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sexta-feira, 31 de agosto de 2007

A pouco e pouco!...

Está a causar grande agitação uma Exposição de Arte na Austrália, em que a Virgem Maria é apresentada de burka.
A pintura vem sendo contestada por ofensa ao cristianismo, tendo-se associado à condenação as forças políticas mais relevantes, do 1º Ministro ao líder da Oposição.
Não concordo que a representação seja uma ofensa à religião cristã, que pode bem conviver com muita coisa semelhante.
É, sim, uma ofensa à civilização, por utilizar um símbolo, para muitos com a dignidade máxima, em que centenas de milhões acreditam e veneram como a "mãe de Deus", para branquear uma prática abjecta de subjugação física e espiritual da mulher.
A pouco e pouco se vão igualando liberdade e opressão, conquistas da humanidade e comportamentos retrógados e indefensáveis.
A pouco e pouco!...

“Coração sofre”!

Todos sabem que o ruído provoca incómodo e problemas de saúde, nomeadamente na audição.
A poluição sonora não tem sido levada muito a sério, comparativamente à poluição atmosférica, apesar das directivas comunitárias e da legislação nacional exigirem que sejam respeitados certos limites, quer a nível do ambiente do trabalho quer a nível geral.
Começam a surgir evidências de que os seus efeitos podem manifestar-se, também, noutros sectores da economia, nomeadamente a nível cardiovascular. A par da hipertensão, do colesterol elevado, da diabetes, da obesidade, do sedentarismo e do tabaco, principais factores de risco, associam-se a poluição atmosférica e, agora, o ruído. Ou seja, viver numa zona mais ruidosa aumenta o risco de sofrer de doença coronária, para não falar na irritabilidade e nas perturbações do sono. Muitos de nós até nem se apercebe de que está a ser agredido por uma atmosfera ruidosa, no seu dia a dia, mas está!
As cidades, sobretudo as que têm mais de 250.000 habitantes são obrigadas a ter uma carta de ruído, permitindo avaliar quais as zonas mais poluídas.
Mas não é preciso ser agredido por ruídos muito intensos, para termos problemas. De acordo com a OMS, uma exposição crónica de 50 decibéis(dB), correspondente ao barulho de tráfico ligeiro, é suficiente para aumentar o risco cardiovascular. Mas bastam 42 dB para provocar alterações do sono e 35 dB para provocar irritação. Neste último caso, corresponde ao som de um assobio!
Para contrariar esta situação, que é cada vez mais comum, são necessárias medidas que passem pelo controlo da circulação automóvel, uso de pneus de “baixo ruído”, pavimentação das ruas com tapetes de “baixo ruído” e evitar a existência dos buraquinhos das nossas estradas!
Deveria ser obrigatório a afixação dos mapas de ruído e de poluição atmosférica de cada cidade a fim do cidadão saber quais os riscos que corre se viver ou trabalhar nessa zona. Ao interiorizar estes conhecimentos, decerto não deixaria de exigir medidas adequadas aos responsáveis e alteraria também alguns dos seus hábitos que possam contribuir para um problema grave mas que tem sido, pelo menos até agora, praticamente, “ignorado”.
Obviamente que existem muitas outras fontes de ruído, caso dos intervalos publicitários, por exemplo, não contando com o ruído político que alguns fazem de tempos a tempos, quando gritam e esbracejam de uma forma muito particular. Neste último caso, não deve ser muito problemático, penso eu, porque é meramente transitório, mas, nunca se sabe...
Coração sofre!

Mesmo não sendo, é preciso parecer...

A lei sobre o regime de responsabilidade civil extracontratual do Estado aprovada por unanimidade pelo Parlamento – embora não sendo inédito, a aprovação de uma lei por unanimidade constitui um facto raro – foi vetada pelo Presidente da República.
As notícias sobre este assunto foram muito parcas e do partido do governo e dos partidos da oposição as reacções foram fracas, sem conteúdo, com uma quase apenas manifestação de respeito pela decisão do Presidente da República. A comunicação social não se “interessou” e as forças vivas da nossa política remeteram-se ao silêncio. Não estará longe da verdade dizer-se que este silêncio foi também “votado” por unanimidade. Convenhamos que esta lei trata matéria da maior relevância. Pois é, mas não teve honras mediáticas!
A propósito deste dossier, li o interessante artigo de opinião do Dr. Vitor Bento “A propósito de um veto”, ontem publicado no DE, no qual o autor, para além de manifestar a sua opinião sobre a decisão do Presidente da República e sobre a decisão do Parlamento, apresenta e explica o conceito de “groupthink” para explicar o que no seu entendimento terá conduzido os deputados a votarem esta lei por unanimidade:

(…) Foi muito sensata a decisão do Presidente da República de vetar a lei sobre o regime de responsabilidade civil extracontratual do Estado, apesar de a mesma ter sido aprovada por unanimidade no Parlamento. Ao classificar de sensata a decisão do Presidente, estou obviamente a classificar de insensata a decisão do Parlamento. Mas isto não significa que, por isso, considere os deputados insensatos. Julgo que o que se terá passado é um exemplo típico do que o psicólogo social Irving Janis, classificou, em 1972, de ‘groupthink’ e que poderemos traduzir por “decisão em grupo”. Trata-se de um processo de discussão que pode ocorrer em grupos coesos (ou com um desígnio estratégico comum) e cujos membros refreiam as suas dissensões e o seu espírito crítico, em favor da unanimidade da decisão, sacrificando uma análise racional e realista das situações e conduzindo a decisões erradas ou irracionais, que, de outro modo, não seriam tomadas. Apimentando o conceito, é o que frequentemente acontece quando os membros de um grupo de decisão submetem as suas opiniões ao crivo do “politicamente correcto”, acabando por dizer apenas o que “parece bem dizer”. O exemplo habitualmente citado para ilustrar este conceito foi a decisão de J F Kennedy (com os seus conselheiros), em 1961, que conduziu à invasão da Baía dos Porcos em Cuba. No caso da lei em apreço terá havido mesmo, no Plenário, algumas vozes discordantes do conteúdo da lei – argumentando no sentido em que o Presidente viria mais tarde a chamar os deputados à razão – mas isso não viria a obstar à sua aprovação por unanimidade. Aliás, no campo da decisão política e entre nós, não é difícil encontrar vários outros exemplos deste vício decisório. Lembremo-nos, por exemplo, da lei das incompatibilidades aprovada à pressa e a quente, num ambiente de elevada demagogia, em meados de 1995. Ou as decisões sobre a remuneração dos políticos e dirigentes da Administração Pública. (…)

Groupthink”, um conceito a reter e uma palavra que vou definitivamente incluir no meu léxico. Na política, e não só, o que é politicamente correcto e o que parece bem dizer está cada vez mais na moda. Não é assim que devia ser, mas é cada vez mais assim…

Portagens nas SCUT's - para quando?

Notícia de 1ª página dos nossos laboriosos “media”, de 18.10.2006:

- Governo vai introduzir portagens nas AE Scut do Norte Litoral, Costa de Prata e Grande Porto já em 2007, anunciou hoje o Ministro das Obras Públicas Transportes e Comunicações (MOPTC);
- Segundo M.L. “A introdução de portagens é sustentada pelo PIB per capita e pelo índice de poder de compra das regiões atravessadas, bem como o tempo de percurso das vias alternativas”, acrescentando o MOPTC “Concluímos que as regiões daquelas 3 SCUT’s já estavam acima daqueles três critérios em simultâneo”.

Notícia de 1ª página da edição de ontem, 30.08.2007, de um dos mais laboriosos “media” (DE):

- Portagens nas SCUT’s adiadas para 2008, na melhor das hipóteses. Razões de índole técnica na origem do adiamento.

Cumpre lembrar que há um ano estas mesmas razões técnicas não impediam a aplicação da medida, mas surgem agora para justificar o adiamento...
Cumpre também perguntar se alguém acredita que as SCUT’s vão mesmo avançar em 2008 (Atenção à expressão “na melhor das hipóteses” na notícia de ontem) ?
E alguém acredita que, se não for em 2008, será em 2009 - ano de eleições legislativas e autárquicas?
E alguém é capaz de dizer quando acontecerá?

Entretanto o Orçamento do Estado lá vai suportando os cerca de € 700 milhões de encargos anuais com as SCUT’s. Isso é que podemos ter por certo.
E por estas e outras razões semelhantes é que não se mostra possível baixar os impostos segundo a opinião dos nossos distintos Economistas altamente credenciados que fazem a opinião dominante nos “media”...
Caro Rui Fonseca, como vê esta teoria de baixar primeiro a despesa para depois baixar os impostos, que temos vindo animadamente a debater e a combater, sob o impulso corajoso do Pinho Cardão, é mesmo muito complexa.
É uma discussão que vamos provavelmente passar para a próxima geração...se ainda cá residir...

Na vanguarda do crime

O DN de hoje dá conta do sucesso de uma operação da GNR que deteve um bando de larápios que se dedicavam ao assalto de instalações de autarquias.
Segundo o jornal os meliantes foram apanhados com diversas armas, telemóveis, material informático e aves.
A utilização de armas, telemóveis, material informático é comum na prática dos mais diferentes crimes.
Já a apreensão de "um papagaio, um gaio, um melro e um tordo" deixa-me muito preocupado atenta a sofisticação da actividade criminosa que o uso destes animais faz pressupor. É que, para além do invulgar do emprego destes assustadores meios, nenhuma destas aves tinha cadastro que levasse a suspeitar serem de rapina...

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Não há "pachorra"!...

Nas últimas décadas, os concelhos do interior transmontano, beirão e alentejano viram diminuir drasticamente o número dos seus habitantes. Todos se queixam da "desertificação" do interior, do êxodo da actividade económica, dos postos de trabalho e das pessoas para o litoral e para os grandes centros urbanos. Ficando de um lado uma população envelhecida e os inerentes problemas sociais, e do outro questões insolúveis no domínio da habitação e das infraestruturas básicas, do saneamento aos transportes.
Todos proclamam e exigem medidas das autarquias locais e do governo central. No entanto, quando algumas delas são tomadas e os projectos de desenvolvimento avançam, aqui del-rei, que uma indesejável pressão demográfica vem ameaçar e prejudicar os pobres concelhos do interior!...
Exemplos são muitos. Ainda nos últimos dias foram referidos os enormes "malefícios" de um investimento em Alqueva, que irá proporcionar um afluxo faseado à região de Reguengos de Monsaraz que poderá atingir as 17.000 pessoas, gente rica ou de classe média, que aí gastará dinheiro, em benefício das actividades locais, e propiciará emprego permanente.
Em suma, e há anos, a região era capaz de suportar equilibradamente, e sem desordenamentos do território, os mais de 17.000 alentejanos pobres, que entretanto emigraram. Agora, o grande problema é suportar 17.000 europeus ricos!...Mas que bela argumentação!...
Não há mesmo "pachorra"!...

“Praga de roedores está a chegar de Espanha a Portugal”

Eu pensava que já cá estavam!

Irresponsabilidades

Tenho ouvido várias vezes na rádio um anúncio inacreditável, qualquer coisa sobre o crédito à habitação. Aparece um ou uma jovem, arrastando as palavras com uma voz indolente, a dizer que “estava eu sem fazer nada e a pensar como é que havia de fazer ainda menos…” , depois conta que resolveu a sua angústia transferindo o crédito para o banco milagroso que lhe dá menos preocupações. O anúncio termina com a mesma voz sonolenta a gabar-se de ter conseguido reforçar a sua inércia, indo para casa para fazer absolutamente nada. É extraordinário que, seja lá por que motivos comerciais forem, um banco prestigiado assuma que a grande ambição dos jovens deve ser “fazer mais do mesmo”, quando esse “mesmo” é ficar sem nada que o ocupe. Já ouvi o mesmo anúncio várias vezes e até fico constrangida com esse insulto aos jovens a quem se dirige. Haja responsabilidade social na educação dos jovens, não é só apontar o dedo ao Estado!

De uma saudável claridade...

... esta nota de Pacheco Pereira no Abrupto.

Felizmente há luares...

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Crise financeira: Ricardo Reis versus mercados

Na edição on-line desta manhã do laborioso DE, há duas notícias que poderão surpreender os leitores, sobretudo os menos familiarizados com a nova filosofia informativa adoptada pelos nossos principais “media”:

- A primeira, refere-se ao comportamento negativo das Bolsas: “A praça nacional está em forte queda, acompanhando a tendência mundial”, logo a seguir “Depois de ontem terem sido divulgados indicadores nos USA que mostram que a crise do mercado hipotecário de alto risco norte-americano pode afectar o crescimento da maior economia do mundo”;

- A segunda, cita uma passagem de entrevista com o Professor da Universidade de Princeton, Ricardo Reis, com apenas 27 anos de idade, referido pelo jornal como “nova estrela da economia nacional”, na qual o Prof. R. Reis tem estas ousadas afirmações “Num mês, não se falará mais nesta crise do crédito”, acrescentando “É uma crise de liquidez e não financeira”.

Confesso a minha própria perplexidade face a duas notícias tão divergentes.
A final em que ficamos - quem tem razão, os mercados financeiros ou o Prof. R. Reis?

Com toda a sinceridade, por razões de interesse pessoal mas não só, desejo que a profecia do Prof. R. Reis se materialize.
Mas confesso algumas/muitas dúvidas.
Parece-me quase impossível que esta crise – mesmo que seja uma simples questão de liquidez, como opina R. Reis – não venha a afectar a actividade económica não financeira.
Esta mesma opinião já aqui expressei no início da crise, há mais de 3 semanas.
É aliás isso que começa a emergir dos primeiros indicadores qualitativos pós-crise, mais avançados, que medem a evolução da confiança dos consumidores e dos empresários para os próximos meses.
Nomeadamente nos USA e na Alemanha, é visível a oscilação desses indicadores, para valores bem mais baixos do que os registados antes da eclosão da crise.
E é assim que as economias abrandam, cumprindo o seu ciclo: começam sempre pela redução das expectativas.

Relativamente às ousadas declarações do Prof. R. Reis, dois comentários finais:
1º) Oxalá venha a ter toda a razão, que Deus o ouça;
2º) A certeza que temos é que desta crise do crédito já se fala há quase um mês - se for necessário mais um para deixar de se falar, será o “match” perfeito.

Como "Camuflar" um Litoral...




Ontem, ao ler uma revista sobre arquitectura, deparei com uma fantástica ideia desenvolvida por uns arquitectos irlandeses, muito preocupados com a preservação do seu bonito litoral.
Diziam eles que, cada vez mais, as pessoas constroem segundas casas para passarem as suas férias ou fins de semana prolongados e, obviamente, as constroem junto ao litoral, numa deterioração progressiva da paisagem.
Até aqui, tudo igual...lá, na Irlanda, como cá, em Portugal!
A novidade surge quando eles apresentam um modelo de construção de "casa invisível", uma casa igual às outras só que assente num elevador hidráulico, alimentado pela força das marés, e que permite "elevar" ou "esconder" a dita habitação, consoante ela está ou não a ser usada pelos seus habitantes!
Dizem eles ser a única maneira de camuflar a paisagem durante a maior parte do ano, em que a casa está desabitada, portanto "descida", em que só fica à vista uma relva que é o "telhado"...e onde as ovelhinhas continuam a pastar calmamente!
Apercebi-me, pelo artigo, que a ideia já estava a ser posta em prática pelos irlandeses e, estava eu ainda estupefacta, quando começa o telejornal e vejo a notícia dum fantástico empreendimento turístico para o nosso Alqueva, com hotéis, aldeamentos, mais de 17.000 camas...quatro campos de golf (que a barragem irá regar...), enfim, um somatório de cimento salpicado com o verde do golf e carregado de elogios do presidente da Câmara respectivo, dizendo que só assim se "evita a desertificação" do Alentejo, se "atraem turistas, se cria emprego e se desenvolve a região"... isto no mesmo dia em que li no jornal o abate de dezenas de pinheiros mansos bem velhinhos, em Ferreira do Alentejo, numa das maiores manchas de pinheiro manso da região, "obra" levada a cabo pelas Estradas de Portugal com a justificação de existirem alí problemas fitossanitários.
Tudo no mesmo dia...foi "dose"! E de contrastes!
Será que em Portugal não há tratamento para as árvores, sem ser o abate? ( se a moda pega nos humanos... ).
Será que em Portugal não podemos começar a aprender como "camuflar" as poucas paisagens bonitas e tranquilas que nos restam, já que a epidemia do cimento é doença dificilmente erradicável?
Fiquei com alguma esperança que alguém contacte estes arquitectos irlandeses, a ver se a nossa costa alentejana, o nosso Alqueva e outros, poucos, nichos de beleza que nos restam...se salvam a tempo; daí este S.O.S. "desesperado" á Quarta República.

Surgem, por vezes, sinais de esperança!...

Não sei se o Presidente da Câmara de Penalva do Castelo é advogado, economista, médico, bancário, administrativo, funcionário público, agricultor, tem qualquer outra profissão ou vive dos rendimentos. Também não sei se é do PSD, do PS ou Independente. Sei é que tomou uma decisão justa e correcta. Baixou os impostos no seu concelho, no âmbito do que a lei lhe faculta.
Por mim, nomeava-o já Professor Catedrático do ISEG, das Faculdades de Economia da Católica, da Universidade Nova e da Universidade do Porto, começando as suas funções por dar aulas de economia básica aos catedráticos encartados que, em geral, vêm favorecendo a subida de impostos e a dar fundamentação "científica" à política governamental de esbulho dos cidadãos através dos impostos, que mais não fazem que sustentar uma despesa pública tão inútil como crescente. Em acumulação de serviço, nomeava-o já Ministro das Finanças.
Surgem, por vezes, sinais de esperança neste país. Seria um crime desperdiçá-los!....

“Azia social”…

Conversas tidas e ouvidas a jovens revelam que estamos perante uma situação altamente preocupante. O desemprego é uma realidade que a promessa pré-eleitoral do senhor primeiro-ministro não consegue resolver. A precariedade dos contratos de trabalho agrava-se. Os licenciados sem futuro é uma certeza dolorosa. A impossibilidade em cumprir compromissos, como o pagamento da prestação do empréstimo da habitação, devido ao aumento das taxas de juro, está a levar muitos a tentarem vendê-la e, deste modo, poderem adquirir uma outra mais barata.
A crise económica é mesmo grave. Até os animais de estimação estão a sofrer, ao serem abandonados pelos donos e não apenas por estarmos na época estival.
O anúncio de que o Estado vai ser fiador dos jovens que quiserem fazer empréstimos para prosseguirem os seus estudos até seria uma boa notícia. O facto de ser praticado noutros países, há muito tempo, não retira o mérito à mesma. Mas, há sempre um mas, os candidatos dispõem seis anos após o curso para liquidarem o mesmo. É fácil de compreender, penso eu, que quem fizer o empréstimo terá sucesso na conclusão do curo. O desejo em ir mais longe para os que têm capacidade intelectual mas não dispõem de meios financeiros permite fazer aquela afirmação. O problema vem depois. Com a falta de emprego, com a precariedade do mesmo e com os “vencimentos” na ordem dos 500/600 euros, pergunto se não estaremos a criar condições para um endividamento incompatível com as aspirações e dignidade dos jovens.
Quem ganha no meio disto tudo é o sector bancário, em que a usura é uma perfeita obscenidade, face aos resultados que apresentam, claro está. Fomentam o crédito, por tudo e por nada. Chegam ao desplante de enviarem mensagens pelo telemóvel ou por carta a dizerem que põem de imediato à ordem valores de 5.000, 6.000, 20.000 euros sem ninguém lhes pedir nada! Uns verdadeiros tarados, a meu ver. Claro que deve haver quem caia neste conto do vigário, promovendo o endividamento do pobre cidadão, escravizando-o totalmente.
O nível de endividamento atingiu níveis preocupantes. O desemprego é uma realidade para a qual não se vislumbra grandes soluções, apesar da fanfarronice governamental, a instabilidade económica é impeditiva de certos projectos individuais, a criminalidade aumenta e a esperança deste povo esmorece cada dia que passa…

An-do-li-tá...

Num penoso debate realizado agora mesmo pela sic notícias sobre a situação no BCP, chegou-se pelo menos a uma conclusão interessante – a de que em Portugal a lógica de Poder se sobrepõe muitas vezes à lógica dos negócios. Está uma boa síntese, que não é – antes fosse! – aplicável só ao sector empresarial, é antes bastante generalizada.
O que interessa é quem sai e quem fica, quem é demitido ou substituído, nunca ou muito raramente se avalia o que está a ser feito, o que devia estar a ser feito, o que deixará de ser feito. Ou seja, não se olham para os objectivos, muito menos para as estratégias, olham-se os postos de trabalho. Fala-se de pessoas, em suma, em vez de falar de temas. E, enquanto as pessoas vão e vêm, os assuntos perdem-se nas brumas, ou resolvem-se sem se dar por isso, ou sem se saber como.
Se ouvirmos as notícias com atenção, reparamos bem nisto.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Tesourinhos esquecidos - V

A propósito das vicissitudes por que vai passando o BCP - algumas das quais seriam hilariantes se as personagens não tivessem um ar tão papal, excepção feita ao extraordinário Joe Berardo, e não estivessem em causa interesses de milhares de accionistas - há quem estranhe que a entidade supervisora das instituições do sector financeiro (o Banco de Portugal) não actue. A propósito lembrei-me que existe em Portugal uma lei, o Decreto-Lei n.º 298/92, de 31 de Dezembro, sucessivamente alterado ao longo do tempo, que no seu artigo 14.º trata dos requisitos gerais de autorização dos bancos e outras instituições financeiras, dispondo o seguinte:
"As instituições de crédito com sede em Portugal devem satisfazer as seguintes condições:
(...)
f) Apresentar dispositivos sólidos em matéria de governo da sociedade, incluindo uma estrutura organizativa clara, com linhas de responsabilidade bem definidas, transparentes e coerentes".
Tudo o que de facto encontramos na estrutura organizativa do BCP...

André

Vi há dias a notícia da morte de Holden Roberto, líder histórico da Frente de Libertação de Angola (FNLA) e que fundou, em 1954, a União dos Povos do Norte de Angola (UPA), tendo vindo mais tarde a assinar os acordos de Alvor (1975) e de Bicesse (1991).
Cada um tem a sua perspectiva dos acontecimentos, quer pelo que aprendeu nos livros, quer pela medida em que a sua vivência se cruzou com a história. A notícia avivou em mim algumas memórias bem escondidas, daquelas que eu não conseguiria trazer à superfície sem o clic que as desperta quando menos se espera.
A primeira vez que ouvi o nome de Holden Roberto era criança, vivia em Luanda, e os meus pais comentavam muito preocupados o desaparecimento intermitente do André, o criado negro que vivia lá em casa desde pequeno e nos tínhamos habituado desde sempre a ver como o companheiro de brincadeiras. No meio da conversa ouvi palavras que não conhecia: terroristas e Holden Roberto.
Em 1960, o André era um jovem de 20 anos, orgulhava-se de saber ler e escrever, usava óculos e adorava crianças. Tinha umas gargalhadas estrondosas e uma paciência infinita para contar histórias maravilhosas, com animais e feiticeiras, fazendo piruetas que nos deixavam de olhos arregalados. Ia casar com a Guida, uma angolana bonita a que ele chamava “rainha”, que era costureira e se aprimorava nos nossos vestidos.
A questão era que o André ficava várias noites fora de casa, andava misterioso e fugidio. O ambiente político estava carregado, com uma onda de prisões, tudo indicava que a preocupação vinha da desconfiança de que o rapaz “andava metido na política”.
Confrontado com as escapadelas, o André falou como um adulto. Que queria lutar pela sua terra, que pertencia à UPA, que era esse o seu dever. E que se ia embora, para não por em risco as pessoas de que tanto gostava. Avisou que não era seguro continuarmos lá, que tínhamos que partir porque ele não era capaz de garantir a nossa segurança. Disse que ia ter com Holden Roberto, o pai de todos os negros que queriam uma terra livre, mas não era um terrorista.
Chorava como uma criança ao arrumar a mala, os óculos embaciados deixavam-lhe os olhos do lado do mundo que nós não percebíamos. Nunca mais o vimos.
Por muito infantil que possa parecer, nunca deixei de associar Holden Roberto à partida do André e ao fim brutal da minha primeira infância, tão feliz, em África.
Justo ou injusto, cada um lê a história à sua maneira.

“Senhora da Boa Morte”...

Quer queira quer não sou obrigado a ouvir muitas das conversas tidas às mesas dos cafés e das esplanadas. De facto, muitas pessoas não se coíbem em falar alto, e em bom som, como se estivessem na adega ou na cozinha com os amigos. Alguns por evidente falta de traquejo em dominar as técnicas das relações sociais, outros por mera necessidade em se exibirem.
Ontem, numa esplanada de um bar para as minhas bandas, junto ao rio, comecei a ouvir a voz de uma pessoa que não me era de todo desconhecida. Olhei para o lado de onde provinha tamanha verborreia e vi que era uma senhora que, todos os anos, por altura do Verão e da Páscoa, pelo menos, costuma vir à sua aldeia. Estava rodeada de outras pessoas, homens e mulheres de idades diferentes, em duas mesas. Falava do passado com uma outra senhora, lembrando como eram jeitosas, uma mais escura, outra mais branca, assediadas, admiradas, enfim, um passeio sem grande história. Era mais do que certo que dominaria qualquer um que se atrevesse a entrar na conversa. Ao seu lado, um senhor de cabelos brancos e com uma certa idade tentava dizer alguma coisita, mas a voz da dominante rapidamente o calava. Típico juanito! Um senhor novo também fazia o que podia para falar, dizendo umas graçolas, tentando chamar a atenção dos demais. Começou a fazer-lhe concorrência. Era mais do que evidente. Entretanto, como são portugueses, as conversas acabam por focar as doenças. Aqui, a senhora de idade, com o seu vozeirão, começou a dissertar sobre tudo como se fosse uma superespecialista. Mas antes, avisou a navegação, com o objectivo de informar um dos casais que não a deveria conhecer, que era mãe de um médico, a fim de assegurar a qualidade das informações que prestava. E que informações, meu Deus! Só de a ouvir, comecei com sinais de refluxo gastro-esofáfico, o que é muito mau. O cavalheiro mais novo, que não era nada parvo, ia metendo, sempre que podia, a colherada, fazendo algumas correcções pertinentes à supra-dotada mãe do clínico. Esta, subitamente, interrompe as suas dissertações, volta-se para o mais novo e ataca – Olhe lá! Então sempre é verdade que o seu sogro se suicidou? Isto, num tom altíssimo, obrigando todas as pessoas a dirigirem os seus olhares para si. Eu interrompi a minha leitura e cruzei um olhar com a senhora que manifestava uma sensação de aprazimento. Pensei: - Esta gaja não é boa da cabeça! Entretanto, o jovem engasgou-se e disse que não foi bem suicídio. Tentou explicar à senhora que o sogro andava a tomar medicamentos e que por causa disso teve um acidente. Mas não foi suicídio. A senhora, que já devia saber toda a história, mas que queria fazer-se de novas, contra-atacou: - Às tantas andava a tomar Viagra! O senhor disse que sim. Uma brutal gargalhada brotou daquela garganta acompanhada da frase: “Estão a ver que eu descobri a causa”! O senhor continuou com muitas explicações, informando que o sogro, que morreu com 63 anos, usava o produto. Os seus amigos – e aqui sentia-se uma ponta de raiva relativamente a eles – contaram-lhe que o sogro dizia que nunca tinha sentido nada assim em toda a sua vida, nem mesmo quando era jovem. A senhora de rugas profundas, tipo vales marcianos, interpelava-o, sucessivamente, dominando toda a conversa. Às tantas, perguntou-lhe: - Olhe lá! Ele tinha alguma “dama de companhia”? - A resposta foi: - Tinha! – Quem? – A Moleira de P. – O quê! a Moleira de P!! Como sinal de profunda admiração e, simultaneamente, de desprezo deu mais uma gargalhada ruidosa.
O juanito, que estava ao seu lado, lá ia dizendo algumas coisitas, em voz baixa, tipo beta, do género, “o sogro podia ficar com forças no sítio, mas o pior era o coração, que já não tinha força para tanto”.
Como já estava a ficar avi(n)agrado com a conversa, passou-me pela cabeça que a senhora devia estar com inveja da “Moleira de P”! Optei por ir mergulhar nas águas da albufeira. Enquanto me deliciava com o banho, pensei que o senhor, pretensamente considerado como suicida, e que foi pretexto para a alfa se impor ao mais jovem, só tem que agradecer à Senhora da Boa Morte. Fazer coincidir o último orgasmo com o último suspiro não é para qualquer um...

"O triunfo dos porcos"

O energúmeno, porta-voz dos energúmenos que destruíram o hectare de milho, tornou-se um caso de sucesso. Passeia-se à rédea solta de entrevista para entrevista, páginas inteiras em jornais ditos de referência, directos em telejornais, enfim, um triunfo. A um jornal referiu que, só num dia, passou quatro horas a dar entrevistas.
Neste país delirante, tornou-se um disputado opinion-maker. Não tarda e será chamado para opinar de cátedra sobre direitos cívicos, política cultural, a idade da reforma, moeda única, aborto e casamentos de homossexuais.
Alguns estão na cadeia, por muito menos. A outros permite-se que façam o mal e a caramunha e sejam tomados como heróis.
E agora aí está muita comunicação social a prolongar o triunfo dos "porcos"!...

CSI Portugal, ou um Estado com paredes de vidro


A Suzana Toscano já se referiu ao fenómeno aqui.
Retomo o assunto porque me faz impressão a publicidade dada ao que, para ser eficaz, pensava eu que exigiria a máxima discrição.
Depois de assistir nos primeiros telejornais da manhã à descrição das operações que as autoridades portuguesas e espanholas pretendem levar a cabo na investigação de eventuais bases da ETA estabelecidas em território nacional, constatei que não existia estação de rádio com serviço noticioso que se não referisse ao tema, nalguns casos com análises, daquelas sempre muito profundas, de alguns entre os muitos e sábios especialistas portugueses em inteligência e em investigação criminal. Esses a quem Deus agraciou com um espantoso poder de dedução, dos que dão cartas a qualquer investigador dos agora famosos telefilmes das séries CSI!
Ora eu, que nada percebo de serviços de informações ou de investigação da criminalidade organizada, ingenuamente pensava que as operações de prevenção e combate aos crimes mais sofisticados eram planeadas no maior dos segredos para que se garantisse a obtenção das informações que permitisssem desmantelar as organizações que se dedicam ao crime. Pelo menos com o mesmo nível de sigilo e discrição com que são preparados esses crimes.
Aprendo que não é assim. O Estado democrático, para se defender e para garantir a segurança e tranquilidade dos cidadãos, não precisa afinal de investigações sigilosas ou mesmo discretas. Isso deve ser próprio, pelos vistos, dos Estados policiais, que investigam longe de câmaras e microfones. Em democracia exige-se que as diligências investigatórias estejam aí, denunciadas e às claras, explicadas pelas polícias, pelos magistrados e mesmo pelos membros do Governo em prime time. Sujeitas à discussão e ao escrutínio popular sobre o que deve ser a boa opção operacional das polícias, o melhor plano de acção do SIS, tudo nos concorridos "foruns" de discussão nas rádios e TV!
Um Estado com paredes de vidro e uma opinião publicada que celebra a vinda do juiz Garzón como a do xerife que vai por ordem no saloon, acompanhado do comentário em off de que deveremos perder esta mania de que somos um País de brandos costumes, desprezado pelo terrorismo. Não somos! Não temos de ser!
Dizem-me os mais discretos entendidos que isto são manobras de contra-informação, pensadas para despistar os bandidos, criando-lhes a convicção de que em Portugal existe capacidade operacional para combater à séria o terrorismo.
Rio-me, apesar de ser assunto sério, mas desejo que seja como me dizem. Sendo certo que, tendo assistido à divulgação pela mão de um transparente governante dos nomes dos operacionais da nossa prestimosa e eficaz "Secreta", visto num jornal uma maqueta com a organização funcional da sede do SIS e ouvindo todos os dias citadas "fontes da judiciária" esclarecendo (?) passos de investigações em curso de crimes mediáticos, permito-me duvidar.
É que, parece-me, a força da ribalta provoca em polícias, magistrados e outros actores da investigação criminal, uma heróica sensação CSI a que é dificil resistir...

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Postais de férias II- Um compromisso justo!...

Hall do hotel. Chega um carro topo de gama, matrícula com vários números e uns discretos símbolos árabes pelo meio, que denotavam a nacionalidade dos ocupantes.
Saem três pessoas, um casal e uma filha. O homem, de calções e t-shirt, não se distingue de um qualquer europeu. A filha, dos seus dezoito anos, veste jeans e camisola moderadamente justa, salientando-lhe as formas, situação moderada pelo uso de uma meia-túnica de um branco transparente. A mãe, de calças largas, com o tradicional lenço a tapar-lhe parte da cara, mas convenientemente ajeitado de forma a cobrir-lhe apenas a parte superior do pescoço e a deixar à vista um razoável decote.
Um compromisso justo!...

Honra para Portugal


Nélson Évora ganhou uma medalha de ouro nos Campeonatos Mundiais de Atletismo.
Honra para Nélson Évora.
Honra para Portugal.

Vinho + Azeite + Amêijoas + Corvinas????

Ainda no rescaldo das leituras do fim-de-semana.
Desta vez é o Zé da Câmara Municipal de Lisboa (CML) a fazer das suas. Refiro-me ao vereador José Sá Fernandes. Não pára de ter ideias brilhantes.
Numa câmara que tem que arregaçar as mangas para acudir a uma cidade em que há tanto para “arrumar”, nada melhor do que criar uma marca de vinho e de azeite da capital e comercializar as amêijoas e as corvinas do Tejo. Uma marca, mais uma empresa para gerir a marca, mais uma administração para gerir a empresa, mais um orçamento para a administração gerir, e o resto já sabemos… o empreededorismo no seu melhor.
É isso mesmo, porque não havemos de ter uma CML que vende produtos da terra e do rio? Parece que a intenção até era boa. Ajudar a combater a crise financeira é bom!
Não é para acreditar à primeira, nem à segunda, nem à terceira… ainda pensei que fosse uma anedota. Mas não, a proposta é real, não fosse totalmente surrealista!
Quem é que não gosta de umas amêijoas para abrir o apetite, seguidas de uma corvina, tudo temperado com azeite e regado com um vinhito? Mas isso é outra história.
O Zé da Câmara Municipal de Lisboa tem mesmo muita imaginação. O problema é quando passa à prática…
Questionado sobre esta iniciativa, segundo a notícia que li, o Presidente da CML “fechou-se em copas”. Deve ter ficado sem palavras. Não é coisa para menos…

domingo, 26 de agosto de 2007

“Os falos do Cura”...

Foi noticiado que, em Braga, a estátua de “um antigo bispo a segurar um báculo com formas que lembram um pénis” está a gerar polémica “entre a câmara local, a diocese e a junta de freguesia”. Parece que está lá há quatro anos e é um dos principais alvos de atracção turística. Ninguém sabe a quem pertence e levanta-se a hipótese de a retirar. Se não a quiserem, posso indicar uma pessoa que ficaria muito contente em a possuir. Um colega meu, o Cura.
O Cura é uma pessoa notável, bom conviva, amante do café, toma três a quatro de cada vez, e se alguém pedir um descafeinado e lhe servirem um café, fica com ele. E dorme! E faz a sesta, deslocando-se propositadamente a uma casa situada numa quinta. A casa serve para fazer as sestas, para convívios com os amigos e para albergar a mais notável colecção de falos que possa existir. Os falos do Cura! De todos os tamanhos, feitios, cores, explícitos, não explícitos, camuflados, minúsculos, “maiúsculos”, de todos os materiais, desde os mais pobres aos mais ricos, provenientes das sete partidas do mundo, da Patagónia à África negra, do Sul da Europa à Islândia, das Arábias à Cochinchina, das Américas às ilhas do Pacífico. Ao longo dos anos, os amigos, sabendo dos seus “apetites”, trazem “souvenirs” para enriquecer a sua notável colecção.
Um dia, ainda propus que se fizesse uma exposição de parte da sua colecção, mas acharam que não era decente! Não sei porquê! Desde a antiguidade que todos os povos dão particular atenção à representação deste órgão.
O caso em apreço, o báculo em forma de pénis do bispo, fez-me recordar além do Cura, também, duas recentes obras que acabei de ler. “Diário de uma Criada de Quarto” de Octave Mirbeau, que retrata a vida rural e citadina da França dos finais do século XIX. Numa das passagens, o cura, não o meu amigo, é chamado com urgência pela puritana freira que descobriu no sótão da igreja uma estátua em pose indigna. Lá foram os dois, acompanhados do sacristão. Quando o eclesiástico viu os propósitos da mesma, teve de se socorrer do martelo para extirpar o apêndice lançando-o para a rua. Uma devota encontrou-o, e convencida de que se tratava de uma relíquia acabou por o colocar numa almofadinha dentro de uma campânula para veneração! Um dia alguém lhe chamou a atenção para o seu significado. Ficou estupefacta, comentando: - Ai! As vezes que lhe dei beijinhos!
No livro, “Ementas do Paraíso”, o autor, César Príncipe, a propósito dos doces, petiscos e alimentos, refere que “a liturgia beirã, durante anos, tolerou, na Casa de Deus, um santo de pau feito, que reclinadas mulheres, na quadra das vindimas, ensaboavam de espuma de vinho novo, seguindo-se o ósculo da prova, da colheita do ano”. Não sei, porque não diz, onde se faziam tais coisas. Será que o santo descrito por Mirbeau fazia parte de um ritual semelhante?
Ai São Gonçalo, São Gonçalo de Amarante! Se falasses tinhas muito que contar! César Príncipe afirma que as “velhas camuflavam, nos xailes e casacos, abonados pénis e suas acopladas esferas, lepidamente os desocultando no instante da bênção, no decorrer da missa”.
Logo, não há razão para tanta polémica a propósito do bastão em forma de pénis da estátua do bispo. E se não se entenderem, lembrem-se do Cura. Tenho a certeza que não possui nada de semelhante na sua monumental colecção de falos...

Postais de férias I

Ao jantar, num bom restaurante. Na mesa em frente, dois casais de jovens ingleses, um com um filho num carrinho de bebé, o outro com dois, uma miúda dos seus quatro anos, o irmão mais pequenino, sentado à mesa, em cadeira apropriada. O petiz ia sugando calmamente um biberon de leite. Terminado o biberon, foi presenteado com uma taça de gelado. Aí, o petiz revelou-se um mestre experimentado. Apesar de dominar mal a colher e e de pegar na taça da forma mais desconjuntada que imaginar se possa, nunca a deixou cair, apesar de momentos de equilíbrio deveras instável. Em duas penadas, deu conta do recado, feito notável, para mais sem qualquer apoio paterno ou materno nos transes mais difíceis. Acabado o gelado, a mãe sentou-o no carrinho, pediu um copo de leite, encheu o biberon e deu-o ao miúdo. Num ápice, o biberon rebolou pelo chão com algum estrondo e esparramando leite. A mãe levantou-se, limpou o chão com um guardapo e tornou a dar o biberon ao miúdo, sem qualquer preocupação de limpar a "chucha". Mal o teve na boca, o biberon voltou de imediato ao sobrado, espalhando mais um pouco de leite. Repetiu-se a cena várias vezes. O chão ficou sempre impecavelmente limpo. A "chucha", essa, devia ser de material auto lavável, já que nunca foi limpa!...Ou então os ingleses consideram-nos tanto e até acham o nosso território tão liofilizado que alguma eventual impureza pode ser assimilada, sem qualquer dano, pela sua descendência!...

sábado, 25 de agosto de 2007

...É das arábias!


Conta hoje o Expresso (pag.17) que no dia 8 de Setembro vai haver em Alcochete o Campeonato da Europa de Resistência Equestre 2007, acontecimento que foi “angariado” para Portugal pela Federação Equestre Portuguesa, com patrocínio do emir do Qatar. Conta com participações de dez monarcas árabes, o primeiro ministro dos Emiratos Árabes Unidos, sheiks, emires, princesas, o rei da malásia e sei lá o que mais.
Alcochete, agora tão em voga por razões internas, vai riscar o mapa como local deste exótico e luxuoso encontro, com tendas milionárias à espera dos convidados, caviar e champanhe a rodos, helicópteros a aterrar e a levantar, cavalos brilhantes (ou com brilhantes, ou de brilhantes, não sei) a disparar na pista.
As comitivas já ocupam andares inteiros no Ritz e alugaram 27 Porches Cayenne Turbo (não deve ter sobrado nenhum...) para irem do hotel à lezíria!
Coitados dos toiros, nosso orgulho nacional, devem ficar embasbacados com tanta balbúrdia à volta dos cavalos, receio que a fasquia para as touradas vá ficar muito alta...
A prova vai reunir 150 cavaleiros de 30 países e espera-se que tenha uma cobertura mediática como poucas mas , tendo em conta que as tendas no recinto já estão alugadas por 480 000 euros para o Dubai e 300 000 para o Qatar – não sei que diferença de luxo pode justificar a diferença de preço, mas enfim, deve haver algum motivo, o metro quadrado em Alcochete não varia assim tanto – receio que vamos ter que resignar-nos a ver pela televisão!

Inovação, uma chave da nossa economia empresarial...

"O novo fôlego verde das exportações" chamou-me a atenção nas leituras de fim-de-semana.
A indústria portuguesa do calçado decidiu criar uma marca própria internacional, a marca “biocalce”. Trata-se de uma marca exclusiva que funcionará como um “selo de qualidade” ambiental do calçado português fabricado sem matérias nocivas para o ambiente e para a saúde.
Esta iniciativa é demonstrativa de uma vontade de cooperação e de convergência de esforços de empresários ligados ao mesmo sector industrial, que se associaram nos planos tecnológico e do marketing para ganharem uma vantagem competitiva no mercado global do calçado em que é crescente a concorrência dos países asiáticos.
Uma decisão inteligente que constitui uma excelente prática de associativismo empresarial, em que a escala assume um papel importante na aposta na inovação e, consequentemente, na competitividade.
A nova marca introduz uma distinção competitiva no calçado português e contribui para a recuperação da sua imagem de qualidade no mercado internacional.
Segundo dados da Associação Portuguesa das Indústrias do Calçado, Portugal é o único país europeu que apresenta um saldo positivo da balança comercial no sector do calçado. A forte vocação exportadora das empresas portuguesas permite, assim, que Portugal seja um caso raro no "Velho Continente”. Portugal exportou, em 2006, 64 milhões de pares de calçado, no valor de 1166 milhões de euros (…). No mesmo período, importou 41 milhões de pares, no valor de 318 milhões de euros (…).
Este é um excelente exemplo do caminho a seguir pela indústria portuguesa, em que sobressai a aposta na capacidade de inovação tecnológica e de gestão e na qualificação de recursos. O estreitamento da cooperação empresarial tem ainda muitas barreiras “culturais” a ultrapassar, mas é também por aqui que está o caminho para um país em que a pequena dimensão das suas empresas à escala mundial lhes levanta barreiras muitas vezes intransponíveis quando pretendem actuar isoladamente.
Inovação, uma chave para a abrir a porta da competitividade da nossa economia empresarial...

Um Homem Distinto, chamado Vieira de Castro

Tendo estado ausente na última semana, não acompanhei as notícias nacionais.
Ainda bem, por um lado.
Há factos que nos incomodam de forma profunda, pelo que eles revelam da fraqueza humana em todo o seu esplendor!
Hoje fiquei ciente do que se tem noticiado, envolvendo o estimável Amigo Dr. Vieira de Castro.
Vim ao blogue, vi o texto de quinta feira passada do Dr. Ferreira de Almeida, achei que era já tarde para lhe acrescentar o meu comentário, mas a consciência não me permite a ausência de uma tomada de posição neste nosso "espaço" que tem uma tónica de gente de Bem; o Dr. Ferreira de Almeida e os comentadores ao seu sentido texto já disseram tudo...eu não acrescentarei mais nada.

Num imperativo de consciência, porque tenho acompanhado de perto a evolução do estado de saúde de Vieira de Castro e porque hoje li no "Público" uma notícia de que não gostei, acerca de uma "delegação de responsabilidades", só quero vir aqui dizer que Vieira de Castro é um Homem Distinto!

Trabalhei durante dois anos com Vieira de Castro, exactamente quando ele foi Secretário-Geral Adjunto e eu porta-voz para a área da saúde, enquanto Presidente da Comissão Parlamentar de Saúde e, mais tarde, juntos no Parlamento: é indesmentível a sua dedicação quase obstinada, a forma emotiva e sentida como expressava as suas convicções, como por elas trabalhava, como era de uma lealdade intrínseca, duma expontaneidade contagiante e dum sentido de humor natural e fino.
Assim continua, apesar de estar em fase de recuperação da sua saúde.
Os Homens assim continuam...os homens "assim-assim" é que não deixam memória colectiva!
A minha muita estima ao Dr. José Luís Vieira de Castro.

“Kid Nation” ou “Stupid Nation”?

Li hoje que nos E.U.A. está a ser realizado um reality show, denominado "Kid Nation". Crianças, entre os 8 e os 15 anos, habitam uma cidade fantasma no Novo México, durante 40 dias, "para criarem uma sociedade sem adultos". "Estão sujeitas a expulsão e foram tratadas como se de adultos se tratassem"! Os pais e os menores assumem total responsabilidade por danos e doenças de qualquer natureza, recebendo 3.600 euros desde que cumpram os contratos. Se os violarem têm de pagar 3,6 milhões de euros à CBS, a qual fica com os direitos sobre a histórias das 40 crianças "de forma perpétua e em todo o Universo", e eu pensava que os direitos sobre todo o Universo fosse da chanfana de Poiares, auto-proclamada capital universal da dita! Tirando este à parte, fiquei estupefacto por semelhante atentado e afronta aos direitos humanos e das crianças. É certo que a procura da originalidade e necessidade em cativar o público está a originar graves distorções que não se limitam a actos desta natureza mas que acabarão por se repercutir noutras áreas com consequências imprevisíveis.
"Kid Nation" é um perfeito exemplo de uma "Stupid Nation" que se entretém a destruir valores e princípios que demoraram muitos anos a conquistar, acabando por serem contemplados em convenções e leis.
O que é o que o futuro nos irá reservar?

Matrículas, conferências e suspeitas em barda

Ontem os telejornais abriram com a extrordinária notícia de que o automóvel usado no último ataque da Eta tem matrícula portuguesa e foi alugado em Lisboa há uns meses. A notícia relevante era exactamente esta: matrícula portuguesa. Tudo o resto era uma decorrência deste facto indiciador, ao que parece, das piores suspeitas. E tanto assim era, que a mesma justificou uma conferência de imprensa do director da polícia judiciária, elaborando sobre o tema sem que se percebesse afinal o que é que ele queria transmitir aos portugueses sobre o assunto.
Fui eu que não percebi nada ou estamos a atingir o grau máximo da paranóia? Esforçamo-nos mesmo muito por criar a sensação de que Portugal tem bases da ETA a actuar cá, aproveitando o mínimo indício para o empolar até à conferência de imprensa, para o caso de haver distraidos que queiram desvalorizar esse facto gravissimo que é não se saber a quem se aluga um automóvel? Ás vezes ainda pasmo com o que oiço...

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Estado de hipnose!...

"... Como já se percebeu, em Portugal a baixa da despesa pública – e subsequentemente dos impostos - só ocorrerá depois de substituída a actual geração a que pertencemos...", dizia o Dr. Tavares Moreira no seu post sobre a descida dos impostos na República Checa, e aludindo aos professores de economia e economistas mediáticos que vêm sustentando a política do governo. É um optimista o Dr. Tavares Moreira. Os actuais "professores" estão a ensinar novas gerações de alunos e de futuros professores com as mesmas teorias económicas que têm colocado este país na situação em que está. Parece que está tudo hipnotizado, em matéria de finanças públicas e de política económica do Estado.
Apesar dos resultados catastróficos, insiste-se nas políticas que os provocaram, pensando que, por qualquer milagre nunca visto, trarão resultados diferentes!...

República Checa reduz impostos: que insensatez!

O parlamento checo aprovou esta semana um conjunto de alterações fiscais, em sede de impostos sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS-C) e das pessoas colectivas (IRC-C) bem como do IVA, que no essencial se traduz no seguinte:

- Quanto ao IRS-C, aplicação de uma TAXA ÚNICA de 15% a partir de 2008, baixando para 12,5% em 2009;
- No IRC-C, redução dos actuais 24% para 21% em 2008, com nova redução para 20% em 2009 e para 19% em 2010;
- No IVA, subida da taxa mínima do IVA aplicável aos alimentos e medicamentos, de 5% para 9% a partir de 2008.

Estas alterações foram aprovadas após debate apaixonado, com prós e contras, crê-se que com economistas divididos quanto à bondade das medidas.
Por cá, felizmente, os Economistas credenciados estão todos do mesmo lado – não há lugar a baixas de impostos, temos em primeiro lugar de baixar a despesa.
As decisões do parlamento checo devem ser vistas pelos nossos Distintos Economistas defensores do status quo fiscal como aberrações, coisa para gente que não sabe bem o que anda a fazer ou a dizer (tipo economistas do 4R)...
Uma medonha insensatez, em suma.
É claro que essa Republica Checa que aderiu à União Europeia em 2004 e não sabe nada de política fiscal pelos vistos, já há dois anos nos ultrapassou em rendimento per capita, deixando-nos agora cada vez mais para trás com um crescimento do PIB (e PNB) de cerca de 6% ao ano.
Como já se percebeu, em Portugal a baixa da despesa pública – e subsequentemente dos impostos - só ocorrerá depois de substituída a actual geração a que pertencemos.
Teremos de morrer quase todos, primeiro, a despesa baixará a seguir e só depois, mas muito depois virá a redução de impostos para os sobreviventes.

Nota: IRS-C e IRC-C são abreviaturas para os impostos sobre o rendimento –Checos.

“Dia de São Bartolomeu”

Hoje é dia de S. Bartolomeu, dia em que o diabo anda à solta.
Em certas zonas do país, caso de Esposende, as crianças são mergulhadas, contra a sua vontade, nas águas frias do Atlântico, para ficarem protegidas de certas doenças, esconjurarem medos e curarem maleitas como a gaguez, gota e epilepsia.
Manda a tradição! Uma gaita! Imagino o trauma produzido nas crianças, por terem de mergulhar, três vezes, na água, seguradas por um capanga, provavelmente, ao serviço do “capeta”.
Tradição violenta é o que é!
Fala-se muito de direitos da criança e de maus-tratos…
Por que é que não mudam a tradição? Em vez de sujeitarem as crianças, podiam usar os membros do governo. Assim, todos os anos, seriam mergulhados, nas águas frias, pelos cidadãos “carrascos”. Mas tinha que haver muito cuidado nas suas escolhas, de forma a evitar “entusiasmos” no tempo e no número de mergulhos…

Lamento por um veto

Acabo de saber que o senhor Presidente da República devolveu à Assembleia da República para reponderação, o decreto que visava alterar o velho Decreto-lei nº 48051, de 27 de Novembro de 1967 que define o regime jurídico comum da responsabilidade civil extra-contratual do Estado e das demais entidades públicas.
Suspeito que esta recusa de promulgação signifique o definitivo abandono de uma iniciativa legislativa que não é simpática a qualquer poder, sejam quais forem os seus titulares, muito mais em circunstâncias de dificuldade financeira, como são as actuais.
Trata-se, porém, de uma lei, a meu ver, essencial.
Num momento em que se acentuam as tendências do Estado para muscular os mecanismos de efectivação das responsabilidades dos cidadãos perante ele, é uma má notícia este retrocesso num processo que se arrasta pelo menos desde os tempos do XIV Governo Constitucional.
O decreto aprovado pela AR para valer como lei, numa visão aliás bem mais tímida do que outras aprovadas pelos Executivos subsequentes sobre o que deve ser a leal e honesta relação dos poderes públicos com os cidadãos quando estes sofrem as consequências danosas da actuação licita (mas anormal) ou ilicita daqueles, era importante para clarificar, por exemplo, a responsabilidade no exercício das funções política e legislativa e não só da administrativa; ou dos magistrados quando ajam com dolo ou culpa grave. Ou ainda para afastar as dúvidas que ainda hoje incrivelmente subsistem sobre o direito à indemnização do detido em prisão preventiva quando esta tenha sido decretada ilegalmente. Ou tornar operantes, com tudo o que carregam de preventivo, os mecanismos de responsabilização subjectiva através do direito de regresso sobre funcionários e agentes do Estado que actuem culposamente.
Sinto este insucesso legislativo como um retrocesso no esforço de modernizar o Estado. Porque o Estado moderno não pode servir-se da sua potestas para fugir a responsabilidades. Nem deve deter prerrogativas que lhe permitam subtrair-se ao dever de reparar os prejuizos que as suas acções e omissões provocam, quando faz todos os dias galarim em publicitar a severidade com que persegue os que, para consigo, entende e trata como relapsos.
Lamento, sobretudo, a fundamentação da devolução do decreto. Ao que parece, o senhor Presidente da República considera que o diploma poderia ter, se entrasse em vigor, "consequências financeiras cuja razoabilidade, em termos de esforço fiscal dos contribuintes, é questionável".
Pois para mim o que é questionável é que o Estado, e no Estado aqueles que agem incompetentemente com dolo ou com culpa, continuem imunes às consequências financeiras da sua incompetência.
Ficam a ganhar os contribuintes com o actual estado de coisas? Não tenho dúvidas: não ficam.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Um abraço, José Luís Vieira de Castro

Leio e ouço, preocupado e revoltado, as notícias de hoje. Preocupado porque sei bem o efeito que podem ter no teu estado de saúde. Revoltado, porque esta a cultura da culpa, esta pulsão para o escândalo a qualquer preço, esta propensão doentia para os processos de intenção, nem o elementar direito à legitima defesa da tua honra te permitem exercer.
Mas revoltado também porque, atento todo o dia, não ouvi ninguém do partido a que pertences e a que te dedicaste, vir em tua defesa. Já assisti vezes demais a este filme. E por isso há muito tempo que não tenho qualquer ilusão sobre a crueldade e a hipocrisia que reinam na vida político-partidária, onde raramente as amizades sobrevivem às conveniências e às ambições (ou às cumplicidades do momento!), e a solidariedade é palavra vã. Isso explica os silêncios...
Sei que de nada vale o meu testemunho. Tem todavia a pequena vantagem de não estar prisioneiro de nenhuma conveniência, partidária ou outra. E não é, acredita, influenciado por qualquer sentimento de compaixão pois estou certo que, se quiseres, em breve estarás de plena saúde entre os que consideras. É um testemunho de alguém que privou contigo pouco tempo no Governo, mas o tempo suficiente para reconhecer um homem profundamente sério e honrado.
Aqui fica, para memória futura, ditado pela minha consciência, valha o que valer.
Um abraço, José Luis.

Miradouros sem vistas...

Em Junho escrevi aqui no 4R sobre os jardins históricos de Lisboa. A sua riqueza cultural, ambiental e beleza indiscutíveis merecia melhor destino que a degradação inqualificável a que muitos têm sido votados.
Para além dos jardins antigos, a história de Lisboa deixou-lhe também o legado dos miradouros. Escrevo hoje sobre os miradouros de Lisboa, sensível que fiquei a mais uma notícia que nos dá conta do estado de abandono e de destruição em que se encontra um dos mais bonitos, o Miradouro de Santa Luzia. Está localizado na encosta do Castelo, no berço da cidade, e é considerado uma das melhores janelas sobre o rio.
Segundo a notícia, o Miradouro de Santa Luzia, situado no típico bairro de Alfama, está num estado de crescente degradação, em que o outrora espaço repousante e de encanto pela paisagem avistada deu lugar a um local de entulho e de estaleiro de obra. Segundo a mesma notícia, as obras foram interrompidas por falta de financiamento da Câmara Municipal de Lisboa. Esta situação arrasta-se, espante-se, desde 2005. Já em Junho do ano passado uma outra notícia chamava a atenção para um espaço sujo e mal cuidado, o abandono e a falta de manutenção do seu pequeno jardim e uma grua aí instalada desde o final de 2005 para apoiar as obras de construção de um edifício.
Com efeito, os numerosos miradouros de Lisboa que bordejam as suas colinas oferecem aos visitantes magnificas panorâmicas, a beleza do rio contrastando com o sobe e desce do casario pintalgado dos verdes dos jardins e parques, o colorido da luz e o matizado de estilos e épocas que marcam os vales e, no horizonte perdido, com alguma sorte, o recorte das serras.
Os miradouros estão localizados nos bairros velhos e pitorescos da cidade, em zonas especialmente turísticas. São peças arquitectónicas valiosas que oferecem a Lisboa, aos que nela vivem e aos turistas, pontos de encontro com a beleza e o encanto, são locais privilegiados para desfrutar as diversas facetas da cidade e constituem espaços de convívio com a história e a geografia que apelam à alegria ou à nostalgia de acordo com a vontade do “freguês”.
Mais uma vez constatamos a facilidade com que deitamos “borda fora” oportunidades de nos valorizarmos, de melhorarmos a nossa qualidade de vida e de atrairmos e potenciarmos a actividade turística. E, uma vez mais, somos mal agradecidos. Um desperdício que não faz qualquer sentido! Faz pena…

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Os Planos Quinquenais!...

Ontem li uma notícia espantosa no Diário de Notícias, página 14 ao fundo, lado esquerdo, edição de 21 de Agosto. Rezava assim:
“Equipa de Morgado diz ter conseguido uma eficácia de 54% nas suas acusações. Em sete meses de trabalho, a equipa coordenada por MJM trabalhou em 15 processos…dos quais resultaram oito acusações…destacando-se dois inquéritos que tinham sido arquivados pelo DIAP do Porto…” E a seguir:
“No último balanço, feito em 26 de Julho, Morgado realçou a eficácia de 54% de acusações proferidas pela sua equipa, quando antes era apenas de 12,5%....”.
Pensava eu ingenuamente que eficácia, em justiça, era qualidade, prudência, equilíbrio, bom senso. Engano meu. Pelo menos para tal equipa do Ministério Público, o conceito de eficácia traduz-se simplesmente em deduzir o maior número possível de acusações.
Similarmente, para os Juízes, tal ideia de eficácia só se poderá traduzir no maior número de condenações, preferencialmente a pena maior, e desejavelmente a 25 anos de cadeia!...
A propósito, lembrei-me dos Planos Quinquenais da ex-União Soviética. Se o objectivo era um milhão de toneladas de pregos, saía um milhão de toneladas. Se os pregos entortavam ou partiam à primeira martelada, e se tornavam inúteis, nada de preocupante. O Director e o Chefe do Partido na fábrica já tinham sido condecorados e já eram heróis do trabalho!...
A ver vamos!...

A realidade do PNB escondida pelo PIB

Depois de ver a amável referência do Dr. Tavares Moreira aos dois textos que publiquei recentemente na minha coluna no Jornal de Negócios, relativamente à problemática da diferença entre o PIB e o PNB – que muito nos deve preocupar a todos… – resolvi disponibilizá-los no "Quarto da República".

Para aceder, basta entrar nos seguintes endereços:

http://quartodarepublica.blogspot.com/2007/08/realidade-do-pnb-escondida-pelo-pib-i.html

http://quartodarepublica.blogspot.com/2007/08/realidade-do-pnb-escondida-pelo-pib-ii.html

Não são boas notícias, mas é a realidade…

"Trapped"

Foram hoje divulgados os primeiros dados da balança de pagamentos com o exterior para o 1º semestre de 2007.
Por eles se constata que o défice da rubrica de Rendimentos continua a progredir muito rapidamente, fixando-se em quase € 3,5 mil milhões no final de Junho, ou seja:
- Mais 27,9% do que em igual período de 2006;
- Equivalente a 90% do défice total apurado em 2005 nessa rubrica;
- Quase 120% do défice total apurado em 2004.
Por causa dessa evolução, o défice global da balança corrente baixa apenas 10% em relação ao verificado no 1º semestre de 2006, num ano em que as exportações de bens e de serviços, apesar de algum abrandamento no 2º trimestre, têm tido um comportamento muito favorável e em que as restrições internas contiveram o crescimento das importações.

Este défice dos rendimentos é, neste momento e em m/ opinião, o problema mais sério que a economia portuguesa enfrenta e para o qual não se vê fácil solução – se é que existe alguma.
Com efeito, este défice é resultante, quase exclusivamente, do pagamento de juros ao exterior, por força do enorme, mas ainda crescente e imparável endividamento externo da economia – de todos os sectores, Famílias, Empresas e Estado.
Este défice deverá atingir no final do ano um valor superior a € 7 mil milhões, quase 4,5% do PIB.
O BP no boletim económico do Verão apresentou uma previsão de subida deste défice para 5,2% do PIB em 2008 – porventura com algum optimismo.
Por força desta situação, vamos ter de conviver com um défice externo global da ordem de 8%(ou mais) do PIB por tempo indeterminado? Como vai ser isso possível?
A única hipótese de termos algum alívio no defice desta rubrica será uma descida acentuada dos juros – mas uma descida acentuada dos juros só será viável em ambiente de crise económica europeia e aí lá se vai o crescimento das exportações de bens e de serviços...
Estamos “trapped” como dizem os ingleses.
O mais curioso é que fomos nós próprios (alguns de nós, é evidente – e dos mais admirados pelos “media”, sem surpresa) que montamos a ratoeira em que caímos...

Miguel Frasquilho escreveu em 7 e 21 do corrente um artigo (em 2 partes) no Jornal de Negócios, muito bem elaborado, a propósito da discrepância entre PIB e PNB que se tem verificado em Portugal exactamente por força deste enorme e crescente défice dos rendimentos.
O PNB, que reflecte melhor o bem-estar dos residentes em Portugal, não só é inferior ao PIB como cresce menos que o PIB.
Permito-me recomendar a leitura desse texto, para quem quiser ficar mais elucidado acerca deste tema.

Coisas politicamente muito correctas!...

Já se sabia, em estudo que vem dos tempos de Manuela Ferreira Leite, que metade da função pública trabalha para a outra metade, pelo que só metade trabalha para quem a paga na totalidade.
O Ministério Público, com cada vez mais inquéritos internos, vai-se consumindo no mesmo caminho.
A Polícia Judiciária, idem, aspas.
A GNR, o mesmo.
Por razões certamente respeitáveis e politicamente muito correctas, as autoridades entretêm-se consigo próprias.
Entretanto, e naturalmente, a crimininalidade fica à vontade: bandidos armados vão assaltando sistematicamente e matando em bombas de gasolina, e bandidos mascarados vão destruindo propriedade alheia.
As instituições tratam do seu umbigo; os bandidos, da sua vida, mesmo destruindo a dos outros.

No reino da estupidez

Quem conhece o Alto Douro Vinhateiro dificilmente lhe resiste ao encanto.
Começa agora a despontar a consciência de que Portugal tem ali um destino turístico de enorme potencial. Aos poucos e poucos, pela região do Alto Douro vão-se criando estruturas e equipamentos de grande qualidade, essenciais para o desenvolvimento da actividade turística e para a geração da riqueza de que carecem o País e especialmente os durienses. Por isso se torna dificil entender o atavismo de alguns.

Vem isto a propósito da decisão da REFER de encerrar aos fins de semana e feriados a estação do Pinhão. Ao contrário do que podem supor os que não conhecem aquela vila e a sua centenária estação de caminho de ferro, o edificio tem um valor etnográfico inestimável. É uma daquelas peças notáveis de um património espalhado pelos quatros cantos do País, capazes de atrair quem, viajando, se interessa pelos testemunhos da história dos sítios por onde se passa.

Bastariam os belíssimos paineis de azulejos do século XIX existentes na estação, representativos do labor agrícola e dos costumes nas encostas socalcadas pelas mãos das gentes do Douro, para que o mais canhestro decisor visse ali um motivo para os manter públicos e acessíveis em especial aos fins de semana e feriados, dias de maior movimento turistico.

Mas não. A REFER, que é uma entidade pública e que por isso tem públicas responsabilidades, não viu melhor maneira de resolver um problema financeiro - calculo que seja esse o móbil da estupidez - do que fechar ao público o que já é património público. Precisamente nesses dias de maior afluência turística!

O facto de a REFER e a CP manterem encerrada a linha do Douro do Pocinho a Barca d´Alva, uma linha que bordeja o Douro superior e que poderia ser factor de desenvolvimento de uma zona de beleza ímpar, deixava já a perceber a tacanhez dos responsáveis que contrasta com a lucidez de nuestros hermanos que do outro lado da fronteira se apressaram a investir na restauração do caminho de ferro atentos ao filão que aquele troço do Douro representa.

Mas a decisão de encerramento da estação do Pinhão, essa não tem qualificação!

terça-feira, 21 de agosto de 2007

“Efeito Medici”

Quando nos debruçamos sobre a história da ciência constatamos que muitas descobertas foram efectuadas por pessoas não pertencentes à área em questão. Químicos a intervir na biologia e na medicina, médicos na física, geólogos na evolução e autodidactas em todas.
A intersecção dos diferentes sectores do conhecimento cria novas áreas susceptíveis de atrair mentes abertas, as quais dão largas à criatividade e inovação.
Frans Johansson criou a designação “Efeito Medici” para caracterizar a “intersecção de domínios, disciplinas ou culturas em que é possível combinar conceitos existentes para criar um grande número de ideias novas e extraordinárias”.
Os Medici propiciaram um ambiente em que diversos artistas, filósofos, mecenas, arquitectos e cientistas puderam interagir sem barreiras, com a subsequente explosão de criatividade que ficou conhecido pelo Renascimento.
É do conhecimento geral que uma excessiva especialização pode ter um efeito inibidor na criatividade e inovação na respectiva área. É muito mais fácil a um “outsider” inovar numa área que não é sua, contribuindo para um salto no conhecimento, porque apresenta barreiras associativas baixas, úteis em muitas situações.
A política conduzida neste país levanta inúmeras barreiras, cria ambientes fechados onde só podem entrar alguns, logo, é praticamente impossível encontrar a “intersecção” susceptível de originar a explosão da criatividade e da inovação de modo a podermos sair da mediocridade em que mergulhamos cada dia que passa.
“Efeito Medici” não existe, infelizmente. De momento existe o “Efeito Sócrates” que, como podemos ver pela sucessão de acontecimentos protagonizados pelo próprio e pelos seus “muchachos”, não abona nada de bom. Mas quando for substituído, e terá de o ser, espero que não seja substituído por um outro qualquer “efeito” semelhante...
O cidadão não deve limitar-se a “passear pelo pensamento”, tem que começar a “levar o pensamento a passear”... Pensamento a passear sem açaimo é sinónimo de explosão, criatividade e inovação!

Pérolas - II

Hoje é, definitivamente, o dia das pérolas.
Segundo o Dr. Menezes Leitão, candidato a bastonário da Ordem dos Advogados "não é aceitável que, em pleno século XXI, se negue a uma classe profissional - a dos advogados, mormente os que exercem em prática isolada - o direito a férias que é reconhecido a toda a restante população".
Eu, que sou advogado há mais duas décadas, e nalguns desses passados anos em prática isolada, sempre - felizmente - vivi a intranquilidade provocada pelos processos preparados nas férias grandes e pequenas. Nunca me preocupou ter de interrompê-las para acorrer às necessidades de um cliente ou praticar acto ou diligência em processo urgente, desses que correm, e desde sempre correram, em férias. Nunca me incomodaram as horas tiradas ao sono afastado recorrentemente pela preocupação e pelo peso da responsabilidade perante aqueles que nas minhas mãos confiaram a defesa dos seus direitos e dos seus interesses.
Fiz a opção de não ser como a "restante população". Escolhi ser um profissional liberal, sem horário nem calendário. Sem submissões que não fossem as ditadas pela necessidade de saber mais e desempenhar melhor.
Bom, pelos vistos temos advogados que não se sentem bem nesse estatuto e preferem o regime dos assalariados. Um deles é, pelos vistos, candidato a bastonário da Ordem dos Advogados. Resta-me desejar que os seus pares não o contratem.

Pérolas

Jornal de Notícias - "E há cada vez mais gente à sua volta a pedir favores?"
Joe Berardo - "Sempre foi assim. Não ajudo todos, não sou tão importante como Gulbenkian mas quase, porque tenho ajudado muitos".

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

O novo cozinheiro


Os benfiquistas navegam na doce ilusão de que o novo cozinheiro é capaz de fazer omoletes sem ovos.
Abençoada ilusão!...
Nota: A figura não pretende ser ofensiva; pelo contrário, pretende apenas ilustrar a enorme ternura que sinto pelos inocentes sentimentos benfiquistas, em que se incluem os meus dois filhos, e que comungam da ilusão...

“Período difícil”…

Jaime Silva disse que os comentários feitos por Marques Mendes ao ataque “ecologista” ao milheiral transgénico no Algarve foram precipitados e que o grupo não foi”subsidiado” pelo Estado!
“Marques Mendes está num período difícil”… Ministro da Agricultura disse! Mas é só ele? E nós? O ministro não parece que esteja.
O Estado vai prestar auxílio jurídico à vítima! Ai vai? Então, porque é que não apoia, também, as inúmeras vítimas de agressões, assaltos e de toda a espécie de violência deste país? Será porque tem consciência de que as autoridades não actuaram convenientemente?
Esquisito!
Ah! O senhor Presidente da República quer que seja investigada a situação. Anda a querer saber muito. Anda, anda. Começa a inquietar-se e a meter-se em diferentes assuntos. Vamos ver quem é que vai entrar num “período difícil” …

Enigma cor-de-rosa!...



Não percebo!...
Então Luís Filipe Vieira diz que o "apito dourado" é que impede o Benfica de ganhar o Campeonato, e depois manda embora o treinador?
Não percebo, mesmo!...
...A não ser que Fernando Santos fosse o homem do dito!...

Cidade dá dinheiro a quem emagrecer!

Uns dão dinheiro para reproduzir.
Outros começam a dar dinheiro para emagrecer!
Qualquer dia, ainda aparece alguém a dar dinheiro aos que morram mais cedo…

Não é possível reduzir os impostos

Do episódio da invasão da propriedade e destruição da colheita de milho de um agricultor algarvio do concelho de Silves, acção realizada por um grupo de “jovens” e corajosos ambientalistas, já o Pinho Cardão tratou, de forma lapidar.
Permito-me pegar no tema por outro motivo, aliás já aflorado em comentário ao POST de Pinho Cardão: o significado fiscal do episódio.
Soube-se que os autores do crime de invasão da propriedade e de destruição de bens alheios se encontravam no Algarve a soldo do Instituto da Juventude – denominação em vias de ser alterada para Instituto da Juventude e da Canalha.
Quer dizer que nós subsidiamos, com os nossos impostos, essa invasão da propriedade e destruição de bens.
O Governo reagiu envergonhadamente ao episódio, parecendo no primeiro momento ignorá-lo: isso percebeu-se aliás da tímida reacção das “forças da ordem”, numa quase cumplicidade com a desordem, bem como do silêncio total dos membros do executivo, habitualmente tão prontos a aparecer e desdobrar-se em declarações para tranquilizar o País.
Tratava-se de ambientalistas, jovens, coitados mereciam toda a condescendência deste mundo.
Num segundo momento, quando começou a perceber que a opinião pública condenava este acto gratuito de ofensa grave e colectiva da propriedade privada, o Governo mudou de agulha:
- Primeiro as declarações do M.A.I. - muito tardias é certo - condenando o acto;
- Agora o anúncio de próxima visita do Ministro da Agricultura à propriedade invadida, provavelmente para anunciar a atribuição de uma indemnização pelos danos causados pela destruição da cultura de milho.

Sendo assim, como é muito provável, os nossos impostos irão também pagar o subsídio ao agricultor devido pelos danos causados pela invasão da propriedade que já tínhamos pago com os nossos impostos!
Temos pois o Estado contra o Estado e nós no meio, sempre a pagar.
Entende-se agora melhor a coerência dos que opinam, doutoralmente, que não há espaço para descer os impostos.
Com necessidades públicas destas como é que é possível baixar os impostos?
Só as pessoas muito pouco responsáveis (como as do 4R) podem defender a redução de impostos - como se pode ver por mais este episódio.

A paranóia dos processos de intenção

É uma doença grave, corrosiva, quase paranóica, esta dos processos de intenção.
Ninguém escapa.
No dia em que o País é chamado a atenção pela imprensa que a lei crismou a possibilidade de o funcionário público que apresente sinais exteriores de riqueza ser, por esse facto, alvo de processo disciplinar, o senhor Presidente da República vai hoje a Albufeira homenagear os autarcas que serviram aquele município.
O DN perguntou ao Presidente da República se não via nesta participação presidencial um "conflito de interesses" uma vez que teria sido o actual presidente da câmara de Albufeira a licenciar a casa de férias da família Cavaco Silva.
Somos, definitivamente, um País doente.
A propósito: comemorou-se ontem mais um aniversário do julgamento das bruxas de Salém...

domingo, 19 de agosto de 2007

Sem dormir não se vai lá...

Há uns dias atrás, assisti a uma entrevista na televisão cujo tema central era o sono. Nunca tinha tomado verdadeira consciência da importância da qualidade do sono.
Passamos, aproximadamente, 1/3 das nossas vidas a dormir. São 8 horas por dia, mais de 50 horas por semana, quase 250 horas por mês e cerca de 2.500 horas por ano a, pura e simplesmente, dormir. Mas não é um tempo improdutivo, porque enquanto somos embalados pelo sono estamos a reabilitar o corpo, depois de um dia de esforço físico e psicológico.
Interessante foi a informação, que eu não sonhava, de que Portugal é o país do mundo que mais tarde vai para a cama e mais cedo se levanta. Somos o país que menos dorme no mundo!
Não temos que nos regozijar com este resultado. É uma situação preocupante! Podemos tornar-nos a população mais chata do globo!
É que o sono constitui um bem essencial ao equilíbrio psíquico, cognitivo e corporal. Dormir pouco compromete a qualidade de vida, afectando a boa disposição, a alegria de viver e as capacidades de raciocínio rápido e de memória, favorecendo a irritabilidade e a ansiedade e uma maior vulnerabilidade a infecções e à obesidade. Se formos privados do sono ficamos fisicamente cansados. O sono é essencial para a nossa capacidade de criar e de nos adaptarmos ao mundo. Dá-nos vigor para viver.
O nosso organismo funciona como um relógio. Ora, se temos ritmos e tempos para tantos aspectos do nosso quotidiano, também no sono devemos ter a preocupação de estabelecer um horário mais ou menos regular, de modo a que o nosso organismo funcione adequadamente.
A quantidade de sono que cada pessoa necessita varia de acordo com muitos factores, nomeadamente a idade. Porque é que as crianças mais pequenas precisam de dormir mais de 12 horas/dia? Porque é durante o sono que crescem. A hormona de crescimento é produzida durante o sono. Já para a maior parte dos adultos, a quantidade de sono fica-se entre as 7 e as 8 horas/dia.
Mas há muitas categorias de dorminhocos. Vejamos: Os anti-dorminhocos, que pura e simplesmente não precisam de dormir e estão sempre “frescos como uma alface”; os dorminhocos frustrados, que travam uma luta titânica contra as insónias que não os deixam pregar olho; os dorminhocos zombie, com o sono sempre à porta, que dormem e dormitam, sentados e até de pé, em qualquer sítio; os dorminhocos dependentes, que só dormem na sua caminha e com a sua almofadinha; os dorminhocos barulhentos, que durante o sono emitem ruídos, nalguns casos verdadeiros grunhidos; os dorminhocos ”anjinhos”, que dormem num estado de quase beatitude, com sonhos às pintinhas cor-de-rosa, de fazer inveja a um qualquer dorminhoco que se preze.
Uma investigação recente conduzida pela Universidade de Lubeque sobre a importância do sono na capacidade de resolução de problemas complexos concluiu que o grupo de voluntários que dormia 8 horas por dia tinha uma capacidade de resolução de problemas superior em mais de 60% em relação ao grupo privado do sono.
Constituem um grupo marginal, portanto, aqueles que apenas dormindo 3 a 5 horas/dia têm uma boa performance pessoal e profissional.
Será que Portugal, por negligenciar as horas do sono, por se deitar tarde e cedo erguer-se, hipoteca as suas faculdades de ponderação, criatividade e adaptação? Será que podemos fazer aqui alguma associação ao estado de apatia em que nos encontramos?

A canalha

Um bando de energúmenos e malfeitores assaltou uma propriedade privada e destruiu uma plantação considerável de milho transgénico, causando importantes prejuízos ao seu proprietário. As televisões estavam devidamente avisadas, pelo que transmitiram imagens chocantes do vandalismo praticado.
Alguma da canalha, portuguesa e estrangeira, provinha do encontro da Ecotopia, um encontro anual de activistas ambientais europeus que decorria em Aljezur.
A polícia esteve presente e limitou-se a “identificar uma meia dúzia de portugueses, ligados à organização do movimento, os outros não tinham documentos", explicou um oficial da GNR.
Nem um só identificado foi detido para prestar declarações, nem um só dos não identificados teve que ir ao posto para se averiguar da sua presença, legal ou ilegal no nosso país. O que contrasta brutalmente com as rusgas que se fazem para prender ilegais.
Aqueles cujo único “crime” é quererem trabalhar são expulsos; os criminosos que destroem o que existe nem sequer são identificados.
O Ministro da Administração Interna, que aparece por tudo e por nada e é sempre tão prolixo, mesmo quando evidencia total ignorância das leis que promove, desrespeitando-se a si e aos portugueses, como aconteceu com os testes aos condutores, remeteu-se ao silêncio total.
Não explicou a atitude da GNR, não explicou a inacção dos Serviços de Informação, não condenou sequer o acto, não disse que medidas o Governo iria tomar. Silêncio total.
Enquanto isto, o DN diz no seu editorial que “ser ambientalista também tem limites”, como se os ambientalistas já tivessem direito a um qualquer estatuto especial.
E o inefável Miguel Portas, também no DN, congratula-se com o facto, pois “ é um sinal de que as novas conflitualidades emergentes chegaram a Portugal”.
A coisa vai bonita, vai!... E o Governo, que cala, obviamente consente.

“Sentimento de vergonha”...

A vergonha é a tristeza que acompanha a ideia de alguma acção que imaginamos censurada pelos outros” (Spinoza).


A leitura do livro de Stefan Zweig, “Magalhães - o homem e o seu feito”, levou-me a debruçar sobre o sentimento da vergonha.
Quem é que nunca sentiu vergonha? Recordo ter sofrido vergonha quando sentia que olhavam para mim ou, em criança, quando fazia disparates. Tinha que ir pedir desculpa, ouvindo sermões, alguns dos quais me faziam corar. Corar!
Darwin escreveu um livro intitulado “The expression of the emotions in man and animals”. Nesta obra, existe um capítulo em que o autor afirma que “o corar (blushing) é a mais especial e a mais humana de todas as emoções humanas”.
Mas a vergonha não está só associada com a sua irmã, a culpa, ela pode ocorrer quando nos sentimos expostos, sem termos feito ou dito nada de especial, ou quando temos consciência de maus juízos que nos fazem. Não basta fazê-los é preciso igualmente que os sintamos, o que nos coloca num plano de inferioridade.
O que mais me surpreende nesta palavra é a dualidade da mesma. A consulta de vários dicionários revela associação a remorso, timidez, pudor, honra, humilhação, brio, embaraço, entre outros sentidos. Chega a ter significados opostos: honra/desonra, dignidade/indignidade, humilhação/coragem.
As expressões “que vergonha” ou “é uma vergonha” são frequentemente utilizadas nos debates parlamentares. Se fizéssemos uma análise dos textos do Diário da Assembleia da República, que contempla os mais diversos comentários, quase que poderíamos afirmar que são as mais utilizadas. Causas? Quando estão numa situação dizem uma coisa, quando mudam de posição passam, muitas vezes, a defender o que atacavam ou a dizer coisas diferentes! E como fica tudo registado, é "um ver se te avias" à procura dessas contradições. Mas sentem mesmo vergonha? Não creio! Quando confrontados com as contradições e com a percepção de maus juízos feitos pelos adversários não manifestam vergonha, porque seria preciso que sentissem como suas esses mesmos juízos, ou seja, reconhecer superioridade aos seus autores. Como não reconhecem, não sentem nada. Neste aspecto são manifestamente “democráticos” ou, então, verdadeiros “malhadiços”!
No entanto, o sentimento de vergonha pode ser muito positivo, mesmo fonte de inspiração e originar obras incríveis.
Stefan Zweig, na introdução do livro já citado, obra que nos cativa de forma particularmente intensa e profunda, quer no estilo quer no conteúdo, ao debruçar-se sobre um dos maiores vultos e o maior feito da humanidade, explica a razão de ser do mesmo. Na sua viagem para o Brasil, acabou, ao fim de alguns dias, ao sétimo ou oitavo dia, por ficar impaciente. “Sempre o mesmo céu azul, sempre o mesmo mar azul e calmo”!
De repente, começou a confrontar as suas comodidades com as dificuldades das primeiras viagens e dos primeiros conquistadores dos mares, o que o fez “sentir profundamente envergonhado da sua impaciência”. “Esse sentimento de vergonha, uma vez acordado, nunca mais se apartou de mim durante toda a viagem...” Foi à biblioteca do navio e escolheu ao acaso vários volumes. De todas as figuras e viagens houve uma que aprendeu a admirar mais, “a do homem que, a meu ver, levou a cabo a mais grandiosa façanha na história da exploração terrestre: Fernão de Magalhães”.
Um sentimento de vergonha que originou uma magnífica obra sobre um grande homem...

Há noites de azar!...

Como resposta à recente polémica sobre o consumo de droga entre a classe política italiana, parece que o deputado X da Democracia Cristã, cujo nome omito, foi um dos activistas que levou deputados e senadores a submeterem-se voluntariamente a um teste de despistagem de estupefacientes.
Segundo rezam as crónicas, os deputados e senadores da direita foram dos que mais abrilhantaram o teste, enquanto os deputados e senadores da esquerda, considerando a iniciativa demagógica, primaram, em geral, pela ausência.
Certamente por razões de força maior derivadas de trabalho político inadiável, o Deputado X foi obrigado, contra toda a sua vontade, a faltar ao teste, o que eloquentemente lamentou. E certamente para afugentar a mágoa da ausência, resolveu jantar opiparamente e passar a noite num bom hotel a condizer, excelentemente acompanhado de duas belas e guapíssimas garrazzas, o que, aliás, atesta o seu bom gosto. A sua mulher naturalmente não pôde ir, por estar prestes a dar à luz o quarto filho.
Tudo estaria certo se uma das companheiras não tivesse que trocar a última parte da noite no hotel pela Urgência de um Hospital, devido a uma generosa ingestão de cocaína!...
Não fosse o evidente azar e o deputado era um campeão da luta contra a droga.
Lembrei-me da história, agora que, por cá, também estão a surgir todos os dias uns novatos e excitados campeões da legalidade desportiva, mormente em tudo o que meta assobiadelas douradas, mas excessivamente tolerantes em trinados de outras cores!...
Olhem que há noites de azar!...

sábado, 18 de agosto de 2007

O mito e a realidade

Por estas alturas de estio, em que a leitura é entretenimento indispensável mas as notícias escasseiam, entre os habituais artigos sobre o melhor shampoo para o cão ou as notícias sobre mais uma facadinha no matrimónio da actriz de telenovela que se descobre que afinal sempre vivera amancebada, aparece recorrentemente publicado e actualizado o ranking dos portugueses mais ricos.
E durante dias alimenta-se o mito de que somos um país de nababos.
Não somos, infelizmente. Somos uma nação de demasiados pobres. E a pobreza explica muito desta congénita propensão para a mitificação.
O Expresso de hoje retrata bem o contraste entre o que somos e o que julgamos ser.
De um lado artigos e opiniões condenando a riqueza e o privilégio - que alegadamente se torma imperioso perseguir porque é ela responsável pela escassez de meios financeiros do Estado -, artigos e opiniões assinados por alguns que todavia não renegam (eu sou testemunha) sentar-se à mesa dos ricos a enfardar-se com os seus privilégios...
De outro lado, no caderno de economia, uma análise lúcida de Nicolau Santos a partir do diagnóstico da realidade portuguesa traçado com base nos dados recolhidos pelo Fisco no ano passado.
E que realidade é essa?
É aquela que tristemente nos revela que metade dos agregados familiares, quatro milhões de portugueses, não paga IRS. Simplesmente porque não aufere rendimento para o fazer.
Recorde-se que o limiar de isenção anda pelos 4500 euros, o que representa uma média de proveitos mensais por família rondando os 375 euros (75 contos em moeda antiga)!
Mas seremos nós um país de classe média?
Também, infelizmente, não somos. Entre 10 milhões de habitantes, somente 440 mil pertencem aos vários escalões de remediados.
Todavia, é esta escassa minoria e as empresas, quem paga os impostos que sustentam este Estado também ele convencido que é rico.
Esta é a verdadeira estrutura da sociedade portuguesa. Poucos ricos ganham muito. Mas o que é mais relevante é a imagem do imenso mar de pobreza sem solução e de uma classe média que cabe toda em dois ou três bairros de Madrid.
Observado Portugal sem o habitual nevoeiro dos mitos, percebem-se melhor as dificuldades do presente mas também como é complicado confiar num destino melhor...

“Benzodiazepinas”…

A discussão que foi levantada nos últimos dias sobre se as benzodiazepinas são ou não para serem tomadas em linha de conta em pé de igualdade com as drogas de abuso parece ter terminado.
“O MAI emitiu um esclarecimento onde definitivamente refere que as benzodiazepinas não são incluídas no elenco das substâncias proibidas” (Jornal Público).
Muito bem! Afinal, Mário Dias, responsável do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML) e representante do organismo no grupo de trabalho que estudou a questão, manifestou sempre que esta tinha sido a posição. O que é lamentável é o facto dos senhores governantes, ministro e secretário de estado terem tido a postura que é do conhecimento de todos. Um diz que isso é com os médicos! O outro diz que é mesmo assim, ou seja se aos condutores for detectado benzodiazepinas, tribunal com eles. O próprio ministro disse, eu ouvi, que se estiverem a tomar estes produtos não podem conduzir! Agora, vem a dizer que não é assim. Mas que forma de governar é esta? Será que os responsáveis ministeriais andam a tomar benzodiazepinas em excesso? Se não andam…

Pensamento eclético!...

“…Eu e a minha mulher fomos a Fátima. Eu sou ateu, mas não rejeito a fé…”
Rui Caçador, Seleccionador Nacional de Futebol de Sub-21, em entrevista ao DN de ontem.

Pensamento optimista

“…Se calhar, até posso estar em vantagem, porque se marcarmos um golo lá, eles têm de marcar dois para conseguirem passar...”
Paulo Duarte, treinador do U. Leiria, depois do empate a zero com o Maccabi, em jogo da pré-eliminatória da Taça UEFA.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Sexta feira à tarde...


Hoje tive que enfrentar um montão de coisas para ler e dar o devido caminho, aplicando com muita determinação uma parcela da boa disposição e resistência que trouxe das minhas belas férias.
Foi a meio da tarefa, já meio desanimada, que me lembrei do Senhor Osvaldo, figura carismática de um Ministério onde trabalhei há quase 20 anos e, - é justo dizê-lo – com quem aprendi muita coisa nestas artes da papelada.
O Senhor Osvaldo era o chefe da secretaria de apoio e gabava-se de saber tirar as ilusões a todos os tenrinhos que entravam para os Gabinetes convencidos de que mandavam alguma coisa. Quando foi apresentar-se, deitou-me um olhar sorumbático e céptico através dos seus óculos grossos de míope, rosnou qualquer coisa como “Isto aqui há muito trabalho!” e desapareceu.
Eu passei o dia a tentar perceber onde tinha caído, aterrada com medo de não dar conta do recado, enfim, as angústias próprias de quem inicia novas funções com alguma responsabilidade, até que, já adiantada a tarde, ele entrou no meu gabinete com um pilha interminável de papéis, que o ocultavam por completo. Nunca tinha visto tanto papel.
Pousou tudo com estrondo na mesa e perfilou-se: “Isto é para assinar hoje. Amanhã há outro tanto. É assim todos os dias.”
Fui buscar a caneta e peguei no primeiro papel, que comecei a ler, à espera que ele saísse, preparada para uma noitada de trabalho.
Ele impacientou-se. “Isso não é para ler, Dra, assim nunca mais saímos daqui, tenho que apanhar o comboio dentro de 20 minutos! É só assinar no quadradinho, que eu já faço isto há muitos anos! Era assim que todos faziam, confiavam em mim.”
Quando lhe disse que não costumava assinar cartas sem ler, por muitas que fossem, ficou muito ofendido e começou a desfiar o nome de muitos homens – e acentuava “homens” - que não lhe tinham feito essa desfeita, que eram pessoas muito consideradas e blá e blá..Mas, se eu queria assim, então muito bem, em breve ia ver o caos instalado e depois que não o culpasse. Mas não saia dali, em pé, muito vermelho de raiva.
Primeiro fiquei atarantada, não estava habituada àquelas explosões. Depois, resolvi contra atacar no terreno dele.
- Senhor Osvaldo, vai ter que me aturar muitos anos. È melhor para os dois se o senhor, em vez de me ouvir aos gritos cada vez que uma coisa não estiver bem, me ensinar o que sabe. Eu fico a ler tudo, se achar bem assino, se não, amanhã o senhor explica-me porque é que fez assim e tudo se resolve. Que lhe parece?
Ele ficou mudo. Ainda estrebuchou “Vai levar uma semana a ver isso…”, ouviu “vou levar o tempo que for preciso” e de repente deu uma gargalhada, estendeu-me a mão e disse – “Temos mulher! Seja muito bem vinda!”
Foi um grande amigo, teimoso e leal como poucos. Quando começo a desanimar com a papelada lembro-me sempre do seu olhar trocista à espera que eu desistisse…