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domingo, 10 de dezembro de 2006

Irónico

O dia 10 de Dezembro passará a assinalar a data em que a Assembleia-geral das Nações Unidas tornou universal a proibição do genocídio e a afirmação dos direitos humanos mas registará igualmente a morte de Pinochet.

Ironias da História...

“Encanto e desencanto”…

Certos acontecimentos provocam-nos mal-estar e até um certo desencanto. Hoje, tive oportunidade de ver uma senhora que há cerca de seis a sete anos viveu um período dramático. Quase que não a reconheci. Bastante envelhecida e com ar muito triste, típico dos depressivos, vinha acompanhada da filha adolescente, bonita, bem cuidada e portadora de um sorriso meio triste, tradutor de uma sentida preocupação. Foi a voz que me levou a dar atenção aos traços faciais, permitindo deste modo identificá-la. Acto contínuo, lembrei-me do filho que, no início da adolescência, esteve na iminência de morrer devido a uma grave doença do sangue e que graças a um transplante, no qual me empenhei de forma muito particular e intensa, acabou por evitar uma morte anunciada. Não fiz qualquer comentário ao assunto, deixando que a senhora expusesse os motivos da sua visita. Tal como previa, passou a descrever um conjunto de sintomas e sinais de uma depressão. Apesar de no passado já ter passado por algo semelhante, diz-nos a experiência que temos de procurar factores exógenos. Foi o que fiz, perguntando-lhe se nos últimos tempos tinha ocorrido algo de relevante na sua vida que pudesse justificar a situação. Falou do marido, dos seus hábitos e estilos de vida menos saudáveis, e que eram fonte de preocupação. Importantes sem sombra de dúvida. O meu silêncio, propositado, foi suficiente para deslocar a atenção para o filho. Assim que começou a falar, teceu um conjunto de laudatórias considerações sobre o papel que desempenhei na altura da grave doença, voltando a agradecer tudo o que tinha feito. Perguntei-lhe se estava bem de saúde, que idade tinha neste momento e o que fazia. Quanto ao problema da doença estava tudo bem, estava curado. Mas o pior foi quando me olhou com um ar meio destruído dizendo: - "Oh senhor doutor, ele não trabalha, não permanece tempo nenhum nos empregos, faz vida de noite e ninguém me tira da cabeça que não se droga!" Antes de iniciar a frase, a parte interna do olho direito da filha começou a ficar meio brilhante anunciando lágrimas de dor. E assim foi! A conversa passou a desenhar-se ao redor deste assunto, da negação permanente por parte do filho, mesmo quando confrontado com evidências mais do que suficientes dos produtos aditivos, das suas reacções e das companhias, entre as quais se conta um jovem que também no início da adolescência sofreu um cancro do sistema linfático que foi curado, tendo na altura provocado as normais angústias e dor nos familiares. Vi e acompanhei o sofrimento e o desespero de ambas as famílias. Vi e congratulei-me com a vitória sobre doenças que ceifariam a vida de duas crianças. Vi renascer a alegria e a vontade de viver. Enquanto pensava nesta dualidade, dois jovens que estiveram condenados à morte, e que ao renascerem optaram por formas de conduta que poderão provocar se não a morte física mas outras formas de morte, a doente apressou-se a dizer: - “Oh senhor doutor como é possível desperdiçarem a vida depois de terem vencido a morte? Deviam dar graças a Deus e agora procedem desta maneira”.
A conversa continuou sempre debaixo do olhar triste e sem ânimo da jovem de dezasseis anos. Não deixei de transmitir esperança, muita esperança, embora interiormente sentisse um desencanto e um mal-estar que nem agora consigo disfarçar…

Direitos Humanos, um infindável caminho a percorrer…

Assinala-se hoje o Dia da Declaração Universal dos Direitos do Homem, assinada em 10 de Dezembro de 1948, após a constituição da Organização das Nações Unidas.

A Declaração, apesar de ser diária e grosseiramente violada por muitos países, ainda por cima signatários, é uma referência máxima e primordial dos direitos, garantias e liberdades de todos os seres humanos.

Mais lamentável do que a inexistência de um mecanismo que obrigue e puna os estados que não respeitam os valores e os princípios que subscreveram, é a verificação de que persiste, em grande parte do mundo, uma mentalidade não humanista – seja por razões culturais e religiosas, seja por razões ideológicas ou outras – que sistematicamente agride os mais elementares direitos humanos, num total desrespeito pela existência.

Mesmo os países desenvolvidos, incluindo o espaço da União Europeia, não correspondem integralmente, bastando para tal não ocultarmos a pobreza que consome uma parte dos seus cidadãos – ainda que nos pareça pequena – privando-os de dignidade e de felicidade.

É importante sermos ambiciosos quanto a melhorias neste fundamental domínio. A questão é como fazê-lo.

sábado, 9 de dezembro de 2006

Deixem-me rir!

"O Partido Socialista Europeu aprovou hoje uma carta com dez princípios que defende uma Europa com «direitos e deveres», rejeita um futuro entregue às mãos das forças do mercado e garante a luta pela sobrevivência do Modelo Social Europeu", escreve-se hoje no ´Público´.
Rejeita-se a ideia de entregar o futuro às forças do mercado?
Garante-se a luta pela sobrevivência do Modelo Social Europeu?
Em vista da prática política de um dos proponentes destes novos mandamentos socialistas, o Primeiro-Ministro português; das políticas económicas de Zapatero; das medidas sociais de Blair ou das propostas em que se empenha a vistosa candidata socialista à Presidência da República Francesa, a afirmação dá vontade de rir!

O século XXI trouxe a transformação do socialismo, enquanto ideologia ou conceito, em marca. Não importa na natureza das medidas. Importa sim que se lhe aponha o carimbo de "socialistas". E está visto que o discurso do "social" vende.

Boa, a formação dos novos lideres "socialistas" nas técnicas de marketing.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

“Estaria Deus distraído?”…

As notícias sobre a corrente dos negacionistas do Holocausto são preocupantes. É mais do que óbvio o interesse político de certos países do Médio Oriente em por em causa o estado de Israel. Mais difícil de compreender é a realização de uma conferência, envolvendo representantes de 30 países, a realizar pelo Governo iraniano, para se pronunciarem sobre a sua existência ou não.
Quem diria que um português vai estar presente! A notícia descreve-o como um perfeito negacionista que considera o Holocausto "um álibi perfeito para o Estado de Israel".
Independentemente do papel menos positivo que possa ser atribuído à política judaica, não é admissível questionar o genocídio dos judeus. A este propósito, recordo-me, com uma nitidez perturbante, as imagens que folheei, quando tinha 10 ou 11 anos, numa enciclopédia histórica do pai de um amigo que tinha feito recentemente a sua aquisição. Às escondidas mirávamos, incrédulos, as fotos de mulheres e homens enforcados, corpos esqueléticos de crianças, homens e mulheres “sorrindo” sofrimento. Ficávamos meio aparvalhados a olhar um para o outro, perguntando o que era aquilo. Não questionávamos os nossos pais com medo que nos ralhassem por andarmos, na típica curiosidade infantil, a vasculhar coisas proibidas, e ainda por cima com corpos nus. Mas a curiosidade era tanta que ficávamos à coca de qualquer conversa sobre a matéria daqueles estranhos livros. Foi assim que aprendi, ou antes, comecei a compreender, o que tinha sido feito aos judeus pelos alemães durante a guerra, fazendo de conta que estava a léguas de distância distraído com as minhas brincadeiras. Não conseguia compreender as razões de tamanha maldade que muitas vezes perturbou o meu sono, transformando os sonhos em horríveis pesadelos. Com o tempo, a minha curiosidade não teve limites sobre o que efectivamente tinha acontecido. Ainda hoje, quando sou confrontado com notícias, filmes, livros, crónicas e factos que descrevam aquele terrível período, os meus sentidos despertam com a mesma intensidade incomodativa quando tinha dez anos, fazendo emergir as tais imagens que não consigo esquecer. Agora, o aparecimento desconcertante deste estranho movimento, pondo em causa a tragédia daqueles tempos, provoca-me náuseas e um sentimento de repulsa, porque viola a memória de todos os que foram vítimas da ignomínia nazi e ofensiva do respeito dos que carregam sem culpa a culpa dos carrascos, perguntando como foi possível que membros da espécie "mais evoluída" fossem capazes das mais horríveis atrocidades face a seres humanos.
Estaria Deus distraído?...

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Para que conste!...

"O desafio é reorganizar a administração desconcentrada do Estado, preparando o caminho para uma regionalização da eficácia com o valiosíssimo crédito de aditamento democrático".
Eduaro Cabrita, Secretário de Estado da Administração Local, no Debate Olhares Cruzados sobre o Porto IV , citado pelo Público.

Porto! Porto! Porto! És a nossa glória!...


Resisti...mas não consegui!
É que não seria curial nem tolerável deixar os visitantes do 4R sem o supremo gosto de reverem a glória azul e branca!...

Aposta perdida

Acaba de ser anunciado que o BCE decidiu mesmo subir a sua principal taxa de refinanciamento de 3,25 para 3,5%.
Sem surpresa para os analistas, que esta manhã davam essa decisão como certa.
Tenho pois de reconhecer que perdi a aposta que aqui tinha lançado em Outubro.
Por terem confiado na minha precária capacidade de previsão também M. Ferreira de Almeida e Rui Vasco perderam.
Ganharam Tonibler e C. Monteiro, mais astutos do que nós.
O Pinho Cardão, com a proverbial sabedoria/“ratice” dos beirões, optou por não entrar no jogo e agora deve sorrir, divertido, até porque, se não estou em erro, se encontra “longo” em Euros e consequentemente feliz por este desfecho.
Teremos então de organizar, com o maior gosto da minha parte, o prometido jantar na Adega do Saraiva em Nafarros, para o que sugiro 28 ou 29 do corrente, 4 ou 5 de Janeiro pºfº. Aguardo sugestões dos participantes que pretendam aderir, bem como do Pinho Cardão, na sua qualidade de árbitro-convidado.
Noutro plano, esta decisão do BCE deixa-me dúvidas, parecendo-me que estava prefabricada quaisquer que fossem os dados fundamentais após a decisão de Outubro. Explico as razões.
Em primeiro lugar, a inflação na zona Euro, tanto em Setembro (1,6%) como em Outubro (1,8%), ficou bastante aquém do nível de vigilância do BCE – que é 2%, como se sabe.
Em segundo lugar, o Euro sofreu uma apreciação considerável em relação ao US dólar, neste último trimestre de 2006, a qual tem efeitos moderadores da actividade económica, sobretudo nos sectores mais expostos à concorrência internacional.
Em terceiro lugar e mais importante, na minha óptica, a economia mundial depara-se hoje com o dilema do enorme défice externo americano e a necessidade de o corrigir de forma a não por em causa a sustentabilidade do crescimento global.
Para que isso seja possível, tem sido insistentemente referido pelos especialistas um contributo por parte das restantes economias, designadamente através de políticas que promovam, ou não restrinjam, a despesa nacional.
A economia da zona Euro deveria ter aqui um papel muito importante, tal como as grandes economias da Ásia – Japão, China, Índia e outras.
Se pretendermos uma correcção suave, não poderão os EUA só por si corrigir o défice, pois a solução “EUA alone” implicaria uma recessão económica nos EUA ou uma fortíssima desvalorização do US dólar ou as duas coisas juntas, em qualquer caso com nefastas consequências para todos.
Com este exemplo do BCE, será que os restantes parceiros económicos dos EUA vão demonstrar altruísmo e colaborar na tarefa em que a zona Euro não parece disposta a participar?
Como disse esta manhã à R.R., eu não tenho a pretensão de dispor de informação equivalente à do BCE, nem me julgo capaz de avaliar melhor a situação económica global do que os responsáveis dessa instituição.
Mas confesso que esta é das decisões que me deixa apreensivo...O que virá a seguir?
Já não me atrevo a nova aposta...

Levantar a cabeça!...

É preciso levantar a cabeça é a expressão que mais tenho ouvido nas rádios e televisões nas duas últimas noites e hoje de manhã e nem digo a propósito de quê!...
Com todo o respeito pela opinião dos jogadores, treinadores, directores e comentadores, não concordo.
É que gente de costas direitas e cabeça emproada, depois do que fez, é o que mais abunda por aí. E como anda à vontade, sem caução ou sem pulseira, continua a julgar-se dona do mundo e a fazer igual!...
Deste jeito, continuaremos a ser dos últimos da Europa e, no futebol, sumariamente eliminados. De cabeça bem levantada, para esconder a falta de sabedoria e mérito. De cabeça bem levantada, como nada se tivesse passado!...
E amanhã serão novamente heróis nas primeiras páginas dos jornais!...
E esquecidos ou reduzidos a pequenas letras interiores os que, trabalhando bem, têm qualidade e mérito, competem e passam eliminatórias e trazem valor acrescentado para o país!...
Para olhar estes de frente, apoiá-los e seguir-lhes o exemplo é que a cabeça, pescoço e ombros deviam andar bem erguidos!...

Da TLEBS- VII

Para um pouco de boa disposição, e embora interdito a sensibilidades feministas mais aguçadas, mas mesmo desculpável por estas se tiverem um quanto baste de sentido de humor, recomenda-se no Tonibler o post do próprio Tonibler Dos botões do fogão, da bica em chávena morna e do TLEBS.
Dar-me-ão razão!...

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

“Soberana irresponsabilidade”…

Vários factores têm sido responsabilizados pelo aumento da incidência das doenças alérgicas verificado nas últimas décadas. A par de uma excessiva higienização, característica de um mundo moderno e “asséptico”, em que se observa ausência de contactos, em idades precoces, com várias substâncias e agentes, associa-se também uma exposição a determinados produtos químicos. A este propósito, as famosas dioxinas conseguem, entre outros efeitos, provocar, em doses muito baixas, alterações da imunidade da mucosa intestinal induzindo uma sensibilização sistémica aos antigénios orais. As crianças são mais sensíveis, estando mais expostas a este grupo de substâncias tóxicas.
Um outro estudo descreve que os homens com níveis de dioxinas elevados no sangue apresentam taxas de testosterona mais baixas e menor prevalência de aumento da próstata. Claro que a redução do alargamento da próstata é benéfico, mas, espero que ninguém se lembre de combater este problema, que atinge uma proporção elevada dos homens a partir de certa idade, expondo-os à poluição! Este achado resulta de estudos efectuados em veteranos norte-americanos que estiveram expostos ao famoso Agente Laranja durante a guerra do Vietname. E, a este propósito, passados trinta anos sobre o seu fim, as consequências médicas da utilização desta substância ainda se fazem sentir. Uma verdadeira “ferida aberta”. São trágicos os efeitos. Muitas famílias viveram e vivem dramas com os seus filhos deformados, muitos dos quais morreram e outros vão morrendo aos poucos.
Calcula-se que foram lançados mais de oitenta milhões de herbicidas, entre 1961 e 1971, pelas forças norte-americanas nas florestas e plantações. Cerca de 5 milhões de pessoas estiveram expostas e pelo menos um milhão de crianças vietnamitas foram e são vítimas. Ainda hoje vastas zonas do território apresentam valores muito elevados de dioxinas, centenas de vezes superiores aos admitidos noutros países.
Os representantes das vítimas exigem a Washington que reconheça as suas responsabilidades, procedendo às correspondentes compensações. O que é estranho é o facto de os norte-americanos insistirem que não há provas científicas suficientes de que as malformações congénitas, e muitas outras doenças, sejam devidas às dioxinas! No entanto, soldados norte-americanos, assim como australianos e neozelandeses, que estiveram expostos ao agente laranja, receberam importantes indemnizações das companhias responsáveis pela produção do químico, mas quando a associação das vítimas vietnamitas exigiu, também, uma indemnização aos fabricantes o tribunal recusou o pedido! Entretanto, o Governo norte-americano fugiu da demanda invocando ”imunidade soberana”. Curioso! Saddam foi condenado e é responsável por vários crimes, nomeadamente a morte de curdos com substâncias químicas, mas quanto ao crime norte-americano praticado, também, com químicos, e que continua a afectar inúmeras crianças vietnamitas, é invocado um conceito jurídico!
As cicatrizes da guerra do Vietname são visíveis, muitos anos após o fim da mesma. Cicatrizes que tendem a abrir-se em corpos de inocentes que entretanto vão nascendo….

Da TLEBS-VI

Embora economista, fui dos primeiros, há quase um ano, a escrever sobre o TLEBS e a criticar a "monstruosidade" que representa, pelo gongorismo dos termos e sobretudo pelo antagonismo e animosidade que certamente irá criar em relação à leitura e à literatura. Em Outubro cheguei mesmo a abordar este ponto no texto Nunca conseguirão ler um poeta.
Não é escandaloso que um Economista fale da "nova" terminologia: a língua é um património de todos e não um feudo de linguístas, por mais exclusivos que se apresentem.
Ultimamente, e bem, têm-se multiplicado os artigos na comunicação social, pró e contra essa novidade terminológica. De alguns tem vindo a ser dada nota neste blog.
Hoje, permito-me destacar a opinião expressa no Diário de Notícias por Vasco da Graça Moura, com o título As Vestais, e por Vicente Jorge Silva, com o título Deixem-nos trabalhar.
Ah! Hoje dei por mim a consciencializar-me de que vinha trocando o género à TLEBS. TLEBS é um nome feminino, não masculino, nem parece que epiceno. No melhor pano cai a nódoa!...

Argumentação de betão!...

Multiplicam-se as tomadas de posição quanto ao sentido de voto no referendo ao aborto. E utiliza-se um instrumental de argumentos para todos os gostos.
Miguel Relvas, um Deputado social-democrata, antigo secretário-Geral do Partido, assume posição pelo "sim", quando antes era pelo não, e fundamenta, no Diário de Notícias, a sua posição numa razão de modernidade.
"Não podemos ser apenas modernos nas auto-estradas e nas telecomunicações. Evoluí", referiu Relvas!...
Confesso que a argumentação é poderosa e ajustada ao tema!...
Com um pequeníssimo ponto fraco, no entanto: é que, aquando do anterior referendo, já havia auto-estradas e telecomunicações!...

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Trabalho Voluntário, uma distinção social e económica...

Não comemorámos o Dia Mundial do Voluntário – hoje, dia 5 de Dezembro. Quero eu dizer que não foi conferido, entre nós, ao trabalho voluntário, neste dia que poderia ter sido um dia especial, a relevância política e social que merece, assim como às actividades sociais e económicas que dele dependem e ao seu contributo para a humanização da sociedade.
Naturalmente que o voluntariado vive-se todos os dias, em todos os concelhos do País, apenas para dar alguns exemplos, em centenas de instituições de solidariedade social, de hospitais e de escolas e de outras unidades ligadas ao sector social, e sente-se no dia a dia na disponibilidade e boa vontade de milhares de voluntários de todas as classes sociais, das mais diversas áreas de competências técnicas e abrangendo um leque etário muito alargado.
Ora sendo o trabalho voluntário uma força económica significativa, que não gera “despesa”, especialmente despesa pública (em particular na Acção Social, a cargo do Estado, isto é, financiada através dos impostos), e um tributo social distinto, pela vertente humanista que em si encerra, bom seria que esta realidade fosse publicamente valorizada pelo excelente exemplo que constitui e pelo seu grande contributo para ajudar a construir um País melhor, enquanto factor de valorização social e económica. Seria igualmente uma oportunidade de promover a sua força.
Quando comparamos os pesos do trabalho voluntário e do sector não lucrativo no PIB, percepcionamos que são “fracos” em Portugal quando comparados com outros países da União Europeia. O seu potencial de crescimento é grande.
O desenvolvimento do trabalho voluntário será cada vez mais uma oportunidade e um desafio da sociedade civil, impulsionados pela necessidade, cada vez mais presente, de, por um lado, os cidadãos se sentirem mais úteis, mais realizados e mais responsáveis, colocando o seu tempo e o seu conhecimento à disposição de causas sociais e outras que melhorem o bem estar colectivo e de, por outro lado, as empresas oferecerem respostas concretas ao exercício de políticas de cidadania e de responsabilidade social, através de um apoio formal e organizado aos seus colaboradores, preparando-os e motivando-os para o exercício do voluntariado.

Opostos ou, se quiserem, ainda a República

A verdade é que as famílias se detestavam cordialmente. A bem dizer, a República tinha-se instalado no meio, separando os dois prédios, um em frente do outro na mesma rua, como se fosse um fantasma.
José Alves veio com a família para Lisboa quando o filho mais velho acabou o liceu. Quanto a isso, ele tinha ideias claras: quatro filhos, quatro doutores. E olhava de esguelha para a única filha, agarrada ao crochet, condescendendo: “-Um, pode ser genro.”
Mas no prédio em frente morava uma família abastada com duas filhas bem bonitas. A mais velha, sobretudo, com aqueles olhos enormes, um porte altivo, dava nas vistas quando saía de casa para ir às aulas de piano no Conservatório e a vizinhança comentava que ela parecia uma estrela de cinema. Na janela da frente, uns olhos jovens e ardentes seguiam-lhe os passos como quem segue o traço do destino.
José Alves ditou a sentença ao filho: “-Não costumo vê-los na missa ao domingo. Aquilo é gente herege. Tira daí a ideia.”
Na casa da frente, a Conceição, fiel guarda da sua menina, reportou os tímidos mas teimosos avanços do rapazola que lhes seguia os passos e se fazia encontrado no eléctrico. Era estudante no Técnico e estava apaixonado, isso dava bem para ver.
E a matriarca ditou a sentença à filha: “- Era só o que faltava. Aquilo são ratos de sacristia, diz que o pai até andou no seminário. A nossa família é republicana, tens muito por onde escolher, olha o teu primo António, que bonito rapaz…!”
Mas não houve volta a dar-lhe, com a Conceição a trocar as voltas à patroa e a perder o eléctrico pelo caminho, para não ter que delatar os encontros, e a menina a arranjar maneira de ir com uma amiga à missa de domingo.
Casaram 11 anos depois, ao fim de um namoro contrariado que só lhes sublinhou a paixão. As famílias nunca ultrapassaram uma reserva surda que disfarçavam com cerimónia, salvo quando José Alves, cedendo ao seu espírito trocista, invectivava o vizinho: “- Então, compadre, já deu para o peditório da nova Igreja? Bem precisados estamos, que os fiéis já ficam cá fora quando o novo padre reza a missa!” Para ouvir logo a resposta torta da comadre, cortando o impulso conciliador do marido. “-Qual igreja qual quê! Não precisamos cá de santinhos de pau carunchoso!”
E lá seguiam o seu caminho, que era dia de visita dos filhos e dos netos. Ao almoço em casa de uns, mãos bem lavadas e a tabuada na ponta da língua. Depois, atravessava-se a rua e iam ao lanche em casa dos outros, até à missa das 7.
Esta dissidência entrou para o património do novo núcleo familiar como um exercício permanente de tolerância e capacidade de ver as pessoas para além das suas crenças, respeitando cada um conforme os seus actos e não deixando que isso interferisse com o imenso afecto que todos, à sua maneira, foram mestres em suscitar e transmitir…

Deficiências e Incapacidades

O Plano de Acção para a Integração das Pessoas com Deficiências ou Incapacidade foi ontem formalmente apresentado na Amadora pelo senhor Primeiro-Ministro.
Mais uma vez, e independentemente do mérito do plano, não resistiu o Governo à tentação da propaganda, ao fazer o habitual discurso da quantidade: aprovou noventa e não sei quantas medidas.
O tema é, sem dúvida, por demais sério e importante para não ser instrumentalizado. O que se fizer de bem a favor dos cidadãos com deficiência não deveria servir de contraponto ao impacto das opções orçamentais que os vão penalizar, como este anúncio faz suspeitar.
Mas se é sério e importante, não deveria levar a Oposição, e em especial o PSD, a ter uma palavra sobre a matéria? O que fazer para superar esta incapacidade de reagir em assuntos onde não pode existir omissão sob pena de deixar de haver Oposição?

Do TLEBS- Vogalogia e Consoantologia- V

Pois no meu último escrito, ficámos no aparelho fonador, que permite fonar as vogais e as consoantes.
Confesso que, até ao TLEBS, considerava ter conhecimentos bastantes aprofundados no que respeita a vogais e consoantes, da forma de as juntar e de as ler. Mas enganei-me redondamente: não sabia nada de vogalogia nem de consoantologia!....
Quanto à vogalogia, quem pensa saber que o a,e,i,o,u basta é um ignorante. Isso era no tempo de Salazar!... É que é imprescindível conhecer que há vogais orais e nasais, há vogais altas, médias e baixas, e também arredondadas, adiantadas e recuadas!... Quanto às arredondadas, a lógica manda que seja o o; quanto às outras, vá lá saber-se!...
Mas não ficamos por aqui. Se não se souber que também há semi-vogais, sofre de iliteracia profunda. Que também há para vários gostos: orais, nasais, arredondadas, adiantadas e recuadas!...
E as consoantes, Senhor? Pois aqui a variedade é maior. Podem ser, desde logo, surdas e sonoras. Mas é indispensável saber o modo e o ponto de articulação. Porque se não se articulam no ponto, fica tudo estragado. Então aprendam que, quanto ao ponto, as consoantes são labiais, dentais, alveolares, palatais e velares!…E quanto ao modo, podem ser oclusivas, fricativas, nasais, orais, laterais, vibrantes e africadas. E podem combinar-se todas!…Cá por mim, gosto sobretudo de um mix africada, sonora arredondada e alta!...
Para um crianço ou uma criança, a quem esta terminologia se dirige, o domínio completo da vogalogia e da consoantologia é fundamental, para aprender as letras e o seu significado e condição sine qua non para aprender a ler e a escrever!…
Já para indivíduos mais adiantados, por exemplo, para quem escreve num blog digno como o 4R, a importância deste capítulo do TLEBS está em dar pistas para harmonizar devidamente a utilização das letras. O importante é escolher a melhor forma de combinar os diversos tipos de vogais, com os vários especímenes de semi-vogais e os vários géneros de consoantes. Por exemplo, num TLEBS que se preze, nunca se deve combinar uma vogal baixa com uma semi-vogal recuada e uma consoante surda. Ninguém ligará nada ao discurso. Mas a combinação de uma vogal alta com uma semi-vogal nasal e uma consoante vibrante também pode assustar as pessoas, pelo que é desaconselhável também.
Tendo aprofundado o assunto, aqui deixo um bom exemplo de uma boa literatura em TLEBS:
Edgyetc bçotena voteblis lotrnfdesiz folnstexnebs pteqnvcrscemlfri zaunrvs i encdindc i r ronrsbos!
Compreenderam? Quê? Isso não tem qualquer sentido? Mas se é esse mesmo esse o objectivo do TLEBS!... Compreenderam perfeitamente!...

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Sá Carneiro


Faz hoje 26 anos que morreu Sá Carneiro.
Alguns julgam-se os seus sucessores exclusivos e os paladinos das suas ideias. Não. Sá Carneiro era ele e deixou um Partido, o PSD, e não sucessores individuais.
A minha homenagem no 4R.

Surpreendente ou talvez não

Hoje, Kofi Annan fez saber ao mundo que entende que a situação no Iraque é pior do que no regime de Saddam Hussein.
Kofi Annan é o exemplo vivo de que, nalguns cargos, a coragem de quem os ocupa só surge com o fim do mandato, à medida que a responsabilidade se vai tornando cada vez mais leve.
Há tempos, a propósito de um caso da política doméstica, um amigo dizia-me que a sobrevivência em alguns lugares alimenta-se de elefantes. Annan mostrou uma enorme capacidade de digestão!
A situação catastrófica no Iraque não é de agora. Só um absoluto insensível não a pressentiria há muito. Só um cego não a veria quando começou a perceber-se o erro nas motivações da guerra. A denúncia de Annan, essa sim, é de agora, a escassos dias de cessar o seu mandato, com o propósito de que a História não registe o cúmplice conformismo do cessante Secretário-Geral das NU.
Engana-se. Kofi Annan vai nela figurar como o homem que, tendo um estatuto que o habilitava - como a nenhum outro - para o arbitramento da paz, foi incapaz de um gesto para mudar o sangrento curso das coisas.
E registará mais. Não deixará perder a memória de que a coragem lhe chegou na hora em que a simpatia da Administração norte-americana deixou de valer.

hMaxi-K

A terapêutica génica irá constituir no futuro uma das principais armas para combater muitas afecções. Algumas têm sido alvo de atenção, nomeadamente, as que provocam nas crianças gravíssimas deficiências imunológicas, caso dos “meninos-bolha”. No entanto, em termos práticos têm ocorrido muitos problemas.
Agora apareceu um estudo em que o investigador conseguiu transferir um gene, o hMaxi-K, capaz de estimular o relaxamento dos músculos lisos do pénis, graças à criação de canais adicionais de potássio. O efeito deste gene persiste durante vários meses, eliminando no futuro as actuais drogas utilizadas para o tratamento da disfunção eréctil. Claro que há, ainda, muito a fazer para chegar a uma utilização plena. Mas, atendendo à elevada prevalência da disfunção e à procura de soluções, não temos dúvidas sobre o que o futuro nos reserva. Acresce que as técnicas a utilizar poderão constituir uma forma de garantir o sucesso de tratamento de outras situações mais problemáticas, sobretudo as que atingem as crianças.
Atendendo à prevalência da situação, ainda nos arriscamos assistir ao nascimento de uma nova espécie humana geneticamente modificada: Homo sapiens sapiens hMaxi-K