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quarta-feira, 17 de maio de 2006

“Capela da Casa Grande”



O estudo “Combate ao tráfico de seres humanos e trabalho forçado na Europa – o caso de Portugal” teve pouca, ou quase nenhuma repercussão. Trata-se de um relatório, onde os autores concluem pela existência de várias formas de exploração laboral, inclusive coacção física, a que os emigrantes portugueses estão sujeitos por esse mundo. Espanha e Holanda constituem dois países, onde os nossos compatriotas são vítimas de graves atentados contra a dignidade humana.
Atendendo às circunstâncias do nosso país, observa-se uma tendência para uma nova diáspora e, sendo assim, mais pessoas irão ser alvo de exploração desumana.
Quando tenho conhecimento de situações, tais como as descritas, não deixo de sentir uma sensação de náusea perturbadora.
Há muitos anos, tive a oportunidade de visitar o museu da escravatura em Luanda. Num pequeno morro, a “Capela da Casa Grande” encerrava com muita simplicidade vários testemunhos daqueles tempos. Gravuras, utensílios diversos, instrumentos de tortura, haveres de velhos escravos, preenchiam aquele espaço, sobranceiro a uma planície de águas tranquilas onde os barcos negreiros iam colher os negros. Era naquele ponto que os concentravam antes de embarcarem para a América, nomeadamente, o Brasil. Foram dezenas, ou melhor, centenas de milhar, os que viram pela última vez a sua terra. A zona, bela e silenciosa, não era suficiente para limpar as alvas paredes do edifício, impregnadas de dores e sofrimentos, facto que eu interpretei como responsável por um crescendo mal-estar que ia sentindo. Roubavam os corpos à África, mas também, antes de os despejarem nos porões dos navios, os despojavam da sua essência ao baptizarem-nos à força. Escravos sim, mas cristãos!
A segunda vez que senti algo semelhante ocorreu no decurso de uma exposição itinerante sobre instrumentos de tortura utilizados pela Inquisição. Em Coimbra, escolheram o Pátio da Inquisição e o edifício onde funcionou esta tenebrosa instituição. Os instrumentos não eram réplicas, eram originais e foram mesmo utilizados em seres humanos a quem se procuravam roubar e escravizar a alma. Sinceramente, não consegui chegar ao fim. A sensação de mal-estar foi tão forte que demorei muito tempo a recuperar.
Hoje, não há escravatura, nem Inquisição, mas os atentados contra a dignidade humana continuam a verificar-se. Na área laboral, e não só, continuamos a verificar fenómenos pouco dignificantes. É preciso que os responsáveis tomem iniciativas, que divulguem os estudos, que debatam até à exaustão toda esta problemática, que sacrifiquem a obscenidade da informação desportiva, da propaganda política, da saloiada de eventos sociais, e foquem mais atenção nas formas modernas de “escravatura” e de “inquisição”. E não me venham dizer que tudo isto sempre existiu e que há-de continuar a existir, ou que não há mecanismos de controlo ou de fiscalização, porque não aceito. Investiguem e punem como verdadeiros criminosos todos aqueles que atentem contra a dignidade humana, a qual se expressa de muitas maneiras, não esquecendo que o trabalho é o seu expoente máximo.

Nem um banquinho!...



Segundo o DN, o PS vai apresentar esta semana um projecto de lei sobre o Protocolo de Estado que exclui o Cardeal-Patriarca de lugares de honra nas cerimónias oficiais, respeitando assim, “ de forma estrita…o princípio da não confessionalidade nos actos oficiais e no protocolo de Estado”.
Muito bem.
Mas nesta matéria da “confessionalidade”, há uma coisa extravagante, que é o facto de ela só vigorar fora dos períodos eleitorais!...
Em período de eleições, os primeiros responsáveis dos Partidos, incluído o do PS, e também os candidatos a Presidente da República, nomeadamente o socialista, esquecem-se da confessionalidade e quase se atropelam para ir ao beija-mão ao Cardeal-Patriarca, ao Arcebispo de Braga e ao Bispo do Porto!...
Eles são salamaleques para a esquerda, para o centro e para a direita, beijam o anel e até beijariam o pé, se estivessem seguros que o acto lhes daria os votos suficientes para ganhar as eleições…
Então, e depois, chegados ao poder, nem um banquinho querem reservar àqueles dignitários nas cerimónias oficiais?...
Obviamente que, respeitando o mesmo princípio, nenhum dignitário do Estado terá lugar marcado nas cerimónias da Igreja, mesmo nas mais solenes ou nas que acontecem na vinda de um Papa a Portugal.
Por isso, estou a imaginar um Primeiro Ministro, socialista ou não, em nome da “confessionalidade” impedido de ter um lugar na tribuna papal, a esbracejar com bravura para entrar no local da cerimónia e chegar a esse lugar, de forma a que a televisão possa dar o momento vital do seu esforçado encontro com o Papa!...
Falando seriamente, a separação da Igreja do Estado, princípio fundamental e indiscutível, pode muito bem coexistir com normas de cortesia entre os mais proeminentes órgãos representativos de cada uma daquelas entidades.
Se todos os fundamentalismos são condenáveis, incluindo o religioso, este tique de fundamentalismo, jacobinamente republicano, também o é certamente.

terça-feira, 16 de maio de 2006

Industria Farmaceutica nacional, no bom caminho?

A propósito do desafio e apelo feito ontem pelo Presidente da República às empresas portuguesas onde salientou a importancia do investimento na inovação e a abertura aos mercados internacionais e apelou à cooperação como forma de aproximar "os que sabem e os que precisam de saber", lembrei-me da Resolução de Conselho de Ministros de Setembro de 2002 que, na senda de uma outra de 2001, procurou concretizar medidas nas áreas prioritárias para a indústria farmaceutica em Portugal e para o medicamento, reconhecendo o sector como de interesse estratégico nacional.
Foram variadíssimos os projectos concretizados de então para cá, mas agora só vou referir o "projecto PharmaPortugal" de parceria entre a Apifarma, o Icep Portugal e o Infarmed cujos objectivos são promover a exportação e internacionalização das empresas farmacêuticas portuguesas, construir e divulgar uma imagem externa para o sector de base nacional, incentivar a cooperação com outras empresas nacionais e internacionais, aumentar as exportações em mercados alvo, contribuir para a valorização dos produtos e serviços na respectiva cadeia de valor e criação e registo da marca "PharmaPortugal".
Aderiram 14 empresas de capitais exclusivamente nacionais, com produção em Portugal, e que apontaram como mercados prioritários do projecto, na Europa Espanha,Polónia e Rep.Checa; No Magrebe, Argélia, Marrocos e Tunísia, nos Palop, Angola, Cabo Verde e Moçambique e ainda Brasil, EUA e Israel.
O principal objectivo centra-se na duplicação, em 3 anos , do volume actual de exportação de medicamentos de Portugal, que ronda os 300 milhões de euros.
A Ind. Farmc. nacional já se situa ao nível de sectores que têm vindo a usufruir de apoios para a sua internacionalização há muito mais tempo, encontrando-se imediatamente a seguir ao sector de exportação de vinho do Porto.
O mercado farmaceutico português situa-se nos 3,8 mil milhões de euros com uma quota de 15,24% e com 3% de expressão no mercado farmac. da UE., tendo gerado em 2005 cerca de 11ooo postos de trabalho, 30,4% dos quais são quadros superiores.
Estamos no bom caminho com a indústria nacional?

Para onde vamos?

Recordar-se-ão, aquando das conclusões que aqui retirei do relatório Bruegel ( a propósito, alguém foi já consultar este relatório na fonte?), de ter “avisado” que nos deveríamos considerar em ALERTA VERMELHO.
Isto por causa da evolução recente, contrária a todas as recomendações, da inflação e da despesa pública.
Os últimos dados conhecidos, divulgados ontem pelo INE e hoje pela Direcção Geral do Orçamento (DGO), vêm reforçar aquele “aviso”.

Quanto ao INE, veio informar que:
- Os custos unitários do trabalho, no 1º trimestre de 2006, tinham aumentado 4,2% em relação ao período homólogo de 2005, acelerando bastante em relação ao ritmo observado no ano anterior;
- A inflação, em termos homólogos (Abril2006/Abril2005), está a aumentar a diferença em relação ao valor observado na União Europeia. A diferença é de 0,5% em Abril, era de 0,2% em Janeiro.

A DGO veio hoje dar conta da execução orçamental até Abril do corrente ano. De acordo com a informação divulgada, conclui-se o seguinte:
- A despesa do subsector Estado aumentou 10,1% sobre o período homólogo de 2005, sendo ainda mais rápida a progressão da despesa corrente, 11,5%, uma vez que as despesas de investimento até diminuíram 4%.
- A despesa corrente primária (excluindo encargos com a dívida publica) cresce 9%.
- Os encargos com a dívida aumentam 40%, embora representem apenas 29% do montante apurado em 2005.
É certo que a DGO se desdobra em explicações para esta evolução da despesa, referindo em especial que a elevada taxa de crescimento se explica pelo facto de no período homólogo (1º quadrimestre 2005) a despesa ter sido processada por referência ao orçamento inicial de 2005, não incorporando ainda os fortes aumentos que viriam a resultar do Orçamento Rectificativo desse ano.
Em termos meramente contabilísticos até se compreende a explicação da DGO.
Todavia, o problema é que a despesa de 2005, mesmo antes do Rectificativo, já era muito elevada, era excessiva.
Aumentar essa despesa, como fez o Rectificativo, agravando ainda mais os impostos – sobretudo o IVA, de 19 para 21% - foi uma opção profundamente errada, a meu ver ( e na opinião, bem mais respeitável que a minha, de muitas outras pessoas).

Esta combinação, de crescimento insustentável da despesa pública, de inflação mais elevada do que a da U.E., e de aceleração dos custos unitários do trabalho, é uma receita fatal.
Não há marketing político, por muito insistente, quase diário (hoje é notícia que os hospitais militares vão ser vendidos, qual será a de amanhã…), que possa obstar ao agravamento dos desequilíbrios, à perda adicional de competitividade, em suma ao declínio cada vez mais acentuado da economia, seguindo por este caminho.
ALERTA VERMELHO reforçado, pois.

Superior hipocrisia

Caiu-me literalmente nas mãos o artigo de opinião do Sr. Dr. Medeiros Ferreira no DN de hoje no qual depõe sobre o signficado do livro de Manuel Maria Carrilho que não li, e pelo que ouvi do autor, não lerei.
O que me impressionou foi esta espantosa afirmação do Sr. Dr. Medeiros Ferreira:«Depois de se ler o livro de Carrilho é impossível continuar a ignorar, por exemplo, a existência e o papel das chamadas "agências de comunicação", um bom tema para a recém-empossada entidade reguladora da comunicação social iniciar as suas ansiadas actividades».
Depois de se ler o livro de Carrilho?! Extraordinário...
O autor do artigo não é um neófito da política. Nem um daqueles alérgicos à actividade partidária. Fica por isso muito mal neste papel de falsa virgem. Tal como soa a superior hipocrisia o título do seu escrito, "o fim da idade da inocência".
Inocência nesta matéria é tudo o que não existe na actividade político-partidária e nos principais dirigentes partidários. Os partidos e os seus candidatos usam e abusam da mensagem publicitária, aproximam-se deliberadamente da mensagem telenovelesca e desinteressam-se tacticamente da discussão de ideias, aliás atitude muito cómoda porque evitam os compromissos com o eleitorado. E para isso não hesitam em recorrer aos serviços desses verdadeiros magos que são os agentes de comunicação. Uns, importados dos países onde a actividade publicitária tem outra expressão. Outros, de formação caseira. Mas todos inspirados na mesma cartilha onde se ensina que os votos se adquirem pela sugestão.
E isto é assim em todo o espectro partidário. Não há candidato que não se deixe seduzir por aquilo que eu já aqui qualifiquei de promoção dos partidos-sabonete a propósito de um signficativo artigo de Luis Paixão Martins (O desgaste das marcas partidárias) dado à estampa igualmente no DN, logo a seguir à vitória eleitoral do actual Presidente da República.
Nunca vi Carrilho ou Medeiros Ferreira antes desta tentativa de se explicarem as razões de uma humilhante derrota do primeiro e do partido de ambos nas eleições para a autarquia de Lisboa, travarem qualquer batalha contra esta promiscuidade entre políticos e jornalistas apesar do tema da intermediação e do alegado tráfego de influência mediática feito pelas agências de comunicação estar longe de ser novo.

O depoimento do Sr. Dr. Medeiros Ferreira, no tom em que é feito, sofre da falta de credibilidade típica de quem conhecendo bem as técnicas e as práticas, de si diz que perdeu tarde a inocência.
Difícil de acreditar. Quase sempre...

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Depois queixem-se!...

Eu estava habituado às notícias da abertura da época da caça, quando se começa activamente a caçar, ou da época da praia, quando se começa a ir ao mar, ou da época da neve, quando se começa activamente a esquiar, ou da época dos saldos, quando se torna e retorna a comprar…
Hoje, 15 de Maio, segundo ouvi no Telejornal das 20 horas da RTP1, estação de serviço público, abriu a época dos incêndios!...
Por similitude conceptual, é a época em que activamente se começa a incendiar!...
Entretanto deixo um reparo: para que servem os Editores, Coordenadores, Sub-Directores e Directores de Informação, se não conseguem intuir a mensagem subliminar que está por detrás dessa intolerável e deplorável imprecisão de linguagem, "abriu a época dos incêndios"?
Depois queixem-se!...

Gelatologia

O romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa, revela uma trama acerca do não acesso a um livro, escrito por Aristóteles, que advogaria o valor e a importância do riso, pondo em causa a lei divina, que, na Idade Média, se impunha através do medo do Inferno, porque o riso é a melhor arma contra o medo.
A origem do riso remonta ao momento em que os primeiros hominídeos se separaram dos macacos. Como não tinham um desenvolvimento cognitivo nem linguagem não eram capazes das manifestações actuais. No entanto, há cerca de 2 milhões de anos, os nossos antepassados começaram a controlar as expressões faciais. Inicialmente, o riso não estava associado com o humor, só muito posteriormente é que alcançou essa ligação. Neste caso, porque é que surgiu o riso? Tudo leva a crer que se trata de um mecanismo de controlo social e forma de comunicar. É comum as pessoas rirem-se durante uma conversação normal, mesmo na ausência de humor. Há como que uma dinâmica de poder. Ao fazer com que o outro sorria revela que se encontra numa posição dominante.
As mulheres riem-se mais do que os homens, apesar destes serem os principais responsáveis pelo riso.
Rir faz bem à saúde. A tal ponto que, segundo alguns estudiosos, é o melhor remédio, aumenta a longevidade, substitui o exercício físico, já que 100 risos equivale a dez minutos de marcha numa máquina de ginásio ou quinze minutos de bicicleta, para não falar de outras virtudes, que as associações criadas para o efeito se entretêm a desenvolver, entre muitas outras iniciativas.
Devido às suas características, quase que podíamos integrar o riso no capítulo de doenças infecciosas, devido ao seu elevado efeito contagioso. Tanto é assim que, em certos programas, é habitual haver alguém a levantar a placa, dizendo à assistência para se rirem naquele momento (mesmo que não haja piada). E funciona! Os gelatologistas (não tem nada a ver com gelados!), especialistas nos estudos do riso, mecanismos e efeitos, têm muito que fazer para explicarem a fisiologia desta característica tipicamente humana.
A minha caixa de correio electrónico entope com frequência inusitada com mensagens e apresentações que focam situações humorísticas. Algumas têm piada, outras menos, ou, então, já estou a perder o sentido de humor, talvez por não achar piada a muitas coisas que andam por aí. Nem os políticos que, tradicionalmente, são objecto de humor conseguem despertar a atenção ou um sorriso, mesmo amarelo. Provavelmente, um dia destes, ainda tenho que consultar um gelatologista…

Natureza em plena cidade


Insólitas, por vezes, as manifestações da natureza em pleno boliço da cidade.
Uma abelha-mestra resolveu fixar seu séquito de abelhas de mel nada mais nada menos do que num dos semáforos da Avenida de Berna, ali mesmo ao lado dos jardins da Gulbenkian, como a fotografia captada pelo meu telemóvel documenta.
Trouxe-me à memória tempos da minha adolescência quando, justamente nos meados de Maio, com o meu avô, ía atrás de mais um enxame que o cortiço libertou armado com um velho fumigador. Mas ali, nos quintais que ainda abundavam nos interstícios da cidade de província - meio-campo, meia urbe - não havia semáforos. Aliás, era palavra desconhecida. As abelhas, então muito menos cosmopolitas, preferiam os galhos mais altos dos bardos das videiras ou a forquilha de uma cerejeira que então exibia os seus primeiros frutos maduros.

A poderosa imagem do elefante e dos ovos de perdiz...

Há metáforas que valem muito mais do que discursos quilométricos:

"(...) cada vez que aumenta o fisco, o Governo reduz o défice mas agrava o desequilíbrio, pois desculpa e confirma os gastos e adia a sua correcção. Ao subir o IVA, Sócrates pode ter comprometido a solução do País para os próximos anos. Isso era, aliás, o que o competente candidato José Sócrates tinha compreendido na campanha eleitoral, prometendo por isso não aumentar impostos. O Executivo parece o elefante que, depois de pisar uma perdiz, foi cheio de remorsos sentar-se no ninho para ajudar a chocar os ovos" - João Cesar das Neves, Sócrates: falhar com competência, no DN

As políticas públicas e as maternidades

Foi anunciado pela RTP para hoje um debate sobre as maternidades no programa de Fátima Campos Ferreira, Prós e Contras. Este, de facto, é um tema que merece debate profundo.
Creio bem que esta matéria de encerramento e “deslocalização” de maternidades irá constituir para o actual Governo o que o “buzinão” foi para o Governo de Cavaco Silva.
E isto por três motivos: a carga emotiva ligada ao tema, o elemento afectivo que a “terra” sempre constitui e o abandono de que o interior se sente vítima.
A sensibilidade do tema tem a ver com o momento primordial do ser humano, o nascimento. Para a família, para o pai e sobretudo para a mãe, o acto de dar à luz é o acto mais vivido, mais simbólico, mais significativo, mais perdurável da vida de uma mulher. Se há algo de misterioso e “sagrado” na existência humana é esse momento. Nele se misturam a preocupação e a esperança, a ansiedade e o alívio, a dor e a alegria e aí que as emoções atingem o paroxismo.
O acto de dar à luz, que para os mais velhos ainda foi sobretudo em casa, tem que ser ali, perto de onde mora a mãe, onde ela se sente bem e acompanhada.
Por mais racional e científica que seja a explicação, o nascimento está envolto num manto de mistério e bule com o mais profundo das emoções. Todos querem estar ali ao lado, para delas partilhar no momento.
Por isso, qualquer abordagem mais racional não consegue ir de encontro ao profundo sentir das pessoas.
Por outro lado, os pais querem que o filho também seja filho da sua terra, já que a "terra", lugar em que se nasceu, constitui um elemento fundamental de identificação e até de identidade. A terra é um imaginário tão forte que é para lá que muitos gostam de voltar, ao morrer, selando na sua "terra" o último elo da vida.
Por isso, o ter que nascer noutro lugar ou, por absurdo, num país estrangeiro, é para os pais sempre uma enorme violência.
Em terceiro lugar, as gentes do interior estão sistematicamente a ver-se desapossadas de tudo: as pessoas saem, a mão-de-obra falta, as indústrias rareiam e, para cúmulo, até os serviços públicos fogem.
Neste ambiente, as maternidades de cada terra, sentidas como uma aquisição irreversível, são vistas como o último “direito” de que as populações podem prescindir. Acabar com elas é como que amputar um pouco da sua própria vida.
Pretender justificar o fecho das maternidades, argumentando com o desprezível inconveniente de uns minutos a mais ou a menos de auto-estradas ou de uns quilómetros a mais para cá ou para lá, é menosprezar todo o mundo de sentimentos e emoções ligados ao nascimento.
E o homem, se é razão, também é emoção, como tão bem explicou António Damásio.
Por todas estas razões, que o Governo devia compreender, as coisas não irão acabar bem… penso eu!...

domingo, 14 de maio de 2006

Cartoon

Por Terras do Tio Sam – Maio 14, Domingo – Epílogo

Eis-me, pois, de volta a Terras Lusitanas! E que saudades que já tinha deste cantinho à beira-mar plantado!...

Aterrámos em Lisboa pouco depois das 8 da manhã, e no seguimento de uma noite muito mal-dormida… Não é que o voo tivesse sido muito turbulento; nada disso… Simplesmente, para uma viagem de cerca de 6 horas e meia, aquelas cadeiras são demasiado desconfortáveis e o espaço para as pernas muito diminuto. Se a isto acrescentarmos que a viagem foi feita durante a noite (ao contrário do que tinha sucedido há três semanas, quando saí de Lisboa às 10:30 da manhã), facilmente se percebe o desconforto dos passageiros – sobretudo aqueles que não conseguem dormir, como foi o meu caso. Finalmente, não posso ainda deixar de referir que a tripulação (ou pelo menos alguma parte da tripulação…) não era nem simpática nem cooperante, ao contrário do que tinha sucedido no voo intercontinental de ida.
Mas pronto, lá se passou e o que importa é que já estou em Portugal são e salvo!

Como esperava, o dia foi passado em família, com os meus pais, o meu irmão, a minha cunhada, os meus sobrinhos e também uma das minhas tias.
Foi óptimo – já tinha saudades de estar assim, e sobretudo o convívio com os pequenitos Mariana e Afonso, os meus sobrinhos, foi magnífico.

Infelizmente, o Vitória de Setúbal não ganhou a Taça de Portugal – o FC Porto fez a dobradinha, e por isso parabéns a todos os portistas, mas sobretudo ao meu amigo Pinho Cardão, da Quarta República –, e essa foi a notícia que gostava de não ter tido no meu regresso a Portugal.

Enfim, agora será o regresso à labuta diária, da qual também já sentia a falta, depois de três semanas inesquecíveis nos EUA.

Creio que já disse quase tudo o que tinha a dizer sobre esta minha experiência, que procurei partilhar o mais detalhadamente que me foi possível com os meus colegas da Quarta Repúlblica, os leitores do blog, a minha família (que espero agora continue a consultá-lo com regularidade...), os meus amigos.

De qualquer modo, não queria terminar sem referir que julgo que a melhor forma de caracterizar globalmente o International Visitor Leadership Program é mencioná-lo como fez Diane Crow, na nossa reunião no Department of State, em Abril 25: trata-se de um “jogo” em que todos ganham (do ponto de vista dos EUA), e por isso é um win-win-win game.

Eu ganhei… enfim, julgo que se tornou claro, ao longo das minha crónicas diárias por que ganhei!...

O Department of State ganhou porque fez mais um contacto internacional com alguém que considerou ter interesse.

As empresas americanas ganharam: as companhias de aviação, porque tiveram mais dois passageiros em várias viagens (eu e o Marc Nicholson também); os hotéis, porque tiveram as nossas reservas; os restaurantes e estabelecimentos a que recorremos ganharam porque viram a sua actividade acrescida.

Claro que esta iniciativa, e outras semelhantes, são financiadas pelos contribuintes norte-americanos, mas creio que mesmo para estes, no total, e depois de tudo o que já referi, o retorno acaba por ser positivo.

Claramente, uma experiência inesquecível, que espero ter conseguido, pelo menos em alguma parte, ter partilhado com todos os que, numa base diária ou menos assídua foram leitores das minhas crónicas por Terras do Tio Sam.
O meu muito obrigado pela “paciência” que tiveram durante estas três semanas!

E agora, o regresso aos posts “normais” na Quarta República, tentando ser mais assíduo do que antes desta epopeia norte-americana!

Lisboa, Maio 14, 2006.

Mais uma alegria...mais uma vitória!...




O F. C. Porto conquistou mais uma Taça de Portugal.
Parabéns ao vencedor e também ao digno vencido, Vitória de Setúbal, que deu uma luta grande e leal!
E um abraço ao meu amigo setubalense e companheiro da 4R, Miguel Frasquilho, hoje um pouco pesaroso...mas é a vida!...

Memória

Humberto Delgado
Faz amanhã 100 anos que nasceu.
Faz este mês 48 anos que desafiou a ditadura na campanha eleitoral para as presidenciais.
Humberto Delgado merece que não o esqueçamos.
Fica aqui um local onde o pode recordar.

Não há direito!...

Segundo o DN de ontem, o Governo vai mudar 40 embaixadores de lugar.
Embaixadores, homens, vão para a Polónia, Venezuela, Tailândia, Turquia, Bélgica, Chile, etc.
Embaixadoras, senhoras, apenas duas na lista, vão para Israel e para a Etiópia, certamente porque ainda não temos Embaixadas no Sudão e na Libéria!...
Ou então porque estas estão reservadas, por acumulação, para Ana Gomes, quando atingir o topo da carreira...
Não há direito!...
Freitas anda mesmo cansado ou, entre os diplomatas, as senhoras já não merecem nem mesmo uma diplomática atenção?

"Rostos testosterónicos!"...



A biologia evolutiva tem tentado explicar quais os factores que levam à atracção entre os sexos. A procura da beleza ou de determinados padrões fenotípicos são tomados em linha de conta, já que deverão corresponder a aspectos de natureza genética mais favoráveis. A aparência, agradável, sedutora, bela, chama a atenção e promove o desencadear de aproximação. A atracção pelas loiras, ocorrida em tempos, constituiu um factor preferencial, originando a sua proliferação. O que não quer dizer que vá continuar, já que, de acordo com alguns estudos, se antevê, num futuro não muito longínquo, cerca de 200 anos, o desaparecimento das louras naturais, em virtude de haver poucas pessoas a transportar o gene responsável, recessivo. Dizem que será uma finlandesa, em 2202, porque a prevalência das louras é, na Finlândia, a mais elevada do mundo.
Também podíamos falar sobre a preferência das crianças mais brancas e louras por parte das mães que, nos tempos imemoriais, através do infanticídio – forma habitual de controlo de natalidade – davam cabo dos recém-nascidos peludos e escuros, na Europa, claro.
Agora, um estudo vem revelar que as mulheres conseguem “ler” os rostos dos homens, seleccionando-os em função da sua masculinidade e interesse pelas crianças. No tocante a esta última característica, gosto por crianças e gentileza, eram, também, considerados os mais aptos para um relacionamento a longo prazo. Os que denotavam rostos tradutores de maior masculinidade eram tidos como os mais apropriados para relacionamentos a curto prazo.
De acordo com a investigação, conduzida em mulheres às quais foram apresentadas fotografias de rostos masculinos, foi possível avaliar de forma precisa quais os que gostavam de bebés e os que tinham altos níveis de testosterona.
Claro que este estudo tem de ser repetido noutras comunidades a fim de comprovar tão interessantes conclusões.
Atendendo à diminuição de natalidade, que se verifica no nosso mundo e à qual são atribuídas muitas causas, nomeadamente, sociais e económicas, não deixa de ser interessante associar mais esta. A procura de homens “machos” que privilegiam o relacionamento a curto prazo não deve ser suficiente para estimular a fecundidade. Quanto aos que apresentam rostos gentis, simpáticos, e que gostam de bebés, poderão ficar em desvantagem face aos outros! Sendo assim não terão muitas probabilidades de contribuírem para um relacionamento a longo prazo, face à tal “masculinidade testosterónica” que as mulheres conseguem detectar, como se fossem portadoras de algum detector bioquímico ao olharem para um rosto masculino. No entanto, face ao que vejo por aí, muitas deverão ter sérios “problemas” no funcionamento do tal “detector bioquímico”, acabando por sofrerem as consequências, ou, então, privilegiam em demasia a tal “testosterona facial”. Também não podemos excluir que esta última poderá estar falseada por quaisquer factores de natureza ambiental não conhecidos ou ser um subproduto de eventual metrossexualidade…

Por Terras do Tio Sam – Maio 13, Sábado – Capítulo 22

… E lá se passou o último dia nos States. Um dia muito calmo. A manhã foi passada a fazer as malas e, depois do check-out do hotel feito, por volta do meio-dia, tinha cerca de 5 horas livres até ter que estar novamente no hotel, para então rumar ao Newark International Airport, de onde partirei para Lisboa. Hoje eu e o Marc andámos cada um por sua conta. Na parte que me toca, quando saí do hotel, ao ir desde a 8ª avenida pela 52ª rua em direcção à zona mais comercial (avenidas 7ª, Broadway, 6ª, 5ª e Madison) passei por um cinema em que já ontem tinha reparado, e em que está a passar o episódio mais recente (o terceiro) da saga Mission:Impossible, em que o protagonista é Tom Cruise, como já nos dois episódios anteriores aconteceu. A primeira sessão era ao meio-dia e meia, e pensei: nem sei se já estreou em Portugal, mas o que sei é que, depois de três semanas fora, se há coisa que não vou ter tempo para fazer em Portugal nas próximas semanas, é ir ao cinema. E, por isso, resolvi aproveitar, até porque a sessão acabava às 14:45, logo ainda ficava com algum tempo livre para qualquer “coisa” de última hora que aparecesse.
O filme está muito bem feito e é do género dos outros, com muita acção, suspense, mistério e intriga à mistura. Vale a pena, em minha opinião – mas eu também sou fã deste género de filmes, em que incluo, por exemplo, a saga "James Bond 007".

Enfim, depois do cinema comi qualquer coisa num Au Bon Pain que consegui descobrir aqui em New York – onde não proliferam, ao contrário do que sucede em Boston -, dei mais umas voltas pela minha zona favorita de Manhattan (acima descrita…), ainda entrei na Disney Store, na 5ª avenida para comprar uns bonequinhos clássicos da Disney para o meu sobrinho Afonso e… that was it! Regressei ao hotel – onde, contra tudo o que em mim é habitual, cheguei antes da hora marcada (17 horas) e – pasme-se! – mesmo antes do Marc, facto absolutamente inédito ao longo das três semanas que por aqui passei! Não sei se isto quer dizer que estou a ficar mais disciplinado em termos de horários – só o futuro o dirá!...

E agora estou sentado na sala de embarque, porta C75, de onde, às 20:25 locais (1:25 da manhã em Lisboa), partirá o boeing 757 da Continental, que deverá aterrar por volta das 8:15 de manhã na Portela.

O Marc, que além de boa companhia – só stressa um bocado com os horários, mas acho que no fim já tínhamos acordado que havia um Marc time, sempre 5 minutos antes da hora marcada, e um Frasquilho time, entre 5 e 10 minutos depois da hora marcada – foi imprescindível em todo o apoio logístico nos transportes, nos trajectos, enfim, em fazer com que eu tivesse que me preocupar o menos possíve com esses pormenores, veio comigo para Newark ao mesmo tempo, apesar de o seu voo para Washington, DC, só estar agendado para as 21:15, quase uma hora depois do meu para Lisboa. Mas ele quis certificar-se de que tudo corria bem comigo – e tudo correu, de facto, lindamente. De qualquer modo, não queria deixar de acabar estas crónicas diárias sem agradecer publicamente ao Marc Nicholson, por toda a ajuda que me deu, e pelo seu companheirismo! Muio obrigado – bem como a toda a restante equipa do Department of State e do Delphi Program, que cumprimento e a quem agradeço na pessoa da chefe de equipa, Diane Crow! E, obviamente, também à embaixada dos EUA em Lisboa, com destaque para a Dra. Madalena Veloso, que foi inexcedível em todos os pormenores que se relacionaram com a preparação desta minha viagem. Foi-me proporcionada uma experiência inesquecível e, por isso, a todos estou muito grato!...

Mas enfim, tudo tem um fim, e agora é hora de pensar em regressar a casa. E, para dizer a verdade, mal vejo a hora de amanhã estar junto da minha família, com destaque para os meus pais, o meu irmão e cunhada e, claro, acima de todos, os dois adoráveis piolhinhos dos meus sobrinhos, Mariana e Afonso, de quem morro de saudades!

E segunda, claro, de re-encontrar os meus colegas e amigos do dia-a-dia profissional e não só!...
Vai ser bom regressar a casa!... E agora só espero que a Internet funcione para colocar na "Quarta República" este post!

Até amanhã para o Epílogo, já em Lisboa!

sábado, 13 de maio de 2006

A ANAFRE...

... continua a querer mais.
Em reunião do seu Conselho Geral realizada hoje em Castelo Branco, os autarcas de freguesia clamam por uma nova Lei das Finanças Locais... e por mais competências.
E se não houvesse freguesias?
E se coubesse a cada Município decidir se quer ou não freguesias, quantas quer, como as quer e com que competências?
E, naturalmente, quem quiser freguesias, que as pague!
A situação que hoje temos em Portugal clama por uma mudança urgente e radical nesta matéria.
Haverá coragem? Infelizmente...

Alguém sabe quem manda em quem?



Às 20 horas, o Seleccionador Nacional dos Sub-21, Agostinho Oliveira, vai anunciar a lista dos jogadores convocados para o Campeonato da Europa de Futebol, nessa categoria.
Ou me engano muito ou as televisões lá estarão a abrir os telejornais com a reportagem em directo desse insigne acontecimento de tão magna e decisiva importância para o país!...
O Campeonato começa dentro de 10 dias e Agostinho Oliveira tem-se mostrado assaz preocupado pelo facto de não saber com que jogadores contar, dado estar dependente das escolhas prioritárias de Luís Filipe Scolari para a selecção principal e não ter podido conversar com este sobre o assunto.
Apesar dos seus vários Adjuntos, Scolari deve ser o sujeito mais ocupado de Portugal, mal tendo tempo para respirar no intervalo da preparação aí de uns dez jogos de futebol por ano. Por isso, não tem, obviamente, tempo de coordenar acções com o Adjunto afecto à selecção dos Sub-21, como, aliás, nunca teve tempo de acompanhar esta Selecção. Acredito que assim seja, até face às inocentes declarações de um jogador desta categoria, que ontem ouvi na televisão. Dizia ele nunca ter visto Scolari e que, para ele, o “mister é Agostinho Oliveira.
Por esta e por outras, Scolari ficou ainda mais empertigado e logo declarou que quem mandava era ele!...
O Presidente da Federação, de seu nome Gilberto Madaíl, veio confirmar que quem mandava, de facto, era Scolari, mas que havia conveniência em saber os seleccionáveis para os Sub-21…
Agostinho veio também a concordar com Madaíl e com Scolari, reconhecendo que Scolari é quem manda. Mas, com uma nuance, foi afirmando, ao mesmo tempo, que quem mandava nos Sub-21 era ele, Agostinho!...
Nestes mandos e desmandos, fiquei sem saber se alguém sabe quem é que manda em quem e convencido que Madaíl será o último a saber!...
Mas sendo a Federação Portuguesa de Futebol uma entidade com estatuto de “ utilidade pública” e recebendo, como tal, subsídios do Governo para a preparação das equipas, não seria melhor organizar-se de modo a evitar estes deploráveis espectáculos de ver o seu Presidente e os dois seus mais importantes funcionários virem esgrimir na praça pública quem manda ou quem não manda, sem ninguém perceber afinal quem manda?
Se nas vésperas das competições ainda se discute quem é que manda, não há que esperar muito das nossas selecções!...Organizem-se, pois, se ainda é tempo!...

Por Terras do Tio Sam – Maio 12, Sexta – Capítulo 21

Pronto: em termos de “trabalho”, o Programa acabou hoje. Porém, como o voo da Continental para Lisboa só parte de Newark às 8 horas da noite, isso significa que tenho ainda o dia de amanhã livre até cerca das 5 da tarde, hora a que o Marc já hoje me informou que partiremos para o aeroporto.

Este último dia do Programa começou um pouco mais tarde do que o habitual – a primeira reunião foi às 11:45 horas – o que me possibilitou despachar para Lisboa, através do FedEx, uma boa parte da documentação e outra “papelada” que me foi sendo entregue ao longo dos dias, nas diferentes reuniões e encontros, e que certamente me faria regressar a Lisboa com excesso de peso na bagagem. Por isso, resolvi encaminhar a documentação para Lisboa pelo correio Expresso, e aí a para a semana.

Por volta das 11 horas apanhámos o metropolitano rumo à New York University (conhecida como NYU), na parte mais ao sul de Manhattan, que fica muito próxima da Washington Square, em que se ergue mais um monumento (são tantos, espalhados pelo país inteiro!...) em homenagem ao primeiro Presidente dos EUA, George Washington.
Às 11:45, já estava connosco a Professora Carmen Ess, Program Officer, International Visitor Program, Department of State (que é quem organiza os Programas do género do meu, quando os convidados vêm a New York), iniciou-se a conversa com o Professor Nouriel Roubini, Co-Founder/Chairman, Prof. of Economics Stern School of Business NYU. O Professor Roubini é, tal como O. Blanchard, com quem me encontrei no MIT, em Boston, também uma "celebridade" actual da economia, nomeadamente da macroeconomia. Teve igualmente uma participação “mais política”, salvo erro no segundo mandato do Presidente Clinton, quando assessorou Larry Summers, que foi Secretário de Estado do Tesouro (o Ministro das Finanças dos EUA).
Foi muito intensa e interessante a conversa – e breve também, pois o Professor tinha outros compromissos, pelo que antes das 12:30 já tínhamos terminado. No entanto, com a mente super-organizada que tem, e sempre muito concentrado nos assuntos, houve oportunidade de discutir as questões económicas mais “quentes” hoje em dia – e também algumas que eu próprio fui introduzindo na conversa. Assim, falou-se da economia dos EUA, da Ásia, da globalização enfim, e do comportamento recente e das perspectivas para a economia global. Mas onde nos detivemos mais tempo foi mesmo na Europa: a Zona Euro, os seus problemas, as assimetrias entre os países que a compõem, a entrada dos países do Leste da Europa na UE, e, por fim… claro, a economia portuguesa em que, mais uma vez, pude constatar uma opinião muito próxima da minha quanto à origem dos problemas que enfrentamos e… quanto aos remédios para os podermos resolver!
Para mim, foi óptimo que se tenha conseguido agendar esta reunião, pois era uma das prioridades que tinha mencionado ao Department of State.

A seguir despedimo-nos da Professora Carmen Ess e rumámos ao Financial Disctrict, onde tivemos um almoço de trabalho na sede do Bank of New York com os Drs. Kevin J. Bannon, Executive Vice President and Chief Investment Officer, e Christopher Van Houten, Vice President. Foi uma conversa muito viva, em que nos foi apresentado o Bank of New York e, nomeadamente, a forma como se encontra organizado, como contacta com os clientes, as suas vocações, etc.
Depois, a pedido dos nossos anfitriões, eu fiz uma breve descrição do actual estado da economia portuguesa, as causas da situação que enfrentamos e aqueles que, em minha opinião, serão os remédios para podermos dar a volta à situação.
Discutiu-se, ainda a economia global e, nomeadamente, os problemas (desequilíbrios) da economia norte-americana – que, pela dimensão que possui, e o forte crescimento económico que tem revelado tem sido, verdadeiramente, o motor da economia mundial. Claro que também se falou das consequências (negativas) que poderiam (poderão?) advir para o mundo se uma conjugação de factores levasse a um abrandamento económico considerável dos EUA. Nomeadamente, se os consumidores americanos – pressionados, por exemplo, por uma eventual queda dos preços no mercado imobilário – deixassem de consumir da forma como o têm vindo a fazer…

Por volta das 14:30 tornámos a apanhar o metro para voltar a upper Manhattan, nomeadamente a Times Square, onde se situa aNasdaq, a bolsa de valores que rivaliza com a NYSE. E assim, depois de ontem termos assistido à abertura da sessão em Wall Street, hoje assistimos ao fecho daNasdaq, acompanhados pela Dra. Paulina McGroarty, Managing Director, Nasdaq Internationaln Ltd. (que se encontra sedeada em Londres, mas foi a nossa anfitriã principal aqui em Times Square) e pelo Dr. John Correia, Director, Market Intelligence Desk, Corporate Client Group, The Nasdaq Stock Market (de ascendência portuguesa – ou melhor nascido em Portugal, mas emigrante nos EUA logo com um ano de idade… -, e com quem ainda troquei algumas palavras na nossa língua).
E não podia ser maior o contraste: como na Nasdaq tudo é feito electronicamente, não existia a azáfama de véspera, e só alguns convidados e visitantes assistiram ao encerramento, onde também se bateram palmas nos 20 segundos anteriores às 16 horas, quando os mercados financeiros encerram em New York.
Neste momento, a Nasdaq, que foi criado em 1971, como alternativa à NYSE, já contém mais empresas listadas do que Wall Street e o volume de acções transccionado suplanta também a da rival. Não tem ainda é o peso histórico dA NYSE mas, segundo a Dra. Paulina McGroarty, vai na boa direcção… Como proporciona condições financeiras bem mais vantajosas às empresas que se queiram listar nela registar (relativamente à NYSE), tem vindo a ser cada mais procurada; por outro lado, devido ao facto de todas as negociações serem feitas electronicamente, o tempo de cada operação é significativamente mais baixo do que na NYSE, o que proporciona igualmente a realização de um maior número de transacções.
Finalmente, não podia deixar de referir que o Nasdaq Composite Index não é o índice das empresas tecnológicas, ou representativo da chamada “nova economia”, como muitas vezes é apresentado; não: ele está aberto, e é integrado por empresas de todos os sectores de actividade, desde os mais tradicionais aos mais modernos. É assim que encontramos listadas no Nasdaq empresas tão conhecidas como Microsoft, Intel, Ericsson, Apple, Volvo, Starbucks Coffee, Reuters, Staples, Ryanair, NEC, United Airlines, Commerce Bank, etc, uma variedade que, em termos de sectores é caracterizada da seguinte forma: Information technology (27%), Financials (22%), Health care (18%), Consumer (16%), Industrials (10%), Energy and utilities (3%) e Materials (2%).
Enfim, a ver vamos se a supremacia que, pelos vistos, já hoje a Nasdaq detém sobre a NYSE – mas que não é ainda muito visível – se irá, ou não materializar de forma definitiva.

No final da visita, já próximo das 5 da tarde, acabei por ser entrevistado pelo canal de televisão Bloomberg (edição Brasil), como convidado “especial” da Nasdaq nesse dia, sobre a situação e perspectivas para a economia brasileira, os mercados emergentes e, enfim, a economia global. A entrevista, de mais ou menos 6 minutos, foi conduzida em português pela jornalista Camila Fontana Correa, brasileira, e que cobre os mercados financeiros para a Bloomberg aqui em New York. Julgo que irá para o ar no Brasil na próxima segunda-feira, Maio 15, e depois talvez passe também no canal Bloomberg internacional (aquele que podemos visionar em Portugal). Enfim, passe onde passar, acho que foi uma boa experiência para mim e, se é que me é permitida a opinião (mesmo em causa própria...), julgo que a entrevista não terá corrido mal (o Marc, pelo menos, gostou bastante…).

Já passava das 17 horas quando saímos das instalações da Nasdaq. Aí, aproveitei para dar mais uma voltas na zona e comprar algumas coisitas que alguns amigos meus me tinham encomendado; às 18:30 regressei ao hotel para, pouco depois, sair com o Marc, jantarmos rapidamente (mais uma vez, japonês…) e vermos o show mais recente que está em exibição na Broadway – desde Maio 10, isto é, há dois dias apenas! –, o musical da Disney “Tarzan”, baseado no clássico de Edgar Rice Burroughs, com músicas e letras de Phil Collins. E, como já podem adivinhar, é um verdadeiro espectáculo! As canções são excelentes (como seria de esperar, pelo menos na minha opinião, vindas como vêm, de Phil Collins…) todo o elenco é fenomenal, mas o mais extraordinário de tudo são os efeitos especiais e visuais criados pela Disney: absolutamente fantásticos!... Claramente a rever, logo que surja oportunidade…

E pronto, amanhã é o dia de regressar a casa, que já lá vão três semanitas!...

Por isso, é agora hora de dormir, para amanhã fazer as malas com sossego (e pela última vez!...) e ainda aproveitar o tempo livre para… enfim, amanhã se verá para fazer o quê!
De qualquer modo, espero poder fazer o relato do último dia aqui nos EUA, ainda amanhã e… nos próprios EUA, quando já estiver no aeroporto de Newark, à espera do embarque para Lisboa. Suspeito que terei que esperar algum tempo e, portanto, aproveitarei para finalizar a “aventura” em que embarquei com este “diário”.
Só espero que a Internet funcione – se não, só em Portugal, já no Domingo, Maio 14!