desse gosto inocente?
Ouço e ocorre-me um filme de desenhos animados que via quando era pequena, um rapaz muito pobre que chegava à porta de um belo castelo, tinha medo de entrar, assustava-o aquela imponência, mas a porta abria-se como uma boca a rir, as janelas piscavam como olhos amigáveis e brincalhões e as torres tranformavam-se em braços que acenavam para o acolher. Mal ele entrava, da porta do castelo saía uma língua medonha, que se lambia como se o tivesse tragado. Lá dentro, um gigante terrível que ele tinha que vencer para ficar com a pata dos ovos de oiro.
O sobreendividamento é uma versão para adultos da história do Feijoeiro Mágico, nem sempre tem um fim feliz.

Também nos Açores, emprego a pataco!...

Corre animada a Campanha para as Eleições Regionais dos Açores. Autonomia, autonomia, mas não há como copiar os “bons” exemplos do Continente. E em matéria de promessas de emprego, Sócrates começa a fazer escola!…
O Líder do PSD Açores, Costa Neves, revelando-se um aprumado e bom aluno, comprometeu-se em criar 14.000, nem mais um, nem menos um, 14.000 postos de trabalho nos próximos 4 anos. Se ganhar as eleições, evidentemente!...
Claro que o Presidente do PS Regional e do Governo Açoriano não podia ficar para trás e prometeu mais 18.000 novos empregos. Também se ganhar as eleições, é óbvio!,,.
Da quantidade absoluta, o despique passou para aspectos de mais fino recorte e da mais elaborada economia de direcção central.
Costa Neves pormenorizou: dos 14.000 novos postos de trabalho, “ 9.000 são para mulheres e 3.000 mil para as sete ilhas ameaçadas de desertificação”. Não referiu o destino dos 2.000 que faltam, mas pode supor-se que serão distribuídos pelas duas ilhas verdes.
De qualquer forma, fico pelo menos com uma dúvida quanto ao êxito do programa. É que, pelas contas que faço, não podendo ser senão homens esses 3.000 potenciais empregados que serão colocados nas sete ilhas desertas, não vejo, como é que, assim desacompanhados, serão capazes de repovoar as ditas…
Espera-se a contra-resposta de Carlos César, mas bacalhau a pataco será coisa que não faltará na Região!...
A cada açoriano, seu bacalhau!...

Espírito olímpico II

"...Não sou muito dada a este tipo de grandes competições, como os Jogos Olímpicos”!...
Vânia Silva, lançadora do martelo, após a eliminação
Filósofa, a nossa martelista!...

Lamentável

A crer nas crónicas, o senhor ministro Mário Lino disse aos jornalistas, referindo-se ao acidente no aeroporto de Barajas:
"Um acidente como este que ocorreu em Madrid apenas chama a atenção para uma coisa que já se sabia: a localização de um aeroporto dentro de uma cidade, de uma zona urbana, tem riscos que não deviam ser corridos".
O senhor ministro precisa urgentemente de começar a medir as palavras. Um acidente "como este" não serve "apenas" para chamar a atenção para pontos de vista políticos, por mais acertados que sejam. No momento em que se chora a perda de muitas dezenas de vidas e se imagina o sofrimento e a agonia dos familiares, sentimentos que todos deveriam saber respeitar, nada de mais lamentável do que este oportunismo.

Parabéns, Nelson!...





Nélson Évora, já campeão do mundo, acabou de ganhar a medalha de ouro olímpica do triplo salto.

Parabéns, Nelson!...

Fundamentalismo médico no Egipto

O problema da falta de órgãos para transplantes tem originado o aparecimento de situações eticamente reprováveis. A carência é de tal forma grave que está a fomentar o tráfico e a originar novas formas de comércio. Têm sido relatados inúmeros casos, por esse mundo fora, que vão desde o rapto e roubo de órgãos, à sua compra em países e comunidades miseráveis para não falar do lucrativo negócio das autoridades chinesas com os órgãos de criminosos executados com um tiro na nuca, forma muito interessante de liquidar uma pessoa, já que não “adultera” a qualidade dos “subprodutos”. Também começa a preocupar a corrente norte-americana para legalizar o comércio de órgãos, dando voz à dinâmica de um mercado em que a procura ultrapassa, e em muito, a oferta, argumentando os defensores ser uma forma de regulamentar a actividade, “evitando” abusos!
Importa realçar que a técnica de transplantes constitui, em muitas situações, a única forma de garantir a sobrevivência e a qualidade de vida de muitos doentes. Nesta perspectiva, doar órgãos não é só legítimo como eticamente desejável, não obstante as críticas por parte de correntes conservadoras que, no início, se opunham a esta prática contra natura! Critérios religiosos que julgava terem caído no esquecimento ou mesmo abandonadas. Mas não! Ontem, li uma notícia que me surpreendeu. O sindicato dos médicos do Egipto decidiu proibir os seus filiados de realizarem transplantes de órgãos entre cristãos e muçulmanos. Quem o fizer será interrogado e castigado! A razão invocada pelos médicos prende-se com a necessidade em proteger os muçulmanos pobres dos cristãos ricos que compram os seus órgãos.
Este sindicato de médicos egípcio é um ninho de mentecaptos! Querem-nos convencer de quê? Que os “impolutos” sultões e milionários muçulmanos não são, também, capazes de estiolar ou mandar estiolar corpos de cristãos para lhe ficarem com os órgãos! Julgam eles que o Profeta ou Alá se importam muito com a origem étnica ou religiosa dos órgãos ou o seu destino? Os próprios líderes religiosos cristãos e muçulmanos vieram a público manifestar indignação com esta tomada de posição, já que pode ser mais uma razão para aumentar a conflitualidade inter-religiosa.
A atitude dos responsáveis da classe médica do Egipto merece a mais profunda revolta, porque além de um fundamentalismo patológico viola os nobres princípios da medicina.
Há três anos, uma pequena notícia marcou-me de uma forma particular. Nunca mais a esqueci, porque é tão nobre que constitui uma da mais belas lições que podemos receber. Por estes motivos, devo partilhá-la.
Uma criança palestiniana foi morta por soldados israelitas. Tinha 13 anos. A família decidiu doar os órgãos a seis israelitas, com um propósito humanitário e em nome das crianças do Mundo, sem nunca olhar ao credo religioso dos necessitados.
Um gesto de altruísmo que não foi, ainda, captado para as bandas dos médicos do Egipto.
Como é possível?

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Espírito olímpico I

Segundo noticiado, cada atleta português recebeu do Comité Olímpico um kit de sobrevivência, incluindo 6 preservativos, meia dúzia.
Não sendo oferta generosa para super atletas, que querem ir sempre mais além, sempre dá para duas boas corridas, dois bons lançamentos, dois bons saltos, simples ou triplos, ou dois bons combates por semana!...
Por isso, justificação perfeita teve Marco Fortes, o nosso atleta, naturalmente enfastiado por ter que prestar provas logo pela manhã, e ter sido rapidamente eliminado: " cheguei à conclusão de que, de manhã, só é bom na caminha. Pelo menos comigo..."!...
Tem toda a razão. De manhã, à tarde ou à noite!...Tem algum jeito praticar tal desporto no estádio?

“A vida é muito perigosa”...

Há alguns dias, andava por Castela, quando li num jornal uma notícia de agressão a um professor de cinquenta anos que, na companhia do seu filho, presenciou, numa estação de serviço, ao espancamento de uma senhora. Indignado perante a situação e a “mansidão” dos observadores dirigiu-se ao agressor manifestando o seu repúdio e condenação. Este último, interrompeu o acto de manifesta cobardia que estava a praticar, segui-o e, traiçoeiramente, espancou-o de forma selvática. No dia seguinte, sentiu-se mal, entrou em coma e, hoje, acabo por saber que se encontra ainda na mesma situação.
O seu nome: Jesus Neira. Cidadão solidário, corajoso e com forte sentido cívico, contrastando com a atitude de muitos que preferem ver em vez de se meterem nos problemas dos outros e que cada um resolva os seus, como se muitos deles não fossem, também, nossos.
No El País de hoje, Pedro Martinez deu conta da situação clínica de Jesus Neira e remata o seu pequenino artigo com uma frase de Einstein que me sensibilizou e que não resisto a transcrever: “A vida é muito perigosa. Não pelas pessoas que fazem mal, mas pelas que se sentam a ver o que se passa”!
O que vemos à nossa volta, face a muitas situações em que deveríamos intervir, é característico deste estado de coisas, ou seja, muitas pessoas acomodadas, que preferem ser simples espectadoras, evitando qualquer acto ou atitude que lhes possa causar desconforto ou mal-estar. Depois queixam-se, lamentam-se e indignam-se (à calada, claro está) como se a resolução dos conflitos e dos problemas não fossem também, por uma razão ou outra, nossos, ou que acabam mais cedo ou mais tarde por nos envolver.
Com esta notícia recordei uma frase de Goethe que eu, um dia, por acaso, encontrei manuscrita num velho livro de poemas de T.S. Elliot. Letra muito bem desenhada e num vermelho provocador: “Só merece a liberdade e a vida, aquele que tem de conquistá-la diariamente”.