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sábado, 12 de abril de 2008

“Um astronauta português”...

A Agência Espacial Europeia lançou uma campanha para recrutamento de quatro astronautas a que poderão concorrer jovens portugueses. Aqui está uma boa oportunidade para que um português possa ir para o espaço desfrutar in loco uma forma de liberdade que muitos deverão já ter aspirado ao longo das suas existências.
Esta notícia recordou-me “O Prisioneiro de Sintra” (1958). Nesta obra, Paul Morand centrou a sua atenção e análise na decadência de uma velha família portuguesa, melancólica de um passado muito rico. Farto do conforto aristocrático e bolorento do solar de Sintra, em que vegetavam a avó petulante e o manaça do pai, o jovem Manuel Fontarcada sonha que um português deve ser o protagonista de uma aventura que coloque o nosso país na linha da frente de forma semelhante às odisseias dos Quinhentos.
...Como o Manuel nunca mais aparecia, Dona Sidónia interpelou o seu filho, Dom Eduardo, se o neto descia ou não para o almoço. Estavam já a tomar o café, quando Crisóstomo, o mordomo, “trouxe uma carta numa bandeja de acaju”. Dom Eduardo passou a ler: “Peço desculpa. Não consigo estar mais tempo em casa, não mandem ninguém à minha procura. Vou para muito longe, inscrever-me como voluntário do espaço. Quero que um português seja o primeiro a desembarcar noutro astro...Ofereço a minha vida a essa primeira viagem de um foguetão. Não me considerem louco, porque assim foi julgado Magalhães em São Lúcar, quando içou a âncora...
Nunca mais ninguém soube do paradeiro de Manuel. Passados 50 anos já não deverá ter idade para se inscrever num projecto astronáutico, mas, pelo menos, conseguiu libertar-se da prisão de Sintra.
Hoje, muitos jovens também devem sentir um desejo semelhante, tentando fugir das novas prisões-jardins que se vão construindo à imagem de uma nostalgia de um passado mais recente. Prisões-jardins de betão, por exemplo, fazendo fé da notícia de que Lisboa é a região da UE com mais auto-estradas, já para não dizer que o nosso país é o que tem mais auto-estradas por habitante e por quilómetro quadrado! E vai continuar, com mais betão, com mais auto-estradas, com mais pontes, com mais aeroportos, com TGV e muitas obras faraónicas, esquecendo-se os responsáveis de abrir as portas das sinistras prisões da ignorância, da iliteracia, do atraso tecnológico e científico, não obstante as campanhas pontuais que pretendem provocar choques mas que não produzem mais do que umas cócegas mais ou menos hilariantes. Mesmo os esforços de alguns mecenas não conseguem ultrapassar certas mentalidades que começam a cristalizar entre os mais novos. Veja-se a reportagem sobre o “Champimóvel”, que custou um balúrdio de massa, um milhão de euros, com o intuito de entusiasmar os miúdos para a área da ciência. Louvável, sem sombra de dúvida. No entanto, as respostas de duas crianças, depois de terem assistido ao espectáculo científico, são elucidativas. O jornalista perguntou-lhes se eles gostariam de vir a ser um dia cientistas. Respostas de dois putos sorridentes: - Não! Prefiro ser jogador de futebol. O outro: - Eu também! Vá lá, não terem afirmado: “Eu quero ser ministro”...
Ainda são novinhos!

Entradas de leoa!...

De acordo com os resultados da concertação entre Ministério da Educação e Sindicatos, vamos ter avaliação dos professores. Exigentíssima, à semelhança do que se passa com os alunos.
Exactamente nos termos que o ME vem a propor desde Janeiro, conforme refere a Ministra da Educação, os Professores irão ser severamente avaliados, em primeiro lugar, pela sua própria auto-avaliação. Depois, pela sua assiduidade e pelo cumprimento dos serviços distribuídos. No fim, pela participação nas acções de formação obrigatórias. Quatro poderosos módulos de avaliação, quatro!...E têm ainda que cumprir a enormidade de preencher obrigatoriamente a ficha de avaliação, como condição de passarem com uma boa classificação.
Para mim, são exigências a mais!... Os professores não são menos do que os alunos. E estes passam de qualquer forma, faltando ou não faltando, sabendo ou não sabendo.
Exigir que o Professor compareça na escola, que esteja presente nas aulas e nas formações obrigatórias e que se auto-avalie é um verdadeiro abuso, um exercício descarado e reaccionário do poder patronal.
No fim, tendo a Ministra declarado que não tinha havido cedências, compreendi que era mesmo isto o que o Ministra queria. Mas tendo os Sindicatos declarado que houve cedência do Ministério, compreendi que era mesmo isto o que os Sindicatos queriam.
Os bons espíritos encontram-se sempre e a exigente avaliação dos professores é um dado adquirido!...
Podemos estar descansados. A bem da Nação!...

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A ética de um país doente!...

O 4R aceitou o convite do Expresso para comentar antecipadamente alguns temas que irão fazer parte da sua próxima edição. Um dos temas tem a ver com a “transferência” de Jorge Coelho para a administração da Mota-Engil. Não do ponto de vista legal, que ninguém discute, mas do ponto de vista ético: faz sentido que ex-membros do Governo trabalhem em sectores que tutelaram?
Já me tinha referido ao assunto, aqui, no 4R, e vou retomar o tema.
Por mim, gostaria que um cidadão ascendesse ao Governo, tendo como referência o mérito e qualidades demonstradas na sua carreira profissional, no Estado ou nas empresas. E desgosta-me que se possa ascender a cargos governativos, apenas na base de militância numa qualquer juventude partidária, na assessoria a algum membro do governo, na exclusividade de uma carreira partidária.
É natural que um quadro de uma empresa ou um gestor que seja chamado circunstancialmente ao Governo, por razão do seu mérito, volte à vida empresarial. A aceitar-se como válido o princípio de considerar tal facto uma promiscuidade intolerável, o campo de recrutamento ministerial fica reduzido a um grupo, o dos funcionários, públicos ou partidários. Perdendo-se muita gente competente para a gestão pública. Mas se um funcionário teve a oportunidade de se distinguir no Governo, também fica condenado a ser sempre funcionário, impedido de dar contributo válido num sector que passou a conhecer bem.
Por isso, um cidadão que exerceu funções ministeriais tem que ser livre de poder aceitar convites para funções empresariais, sem ferir princípios éticos, e depois de um razoável “período de nojo”.
Tem que poder, num Estado normal e são.
Acentuar a promiscuidade é negar que o Estado tenha regras de funcionamento ou dizer que não se cumprem. Na primeira hipótese, o que há a fazer é definir essas regras; na segunda, o problema é outro, é um caso de polícia e de Tribunal. Ponha-se é a justiça a funcionar.
Vive-se em Portugal um clima doentio de total desconfiança e de inversão de valores: não se respeita a presunção de inocência e se um simples arguido persiste em continuar em funções é condenado duplamente pela opinião pública; um ex-ministro na vida empresarial é visto como um corrupto passado ou como um potencial corruptor.
Como vem dizendo o nosso colega de blog, Ferreira de Almeida, Portugal está um país gravemente doente!...

Entrevista a Yuri Kozyrev -- O fotojornalismo actual

A Quartarepública aceitou o repto do Expresso com o seu habitual entusiasmo pelas novas descobertas da blogosfera e aqui estamos a divagar sobre um dos temas.
A próxima edição do Expresso inclui, no caderno Actual, uma entrevista com o fotojornalista Yuri Kozyrev, que vive em Bagdad e que assume o jornalismo como uma missão, ou uma “causa” através da qual tenta “melhorar” a vida das pessoas que fotografa. No entanto, parece que a adesão a esta forma de intervenção vai diminuindo e este tipo de reportagens não tem hoje a colocação garantida de outros tempos, e até o próprio evita responder à pergunta "porque é que há-de alguém gastar a vida numa guerra que não é a sua?"
Talvez as pessoas já estejam saturadas de estímulos constantes à sua compaixão, à sua revolta ou à sua adesão a todo o tipo de interpelações. Para conseguirem alguma eficácia, uma vez que a concorrência é grande e os meios múltiplos, as “causas”, ou os seus defensores solitários, como é o caso dos fotojornalistas, usam imagens cada vez mais agressivas e insistentes, criando níveis crescentes de insensibilidade a quem as vê. Para informar, para transmitir? Não. Para impressionar. Para conquistar adeptos, que é como quem diz para condicionar os juízos e tentar impor os seus valores. Eles, que estão lá e viram, vêm perturbar os que não sabem, querem levá-los lá, para que vejam e sintam como eles. Para atormentar, se for preciso.
Por isso as pessoas, carregadas de tormentos, já não querem ser alvo de mais emoções e preferem, como diz a reportagem, ver belas e artísticas fotografias do deserto ou as imagens captadas num impulso genuíno pelos simples habitantes. Defendem-se, e por isso folheiam nas revistas as páginas com massacres, catástrofes ou desgraças pessoais com um distanciamento de quem já sabe que tem que se precaver de quem o quer acusar de continuar impávido depois de ter visto “a causa”.
Um fotojornalista é invasivo quando não quer mostrar imagens mas apresentar temas. Nesse caso não é um artista, nem um repórter, é um activista que pode também ser artista ou repórter. As pessoas nem sempre querem ser confrontadas com causas, e muito menos querem sê-lo o tempo todo, página a página, programa a programa, todos os dias, das mais próximas às mais longínquas, das mais simples às mais sofisticadas. Temos a causa dos cães abandonados, com a fotografia do animal esquelético e triste, quase a ser atropelado por um arrogante carro de luxo. Como temos a causa do aquecimento global, com os glaciares a derreter e as gretas da terra ressequida a marcar o caminho dos pés descalços e poeirentos. Entre um pobre animal e a humanidade, um rosário infindável de urgências que exigem a nossa sensibilidade e reclamam a nossa acção, já! As pessoas a lutar por um pouco de felicidade e a desgraça a entrar pelos olhos dentro, a todo o tempo, com imagens brutais e impiedosas, insidiosamente acusadoras...
O papel do fotojornalista não é o de um mero observador atento mas o de um mensageiro que não deixa incólume o que retrata. Compõe, avalia e fixa, tal como escolheu mostrar. Sempre que tocamos uma coisa, transformamo-la, para o bem e para o mal e muitas vezes, até por cobardia, não se valoriza isso, para deixar menos claro o compromisso.
É muito interessante ler, a este propósito, o romance de Arturo Perez Reverte, “O Pintor de Batalhas”, que conta a história de um fotógrafo de guerras que durante muito tempo julgou que as guerras eram palcos onde ele se movia com a sua máquina, com a sua técnica, escolhendo planos e imagens que depois divulgava como se a tanto se resumisse a sua acção. Mero espectador, mero divulgador, assim se entendia ele, libertando-se a cada momento de cada escolha que fazia.
Enganava-se, e vê com surpresa as consequências de uma imagem que divulgou, que ganhou vida própria, causou desgraças, suscitou vinganças e, finalmente, vingou-se dele, o responsável que lhe deu vida. Julgava que a sua intervenção acabava quando mandava para publicação, endossava e esquecia o que divulgava, e eram homens, vidas, mortes, que continuavam o seu caminho através das fotografias, desvendando ou construindo outras histórias. A outra terrível constatação foi a de que, pelo facto de lá estar a fotografar, poder ter determinado a acção, o grau dela, passando a ser quase o autor das atrocidades. Eles matavam para ele ver, para fazer o clic da máquina e apresentar, teatro de guerra, não é como lhe chamam? Quem é actor e quem é espectador?
Vale bem a pena ler, é uma brilhante reflexão sobre a comunicação, a força da imagem, as falsas isenções, ainda que inconscientes, de quem ouve, vê e transmite.
É nesse livro que alguém diz ao repórter que “o mundo está saturado de malditas fotos”...

quinta-feira, 10 de abril de 2008

4R e EXPRESSO


O ´Expresso´ desafia-nos a comentar, por antecipação, algumas das notícias que publicará na edição seguinte. Aceitamos, com muito gosto, o convite. E sempre que o tema for estimulante e existir disponibilidade, cá nos encontrarão semanalmente a EXPRESSAR opiniões.

A Natureza é “sábia”! E o Homem?

A natureza “sabe” fazer as coisas. Como os machos de diferentes espécies são mais frágeis do que as fêmeas – os seres humanos seguem a mesma regra -, a “Mãe” faculta uma maior produção dos primeiros a fim de conseguir algum equilíbrio com as segundas. Mesmo assim, ao fim de algum tempo, o fiel da balança pende sempre para o lado feminino. Imaginem, falando da nossa espécie, se nascessem tantos rapazes como raparigas. Seria uma tragédia! Vá lá, os 105/106 rapazes que nascem por 100 meninas, apesar de não serem suficientes, sempre vão minimizando alguma coisita.
A fragilidade biológica dos fetos do sexo masculino, aliada às agressões ambientais, a que são muito mais sensíveis, estão na base de um desequilíbrio prematuro que é bastante preocupante, ao ponto de, nalguns lugares, nascerem mais meninas do que meninos. Mas se é preocupante este fenómeno, o mesmo poderemos afirmar quando nascem muito mais meninos do que meninas, como acontece na China, Ilha de Guam ou Coreia do Sul, só para dar alguns exemplos, em que por 100 meninas nascem 115 meninos! As razões são fáceis de compreender, atendendo ao “menor” valor das meninas naquelas bandas. Para o efeito, as ecografias contribuíram para este fenómeno. Agora, graças a técnicas muito simples, socorrendo a uma pequena amostra de sangue de uma grávida, durante a sétima ou oitava semana de gestação, é possível saber o sexo do bebé. Tais facilidades podem originar comportamentos condenáveis em termos de selecção sexual. E não é preciso ir para a China ou Índia para constatarmos as consequências. Nos Estados Unidos, a razão meninos e meninas à nascença mantém-se constante nos brancos independentemente do número de filhos. No entanto, nos descendentes de origem asiática, a razão, no caso do primeiro filho, é o habitual, 105 para 100, mas, caso a primeira criança for do sexo feminino, ao segundo filho a razão de masculinidade aumenta para 117/100, e se os dois primeiros filhos forem meninas a razão de masculinidade ao terceiro filho aumenta para 150/100! Este aumento de 50% em nascimentos masculinos diverge, substancialmente, do verificado nos brancos em que se mantém constante seja qual for o número de filhos. Sob o ponto de vista probabilístico é impossível que este fenómeno seja natural, evidenciando uma “selecção sexual” para a qual não é estranho as novas tecnologias. De facto, enviar umas gotas de sangue, pagar cerca de 100 euros por um teste e abortar química ou mecanicamente, nesta fase do desenvolvimento fetal, é uma nova realidade norte-americana, traduzindo a perpetuação geracional de comportamentos sociológicos de origem. Este achado surpreendeu as autoridades norte-americanas. Sendo assim, as facilidades tecnológicas permitem, facilmente, diagnosticar o sexo da criança mesmo às cinco semanas de gestação, contribuindo para facilitar a selecção sexual através de condutas reprováveis para as quais não se evidenciam grandes soluções. Mesmo o factor de integração sociológica, imposto pelas sociedades de acolhimento, parece não ter força suficiente para eliminar certas condutas que são mais do que condenáveis. Lá vai o tempo, em que só no momento do parto é que se sabia se era menino ou menina...
Custa a aceitar que nos tempos actuais, e não obstante o reconhecimento da maior resistência biológica do sexo feminino, muitas meninas acabem por sucumbir à fraqueza de muitos progenitores...

FMI: já não entende a economia portuguesa?

O FMI divulgou ontem previsões de crescimento da economia portuguesa que são absolutamente surpreendentes por muitas e variadas razões.
Com efeito, prevê o FMI que a economia portuguesa cresça apenas 1,3% em 2008, abaixo da média da zona Euro (1,4%).
Como é possível o FMI por em causa uma taxa de crescimento de 2,2%, que sabemos absolutamente garantida - constitucionalmente garantida - e para a obtenção do qual as agências de comunicação tanto têm trabalhado e vão continuar a trabalhar, de forma patriótica, quase sem remuneração como sabemos (recebendo apenas o estritamente necessário para o magro sustento de suas famílias)!
E como é possível o FMI vir questionar a também patriótica previsão/garantia há 2 dias oferecida pelo Gov/BP em memorável declaração na C. C. Luso Britânica, de um crescimento nunca inferior ao da zona Euro e provavelmente superior ao da zona Euro...
Algo de errado se passa no FMI, mas afigura-se ser algo de muito grave.
Parece que esta grande Instituição (não confundir com o SLB) deixou de ter os pés assentes na Terra e provavelmente se encontra a levitar ou terá mudado a residência para outro planeta.
Não sei – e nem me interessa – o que é que o mesmo FMI prevê acerca da inflação em Portugal para 2008...provavelmente uma taxa superior a 2,1%...
O FMI não é certamente capaz de avaliar as vantagens do controlo da inflação por decreto - da protecção jurídica da inflação contra o assédio imoral dos preços - assegurando às populações um bem estar estatístico e abstracto capaz de as compensar dos malefícios da subida dos preços dos bens que por deformação consumista são obrigadas a adquirir...
Para culminar a sua heresia sobre a nossa economia, o FMI chama a atenção para o aumento do défice externo...
O FMI ainda não entendeu uma lição magistral proferida em Fevereiro de 2000 em Portugal, segundo a qual discutir o défice externo deixou de fazer qualquer sentido a partir do momento em que aderimos ao Euro...é a mesma coisa que falar do défice externo do Mississipi...
Que interessa o endividamento externo?
Que importa o País endividar-se até “à ponta dos cabelos”?
Se essa dívida é agora expressa na nossa própria moeda, o Euro, é evidente que já não temos necessidade de a pagar...os credores externos não têm qualquer interesse em receber como facilmente se percebe!
O que iriam eles fazer com esse dinheiro se nós estamos dispostos a pagar-lhes um juro mais elevado?!
Se este ano mais de 5% do PIB vão ser aplicados no pagamento de juros e rendimentos ao exterior e o défice corrente vai ultrapassar 10% do PIB, os credores devem sentir-se imensamente felizes...
Será que o FMI já não entende a economia portuguesa?
Razão têm as nossas autoridades para dizer que as previsões do FMI são inconsistentes...

O médico bolonhês!...

Ao ouvir as notícias televisivas da manhã, levei novamente um tratamento de choque, ao ser várias vezes alertado para o perigo de uma série de doenças, da necessidade de diagnóstico precoce, e copiosamente informado dos sintomas e das formas de tratamento, que estão ali mesmo à mão de semear.
Pensando bem, julgo que as televisões nos querem pôr a rir, logo ao romper da aurora, falando-nos assim das doenças. Só com enorme sentido de humor se pode vir falar do remédio ao virar da esquina. De facto, é fácil; as filas de espera é que estorvam um pouco para lá chegar!...
Mas, a bem dizer, nem é preciso. Os diagnósticos são tão exaustivos e bem ensinados, até com recurso aos audiovisuais, que qualquer um é médico. Eu, pelo menos, com tanto ensinamento, já me considero bacharel em medicina pelo método bolonhês. E vou pedir a minha inscrição na Ordem dos Médicos Bacharéis de Bolonha. Aliás, já vou praticando em casa, receitando aos meus filhos. Eles é que não acreditam ainda e dizem-me sempre: mas agora tens a mania de que és médico? Bem, é preciso dar tempo ao tempo!...Claro que, neste interregno, e supletivamente, vou dando uns telefonemas aos meus colegas médicos e amigos, Dr. Luís Sá Pereira e Prof. Massano Cardoso!...
Depois deste meu exemplo, a auto-medicina é o corolário natural e o futuro: todos passamos a ser médicos. Aliás, a forma correcta de acabar com as filas de espera.
Tanto é assim que, ao terminar o pequeno-almoço, uma televisão me levou à Feira da Saúde, que está a decorrer não fixei em que pavilhão multi-usos deste país. Chega-se lá e compra-se a dose que se pretende!...
Assim, a Feira da Saúde é um verdadeiro serviço público, para democratizar a saúde. Não tarda, lá teremos uma secção especializada, tipo Pavilhão da Saúde, na Feira dos Ciganos do Relógio, na Feira de Carcavelos ou na Feira da Ladra. É só chegar, é só comprar!...
Com diagnóstico precoce e tal serviço de proximidade, está aí a garantia de vida eterna, mesmo neste mundo!...

Falta o pão, mas o circo abunda...

O Governo aprovou há tempos um diploma que entregava a gestão dos espaços ribeirinhos à Câmara Municipal de Lisboa.

O mesmo Governo constituiu uma sociedade para gerir os espaços ribeirinhos que descobriu finalmente fazerem parte da Cidade e que quis, por via de lei, entregar à Câmara.
A sociedade criada pelo Governo para gerir os espaços que se destinavam a ser administrados pela autarquia, não integra a Câmara de Lisboa por esta não estar em condições de realizar a sua parte no capital social - segundo informa a imprensa, cerca de 4 milhões de euros.

O Governo já nomeou José Miguel Júdice, exímio especialista em assuntos ribeirinhos, administador da sociedade que vai gerir os espaços que o Governo entregou à Câmara para gerir, sociedade em que a Câmara não quis entrar, pese embora ter como escopo social intervir nos espaços que o Governo quer entregar à Câmara.

O administrador da sociedade que vai gerir os bens do domínio público que o Governo quer entregar à Câmara para devolver à Cidade, apareceu ontem na sessão do Executivo camarário para expor aos senhores vereadores o seu plano para a zona riberinha de Lisboa.

A Câmara que não integra a sociedade porque não tem 4 milhões, ouviu da boca do senhor administrador de uma zona da cidade que era suposto a Câmara passar a administrar, dizer que vai fazer uma festarola com fogo de artificio, ali para os lados de Belém e do Mosteiro dos Jerónimos, orçamentada em 5 milhões de euros.

A minoria maioritária aplaude, a oposição diz que tem dúvidas, e o Zé, que faz sempre falta às estórias de Lisboa e que segundo a Al Jazeera é mais herói que o entalado Martim Moniz, diz que não é nada disto e que Judice vai ser afinal uma "espécie de capataz da Câmara".

Lisboa, capital do circo.

Adenda: o Dr. José Miguel Judice já desmentiu que estivesse nas suas intenções a festarola. Afinal a proposta é construir um suporte a eventos naquela zona, que seria financiado pelo Instituto do Turismo de Portugal. E mais. Não será uma despesa (porque não é para queimar) mas um investimento (porque é para ficar)

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Apito encarnado!...

Transcreve-se do Record. Jorge Coroado confessou um "crime" cometido por si num Benfica-FC Porto e que envolveu o benfiquista Poborsky e Vítor Baía.
"O guarda-redes do FC Porto saiu aos pés do jogador do Benfica e não me pareceu grande penalidade quando este caiu mas o meu árbitro assistente continuou a correr para a bandeirola de fundo e segui a sua indicação", contou. A surpresa veio a seguir: "Quando já tinha advertido o Vítor Baía com um cartão amarelo e estava junto da marca de grande penalidade, o meu assistente correu para o centro do terreno e deu-me a indicação de que a falta tinha sido ao contrário, mas já tinha advertido o jogador do FC Porto e já estava na marca do penálti e não voltei atrás".
Pois é!...

Off shore: operações financeiras do Estado. Mas afinal em que é que ficamos?

A propósito das notícias recentes que deram conta que entidades do Estado utilizaram praças off-shore para realizar operações financeiras - num montante total de 235 milhões de dólares no ano de 2006 - o Ministro do Trabalho e da Segurança Social em entrevista ao Expresso do último fim-de-semana afirma o seguinte:

- Expresso: Faz sentido o Estado investir em paraísos fiscais?
- MTSS: Não, de maneira nenhuma. O Estado tem obrigação de rentabilizar o dinheiro dos contribuintes da melhor forma, de acordo com as regras de prudência e exigência.
- Jornalista: Tem conhecimento que o fundo da Segurança Social esteja a ser utilizado neste tipo de investimento?
- Expresso: A existir alguma situação – que admito que exista – será sempre ultra minoritária. E transitória.

O MSTT esteve bem na primeira resposta, mas esteve mal porque contrariou a opinião do governo que integra. Esteve bem na segunda resposta porque não quis negar a existência de aplicações financeiras em off-shore por parte de um património que está sob a sua tutela (Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social), mas esteve mal porque não basta parecer é preciso ser!

Islândia no Top do desenvolvimento humano


Parece que a Islândia, esse país cinzento e frio, ganhou o primeiro lugar no ranking dos países onde as pessoas são mais felizes e é o lugar do mundo onde se pode dizer que se vive melhor. De acordo com um artigo publicado na revista do El Pais do passado domingo, os habitantes desse paraíso sabem educar crianças saudáveis e felizes, vivem descontraídos porque os seus problemas têm respostas adequadas, são práticos e sem preconceitos e têm uma noção de sociedade solidária, multicultural, que só tem paralelo nas aldeias dos países africanos. Alguns dados estatísticos são bem expressivos: índice de natalidade mais elevado da Europa e idade jovem das mães, apesar da elevada taxa de trabalho feminino, 6º rendimento per capita do mundo; maior número de pessoas que compram livros, elevada expectativa de vida, incrível crescimento das exportações, cultura sistemática de protecção do ambiente.
Não sei se a explicação para este fenómeno está na importância das mulheres nessa sociedade – a Islândia foi o 1ºpaís a eleger uma mulher para Presidente, há 28 anos – mas para já podemos acreditar nos motivos que adianta o antigo presidente da Câmara de Reikiavik para terem educação gratuita de alta qualidade, serviços públicos de saúde tão competitivos que a clínica privada só se ocupa dos serviço estéticos de luxo, captarem cérebros e fixarem empresas, entre outros sucessos retumbantes. Diz o ex presidente da Câmara, médico e político (a participação política e cívica é geral) que essa prosperidade “é porque os Governos adoptam políticas progressistas e sensatas e a matéria prima humana da ilha é forte, pragmática e imaginativa. Há uma relação íntima entre a saúde do país e a qualidade das decisões políticas que se tomam (…) para a saúde de um pais, mais importante que não fumar são os fenómenos sociais em que fazemos finca pé – igualdade, paz, democracia, água limpa, educação, energia renovável e direitos da mulher.”
Parece simples, não é? Se não fosse tão frio apetecia dar lá um saltinho só para ver de perto…

Agarra que é ladrão!...

Acabei de ouvir num noticiário televisivo e pensei que estava a sonhar. Mas não; é que ouvi mesmo.
Uma revista da Câmara do Porto publicou uma fotografia que dizia ser de um arrumador. O visado, por não ser ou não se sentir arrumador, a notícia não explicitava, reagiu através de uma acção de difamação contra o Presidente da Câmara, Rui Rio.
Rui Rio foi ontem ouvido por um juíz, que lhe fixou termo de identidade e residência!...
Certamente para prevenir que Rui Rio fuja, para evitar ser julgado. Devidamente disfarçado, claro, para não ser reconhecido!...
Não sei qual a zona que Rui Rio pode frequentar, nem mesmo se abrange a Área Metropolitana do Porto, da qual é Presidente. De qualquer forma, ficou politicamente enfraquecido na sua acção, que exige deslocações normais e frequentes. Além do mais, um vexame desproprcionado. Desproporcionado, gratuito e absurdo!...
Dantes, dizia-se: agarra que é ladrão!...E agora, o que apetece dizer da justiça?

terça-feira, 8 de abril de 2008

Polícia Judiciária ao relvado!...

Agora que seja necessário que os agentes da Polícia Judiciária entrem em campo...
Belo post, o de João Villalobos, no Corta-Fitas

Crise do ARROZ: exportadores não vendem; preços disparam; importadores sofrem

I. A situação das matérias-primas alimentares está a tornar a vida difícil a muitos países e a muita gente, sendo tema recorrente das notícias económicas.
A procura de bens alimentares tem sido pressionada por dois factores principais:
- O rápido crescimento do consumo nas economias emergentes, em especial na China e na Índia, beneficiando do crescimento económico;
- A política de subsidio dos bio-combustíveis em vigor nos países mais desenvolvidos, com o consequente crescimento das áreas de cultura cerealífera destinadas à produção dos bio-combustíveis, em detrimento de outros usos.
A estes factores de pressão da procura, junta-se uma oferta que tem ficado aquém do esperado, por diversos motivos, conjunturais e estruturais.

II. O caso do arroz tem características próprias, pois aconteceu que os principais produtores mundiais - China, Índia, Vietnam e Egipto - defrontados com um crescente consumo de arroz por parte da população residente, entre outras razões como forma de fugir ao encarecimento de outros bens alimentares, resolveram este ano suspender temporariamente a exportação de arroz.
Resultado: os preços do arroz dispararam nos mercados internacionais e nacionais, tendo mais do que duplicado nos últimos 3 meses e subido 50% só nas duas últimas semanas.

III. Esta crise afecta sobretudo as populações dos países de rendimentos com rendimentos mais baixos, em Africa e na Ásia, cuja dieta alimentar é feita em grande parte na base do arroz.
Alguns desses países ainda tentaram travar as importações, no início do ano, quando começaram a assistir à escalada dos preços, na expectativa de que fosse passageira - acabando por ser fortemente penalizados pois os preços subiram ainda muito mais...
Agora, perante esta nova realidade, suspenderam os direitos de importação que incidiam sobre o produto e estão mesmo apostados em subsidiar os preços no consumidor - política quase sempre pouco eficaz, pois se defronta com fenómenos de açambarcamento por intermediários especuladores, corridas ao consumo, quando não mesmo episódios de quase motim como se tem já verificado.

IV. Na Europa, sem deixar de ser também um problema social para as famílias de mais baixos recursos, releva-se o forte contributo para a subida dos preços e da inflação, sendo agora visível que o agravamento dos preços se está a verificar em quase todos os segmentos da cadeia alimentar.
E como os factores que determinam estas subidas de preços têm natureza estrutural, a escalada de custos-preços parece ter vindo para ficar...
A ver vamos o que ainda nos reserva esta crise do arroz.

V. Resta dizer que estes fenómenos não afectam Portugal (embora possam afectar os portugueses menos crentes...), como se sabe, graças à excepcional protecção jurídica de que goza a taxa de inflação.

Pequeno ensaio sobre a cegueira


O DN de hoje chama à primeira página uma notícia que o haveria de ser mais dia menos dia.

As políticas cegas de redução de pessoal na função pública estão a ter como efeito o abandono dos quadros mais qualificados do Estado. Compreende-se que assim seja. O mal-estar que se vive nas Administrações Públicas, o labéu lançado sobre os funcionários públicos e o seu continuado desprestigio social, a degradação dos vencimentos, a insegurança laboral, a irracionalidade do novo estatuto, a permanente instabilidade orgânica e a partidarização dos cargos dirigentes a todos os níveis, a discriminação em função da opção política, são factores que impelem para fora do círculo do Estado todos aqueles que, portadores de competências e capacidades, encontram no sector privado colocação mais compatível com o seu valor.
O maior paradoxo é que é o Estado a estimular e apoiar a chamada mobilidade dos funcionários públicos para o sector privado.
O movimento só não é maior porque a economia está como está e o emprego de pessoal qualificado também não abunda.

A crise é profunda e também se vê por aqui. À manifesta falta de qualidade das lideranças políticas, à consabida mediocridade de muitos dirigentes (veja-se como prova disso a inacreditável história contada pelo JN de hoje!), junta-se agora a fuga para o sector privado dos melhores que a função pública acolheu e muitas vezes formou.

Porém, como se ouve por aí que o Estado é para desmantelar, não se passa nada...

És tu, sem limites (ou Geração Multitasking)


Este é o slogan da publicidade a um novo “multifunções” destinado a um público-alvo que são os adolescentes e que o anúncio ilustra como se tivessem vários pares de mãos quando estão a manejar o novo brinquedo, para além dos auscultadores no ouvido e o computador aberto à sua frente, em plena agitação de envio e leitura de mensagens com os amigos que estão sentados à mesma mesa…
Começam de pequeninos a gatinhar em direcção aos botões da TV, antes de irem para a escola já saber mexer no DVD e, aos 7 ou 8 anos, quando antes sonhavam com a bicicleta, agora pedem uma consola com todas as especificações e jogos de eleição. E por aí fora, numa evolução vertiginosa que torna obsoletas as novidades de há um mês atrás, comparam os telemóveis, os iPod, os Mp3, os gadgets de toda a ordem, tal forma que se os pais se distraem nem conseguem decifrar a publicidade que anuncia os presentes ideais para o próximo Natal…
Esta nova geração comunica sem limites, navega sem limites, ultrapassa todas as barreiras do tempo, do som e do espaço para ter, na hora, a resposta do amigo, a notícia do outro lado do mundo, o acesso ao livro ou à imagem que só há nos arquivos dos antípodas.
Tudo, aqui, já. A trilogia mágica da nova geração tecnológica.
Sem dúvida que esta destreza na procura e esta acessibilidade sem fronteiras nem constrangimentos lhes dão a possibilidade de, desde muito cedo, procurar sozinhos os temas que lhes interessam, dar largas à curiosidade na medida exacta em que a sentem e quando a sentem e tudo converge para lhes despertar a atenção, para lhes ocupar a mente sem tréguas, em suma, para os manter on line.
No entanto, diz o tal artigo da Time (que cito de cor) este frenesim permanente dificulta o desenvolvimento da capacidade de estar atento, de reflectir ou seja, de ficar preso por mais do que o instante do contacto com o que despertou a atenção. Ora, o cérebro precisa de um segundo nível de atenção para processar o conhecimento, para organizar e memorizar, e este excesso de informação, instantânea e sucessiva, leva à desconcentração. As pessoas acabam por ter contacto com mil e um assuntos que antes nunca saberiam sequer que existiam, reconhecem-nos quando passaram por eles, mas não chegam a reflectir e a transformá-los em “saber”. Há uma superficialidade associada à quantidade e a paciência, a capacidade de esforço e a atenção, inerentes à solidez dos conhecimentos, não chegam a ser desenvolvidas como aptidão.
A grande dificuldade surge quando é preciso que se sentem a ouvir, que leiam um livro ou sigam um filme que ultrapasse o impacto das imagens impressivas, sobretudo quando os programas são standard e não dão margem à liberdade de pesquisa ditada pelo interesse do momento. De certo modo, desenvolvem uma linguagem que dificulta a comunicação no seu sentido mais profundo, o tal segundo nível que obriga o cérebro a ser capaz de produzir um pensamento próprio a partir dos dados que recebeu. A questão não é até que ponto o cérebro consegue responder a estes estímulos, mas sim o que é que estes estímulos vão fazer do cérebro?
O anúncio que agora corre na televisão, e que me fez lembrar o artigo da Time, divulga como imprescindível o acesso a 100 canais, a mil filmes e a mais não sei quantas toneladas de prazeres essenciais para os jovens espíritos sôfregos.
Mil filmes? Centenas de programas à escolha? Por mim, podiam ser um milhão, tenho a certeza de que nunca conseguirei tirar proveito de uma ínfima parte, porque isso de ter mil olhos e mil mãos dá mesmo muito trabalho e exige um treino intenso da atenção. Coisas para outras gerações…

segunda-feira, 7 de abril de 2008

E insistem na dose!...

Vai por aí enorme alarido com o convite a Jorge Coelho, e correspondente aceitação, para integrar o Conselho de Administração da Mota-Engil.
Não vejo onde é que possa estar o mal. A Mota-Engil é uma empresa na legalidade, pode recrutar quem bem entende; Jorge Coelho é um cidadão livre, pode aceitar os convites que quiser.
Os críticos dizem que Jorge Coelho esteve no Governo e entregou dois concursos de SCUTS à empresa Mota-Engil.
Jorge Coelho saiu há sete anos do Governo, tempo suficiente para ter passado o período de “nojo”; os concursos para as SCUTS foram públicos, tiveram um júri e obedeceram ao que estava legalmente fixado.
Um cidadão não pode ficar castrado e incapaz de desenvolver a sua vida profissional, pelo facto de ter sido Ministro. Tal conduta só pode levar a que dirigentes qualificados nunca aceitem fazer parte dos Governos.
Para os adeptos desta conduta, apenas funcionários públicos bacteriologicamente puros e com voto perpétuo à função pública poderiam ser Ministros.
Houve e há muita gente desta nos diversos governos. Tão liofilizados, que só conseguem respirar em ambiente da mais pura buocracia. Como nada sabem e nada conhecem, tornam-se joguetes nas mãos de muita gente.
Para mal dos nossos pecados!...Mas alguns insistem na dose!...

Geração Multitasking (GM)

O meu avô achava uma grande falta de educação perguntar o que era o jantar antes de nos sentarmos à mesa e respondia sempre, muito mal humorado, “são línguas de perguntador”. Também achava intolerável dizermos palavras que começavam a estar na moda, como “bestial” e “chatice”, duas monstruosidades que, só por si, explicavam a calamidade de uma educação pouco atenta. Também lhe parecia um escândalo que, aos 15 ou 16 anos, fossemos ao cinema com rapazes ou pudéssemos ir a festas a casa de amigas cujas famílias não eram amigas da nossa. Creio que todos podemos desfiar um rol bem largo das peripécias que, desde sempre, caracterizaram as diferenças de gerações e, em todas elas, o abismo que se ia criando parecia intransponível conduzindo directamente ao “cataclismo” que o meu avô também previa num futuro próximo.
Mas as gerações lá se vão desembrulhando como podem, primeiro como filhos, a romper as barreiras, depois como pais, a tentar o seu melhor para conduzir a garotada a bom porto, cedendo no que não parece indispensável, teimando no que, mal ou bem, vai parecendo ainda como a melhor solução para lhes garantir um futuro como pessoas decentes. Mas que é difícil, é.
Há dias pediram-me para ir falar num curso de formação de pessoas já licenciadas e havia pessoas de várias idades. Cheguei um pouco mais cedo e assisti ao fim da aula do formador anterior, sentada ao lado de um dos alunos, que tinha o computador aberto à sua frente. Navegava tranquilamente na Net enquanto ouvia a aula e continuou, imperturbável, quando a hora acabou e se iniciou o tema seguinte. Levantava a cabeça de quando em quando, assentia, parecia estar a ouvir tudo, mas lá continuava a girar o rato, freneticamente, como se pudesse estar com a atenção presa a vários azimutes.
Às vezes venho ao computador e aparece-me o aviso de outras pessoas que estão on line, com sorte são as minhas filhas e lá vem a msg, …”’tás aí? Eu est aki a fazer um trabalho, tb num chat com as minhas amigas…espera aí k está o telemóvel a tocar, já volto…”
Um artigo da Time chamou-lhes a Geração Multitasking, fazem mil coisas ao mesmo tempo, treinam-se na resposta instantânea a cada solicitação, ouvem música na rua, falam ao telefone enquanto olham as montras, estão o sossego do quarto ligados aos quatro cantos do mundo.
Sobre o que o artigo dizia a seguir terei que falar noutro post, tenho agora mesmo a janelita da conversa aqui a piscar “mãe, ainda estás acordada?”, deixem-me lá ir responder, para isso interrompo o post, se calhar podia muito bem ir escrevendo aqui e respondendo às mensagens em catadupa, definitivamente, não pertenço a esta geração multifunções…

domingo, 6 de abril de 2008

Burocracia arrogante e impante!...

Em entrevista de hoje com a Ministra da Saúde, Ana Jorge, o DN recordou que a Ministra tem contra si um processo, que vai ser julgado no Tribunal de Contas, devido a pagamentos “indevidos” ao Hospital Amadora-Sintra, quando era Presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa.
A pendência entre o Estado e o Grupo Melo, que vem assegurando contratualmente a gestão do Hospital, já foi há muito resolvida pelo Tribunal Arbitral aceite pelas partes. Parece-me ilógico que o assunto não tenha ficado definitivamente resolvido em todas as instâncias, incluindo o Tribunal de Contas.
Mas, para além de ilógica, a situação raia o absurdo.
Segundo é explicado pela Ministra, o processo do Tribunal de Contas deve-se a que foram feitos pagamentos por tratamentos efectivamente feitos a doentes oncológicos, renais e com Sida, tratamentos esses que “não estavam contidos no contrato”.
Na contingência, e provada que foi a efectivação dos tratamentos, Ana Jorge mandou pagar. e mandou bem. Vistas as coisas, Ana Jorge é “condenada”, não pelo facto de o Hospital não cumprir a sua missão, mas sim por cumpri-la. Se os doentes fossem enviados para outro hospital e ficassem em fila de espera, como seria óbvio, Ana Jorge provavelmente seria louvada.
Assim, corre o risco de ter que pagar ao Estado, do seu bolso, 3,5 milhões de euros!...
Com factos destes, de uma burocracia cada vez mais arrogante e impante, que inquisitorialmente vê a forma, mas ignora a substância, nada de admirar, pois, que a escolha de dirigentes do sector público tenha que recair, cada vez mais, sobre um universo de terceira e quarta ordem!...