Número total de visualizações de página

domingo, 30 de novembro de 2008

Se todos os problemas se resumissem a défices orçamentais...

Fui visitar um Amigo que se encontra hospitalizado. Foi submetido a uma cirurgia complicada para resolver uma situação clínica grave que se declarou rapidamente e que requeria uma intervenção rápida.
Nós que não somos médicos e que não lidamos directamente e diariamente com a doença e com a morte, a não ser quando somos confrontados com problemas de saúde que requerem tratamento hospitalar ou nos deslocamos a estes locais para visitarmos familiares e amigos que precisam de acompanhamento ou estão internados, pouco ou nada sabemos sobre a organização e o funcionamento dos hospitais. Não conhecemos o que se passa lá dentro.
Se estamos doentes e internados no hospital preocupamo-nos com o nosso estado de saúde, com os nossos familiares e amigos que deixámos em casa, ficamos ansiosos por tudo terminar bem e rapidamente, agradecemos as atenções médicas e do pessoal de enfermagem que tratam de nós e de quem dependemos enquanto ali permanecemos. É normal que assim seja, estamos num local estranho, por razões que normalmente são motivo de angústia e preocupação, ficamos diminuídos, as nossas companhias, as nossas rotinas e os nossos gostos são temporariamente quebrados, somos atingidos pelo medo e pensamos em muitas coisas que não devíamos pois o tempo é muito e passa devagar…
Se não estamos doentes e vamos ao hospital para visitar alguém a nossa preocupação centra-se na pessoa do doente, levando amizade e carinho, procurando fazer-lhe companhia para que se sinta bem e contribuir para minimizar o sofrimento e a dor que porventura esteja a passar e tratando de conhecer melhor o seu estado de saúde e a evolução esperada.
Parece então que tudo o mais não importa, porque o que importa mesmo é que os médicos resolvam os problemas de saúde dos doentes e tratem bem deles, que os doentes recuperem e se salvem. A competência médica é colocada acima de todas as outras exigências igualmente importantes mas que nestas circunstâncias pouco ou nada importam.
O problema é que “tudo o mais” pode ser muito e em muitos casos é mesmo. Fiquei chocada com o que me foi dado observar na visita que fiz ao meu Amigo. Trata-se de uma unidade hospitalar pública, dotada dos mais modernos equipamentos médicos e das tecnologias mais evoluídas, mas com condições de acolhimento dos doentes que aí permanecem hospitalizados e dos familiares que os visitam difíceis de imaginar.
A reserva da intimidade e o respeito pela privacidade do doente não existem. Os doentes estão agrupados em quartos de quatro camas com uma área total que não deve ultrapassar 30m2, sendo observados por uns e por outros 24 horas por dia. Se uns foram operados a uma apendicite, e aí permanecem três a quatro dias, já outros foram submetidos a cirurgias de extrema gravidade e não terão outra hipótese que não seja passarem semanas em convalescença. Uns estão desolados e a sofrer, outros nem por isso. Uns estão entubados por todos os lados, outros estão aparentemente mais aliviados. Uma televisão encontra-se colocada no topo de uma parede bem ao centro para que todos sejam obrigados a ver, de acordo com o gosto de quem se lembra de carregar nos botões. Os telemóveis tocam ao som de ruídos diferentes e as vozes do lado de cá ora são mais discretas ora mais graves consoante o que tem de ser. Chegam a concentrar-se simultaneamente num espaço tão exíguo e tão desabrigado um total de doze pessoas, quatro doentes e oito visitas, duas por cada doente, quando não são mais porque as “cunhas” funcionaram. A confusão é geral, a incomodidade de uns é a festa de outros. O silêncio de que uns necessitam e que se justifica é substituído pelo movimento na acção que os outros desejam ter.
No meio deste esquema o doente vê-se despido da sua intimidade, que justamente nestes momentos deveria ser por maioria de razão respeitada, e a privacidade dá lugar ao colectivo, num quadro em que tudo o que não interessa aos outros é – lhes forçadamente mostrado.
Chamo a tudo isto falta de humanidade. Custa-me perceber porque fazemos coisas assim? Custa-me perceber porque não somos capazes (ou, porventura, não queremos) de proteger a dignidade humana. Não estou enganada por considerar que a dignidade humana é um primado da vida, é um valor que não tem preço. Custa-me perceber que quem toma decisões tão importantes, que nunca sabemos quem são porque a responsabilidade nunca é de ninguém, não seja capaz de ver que a tecnologia só por si não é um caminho, não é um fim em si mesmo.
Os médicos são competentes e simpáticos, o pessoal de enfermagem é dedicado e atencioso. Então porquê este estado de coisas? Não somos todos pessoas humanas? Na alegria e na tristeza?
Estamos em crise, vivemos uma crise de valores. Não é apenas uma crise de carência de recursos financeiros, de défices orçamentais. Há mais crise antes e para além dos recursos financeiros. Os problemas não se resumem a dinheiro. Estamos de facto mais pobres…

São Estaline!


Em 1992, no decurso de uma estadia em Moscovo, proporcionaram-me, conjuntamente com vários colegas das sete partidas do mundo, uma deslocação a uma das cidades do “Anel de Ouro”, Zagorsk, hoje Serguiev Possad. Uma cidade fabulosa e rica da qual se destaca o Mosteiro da Trindade de São Sérgio com as suas igrejas, catedrais e monumentos. A percepção que tivemos ao entrar na cidade foi um salto no passado de séculos, tamanha eram as condições de vida. Visitámos a Catedral, onde nos deparámos com uma cerimónia religiosa. Impressionou-me os olhares brilhantes e cheios de estranho êxtase dos fiéis. Bastante perturbador, diga-se de passagem. Nem deram pela nossa presença. Mas a entrada não foi pacífica. Ao subir os degraus, seguido de um colega português, e mais atrás o resto do pessoal, parei para certificar que não estava a adiantar-me em demasia. Olho para trás e vejo um padre ortodoxo, novo, alto, magro, e barbudo aos solavancos com os braços a agitarem-se de maneira muito estranha tipo desagrado. Pensei de imediato: - O que é que está acontecer ao indivíduo? Entretanto, ultrapassa num ápice o grosso da coluna, sobe as escadarias, sempre nos mesmo propósitos, agora a verbalizar alto na sua língua, e, ao passar por mim, dá-me um encontrão que me deixou meio parvo. Entra na Catedral e, nem sei como, consegue empurrar aquela porta de dimensões apreciáveis fechando-a com um estrondoso barulho. O Quim disparou: - O gajo é doido! E eu: - É capaz de ser mas é um esquizofrénico! A sensação que tive era de que nos devia considerar como profanadores daquele espaço religioso, fechado a estrangeiros segundo me disseram depois. Ficámos apreensivos em entrar na Catedral, mas o nosso anfitrião russo lá tratou de nos acalmar e entrámos. Valeu a pena.
Cruzámo-nos com vários padres e seminaristas ortodoxos que nos olhavam meio desconfiados e cuja simpatia devia ter ficado na barriga das mães.
Recordei-me deste episódio ao ler que um sacerdote de uma paróquia russa expôs no templo um ícone com o ditador José Estaline. Estaline é representado ao lado da padroeira de Moscovo, Santa Matrona. A direcção da Igreja Ortodoxa russa condenou o sacerdote, o qual teve que pedir a demissão.
Mas afinal, porque é que o padre pôs no altar o ditador comunista responsável por milhões de mortos? Diz a lenda, que “Estaline ter-se-ia encontrado com a santa ortodoxa, que lhe terá aparecido no Outono de 1941, no auge da guerra, quando o exército nazi estava às portas de Moscovo, e o ditador comunista estava indeciso em abandonar a capital soviética”. “Tu ficarás sozinho na cidade. Envia todos para fora, mas não entregues a cidade. E não a entregarás”, terá predito a santa.
Às tantas, pus-me a pensar, que este gesto poderia ter sido do tal padre “esquizo” que me deu um valente encontrão à entrada da Catedral! Já não digo nada.
Não consigo perceber as razões que levam os comunistas a propor a canonização de Estaline! É verdade! Está em curso uma campanha nesse sentido. É certo que já têm um czar santo e que de santo não deve ter tido nada, São Nicolau, e qualquer dia ainda correm o risco de começar a rezar a São Estaline!
A Santa Matrona devia andar muito perturbada quando “apareceu” a Estaline. É o que acontece quando se fazem santos a “trouxe-mouxe”...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O cirurgião-barbeiro!...


Para reanimar a economia, o Governo vai insistir em investimentos públicos, em vez de diminuir impostos, disse o Ministro das Finanças. O investimento tem mais efeito, disse ainda o Ministro!...

Pois é, desde há dez anos que o investimento público, em termos de PIB, é superior à média europeia.
E o efeito visível é esta nossa exaurida economia, cujo grau de é bem inferior ao da média europeia.
É este o nosso fado, o do enfraquecimento permanente, devido ao veneno das transfusões fiscais que os nossos cirurgiões-barbeiros de serviço nos receitam por medicamento!...

Assim se vê...a força do PC!...

Muito elucidativo, e a ler, o post de Pedro Correia, no Corta-Fitas.

Os cavaleiros da pateada

Maria Rattazzi, sobrinha de Napoleão, visitou Portugal entre 1876 e 1897. O contacto com a Lisboa da época sugeriu-lhe uma pequena galeria de quadros narrativos que mereceram de Antero de Quental o seguinte comentário:
“A Rattazzi, que passou dois invernos a desfrutar os literatos de Lisboa, publicou agora um livro delicioso. Imagine uma parisiense descrevendo ao vivo estes mirmidões! Não se fala noutra coisa, e está tudo furioso!”
Para percebermos a razão deste comentário, a saborear o escândalo, aqui fica um dos “quadros” que Maria Rattazzi seleccionou:
"- Porque é que fulano, que não é desprovido de mérito, fez fiasco em S. Carlos?, perguntava-me um estrangeiro que passou uma estação em Lisboa, - e qual a razão por que mademoiselle sicrana conseguiu agradar ser aplaudida?
- Há em Lisboa, respondeu o Senhor R. a esse estrangeiro, uma raça de homens mais ou menos desconhecida, chamo-lhes eu os cavaleiros da pateada; é um bando de sujeitos que reinam no teatro, como os tiranos, pelo terror. Não vá persuadir-se de que sejam grandes personagens esses tiranos, ou simplesmente pessoas de gosto, cuja opinião tenha peso. É claro que lhes falta completamente o espírito, pois que imperam pelo medo que inspiram; também não são indivíduos de distinção que se prezem no mundo; em geral, as pessoas distintas são bem educadas e não é pelo assobio que costumam manifestar a sua opinião. Não. São antigos empregados, antigos empresários, talvez, descontentes e despeitados, alguns jovens da gandaia que se arrogam importância, e uma certa quantidade de velhos bonitos e amaneirados. Todas estas espécies se coligam para exercer sobre os empresários a tirania da intimidação.
- Façam o que nós queremos,
dizem eles, quando não tocamos o nosso instrumental. Não sabemos senão a arte de patear, mas estudámo-la com todos os seus requisitos e, se resistem, dar-lhes-emos uma prova irresistível do que sabemos e valemos.
E os empresários não resistem.
Só a ameaça de uma pateada torna todo o empresário que se respeita trémulo e lívido, seria inclusivamente capaz de vender a alma só para a evitar.
O desgraçado não vê, não sabe, que a sua fraqueza o põe a par do legendário personagem que se ocultava na água com medo da chuva…"

In Portugal de Relance, de Maria Rattazzi, ed.Antígona

Ainda os depósitos da S. Social no BPN

O Dr. Tavares Moreira publicou há dias, aqui no 4R, um post colocando várias e pertinentes interrogações sobre o facto de a Segurança Social ter depositadas no BPN quantias elevadas, cerca de 500 milhões de euros e ter levantado, em Agosto, 300 milhões, podendo ter ajudado a precipitar a crise nesse banco.
Entre os muitos comentários feitos, André Salgado, que me pareceu pertencer à Instituição, veio a justificar, em várias entradas, a posição da Segurança Social. Ficamos honrados com isso e alguma luz daí adveio. Todavia, sem prejuízo do esforço, há quem concorde e há quem, legitimamente, discorde da argumentação. É este o meu caso, nomeadamente no que se refere à bondade das aplicações de montantes tão elevados. Vejamos porquê.
1. A S. Social gere um Fundo de Maneio de cerca de 2.000 milhões de euros, nas palavras de Vieira da Silva. Face ao Orçamento, verifica-se que equivale a cerca de um mês de receitas.
2. Se é verdade que, em termos formais, não recaía qualquer vigilância pública do Banco de Portugal sobre o BPN que, segundo o Governador, seria mesmo um dos que melhores rácios apresentava, a verdade é que o BPN era um Banco pequeno, com uma quota de mercado inferior a 2% e era notória e muito comentada a política de altas remunerações que praticava.
3. Qualquer empréstimo a qualquer devedor, até ao Estado, tem risco. Um depósito bancário não é mais do que um empréstimo ao Banco. Normalmente, a uma alta remuneração corresponde uma necessidade de fundos elevada, o que certamente indicia um maior risco superveniente.
4. Não sendo pelos bonitos olhos da Administração do Banco, a decisão de, mesmo por prazos curtos, alocar 25% do seu Fundo de Maneio a um Banco de pequeníssima dimensão, só se explica pela remuneração mais elevada. Porventura, sem atender ao risco. E essa não me parece uma política prudente de aplicação de fundos, por parte de qualquer entidade, pública ou privada, mormente a Segurança Social.
5. Acontece que essas aplicações no BPN seriam recorrentes, a avaliar pelo que o comentador André Salgado diz e transcrevo: “O alegado "levantamento" de 300 milhões…é algo que não tem nada de extraordinário. Ocorria e ocorre frequentemente, em relação ao BPN e a outros bancos”.
6. Ora se levantamentos dessa importância ocorriam frequentemente também no BPN era porque aplicações desse valor eram continuadas, susceptíveis naturalmente de causar problemas caso não houvesse reposição, nomeadamente num Banco com problemas de tesouraria. Todavia, não critico a Segurança Social por mobilizar o dinheiro, estava no seu direito fazê-lo. Criticável é, sim, por ter assumido riscos que não deveria ter assumido.
Como parece ser também o caso do Fundo de Capitalização da Segurança Social, com fortes perdas. Devido à conjuntura, sim, mas também devido aos investimentos feitos, assim a modos de competição com o mercado. Mas, para competir no mercado, entregava-se o Fundo a uma gestora privada especializada na gestão de carteiras de risco!...

“Costumes Portugueses”

Um amigo, das bandas de Alenquer, mimoseou-me com uma obra muito interessante e que desconhecia: “Portuguese Costumes” de Henry L´Évêque. O livro, publicado em Londres, em 1814, descreve de uma forma sublime os costumes portugueses da época. As descrições, em inglês e em francês, são muito sugestivas e enriquecidas por cinquenta magníficas gravuras a cores. Trata-se, quase que diria de um “elo perdido” que permite conhecer-nos um pouco melhor, até porque o que está relatado não está tão longe de nós como isso, apenas duzentos anos.
Comecei a ler e não consegui parar. Após a primeira descrição, “A audiência do Príncipe” em que são relatadas as formas como abordar e como fazer as petições, junto do mais alto representante de então, surge a “Sopa dos Prisioneiros”. Neste texto chama a atenção alguns parágrafos. “Em Portugal não se prende ninguém por dívidas; e como se praticam proporcionalmente muito menos crimes que na maior parte dos estados europeus, como é o caso da Inglaterra, por exemplo, seríamos tentados a crer que as prisões estão praticamente vazias. Entretanto as de Lisboa encerram um grande número de detidos. As razões têm a ver com a lentidão do procedimento criminal, o não respeito pelas leis, à compaixão e talvez também à negligência dos magistrados; numa palavra, a uma espécie de laisser-aller que é a marca de todos os sectores da administração pública”.
Évêque descreve em seguida que os prisioneiros são raramente maltratados, devido às máximas de uma religião caridosa e à doçura do carácter nacional. O pior é sustentar os prisioneiros que leva algumas ordens religiosas a obter esmolas e alimentos de todos os tipos a fim de os alimentar com o mínimo de dignidade. O orçamento para este fim era muito reduzido nesse tempo. Depois continua a descrever as iniciativas de carácter misericordioso para minimizar a estadia nos presídios.
Na parte final, após o elogio à “clemência hereditária” da casa de Bragança, o autor cita o seguinte: “Encontram sempre em Lisboa, e hoje mais do que nunca, delatores prontos a denunciar, um intendente-geral da polícia para deter os acusados, tribunais para os julgar. Mas aquele que perdoa, aquele que tem o poder, e que tem o desejo de o aplicar, podem-no procurar, mas nunca o encontram”.
Ponho-me a pensar o que diria hoje Évêque se pudesse retratar-nos novamente. Para já não falaria da “sopa dos prisioneiros”, mas da sopa que alguns prisioneiros nos dão. Continuaria a ficar espantado por não haver portugueses na prisão por dívidas, que a justiça continua no mesmo ritmo, lenta, no mínimo, que o laisser-allez é a de facto a marca nacional, não obstante todas as reformas, enfim, que em Lisboa, e também no resto do país, os delatores continuam a fazer das suas, muitas vezes com o objectivo de denegrir a imagem dos cidadãos. De facto a calúnia tornou-se numa das armas mais perigosas capaz de destruir em muito pouco tempo toda uma existência. E, mesmo que se venha a provar a inocência do acusado, permanecem sempre alguns efeitos devastadores da imagem do cidadão. João Chagas, na sua interessante obra, “Posta-restante (cartas a toda a gente)”, escreveu a seguinte frase a propósito das iniciativas de um cidadão: “Catequise, catequise, porque da catequese e da calúnia fica sempre alguma coisa”.
Pois fica!

Trágico e cómico

O texto só tem 5 meses mas é tão actual e real que decidi reproduzi-lo.
O seu autor é Marc Faber, um empresário e analista de investimentos.
Aqui fica o texto que foi publicado quando o Governo dos Estados Unidos estudava o lançamento de um programa de ajuda à economia do País:
"O Governo dos EUA prepara-se para conceder a cada um de nós uma bolsa de U$ 600,00.
Se gastarmos este dinheiro no supermercado Wall-Mart, ele vai para a China.
Se o gastarmos com gasolina, vai para os árabes.
Se comprarmos um computador, vai para a Índia.
Se comprarmos frutas e vegetais, irá para o México, Honduras e Guatemala.
Se comprarmos um bom carro, irá para a Alemanha.
Se comprarmos bugigangas, irá para Taiwan e nenhum centavo desse dinheiro ajudará a economia americana.
O único meio de manter esse dinheiro na América é gastá-lo com prostitutas e cerveja, considerando que são os únicos bens ainda produzidos por aqui.

Eu, estou fazendo a minha parte..."

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Seres humanos, chimpanzés e violência...

Afinal não são só os homens que têm a estranha capacidade de liquidar os membros da sua espécie. Os chimpanzés também são capazes.
Não se conhece mais nenhuma espécie que tenha sido capaz de organizar a violência ao ponto que conhecemos, e logo a mais inteligente! O facto do chimpanzé e dos seres humanos serem descendentes de um antecessor comum, há cerca de sete milhões de anos, leva-nos a pensar que há algo entre as duas espécies. A violência é uma delas.
A violência faz parte de uma estratégia evolutiva. Quando os conflitos não são resolvidos de forma não letal, os seres humanos e os chimpanzés “desligam” a empatia, desumanizando e “deschimpanzando” o inimigo. Em seguida fazem aquilo a que já estamos acostumados a ver: violência letal. Na base desses conflitos encontramos problemas demográficos e vários tipos de recursos, económicos, culturais, religiosos e acessos às bananas. Quando tinham que lidar corpo a corpo as coisas não eram tão graves. Talvez daqui tenha nascido a frase “quem vai à guerra dá e leva”. Mas a partir do momento em que aprendeu a matar à distância, as coisas tornaram-se mais sofisticadas. A princípio devia ser à pedrada, depois com o arco e flechas e mais tarde com as armas de fogo. A estratégia era correr menos riscos de morrer e ser capaz de matar o máximo dos outros. O terrorismo actual ilustra bem esta estratégia.
Matar membros da própria espécie de um forma tão organizada e violenta é um drama, mas quando ocorre dentro do mesmo povo, entre irmãos, então não sei como adjectivar.
A guerra civil espanhola foi uma tragédia que ocorreu às nossas portas. Os relatos históricos causam, ainda hoje, verdadeiros arrepios. Recordo de histórias ouvidas em miúdo que, mais tarde, através do acesso ao que aconteceu de facto acabaram por corroborar o drama. Quando comecei ir ao pais vizinho pensava sempre se não haveria ressentimentos escondidos entre os espanhóis. Afinal, não tinha sido há muito tempo. Ainda não tinha passado o tal século e meio para que o “esquecimento” se instalasse.
Os espanhóis estão a mexer em feridas que muitos pensavam estar em vias de cicatrização e até de restitutio ad integrum.
O juiz Garzón desencadeou diligências sobre a repressão franquista. A Igreja veio a terreiro afirmando que “Às vezes é preciso esquecer”. Entretanto, não esqueceu os 498 espanhóis considerados mártires das perseguições religiosas ocorridas durante a guerra civil, agora beatificados. Até ao momento já atingiram aquele status 977 e pode não ficar por aqui. Cerca de 10.000 podem vir a ser considerados como mártires, “Mártires do Século XX”. "La sangre de los mártires es el mejor antídoto contra la anemia de la fe", declarou há um mês Juan Antonio Martínez Camino.
As razões subjacentes à beatificação serão indiscutíveis na perspectiva católica, e não se discutem. O mesmo não se pode dizer sobre a necessidade de esquecer a outra parte, que foi, também, vítima de massacres e perseguições, mas por parte dos franquistas. Nestes deverão haver muitos que reúnem condições para ser “beatificados” ou receber um status idêntico em termos de “santidade”. Não tenho dúvidas, a santidade e o diabolismo estariam repartidos por ambas as facções. O melhor, para ajudar a curar os males, seria que cada parte reconhecesse a “santidade” das vítimas de ambos os campos e denunciasse os seus próprios diabos.
Vai ser difícil conseguir atingir este objectivo. A violência continua latente e os interesses de base não desapareceram. Somos seres humanos e partilhamos a violência com os nossos primos chimpanzés que, por enquanto, ainda não invocam razões politicas ou religiosas, ainda andam nas disputas das bananas, mas se evoluírem lá chegarão. Enfim, ainda há a esperança de podermos expressar mais as facetas dos bonobos, primatas mais pacíficos e com costelas tipo hippies...

Não estava à espera...

A Comissão Europeia considera “inaceitável” que Portugal não garanta água potável a todo o país. Inaceitável é pouco para qualificar a situação!
Sendo Portugal um país europeu com ambições a país desenvolvido, económica e humanamente falando, não se compreende que em pleno século XXI não esteja assegurada água potável a todos os portugueses. Um resultado que nos deveria envergonhar. Mas as leis não nos assustam. Nem a Directiva, em vigor desde 2000, que estabelece limites para as concentrações toleradas de microorganismos e produtos químicos na água destinada ao consumo humano foi capaz de obrigar o Estado português a actuação que, mesmo na sua ausência, se impunha em matérias tão delicadas como a qualidade da água que bebemos. Estando em causa a saúde humana, a saúde pública e o bem estar das populações, o grau de prioridade de levar água potável a todos os portugueses deveria ser uma prioridade. O que andamos a fazer, de há oito anos a esta parte, que justifique esta falta de atenção? Confesso que não estava à espera...

Os lobos - lembrando La Fontaine

Era uma vez um lobo que estava a beber água num ribeiro quando viu um cordeiro que também saciava a sede uns metros mais abaixo, e logo decidiu comê-lo. Procurou um pretexto para o atacar e acusou-o de estar a turvar a água que ele bebia. –Não é possível, disse o cordeiro – eu estou a beber a água que já passou por ti. O lobo enfureceu-se por ele resistir à culpa. – Pois se não foste tu, foi um teu irmão, ou primo, da última vez que aqui estive. – Não é possível, disse o cordeiro, eu não tenho irmãos nem primos que pudessem vir a este riacho. Mas ao lobo acusador pouco lhe importavam as razões ou as circunstâncias, ou mesmo se alguma vez um cordeiro qualquer lhe teria turvado as águas. - Pois se não foste tu, foi o teu pai, ou o teu avô, há uns anos! E comeu-o.
La Fontaine ensina-nos que os lobos escondem a sua voracidade com pretextos para transformar as vítimas em culpados e que os argumentos de defesa geram novos pretextos até criar um enredo capaz de fazer com que um acto ignóbil surja como um acto de justiça.
Os lobos não ficaram com boa fama na memória colectiva, mas são temíveis.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Os novos Inquisidores



À primeira oportunidade, chegam em força os novos inquisidores: vasculham, interpretam, relacionam, acusam, julgam, demitem e condenam.
Não apenas o “judeu” que caiu em desgraça. Mas todos os contaminados, que se cruzaram com ele no passeio.
Se pudessem, já tinham acendido as fogueiras no Largo de S. Domingos.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Em frente, campeão!...

Após vitória na Turquia, os campeões seguem em frente!...
Eu sei que as vitórias azuis e brancas não são notícia, mas, vá lá, com os diabos, talvez amanhã esta dê direito a nota de rodapé na primeira página dos desportivos cá da Capital!...

Lição de vida

Avisaram-me que a filha, de catorze anos, tinha morrido em Outubro. A mãe aguardava a consulta de rotina que, periodicamente, é obrigada a realizar.
Conheço-a há muitos anos e, devido à condição da menina, tinha todo o direito a certos condicionalismos de modo a compatibilizar a actividade profissional com os cuidados a prestar. A criança, gémea de outra, sofreu um problema ao nascer, motivando uma grave paralisia cerebral, ao ponto de ficar totalmente dependente.
A angústia estava sempre presente nos momentos da consulta. Dedicação total. Carinho absoluto. Perguntava sempre como ia a menina, ou melhor as meninas. Com um sorriso triste e olhos meio marejados dava-me conta da situação e dos cuidados que tinha que ter para evitar complicações. A menina era alimentada a sonda. Lutadoras, a mãe e a filha. Quando saía da consulta transmitia-me uma estranha esperança. Hoje, com os olhos inundados de lágrimas e de braço dado com um suave soluço, disse-me o que tinha acontecido. Calei-me. Em seguida, respondendo às minhas perguntas silenciosas, descreveu os pormenores. Ouvi-a com toda a atenção. Descreveu a filha como tendo sido uma criança feliz. Verdadeiramente feliz. - Eu sei que foi! O amargo de um acidente infeliz acabou por se transformar numa vida doce. Para provar, retirou da mala duas fotografias em que sobressaíam um sorriso encantador irradiando alegria, não obstante as dismorfias e o facto de ser totalmente dependente. Continuou o seu discurso afirmando que a filha foi, e é, uma grande lição de vida. O mundo, a gémea e um terceiro filho, entretanto nascido, são encarados de forma muito diferente. Confessou que não apreciava que lhe dissessem que tinha os outros dois. A Mariana é insubstituível e sente uma grande falta. Disse poucas coisas. Os olhos e os ouvidos dizem muito mais do que as palavras, mas não resisti a dizer-lhe que a respeitava e admirava muito. Replicou de imediato dizendo que qualquer pai e mãe teriam feito o mesmo que eles. Ao dizer isto, perpassou-me pela mente casos semelhantes, pais com filhos deficientes, muitos dos quais já faleceram. Partilham, de facto, um amor e dedicação muito especiais que, ao converterem-se na dor da separação, acabam por ser verdadeiras lições de vida.
Hoje, recebi mais uma lição!
Na próxima visita, a primeira pergunta que irei fazer é saber como estão os filhos...

Mais um inquérito para fazer de conta!...

Ainda mal refeita das conclusões inconclusivas do Inquérito Parlamentar ao caso BCP, a Assembleia da República vai criar outra Comissão de Inquérito, agora para o caso BPN. Tarefa completamente inútil, na minha opinião, e que só vai continuar a desprestigiar o Parlamento.
O Procurador-Geral não vai dizer nada, nem pode dizer, manietado, e bem, pelo imperativo do segredo de justiça.
O Governador do Banco de Portugal, não vai dizer nada, nem pode dizer, manietado, e bem, pelo imperativo do sigilo bancário. E também não vai dizer nada, porque o que dissesse poderia pôr a nu falhas próprias ou do Banco.
Dias Loureiro vai provavelmente dizer, agora mais extensamente, o que referiu na entrevista na RTP. E António Marta vai repetir o que disse ao Expresso. Sem qualquer possibilidade de o inquérito confirmar o que disse um e outro, pois só os dois estiveram presentes.
Miguel Cadilhe vai dizer o que já disse, e mais não pode. Mas vai aproveitar a ocasião para demonstrar a “asneira” do Governo em não aceitar o seu plano de reestruturação para o BPN.
Não creio que Oliveira e Costa seja chamado a depor no Parlamento, e também não creio que a Comissão vá ouvir Oliveira e Costa na prisão.
Poderão chamar o Informático do Banco Virtual. Apenas dirá que fez o que o mandaram fazer e como já é conhecido o que lhe mandaram fazer, daí não virá qualquer novidade.
Poderão também chamar os Auditores: os que encontraram falhas, relatarão as falhas, os que não encontraram dirão que nada puderam encontrar.
Enquanto isto acontece, o Orçamento está a ser discutido e ninguém dá conta e o ruído do inquérito serve para esquecer a má governação.
Meia dúzia de deputados aparecerão diariamente nas televisões num patriótico esforço de promoção pessoal, a repisar ideias mil vezes repetidas, porque, a bem dizer, nada de novo conseguiram apurar.
Entretanto, ficaremos com o nosso triste destino: várias instituições a atropelarem-se no mesmo processo, cada uma a falar para o seu canto e a perderem tempo umas com as outras. E no fim, a A.R. envirá ao Ministério Público e ao B. Portugal as conclusões que eles próprios, com outros meios, já tiraram.
Decisões? Daqui a uma dúzia de anos!...Mas que é que isso interessa aos Senhores Deputados?
A vida deles é agora. E o protagonismo mediático também. O resto... é para fazer de conta!...

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Epidemia do medo

Presumo que em todas as épocas e regimes tenha havido a sensação de medo. Faz parte da vida das comunidades. Até aqui nada de novo. O pior é quando se transforma em epidemia. Então, abrem-se as portas da ameaça, que pode ser muito gravosa para a segurança e bem-estar dos cidadãos. Esta reflexão resulta da leitura da análise feita pelo semiológo russo Yuri Lotman.
Lotman, num artigo inédito, analisou como funcionam as epidemias do medo através do processo das caças às bruxas. De facto, houve desde a Idade Média processos que culminaram no esturricar de muitas pessoas, sobretudo mulheres, acusadas de feitiçaria. A caça, segundo alguns, teve, na sua base, além das superstições, o dedo da Igreja Católica e, também, dos protestantes. O que é curioso é o facto de o apogeu ter ocorrido entre os finais do século XV até meados do século XVII, precisamente durante a “Idade da Razão”. Um paradoxo. Como explicar que no momento de progresso científico e cultural, ocorra um fenómeno desta natureza ao ponto de originar o aparecimento de uma manual de diagnóstico para bruxas, o famoso Malleus Maleficarum? Esta obra, compilada e escrita por dois inquisidores dominicanos, acabou por ser colocada pela Igreja Católica no Index. Mesmo assim, continuou a vender-se como se tratasse de uma bíblia para acabar com a bruxaria. Um verdadeiro “martelo”!
Diz o semiólogo, a propósito dos processos contra as bruxas, que “não é a ameaça que cria o medo, mas sim o medo que cria a ameaça”.
As pessoas, através dos rumores, dos boatos, dos “bruás”, acabam por viver numa “nuvem de medo”. Os actos considerados normais, dentro da “nuvem”, passam a ser considerados como insensatos se ocorrerem fora das suas fronteiras.
O episódio da “Bruxas de Salém” ilustra, e bem, o “medo que cria a ameaça”. A escrava Tituba teve a má ideia de contar algumas histórias vudu a amigas, as quais ficaram com pesadelos. O médico foi chamado e concluiu que as raparigas deveriam estar embruxadas. Depois, foi o que se sabe. Acabou no julgamento de vinte mulheres declaradas culpadas de bruxaria e executadas.
O medo propagou-se à comunidade de forma epidémica abrindo as portas à ameaça da bruxaria culminada na execução de pessoas inocentes.
Hoje, sentimos na atmosfera medo, ou melhor, medos! São tantas as áreas, que dispenso comentá-las. São boatos, são “bruás”, são rumores, são notícias contraditórias, alimentados por máquinas poderosas que, de forma segura, vão tornando as pessoas cada vez mais intranquilas. A epidemia do medo é uma realidade que pode abrir a porta a ameaças inconfessáveis capazes de liquidar muitos cidadãos. Há muitas formas de liquidar as pessoas. Não é preciso assá-las ou passar à espada como aconteceu com a suíça Anna Goldi, a “última bruxa da Europa a ser executada”, basta ameaçá-las com os seus próprios medos...

Caso BPN: estranho episódio (ainda) não esclarecido

1. Na mais-do-que-falada novela BPN, o turbilhão de notícias, informações e contra-informações que se vão sucedendo a ritmo alucinante, deixou para trás algumas questões cuja clarificação seria útil…importa por isso não as deixar cair no esquecimento…
2. Um dos capítulos mais extraordinários da novela tem que ver com as relações entre a Segurança Social e o Banco em causa.
Soube-se que a Segurança Social, através do Instituto que gere as respectivas finanças, teria em depósito (D/O) no BPN qualquer coisa como € 500 milhões…
O Ministro da pasta veio explicar que isso seria natural pois a Segurança Social gere um fundo de maneio da ordem de € 2.000 milhões…
3. Eu direi que isso não é nada natural, bem pelo contrário, pois significa que 25% de todo fundo de maneio da Segurança Social estaria depositado num Banco cuja quota de mercado não chegava a 2%...
4. Como explicar uma tão elevada concentração de depósitos, contra todas as regras da boa gestão disponibilidades – não ter “os ovos todos no mesmo cesto”?
5. Será que o BPN pagava uma remuneração mais elevada que a concorrência? Mas se assim fosse, isso deveria constituir motivo adicional de cautela, desaconselhando fortemente tão grande concentração na aplicação das disponibilidades...Se não, qual a razão?
4. O problema não fica por aqui pois também se soube que, só no mês de Agosto, a Segurança Social teria levantado qualquer coisa como € 300 milhões do BPN – 60% do montante depositado - arrasando literalmente a tesouraria do Banco…como arrasaria a de muitos outros bancos da praça se fossem contemplados com semelhante hemorragia de fundos num prazo tão curto e numa época tão difícil...
5. Esse formidável levantamento, num mês apenas, suscita naturais dúvidas - qual o motivo para tal levantamento, que tem todas as características de um levantamento anormal e precipitado?
6. Para ser um levantamento normal, seria necessário que a Segurança Social tivesse levantado cerca de 60% (cerca de € 900 milhões) das suas disponibilidades noutros bancos, elevando os levantamentos em Agosto para qq coisa como € 1.200 milhões...cenário altamente inverosímil...
8. Parece bem mais verosímil a hipótese de tal levantamento ter sido motivado por um súbito receio da difícil situação financeira do Banco...
9. Mas como obteve a Segurança Social informações sobre a difícil situação do Banco ao ponto de se precipitar numa retirada maciça de fundos?
10. Quem, na esfera de interesses do Estado, dispunha de informações acerca da iminente ruptura do Banco, além do BdeP...?
11. É forçoso assim concluir que, quem quer que tenha “ajudado” a Segurança Social a retirar os fundos à pressa do BPN contribuiu, obvia e generosamente, para a queda do Banco, abrindo caminho a uma intervenção na forma que é conhecida
12. Pode argumentar-se que os problemas do Banco não eram novos...e que qualquer que fosse a atitude do depositante Segurança Social a sua insolvência seria inevitável e uma questão de tempo apenas...mas isso nada abona neste estranho episódio, apenas agrava a nota de imprudência na gestão da tesouraria.
13. Algum dia estes pontos serão clarificados? Será que a Comissão de Inquérito da A.R. lhes vai dedicar alguma atenção?

Gestores privados, boa gestão?

Na edição desta data do diário OJE, Horácio Piriquito, atento aos sucessos dos últimos dias, opina o seguinte: "A grande maioria dos grupos empresariais e financeiros em Portugal, resistiu até agora numa verdadeira ditadura das equipas de gestão, sempre e com grande influência e dependência do poder político". Acrescenta: "No fundo, os gestores assalariados controlaram sempre os accionistas como autênticos reféns das suas estratégias e interesses"

Subscrevo. Os resultados de algumas "escolas" da gestão privada nacional estão à vista, em especial pelo inenarrável que vemos revelado em especial sobre o que se passou nalgumas instituições do sector financeiro.
São pertinentes, no actual cenário, algumas questões que merecem reflexão séria, na perspectiva de uma mudança necessária nas exigências de rigor, honestidade e probidade por parte de quem administra o que normalmente não é seu e goza da tácita confiança do mercado (e, como se tem visto, da complacência das autoridades de controlo):
  • Quanto valor se perdeu, ao longo dos anos, com a administração de empresas subordinada aos interesses individuais dos seus gestores?
  • E quanto potencial que no País existiu, por força deste fenómeno tem sido atirado borda fora?
  • Face à questionável validade de alguns modelos, técnicas e metodologias de gestão, ainda faz sentido a dicotomia a que nos habituámos entre a crónica má gestão pública e a sempre boa gestão privada, a ponto de se ter tornado politicamente correcto defender que aquela deveria assimilar as boas práticas desta?

Uma nota mais. O que tem vindo a lume por estes dias não teria especial gravidade se o valor perdido e o potencial desperdiçado fossem unicamente penalizadores dos gestores das empresas. Porém, as fortunas pessoais destes e a ruína das empresas que administram têm-se construído sem que a maioria deles arrisque um cêntimo que seja do seu dinheiro. É o dinheiro dos accionistas, muitas vezes pequenas poupanças, que fica em risco. Estes, só se apercebem do descalabro nestes momentos em que as crises revelam uma das suas poucas virtudes: a de tornar tudo mais claro e transparente. Pena é que de pouco valha essa clareza...

O dinheiro jorra!...

No sábado passado, pelas oito e um quarto da noite, ia ouvindo no carro a Antena 1. Iniciado o programa desportivo, o locutor ligou para Atenas, a fim de ouvir o enviado especial da RDP ao jogo do Benfica com o Olimpiakos, que se realiza na próxima 5ª feira. Seguiu-se uma reportagem do jogo que o Olimpiakos tinha acabado de realizar para o Campeonato grego, onde foi exaustivamente analisado o prélio e pormenorizadamente foram descritos os golos, todos grandes golos e todos de enormes jogadores, a acreditar no repórter.
Concluí então que a RDP tinha enviado para a Grécia uma equipa de reportagem, no mínimo com 6 dias de antecedência, caso tivesse partido no próprio sábado, para acompanhar o Olimpiakos até ao jogo com o Benfica, na 5ª feira seguinte!...
Contraditando a crise, o tempo é de prosperidade nos serviços públicos. O dinheiro jorra. Sirvam-se, meus senhores, enquanto é tempo!...

domingo, 23 de novembro de 2008

A vitória da "reguladora"

Acabei de ver mais um "As escolhas de Marcelo Rebelo de Sousa".
Aquela coisa que dá pelo nome de "reguladora" da comunicação social conseguiu o que qualquer poder desejaria.
Destruir o programa.
E fez um grande favor ao PS... coincidência não é?
Arranjaram maneira de calar o professor, permitindo-lhe que continue a falar... tenho que reconhecer que foi uma manobra maquiavélica.
O programa está a tornar-se numa coisa atabalhoada, em que a moderadora e o comentador tropeçam nas palavras, tal é a pressa em falar um pouco de tudo.
No final, Marcelo fala de muita coisa, mas percebe-se que não tem tempo para dizer o que quer.
Julgo que é chegada a altura de Marcelo fazer qualquer coisa para acabar com isto.
Talvez oferecerem ao António Vitorino meia hora de tempo de antena... para manterem o "equilíbrio" que só a reguladora considera útil.
Talvez optar por falar de um único assunto em cada programa... e assumir de forma clara a hostilidade ao condicionamento que foi criado.
Ou, mudar novamente de canal.
Só gostaria de voltar a disfrutar do comentário de Marcelo Rebelo de Sousa.

sábado, 22 de novembro de 2008

O desenho

A reportagem sobre um leilão, preparado ao ínfimo pormenor por um professor de desenho, nas vésperas da sua morte, despertou-me a atenção. Dizia a jornalista que era um homem banal, de “feitio muito difícil”, “que não fez nada de extraordinário, nem sequer foi um brilhante aluno, ou artista ou escritor. Em abono da verdade, nada do que fez em vida o teria posto nas páginas de um jornal”.
Pois! Fui à página da internet, folheei a lista das centenas de lotes e licitei cinco, referentes a “obras do João”; desenhos, sem os ver. Os valores base eram muito acessíveis, alguns no valor de um euro!
A doença que o minou, durante anos, deve ter sido terrível. De qualquer modo, foi um lutador e um homem cheio de generosidade. Tocou-me uma frase da sua autoria: “Além do ser ou não ser dos nossos problemas, o que importa é isto: penso nos outros, logo existo”.
Foi-me comunicado que tinha que levantar três lotes até Domingo. Sábado à tarde, com um sol radioso, desloquei-me à zona da Ajuda. O apartamento revelava sinais mais que evidentes da passagem dos licitadores. Deram-me uma ficha e fui para aquilo que devia ter sido a sala de estar. Alguns quadros ainda permaneciam na parede a par de inúmeros pregos reveladores de outros espaços de arte que aguçaram a minha imaginação. Chamaram-me e recebi os desenhos. Surpreenderam-me. Revelavam qualidade, dor, provocação e originalidade. Paguei uma quantia não superior ao equivalente a duas corridas de táxi até à Praça de Comércio ou a menos de metade de uma viagem de comboio entre Coimbra e Lisboa! Perguntei se não tinham ainda mais “obras do João”. Tinham. Fui à sala e comprei mais três belos desenhos que ainda estavam na parede e que não tinham sido objecto de atenção. Um deles, pequeno, colocado “em baixo” retratava a face de um homem. Desenho simples. Ao pegar reparei que tinha um pequeno texto debaixo da fácies expressiva: “Não sei quem represento, tão pouco quem me desenhou e porquê a mim, assim. Não sei quem tu és que me vês assim como me vês. É assim que somos, os desenhos; um não ser. Sendo”.
Acabei por aprender com alguém que nunca vi, nem ouvi, adquirindo uma pequenina parte da sua vida. Afinal, mesmo sendo uma “pessoa difícil”, revela dignidade e valor capazes de fazer inveja a muitos que passeiam os seus nomes pelos jornais.
As palavras do texto, em que assenta o desenho a sépia, acompanharam-me durante toda a viagem até Coimbra. Têm um encanto muito especial. O pintor nunca saberá quem eu sou e como eu o vejo. Mas eu sei vê-lo...

Alguém arrisca fazer uma previsão?

Completa-se agora uma semana que escrevi aqui no 4R uma breve reflexão sobre o beco sem saída a que chegou o conflito que opõe o ministério da educação e os professores, deixando no ar a interrogação sobre como seria possível corrigir o braço de ferro da ruptura a que se chegou. Tudo o que escrevi se mantém válido e intacto.
Num dos comentários ao texto, o nosso Caro Manuel, escrevia: Neste conjunto de respostas, a Drª Margarida Aguiar referiu algo que considero ser uma verdade insofismável: todos temos culpas no cartório. Não posso estar mais de acordo. Culpas que até podem dever-se a omissão, mas sempre culpas. Este reconhecimento, e o reconhecimento de que todos somos devedores de interesse e de intervenção, poderá ajudar a desbloquear impasse e encontrar caminhos. Se todos reconhecerem as suas, ou pelo menos não andarem permanentemente a acentuar as culpas dos outros, talvez venha a haver (...).
Com efeito, numa situação de crise aberta de difícil resolução em que as partes estão em posições extremadas e irredutíveis, intransigentes nos seus pontos de vista, não querendo prescindir dos seus objectivos e das suas razões, o que se esperava é que não incendiassem acusações e não acentuassem culpas, não radicalizassem o essencial das suas posições, não entrassem por um caminho de ameaças e sobretudo não as verbalizassem, não as gerissem mediaticamente ao segundo. Seria, ainda assim, de esperar (ou não!), recato e descrição nas palavras, nas mensagens e nos comunicados e, a bem dizer, algum silêncio ao longo do processo negocial. Mas, não, passou-se exactamente o contrário. Para quem queria complicar uma situação, já de si, muito difícil não há dúvida que conseguiu!
O ministério da educação veio apresentar um regime “simplex” da avaliação do desempenho, evitando uma perda política pesada e ao mesmo tempo jogando na bondade da apreciação da opinião pública sobre a abertura e a boa vontade do governo em colaborar para uma solução que não prescinde de aplicar aos professores um sistema que gradualmente se vai generalizando.
Os sindicatos e os professores mantiveram as palavras de ordem de suspensão do sistema, condição sine qua non para voltarem à mesa das negociações com o ministério da educação.
A nova versão light da avaliação do desempenho não agradou nem convenceu os professores, para o que terá contribuído o tom crispado da ministra da educação e a imagem antipática de detentora de toda a razão, fazendo passar a mensagem de mudanças não para mudar mas antes para pouco ou nada mudar.
Os sindicatos partiram para mais esta etapa imbuídos de uma vontade de aproveitar o momento de crispação para reforçar o seu poder político, de levar a confrontação até às últimas consequências, numa lógica do tudo ou nada, e os professores descontentes com as “reformas” cerraram fileiras contra a ministra da educação, não reconhecendo no novo “simplex” a solução para muitos dos problemas da educação, os seus, os dos alunos e os da escola.
O “pugilato” político com que fomos brindados esta semana denota, por um lado, uma probabilidade cada vez mais reduzida de inversão da marcha e, por outro lado, que o sistema de educação precisa efectivamente de ser reformado.
E a pergunta inicial mantém-se sem resposta: Como sair do beco sem saída? Mas outras perguntas também carecem de resposta: Como é que vamos conseguir investir na qualidade da educação? O que podemos esperar? Alguém arrisca fazer uma previsão?

Leitura a não perder

Num momento em que é tão difícil discernir sobre o nosso futuro próximo, eis um exercício prospectivo que vale a pena ler.
Global Trends 2025: A Transformed World.
É só daqui a 17 anos.
Mas já está a acontecer!

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

"Sharism"


Aqui está um conceito muito interessante que merece alguma reflexão: “Sharism”!
Que tal?

“Estado deve lutar contra a obesidade”!

A Sociedade Portuguesa do Estudo da Obesidade pediu mais envolvimento do Estado na prevenção e tratamento da obesidade. Até aqui tudo bem. Mas fiquei surpreendido com a sugestão da criação de uma “Secretaria de Estado para a Obesidade”!
Há dias tive a oportunidade de ler, também, uma sugestão nesse sentido, ou seja a criação de uma “Secretaria de Estado para o Envelhecimento”. O facto de certos fenómenos serem muito prevalentes não é razão para criar estruturas políticas especializadas. Se formos por esta linha de raciocínio, então, deveríamos sugerir a criação de “Secretarias de Estado” para a hipertensão arterial, para a depressão, para o reumatismo, para os retardados mentais, para os toxicodependentes, para os alcoólicos, para os joanetes, e por aí fora...
Realmente, esta tendência de “superespecialização política” não é a forma mais correcta de resolver certos problemas. Antes pelo contrário. Os responsáveis por tais afirmações devem desconhecer as verdadeiras causas de certos fenómenos. São pluricausais com profundas implicações sociológicas e culturais. No caso vertente da obesidade, já temos estruturas políticas capazes de darem os seus contributos. Não é ao Ministério da Saúde que compete, na primeira linha, resolver este problema, mas sim aos Ministérios da Educação e da Cultura e através de um desenvolvimento económico adequado. Assim, talvez se consiga, para daqui a uma ou duas gerações, assistir à melhoria do problema. Entretanto, face à ignorância e ao ridículo com que são propostas certas medidas, poderia perguntar: - E, porque não um “Ministério da Estupidez”?

Fundação Deco 20

O futebolista Deco criou a Fundação Deco20, fundação de solidariedade social destinada ao apoio a crianças desfavorecidas e a que terá concedido uma dotação inicial de 2,5 milhões de euros.
Aproveitando a viagem da Selecção ao Brasil, inaugurou as instalações da Fundação por si financiadas, onde muitas crianças até aos 14 anos disporão de escola, alimentação e acompanhamento, e será também facultada ajuda a jovens carenciados até aos 24 anos.
Depois de Luís Figo e Vítor Baía, chegou a vez de Deco mostrar os valores da solidariedade, redistribuindo numa boa causa os proventos que foram arrecadando, graças aos extraordinários dotes futebolísticos que a natureza lhes proporcionou.
Uma bofetada para todos aqueles, políticos, empresários ou escritores, que se reclamam e tiram o proveito de Fundações com o seu nome feitas com instalações e apoios do Estado.
E um exemplo para os grandes empresários portugueses.
No futebol também há homens bons.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Matéria proibida!...

Manuela Ferreira Leite utilizou a ironia como caricatura, o auditório percebeu e respondeu, disseram os jornais, com uma gargalhada.
Mas no PS e no Governo houve quem ainda não entendesse. Para eles, o rir e o humor é matéria proibida.
Pelo “facies” que alguns exibiram, creio mesmo que nem sabem rir!...

O meu plano tecnológico

Na qualidade de ofendido, entrei hoje pela primeira vez no Tribunal da Boa-Hora em Lisboa.
Ia ser ouvido através de videoconferência num julgamento que decorria no Porto.
Após quase hora e meia de espera, levaram-me para uma sala.
Estranhei o local.
Disseram-me que era a "biblioteca".
As salas de audiências estavam ocupadas.
Indicaram-me uma cadeira onde me sentei, frente a um velho monitor que tinha em cima uma webcam.
Ligaram o computador.
Fiquei surpreendido. Ainda usam o Windows 98.
De seguida abriram o programa e lá apareci na imagem capturada pela webcam.
Esperámos cerca de 3 minutos.
A imagem começou a clarear. Depois a escurecer. De seguida tremeu e...
... desapareceu. Ficou tudo negro.
Chamaram o técnico de informática.
Era uma senhora que protestava contra a situação.
Fecharam o programa e voltaram a abri-lo.
Continuava tudo negro.
"Já era a terceira webcam".
"Já pedi webcams aos colegas de outros tribunais".
"Mandaram-me duas, mas não funcionam".
"Não tinha outra de reserva".
Em suma, nada podia fazer.
À medida que assistia, foram passando pela minha memória as imagens dos anúncios da banda larga, do elogio do Magalhães, das novas oportunidades, dos quadros interactivos nas escolas, do plano tecnológico, do simplex... tanta coisa.
À minha frente havia algo que não colava com os anúncios.
Finalmente, encontrara o meu plano tecnológico!
Por fim, mandaram-me embora com o aviso de que serei novamente convocado para ser ouvido em videoconferência.
Saí com uma enorme curiosidade. Não consegui ver o computador, seria um ZX Spectrum a 8 bits? Acho que o irei reencontrar brevemente.

Elucidativo!

Não sei se leram um pequeno artigo de opinião de Paulo Tunhas no DN de hoje. Vale a pena lê-lo. Trata-se de uma análise às recentes palavras de Manuela Ferreira Leite que originou uma celeuma dos diabos!

“…O interessante nisto tudo é outra coisa. É o facto de, hoje em dia, as pessoas terem real dificuldade em realizar o exercício de passar das palavras ao pensamento e em interpretar o pensamento para além da letra (ainda por cima, descontextualizada). E, igualmente, o de a linguagem andar cada vez mais vigiada, com a concomitante perda de liberdade. É uma época de falta de liberdade e de muita má-fé. E, sobretudo, de nula imaginação. Pensa-se cada vez mais a crédito, como dizia Montaigne. Somando tudo, das três possibilidades que mencionei no início, a terceira é a mais caridosa. É também, certamente a mais plausível”.

As três possibilidades que o autor enumera no início da sua crónica, para tentar compreender as tais reacções foram: 1ª “má-fé”; 2ª “banal hipocrisia”; 3ª “simples estupidez”.

Elucidativo!

Bom "negócio"!

Não consigo compreender as razões para o PSD incluir deputados do PPM e do MPT. Neste momento são quatro. Para colocarem estes deputados teriam de ter uma expressão eleitoral significativa, o que não é o caso. Na notícia em questão, a “Dra. Manuela Ferreira Leite chegou a um primeiro entendimento com o PPM”. “A ideia é manter os dois deputados para o PPM e dois para o MPT, mas há quem garanta que o acordo até pode vir a garantir mais lugares para aqueles pequenos partidos”! Mas porquê?!

Cada vez me convenço mais de que os pequenos partidos são um bom “negócio”…

Fazer o bem sem olhar a quem

É de louvar a magnanimidade da selecção nacional portuguesa de futebol na era Queirós.
Andavam tristes e mesmo acabrunhados os adeptos das selecções dinamarquesa, húngara e sueca. Os brasileiros já pensavam em contratar de novo Pelé, tão magros foram os últimos resultados e apagado o habitual brilho do escrete.
Eis que a selecção portuguesa, interpretando bem o mal que faz ao ânimo nacional os resultados pífios, resolveu ajudar a levantar o orgulho de dinamarqueses, húngaros, suecos e, na última noite, dos nossos irmãos brasileiros.
Diz-se que aos albaneses nasceu uma nova alma e já pensam em agraciar Queirós pensando na ajuda que a selecção lusa lhes não regateará.

“Bundalelê”

Mostrar o traseiro começou a tomar proporções pouco habituais. Quem diria que podia ser utilizado no decurso de um jogo de futebol? E parece que resulta! Num encontro entre o Catania e o Torino, no momento de marcar um livre, um jogador do Catania baixou os calções e mostrou a retaguarda ao guarda-redes. Foi uma fracção de segundo, mas chegou para o distrair e sofrer um golo! Não sei se o regulamento proíbe estas atitudes. Aqui está a vertente anti-desportiva de baixar os calções.
Mostrar o traseiro é habitualmente conotado como forma de protesto, de desrespeito ou de insulto. Lembram-se dos estudantes que, num ensaiado coro de testosterónicos glúteos, protestaram contra a então ministra da educação, Manuela Ferreira Leite? Quanto à diversão, são inúmeros os exemplos. Entre nós, um jovem de 16 anos mostrou as nádegas a soldados da GNR. Tramou-se. Foi condenado a realizar trabalho comunitário, três horas ao fim de semana no posto onde trabalham os militares. Já deve ter perdido a vontade de rir!
O “mooning”, ou seja, o “acto de mostrar as nádegas recorrendo ao abaixamento da roupa”, é praticado em muitas culturas como sinal de protesto, para chocar, para divertir e para desrespeitar. É praticado desde longa data. Quem viu o filme “Braveheart”, com Mel Gibson, deverá ter reparado na cena em que os soldados expuseram nobremente os seus traseiros aos ingleses que não deverão ter perdido o momento para praticar tiro ao alvo. Imagino o que terá acontecido aos que foram atingidos na “mouche”! Parece que para aquelas bandas era usual esta prática, já descrita quando os normandos queriam provocar os ingleses antes das batalhas. E, mesmo hoje, os antimonárquicos, na Inglaterra, gostam de ser provocadores ao ponto de arrearem as calças frente ao Palácio de Buckingham!
Do outro lado do oceano, no sul da Califórnia, numa pequena comunidade, é costume, no segundo sábado de Julho, os habitantes baixarem a roupa expondo os traseiros à passagem dos comboios! Enfim, trata-se da variante americana.
O “mooning”, que tem uma interessante tradução para o português do Brasil, “Bundalelê”, constitui um grave insulto punido em vários países. Resta saber qual a sua origem. Não sou antropólogo, mas é curioso verificar que, em várias espécies de macacos e símios, os machos subalternos colocam-se em posição de coito “passivo” diante do alfa. O respeitinho é muito bonito! E ainda vão mais longe, caso dos chimpanzés que reconhecem os membros do seu grupo pelo traseiro. Estes primatas constroem representações mentais de todo o corpo dos seus companheiros. Associam os rostos com as nádegas. Não sei se este achado não poderá explicar a expressão “cara de cu”!
Não sei a origem da frase “nasceu com o cu virado para a lua”, que é utilizada como sinal de sorte. Quem sabe se não é já uma forma muito precoce de “mooning”! São muito poucos os que nascem com sorte. Deste modo, os outros, os que se dedicam a expor os traseiros, poderão tentar simular um segundo nascimento, apaziguar os ânimos dos chefes, divertir os mais sisudos, distrair os mais incautos, fragilizar os inimigos e testar as capacidades de reconhecimento dos seus pares, no pressuposto de que consigam imitar os chimpanzés. É que “um chimpanzé nunca esquece uma bunda”!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Investimento publico essencial face à crise: 100% de acordo!

1. O principal responsável do Governo terá declarado hoje, mais uma vez, que o investimento público é essencial face à crise que nos invade, emociona, angustia e...até ajuda o Governo como álibi universal.
2. Cabe-me dizer que não posso estar mais de acordo, o investimento público – o do Programão bem entendido, outro poderá não ser tão perverso – é com efeito absolutamente essencial para assegurar (i) que a crise será ainda mais profunda e sobretudo mais duradoura, (ii) que as pequenas e médias empresas e sobretudo as que estão expostas à concorrência externa terão cada vez maiores dificuldades de acesso a financiamento, (iii) que vai prosseguir e até acelerar o desequilíbrio externo e o crescimento do elevadíssimo endividamento do País, (iv) que os escassíssimos recursos de que dispomos vão continuar a ser mal aplicados, (v) que os encargos vão ser atirados para o futuro tornando virtualmente impossível a gestão das finanças públicas dentro de poucos anos, (vi) que a qualidade de vida dos portugueses irá continuar a degradar-se ao longo dos próximos anos, (vii) que o défice de produtividade de que tanto nos queixamos nunca mais terá solução, (viii) que o futuro do País fica cada vez mais comprometido, (ix) que o Ministro das Finanças português continuará a ser o mais mal classificado entre os seus pares europeus, (x) que... etc,etc.
3. Se for este o sentido da declaração de S. Exa., estamos inteiramente de acordo...Alguma vez esta importante convergência teria de acontecer!
4. Mas se assim não for, só deixo um apelo: não voltem a queixar-se, mais tarde, que as coisas nos correm mal! Já tiveram tempo de sobra para aprender...se não aprendem é porque não querem!

Ele há ministros...

Ele há ministros tão sérios, tão sérios e que se tomam tanto a sério, que até pensam que alguém os leva a sério.
Ele há ministros tão sérios, tão sérios e que se tomam tanto a sério, que se tornam cada vez mais ridículos nas suas tão sérias, como vácuas, afirmações
Ele há ministros tão sérios, tão sérios e ortodoxos e extremistas e iluminados que, para defender a sua ortodoxia, usam e abusam do terrorismo moral para condenar os adversários. No tempo da Inquisição, seriam inquisidores fundamentalistas.
Ele há ministros tão sérios, tão sérios e que se tomam tanto a sério, que mal entendem as palavras, muito menos são capazes de compreender o tom ou de perceber o sentido de uma ironia.
Há Ministros a quem pagamos para governar e a única coisa que fazem é falar, dividir e mentir. Tomando-se muito a sério e fazendo de nós todos parvos.
E não se pode exterminá-los? Só do Governo, claro, que a verdeira democracia impõe tolerância e magnanimidade, ao contrário da democracia que exuberantemente exibem, minuto a minuto, nas televisões que também pagamos!...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Lágrimas

Ao longo da vida presenciei muitas situações de choro. Lágrimas a deslizar em sofrimento, lágrimas a espirrar alegria e lágrimas de fogo em desertos de esperanças.
O choro emocional é uma característica essencialmente humana, partilhado, ao que parece, também, pelos gorilas e os elefantes. Quanto aos crocodilos de água salgada as suas lágrimas são, apenas, uma forma expedita de eliminar sal. O seu equivalente humano poderá servir para muitos objectivos mas não deverá conseguir eliminar o excesso de sal que é ingerido. Se assim fosse talvez não houvesse tantos hipertensos!
Quanto à origem e função do choro, muito havia a dizer. Alguns investigadores consideram tratar-se de uma resposta fisiológica face à cremação dos entes queridos nos tempos pré-históricos, em que à emoção se juntaria o fumo! Será que se tivessem usado madeiras bem secas ou outras formas de dar destino aos corpos se estabeleceria o “reflexo” entre a morte e as lágrimas?
No poema de António Gedeão, “Lágrima Preta”, podemos ler a propósito da lágrima: “... Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio.
Quanto a “água e cloreto de sódio” é realmente a composição das lágrimas ditas basais, que permitem evitar a secura dos olhos e das lágrimas que surgem quando os olhos são agredidos, caso do fumo, da cebola, de poeiras e outros factores. Mas as mais peculiares, as mais humanas são as lágrimas das emoções. Nestas, a composição não é só água e cloreto sódio. Têm muitas mais coisas. E que coisas! As substâncias químicas produzidas no organismo devido ao stress, são eliminadas através desta via. Foram detectadas prolactina e outras hormonas. A presença de endorfinas, que têm um papel no alivio da dor, é uma constante nas lágrimas do sofrimento. Deste modo, as frases segundo as quais, “chorar faz bem”, “chorar alivia”, adquire uma explicação fisiológica.
Chorar também é uma forma de alerta, como acontece nas crianças, quando necessitam satisfazer as suas necessidades. Depois, à medida que crescem, acaba por se transformar numa forma de comunicação e até de manipulação. Esta última faceta, segundo alguns autores é mais comum no sexo feminino, podendo continuar ao longo da vida, e, desta forma, ser utilizada para obter muitas coisas desde o “perdão, até ao anel de diamantes”!
As diferenças hormonais explicam a razão porque as mulheres choram quatro vezes mais do que os homens. Depois com a idade, a redução da testosterona nos homens e dos estrogénios nas mulheres, levam os dois sexos a “aproximarem-se” mais um pouco no que respeita a estes dois grupos de hormonas, o que faz com que os homens comecem a chorar mais e as mulheres menos.
Chorar é um sinal de sofrimento e, ao mesmo tempo, uma forma de limpar o corpo de “toxinas relacionadas com o stress”. Sendo assim, quem contrariar a expressão emocional mais humana corre riscos de saúde nada desprezíveis.
Quantas lágrimas não são vertidas diariamente e quantos não desejariam libertar-se do sofrimento, pelo menos um pouco, através de pingentes cristalinos, essência da alma, que se vai desfazendo aos poucos? Muitos deverão ter perdido a alma, porque só conseguem chorar lágrimas secas. E lágrimas secas não aliviam a dor...

A vergonha de não ter vergonha na cara!...

A não perder, o artigo de opinião de João Miguel Tavares, no Diário de Notícias de hoje.

Faz bem recordar...

Não sabia, não me lembraria, não fosse a notícia nos jornais. Uma notícia feliz, a fazer recordar tempos antigos, a fazer reconhecer a obra brilhante de Walt Disney, a fazer lembrar o papel de uma produção imaginária inesgotável que marcou a animação do século XX. Parabéns Mickey! Faz hoje 80 anos que se estreou no cinema em Nova Iorque. Aniversários felizes são sempre bem vindos.
No meio das tempestades de crises e de conflitos em que andamos envolvidos em nome do desenvolvimento, sabe bem lembrarmos o rato mais famoso do mundo com as suas grandes orelhas pretas, o MICKEY, herói que fez durante décadas as delícias de milhões de miúdos e graúdos. Em especial para nós graúdos, para quem o Mickey e os seus Amigos eram uma permanente fonte de diversão, de boa disposição, de graça e de festa e uma boa ajuda para o "desenvolvimento de capacidades cognitivas, socias e criativas".
Mickey é uma figura do imaginário que nunca esquecerei. Um símbolo da minha infância.
Mickey foi perdendo para os “novos" heróis do século XXI, mas tenho esperança que, como aliás acontece na moda que vai e que vem, que volte para fazer brilhar os olhos das crianças...

Imagem do Governo: tremenda machadada!...

1. Na sua edição de hoje o Financial Times dedica página inteira (9) a um exercício de classificação dos Ministros das Finanças europeus no qual a última posição (19º) é atribuída ao Ministro português.
2. Na sua lacónica explicação para a atribuição de tão desprestigiante posição no ranking, o F. Times diz simplesmente: “Bottom on the pile came Portugal’s F. T. Santos, dragged down by a poor national economic performance and his low European profile”.
3. Convenhamos que para um Governo que preza a imagem exterior acima de tudo, com enormes dispêndios (directa e indirectamente) em retribuições a agências de comunicação e a media para tentar manter a sua maquilhagem esbelta, esta notícia é simplesmente devastadora!
4. É infelizmente a confirmação do muito que aqui se tem dito e redito acerca da ineficácia e da incompetência das medidas de política económica – bastas vezes contraproducentes – que têm sido vendidas por um marketing interno esmagador mas que não convence, de todo, os observadores independentes como os do 4R e do FTimes...
5. É claro que quem sai mais atingido é o Ministro das Finanças que arca com as culpas que são próprias e as outras...o seu “low European profile” é seu, com certeza (Bruxelas é implacável nestes aspectos...), mas a “poor national economic performance” não é só obra sua, nem talvez sobretudo sua...
6. Este Governo, mais cedo ou mais tarde vai acabar (ou está já) pagando uma factura elevada (i) pelas falsas expectativas que criou, (ii) pelas fanfarronadas frequentes de alguns dos seus mais conhecidos porta-vozes, (iii) pelos exageros de marketing que tantas vezes rompem a esfera do ridículo mais atroz, (iv) pela sua falta de humildade em tantas situações em que a humildade seria regra de ouro, (v) pelo abuso do auto elogio especialmente quando injustificado (mais frequente), (vi) pela ocultação dos problemas nomeadamente no âmbito da consolidação orçamental, (vii) por não ter percebido as exigências da gestão macroeconómica em moeda única, etc, etc.
7. Dito isto, quero salientar que sou das pessoas sem quaisquer ilusões quanto à extrema dificuldade em governar este País nas condições actuais em que faltam recursos para tudo...e vai ser ainda pior ao longo dos próximos anos...governar Portugal é, com efeito, uma tarefa terrivelmente exigente e desgastante - e será cada vez mais exigente e mais desgastante...
8. Mas é precisamente por isso que entendo que quem tem a responsabilidade de governar deveria assumir uma postura totalmente diferente, oposta mesmo à que é apanágio deste Governo...não oferecer expectativas muito elevadas, não embarcar em triunfalismos fátuos, não reivindicar louros que não lhe pertencem, reconhecer as dificuldades e o esforço que é exigido a todos para as ultrapassar...
9. Será que este Governo algum dia entenderá estas “verdades”? Creio bem que não pois está demasiadamente convencido das suas (más) razões...mas então que se prepare para mais machadadas como esta – e enquanto vierem só de fora...

A avaliação néscia e os sábios!...

Aqui há dias, não sei se Marcelo ou Júdice, um dos dois propôs a nomeação de um árbitro para mediar o conflito entre Professores e o M. da Educação. Ontem, foi José Vitorino a propor uma Comissão de Sábios. Como o próprio depois esclareceu, tal Comissão não se destinava a mediar o conflito, mas a “avaliar” a avaliação no final do ano lectivo.
Soluções brilhantes, de cérebros brilhantes, que suscitam comentários brilhantes, e que seriam brilhantes se se adequassem à realidade e servissem para resolver o problema. Mas os mediadores só funcionam se as partes estiverem de acordo na arbitragem, e não estão; e também os sábios, mesmo que muito sábios e de grande saber, por muito que se esforcem, nunca poderão “avaliar” no fim aquilo que persiste em não existir.
De modo que, apesar das brilhantes propostas que dão brilho a quem as faz, mas só servem para empatar, ficamos na mesma. Ministério, de um lado, Professores do outro, numa luta sem honra nem glória, de que todos, mas todos, sairão vencidos.
Impõe-se um mínimo de realismo. Se todos concordam com a avaliação, por que não extirpá-la daqueles objectivos políticos, pelos quais se pretende responsabilizar individualmente cada professor, quando a responsabilidade é colectiva e abrange os pais, os alunos, o meio envolvente, como é o objectivo de medir a contribuição individual para o sucesso escolar ou para abandono escolar? Custa assim tanto abandonar a imposição de objectivos individuais tão absurdos?
Se todos concordam com a avaliação, por que se persiste em condenar as quotas, por exemplo, de excelente, quando se sabe que, em cada categoria, é sempre possível haver uns melhores e outros piores, sem desdouro para qualquer, e que, porventura a próxima avaliação equilibrará? Não acontece já isto no sector privado?
Se todos concordam, por que se persiste em levantar questões sobre a categoria de professor titular, que deve ser travada noutro foro de discussão? Sensibilidades individuais sobre o avaliador podem prejudicar o bem colectivo?
Quer o Ministério e querem os professores resolver o problema em que estão metidos, ou querem agravá-lo? Se o querem resolver, tenham a sábia atitude de conversar e chegar a entendimento. Frente a frente e prescindindo dos sábios do costume. Dignificaria a classe e a Ministra. Se não querem, digam, para a gente entender. É que já não há pachorra!...

A Torre de Babel do séc.XXI


É claro que nos lembramos todos da Torre de Babel, uma obra bíblica que reuniu todos os homens com o objectivo de chegarem tão alto que atingiriam o céu. Por suas mãos, acumularam pedras e pedras, inventaram engenharias e equilíbrios impossíveis e animaram-se com a altura que ia crescendo aos seus olhos deslumbrados.
Não se detiveram a pensar no que realmente lhes permitia esse acerto, esse trabalho unido, e esse progresso audacioso. O que tornava possível a sua tarefa titânica não era a existência infindável de pedras, nem a sua capacidade de as arrancar dos rochedos, de lhes dar forma, de as colar, ou sequer a sabedoria misteriosa que forneceu os cálculos para que se erguesse em altura, contrariando a lei da gravidade. Não. O que lhes permitia agir como um todo era a capacidade de se entenderem porque falavam uma única linguagem, porque se compreendiam as ordens e se discutiam as dificuldades e porque era na mesma língua que se reviam na obra que crescia para os céus.
Deus não se deu ao trabalho de mandar um raio fulminante para pulverizar as pedras. Não se distraiu a fazê-los errar os cálculos que provocasse a derrocada nem os castigou com mil e um tormentos que falassem durante séculos das maleitas que os iam marcar. Nada disso. Deus limitou-se a mandar que eles passassem a falar línguas diferentes e a obra ficou parada, um destroço que só não seria inútil porque serviu para memória através dos tempos.
Serviu? Quando vemos como se desmorona o mundo globalizado que orgulhosamente construíamos, usando a linguagem comum do progresso sem limites, da competitividade sem fronteiras, não reparámos quando é que deixámos de entender o que nos diziam. Não deixámos que falassem os que sentiam palavras estranhas nos discursos atravessados, nas teorias infalíveis, nas justificações para o que parecia inaceitável. Afinal, eram poucos os que conservavam uma língua comum, mas essa era já um dialecto, uma cifra para iluminados e em breve até esses deixaram de se entender.
Hoje, quando ligamos a televisão ou assistimos às notícias on line na nossa tecnologia tão sofisticada, quando temos em tempo real as imagens da bolsa atarantada ou as hordas de desempregados à porta das fábricas fechadas, hoje reparamos que ninguém se entende. Fala-se em rever os planos da Torre de Babel, em injectar-lhe milhões de cimento e escorar os planos inclinados para evitar a ruína, mas cada dia cai uma parede, desaba um tecto e, das alturas já alcançadas, vê-se já perigosamente descarnada a estrutura virtual que julgávamos invencível. Mas ninguém percebe em que língua se fala, e a confiança desapareceu. A Babel do sec. XXI ainda conseguirá salvar a sua Torre?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Uma enorme figuraça!...

Começava o meu post de ontem, Politiqueiros sem emenda, a dizer que o país não está bem.
E hoje digo que o Primeiro-Ministro também não está nada bem!...
Segundo acabei de ler, José Sócrates esteve em Ponte de Lima, a entregar computadores aos alunos do 1.º ciclo. Mas, depois de o Primeiro-ministro ir embora, as crianças tiveram de devolver os Magalhães..."!...
Como porventura ainda irão servir para mais umas sessões fotográficas, ninguém lá da escola sabe quando lhes serão reentregues!...Porventura, muito solenemente, com muitas e novas fotografias e com um Ministro qualquer a oficiar!...
Já aqui há um ano, também de forma solene e com pompa e circunstância, Sócrates e a Ministra da Educação deram início ao “plano tecnológico das escolas”, exibindo numa sala de aulas um quadro electrónico e chamando alguns, dos muitos alunos presentes, a fazer uns rabiscos, exemplificando o seu potencial pedagógico. Verificou-se depois que a sala foi inventada e os alunos eram meros figurantes!...
Lidar com figurantes é a grande especialidade de Sócrates: há um ano, eram os alunos; agora, são os computadores. Sócrates é um figurão com enorme figuraça na realidade virtual!...

“Efeito Rashomon”

Em 1950, um interessante filme japonês esteve na base da designação “Efeito Rashomon”. O título do filme era precisamente “Rashomon” e relatava quatro testemunhos sobre um caso de estupro e de assassinato de um samurai. Cada um descreveu o que viu. O espectador, perante os diferentes relatos, fica sem saber qual a verdade dos factos. Cada uma das histórias contraditava as restantes.
Esta obra-prima teve o condão de mostrar quão difícil, ou mesmo impossível, é encontrar a verdade quando existem conflitos de pontos de vista, ao ponto dos psicólogos passarem a utilizar aquela designação para situações semelhantes.
Afinal, a memória pode atraiçoar-nos ou mesmo atraiçoar os outros através das recordações. A memória não é propriamente um arquivo tipo ficheiro de argolas ou no computador a que nos socorremos para reviver um evento. Não. Nada disso. Quando registamos algo na nossa memória fazemos com que os acontecimentos se “desintegrem” e fiquem “espalhados” pelo cérebro. Depois, ao invocá-los lá vamos juntando as peças de forma a reconstruir os acontecimentos. Reconstruir e não reproduzir. Acontece, no entanto, que no processo de reconstrução são introduzidos elementos provenientes do próprio narrador, fruto das suas vivências, das suas expectativas, dos seus preconceitos, do seu nível cultural, dos seus “esquemas” mentais, ao ponto de omitir parte da informação, que considere irrelevante, dar enfâse ao que é mais significativo, racionalizar as partes que não faziam sentido, tudo isto com o objectivo de transformar a história mais compreensível a ele próprio, ao narrador. Daqui se pode inferir que são introduzidos pequenos, e às vezes grandes erros, que se propagam entre os ouvintes, os quais por sua vez, vão construindo as suas próprias narrativas com as descrições dos outros e com novos elementos. Deste modo, a história pode chegar a um ponto que não tem nada a ver com o original e, consequentemente, provocar problemas muito sérios, nomeadamente quando se trata de uma testemunha judicial, podendo ser razão mais do que suficiente para que alguém seja condenado inocentemente.
A confabulação é uma entidade muito bem definida e está relacionada com lesões cerebrais distintas. Recordo que um dos primeiros doentes que vi, alcoólico, confabulava de uma forma surpreendente. Não sabia e não conseguia responder a nenhuma das minhas perguntas, mas não se calava, construindo histórias e narrativas umas atrás das outras para tentar “fugir” ao que não entendia. Faz parte de uma vasta gama de casos patológicos que afectam, e muito, a memória. No caso vertente, estamos a falar de pessoas ditas normais que, ao recordarem-se de determinados casos, acabam por acrescentar “um ponto”. Se fosse só um, vá que não vá, mas na maioria são muitos, acabando por distorcer a verdade dos acontecimentos.
Esta “intrusão” nos relatos das memórias, devido aos tais esquemas mentais, próprios de cada um, pode não ter nada de especial e, por vezes, até ser musa de inspiração caso seja um escritor ou um poeta, mas o mesmo não se pode dizer quando nos encontramos perante a justiça. Por outro lado é uma fonte de mal-estar e de indignação quando os alvos são cidadãos anónimos e inocentes que assim se vêem expostos a verdadeiras “confabulações”.
Se formos para o campo da política, o “Efeito Rashomon” atinge proporções inacreditáveis. Basta, para o efeito, ver, ou melhor, ouvir os relatos das memórias dos diferentes políticos face aos acontecimentos do passado. Tantas versões sobre o mesmo evento... E a verdade? Onde estará?

Politiqueiros sem emenda!...

O país não está bem: sublevação civil na educação, falhas gravíssimas na supervisão do Banco de Portugal, ministros impedidos até de sair do carro, um banco em falência, não fosse a intervenção do Estado, problemas políticos nos Açores e Madeira, agravos gratuitos do Governo ao PR, indícios de relacionamento amiguista e menos institucional entre Ministros e Reguladores, gaffes ministeriais à farta. E uma crise económica à porta. Tudo isto recomendaria uma actuação calma do Governo e dos principais Partidos, no sentido de manter a tranquilidade e não agravar os conflitos.
Creio que o PSD tem revelado sentido de estado: ciente de que o Banco de Portugal era tido como das poucas instituições credíveis, não pede a merecida demissão do Governador ou do seu CA, para não abalar ainda mais o sistema financeiro; tem procurado resolver sem alarido os problemas com as Regiões Autónomas; não tem aparecido a pedir a cabeça dos Ministros, seja da Educação ou da Saúde ou da Economia que o PS logo faria, se estivesse na oposição. E até no que respeita à avaliação dos professores, não contesta o princípio, mas apenas critica os meios e pede concertação.
Ao contrário, o PS e o Governo mais não têm feito do que exacerbar os conflitos. Na educação, o confronto no continente é cada vez mais duro e, como se tal não bastasse, estão a procurar um novo foco de perturbação na Madeira, sob a capa de luta contra AJJardim, não se dando conta que dele poderão ser a primeira vítima.
No Estatuto dos Açores, nem sequer ainda cederam à Constituição; no lamentável caso da Assembleia Regional da Madeira, já resolvido, desdobram-se em recomeçar e potenciar o conflito. E se no Estatuto dos Açores já estão em confronto gratuito com o Presidente, cujos poderes constitucionais não respeitam, no caso da AR Madeira o que mais têm procurado é envolvê-lo também na disputa, ele que foi precisamente quem mais contribuiu para sanar a situação. O mesmo Presidente que mais uma vez se colocou ao lado do Governo, agora para pedir tranquilidade às escolas e condenar as arruaças estudantis. Uma bofetada de luva branca? Não!...Apenas o sentido de estado que o Presidente tem e Governo e o PS têm mostrado não ter. E que bem preciso era, para esbater tensões e resolver problemas, nestes tempos de grandes dificuldades para todos.

domingo, 16 de novembro de 2008

As papoilas saltitantes!...X


Os Administradores da SAD do Dragão receberam 697.000 euros como prémio de vitória no Campeonato e de terem sido finalistas na Taça de Portugal.
Os Administradores da SAD do Leão receberam 120.000 euros como prémio de classificação em 2º lugar no Campeonato, porta aberta para a disputa da Champions League, e de vitória na Taça de Portugal.
Os Administradores da SAD da Águia receberam 180.000 euros a título de prémio de gestão, apesar de o Benfica ter ficado em 4º lugar no Campeonato!... Prémio a título de terem feito crescer os Proveitos da Águia, justificou o adido de imprensa...
Pois é... quem não tem cão, caça com gato…
Nota: Acabei de ler no DN que a Lusa, que divulgou a notícia, foi proibida de fazer a cobertura do encontro de hoje com o Estrela da Amadora. Então mas essas notícias são lá para divulgar?

Como sair do beco sem saída?

E agora? Com as partes totalmente extremadas e detentoras de verdades únicas, com as posições radicalizadas e defendendo pontos de vista distintos, como é que o conflito que opõe o ministério da educação e os professores vai ser resolvido? Como sair do beco sem saída a que se chegou?
De um ponto de vista estritamente legal é evidente que o governo tem que fazer cumprir a lei, que neste caso foi por si aprovada, e os professores, como todos os cidadãos num Estado de direito, a devem cumprir. Mas não adianta que o ministério da educação avise que não vai ceder e não adianta que os professores ameacem não cumprir com o modelo de avaliação do desempenho aprovado. Não adianta porque um sistema de avaliação do desempenho que não tenha o envolvimento reconhecido e esforçado, desde o primeiro momento, de todas as partes interessadas não funciona e fica, desde aí, votado ao fracasso, tornando-se alvo de muitas críticas, mais ou menos verdadeiras. O resultado é no caso da avaliação do desempenho dos professores a sua desqualificação, fazendo crer que o modelo é desnecessário, burocrático, um peso pesado que consome tempo e energia. Transformar um sistema de avaliação do desempenho numa “arma” política em que governo e sindicatos e professores medem forças, utilizada para impor uma “autoridade” formal e simultaneamente servir para disparar descontentamento e insatisfação não serve a educação, a escola e os alunos.
A avaliação do desempenho é indiscutível enquanto instrumento de aferição da qualidade do trabalho e dos respectivos resultados, é essencial para promover uma cultura de exigência e de meritocracia e pode e deve constituir um motor de progresso na medida em que seja capaz de criar ambição, suscitar criatividade e desenvolvimento, conferir espírito crítico e mobilizar os seus participantes para fazer mais e melhor. Ora, todos estes atributos não se impõem por decreto lei, requerem antes vontade e esta está dependente da maior ou menor aceitação de um modelo correctamente desenhado e pensado quer nos seus objectivos quer na sua implementação. A lei é puramente instrumental.
O conflito aberto a que se chegou é perigoso porque está a desgastar a coesão educativa. Portugal precisa como de “pão para a boca” da educação. É na educação que está o futuro. As crianças e jovens de hoje serão os adultos de amanhã e deles nascerão os futuros dirigentes políticos e associativos e os futuros professores. Não há educação sem professores e sem escola. Professores desmotivados, cansados e contrariados são um preço demasiado elevado a pagar. A escola em todo este processo há muito que dela não se houve falar. É uma célula fundamental no sistema educativo e no tecido social que está também a sofrer com o conflito.
Desafortunadamente, mas não por acaso, o conflito não se esgota na avaliação do desempenho. Se assim fosse a situação não tinha chegado ao ponto de quase “não retorno” a que se chegou.
E digo “quase” porque, como em tudo na vida, as situações de ruptura ou de desequilíbrio acabam por dar lugar a novos equilíbrios, quer pelo desgaste que provocam quer pela constatação de que não há vencedores mas tão somente vencidos. Mas às vezes a mudança é muito custosa.
Portanto, a questão que agora se coloca é a de saber como vai ser possível corrigir o braço de ferro da ruptura a que chegámos? Uma coisa é certa, ninguém quer ceder e ninguém quer perder a face. E outra coisa também é certa, é que a situação a que se chegou não é sustentável.

Reatando a série!...

Interrompi há uns tempos os textos em que, uma vez por outra, aludia à conjuntura e às vicissitudes futebolísticas.
Diziam-me alguns amigos, entre os quais o nosso comentador Cardeal de Alpedrinha, nos últimos tempos desaparecido, que tal matéria era imprópria num Blog de tanta qualidade como o 4R.
Também outros comentadores não se agradavam muito com a natureza da matéria versada. Os meus filhos e a minha mulher também contestavam esses infelizes escritos, como lhes chamavam. Claro que eles são do Benfica e ela do Sporting, o que ameniza e explica um pouco a coisa. Mas também tinha alguns defensores!...
De modo que, confrontando-me com o dramático dilema de continuar ou acabar definitivamente com esses textos, decidi colocar democraticamente à discussão esse dilacerante tema, que tanto me afligia, na última Assembleia Geral do 4R. Confesso que para tal escolhi a ocasião oportuna entre o vinho do Porto da sobremesa e o champagne do Bolo do 4º Aniversário. Como por essa altura tudo era aprovado por unanimidade, fui intimado a reatar a série.
Vou pois recomeçar, com mais uma homenagem às Papoilas Saltitantes!...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Maldade

Certas frases, opiniões ou comentários têm o condão de desencadear lembranças como se tratasse de uma reacção química na presença de determinados reagentes.
Voei, em função de uma provocação, até aos meus 10/11 anos. Numa pequena e humilde sala o velho aparelho de televisão relatava a sentença a que foi condenado Adolf Eichmann. Explicaram-me quem era e os crimes que cometeu durante a Segunda Grande Guerra. Fiquei a saber o nome, a história do seu rapto, o julgamento a que foi sujeito, os crimes cometidos, a notícia da sua condenação à morte e o seu enforcamento. Mas o que me ficou na retina foram as imagens televisivas que revelavam um homem indiferente às acusações e frio quando lhe foi anunciado a morte.
Este episódio despertou-me a curiosidade sobre certos acontecimentos ocorridos durante a Grande Guerra. Perguntava aos mais velhos o que é que tinha acontecido mas diziam que era novo demais para essas coisas. Mas, uma enciclopédia histórica do pai de um amigo meu, com inúmeras fotografias, revelou o que se tinha passado. Às escondidas e com receio de ser apanhado, mirei, incrédulo, as fotos de mulheres e homens enforcados, corpos esqueléticos de crianças, homens e mulheres esquálidos a “sorrir” sofrimento. Não percebia bem as razões que estiveram na base daqueles acontecimentos. Também não conseguia perguntar aos mais velhos, com receio de ser alvo de alguma reprimenda. O que eu sei é que o meu sono se transformou em horríveis pesadelos. Com o tempo, a minha curiosidade não teve limites sobre o que efectivamente tinha acontecido. Acabei por saber que foi o resultado de uma política maldita da qual fazia parte Eichmann.
Muitos anos depois li o livro de Hanna Arendt, “Eichmann em Jerusalém”, onde a autora cunhou o termo “Banalidade do Mal” para designar que o grande criminoso “não era um demónio e um poço de maldade, mas alguém terrível e horrivelmente normal” incapaz de distinguir o bem do mal ou de se arrepender. Arendt considera que dada a complexidade da natureza humana é necessário manter uma vigilância permanente para garantir a defesa e a preservação da liberdade, de forma de controlar a tal “Banalidade do Mal”.
A maldade existe e exprime-se de muitas formas. Quanto à sua natureza chega a ser um verdadeiro enigma, constituindo um desafio para os filósofos.
Há quem aponte para as influências demoníacas (!), para factores genéticos ou como resultado do livre arbítrio. É difícil encontrar uma resposta adequada. Tudo aponta para que o enigma da maldade nunca seja esclarecido por completo. Não acredito na origem genética, até, porque seria uma caminho muito perigoso. Voltaire, também tinha horror à ideia da maldade nata. Certas pessoas revelam personalidades deformadas. São mesquinhas, invejosas e reagem muito mal às frustrações. Poderão ter alguma deficiência estrutural ou fisiológica, caso de um eventual défice em serotonina, por exemplo, tornando-os agressivos quer sob o ponto de vista físico e até verbal.
Não podemos deixar de afirmar que um certo grau de agressividade é útil para a sobrevivência, o pior é quando se transforma em actos de maldade. E, neste ponto, a ciência tem muita dificuldade em explicar a transformação. De facto, o ser humano é detentor de potencialidade únicas. Tem a capacidade de fabricar estratégias, utilizar a astúcia e manipular a agressividade para atingir o próximo. Em termos comparativos é muito mais digno o ataque de um animal, porque ataca no momento, não guarda rancor nem mágoas. Neste caso, prefiro ser um animal...

Mais linhas de "crédito" não, por favor!


1. Esta semana foi notícia de relevo a “criação” de mais uma linha de “crédito”, de mil milhões de Euros – interrogo-me porque não anunciaram um elevado múltiplo deste valor – supostamente para apoio a PME’S.
2. Li na imprensa “especializada” que com esta nova linha de”crédito” se elevava a 3 mil milhões o montante de linhas de “crédito” que o Governo teria criado para apoio às nossas muito estimadas, apoiadas, acarinhadas, incentivadas – e apesar de tudo isso cada vez mais aflitas – PME’s.
3. Creio que não será fácil encontrar medida de política económica mais enganadora e fictícia do que esta, nos dias que correm em que o fenómeno da aversão ao risco por parte das instituições bancárias se generalizou e atinge cada vez mais duramente as PME’s.
4. Esta suposta criação de linhas de “crédito” não tem praticamente qualquer consistência: não há linhas; quase não há crédit. Cria-se apenas a ilusão de um benefício para as empresas.
5. Não percebo aliás por que motivo se insiste em proclamar à saciedade a utilização de um instrumento de intervenção económica típico do tempo em que existia moeda própria em Portugal:
(i) As taxas de juro nominais e reais atingiam por vezes valores muito elevados em comparação com as de outros países nossos parceiros comerciais, porque a política monetária era chamada a desempenhar o papel próprio mais o papel que competiria à política orçamental,
(ii) As empresas eram sobrecarregadas com juros e perdiam competitividade nos sectores mais expostos à concorrência externa,
(iii) O Estado bonificava as taxas de juro dos empréstimos bancários concedidos a empresas dos sectores considerados prioritários para a estratégia de crescimento e de equilíbrio das contas com o exterior.
6. A partir do momento (ou mesmo alguns anos antes) da adesão ao Euro, com taxas de juro europeias ou quase, este instrumento deixou de fazer sentido, uma vez que as empresas portuguesas se passavam a financiar a custos muito semelhantes aos suportados pelas suas congéneres europeias.
7. Este regresso à utilização maciça de um instrumento de política económica do passado, sem justificação plausível no quadro do Euro, por um Governo que se reclama constantemente de objectivos de modernidade é muito curiosa...faz-me pensar que já não se sabe bem o que fazer...e: quando havia dinheiro, atirava-se dinheiro para cima dos problemas (recordam-se?); agora que não há dinheiro atiram-se linhas de crédito – será isso?
8. Há um elemento algo perturbador neste quadro de fantasia política e de com/fabulação numérica: as vozes de apoio que ainda se vão ouvindo de alguns dirigentes de associações empresariais – será que estão assim tão desligados da realidade ou outro será o motivo?
9. Mas, por favor, mais linhas de “crédito” é que não – chegam e sobejam as que andam por aí!