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sábado, 12 de novembro de 2016

A 2ª derrota dos democratas americanos

Quando Donald Trump afirmou, durante a campanha, que contestaria a eleições caso viesse a perder, o repúdio foi estridente, e era caso para isso. A afirmação foi repetida como prova da sua atitude antidemocrática, da sua alarvidade política, dos seus maus instintos, em suma, do pior que se poderia esperar. Trump ganhou, a opositora aceitou o resultado, ninguém invoca fraude nem irregularidades. E assistimos a quê? Manifestações enormes e violentas por parte dos vencidos, agitação em torno do argumento do número total de votos - como se o método eleitoral só fosse fiável se ganhassem os Democratas - e, para cúmulo da nossa incredulidade, surge agora uma petição propondo uma "nomeação" de Clinton na secretaria! Dizem os até agora tão puros democratas que os delegados eleitos pelos Republicanos devem fazer tábua rasa dos mandatos dos seus eleitores e votar em Clinton, interpretando assim a genuína vontade demonstrada pela soma simples dos votos. Parece que já passaram os 3 milhões de assinaturas e não ouvi nada a repudiar está iniciativa! Parece que o espírito democrático só funciona quando ganham os defensores das causas deles, parece que a superioridade moral e intelectual que tanto se invocou em desfavor de Trump, cai agora que nem um meteoro em cima dos que antes receavam as mesmas atitudes. É uma vergonha para quem tolera isto, por este caminho, Trump nem precisa de abrir a boca para se resgatar da má figura que fez na campanha, basta deixar agir os seus opositores... Triste espectáculo, sem dúvida, e preocupante, esta 2ª derrota dos Democratas americanos, que tão depressa se livraram do que antes era o seu estandarte.

23 comentários:

Zuricher disse...

Cara Suzana, acabo há momentos de colocar um comentário num blog aqui ao lado mas que assenta como uma luva neste seu post também. Como não sei se o lerá tomo a ousadia de o copiar aqui no 4R. O tom é mais adaptado ali ao lado do que aqui mas o sentido e conteúdo seriam identicos se o reescrevesse portanto opto por copiar integralmente, apenas com uma ligeira adaptação no início e pequenas correcções de lapsos em que só reparei já depois de publicar. Acrescento ainda que estou plenamente de acordo consigo. Continuando assim, realmente, Donald Trump apenas terá que ficar quieto e calado para muito rapidamente aumentar a sua popularidade. Isto mesmo ainda antes de ser empossado Presidente e começar a governar.


"
Este post abre-me a porta a falar sobre algo que já manifestei em correspondência privada com várias pessoas, Americanos na sua maioria mas não só.

Vejo com um sorriso de superioridade (assumidamente isto) a forma como muita gente vem reagindo aos resultados das eleições Americanas. Não é, de resto, a primeira vez que tal coisa sucede. Ora vejamos; eu que tenho uma certa fama (errada mas é irrelevante para o caso) de fascista entre Portugueses sempre soube aceitar resultados de eleições livres. Mesmo em países onde não concordo com a bondade do regime democrático para o seu governo aceito-os. Isto porque eu concordar ou não com a democracia nesses países é irrelevante para a realidade sendo esta que o regime é efectivamente democrático portanto é com ele que tem que viver-se e com esse pano de fundo que tem que construir-se o raciocínio. Sempre fui defensor que as sociedades devem, colectivamente, colher os frutos, bons ou maus, das escolhas que fazem. Ao longo da vida, evidentemente, já estive no lado perdedor um ror de vezes. Muitas mais que do lado vencedor. Que remédio tive senão engolir e aceitar com boa cara. E, parece-me, é esta a essência do regime democrático. Se há democracia tem que haver também, evidentemente, respeito democrático pelos resultados das eleições. Mas isto sou eu, um tenebroso fascista aqui a pensar alto.

Em contrapartida, e isto não é um exclusivo destas eleições Americanas!, os «verdadeiros democratas», aqueles que andam sempre com a democracia na boca, os brigadistas sempre prontos a apontar o dedo ao mais ínfimo ponto que encaram como desvio da democracia, esses que tão convecidamente se acham tão grandes e tão superiores ainda não pararam de vociferar, insultar, enfim, em geral, ainda não pararam de destilar o despeito que sentem. Tem-se visto isto em jornais de meio mundo, políticos (Jean-Claude Juncker tem sido uma rematada vergonha neste aspecto), por essa internet fora, enfim, por todo o lado e mais algum. Repito, despeito! E porque o sentem? Porque na realidade não são democratas! Não são! Não têm verdadeiro espírito democrata nem têm interiorizados em si, já nem digo a democracia, mas tão somente o como viver em democracia. São incapazes de entender que respeito democrático tem dois sentidos. Acham-se imbuídos do direito divino a mandar sendo os oponentes meros apêndices a quem consentem a existência apenas para fazer de conta. Mas ao primeiro revés cai-lhes a máscara e, impotentes que são para mudar os resultados mas também sem as ferramentas mentais para aceitar a vitória do adversário político não hesitam em insultar gratuitamente, vociferar e até mesmo, em partir para a violência como temos visto.

A Alemanha de Leste também era, em teoria, um estado multi-partidário. Dava-se a curiosíssima coincidência de todos os partidos estarem unidos no SED mas, realmente, havia uns quantos partidos com existência legal. Os democratas - de nome e pouco mais que de pacotilha dos tempos actuais - ainda não chegaram à eficiência de Walther Ulbricht e do SED. Mas que estão a seguir o mesmo caminho, lá isso...

É o que se oferece dizer a um fascista (pffff...) que respeita os resultados democráticos. E que respeitaria mesmo que fossem os opostos como respeitou muitos e muitos no passado.

HUMPF!
"

Bartolomeu disse...

Não fossem as certezas, primeiro das profecias do Papa São Malaquias e depois, da 3ä revelação de N.S. de Fátima que advertem o mundo para a ocorrência do uma grande guerra ocasionada pelo assassínio do atual Papa e a destruição de Roma, diria que o cenário a que assistimos na Améria, resultaria no rastilho que incendiaria o mundo. Assim... limito-me a concluir que tudo se irá saldar por umas centenas de cabeças rachadas, uns quantos corpos feridos e sobretudo muita, mas mesmo muita tinta, papel e imagem de televisão vendidos.
Enfim... virtualidades de um mundo globalmente virtual.

Tavares Moreira disse...

Cara Suzana,

Os media, as empresas de sondagens (que vergonha...) e a esmagadora maioria da opinião publicada - entre estrelas de Hollywood, intelectuais estandardizados, produtores cinematográficos e tutti quanti - criaram o mito da invencibilidade de H. Clinton ou da inevitabilidade da derrota de Trump.
A queda desse mito custa muito a engolir, até compreendo.
Mas estes protestantes deveriam dirigir a sua fúria contra quem os enganou, os atrás referidos.

Carlos Sério disse...

Sem dúvida ST, agora para além das inaceitáveis e odiosas declarações do candidato republicano difundidas a jorro pelos grandes meios de comunicação dominantes, será preciso olhar para as outras propostas que não foram divulgadas por tais meios e que justificam a sua eleição.

1)Uma razão pela qual os grandes meios atacaram Trump é porque ele denuncia a globalização económica, convencido de que esta acabou com a classe média. Segundo ele, a economia globalizada está falhando a cada vez mais gente, e recorda que, nos últimos 15 anos, nos Estados Unidos, mais de 60.000 fábricas tiveram que fechar e quase cinco milhões de empregos industriais bem pagos desapareceram.

2) É um fervoroso proteccionista. Propõe aumentar as taxas de todos os produtos importados. «Vamos recuperar o controlo do país, faremos que os Estados Unidos voltem a ser um grande país».
Partidário do Brexit, Donald Trump revelou que, uma vez eleito presidente, tratará de retirar aos EEUU do Tratado de Libre Comercio da América do Norte (NAFTA). Também arremeteu contra o Acordo de Associação Transpacífico (TPP), e assegurou que, se alcançar a Presidência, retirará dele o país: «El TPP seria um golpe mortal para a industria industrial dos Estados Unidos».

3)Rejeita os cortes neoliberais em matéria de Segurança Social. Muitos eleitores republicanos, vítimas da crise económica de 2008 ou que tinham mais de 65 anos, necessitam beneficiar-se da Social Security (reforma) e do Medicare (seguro de saúde) que desenvolveu o presidente Barack Obama e que outros líderes republicanos desejavam suprimir. Tump prometeu não tocar nestes avanços sociais, baixar o preço dos medicamentos, ajudar a resolver os problemas dos «sem tecto», reformar a fiscalidade dos pequenos contribuintes e suprimir o imposto federal que afecta a 73 milhões de famílias modestas.

4) Manifestou-se contra a arrogância de Wall Street, Trump propõe aumentar significativamente os impostos dos corredores dos Hedge Funds, que ganham fortunas, e apoia o restabelecimento da Ley Glass-Steagall. Aprovada em 1933, em plena Depressão, esta lei separou a banca comercial da banca de investimentos com o objectivo de evitar que a primeira pudesse fazer investimentos de alto risco. Obviamente, todo o sector financeiro se opõe absolutamente ao restabelecimento desta medida.

5) Em política internacional, Trump quer estabelecer uma aliança com a Rússia para combater com eficácia o Daesh. Ainda que para isso Washington tenha que reconhecer a anexação da Crimeia por Moscovo.

6) Trump estima que com a sua enorme dívida pública os Estados Unidos já não dispõem dos recursos necessários para conduzir uma política externa intervencionista indiscriminada. Já não pode impor a paz a qualquer preço. Em oposição a vários caciques do seu partido, e como consequência lógica do final da guerra fria, quer mudar a NATO: «Não haverá nunca mais a garantia de uma protecção automática dos Estados Unidos para com os países da NATO».

(extractos de artigo de Ignacio Ramonet, publicado no Le Monde Diplomatique)



Rui Fonseca disse...


Sinceramente, Estimada Suzana Toscano, não compreendo os seus argumentos e muito menos as suas conclusões.

Hillary Clinton reconheceu a derrota e telefonou a Trump. Este disse depois que ela tinha tido palavras amáveis para com ele.
Até aqui, ao comportamento dos Democratas não são atribuíveis reparos.
Concorda?

Depois refere o comportamento não democrático de milhares de cidadãos que se manifestaram nas ruas e uma petição que já terá três milhões de assinaturas.

Ora os "Democratas", eleitores ou não, contam-se em números muitíssimo mais elevados. Pode retirar-se, mesmo validando os seus argumentos, que os "Democratas" estão a ter um comportamento anti democrático porque alguns deles, na realidade uma pequena parte,
se manifesta e protesta? Confundir uma parte com o todo não me parece uma aceitável indução estatística. Não concorda?

Por outro lado, uma manifestação de desagrado não é, não pode ser,
em democracia considerado um comportamento antidemocrático porque
a essência da democracia sustenta-se na liberdade de expressão.

A mim, porque tenho família nos EUA, o comportamento de Trump preocupa-me não apenas pela soberba e falta de civismo que demonstrou ao longo da campanha mas pelos comportamentos que os seus
dislates já estão a promover.

Na imprensa norte-americana de referência li ontem que em várias escolas começaram a aparecer slogans racistas e inscrições de suásticas nas paredes. E que alguns jovens alarves terão acossado colegas pegando nelas pela vagina porque se Trump o fez por que razão não podem eles fazer o mesmo? São apenas casos isolados, facilmente controláveis pelas instituições?
Hitler, publicamente, não ordenava matar nem perseguir. Regozijava-se com as iniciativas dos que o idolatravam e actuavam de forma que eles acreditavam agradar ao führer.


Estimada Suzana Toscano,

A sociedade norte-americana está agora mais dividida que antes.
Os sintomas são claros: o racismo, a xenofobia, a misoginia, a intolerância e o fanatismo religioso vão galopar com Trump.
É preciso muita ingenuidade para supor que Trump não vai prosseguir pelo caminho que prometeu prosseguir. As primeiras indicações já chegaram. Os resultados prometem um desastre social, não só a nível norte-americano como mundial.

Pela Europa são vários os trumpitos a esfregar as mãos de contentamento. Foi mais ou menos assim que foi chocado há cerca de oito décadas atrás o ovo da serpente.


João Pires da Cruz disse...

Cara Suzana, pela descrição parece exactamente aquilo que se passou em Portugal. Sorte dos americanos que não têm um Cavaco para dar cobertura a golpes.

Bartolomeu disse...

Cavaco foi um dos piores vírus que atacou a "saúde" do país. Tem razão, Pires da Cruz.
Culpamos tudo e mais alguma coisa quando estes "fenómenos" eleitorais acontecem, mas, na realidade, tudo se fica a dever a contextos. Tanto por cá, como noutro qualquer ponto do globo, os acontecimentos e o seu desenvolvimento, acham-se sujeitos a um conjunto de circunstâncias que serão responsáveis pelos efeitos que também eles se sucederão, por influência continua. Aliás, para um cientista, isto não constitui qualquer surpresa...

Rui Fonseca disse...


Prezado Bartolomeu,

Recorro à sua perspicácia para, sff, me explicar porque bulas cai Cavaco Silva neste credo.

Bartolomeu disse...

Caro Rui Fonseca, se percebeu, o sentido do meu comentário, ia na continuação do anterior colocado pelo Pires da Cruz, no que se referia a "dar cobertura a golpes".
Se já não se recorda, lembro-lhe a palhaçada do BES, e do BPN com Ricardo Espírito Santo e Oliveira e Costa. Para aperitivo, penso que será suficiente...

Rui Fonseca disse...


E o que é isso tem a ver com os protestos referidos por ST?

Bartolomeu disse...

Penso que fui claro quando lhe expliquei que o meu comentário surgiu no seguimento do anterior, colocado pelo comentador Pires da Cruz.
Se o sentido do dele foge ou não ao sentido do post, é algo que só ele poderá explicar.

Suzana Toscano disse...

Caro Zuricher, obrigada pelo seu comentário que, de facto, explica com clareza o que são, ou devem ser, os valores da democracia, lutar por aquilo em que se acredita, desenhar normas que possam, da melhor maneira que se conhece, deixar exprimir a vontade dos eleitores, cumprir e respeitar o voto democrático e governar de acordo com o que se prometeu, mesmo corrigindo promessas que, depois, a realidade demonstra não corresponderem aos interesses das populações. Isto implica, é claro, lutar pela vitória e respeitar os vencedores, do mesmo modo que rejeito em absoluto a perseguição e a vingança sobre os derrotados, a democracia deve saber instituir a convivência pacífica e dar lugar à participação de todos, vencidos e vencedores. Talvez por ser tão exigente e tão ambiciosa, seja mais fácil pegar nas bandeiras e depois fazer tudo ao contrário, levando ao descrédito a que hoje assistimos, para mal de todos.

Caro Rui Fonseca, estranho que não tenha entendido o sentido do meu texto e as conclusões, bastante simples, a meu ver. O ponto é o seguinte: não vejo qualquer legitimidade para se temer e condenar comportamentos a uns e, a seguir, adoptar os mesmos comportamentos. Diz que se trata de liberdade de expressão, e é, mas isso não significa que o que exprimem seja legítimo, recusar o resultado, incitar à subversão dos mandatos dos membros do colégio eleitoral, enfim, tudo tão mau ou pior do que o que tanto imputaram como intenções intoleráveis aos adversários. Se tivesse sido ao contrário e agora assistíssemos a isto por parte dos republicanos, o estimado Rui Fonseca teria a mesma compreensão? Permita-me que duvide. E estranho eu agora que o caro Rui Fonseca desvalorize o gesto de mais de 3 milhões de democratas que assinaram a petição e valorize episódios lamentáveis "em escolas", gestos que copiam maus exemplos de Trump, sem dúvida, mas pelos vistos estes já acha muito representativos de uma mentalidade. Desculpe dizer, mas é realmente esta falta de coerência na chamada "ala civilizada da política" que faz com que os Trumps desta vida sejam aclamados. Insisto: podem manifestar- se, é claro, mas fica-lhes muito mal querer derrubar na rua e na secretaria o que não conseguiram, infelizmente, nas urnas. Parece que estamos a ver um filme com os protagonistas errados. É que, se são melhores, deviam agir melhor. A minha complacência para com estas condescendências é tanto menor quanto vejo progredir os que se sentem desenganados pela democracia. A comunicação social olha as manifs com simpatia e chama- lhes "inconformados" quando devia criticá-los com a mesma dureza com que o faria se fosse ao contrário, não vejo em que é que a liberdade de expressão seja incompatível com a crítica ao que exprimem.
Caro carlos Sério, muitas das propostas de Trump correspondem ao que as pessoas pensam, por alguma razão ele ganhou as eleições apesar do modo grosseiro e agressivo com que as formulou. Muito boa esquerda criticaria o previsto aumento de dois dígitos para os seguros de saúde americanos, muito boa gente temia o acordo de comércio, muitos americanos democratas questionavam o papel -e o custo -da América defensora da Europa. Esta ultima tem razões históricas na ordem mundial seguida à Guerra, não é só uma questão de contas, mas o facto é que ouvimos hoje repudiar muito que antes se questionava, e é pena que não se expliquem hoje o repúdio e as dúvidas, vai ser preciso se não quiserem que Trump seja realmente um vencedor.
Caros João Pires da Cruz e Bartolomeu, é evidente que não posso concordar com os vossos comentários, mas isso são contas de outro rosário ;)

Rui Fonseca disse...


Mas foi, precisamente, porque não entendi, e me pareceu que o amigo Bartolomeu tinha entendido, que eu lhe solicitei o favor de me ajudar a perceber o que tinha a ver uma coisa com a outra.
Deduzo agora que o amigo Bartolomeu também não percebeu.
Mas agradeço, de qualquer modo, o seu esforço.

Rui Fonseca disse...


Estimada Suzana Toscano,

Eu não defendi, de modo algum, aqueles que na rua pretendem alterar os resultados das eleições. Se pretendem isso, são tolos, porque seria uma tentativa inglória. E digo seria porque não conheço os objectivos concretos das manifestações.O que referi é que não pode tomar-se a parte pelo todo e, que eu saiba, o partido democrata não contestou os resultados nem é previsível que venha a contestar. Só isso.

Não pertenço a nenhuma ala política, não me congratulo com isso, simplesmente nunca me arregimentei em nenhum partido, clube ou credo.Há alguns indivíduos assim, se são poucos, eu sou um deles.
Já não sou novo e nunca participei em manifs nem assisti a comícios partidários. Daqui pode, com confiança acreditar, que faria o mesmo comentário se a situação fosse a simétrica.

Mas há limites.
Para o próximo dia 3 de Dezembro está convocada uma
manifestação do Ku Klux Klan de apoio a Trump.
É o ovo da serpente a começar a eclodir. Se não for esmagado a serpente voltará de novo a asfixiar a liberdade.

A liberdade dos nossos filhos e dos nossos netos.

Zuricher disse...

Rui, não comentei o seu post no seu blog para não dar esclarecimentos desnecessários sobre um mal-entendido anterior mas faço-o agora por causa do seu último parágrafo.

Primeiro o esclarecimento. Há umas semanas, por referir-me a Obama como "orelhudo" o Rui deduziu erroneamente que eu serei racista. Na altura não liguei importância, mas dada a pergunta que vou fazer-lhe neste momento tenho que esclarecer que não, não sou racista. A forma como me refiro às pessoas é deliberada e é expressão da maior ou menor consideração que tenho por elas. Não sei se terá lido há tempos um comentário meu no qual explicava isto mesmo. Referir-me a Obama como "orelhudo" está exactamente no mesmo patamar de referir-me a Catarina Martins como "galinhita resmungona", a Jerónimo de Sousa como "avôzinho muito simpático quando está calado" ou a Alberto Garzón como "gaiato". É exactamente o mesmo. Por outro lado, eu ser racista seria absurdo. Tenho, por opção, nacionalidade de dois países de maioria negra. Hoje em dia mais ou menos vivo num país de maioria negra onde vim apenas por uns meses mas sinto-me tão bem que venho deixando-me estar. Por fim, eu próprio tenho sangue negro e, embora seja branco, qualquer observador atento repara que há algum sangue negro em mim. Que, de resto, nunca neguei existir, de todo em todo.

Feito que está o esclarecimento, caro Rui, e para não me perder em mais aspectos do seu post original, a pergunta. Como é que consegue justificar racionalmente, no contexto dum país onde a liberdade de expressão existe, que se proíba (ou pelo menos é este o meu entendimento do seu "esmagado") uma manifestação do KKK? Não são, de todo, santos da minha devoção. Mas, caramba, porque não hão-de poder manifestar-se e fazer ouvir-se? São menos do que os do Black Lives Matter ou seja lá quem for?

Suzana Toscano disse...

Caro Rui Fonseca, comungo plenamente das suas angústias quanto ao futuro, nosso, que estamos a entrar numa idade em que a dependência dos outros aumenta, dos nossos filhos e netos. Tenho uma neta de nove meses e já há coisas que não vejo porque quando imagino que esse pode vir a ser o mundo em que ela habitará fico deprimida. Sempre houve, no entanto, KKK ou quejandos dispostos a dar cabo das harmonias que se vão construindo e certamente estes são tempos em que ressurgem com um ímpeto que não tinham, ou que julgávamos que já não teriam, mas acredito que a política é feita destas alternâncias e que o grande erro é considerar que, em algum momento, a capacidade de governar só está de um lado, nunca está. Negarmos isso, é enfraquecer, é baixar as guardas, como se vê agora. Também quero acreditar que muito do folclore de Trump é bazófia, a América tem os seus valores muito mais arreigados até que a Europa, como se viu no século passado. Resta-nos teimar nos valores da democracia e da liberdade, e isso não se faz de uma maneira qualquer, talvez a serpente ainda vá ficar no ovo muito tempo, há muito de bom para preservar e acrescentar, não vejo que devamos alimentar medos para afastar os nossos fantasmas.

Zuricher disse...

Cara Suzana, por lapso passou-me a sua primeira resposta mas merece, sem dúvida, um comentário adicional.

Nos Estados Unidos tem sido tradição de sempre a transição pacífica de poder duma admnistração para a seguinte. Sempre foi o que aconteceu. Nestas eleições os protestos estão a escalar começando a aproximar-se perigosamente de insurreições em certos sítios. Protestos violentos que têm todo o aspecto de ser organizados, diga-se em abono da verdade. Mas serão assim tão surpreendentes? Obama, ao longo dos seus oito anos, elevou as tensões internas nos EUA a níveis não vistos há décadas. As tensões raciais que há muito estavam esbatidas renasceram estando neste momento no seu ponto mais quente desde a década de '60. Criou tensões e divisão entre grupos etários. Aprofundou largamente as diferenças existentes entre as zonas afluentes do litoral (e mais alguns Estados que estão a beneficiar da extracção de petróleo) e o resto da União. É este o legado do orelhudo: um país com várias linhas profundas de divisão social. A própria campanha Democrata andou muito por estas linhas de tentar dividir os eleitores por raças, por posições sociais, muito numa de nós, os inteligentes, urbanos, cool, bons, contra eles, os grunhos lá das berças, pobres ignorantes por quem há que sentir pena. Em suma, um país tenso e cheio de divisões. Ora, não é precisa muita gasolina para de tanto calor fazer fogo, não é?

Ainda em relação a tudo o que está a ver-se, a postura que está a ser adoptada tanto pelo Partido Democrata como por Hillary como por Obama começa a aproximar-se perigosamente da canalhice. E isto vai muito de encontro ao que escrevi e ao que a Suzana respondeu. Já reparou que passam os dias, continuam os protestos que, nalguns sítios, vão escalando em intensidade de violência e não se ouve um pio vindo da Casa Branca ou de Hillary no sentido de restaurar a calma? Não seria esta a sua função num momento destes? Manifestações e protestos são aceitaveis e naturais em sociedades democráticas. Violência não. E quando essa violência ocorre por motivos políticos e aqueles que a podem desautorizar não o fazem então a coisa começa a aproximar-se de qualificativos substancialmente mais fortes.

Bartolomeu disse...

Mesmo ã distância de vários dias, ainda reconhecemos que a campanha de Trump, foi baixa, baixíssima, aliás. Utilizou "trunfos" que ultrapassam a fasquia do mau gosto e da indecência, demonstrou claramente possuir um carácter sub-reptício e uma imensa falta de bom senso. Por isso, mexeu em feridas sociais que a América ainda não tratou e que estão longe de cicatrizar. Isto porque, aquela união constitui-se por 48 estados, cada um diferente dos restantes nas leis, na economia, na geografia e até no clima. Nada disto Trump levou em conta quando julgou estar a captar votos exortando os americanos a expulsar emigrantes, a armar-se e proceder a uma "limpeza" étnica sem antever as consequências que daí surgiriam. Pior será colocar-se a hipótese de o ter feito, tendo presente esse efeito. Conclui-se que das duas uma: ou Trump não passa de um vendedor de casas que transfere a lábia de vendedor para a política, ou virá de facto a revelar-se o pior ditador e exterminador da história mundial.

JM Ferreira de Almeida disse...

Suzana, definitivamente Trump e as eleições nos EUA dividem-nos. Se não nas convicções de fundo, pelo menos pela perceção que cada um de nós tem das coisas. O tempo se encarregará de dar razão a quem agora antecipa futuros. Isto para introduzir o seguinte. Não me parece que as manifestações de desagrado pelos resultados eleitorais - que se esfumarão com a passagem do tempo - possam ser consideradas a 2.ª derrota dos democratas. Seria assim se se pudesse dizer que eram expressão de uma não aceitação dos resultados eleitorais. Ora, salvo se me tiver passado ao lado algo de relevante nesse capítulo, a posição do Partido Democrata e claramente da candidata derrotada foi a de aceitação dos resultados eleitorais. Acrescento: depois do que aconteceu, só mesmo a contestação dos resultados eleitorais para completar o cenário de completa desesperança.
Quanto ao "espírito democrático" dos americanos, bom, é tema que tem muito que se lhe diga. Tanto, que está longe de caber num comentário destes. Mas será fácil à Suzana identificar um conjunto de princípios e regras em que se baseia o sistema norte-americana que, felizmente para nós, não fazem sentido na nossa cultura jurídico-política. Digo eu...

Zuricher disse...

No meu comentário anterior aludi ao silêncio cúmplice de Hillary e Obama sobre a violência que está a eclodir de vários dos protestos contra Donald Trump. Disse e repito que deviam apelar à calma num momento destes. Nem de propósito, acabo de ver a entrevista de Donald Trump ao 60 Minutes. Após ser confrontado com algumas situações de ataques a minorias raciais e gays, Donald Trump teve isto a dizer:

"
Donald Trump: I would say don’t do it, that’s terrible, ‘cause I’m gonna bring this country together.

Lesley Stahl: They’re harassing Latinos, Muslims..

Donald Trump: I am so saddened to hear that. And I say, “Stop it.” If it, if it helps. I will say this, and I will say right to the cameras: Stop it!
"

Mais do que esta pequena transcrição merece a pena ver a entrevista. Donald Trump realmente olhou directamente para a câmara quando disse o "Stop it".

Ter atitudes conciliatórias e de união não é para todos. Só está, realmente, ao alcance de alguns. Trump esteve muito bem.

Vale a pena ver a entrevista inteira.

Bartolomeu disse...

Pois, caro Zuricher... o gajo destrancou a tampa da "caixa de Pandora" e soltou demónios. Agora, que está a começar a perceber que aqueles demónios são incontroláveis, pede-lhes que parem...
O Obama que se bem se recorda começou desde o primeiro dia, aos pés da estátua de Abraham Lincoln, a apelar à unificação, à estabilidade e tolerância, viu-se durante os seus mandatos em palpos de aranha para conciliar toda aquela amálgama de gentes, imagine agora qual será o resultado daquele idiota acirramento.
Bem, seja como for, os americanos já têm a experiência de uma guerra civil. Desde que os palermoides da Europa, tipo Reino Unido, Alemanha, Itália e Fran4a, não se queiram também começar a armar aos cucos...

Zuricher disse...

Não, caro Bartolomeu, não são demónios. São sentimentos que muita gente tem mas calava. E antes rebentarem com eleições livres do que de forma violenta. São sentimentos estranhos para as elites urbanas e os Europeus então não conseguem mesmo entendê-los. Uma reportagem do Observador tocou em muitos deles. Sãoem grande parte a expressão do modo de vida que elevou os EUA a primeira potência mundial. Gente que se revolta contra o que vê como amolecimento da sociedade Americana e teme as suas consequências. Estes sentimentos existiam, sempre existiram, mas foram silenciados ao longo de muitos anos. Não desapareceram. Na primeira oportunidade para acabar com o boicote a que foram sujeitos voltaram à superfície. E mostraram inequívocamente não ser microscópicos como muitos que não conhecem mais do que a bolha onde vivem supunham. Embora o politicamente correcto tenha tentado silencia-los pensado que assim se esfumavam no ar o que realmente aconteceu foi que continuaram a germinar.

Por outro lado, as tensões não começaram com a campanha eleitoral embora esta as tenha reflectido. Obama, com as suas acções, incrementou as tensões sociais na América a um nivel não visto desde a década de '60. Os "Hate Crimes", ao longo da administração Obama, embora não tenham aumentado (nem diminuído) em número, aumentaram muitissimo em intensidade e violência. Donald Trump tem todo o espaço para, com as suas acções, voltar a torna-las insignificantes. Penso que o fará. A entrevista que passou ontem na CBS é um passo e um indício nesse sentido.

Donald Trump poderá vir a ser outro Ronald Reagan. Há vários paralelos entre ambos. Até os ataques feitos a Trump são semelhantes aos feitos a Reagan em 1980. É esta uma das minhas esperanças. Será bom para a América. Mas também para o mundo.

Carlos Miguel Praxedes disse...

Assim de repente, lembrei-me que, em Portugal, também houve dois partidos de esquerda que não aceitaram (e ainda hoje não aceitam!) os resultados das eleições.

E vendo que não tinham condições para governar sozinhos, acharam-se no direito "divino" de governar, mesmo sem conseguir formar uma maioria parlamentar que sustentasse as políticas governativas.

São esses terríveis esquerdistas de apelidos Coelho e Portas... Esses esquerdistas que ainda hoje não sabem ser democratas, que aprenderam que viver em democracia é respeitar todos os votos e não apenas os votos que lhes convém.