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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Eleições e comunicação social

(Clicar para ampliar. As setas da infografia do New York Times mostram como o eleitorado se moveu de um partido para outro entre 2012 e 2016)
"... Todas as principais publicações alinharam entusiasticamente (à campanha contra Trump). Sem recorrer a sites de extrema-direita, o único site que defendia Trump foi o extraordinário Drudge Report. Foi só através dele que comecei a achar – e aqui vim dizer – que o eleitorado reage sempre mal às ordens paternalistas dadas por uma unanimidade de comentadores, jornalistas e celebridades. A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social..."
 Miguel Esteves Cardoso, no Público
Nota: O post é sobre eleições e comunicação social, só e mais nada.

6 comentários:

JM Ferreira de Almeida disse...

Sim, uma derrota dos órgãos de comunicação social (ocs) como eles são, e uma vitória da democracia como ela é. Nenhuma destas conclusões - qualquer delas certeira - me deixa tranquilo. Primeiro porque se comprovou que em vez de mediarem os ocs interpretam e manipulam com a consciência de que nesta sociedade nenhum político ou nenhuma política se afirmam sem a sua veiculação. Segundo, porque Trump é o escolhido pelas regras da democracia para governar a maior potência do mundo. E isso faz-me temer, e muito, face à democracia que elege Trump, mas com base no mesmo radical de legitimidade, escolhe Maduro na Venezuela, Viktor Orbán na Hungria ou Recep Tayyip Erdoğan na Turquia. Perversa esta comunicação social (lá como cá), mas assustadora esta democracia...

Suzana Toscano disse...

Apesar de tudo, Zé Mario, Trump nāo me inspira, por enquanto, esses receios, não lhe vejo nenhuma semelhança com os protagonistas de outras paragens que refere, nem a América tem a fragilidade política e histórica desses países em matéria de democracia e de força da voz dos cidadãos, bem pelo contrário. Parece mais que se terá candidato por basófia, por uma irreverência brutal para com os políticos instalados e abençoados pelos jornais e televisão, é um milionário assumido que gosta de exibir que "venceu na vida" e, apesar da sua extravagância, mau gosto e má educação, não deixa de lhe agradar muito agradar aos outros, ser popular. E duvido que queira fazer má figura na América, mas vai dar muito trabalho à Europa, sobretudo se o Presidente da Comissão Europeia continuar com os seus ditos paternalistas, enfadados e patetas e, convenhamos, muito pouco respeitosos dos americanos que elegeram aquele Presidente. Se Juncker continua assim, ainda vai conseguir unir os americanos em torno de Trump.

Rui Fonseca disse...


Caríssimo António,

Se houve, e houve certamente, influência da comunicação social na opção de voto dos menos informados (foram sobretudo eles que decidiram as eleições num sistema que não se decide pela maioria do voto popular), essa influência beneficiou Trump porque lhe concedeu muito maior permanência em palco. "Não receio que falem mal de mim desde que falem de mim", foi o mote que o catapultou.

Poderia ou deveria a comunicação social, e não estamos a falar de tablóides, mas de media prestigiados como o New York Times, o Wall Street Journal, o Washington Post, o Financial Times, o Economist, etc., ignorar as alarvidades que Trump bolsou?

Não, Caríssimo António.
O cronista que citas, que não podemos esquecer teve um papel muito interventivo há umas décadas atrás num semanário de vida curta, foi especialista na intriga política. Depois foi romancista de fôlego fátuo. Ultimamente dedica-se a cronicar lamechas e apreciações gastronómicas. Faz pela vida, mas não deixou de ser um cabotino.

As suas afirmações não explicam porque é que Donald Trump foi o candidato dos republicanos contra a clara vontade de uma grande parte do GOP. Do meu ponto de vista, o que explica a vitória de Trump contra o "seu" partido explica também a vitória dele contra Clinton.

Para perceber o que se passou temos de perceber as razões de sucesso
do populismo que alastra agora por todo o mundo ocidental.Mesmo considerando a enorme disparidade dos contextos históricos, vale a pena reler a biografia de Hitler de Ian Kershaw.

Obama herdou o governo de um país em crise explosiva e deixa a Casa Branca com cerca de 57% de popularidade.

O MEC, cronista gastronómico, poderia ter-se dedicado a perceber o resultado do cozinhado analisando como se comportaram os diferentes ingredientes. Optou pelo caminho mais fácil: culpou o grupo daqueles de que já fez parte. Problema de má consciência claramente mal resolvido.

Pinho Cardão disse...


Caro Ferreira de Almeida:
Por uma vez, discordo parcialmente. A democracia que elege Trump é, com a inglesa, talvez a mais solidificada do mundo, comprovada em mais de dois séculos consecutivos de história, com eleições estaduais e nacionais, com duas câmaras, senadores estaduais e nacionais, com instituições enraizadas, etc, etc. E os candidatos presidenciais passam por uma longa apreciação popular, numa terra de imprensa, rádio e televisões livres e uma população razoavelmente educada. Nada a ver com democracias da América Latina, mormente Venezuela, onde a imprensa não é livre e a liberdade de voto é uma miragem. E nada a ver mesmo com países europeus, como a Hungria, só com prática democrática muito recente, e ainda menos com a Turquia, por razões históricas, culturais e religiosas. Assim, e por uma vez ao contrário do meu caríssimo amigo, não me assusta a democracia americana. Instituições tão enraizadas e sólidas são capaz de corrigir erros e balancear opções, mesmo que de um Presidente eleito, seja ele qual for.

Cara Suzana:

Pois estou de acordo com a minha amiga. E, quanto a Juncker, bom, o menos que há a dizer é que é mais uma asneira que deita cá para fora. E , como bem diz,só pode dificultar as relações com os EUA. Mas, como está a cavalgar a onda, tem todo o apoio mediático.

Caro Rui:
O meu post, como referi, era sobre eleições e comunicação social. E, penso eu, a comunicação social não é sempre, nem a maioria das vezes, diria até quase nunca, aquela elite de iluminados que indicam o caminho certo, como arrogantemente costumam fazer.

Posto isto, parece-me que o teu comentário ainda vai mais longe do que o do MEC. Dizes que "a comunicação social beneficiou Trump porque lhe concedeu muito maior permanência em palco. "Não receio que falem mal de mim desde que falem de mim", foi o mote que o catapultou". E depois referes que que media prestigiados não poderiam ignorar as alarvidades de Trump.
Concluo então que foram os tais media prestigiados os grandes fautores do triunfo de Trump, o que, para quem considere o candidato mau, tem forçosamente que considerar que os media são piores...
Sans rancune e com amizade

Rui Fonseca disse...


Estimado António,

Parece que não me fiz entender.

Atribuir à comunicação social influência nos resultados eleitorais é redundante: é evidente que a comunicação social influencia os resultados, e nem sempre no sentido pretendido pelos seus jornalistas ou comentadores. E é redundante porque essa é a sua função. Sem reportagem e crítica, não há jornalismo.

Poderiam ou deveriam os media ouvir e calar?
E nós, tu e eu, deveríamos coibir-nos de dizer o que pensamos, ainda que não seja relevante o que pensamos e escrevemos?
O direito de opinião é um dos pilares da democracia.

No NYT está escrito que Trump fugiu aos impostos usando habilidades de legalidade duvidosa, no Financial Times afirma-se que Trump é suspeito de ligações a redes de branqueamento de capitais.
Pelos vistos estas e outras notícias não motivaram milhões de eleitores a relegar Trump mas isso não diminui o interesse colectivo na sua divulgação.

Ou não?

JM Ferreira de Almeida disse...

Meu caro Pinho Cardão, como anotei acima num comentário a um post da Suzana, está visto que Trump e as eleições americanas nos divide. Pelo menos nas perceções, que, creio, o futuro próximo permitirá perceber mais nitidamente.
Quanto à afirmação que o meu Amigo faz sobre a solidez da democracia americana (a par da inglesa), também não concordo. No plano formal talvez o meu Ilustre Amigo tenha razão. Do ponto de vista substantivo creio que muitas das instituições da democracia americana não obteriam o acordo do meu Amigo se alguém as quisesse para aqui transplantar. Deixe-me no entanto dizer-lhe, com toda a consideração, que as regras e princípios por que se regem a Hungria e a Venezuela - a Turquia conheço mal -, não são menos "democráticas" que as dos EUA nem o voto do cidadão é ali menos esclarecido que o que permite os resultados nos EUA. Estou a ouvir o meu Amigo a dizer-me: "no plano formal certamente que não!". Pois é...