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quinta-feira, 14 de junho de 2018

"Simples"...

 

Viver é um somatório de inúmeras situações, vivências, emoções, sentimentos, dores, prazeres, desastres, traições, infortúnios e algumas coisas simples. Talvez sejam estas últimas as apaziguadoras da mente, justificando dia que há de renascer. 
Sentei-me na esplanada e conversei com o dono. Coisas triviais, mas profundamente humanas, capazes de solidificar a amizade desejada. Gosto deste tipo de conversa, e se for numa tarde enfeitada com sol, debaixo de música agradável, tanto melhor.  
Encontrei o meu amigo cauteleiro. Ao ver-nos, sorriu e deu-me a impressão de ter deixado de gaguejar. - Os senhores por aqui. Já andava aflito. Não têm aparecido. Eu olho sempre. Pensei que estivessem doentes. Conseguiu exprimir o seu sentir sem gaguejar uma única vez. Sorri. Disse-lhe que não, enquanto ao mesmo tempo ia escolhendo uma cautela. - Anda a pregar para o Santo António, mas o dia dele foi ontem. - Poiiiis foooi! Voltou ao normal. Desejou-nos muita saúde, agarrando as nossas mãos com uma satisfação evidente, dizendo que a gente esquece apenas as pessoas que não são boas. Achei interessante a sua observação. Com a cautela na mão tive de lhe dizer que só "prometia", mas nada de prémios. Calou-se, sorriu, como a dizer, tem razão, mas logo a seguir, num perfeito linguajar de um tartamudo, disse: - Tantas vezes vai o cântaro à fonte que lá fica a asa. - O pior é se fico eu! 
No regresso, não planeado, é assim que gosto de viver um dia de cada de vez, passei por Tibaldinho. Já passei por lá vezes sem conta, mas como a observação à terra foi feita de forma interrogativa, tive de explicar que era a terra de belos bordados. - Até temos um que comprei aqui há alguns anos. Lembras-te? - Não. Já estava à espera. Há alguns anos, no verão, entrámos numa rua muito estreita. Algumas mulheres estavam sentadas nas ombreiras das portas. Uma senhora de idade, vestida de preto, ar muito triste, sentada nas escadas da sua casa, informou-me a meu pedido onde poderia adquirir bordados de Tibaldinho. - Eu tenho alguns. Eu bordo. O senhor quer ver? - Claro. Estacionei o carro num largo e subimos a sua casa, muito modesta e limpa. Minúscula. Abriu uma caixa e retirou vários. A senhora mostrava ansiedade. Apercebi-me das suas dificuldades. Não me foi difícil de concluir que estaria a passar por algum momento complicado. Aprecei os bordados, mas deu-me a entender que não iria comprar nenhum. Explicou-me as horas e as semanas para fazer alguns deles. Adquiri o mais caro. Não regateei e entreguei-lhe o montante em notas. Tremia quando as recebeu. Não queria acreditar. Tive a perfeita sensação de a ter ajudado, porque ouvi um breve e interessante suspiro ao mesmo tempo que fazia, o mais discretamente possível, o sinal da cruz. Hoje, subi a estreita rua, a tarde quente fazia-se sentir, e as mulheres daquele canto estavam sentadas nas ombreiras das suas portas. Descobri as escadas e a casa minúscula. Uma senhora de idade, vestida de preto, cabelo branco, cortado um pouco rente e com olhar feliz, olhou-nos. Vi quem era. Acenámos sem parar. Respondeu na mesma moeda com um sorriso suave. Eu soube quem era, ela, obviamente, não. 
Coisas simples. 

quarta-feira, 13 de junho de 2018

"Vazio"...



Zisi, neto de Confúcio, foi um filósofo interessante. Segundo ele as pessoas sábias deveriam copiar a realidade para dentro de si, princípio patenteado no seu livro, "Doutrina do Meio". Para compreender os acontecimentos da vida é preciso uma mente "vazia", ou seja, é necessário esvaziar as nossas cabeças no dia-a-dia para poder pensar. Um conceito interessante a lembrar um outro, o de Zaratustra de Nietzsche. Sempre que observamos um objeto, ou experimentamos um acontecimento, só o podemos ver sob uma nova luz se a nossa mente estiver "vazia". Mas há um grande problema a ser resolvido. Como esvaziar uma mente cheia de "conhecimentos"? Há duas possibilidades, através da empatia e da justiça social. No primeiro caso, se alguém estiver a sofrer devemos entrar na mente do sofredor, e não ficarmos pela análise e crítica aos sistemas sociais de proteção que garanta o bem-estar social. Se virmos que existe poluição num rio, pudemos utilizar os conhecimentos científicos para a explicar, mas só imergindo nas suas águas é que conseguimos compreender a situação. Não estou a ver um antigo candidato à presidência da câmara de Lisboa a mergulhar nas águas do Tejo na zona de Abrantes ou na Ribeira dos Milagres! A segunda maneira de "esvaziar" a nossa mente é através da justiça social. Face aos inúmeros problemas que nos atingem poucos são os que se interessam pela justiça das coisas, caso das causas da poluição ou das alterações climáticas. Nestas circunstâncias preferem saber quais as vantagens, quase sempre económicas, como é fácil de compreender, em obter dividendos da situação. Pois não, dirão alguns retóricos, são boas oportunidades de negócio.  
Empatia? Dói! Justiça social? Que se lixe! Se aliarmos esta dupla recusa aos preconceitos, aos interesses económicos e ao branqueamento religioso, então, é fácil de concluir que o processo de produzir conhecimento fica arredado da maioria das mentes, permitindo o imperativo egoísta, a pretensão saloia, a explicação política e o determinismo religioso.  
Zisi sabia o que dizia e também que nunca chegaria o "tal" dia. Esvaziar a mente para produzir conhecimento e germinar sabedoria? Mais fácil é esvaziar a bexiga. 
Tenho pena em não ter conhecido Zisi, caso contrário dizia-lhe: - É mais fácil esvaziar a bexiga do que a mente. Sempre é um alívio que até dá prazer. Mas ele também devia saber isso.   

terça-feira, 12 de junho de 2018

"Palavras"...

Não sou astrónomo, mas não me importava de ser, como gostaria de ter sido tantas outras coisas. No fundo, seduz-me o conhecimento e tudo o que se esconde atrás dele. 
Em miúdo enganavam-me frequentemente quando queriam que fizesse as longas caminhadas da estação até à vila. Longas para as pernas de uma criança. À noite era mais complicado. Convenciam-me que na curva seguinte da Via Cova, um caminho estreito e íngreme que serpenteava a encosta, havia um buraco onde se escondia uma raposa. Eu corria e espreitava, dizendo: - Raposa, raposinha, anda cá que eu estou aqui! Mas nada. Repetia uma, duas vezes, mas nada. Lavrava o meu protesto debaixo das inúmeras estrelas que, divertidas, riam-se convulsivamente com o comportamento de uma criança. Até as cigarras deveriam pensar que era estúpido. Mas eu acreditava nas palavras dos adultos. Diziam logo: - Se não está nesse buraco, corre, que mais acima, no muro, deve lá estar. – Mas está mesmo? Perguntava desconfiado. – Está. Às vezes muda de lugar porque não gosta de ser incomodada. Ela também tem medo. – Do escuro? – Não. Tem medo, mas é das pessoas que lhe querem fazer mal. – Mas eu não lhe faço mal. Só quero fazer-lhe festas na cauda. – Corre. Pode ser que ela esteja mais acima. Eu ia e repetia: - Raposa, raposinha, anda cá que eu estou aqui! Mas nada. Nunca a vi.  
Acreditei muito tempo na palavra. Dou como palavra o testemunho de todas as estrelas que eu via no meu universo. Eram muitas. Riam-se de mim conjuntamente com as cigarras. Como não conseguia ver a raposa, passava todo o caminho a olhar para cima, para a beleza do firmamento, fazendo perguntas que eu não conseguia ainda expressar por palavras. Quantos coisas estranhas deveria haver por ali.  
Cansado, caía na cama como uma pedra sonhando com uma bela raposa doirada a saltitar de estrela em estrela. 
O mundo é grande e não há palavras que cheguem para escrever o que esconde. 
- Raposa, raposinha, anda cá que eu estou aqui! 
Acredito que ainda esteja lá. O mais difícil é saber como chegar. Através das palavras, claro. Mas não tenho ainda palavras para isso... 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

sábado, 9 de junho de 2018

"SÃO SEBASTIÃO"...

Já tive oportunidade de explicar a razão de gostar do São Sebastião, capitão da guarda pretoriana de Diocleciano, imperador romano. Sendo cristão, era benévolo com os crentes, facto que o levou a ser considerado como traidor e condenado à morte por flechas. Lançado ao Tibre acabou por ser resgatado por Irene, mais tarde elevada aos altares. Novamente presente perante o imperador acabou por ser executado através de espancamento e o seu corpo lançado nos esgotos de Roma. 
Foi alvo de várias obras, uma delas li-a em pequeno, Fabíola, do cardeal Nicholas Wiseman. Nunca mais esqueci a belíssima capa do livro. 
A sua sua imagem fascina-me desde pequeno, tronco nu, amarrado a um tronco e cravejado de flechas.
Portugal tem uma característica religiosa que considero única. Em todas as procissões, sejam elas em honra de quem for, aparece sempre um São Sebastião. Está presente em muitas igrejas e quanto a capelas, upa, upa, é difícil, penso eu, encontrar um santo com tantas. São Sebastião pode mesmo ser considerado como o campeão das capelas em Portugal. Presumo que tenha a ver com a peste, a fome e a guerra, a tríade destruidora da humanidade. Na falta de melhor, São Sebastião tornou-se no santo protetor para as pestilências humanas. É tão popular que até tivemos um rei chamado Sebastião que tudo fez para o honrar. Lisboa tinha sido assolada em 1569 pela peste. O rei mandou erigir um templo junto à margem do Tejo e até o papa lhe enviou de Roma uma das setas com que o santo foi martirizado.
Muito mais havia a contar a propósito deste cristão que tentou converter Diocleciano em vão.
No seu dia, 20 de janeiro, costumo calcorrear alguns sítios onde lhe prestam homenagem. Este ano passei por alguns locais e fiquei triste, nem uma festa, nem uma procissão, nem uma venda, nem música ao estilo de Quim Barreiros, nem um taberneiro, nada. Ainda pensei: - Ó Sebastião! Será que as pessoas estão a esquecer-te? Não me respondeu.
Confesso que me faltam dois santos para juntar aos muitos que andam por aqui. Faltam-me um São Brás e o São Sebastião. Já prometi, caso consiga adquiri-los, que não vou adquirir mais nenhum santo. Uma professa com odor a falso. Só eu é que sei.
Não conto as voltas que já dei a propósito para arranjar um São Sebastião. Queria um com arte e com dignidade. Não queria nenhum que ficasse meio acabrunhado junto aos seus colegas. Nada. No dia do santo, deu-me para procurar um. Encontrei alguns, mas eram muito dispendiosos. A loucura ataca-me com frequência, tenho que confessar, mas na maioria dos casos consigo domesticá-la. De repente vi uma imagem do santo. Uma preciosidade indo-portuguesa que estava nas mãos de um vendedor alemão. Elaborada por santeiros de Goa nos finais do século XIX. Sorri. O preço não era muito elevado, mas mesmo assim era um pouco pesado. Lancei a minha oferta, certo de que não seria atendida. Mas fiz. Passado pouco tempo recebi a resposta, propondo um valor mais baixo, e que era perfeitamente aceitável. Não estava à espera. O que é que eu fiz? Lancei nova proposta só para testar o vendedor, certo de que se não a aceitasse eu aceitaria a dele. Não é que ele aceitou! Nem queria acreditar. Resumindo, já tenho um São Sebastião. Ainda por cima de origem indo-portuguesa!
Bom, tenho que agradecer ao santo. De facto, mais tarde ou mais cedo acabo por conseguir o que desejo. Estranho? Um pouco. Mas foi sempre assim.
A história continua, porque logo a seguir arranjei um São Brás. 
Depois conto-a.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

"Preguiça da noite"…

Nunca tive grandes pretensões exceto o desejo de sentir a beleza pintada de paz num mundo que não entendo. Não sei se é pouco ou muito, mas para mim é suficiente. Não fujo de nada, mas o nada sabe perseguir-me como se fosse um naco de carne para lobos esfomeados. Acontece. Eu sei que acontece e até consigo explicar com base nos meus conhecimentos. A natureza humana foi caldeada e assada em raivas, ódios, violências, mortes e destruição, os principais elementos indispensáveis ao "nosso" sucesso enquanto espécie. Tarda em "(H)umanizar" a nossa existência. Códigos e princípios começaram a ser produzidos de forma a tentar expurgar a natureza maldita da nossa origem substituindo-a por uma outra, superior, mais bela e pura. Um esforço notável que tenta espalhar-se, tentando garantir a emergência de uma nova "Humanidade". Uma intenção impregnada de fantasia, mas ao mesmo tempo suficientemente esperançosa para que possamos continuar a lutar contra tanta coisa, violenta, sabuja e reles. É possível? Não. A cada esquina, a cada instante, a cada sopro, a cada escrito, surgem manifestações do cérebro "reptiliano", o garante do "nosso" sucesso e o inimigo da beleza e do amor.
Pouco há a fazer, exceto continuar a sonhar e a tentar respirar poesia, quer seja num dia cinzento e chuvoso ou num dia solarengo e amoroso. O que vale é a preguiça de uma noite silenciosa para ajudar a esquecer. Tudo? Não, apenas algumas coisas...

"Exposição"...






Viagem ao acaso como é meu costume. Tantas vezes passei por aqui. Hoje, o tempo chuvoso entristeceu-me. Não é difícil, mas mesmo assim teimo em procurar o que o acaso tem para me oferecer. A zona, vastíssima, ainda está negra não obstante o cantar do verde rastejante a querer esconder o passado recente. Olhei e vi "esculturas" de madeira. Desafiei a chuva e fui ver. Não eram esculturas humanas mas sim símbolos do "Grande Incêndio" de 15 de outubro. Descobri quando li os autores e conservadores. Autora? "Constança Urbano de Sousa". Conservadores? "Capoula dos Santos" e "Assunção Cristas". As "obras" perfilavam-se numa das mais estranhas exposições de "arte" que já vi até hoje.

“Caligrafando”...

Hoje, lembrei-me, por mera causalidade, a forma como escrevia na escola. As tecnologias modernas são danadas, obrigam-nos a assinar virtualmente mesmo sem ver o que escrevemos. Para que possam fazer, informo que têm de pegar na "caneta", carregando no botão, e depois escrever no tapete. Mas para que tudo corra bem digo: - Escreva lentamente, pressionando a caneta; olhe, faça de conta que está na quarta classe. O que é certo é que com este conselho acabei com inúmeras dificuldades. Sentado em frente do écran delicio-me a ver o aparecimento da assinatura. - Muito bem. Ficou excelente. Obrigado. Quer ver como ficou? Mostro e ouço: - Nada mal. "Nada mal" embrulhado em simpáticos sorrisos.
Nunca fui dado a uma boa caligrafia, não sei se isso tem a ver com a minha falta de jeito para o desenho, mas, mesmo assim, esforçava-me. A razão era muito simples. O meu pai, que fez a quarta classe, tinha uma caligrafia de espantar, conseguia desenhar as letras ao estilo do título do jornal "Diário de Notícias". Pedia-lhe para que escrevesse o meu nome. Ficava com os olhos em bico. Eu não conseguia. Adorava ver a caligrafia dos outros por dois motivos, conhecer os que escreviam com arte e os que ainda eram piores do que eu. Eram poucos.
Recordo as minhas redações, simples, e elaboradas com grande sacrifício, a testemunhar que a imaginação não brota com tanta facilidade como as fontes frondosas capazes de matar a sede. Mas eu gostava. As frases eram sempre curtas. Tão curtas a ponto de criar outras que fizessem a ligação para que o sentido e objetivo não morressem à nascença. Escrevia na lousa ou em papel costaneira. Depois tinha de copiar para o caderno a tinta. Um trabalhão dos diabos a que não era estranho o maldito borrão que sempre me perseguiu. Muitas vezes surgia cinicamente, a sorrir, na última frase. Nem quero recordar a tristeza que me invadia. O esforço com a caligrafia e um texto limpo relegava sempre para um plano secundário a importância do próprio texto. Depois tentei escrever com letra de gente, desenhada, legível, capaz de ser entendida por qualquer um. Não consegui, até parecia que a maldição do borrão se tinha transformado em letras feias, riscadas, rasgadas, vomitadas, mesmo doentias. Nem as cartas de amor conseguiram ultrapassar esse defeito. Tantas vezes vai o cântaro à fonte que fica sem a asa. Consegui o que nunca pensei, escrever com letra simpática, esteticamente digerível e, sobretudo, com algum encanto. Para isso tenho que pensar lentamente, ou melhor, não devo pensar e nem olhar para o que escrevo. Os sentimentos e as emoções emergem a querer imitar qualquer Afrodite perdida no meio do mar. Sorrio, porque o efeito é muito agradável, uma espécie de moldura meia barroca e dourada a realçar pensamentos, reflexões e histórias que irão perder-se num qualquer caixote da ilusão onde fermentam, sem cheiros e sem sabores, pequenos segredos da vulgar imaginação.
Dei um grande pulo até à velha e carcomida mesa da cozinha. Junto ao radioso fogão de lenha havia uma salamandra que emanava o mais saboroso dos calores que adocicava as noites de inverno. Sob a luz amarelada de uma lâmpada frustrada, a querer imitar o sol, desenhava com medo, e muito mais sono, as frases da redação desse dia.  - Mãe. Ficou bem? - Ficou pois! A letra está bonita e não tem nenhum borrão. Não sei se lia o conteúdo, mas isso era o menos...

quinta-feira, 7 de junho de 2018

"Interrogação"...

Interrogo-me frequentemente sobre muitos assuntos. Ao interrogar-me consigo despertar histórias escondidas no tempo, sabendo que muitas delas foram sepultadas em espaços conhecidos, mas também consigo ressuscitar dores e antecipar tragédias. A explosão de emoções ocorre em qualquer momento no meu cérebro desejoso de paz. Faz parte do longo caminhar do tempo. Olho para as mãos, que felizmente não tremem, e peço para dar vida ao que já morreu e ao que vai morrer. Uma espécie de oração para quem não sabe rezar, não obstante o ralhar e o admoestar de quem quis que aprendesse a ladainhar sem sentido frases e mais frases sem as entender, a não ser a sensação de cantar melodias bolorentas que para mim não era mais do que um faz de conta. Esforcei-me, mas não tive sucesso. Não estou arrependido. Olho para as mãos, que ainda vivem, e peço-lhes que escrevam. O meu medo é não conseguir dar vida às palavras e não poder saborear algo que justifique a minha vida. Escrever é isso mesmo, tentar respirar com ansiedade o prazer momentâneo de dar vida às palavras e às frases como se fossem filhos acabados de nascer. Sempre diferentes e surpreendentes. Quando passa um tempo, mesmo que seja curto, sem escrever, a angústia soma-se ao medo, provocando um terrível mal-estar, a querer imitar o que a vida me prometeu. Não sabia das suas promessas, mas sempre desconfiei. Agora que o tempo se esfarela vejo o que estava escondido. Bate certo, a vida não serve para grande coisa a não ser para atormentar e libertar a criatividade através de uma espécie de gastronomia da escrita, a descoberta de sabores que não serve para alimentar mas para compensar, através do prazer, o saber do que é viver, algo muito diferente do que me foi prometido. Bate certo. Resta-me continuar a interrogar e a tentar ressuscitar histórias sepultadas e desejosas de serem conhecidas. Devo-lhes isso. Para quê? Não sei e nem interessa, mas sempre engano o tempo, sobretudo o estranho presente. 


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Um país parado

"...Mais rápido consegui fazer 170.000 euros (iniciativas várias e donativos de particulares) do que obter as licenças...", para conservação do património da Igreja de S. Cristóvão, na Mouraria, em Lisboa, referiu ao Público o prior da paróquia, Padre Edgar Clara.
Se não há dinheiro, não há dinheiro, nada se faz; mas, se há dinheiro, há a burocracia para nada se fazer. Um país parado.
Depois...o património caindo aos poucos deve ser a única coisa que se mexe...

Geringonça desconjuntada

De que se queixam BE e PCP nesta estória da contagem do tempo de serviço dos professores? Acaso não foram eles que aprovaram o Orçamento de Estado que não previa os 600 milhões que custa a medida que reclamam?

domingo, 3 de junho de 2018

"Saudade"...

A vida é misteriosa, não por ter aparecido neste canto perdido de um universo sem sentido, mas pelos sentimentos que transporta. Corre, salta, sonha, ama, grita, canta, ri, chora, encanta, desespera, mata, fere, cura, salva, mas consegue mostrar algo que não sabe explicar, o porquê da saudade que alucina qualquer um.
Conheço-o há muito. De manhã e à tarde seguia a “dona”. Digo dona entre aspas, porque no caso de gatos é sempre problemático considerar que tenham dono. Admito que sim. Segui-a como se fosse um cão. Não entrava. Ficava à porta e depois regressava a casa, não dele, mas da “dona”. Nunca lá entrou. Comia à porta e depois ia à sua vida. Onde dormia? Não sei, e acho que a “dona” também não. Não importa, a dualidade estava instituída e a cumplicidade também. Assisti tantas vezes a este ritual a lembrar algo de militar, o abrir a janela de manhã e o encerrar ao fim da tarde, tudo porque as plantas da sala exigiam alimentar-se da luz do dia. Nunca se queixaram, e nem tinham razão para tal, o ritual era escrupulosamente respeitado. O gato segui-a e sentava-se à porta. Depois retornavam a casa. Devia comer e cessava o turno.
A “dona” desapareceu, como acontece a todos. Nesse dia lembrei-me dele. O que vai ser do gato? A sua estranha e enigmática autonomia dá-lhes vantagens sobre os restantes animais ditos domésticos. Comida não lhe faltaria. Por estas bandas vejo que “abunda”.
Na semana passada, chovia que “Deus a dava”, vi um gato na ombreira da porta. Resguardava-se do mau tempo. Olhei. Pareceu-me conhecê-lo. Querem ver que o animal continua no seu ritual, mas agora sozinho? Hoje, fim de tarde, encontrei-o sentado junto da porta da “dona” à espera dela para ir fechar a janela. Semblante triste, descuidado como sempre, marcas de sujidade evidentes, deixou que me aproximasse. Não fugiu, Olhou-me e começou a andar em direção à porta numa passada indolente como se fosse dominado pela saudade de uma vida que não sabe onde paira e porque razão não aparece. Um sentimento estranho, talvez o mais estranho de todos, ter saudade de uma vida sem saber o que é a própria vida...

sábado, 2 de junho de 2018

Os artistas

A moléstia pega-se. Mais um Partido socialista chega à chefia do governo sem ganhar eleições. Em nome da democracia, claro está. 
Depois admiram-se da forte abstenção em actos eleitorais. Bem vistas as coisas, a continuar assim, para que servem as eleiçoes?

sexta-feira, 1 de junho de 2018

“LADRÕES E PIÕES”...


Diariamente sou confrontado com situações pouco ortodoxas. A senhora, um pouco triste, respondeu-me que o seu estabelecimento tinha sido alvo de atenção dos larápios. Não arrombaram a porta, abriram-na e levaram dois expositores, uma imitação de uma pistola antiga e o mealheiro da filha mais nova. Subitamente dei-me conta de que a espécie humana é a mais estranha de todas. Acredita em deuses, fabrica-os à sua imagem e semelhança, é capaz das coisas mais extraordinárias, desde a arte à ciência, vai até à Lua, e um dia qualquer até ao fim do mundo, descobre causas das doenças, consegue explicar muito do inexplicável, cria sinfonias, é autora das mais sinceras manifestações de amor e de solidariedade, mas também mata, provoca guerras e rouba como se fosse a coisa mais natural do mundo. E deve ser. A força da evolução humana reside precisamente na capacidade de matar e de fazer as maiores tropelias que causam desgosto e perturbação nos que entendem que a honestidade e a honra são os princípios de uma nova humanidade, que tarda em aparecer. Desconfio que nunca irá acontecer. Acreditamos que sim, ou melhor, fingimos, mas os seres humanos desonestos irão dominar sempre a realidade humana.
Um dia, devia andar na segunda classe, penso que por altura das férias da Páscoa, lembrei-me de ir ao tribunal. Ia a subir as escadas enfiado nos meus calções quando o meu avô me viu. - O que é que estás aqui a fazer? Perguntou muito admirado. - Vou fazer queixa ao senhor doutor juiz. - Vais o quê? - Vou dizer-lhe que me roubaram o meu pião de buxo, o que tinha uma ponta de prego. - Mas tu és doido? - Não. Não me disseste que é aqui que os homens de bem vêm queixar-se das injustiças? Puxou o chapéu para trás, afagou o bigode, um costume, silencioso, que tinha antes de tomar uma decisão, e depois disse: - Vou contigo. Subiu as escadas, deu-me a mão e entrámos no átrio um pouco escuro. Tirou o chapéu. Olhámos para o lado direito, onde era a sala de audiências, e através da porta semiaberta vi ao fundo, sentado na tribuna, o senhor doutor juiz com o seu ar austero. Nunca tive medo do senhor. Quando me cruzava com ele cumprimentava-o sempre: - Bom-dia, ou boa-tarde, senhor doutor juiz. Interrompia o passo e respondia: - Bom-dia, ou boa-tarde, menino. Mas o que eu achava mais importante era quando tirava o chapéu. Sentia que era importante. Um juiz tirava-me o chapéu quando o cumprimentava. Eu e o meu avô ficámos a olhar durante uns instantes para o julgamento que estava a decorrer. Foi então que me disse: - Estás a ver? O senhor doutor juiz está a fazer um julgamento e parece-me que vai demorar um pouco. O melhor é virmos noutra altura. Não achas? Fiquei a pensar durante alguns segundos. Concordei. Caso contrário iria perder a tarde e eu queria era jogar à bola com os meus amigos. Ao descermos a escadaria, o meu avô perguntou-me se não tinha outro pião. - Tenho, mas não é nada comparado com o outro. Quando o lançava escachava a cabeça dos piões dos meus colegas. Ficavam sem conserto. E quando ganhava ao jogo do pião, usava-o sempre para dar ferroadas. Os outros ficavam bonitos, ai ficavam!  E se perdia era ele que tinha de as receber, mas como era duro ficava na mesma. - Hum! Estou a ver. Vou ver se consigo arranjar-te outro, - Vais mesmo? - Vou, mas só se me prometeres que não vais incomodar o senhor doutor juiz. - Está bem. Não vou. Mas olha lá, explica-me uma coisa, porque é que as pessoas roubam coisas aos outros? Isso não é pecado? Parou, empurrou o chapéu para trás, afagou, em silêncio, o bigode com o indicador e o polegar, e disse: - Pois! Uma boa pergunta. Olha, não sei. Nunca roubei nada a ninguém. - Então, eu também nunca vou saber. - É melhor não. Vai brincar. Passados dois ou três dias, ofereceu-me um gordo e duro pião com um bico que prometia muitas vitórias. Como era especialista em lançar piões - foi ele que me ensinou -, fez das suas, atirou de frente, bico para cima, de costas, e fazia aquilo que mais adorava, apanhava-o à unha...

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Sobre a banalização da ofensa

A decisão da Relação e a sua fundamentação não surpreendem. Num tempo em que tanto se reclama pela defesa da dignidade da pessoa, a ofensa desgraduou-se em mera comportamento incorreto, uma minudência que não adquire dimensão penal mesmo quando atinge quem corporiza a autoridade do Estado. Já assistimos, sem qualquer gesto público de indignação, a uma figura pública utilizar a mesma locução dirigida ao Chefe do Estado, sendo absolvido com invocação da prevalência da liberdade de expressão sobre o insulto soez e gratuito (gratuito sim, pois todos os insultos são gratuitos numa sociedade baseada no respeito mútuo que não obsta - bem ao invés - ao exercício do direito à crítica). 
Talvez mais grave do que este clima de indefesa da honra e de preservação da autoridade é a caução dada pelos tribunais superiores aos contextos exculpantes em que são proferidas expressões objetivamente ofensivas. Um passo em direção à desresponsabilização das próprias polícias pelo incumprimento do dever de assegurar a paz e a tranquilidade públicas…

Por que razão, assim de repente, me lembrei dos comportamentos de grupos organizados que nos recintos desportivos atuam impunemente?

segunda-feira, 28 de maio de 2018

As frases idiotas do social congresso III

"... sim, os socialistas, quando governam, sabem ter as contas em dia...".
Ana Catarina Mendes, Vice-Secretária Geral do PS
Uma governação tão em dia que já levou a 3 resgates...

"MEDALHAS"...

Acabo de ter conhecimento da recusa por parte da Câmara Municipal de Palmela em atribuir a medalha de mérito municipal a José Hermano Saraiva. Nem vale a pena comentar as razões subjacentes a esta decisão. São mais do que evidentes. Hermano Saraiva foi ministro da educação do anterior regime. Mas foi, também, um homem culto, dedicado às artes e à história. Muitas pessoas aprenderam com ele. Tinha um condão e uma forma generosa de transmitir conhecimentos, histórias e até historietas. Deu um contributo honesto, sério e profícuo para a cultura portuguesa. Fez muito mais do que alguns que são "premiados" ou distinguidos com medalhas e comendas. 
A atribuição de medalhas, a quem as merece, é um sinal de respeito e de gratidão, e um estímulo a todos para que possam ser sempre os melhores entre os melhores. Não tenha nada contra as distinções, exceto se à partida houver alguma desconfiança sobre o caráter e a nobreza do candidato. Em Portugal, pelos vistos, é relativamente comum atribuir distinções a indivíduos que mais valia terem estado quietos, tamanho o mal que nos fizeram. Não necessito de os elencar, senão ainda arriscaria a ter que gastar tinta e conspurcar algumas páginas. Mas é facilmente percetível que o que define o mérito não é apenas o trabalho de uma vida, mas sim outras forças, desleixadas, imprecisas, preconceituosas e, sobretudo, ideológicas ou doutrinárias.
Há vários tipos de poluição, mas agora tenho que acrescentar mais uma a um vasto campo que afeta a saúde de uma comunidade, a "poluição ideológica", que pode não matar o corpo, mas que destrói e aniquila a qualidade e a riqueza de uma alma.
O que é que eu poderia dizer mais sobre este assunto, "medalhas"? Pouco. E sobre os medalhados? Muito, mas mesmo muito. E sobre quem as atribui? O melhor é estar calado, não vá o diabo tentar-me...

"EU VOU CONTAR TUDO A DEUS"...

Foi há três anos. Prometi que não a esquecia e não esqueço. Volta e não volta lembro-me desta criança.
As redes sociais são o espelho da sociedade. São tão transparentes que até arrepiam. Servem para tudo. Tem uma enorme vantagem, podemos contabilizar e ver a amplitude do caráter das pessoas. Nada de novo. O mundo foi sempre assim, diversificado até dizer basta. O que não sabíamos era a possibilidade de acesso instantâneo a tudo o que acontece.
Fujo, sempre que possível, a qualificar o que quer que seja, senão teria de me explicar sobre o que escrevo e para quê. Não é para desagradar, mas devo incomodar, não é para aliviar o sofrimento, embora tenha a perceção de que possa conseguir nalguns casos. Sou capaz de divertir, de divulgar, de incomodar, de questionar e, provavelmente, satisfazer parte de um ego escondido, não sei se exagerado ou não, tanto faz, de qualquer maneira faço sempre com alguma satisfação.
Notícias requentadas, sedutoras, manipuladas e tendenciosas, teorias de conspiração, bílis negra e malcheirosa, poemas de amor, conversas de treta, há de tudo neste pântano da vida virtual. Olho e passo em frente em muitas dessas notícias ou aleivosias. Agora, depois de um curto passeio, e de algum asseio mental, li uma frase que acompanhava a foto de uma criança síria que, antes de morrer, do alto dos seus três anos disse: “Eu vou contar tudo a Deus”. Não sei se é verdade ou não, pouco importa, o que interessa é o contexto. Uma criança sofrida que, apesar da sua curta vida, teve a perceção da desgraça e da maldade do mundo onde caiu. Três anos de vida são suficientes para categorizar e catalogar a humanidade. Um mundo que não deveria existir, ou melhor, não deveria haver seres humanos. Há uma incompatibilidade perfeita entre o universo e o ser humano.
A criança viveu o suficiente para interiorizar o conceito de Deus. Um Deus construído de acordo com a sua imaginação. O verdadeiro e perfeito Deus só pode ser visto e construído na mente de uma criança. Eu sei do que falo, porque em pequeno também fiz a minha construção do que deveria ser um verdadeiro e perfeito Deus. Sorri e entristeci ao mesmo tempo com a frase da criança síria que disse que ia contar a Deus tudo o que viu e sofreu.
A criança morreu. Deus esqueceu-o. Não acredito, mesmo que exista, que tivesse capacidade dialética em convencer do contrário a pobre criança. Defraudada neste mundo e desconsolada na eternidade.
Não sei como te chamavas, mas não vou esquecer-te.
Prometo.

As frases idiotas do social congresso II

No discurso final do Congresso, António Costa preconizou um grande acordo para "...podermos ter uma nova geração... com melhores condições de constituir família e poder, depois de constituir família, ter os filhos e filhas que desejarem ter...".
Uma proposta fracturante e verdadeira revolução biológica: a partir desse social acordo, os pais escolhem à partida se é filho ou filha e já está!...
O problema é se não acordam na escolha: e aí quem é que nascerá?

domingo, 27 de maio de 2018