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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O que eles precisam é de Sol!

Há muitos anos tive uma curta experiência sobre os efeitos da falta de luz solar no comportamento. Passei um pouco mais do que uma semana, em pleno Dezembro, numa cidade universitária sueca. O frio pouco me incomodou, o pior foi ter que começar a trabalhar à tarde já praticamente de noite. Acabava de almoçar quase ao lusco-fusco e, de repente, sem dar conta, a luz solar desaparecia. Ao terceiro dia comecei a ficar aborrecido e perguntei para que me indicassem um edifício suficientemente alto. Olharam para mim com ar interrogador e lá lhes expliquei que queria ver o Sol. E assim fiz. Ao final da manhã do quarto dia, salvo erro, fui a um terraço do edifício da universidade e olhei com saudades para o disco solar que roçava discretamente o horizonte. Acabei por concluir que aquelas paragens não se coadunavam com a minha fisiologia, sobretudo a mental. Ás tantas devia pertencer ao grupo dos que sofrem de “doença afetiva sazonal”, situação que atinge muitas pessoas, as quais precisam de luz, muita luz, para poderem funcionar normalmente. Conclui: sou mesmo um “sulista”, um típico representante mediterrânico.
O Sol, na sua miríade de atributos, é vital para prevenir muitas doenças, caso do raquitismo, por exemplo. Através da síntese da vitamina D, produzida a nível da pele, devido à ação das radiações ultravioletas, o Sol consegue ir mais longe, ao ponto de ajudar a prevenir certas formas de cancro (mas o excesso de exposição provoca, por seu lado, tumores da pele). Mas não fica por aqui, também contribui para estimular as nossas defesas, diminui o risco de doenças inflamatórias e metabólicas, caso da diabetes, e, agora, chegou-se à conclusão de que a vitamina D reduz o risco de demência e de outras alterações da esfera cognitiva.
Investigadores norte-americanos concluíram que as pessoas com níveis elevados de vitamina D são mais equilibradas na forma de pensar, na compreensão e no comportamento face aos que apresentam níveis mais baixos de tão importante vitamina.
É certo que estamos no Inverno, em que os dias são mais pequenos, facto que pode atingir os mais sensíveis, mas, aliado a este fenómeno natural, andamos nos últimos tempos debaixo de chuva e praticamente sem luminosidade solar. Ontem, mas sobretudo hoje, o Sol fez a sua aparição em pleno. Para matar saudades, e venerá-lo, tive uma sorte dos diabos, acabando por ficar com a manhã praticamente livre, facto que me levou até à beira-rio onde divinamente me espraiei com um bom livro nas unhas.
Às tantas, acabei por fazer algumas associações e recordar certos acontecimentos, até porque o jornal que me acompanhava (mas que não abri!) exclamava na primeira página o debate parlamentar de ontem. De facto, a reportagem televisiva, ao mostrar os comportamentos dos intervenientes, causou-me mal-estar e mesmo indignação pela forma muito pouco correta com que se dirigiram uns aos outros, revelando falta de postura e de compreensão. Em síntese revelaram perturbações comportamentais que, eu, na minha boa fé, atribui à “falta de vitamina D” dos senhores deputados e membros do governo! Só pode ser isso, pensei. O melhor a fazer é pôr aquela rapaziada ao Sol, antes dos debates, contribuindo para aumentar os níveis desta vitamina. Para o efeito, poderiam deslocar-se a um país tropical, ou, em alternativa, caso o orçamento não contemple estas despesas, frequentar “solários”, a serem criados no Parlamento, obrigando-os a permanecer durante o máximo tempo possível para poderem usufruir os seus efeitos positivos, evitando tristes figuras.
A vitamina D é vital para combater o raquitismo (ósseo), como todos sabem, mas quem diria que pode ajudar a reduzir o “raquitismo mental”?

HOPING FOR THE BEST IS FOOLISH...

1. Usando a frase mencionada em título, Martin Wolf, notável colunista do F. Times, analisa com tons muito negativos, em artigo publicado na edição de ontem, os dois programas avançados pela nova Administração americana: (i) programa de estímulo fiscal e financeiro (mais ou menos 50/50) à economia que o Senado acabou de aprovar, devendo agora ser concertado/cozinhado em articulação com o que havia sido antes aprovado pela Câmara dos Representantes para ter a aprovação final do Presidente e (ii) novo e volumoso programa de apoio ao “battered” sector financeiro, em reforço do famoso TARP, que o novo Secretário do Tesouro Geithner apresentou em termos ainda muito gerais na última 3ª Feira.
2. Wolf é de opinião que ambos os programas envolvem risco elevadíssimo de falhar, nomeadamente devido a uma questão prévia fundamental: ambos partem do princípio contido na expressão “Hoping for the best” - quer dizer que os seus responsáveis consideram que tudo vai correr bem...se não correr, não há solução, ou a solução será ao jeito da que foi “adoptada” em 1929...Wolf conclui assim que "hoping for the best is foolish"!
3. Não me proponho entrar na análise do notável escrito de Martin Wolf, para os nossos visitantes recomendo a leitura do artigo no site (www.ft.com/econforum) - que entendo valer bem a pena...
4. Vou antes utilizar a frase em título para dizer que nós, crédulos lusos, há vários anos temos sido dirigidos/arrastados ao sabor da mesma máxima “hoping for the best”...
5. Nestes últimos 4 anos em particular, tem sido um autêntico delírio de criação e edição sucessiva – e igualmente de falência sucessiva – de expectativas “rosa”. Meia dúzia apenas menciono, mas dezenas mais poderiam ser enunciadas:
5.1 As previsões de crescimento económico alteradas duas ou três vezes no mesmo ano, sempre para pior,
5.2 As fantásticas promessas de criação de dezenas de milhares de postos de trabalho, entretanto esfumadas, quando estamos a assistir a uma verdadeira hecatombe nesse campo,
5.3 As promessas de saltos tecnológicos ousadamente ambiciosos, que depois se transformam em operações de propaganda de contornos pouco credíveis e por isso facilmente ridicularizáveis como sucede com os famosos Magalhães,
5.4 As garantias de robustez irrefragável do sector financeiro para agora se assistir ao lamentável desfile de operações fraudulentas que nos é oferecido todos os dias,
5.5 Os grandes anúncios e compromissos de grandes reformas estruturais para as agências de “rating” – até elas, que tão distraídas têm andado – virem agora classificar de muito pouco eficazes,
5.6 As generosas linhas de crédito, de milhares de milhões de Euros se adicionarmos todos os anúncios feitos, para todos os sectores da economia, para agora as empresas dos sectores não protegidos da economia se queixarem amargamente da escassez e do tremendo encarecimento do crédito...etc, etc...
6. Quando aprenderemos que “hoping for the best is foolish”? Provavelmente nunca…

O circo continua

A propósito do anunciado regresso dos assaltos do Robin dos Bosques aos ricos, pode o senhor Primeiro-Ministro em campanha para Primeiro-Ministro - ou o secretário-geral do PS em campanha para Secretário-Geral do PS, tanto faz - esclarecer este contribuinte que se assina, o que é para ele, para o governo que chefia e para o partido que geralmente secretaria, UM POBRE (já que não se percebeu quem são os ricos)?
Permitir-se-á explicar quanto renderá, em euros, a anunciada subtração de privilégios?
E já agora pode dizer-nos quantos dos que tem como pobres vão ficar menos pobres? Ou, ao menos, QUANTO MENOS POBRES ficarão os pobres?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Amor com amor se paga!

Extraordinário este momento .

Temas culturais I


Porque se anunciam tempos difíceis, o 4R acha sua obrigação contribuir para suplantar a crise. Pelo que irá aprofundar o serviço público que vem prestando através dos seus esclarecidos posts, passando a dar especial relevo a um sector muito abandonado, mas vital, em que a iliteracia é praticamente total, a agricultura doméstica.
Assim, irão sendo deixados alguns conselhos práticos que, bem seguidos, ajudarão a minorar os problemas e a penúria daqui a uns meses.
Em primeiro lugar, há que dizer que, no mês de Fevereiro, os dias crescem 1 hora e 3 minutos, em Lisboa, e 1 hora 5 minutos no Porto. O que prova que o Porto é mesmo a capital do trabalho e Lisboa a do descanso.
Ora, com mais 1 hora e 3 ou 5 minutos de sol, e sem prejuízo de outros serviços, aliás, dispensáveis, é possível fazer alguns trabalhos na horta. Que trabalhos, perguntarão? Então vejamos, com a particularidade de se fazer uma segmentação entre Norte, Centro e Sul.
No Norte e Centro do país, é tempo para semear alfaces (a transplantar em Março-Abril), couves, nabos, nabiças, pimentos, alhos porro, repolhos, feijões e tomates.
No Sul, é tempo de semear abóboras, cenouras, couves, ervilhas, pimentos, feijões, nabiças, pepinos, tomates e melancias.
Devem ainda ser transplantadas as cebolas, a colher em Maio-Junho, e as couves semeadas em Dezembro, a colher em Junho-Julho.
Também é tempo de começar a plantar as batatas.
Em posts seguintes abordarei outros aspectos fundamentais no âmbito desta importante temática.

Décios Junos Brutos


Realçar a importância da memória é uma perda de tempo. Todos a conhecem, a não ser que já não a tenham! De vez em quando, a minha teima em pregar partidas ao não permitir que recorde os nomes das pessoas, sobretudo quando não as vejo há algum tempo. Ainda por cima tenho que confessar que, desde que me conheço, nunca fui dotado para memorizar nomes. Esta curta reflexão surgiu devido a um episódio que ocorreu há dias. Estava sentado num restaurante, quando, no canto oposto, vislumbrei duas pessoas conhecidas. Cumprimentei-as com um sorriso acompanhado de um aceno de cabeça, mas fiquei bloqueado quanto aos nomes. Fiz um esforço terrível e nada! Ao fim de alguns segundos, graças a associações, lá consegui recordar o nome da mais nova, mas quanto ao senhor não consegui. Sabia que tinha o nome cá dentro, mas não o encontrava. Fiz esforços, recordei-me de conversas, de certos acontecimentos, de vivências e sei lá que mais, mas do nome nada. Onde pararia o raio do nome? Graças às tecnologias, agarrei no telemóvel, liguei-me à internet, coloquei palavras chaves sobre o senhor e passados uns segundos apareceu no écran o seu nome. Uff! Que sensação de alívio! Já pude almoçar mais tranquilamente.
Claro que este episódio obrigou-me a refletir sobre a memória e despertou várias ideias. Uma delas tem a ver com a estranha sensação de que lemos, lemos, e pouco ou nada fica da leitura. Olho para trás, e, na grande maioria dos casos, não consigo recordar dos nomes dos autores, dos títulos dos livros, das cores das capas, dos seus conteúdos, de algumas frases interessantes, chegando ao ponto de os confundir, de os trocar, enfim, uma terrível “amnésia”. Cheguei mesmo a pensar se conseguisse “reter” apenas um por cento do que leio seria uma vantagem do arco da velha. Ninguém tivesse pena de mim. Só queria um por cento, mas nem isso. A outra tem a ver com técnicas de estimulação e de treino da memória, algumas praticadas na escola primária, técnicas primárias que contrastam com técnicas mais sofisticadas, como a arte da mnemónica desenvolvida desde a antiguidade. De repente, lembrei-me de duas obras a este propósito: o livro “O homem que sabia tudo”, cujo autor já não me lembro, que retrata, de forma romanceada, a vida e a obra de Giovanni Pico Della Mirandola. Fiquei surpreendido com o pensamento deste humanista, e seduzido com a sua verdadeira memória de elefante, que chegou a memorizar obras inteiras, facto que lhe dava particular vantagens nos seus debates. A outra foi o “Tratado de Magia”, de Giordano Bruno (deste lembro-me perfeitamente), onde está, também, descrito algumas técnicas que permite reter ideias, o modo de as recordar e associá-las. Que inveja! Como se não bastasse estas recordações, lembrei-me do efeito amnésico do rio Lethes e, como estava a almoçar, associei-me a outro almoço (lembro-me, perfeitamente, de ter comido um ótimo arroz de pato!) em que tinha participado meses antes na cidade de Viana do Castelo. No hotel, situado lá no alto, e cujo nome não me recordo, fiquei de boca aberta perante a tapeçaria de Almada Negreiros a retratar a chegada das hostes romanas à beira do rio Lima. Diz a lenda que a paisagem era de tal modo deslumbrante ao ponto dos soldados se terem recusado a passar para a outra margem, porque julgavam estar perante o famoso rio do esquecimento. À medida que ia lendo, fiz um esforço dos diabos para decorar o nome do comandante. Na altura ainda consegui reter o nome mas, passados estes meses, já não consigo. Do Almada Negreiros lembro-me, assim com da encantadora tapeçaria que relata o episódio em que o comandante atravessa o rio e, da outra margem, começa a chamar os soldados um por um, através do seu nome, provando que não tinha ficado sem memória. Fui pesquisar o nome do comandante e disse: Ah! Pois !Agora já me lembro (depois de ler!) era Décios Junos Brutos!
Para terminar, quero agradecer ao escritor alemão Patrick Suskind, o autor da célebre obra, que todos já ouviram falar, “O Perfume”, que, num pequeno livro (“Um Combate e outras histórias”), com quatro pequenos ensaios, que custou 1,5 euros, foi de uma grande ajuda. Um desses ensaios chama-se “Amnésia in Litteris”, ou outros já me esqueci. Neste ensaio, o autor relata a sua experiência, a sua frustração sobre os esquecimentos, as trocas e as baldrocas provocadas pela “falta de memória”. Fiquei deliciado com a beleza, a franqueza, o humor e a profundidade do autor. Ao mesmo tempo tranquilizou-me, porque, afinal, também “sofro” do mesmo fenómeno ou “doença”. Suskind afirma que, quando lemos um livro, a nossa consciência, ao impregnar-se dos seus conteúdos, modifica-se de tal ordem que é incapaz de fazer uma auto crítica, ou seja separar-se dos efeitos, dos conteúdos, da beleza, da alegria, da tristeza, de todas as vivências e pensamentos dos outros. Afinal somos o que somos e somos aquilo que lemos, mesmo que nos esqueçamos dos seus conteúdos, dos seus autores, dos títulos, das frases mais impressionantes, enfim, praticamente de tudo.
O mais certo é daqui a algum tempo já ter esquecido o nome do ensaio de Suskind, de o trocar com outro autor, de não me recordar desta pequena crónica, mas sinto-me mais confortável pelo facto da minha consciência se ter modificado sem ter tido consciência de tal.
Claro que nunca serei um, como é que ele se chamava? deixa-me cá ver já o escrevi aqui algures: Ah! claro, Décios Junos Brutos!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A evidência das palavras


O facto é que em regra passa muito tempo entre o momento em que as coisas começam a acontecer e aquele em que finalmente as reconhecemos ao ponto de lhes dar o nome. Isto acontece com as coisas boas, mas essas tendemos a antecipar, sentimos alegria na decifração dos sinais para não perdermos um segundo da felicidade que antevemos. Já com as coisas más, em que também acontece, o impulso é o de ignorar, desvalorizar, recusar mesmo com aquele gesto de impaciência que diz “isso é impossível, que ideia!”Quando finalmente temos a coragem, ou a inevitabilidade, de lhes pronunciar o nome, já os factos se instalaram e passaram a ser parte da nossa realidade.
É assim com os divórcios, por exemplo, ou as zangas para sempre, anunciam-se subtilmente por gestos de indiferença, depois por palavras ásperas, logo por atitudes cruéis, num crescendo de desamor até que um dia alguém pronuncia a palavra que há muito guiava o comportamento.
Também é assim com as crises, já vimos que sim, a actual teve vários nomes até que alguém a assumiu, preto no branco, é a crise e mais nada, fora as teorias, adeus convenções, ideologias e tal, mas a verdade é que quando o nome soou ela já se tinha instalado em toda a linha. Antes, usávamos a palavra como um esconjuro, não como uma realidade.
Saramago diz, em “As Intermitências da Morte”, que também é assim com a morte, que é muito injusto que as pessoas a considerem traiçoeira porque ela envia vários sinais mas que a pessoa não quer ver, recusa olhá-la até que o médico, ou a evidência, lhe ponham a palavra na boca.
E a guerra, também essa começa muito antes do troar dos canhões, da mobilização ou das vítimas, a guerra começa quando já não é possível evitar usar a palavra e ela passa a ser parte das conversas, o “se” dá lugar ao quando e ao como, e onde. Isto mesmo diz Sandór Marai, no fantástico romance “Divórcio em Buda”, que a guerra começa por estalar num lugar longínquo, invisível, primeiro estala na alma dos seres humanos e, quando se manifesta, as pessoas já se habituaram a ela, repetindo com toda a naturalidade a palavra “guerra”, a mesma que antes não ousavam sequer invocar.
Este reconhecimento insidioso, que nos habitua a conviver com o inaceitável, com o que antes imaginaríamos impossível, é um processo que se aplica a muitas coisas. Ao medo, por exemplo.

O confisco

Durante quatro anos o Governo massacrou todas as classes com novos e acrescidos impostos, embora diariamente dissesse que os tinha diminuído.
Não investiu ou investiu mal, não redistribuiu, limitou-se a consumir e a gastar.
Em ano de eleições, promete distribuir pela classe média o que lhe foi tirando ano após ano. Indo buscar aos ricos os meios necessários. Como se, de há muito, não tivesse confiscado a todos o máximo que podia.
Quando o problema está na confiança, na falta de investimento e na baixa de produção, o que faz é afugentar o capital.
Porque, na esteira de Louçã, se dois coelhos se reproduzem, duas notas juntas não são capazes de criar mais notas, nem actividade económica, nem riqueza.
Na voragem da demagogia, vai redistribuir as dificuldades de hoje e certamente a miséria de amanhã.

Qual lei, qual carapuça!...

"Os cidadãos são todos iguais, mas há uns que não podem estar sob suspeita muito tempo".
Cândida Almeida
Claro, os que o M.P. considera diferentes. O resto pode sofrer à vontade!...

Discussão do estado da economia: exercício lastimável e ocioso...

1. Passei alguns minutos escutando 3 ou 4 intervenções do programa “Prós & Prós” ontem à noute e impressionou-me muito o ar lastimoso, choroso mesmo com que alguns dos participantes naquele tristonho acto de exegese sócio-economica se apresentavam a descrever o drama social do desemprego e da “crise internacional” (não podia faltar num programa deste jeito).
2. Ao ouvir aquele rosário de lamurias não pude deixar de me lembrar dos sucessivos avisos que alguns “profetas da desgraça”, grupo social ou cívico desprezível no qual fui inscrito há já cerca de 10 anos pela mão amiga do actual Presidente da Assembleia da República (na sub-classe “aves agoirentas”, presumo que um dos escalões mais baixos desse grupo de deserdados).
3. E o mais curioso é que alguns dos presentes, nomeadamente o ilustre autarca vila-condense, meu velho amigo e colega dos tempos do liceu nacional da Povoa de Varzim, ao mesmo tempo que lamentavam profundamente a escalada do desemprego, clamando alto e bom som pela necessidade de inverter este inferno económico e social em que parece estarmos a cair...aplaudiam as famosas “medidas” que com que o Governo continua a ameaçar, dando preciosa ajuda ao aprofundamento da crise.
4. Não há mesmo nada a fazer, pensei com os meus “buttons”...nunca mais aprendem, não me parece existir outra solução que não seja a economia continuar a deslizar e a afundar-se, agravando cada vez mais as condições de vida da generalidade da população...sempre com a honrosa excepção dos sectores protegidos -Estado Central, Regional e Autárquico, Sector Empresarial do Estado Central, Regional e Autárquico – em ambos os casos com a sua legião de intrépidos servidores semi-produtivos ou nada produtivos – empresas monopolistas ou quase-monopolistas com todos os seus privilégios.
5. Voltando às memórias, estas excelentes criaturas que hoje tanto acarinham o programa de combate à crise (= aprofundamento da dita) não percebendo que se estão afundando cada vez mais, são as mesmas, com escassas variantes, que atribuíram nota EXCELENTE à política de extermínio de recursos do famoso exercício orçamental delirantemente pró-cíclico do saudoso governo do Eng.º A. Guterres – que até cometeu a proeza de nos introduzir no Euro em marcha-atrás, acrobacia difícil mas que nos preparou para os imensos benefícios que agora estamos desfrutando nesta triste alegria.
6. E são também os mesmos que, volvidos poucos anos, aplaudiram em quase delírio a providencial proclamação de 25.04.03 do Presidente Sampaio “há mais vida para além do orçamento” que teve o incomensurável mérito de servir de certidão de óbito para a política anti-nacional com que M. F. Leite procurava – talvez mais em força do que em jeito, se é que há alguém com jeito para tal – combater o caminho de endividamento desvairado em que o País se tinha lançado a galope...
7. Por isso digo que o exercício de discutir o estado da economia em Portugal é LASTIMÁVEL – o triste espectáculo de ontem bem o ilustra – e ao mesmo tempo OCIOSO, pois é evidente que o agravamento da situação nunca servirá de lição - voltamos sempre aos mesmos erros, até com convicção reforçada!
8. E parece que vem aí a velha Regionalização em jeito de “drive a nail into our coffin”...

O permanente contraste...

Da minha janela vejo lá longe, mas sempre perto, a calmaria do Tejo azul salpicado do brilho amarelo do sol que se vai neste fim de tarde sereno, batendo o azul limpo do céu que já fazia saudades. Um privilégio amargo quando me vêem à ideia as brutais imagens do horror do inferno que graça lá longe na Austrália e me fixo nas palavras sentidas que ontem ouvi e vi do seu primeiro-ministro chorando a tragédia humana….

Demagogias

Um país que parece que não se importa com o clima de permanente hipnose em que se mantem mergulhado, que demora a cobrar pela inverdade ou pelo incumprimento de promessas, abre campo à mais descarada demagogia. Só isto explica que o secretário-geral do PS, responsável como Primeiro Ministro pelo maior aprofundamento das desigualdades sociais de que há memória em democracia, se dê ao luxo de propagandear com todo o á-vontade que os problemas se resolvem agravando a conta fiscal dos ricos, sem se achar no dever de dizer a quem se refere!
Resta-nos a satisfação de vermos que o silêncio voluntário de alguns correlegionários do Engenheiro José Sócrates mostra que afinal ainda há quem entenda que a dose de populismo é excessiva…

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Livro da vida...



A rosa adormeceu...

Fitas persistentes

Não nos sobeja tempo para grandes excursões pela blogosfera. Somos, pois, cada vez mais selectivos e exigentes na escolhas, pondo de lado os consagrados mas chatos, preferindo os que, serena e inteligentemente vão abordando temas de interesse. O Corta-Fitas é um desses. Indispensável. Fez três anos. Parabéns!

Wall Street e a testosterona...

Achei muito curiosa a reflexão feita no artigo “Too Much Testosterone on Wall Street”, publicado na Harvard Business Publishing Weekly Hotlist, no qual a Autora – Sylvia Ann Hewlett - procura evidenciar que o nível de risco financeiro tomado nas estratégias de gestão nos mercados financeiros varia consoante o sexo do decisor, homens ou mulheres.
A Autora aponta o caso bem sucedido de uma instituição financeira na Islândia, uma das poucas que não sucumbiu à crise financeira que levou o país à bancarrota, em que uma das suas gestoras explica que o lema seguido foi uma regra que fez a diferença: “Our grand rule was simple, we didn't invest in anything we couldn't understand”. Quer dizer que o segredo reside em não investir em nada que não seja possível de compreensão!
Esta regra elementar, aparentemente simples - que para mim é de ouro e que tem uma vastíssima aplicação – é, segundo a Autora, facilmente ultrapassada pelos homens porque no seu “código genético” está escrito que são mais agressivos, gostam de tomar mais riscos, gostam de mais adrenalina.
Com efeito, para estes comportamentos não são alheios os elevados níveis de testosterona que parece induzem uma maior predisposição para a tomada de decisões de maior risco. Pelo contrário, as mulheres apresentam-se por norma bem mais adversas ao risco, bem mais moderadas e mais responsáveis. Esta diferença não surpreende se tivermos presente que a testosterona é responsável pelo desenvolvimento e manutenção das características masculinas normais, tendo um papel determinante na diferenciação entre homens e mulheres.
E alguns estudos concluem que a feminização da gestão sugere uma maior protecção contra as crises financeiras porque as mulheres têm maiores preocupações de controlo, são mais seguras e mais previstas. Vai assim ganhando adeptos a ideia de que são necessárias mais mulheres no topo da gestão das instituições financeiras.
Coincidência ou não, Barak Obama anunciou para a presidência da SEC (Securities and Exchange Commission) uma mulher – Mary Schapiro - e na Islândia foram apontadas há dois meses atrás duas mulheres – E. Sigfusdottir e B. Einarsdottir - para reconstruírem as ruínas do sistema financeiro islandês.
É bom para a humanidade que as mulheres assumam maiores responsabilidades e tenham mais peso na condução dos negócios e da vida das instituições. A reforma do actual modelo institucional, modelo que é apontado como uma das causas da crise financeira, passará também pelo aumento do feminino à frente do destino das organizações.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

As dinâmicas em curso no espaço eleitoral

Este foi mais um dos fins-de-semana destinado a apurar os vencedores do frenético concurso "Qual de nós é mais de esquerda?".
É evidente a competição entre PS, PCP e BE para aparecerem aos olhos do eleitorado como os mais legítimos intérpretes da esquerda. E bem visível o esforço para criar a ideia de que ser de esquerda é abraçar causas "práfrentex", sem qualquer estruturação ideológica mas cavalgando esta onda favorável de "causismos" pragmáticos, supostamente fracturantes nos costumes e estadualistas na economia.
Por isso o PS diz agora, ao fim de quatro anos de responsabilidade exclusiva por uma governação que acentuou fortemente as desigualdades sociais, que devem ser os ricos a pagar a crise (como se fossemos um país de ricos - que infelizmente não somos - e não de pobres!). Ou introduz agora na agenda, e só agora, temas de uma pretensa modernidade social, como o casamento entre pessoas do mesmo género.
Que não o faz por razões ideológicas, é evidente, e essa evidência ressalta no incómodo de alguns históricos do partido. A direcção política do PS fá-lo por um instinto de conservação do poder, caldeado pelo calculismo com que projecta o seu posicionamento para as próximas legislativas.
O PS olha para as sondagens e vê nelas a indicação de que a ocupação do espaço do centro que ensaiou com êxito em 2005 (ajudado pelo desastre governativo anterior) se mantém segura face á incapacidade do PSD em reconquistar esse eleitorado, mas segura também pela promessa de reformas e confiado na moderação e no centrismo de José Sócrates. Não me espantaria que o PS admita até poder beneficiar de mais algumas transferências deste sector, se não estancar a notória erosão do PSD.
Mas o PS já entendeu também que o mesmo não acontece com a parte da sua base social de apoio identificada com os valores tradicionais do socialismo mais ideológico e menos pragmático. Essa resvala a olhos vistos para o PCP e para o BE, em especial para este último, que no seu congresso deixou claro que já não é uma organização de causas mas um partido com uma estrátégia de (partilha do) poder, que se sente capaz de jogar no mesmo tabuleiro em que jogam os partidos tradicionais.
À direita do espectro partidário, o CDS-PP recolhe os réditos da sua boa prestação parlamentar e sobretudo dos temas sabiamente lançados para a agenda, os únicos, em boa verdade, que colocaram em apuros a maioria. Se mantiver essa capacidade, reforçar-se-á, algo que era impensável no princípio da legislatura, onde não poucos prognosticavam o fim por dissolução no PSD.
Faltam, é certo, largos meses para as eleições. Um mês em política é muito tempo. Muita coisa pode mudar. E em oito meses, se como tudo indica se agudizarem os efeitos da crise, pode bem acontecer que a ideia de uma "esquerda salvadora" se esvaia, ou que se perceba que os temas sociais fracturantes não passam de fraco paliativo e não resolvem a falta de emprego, a falta de produção, a falta de pão.
Porém, a acontecer isso sem que ao centro o PSD se afirme como alternativa, estou em crer que tenderá a ser bem maior o descrédito de muitos eleitores nos actuais actores partidários, aumentando o número dos que, desacreditando, se absterão.
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Vamos observando. E corrigindo, sendo o caso.

“Casa de Orates”

Um destacado militante político acaba de escrever uma carta aberta denunciando que “há medo na sociedade portuguesa”. Pois há, e não é pouco.
Ao fim de 35 anos de liberdade, a atmosfera em que estamos mergulhados começa a limitar a expressão oral, a arrefecer o que vai no nosso coração e a aterrorizar as construções da mente.
Uma verdadeira peste negra dos nossos dias. Altamente contagiosa. O seu poder letal destrói a vontade, rouba a alegria e afoga a esperança.
O medo faz parte da nossa formação. Ao alertar-nos para certos perigos, que possam por em risco a sobrevivência, é de uma utilidade indiscutível, mas quando é utilizado para dominar o próximo, então, passa a constituir um sinal de desrespeito e de violência.
Recordo-me dos primeiros medos. Medos imaginários, fomentados e alimentados pelos mais velhos que, para controlar a turbulência infantil, usavam verdadeiras estratégias de terror. Com o tempo, os medos das almas do outro mundo, dos monstros, do escuro e das bruxas más foram substituídos por outros. O fantasmagórico desaparecia quase ao mesmo tempo em que descobríamos que afinal não era o menino Jesus que dava as prendas no Natal. Sim, porque na altura o canastrão do Pai Natal ainda não tinha feito a sua entrada em cena. Passava a ser o período do medo de uma boa sova, de um puxão de orelhas, de um raspanete à antiga, em que os pais, os avós e os professores eram perfeitos artistas, cada um na sua especialidade. Eu experimentei-as todas! Mais tarde, o medo mudava de roupa e de cor, mas nem por isso de intensidade, embora circunscrito às vivências escolares e sociais. O medo de exprimir ideias políticas coincidia com a época em começávamos a fazer a barba de forma regular. Os avisos eram muitos. Nada de dizer mal. Quando te fizerem certas perguntas calas-te, ou então dás uma volta. Tem cuidado. Olha que podem dar-te cabo do futuro. Vê o exemplo do fulano tal, interromperam-lhe os estudos e mandaram-no para a guerra. Não te desgraces. Medo político.
Medos houve sempre. Depois, os medos políticos desapareceram, como que por artes mágicas, de um dia para o outro. Agora voltou, com novos figurinos. Nos últimos tempos, é uma das palavras que mais ouço. Medo. Nalguns casos transfigura-se mesmo em fobias.
Políticos a criarem atmosferas de medo numa democracia é de loucos.
A atual sociedade fez-me lembrar a obra, “O Alienista”, de Machado de Assis. O médico, Simão Bacamarte, protagonizou a construção de uma casa para albergar os loucos. Até aqui tudo bem. O pior foi quando começou a internar os outros assim que denotassem o mínimo sinal de suspeita de “anormalidade” por si definida, já que “a ciência é coisa séria e deve ser tratada com seriedade”. Com o tempo, a Casa de Orates encheu-se de tal modo que provocou uma autêntica revolução ao ponto de ser totalmente esvaziada dos doidos e não doidos. Passados estes momentos, Bacamarte mudou de paradigma, começando a considerar como anormais todos os indivíduos que apresentavam virtudes. Ao fim de algum tempo, assim que revelavam um ou mais traços de inveja, de cobiça, de desonestidade, de violência, de luxúria, entre muitas outras “qualidades humanas”, tinham alta, considerados como curados. Mas chegou o momento em que todos lhe apontavam virtudes. O único a ter só virtudes, logo, um perfeito anormal. Não era capaz de se auto identificar com nenhuma das características de “normalidade” que tinha “cientificamente” redefinido. Foi então que se acoitou, voluntariamente, na Casa Verde, na esperança de adquirir uma das tais particularidades. Aí permaneceu sozinho até morrer. Não encontrou a cura para si.
A “normalidade política” começa a sofrer uma mudança de paradigma muito à semelhança do descrito por Machado de Assis. Partindo do princípio de que “a política é coisa séria e deve ser tratada com seriedade”, só espero que os atuais “políticos puros e virtuosos” possam recolher à Casa de Orates, sobretudo alguns “bacamartes” que gostam de “malhar”, verdadeiros alienados, e lá permaneçam para sempre. É que metem mesmo medo, ao ponto de fazer minha a frase de Montaigne: “o medo é a coisa de que mais tenho medo no mundo”.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

A parábola do coelho e da nota!...

Francisco Louçã resolveu agora usar de parábolas para melhor difundir a sua mensagem aos crentes. Na prédica de hoje, criou a parábola do coelho e da nota para comprovar o valor do trabalho e a inutilidade do capital.
Coloquem-se dois coelhos numa caixa, disse o mestre, e é certo que daí a algum tempo aparecerá uma ninhada de coelhos; coloquem-se duas notas noutra caixa e é certo que as notas não se multiplicarão!...
Os fiéis aplaudiram em delírio as sábias palavras do profeta.
Não tocado ainda por tanta fé, não percebi bem em que é que o trabalho humano se assemelha ao trabalho reprodutor dos coelhos, pelo que não consegui atingir o profundo significado da parábola. E confesso que bem gostaria de ser iluminado pelo mestre para saber o valor que poderá resultar da colocação de dois trabalhadores numa caixa, embora de outras dimensões, claro, mas vazia de ferramentas, equipamentos e meios de produção.
Grande cómico este Francisco Louçã!...Vai animando o circo e até reina com os fiéis que lhe sustentam a pose!...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Fumos


A esquerda europeia congénere do BE reuniu-se numa salita para ouvir Louçã dizer o que faria um ministro das finanças bloquista ao sistema financeiro português.
Não há dúvidas que as sondagens estão a funcionar para os dirigentes do BE como uma droga leve, hipnótica e inebriante, que lhes dá asas para voar até ao Terreiro do Paço.
A verdade é que os fumos já chegaram ali perto, aos Paços do Concelho, onde António Costa também imagina fazer com que o Zé não faça falta na ampla frente de esquerda a que já apelou.

Eluana

As discussões sobre o “Estado Vegetativo Persistente”, no Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, foram determinantes para aclarar as minhas dúvidas sobre o que fazer perante tão dramática situação, sobretudo naqueles casos em que se prolonga um estado contra a oposição da vítima. Esta oposição, desde que previamente manifestada, de modo direto ou indireto, é de tomar em consideração, fato que me apraz registar ter sido contemplado no parecer.
Graças à ciência e à técnica, é possível manter em funcionamento o organismo mesmo em condições de ausência total de vida de relação e de autoconsciência. A designação vegetativo, que não tem qualquer relação ou similitude com os vegetais, refere-se a “uma situação clínica de completa ausência da consciência de si e do ambiente circundante, com ciclos de sono-vigília e preservação completa ou parcial das funções hipotalâmicas e do tronco cerebral”.
O que fazer com as pessoas que se encontram neste estado? Para já não existem, nem poderão existir, soluções uniformes, “impondo-se uma avaliação criteriosa em cada situação”. É certo que “tem direito a cuidados básicos, que incluem a alimentação e hidratação artificiais”. No entanto, “toda a decisão sobre o início ou a suspensão de cuidados básicos da pessoa em Estado Vegetativo Persistente deve respeitar a vontade do próprio”, vontade que pode ser expressa ou presumida ou manifestada por pessoa de confiança que, no caso do parecer do CNECV, deverá “ser previamente designada por quem se encontra em Estado Vegetativo Persistente”.
Começa a ser frequente os casos de estados vegetativos persistentes alvos de processos conducentes à interrupção da assistência técnica. Sempre que surge um caso destes levantam-se vozes de discordância. Que se levantem vozes que se opõem ao cancelamento dos mecanismos que alimentam um organismo neste estado é perfeitamente normal. O que não é normal são alguns dos argumentos, nomeadamente certas frases que são mais do que insultuosas, são infames. A este propósito, o caso de Eluana é ilustrativo. O ministro da saúde do Vaticano expressou publicamente que a suspensão dos cuidados artificiais ao organismo é um assassínio. Nem mais, chamou assassinos aos que aceitam a interrupção dos cuidados e, até, ao pai, que tem vindo, ao longo dos anos, a lutar pela dignidade da sua filha. Esta atitude, e outras de caráter semelhante, despoletam, ato contínuo, movimentos que, de forma verdadeiramente encarniçada, se opõem às medidas de suspensão do estado vegetativo persistente, enquadrando tal atitude na eutanásia, e, ao mesmo tempo, socorrem-se de uma linguagem baixa, demonstrando uma agressividade difícil de entender.
É afirmado que só Deus pode tirar a vida. Face ao que nos rodeia, tenho imensa dificuldade em compreender muitas mortes. Não posso aceitar que Deus tire a vida às crianças. Não posso aceitar que, para tirar a vida, Deus faça sofrer tantas pessoas das formas mais horríveis. Não posso nem devo aceitar que Deus atue como exterminador ao lançar fogo, água ou remexendo as entranhas da terra para apagar a vida de seres humanos. Não posso aceitar que Deus tenha recrutado “representantes” na Terra para “salvar” pobres humanos, através de “doces” práticas de tortura tão bem imaginadas pelos inquisidores, capazes de fazerem vomitar das almas dos penitentes “sujidades”, mesmo que se tratassem das mais puras. Mas os seus “soldados” não tiravam a vida, depois de se divertirem, limitavam-se a entregar ao poder secular as pobres vítimas para serem purificadas! Não posso aceitar que Deus não tenha visto ou feito “vista grossa” a tantas tragédias, a tantos genocídios. Não posso aceitar que Deus olhe para mim e me aponte o dedo dizendo: “És um assassino, ao aceitares a suspensão da atividade que artificialmente mantém um organismo em estado vegetativo”. Se o fizesse dizia-lhe: - Não. Não sou! Sou apenas um ser humano que respeita a dignidade de Eluana, e de muitos outros, que polvilham o mundo com as suas memórias, ansiando desesperadamente pelo descanso, porque nunca aceitariam permanecer neste estado anos e anos a fio.
A titânica luta do pai de Eluana, ao longo de dezoito anos, para que a sua rosa possa finalmente adormecer entre as páginas do livro da vida, é uma das mais nobres e sublimes provas de amor a que me foi dado assistir. Chamá-lo de criminoso é uma infâmia. Se, de facto, Deus é amor, então é melhor vê-Lo no pai e não no cardeal Javier Lozano Barragan,