A Agência Espacial Europeia lançou uma campanha para recrutamento de quatro astronautas a que poderão concorrer jovens portugueses. Aqui está uma boa oportunidade para que um português possa ir para o espaço desfrutar in loco uma forma de liberdade que muitos deverão já ter aspirado ao longo das suas existências.
Esta notícia recordou-me “O Prisioneiro de Sintra” (1958). Nesta obra, Paul Morand centrou a sua atenção e análise na decadência de uma velha família portuguesa, melancólica de um passado muito rico. Farto do conforto aristocrático e bolorento do solar de Sintra, em que vegetavam a avó petulante e o manaça do pai, o jovem Manuel Fontarcada sonha que um português deve ser o protagonista de uma aventura que coloque o nosso país na linha da frente de forma semelhante às odisseias dos Quinhentos.
...Como o Manuel nunca mais aparecia, Dona Sidónia interpelou o seu filho, Dom Eduardo, se o neto descia ou não para o almoço. Estavam já a tomar o café, quando Crisóstomo, o mordomo, “trouxe uma carta numa bandeja de acaju”. Dom Eduardo passou a ler: “Peço desculpa. Não consigo estar mais tempo em casa, não mandem ninguém à minha procura. Vou para muito longe, inscrever-me como voluntário do espaço. Quero que um português seja o primeiro a desembarcar noutro astro...Ofereço a minha vida a essa primeira viagem de um foguetão. Não me considerem louco, porque assim foi julgado Magalhães em São Lúcar, quando içou a âncora...”
Nunca mais ninguém soube do paradeiro de Manuel. Passados 50 anos já não deverá ter idade para se inscrever num projecto astronáutico, mas, pelo menos, conseguiu libertar-se da prisão de Sintra.
Hoje, muitos jovens também devem sentir um desejo semelhante, tentando fugir das novas prisões-jardins que se vão construindo à imagem de uma nostalgia de um passado mais recente. Prisões-jardins de betão, por exemplo, fazendo fé da notícia de que Lisboa é a região da UE com mais auto-estradas, já para não dizer que o nosso país é o que tem mais auto-estradas por habitante e por quilómetro quadrado! E vai continuar, com mais betão, com mais auto-estradas, com mais pontes, com mais aeroportos, com TGV e muitas obras faraónicas, esquecendo-se os responsáveis de abrir as portas das sinistras prisões da ignorância, da iliteracia, do atraso tecnológico e científico, não obstante as campanhas pontuais que pretendem provocar choques mas que não produzem mais do que umas cócegas mais ou menos hilariantes. Mesmo os esforços de alguns mecenas não conseguem ultrapassar certas mentalidades que começam a cristalizar entre os mais novos. Veja-se a reportagem sobre o “Champimóvel”, que custou um balúrdio de massa, um milhão de euros, com o intuito de entusiasmar os miúdos para a área da ciência. Louvável, sem sombra de dúvida. No entanto, as respostas de duas crianças, depois de terem assistido ao espectáculo científico, são elucidativas. O jornalista perguntou-lhes se eles gostariam de vir a ser um dia cientistas. Respostas de dois putos sorridentes: - Não! Prefiro ser jogador de futebol. O outro: - Eu também! Vá lá, não terem afirmado: “Eu quero ser ministro”...
Ainda são novinhos!
Esta notícia recordou-me “O Prisioneiro de Sintra” (1958). Nesta obra, Paul Morand centrou a sua atenção e análise na decadência de uma velha família portuguesa, melancólica de um passado muito rico. Farto do conforto aristocrático e bolorento do solar de Sintra, em que vegetavam a avó petulante e o manaça do pai, o jovem Manuel Fontarcada sonha que um português deve ser o protagonista de uma aventura que coloque o nosso país na linha da frente de forma semelhante às odisseias dos Quinhentos.
...Como o Manuel nunca mais aparecia, Dona Sidónia interpelou o seu filho, Dom Eduardo, se o neto descia ou não para o almoço. Estavam já a tomar o café, quando Crisóstomo, o mordomo, “trouxe uma carta numa bandeja de acaju”. Dom Eduardo passou a ler: “Peço desculpa. Não consigo estar mais tempo em casa, não mandem ninguém à minha procura. Vou para muito longe, inscrever-me como voluntário do espaço. Quero que um português seja o primeiro a desembarcar noutro astro...Ofereço a minha vida a essa primeira viagem de um foguetão. Não me considerem louco, porque assim foi julgado Magalhães em São Lúcar, quando içou a âncora...”
Nunca mais ninguém soube do paradeiro de Manuel. Passados 50 anos já não deverá ter idade para se inscrever num projecto astronáutico, mas, pelo menos, conseguiu libertar-se da prisão de Sintra.
Hoje, muitos jovens também devem sentir um desejo semelhante, tentando fugir das novas prisões-jardins que se vão construindo à imagem de uma nostalgia de um passado mais recente. Prisões-jardins de betão, por exemplo, fazendo fé da notícia de que Lisboa é a região da UE com mais auto-estradas, já para não dizer que o nosso país é o que tem mais auto-estradas por habitante e por quilómetro quadrado! E vai continuar, com mais betão, com mais auto-estradas, com mais pontes, com mais aeroportos, com TGV e muitas obras faraónicas, esquecendo-se os responsáveis de abrir as portas das sinistras prisões da ignorância, da iliteracia, do atraso tecnológico e científico, não obstante as campanhas pontuais que pretendem provocar choques mas que não produzem mais do que umas cócegas mais ou menos hilariantes. Mesmo os esforços de alguns mecenas não conseguem ultrapassar certas mentalidades que começam a cristalizar entre os mais novos. Veja-se a reportagem sobre o “Champimóvel”, que custou um balúrdio de massa, um milhão de euros, com o intuito de entusiasmar os miúdos para a área da ciência. Louvável, sem sombra de dúvida. No entanto, as respostas de duas crianças, depois de terem assistido ao espectáculo científico, são elucidativas. O jornalista perguntou-lhes se eles gostariam de vir a ser um dia cientistas. Respostas de dois putos sorridentes: - Não! Prefiro ser jogador de futebol. O outro: - Eu também! Vá lá, não terem afirmado: “Eu quero ser ministro”...
Ainda são novinhos!






