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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Os donos do democraciómetro

O encerramento da televisão grega foi "claro atropelo da democracia" e "uma inequívoca manifestação de autoritarismo", dizem 63 grandes guarda-costas da democracia. Os donos habituais e exclusivos do democraciómetro.
 

O País político incorrigível

Há coisas com que não me consigo conformar.
Entendo muitos dos sacrifícios que estão a ser impostos ao comum dos cidadãos. Talvez por isso não aceite as contínuas manifestações de desperdício de dinheiros públicos a que assisto. Não consigo calar a revolta por ver parte dos nossos impostos desviados sem proveito por um Estado sem  meios para se governar e garantir prestações essenciais de acordo com a expetativa da maioria, num País a viver nos limites da insolvência (ainda que sem consciência disso).
Foi há dias anunciada a data das eleições autárquicas. A três meses de distância do sufrágio, no concelho onde resido em cada esquina pontifica um gigantesco outdoor, daqueles que custam milhares de euros. Junto a escolas com dificuldades no seu funcionamento diário por falta de meios, junto a centros de saúde pejados de gente insatisfeita, a hospitais onde o esforço para manter os níveis assistenciais compatíveis com os impostos que pagamos é heróico pelos relatos que ouço da boca de abnegados profissionais de saúde.
Há dias, quando lamentava em voz alta este que se me afigura um escandaloso regabofe numa situação de penúria e de sofrimento como a que vivemos, foi-me dito que são os custos da democracia e que desabafos como estes são demagogia. Pode ser uma disfunção minha, reconheço. Mas olhando para os outdoors, para todos sem exceção, não surpreendo o que com eles ganha a democracia. Sem intenção demagógica, sei calcular quanto perco eu, contribuinte, que me esforço a trabalhar parte do ano e ao Estado entrego a maior parte do meu rendimento para que o mesmo Estado subvencione campanhas publicitárias.  Será que alguém seriamente acredita que esta imensa despesa é minimamente reprodutiva para a vivência democrática e para a consciencialização do valor do voto? Ou que contribui para o conhecimento de programas e intenções de governação local?
Basta olhar para os cartazes. Os que existem e os muitos que a estes se seguirão e que correspondem a um paradigma firmado em milhões e milhões de euros ao longo destas décadas. Salta à vista que se aposta em mensagens publicitárias e não em esclarecimento. Os candidatos promovem-se do mesmo modo e com as mesmas técnicas de promoção dos sabonetes, das pastas dentífricas ou dos mais miseráveis conteúdos televisivos. Para além do favor do photoshop nas imagens, o que se lê são clichés sem significado ou conteúdo. Uma exposição de vaidades que assume custos verdadeiramente pornográficos!
Chamem-me demagogo. Continuarei a dizer o que sinto: é revoltante! Quase tão revoltante como a passividade e a falta de opinião crítica sobre este país político confessadamente incorrigível!

Bilhetes do Tesouro: taxas de juro sobem, "ma non troppo"...

1. Depois das recentes e fortes oscilações das yields da dívida pública portuguesa a que me referi em último Post, era aguardado com natural curiosidade o resultado do leilão de Bilhetes do Tesouro (BT’s) anunciado para esta manhã, em que o IGCP pretendia colocar até € 1.500 milhões em BT aos prazos de 6 e de 18 meses.
2. E o resultado aí está, foram colocados os pretendidos € 1.500 milhões, sendo € 450 milhões a 6 meses, taxa de juro de 1,041% (anterior 0,811%) e € 1.050 milhões a 18 meses, taxa de 1,603% (anterior 1,506%).
3. Registou-se uma subida das taxas, tal como o mercado antecipava, mas menos pronunciada do que se poderia pensar, sobretudo no prazo dos 18 meses. É de resto curioso verificar que o agravamento em relação ao leilão anterior foi mais elevado no prazo de 6 meses (+23 pontos base) do que nos 18 meses (+ 9,7 pontos base), sinalizando alguma confiança no futuro...
4. Em conclusão, o mercado teve uma reacção benigna, quiçá antecipando uma declaração animadora por parte do Presidente do FED, lá mais para o fim do dia, assegurando que o programa de compras de dívida (o tão falado QE/3) vai ser mantido por ora e que em qualquer alteração futura o FED não deixará de ter na devida conta os interesses da economia e da estabilidade dos mercados...
5. Admito que assim seja, e oxalá não me engane pois se me enganar ainda podemos ter um bom “sarilho”...



"Negócio"...


Acompanho os acontecimentos no Brasil. Leio e fico de boca aberta quando a presidente, a senhora Dilma viaja para São Paulo para falar com o seu antecessor, Lula da Silva, para "compreender o que está a levar milhares de pessoas para a rua, a protestar contra a corrupção, a violência policial e as despesas milionárias com a construção de estádios para o Mundial de futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, quando o país tem tantas carências, na educação e na saúde". Será que não deu conta do que se passa no seu país? Como é que chegou à presidência? Não sabe que, entre outros "negócios", o futebol é dos maiores? E legal! 
Gastar dinheiro "à tripa forra" é uma característica de muitos governos. A pretexto de investimentos e respetivos retornos (?) há quem ganhe dinheiro, os que constroem os estádios, os acessos e os que orbitam em redor da "bola". O dinheiro que está a ser investido nunca irá ter, nem de perto nem de longe, um retorno satisfatório. Entretanto, as carências e o mal-estar dos cidadãos vão aumentando. Veja-se o que se passou um Portugal com o "Europeu da bola de 2004". Gostou-se rios de dinheiro na construção de estádios para que se realizassem poucos, às vezes apenas dois, desafios. Justificações? O nome de Portugal seria mais conhecido. Vinha gentinha de toda a Europa para os ver e ficávamos com algum do seu dinheiro. Ficaríamos mais ricos. O investimento era mais do que garantido. Os que estiveram à frente do projeto foram elogiados e até agraciados! Resultado final? Bom, descrevo uma pequena conversa. 
- Está bem de saúde? 
- Se estou? Sei lá! O pior é quando acordo.
- Quando acorda?!
- Sim! Quando acordo, penso, mais um dia, "tenho" de pagar 19.000 euros.
- Não percebo!
- Todos os dias "tenho" de pagar 19.000 euros por causa do estádio de futebol.
- 19.000 euros? Isso é muito dinheiro.
- Pois é! Muito. Com o dinheiro de um ano construía cinco centros educativos.
- Durante quanto tempo vai pagar essa exorbitância?
- Mais dezoito anos.
- Valha-me Deus. Ainda por cima está abandonado, sem qualquer serventia.
- É verdade. O que eu poderia fazer se não tivesse esta dívida por pagar.
Um pequeno diálogo que traduz bem a situação de apenas um estádio da "bola de 2004". Um atentado à dignidade e ao bem-estar dos portugueses. Um negócio que encheu os bolsos de alguém e está a esvaziar os dos pobres cidadãos que ainda vão confiando em certos "gajos". 
Olho para as notícias, olho para a televisão, olho para certos programas e vejo a emergência de manifestações contra certas grandezas e, ao mesmo tempo, a manutenção da corrente "espiritual e humanista" da bola com os seus divulgadores, comentadores, treinadores, jogadores e muitos outros que vivem, usam e abusam da bola.
O negócio da bola deve ter um poder fora do comum. Uma rede legal que é fonte de lucros obscenos para muitos à custa de todos, os que "amam" este desporto e os que não lhe ligam patavina. No final todos acabam por pagar um bilhete que custa os olhos da cara. Depois esfregam os olhos e começam a ver melhor. Vão para a rua e a presidente de um grande país, até grande na "bola", vai tentar compreender o que é que se passa! Nada de especial, apenas um "bom" negócio à custa do estado. O costume.

terça-feira, 18 de junho de 2013

A importância do "mood"

Está visto que as espantosas taxas de crescimento do países que se perfilam como os novos lideres mundiais têm muitos pés de barro. Assistimos assustados ao rastilho de violência que alastra no Brasil, ouvimos as queixas e ansiedades e impaciências que agitam as populações e duvidamos do caminho certo do progresso que se anunciava com tantas certezas. Oxalá tudo não passe de dores de crescimento e o Brasil possa em breve recuperar a calma e dar confiança aos que exigem partilhar da riqueza que impulsionou tão alto as leituras económicas.
A Turquia, esse gigante às portas da Europa, ocupa agora também um lugar de destaque na colecção de praças célebres onde tantos quiseram ver Primaveras. Não parece um tempo suave, mas oxalá seja mesmo uma estação que leve à bonança, o certo é que talvez estejamos todos a aprender que temos todos que aprender uns com os outros, é cedo para se decretar a decrepitude ou o crepúsculo da Europa e dos modelos de desenvolvimento que sustentaram a sua afirmação, é cedo para olharmos as subidas rápidas do números e concluir que assim vamos ficar para trás. Talvez não, os números, como se vê, escondem muita coisa, podem ser alertas e não sinais verdes, podem parecer progresso mas esse, o verdadeiro, é sentido de formas bem diferentes pelos que habitam as regiões. Dizia-me há dias um cidadão alemão que via com muito agrado os números sobre Portugal, que, apesar do desemprego, estavamos a fazer grandes progressos nas finanças e nas mudanças estruturais, a única coisa que ele não compreendia, dizia ele, é porque é que nós não reagíamos, as pessoas não abrem negócios,não correm riscos,não dinamizam a economia, esse o grande mistério que os números não lhe explicavam. Olhei-o perplexa e perguntei-lhe o que é que ele conhecia de Portugal. Respondeu-me que tinha chegado nesse mesmo dia e partia no dia seguinte, dos números conhecia muito bem o País mas que realmente do nosso "mood" não sabia nada.
Pois é, seja para avaliar o progresso seja para diagnosticar as fraquezas, o "mood" faz muita falta, o que vemos nas televisões são as várias e surpreendentes razões que ditam o estado de alma de cada país.

"Alta voltagem"...

Em Espanha há vontade política, e talvez mais recursos financeiros, para travar o aumento do défice tarifário da energia e ajustar os custos de energia para níveis comportáveis. O governo espanhol anunciou que vai reduzir os custos regulados do sector da electricidade, incluindo a produção a partir de fontes tradicionais e das renováveis. A remuneração das energias renováveis será ajustada para “rendibilidades razoáveis”. Ou seja, o governo espanhol (assim parece) vai intervir nas “rendas”.
Em simultâneo, parte do défice tarifário irá ser financiado pelo orçamento do Estado, colocando-o em níveis suportáveis. É dinheiro dos impostos que vai solucionar a “bola de neve” que é o défice tarifário.  
Por cá, o governo anunciou que iria cortar nas “rendas” da energia. Estamos ainda sem saber qual é efectivamente o plano, as medidas e as reduções esperadas e o seu impacto na factura energética nacional. Certo é que Portugal tem um défice tarifário de electricidade gigante, de que aliás pouco se fala, que está a crescer todos os anos, que ascenderá no final deste ano a 3,7 mil milhões de euros. O défice tarifário deve-se ao facto de os custos com a electricidade – 50% da factura deve-se aos chamados custos políticos - não serem de imediato levados à factura, contendo assim o aumento da electricidade e diferindo o seu pagamento para o futuro. O défice tarifário não é mais do que uma dívida dos consumidores para com o sistema energético que terá que ser paga no futuro. O problema, como acontece com qualquer dívida que tem de ser amortizada, é que os custos futuros da electricidade estão e serão penalizados pela amortização daquela dívida.
O recente anúncio da Siderurgia de encerrar portas em Portugal devido à excessiva factura energética fez disparar os alarmes no ministério da economia que respondeu com o anúncio de medidas para baixar os custos da electricidade dos consumidores industriais. Resta esperar para sabermos como vai ser conseguida a redução: se através das "rendas", se através dos consumidores domésticos. Não há "almoços grátis"!

A greve inútil

Afinal, apesar do intenso trabalho de propaganda levado a cabo desde há semanas, da mobilização efectuada, dos meios utilizados, da colaboração empenhada dos media e do adorno à festa, gratuito e cego, dos sindicatos da FNE, a FENPROF não conseguiu anular os exames marcados para ontem. Cerca de 75% dos alunos puderam fazer exame e em 70% das escolas realizou-se a totalidade das provas. 
Claro que se admite que muitos professores tenham autênticas razões de queixa, que vão para além das que resultam das reestruturações provocadas pela diminuição do número de alunos. E aí a máquina do Ministério da Educação o que mais e melhor sabe e gosta de fazer é criar problemas a todos os ministros que lhe caem nas garras. 
Mas os sindicatos da FENPROF, lutando sempre contra tudo e contra todos, não poupando qualquer ministro ou governo, ignoram os verdadeiros problemas dos professores, desprestigiam a classe  e, no fim, instrumentalizam-na em prol dos seus objectivos meramente políticos e partidários.
Chegaram agora ao cúmulo de se servir dos alunos para esses mesmos fins. Interessante que não obtiveram nem o apoio das famílias, nem dos alunos, que compareceram em massa.
Assim se vê a força real da FENPROP. Que ensaiou uma greve que a ninguém aproveitou. Muito menos aos seus associados. 

Lágrimas...


Entrou com uma pele escura, não bronzeada pelo sol, talvez queimada ou suja pela vida. O seu ar sombrio, antipático mesmo, quase a raiar o repulsivo, incomodou-me. Formalmente perguntei-lhe, anda bem de saúde? Não. Disse numa voz demasiado baixa para que o entendesse. Repeti-lhe a pergunta. Respondeu-me no mesmo tom, mas agora olhando para mim e eu para ele. Mesmo em voz baixa os tremores do lábio deram-me a resposta, não, não andava bem de saúde. Continuei a olhá-lo em silêncio, à espera que me dissesse o que tinha. Nada, o tempo, escassos segundos, pareceram-me uma eternidade. Continuei a fixá-lo até que foi capaz de responder. Não ando bem desde há um ano, quando morreu o meu filho. Desviei o olhar para o papel, tentando fugir do que iria ouvir. Não fugi. Fui obrigado a perguntar perante tão dolorosa afirmação, foi um acidente? Novo silêncio de apenas alguns segundos, dois, três no máximo, mas que me pareceram, novamente, uma eternidade. Não. Suicidou-se. Um calafrio inesperado invadiu-me como se estivesse debaixo de uma violenta queda de água. Não sabia o que dizer, nem fazer. Procurei algo semelhante que me pudesse ajudar nesta circunstância, mas não tinha nada; algo parecido como uma morte de um filho por acidente ou doença tinha, mas por suicídio não. Foi por causa de uma rapariga. Tinha vinte e três anos. Em silêncio explicou-me como e onde tinha cometido tão dramático ato. Calei-me. Não levantava os olhos. Sentia a sua presença, incomodavam-me as suas palavras, construí espaços, momentos, tempos, dor e até a morte do jovem. Não falou muito, apenas o suficiente, e eu muito menos. O homem sofria. Afinal, a cor escura, suja, era apenas o reflexo de uma dor sentida que o atormentava desde há um ano. Tentei saber como e onde se tratava ou procurava conforto para o alívio do seu tumor maligno, o de uma alma aprisionada à morte violenta do filho. Tratava-se, mas mal, de forma errática, comendo pastilhas para a ansiedade. Verifiquei que não era acompanhado da melhor maneira. Então, comecei a falar, a orientar, a explicar o que deveria fazer e o que já deveria ter feito. Onde, como e porquê. Os olhos surpreendidos pela inversão dos acontecimentos - passei a comandar a situação -, bebiam as minhas palavras, que não prometiam nada. Eu apenas queria orientar uma alma atormentada e desprezada. Convenci-o a tratar-se como deve ser, para bem dele, bem relativo, obviamente, e cujas melhoras irão ocorrer talvez daqui a um a dois anos, mas sempre serão melhoras que se irão estender à família, aos amigos e aos colegas. Olhava-me com o ar mais estupefacto que vi até hoje, e as lágrimas, pérolas transparentes e muito grossas, brotavam dos cantos dos seus olhos. Aceitou as minhas propostas e orientações. Saiu com uma tonalidade de rosto menos escura, pelo menos com algo semelhante à cor da esperança. Penso que seria a cor da esperança, porque voltou para trás e perguntou como me chamava. Eu disse-lhe. Ele apontou. Da primeira vez com erros, da segunda não. Apontou o meu nome. Eu não apontei o dele, nem do filho. Não quis.

FED volta a "dar-nos a mão"? Amanhã se saberá...

1. Assistimos nas últimas semanas a oscilações nos preços de mercado dos activos financeiros como já há muito tempo (quase 5 anos) não se via; no caso dos títulos de dívida pública essas oscilações traduziram-se numa forte subida das "yields" (taxas de juro implícitas na cotação dos títulos) e consequente queda dos preços.
2. No caso da dívida pública portuguesa, que já aqui referi, o agravamento das yields da dívida a 10 anos atingiu quase 150 pontos base nas 3 últimas semanas, partindo de 5,2% e atingindo quase 6,7% em meados da semana passada.
3. Estas alterações resultaram da expectativa criada pelas declarações do Presidente do Banco de Reserva Federal (FED) dos EUA, a 22 de Maio último, as quais foram interpretadas como anuncio de uma iminente redução ou mesmo suspensão do programa de compra de dívida, pública e privada, que o FED vem realizando há longo tempo (USD 85 mil milhões/mês) - em aplicação de uma política monetária ultra-acomodatícia - e que contribuiu para uma generalizada e acentuada descida das taxas de juro nos mercados de dívida, nos EUA e não só...
4. Acontece que nos últimos 3 dias a tendência altista das "yields" foi invertida, tendo no caso da dívida portuguesa a 10 anos baixado novamente para um nível próximo de 6,2%.
5. Esta correcção dos últimos dias está associada à expectativa de que o FED venha a clarificar amanhã a sua política, no sentido de que a redução (ou, por maioria de razão, a suspensão) do programa de compra de dívida não está em causa para já e que, quando tiver de acontecer, será feita de modo a não por em causa a estabilidade dos mercados e os interesses da economia...
6. A verdade é que os mercados se tornaram “viciados” nos apoios dos bancos centrais, em especial do FED, de tal modo que se chegou ao ponto de más notícias sobre o desempenho da economia serem hoje recebidas como boas notícias para os mercados, por justificarem a manutenção “sine die” dos apoios dos bancos centrais...
7. Será, pois, que o FED vai voltar a dar-nos a mão, fazendo acalmar os mercados e permitindo, no caso da República Portuguesa, o tão esperado regresso ao mercado da dívida de longo prazo? Amanhã se saberá...

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Loucura...


Conversas loucas alimentam e curam. Sabe bem ouvi-las, construí-las e desfazê-las logo que apareçam. São diferentes segundo a hora do dia. De manhã são alegres, divertidas, cheias de esperança, cheirosas, impregnadas de perfume e de sobras de amor. À hora do almoço começam a inquietar e a comprometer o girar de um sol esquivo e envergonhado incapaz de se mostrar e que chora num sono depressivo e perturbador. Ao final da tarde, as conversas, esfomeadas, despertam a vontade canina de morder e de esfrangalhar as notícias sem sabor e sem valor. Loucos falam, ufanamente, das suas gloriosas loucuras, atos, palavras e conquistas sem sentido. É uma tristeza ter de ouvir tantas loucuras despropositadas, frias e provocadoras de ansiedade. Não gosto deste tipo de loucuras. São feias e duras. Fujo delas como o diabo da cruz. Eu não sou fã do diabo, eu gosto de uma cruz, a minha, onde queria pregar uma bela e doce loucura erigida aos céus de braços abertos, abertos a todos os loucos sãos deste mundo. Não os encontro, até encontrar à noite uma conversa de dois loucos, eu, mais velho, ela, a neta, a mais nova. Explica-me, tu que sabes de tudo e de todos, onde está a avó. Tenho saudades dela. Eu não esperava tamanha pergunta e tive de me socorrer de explicações loucas, tão loucas que acabei por acreditar nelas. Depois, perguntei-lhe, percebeste o que eu disse, sim, percebi. Pois, pensei, só através da loucura é que nos entendemos. Uma loucura que alimenta e cura, e que sabe tão bem...

Da série ´Pérolas´

Mão amiga fez-me chegar esta pérola:


(Clicar na imagem para ler. Se for muito suscetível, não clique)

Sem comentários...

Tremor da pálpebra...


 Há muito que não sentia tremores na minha pálpebra. Recordo quando começou. Era jovem e quando a ansiedade apertava, mesmo sem dar conta, punha-se a tremelicar gentilmente despertando-me suavemente para a existência de algum problema. Um tremor ligeiro que passou a ser um aviso de que algo se estaria a passar, convidando-me a conhecê-lo de forma a não sofrer agressões mais graves. Uma espécie de boletim meteorológico da alma desejosa de sol e de paz. Aprendi a viver com ele e com o tempo foi-se esfumando, embora, de lés a lés, aparecesse apenas para dizer que ainda estava vivo.
A pálpebra começou a tremelicar, não com muita intensidade, mas já a sinto. Escuto o mundo e vejo violência e intolerância. Nada de novo. O mundo foi sempre assim e está longe. Não deve ser por aí. O problema deve estar mais perto. Pois deve. Todos os dias ouço pessoas a contestar. Não é difícil contestar. Não é difícil encontrar motivos para justificar as afirmações que correm em todas as direções. A crispação crescente pica e faz doer, e permite até antever uma violência física, generalizada. Primeiro começa-se com o uso da palavra, a palavra dos que sentem ter a razão pelo seu lado. É tão fácil obter alguma forma de razão. É tão fácil tossi-la. É tão fácil contaminar os outros. É tão difícil conseguir mudar os outros, os que pensam de maneira diferente, outros que também sabem encontrar a sua razão. Razões têm uns, razões têm outros. E de razão em razão, ainda acabaremos por a perder. É mau, é horrível, quando todos perderem a sua razão. Ouço as palavras, ouço as razões das suas condutas e dos seus desejos. Aumenta de dia para dia a intensidade das razões de sinal contrário numa divergência preocupante. Um dia destes ainda podemos acordar sem saber onde para a verdadeira razão. Queria emitir a minha opinião, não porque esteja na posse da verdadeira razão, apenas porque sinto o tremelicar de uma pálpebra. Eu sei que ela tem razão...

O papel da liderança

Com o Director que temos na escola, já sabíamos que ia haver exame.
Aluno entrevistado à saída do exame
Ora aí está. O papel da liderança.

Os idiotas inúteis

A paralização convocada pelos sindicatos dos professores é apenas mais uma etapa no processo de agitação leninista, que visa a contestação permanente ao poder democrático instituído. Sem olhar a meios, apenas lhe interessando o fim da tomada do poder. 
Chamar-lhe greve é negar a nobreza do conceito.
Olhando a história, sempre forças do socialismo democrático ajudaram ao processo, e sempre foram escorraçadas após a vitória.
Também neste processo os sindicatos da FNE estão a fazer o papel de idiotas. No caso, de idiotas inúteis.   

domingo, 16 de junho de 2013

Um Seguro abaixo dos mínimos

"Proponho que a UE estabeleça como objetivo para o ano 2020 que nenhum país (da União Europeia) possa ter uma taxa de desemprego superior à média europeia".
Nem superior, nem, por exclusão de partes, inferior, claro está. Portanto, o que seguramente Seguro propõe é que o objectivo de desemprego seja igual em toda a Europa. Alto, baixo, ou médio, tanto faz. O que importa é que seja igual!...
Estava no estrangeiro, ouvi e não quis acreditar. Mas, chegado a Portugal, li e é verdade. Seguro propôs!... Claro que um curso de adultos de relações internacionais não inclui saber matemática. Nem socialista que se preze preza qualquer obtusa ciência que trate de contas. 
Imagine-se a natureza do forum...que a proposta foi aplaudida!... Com a perplexidade de alguns progressistas com umas luzes de aritmética e porventura menos devotos. Bom, mas o facto é que a proposta teve aplausos. Perplexos, mas aplausos!... A ignorância, para além de atrevida, é também aplaudida. 
Só num surrealista Forum progressista e socialista um “happening” destes pode acontecer. O que seria o menos. Mas, o mais, é que o promotor do evento foi um Seguro que não quer ficar pelo progressismo socialista e quer ser 1º Ministro de Portugal.
O que mais teremos que ouvir!...

No mundo da confusão...

Depois de tudo o que se disse, que se comentou, que se escreveu, não entendo a decisão do governo de não pagar o subsídio de férias em Junho. Se não há problemas de tesouraria nem orçamentais qual a razão do adiamento. Questões processuais e legais - li algures - estarão na base da decisão. No fundo quem se deveria ter explicado não se explicou, deixando as especulações ao sabor de cada um, dando azo a inumeráveis comentários políticos, gerando criticas e perplexidades. Tudo isto para quê. Para gerar mais desencanto e insegurança nas pessoas. Para que o país não duvide que vivemos em austeridade. A economia agradeceria, e alguns sectores económicos em particular, que o subsídio de férias fosse pago agora e não no final do ano. E depois, há milhares de famílias a viverem tempos de grandes dificuldades que contam com o subsídio de férias para fazer face a gastos extraordinários que normalmente o salário mensal é curto para lhes fazer face. Não se percebe. Quem ganha com estas decisões e confusões?

sábado, 15 de junho de 2013

"Peixinho de olhos azuis"...



Para a "Mariana, João António e Maria Leonor"

A estreita ribeira de águas límpidas dava vida ao povoado, deixando-se passar vezes sem conta pelas pessoas que, no meio da ponte de pedra, paravam quase sempre para a olhar, mas sem pensar. Olhavam e viam pequenos cardumes de peixes pequeninos, brincalhões, muito traquinas, que se punham também a olhar para a ponte de pedra. O Horácio, quando passava a ponte, também olhava, mas pensava nos peixes. Como seria divertido se pudesse brincar com eles. O Horácio era um pescador, mas só pescava no extenso e profundo lago onde havia peixes grandes com olhos tristes. Ali, na ribeira não admitia nem nunca pensou em apanhá-los. Era um local sagrado.
Um dia Horácio viu um pequeno peixe diferente. Tinha olhos azuis. Os peixes não têm olhos azuis. Pensou. A partir daí começou a ver que os outros, que andavam sempre juntos, em correrias loucas, não deviam gostar dele, empurravam-no e maltratavam-no. O peixe de olhos lindos e azuis passou a andar sozinho e muito triste. Horácio não sabia o que fazer. Começou, também, a andar muito triste pela forma como os peixinhos, de quem gostava tanto, tratavam o irmão de olhos azuis. Foi então que um dia viu o cardume de peixes pequenos a rodear o solitário de olhos azuis. Depois empurraram-no para a queda de água e o peixe de olhos azuis foi obrigado a saltar para o degrau seguinte da escada da ribeira. Aqui, ao fim de pouco tempo, o cardume de peixinhos deste degrau fizeram-lhe o mesmo, empurraram-no para a queda de água seguinte. E de degrau em degrau da escadaria de águas frescas e límpidas, onde havia sempre um cardume de peixes pequenos, o peixe de olhos azuis acabou por cair no grande e profundo lago onde passou a viver e a crescer com saudades das águas límpidas e frescas da ribeira, onde queria morar. Preso no profundo e grande lago, pensava nos olhos do Horácio, olhos lindos, azuis celestes, olhos que gostaria de ter. 
Um dia olhou para cima e viu dois pequenos sóis azuis a brilhar através da água. Começou a subir para ver mais de perto o que eram aqueles belos pontos azuis que brilhavam tanto. Na subida passou ao lado de uma minhoca que estrebuchava na água. Como não tinha almoçado, pensou, estou com fome, e, sem hesitar, engoliu-a. Foi então que sentiu uma dor na garganta e começou a ser puxado com força para fora da água. Ficou muito assustado e pensou, vou morrer afogado no ar, nunca mais vejo o local onde nasci e onde sempre quis viver. O salto foi tão grande que, de repente, sentiu um aperto no corpo e viu duas belas safiras muito azuis à sua frente. Eram os olhos do Horácio. Horácio reconheceu os olhos azuis do peixe e ficou muito satisfeito. Com muito cuidado meteu-o num saco com água correndo encosta acima, sempre ao lado da ribeira, com os cardumes de peixes pequenos a quererem saber o que é que se passava. Quando chegou ao local onde tinha nascido, perto da ponte de pedra sobre a ribeira, colocou-o com muito cuidado nas águas límpidas e frescas. Todos os peixes pequenos, muito intrigados, correram para o local e abriram as bocas de espanto quando viram o peixe de olhos azuis. Estava tão grande que era capaz de os comer a todos de uma só vez. Juntaram-se ainda mais, tremeram de medo, e perguntaram-lhe se ia fazer-lhes mal. Não, não quero fazer mal a ninguém, só quero viver aqui e brincar convosco. Não nos fazes mal? Não! Querem ser meus amigos? Eu não deixo que vos façam mal. Horácio não sabia a língua dos peixes, mas compreendeu que algo de interessante se estaria a passar com eles. Quando o belo peixe de olhos azuis começou a nadar, os outros, pequeninos, puseram-se a seu lado em correrias loucas e muito felizes da vida. 
Hoje, há quem diga que é possível ver duas belas safiras de um azul celeste a brilhar na ribeira no meio dos cardumes de peixes pequeninos. Basta parar sobre a ponte de pedra, olhar para a ribeira e pensar como o Horácio fazia através dos seus brilhantes e doces olhos azuis...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Mais empresas para a bolsa? Era bom, era, mas...

1. É hoje notícia uma reunião promovida pelo (incansável) Ministro da Economia, juntando um grupo de cerca de 20 empresários, responsáveis das bolsas e regulador dos mercados de títulos.
2. Essa reunião teria como objectivo, ao que consta, incentivar mais empresas a abrir o seu capital ao mercado, solicitando a admissão à cotação das respectivas acções e /ou emitindo dívida transaccionável no mercado, em ordem a diversificar as suas fontes de financiamento.
3. Compreende-se o interesse (e até o entusiasmo) do Ministro em tentar encontrar saídas para o problema do financiamento das empresas, sobretudo das PME, que em Portugal e como se sabe defrontam sérias dificuldades para obter capitais alheios em condições aceitáveis para a sua exploração.
4. Esta questão não é nova, fazendo-me recordar os idos anos 80 e 90 em que entre nós se assistiu a um forte impulso no sentido de levar mais empresas para o mercado de títulos, mediante a abertura do capital e/ou a emissão de dívida obrigacionista.
5. Não entrando agora em detalhes históricos acerca desse esforço de promoção do mercado de capitais (levaria horas), direi em resumo que esse esforço, não obstante o enorme empenho de algumas pessoas responsáveis da época (recordo em especial o Dr. Miguel Cadilhe, na sua qualidade de Ministro das Finanças entre 1986 e 1990 e o saudoso Dr. Carlos Rosa, durante anos entusiástico presidente da Bolsa de Lisboa), acabaria por dar escassos resultados.
6. E tal aconteceu por diversas razões de natureza estrutural, que passo a enunciar (as mais importantes): (i) a grande relutância da esmagadora maioria das empresas, sobretudo PME, que são de base familiar, em admitir a entrada de estranhos na sua vida, querendo saber “o que se passa” na respectiva gestão; (ii) a dificuldade para a grande maioria dessas mesmas empresas em cumprir as elevadas exigências de reporte de informação que a participação no mercado de títulos impõe (tanto na admissão como depois o reporte regular); (iii) o domínio que os bancos exercem no financiamento das empresas, que os leva não ver com bons olhos que estas utilizem fontes alternativas que as pudessem tornar mais independentes desse financiamento.
7. Relativamente ao último factor apontado, não deixa de ser curioso notar que essa (silenciosa) barragem exercida pelos bancos acaba por voltar-se contra eles em períodos recessivos como o actual: privadas de outras fontes de financiamento, excessivamente dependentes do financiamento bancário, as empresas acabam por atirar para cima dos bancos todos os seus problemas financeiros, contribuindo para uma rápida progressão do crédito mal-parado (de acordo com estatísticas hoje divulgadas pelo BdeP já ascende a 11% da carteira de crédito)...
8. Em suma, tenho a noção de que esta louvável tentativa do Ministro da Economia está, infelizmente, destinada ao fracasso - tanto quanto percebo, continuam a não existir condições mínimas para que o mercado de capitais seja, entre nós, uma real alternativa ao financiamento das empresas, muito especialmente das PME’s...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Boa pergunta...

... a de Paulo Gorjão no Bloguítica.

Atenção, algo se passa!

As eleições autárquicas foram marcadas para 29 de setembro. Quem o informa, em primeira mão, é o governo, quebrando a tradição de tal anúncio caber a um dos assim chamados comentadores políticos. Espera-se agora que os comentadores se pronunciem sobre esta verdadeira inflexão.