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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Vivemos mais tempo, mas vivemos com menos saúde...

Passou despercebida a notícia de que os portugueses perderam em 2014 face a 2013 cerca de três anos de esperança de vida saudável.  Vivemos cada vez mais tempo, alinhados com o top dos países europeus. A esperança média de vida aos 65 anos tem vindo a crescer continuadamente. Mas vivemos mais com menos saúde. Aqui estamos na cauda da Europa. No caso de Portugal é menor o número de anos em que uma pessoa pode esperar viver sem incapacidades e perdas de autonomia ou limitações funcionais de longa duração quando comparado com os países europeus. 
Ora este indicador, que já não nos era favorável, deteriorou-se significativamente de 2013 para 2014. Os anos de vida saudável aos 65 anos recuaram nos homens de 9,6 anos para 6,9 anos e nas mulheres de 9,3 anos para 5,6 anos. Portugal tem metade da esperança de vida saudável dos países europeus, o que significa que passaremos a última década das nossas vidas, depois dos 65 anos, doentes e com vários tipos de incapacidade. Deveríamos estar muito preocupados com esta situação. Estamos?
Viver mais tempo é uma notícia muito feliz, mas importa saber com que qualidade esse tempo é vivido. Ora, Portugal está mal neste indicador. Pelos vistos não estamos a fazer melhor. Não basta colocar a ênfase na longevidade. É, tão ou mais importante, cuidar da qualidade de vida.
Estamos muito atrasados no tema do envelhecimento activo. Os problemas por não investirmos neste domínio terão custos elevadíssimos para a nossa sociedade de bem estar, para já não falar dos custos económicos e financeiros. Precisamos de uma estratégia para o envelhecimento activo e de uma mudança de mentalidades. Envelhecer bem, para viver mais tempo com qualidade de vida, implica estilos de vida saudáveis, educação, formação ao longo da vida e cuidados de saúde, incluindo a prevenção da doença. Temos muito para fazer e aprender com os outros países.

6 comentários:

Bartolomeu disse...

Concordo inteiramente com a conclusão deste tão simples mas tão clarividente texto.
Notamos claramente a falta de cultura para a idade. E percebemos com a mesma clareza que esse falta vem de trás e da inexistência de iniciativas para a colmatar.
No nosso país nada se faz sem recursos financeiros, pelo empenho colectivo e gratuito.
Começam agora a notar-se algumas iniciativas pontuais, que resultam da vontade de presidentes de junta de freguesia e de autarcas em distritos do interior, onde as populações maioritariamente constituídas por idosos, estão a participar activamente em variadíssimos programas ocupacionais.
Este parece-me um "caminho" bastante capaz de interessar os mais idosos e ajuda-los a sair do marasmo onde foram abandonados e esquecidos.
Espero que as iniciativas agora ainda escassas se reproduzam e os serviços de saúde as acompanhem para que os idosos deste país vivam com mais alegria e enfrentem um futuro com menos nuvens negras no horizonte.
Uma sociedade digna, é aquela que trata os seus velhos com dignidade.

Suzana Toscano disse...

Todos os anos nos gabamos dos altos indices de longevidade no País, mas uma coisa é viver muito (com a consequente redução das pensões, penalizadas pelo factor de esperança de vida) e outra, bem diferente, é sofrer longamente. Muito bem trazido aqui o tema, Margarida.

Zuricher disse...

Um tema interessantíssimo, cara Margarida. Não sei se por ver os anos a passar por mim, se por vir vagamente assistindo às agruras do envelhecimento é tema sobre o qual, nos últimos tempos, venho reflectindo a espaços.

Uma tia, irmã de minha mãe, foi diagnosticada aos 60 ou 61 anos com cancro. Imediatamente antes disto tinha tido outras complicações de saúde que requereram duas cirurgias. Deu cabo do primeiro cancro e agora, seis anos passados, apareceu-lhe outro. Para tratar o primeiro passou por tratos de polé dos quais me iam chegando os ecos e sofreu horrores. Tudo isto prolongado no tempo por vários meses. Várias vezes dei por mim a pensar se vale realmente a pena viver naquele sofrimento e sujeito a tais torturas. Por fim, conseguiu debelar um cancro, aparece-lhe outro poucos anos depois. Deste último não tenho sabido a evolução.

Minha avó paterna foi toda a vida alguém muito senhora de si, independente, autoritária, orgulhosíssima. É viúva há 25 anos e sempre tratou dos seus assuntos e negócios sem consentir na interferência de ninguém. Agora, na segunda metade dos 80s, os achaques amontoam-se. É o coração, ao qual foi operada vai para três anos, são os ossos, é um problema nas pernas que lhe limita muitissimo a mobilidade, agora recentemente também os rins resolveram começar a ir pregando partidas e os intestinos desarranjaram-se-lhe irremediavelmente impedindo-a de sair de casa sem pré-aviso de algumas horas para poder tomar o preventivo necessário. A par disto tudo está lúcida. Ainda tem a cabeça muito no sítio. Mas tem perdido a sua autonomia de forma acelerada contra os seus mais profundos desejos. Uma certa rispidez natural que sempre teve deu lugar a azedume e maldade permanentes. Não aceita as limitações que tem e isso enerva-a tremendamente o que contribui para um certo desvario em momentos específicos. Mantém-se viva à custa de quase vinte comprimidos diários. Penso que, tendo perfeita consciência de como está e do que é a sua vida, preferia morrer. E eu dou por mim a perguntar se vale a pena viver nestas condições.

Em contrapartida faleceu há cerca de três anos alguém que tive como amigo e me deu algumas direcções importantes nos meus anos formativos. Morreu porque quis. Porque se fartou de viver sem a mais mínima qualidade. Além dum achaque permanente que o afligia desde os seus cinquenta e qualquer coisa, as pernas resolveram pregar-lhe uma partida aos 70s e picos e, por fim, sensivelmente aos 75 anos, os rins pararam-lhe atirando-o para sessões de hemodialise dia sim, dia não. Um dia fartou-se. Disse que não mais voltava à hemodialise e foi exactamente o que fez. Durou apenas uns dias. Concordo com ele e com a forma como decidiu dispôr da sua vida. Entendeu que o que tinha era apenas inspirar e expirar. Que de vida tinha já muito pouco. E preferiu morrer a aceitar tal sofrimento por mais tempo. Refleti sobre a sua morte e o que a ela levou. Não posso em consciência discordar do entendimento que teve sobre a sua vida e a sua morte.

Daqui que tudo isto me leve ao que escreve. Será que a partir de dado momento, naturalmente diferente em todos, nuns mais cedo, noutros mais tarde, vale a pena manter algo de só é vida no sentido mais restrito da palavra? Quando as doenças e incomodidades associadas começam a avolumar-se há, sequer, conforto possivel que leve o padecente a ver o que tem como vida que valha a pena viver? Envelhecer é difícil. Aliar doenças e vida com qualidade parece-me que raia o impossivel. Estarei certo? Estarei errado?

Tema complexo este que aqui nos traz hoje...

Suzana Toscano disse...

Caro Zuricher, não creio que haja uma resposta certa para a sua pergunta, e receio muito aqueles que dizem que há. Sou de uma família com grande longevidade, todos os meus avós, tios e o meu pai passaram largamente os 80. Sempre convivi com velhos, uns sofreram, outros não e nunca vi qualquer deles a desejar realmente morrer. Mesmo o meu pai, tão orgulhoso da sua força e independência, quis lutar pela vida quando pouco já podia vivê-la. A minha mãe tem agora 91 anos, está totalmente imobilizada num lento declínio que dura há anos. totalmente quer dizer que não move um músculo, já mal articula as palavras, temos que lhe virar a cabeça na almofada e não engole sólidos. Ainda assim, está bastante lúcida, embora a memória se baralhe. Mas há dias a médica disse-lhe que as análises estavam boas e, a brincar, que assim ainda vai celebrar os 120 anos, ao que a minha mãe respondeu "pode ser, mas não tenho tanta certeza disso". Quer viver, apesar de tudo. E foi o que vi em todos antes dela. Acho que não podemos avaliar pela nossa cabeça saudável, pelo que sentimos quando estamos na plenitude, a natureza vai adaptando as pessoas para cada fase da vida. E conheço um caso igual ao do seu amigo, diálise dia sim dia não, além disso uma vida pessoal trágica, sem sombra de felicidade, uma mulher bonita e infeliz a vida toda, ainda a vi há dois dias, "lá vou para a minha cruz", disse-me ela, "mas ao menos saio de casa e agora não está frio, no Inverno é pior". E é assim, acho eu, cada pessoa o seu mistério.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Bartolomeu
Há muito tempo que penso que os nossos problemas financeiros, que os temos, são o resultado da nossa inacção colectiva para fazermos diferente.
Falta-nos empenho colectivo e voluntário, como muito bem diz. A sociedade civil é pouco activa e interventiva, também pouco esclarecida, está habituada a que alguém mande fazer.
Tem toda a razão, uma sociedade digna é aquela que trata bem os seus velhos. Penso que precisamos de fazer renascer os laços de entreajuda familiar e comunitária que se perderam um pouco devido ao fenómeno apressado e deslumbrado do desenvolvimento económico. No caso em particular do envelhecimento, precisamos de pensar em conjunto para conseguirmos melhores resultados. É preciso dar um sentido de vida à longevidade, aproveitarmos este milagre para vivermos com dignidade, os que são velhos e outros que para lá caminham.
Suzana
Não pensamos colectivamente nos assuntos. As discussões são sempre centradas no imediato, discutem-se décimas dos défices e discutem-se décimas de euros nas pensões. Não é por aqui que conseguiremos estruturar uma sociedade decente e justa. O tema do envelhecimento activo, assim como o da natalidade, é dos poucos que poderia ajudar a construir um futuro colectivo melhor. Mas não, andamos a discutir o passado. Não sabemos aproveitar o que de bom o desenvolvimento nos proporcionou. Andamos distraídos, mas a realidade está aí implacável, a esperança de vida saudável está a piorar.
Caro Zuricher
Estou um pouco como a Suzana no seu comentário. É muito difícil estabelecermos regras sobre o que deve ser o íntimo das pessoas perante os infortúnios da vida. Devemos, sim, ter uma sociedade, a começar pela família, que previna tanto quanto possível situações prejudicais a uma vida normal – digna e feliz - e ajude as pessoas a ultrapassarem situações em que sozinhas não o conseguem fazer. Os infortúnios podem surgir em qualquer momento da vida, mas há muitas coisas que podemos e devemos evitar ou mitigar. Os progressos que fizemos nos serviços de saúde são um bom exemplo.
É indiscutível o bem que representa a longevidade, mas é realmente discutível como devemos preparar e viver essa longevidade. E é aqui que temos que fazer melhor como sociedade. Não são satisfatórios os números. Os números são pessoas, as suas vidas, somos todos nós, um país.
O envelhecimento não deve ser deixado “à solta”, temos obrigação de o preparar e cuidar dele. O meu texto vem neste sentido. Não temos que ser diferentes dos outros pela negativa. Os outros mostram-nos que é possível fazer diferente. Temos que nos interessar pelo envelhecimento activo, mas não é com proclamações ou constituindo comissões aqui e ali que vamos fazer alguma coisa de jeito.

IsabelPS disse...

Eu vejo sempre indicador com a maior desconfiança porque tem uma componente auto-reportada. Alguma vez alguém já ouviu um português (e sobretudo uma portuguesa) responder à pergunta "Como vai a saudinha?" com um ar prazenteiro "Vai óptima!" Oh que não... O mais que se consegue é "Vai-se andando".

Parece que estou a brincar, mas não estou até os inquéritos sobre a saúde das crianças dão os mesmos resultados. Os indicadores são muito bons, o pior é quando se lhes pede para classificarem o seu estado de saúde: é vários pontos percentuais abaixo dos ditos indicadores.