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domingo, 22 de novembro de 2009

Uma espécie de "jogo do gato e do rato"...

Quando entrei hoje de manhã no carro e abri o rádio estava a decorrer uma entrevista ao líder de um grupo parlamentar. Não estava propriamente para aí virada. Preparava-me para procurar um bocado de música, o que fiz logo de seguida, mas acabei por me reter uns minutos na entrevista por me ter despertado a atenção, quase instantânea, uma troca de perguntas e respostas em que dei comigo a pensar onde eu que já ouvi ou vi isto? Confesso que não me lembro da substância da conversa, pois fiquei presa no vazio das palavras
Assistimos cada vez mais à construção de conteúdos de notícias políticas através, justamente, do seu próprio vazio. Como é possível? Não deveria ser, mas é assim que acontece.
É assim que surgem as perguntas e respostas numa espécie de "jogo do gato e do rato”. O entrevistador ou jornalista faz uma pergunta acompanhada da conveniente resposta, para no final concluir questionando o entrevistado com um concorda ou um confirma. É, então, que o entrevistado responde não concordo nem confirmo.
Então segue-se uma coisa deste género.
. Bem, então, podemos concluir que não?
. Não, eu não disse, que não!
. Então, podemos concluir que sim?
. Não, eu não disse que sim, não quero dizer nem que sim nem que não!
. Bem, mas então podemos depreender das palavras que é possível que seja sim e também é possível que seja não?
. Sim, tudo é possível, mas agora não é o momento de discussão!
. Bem, então, é porque já tem uma ideia ou uma decisão, mas não quer falar?
. Precisamente, agora não é tempo de falar, porque se eu disser que não, os senhores vão concluir que eu não disse bem que não, que disse que sim, ora eu não disse. E como já sei que depois vão retirar conclusões diferentes daquelas que queria dizer, o melhor é não dizer nada!
Esta sucessão do disse que disse e que não disse e do disse que não disse mas que afinal disse, faz-me lembrar as crianças muito pequenas na fase da curiosidade em que não param de fazer perguntas, daquelas que às vezes deixam os pais atrapalhados, querendo saber tudo, mesmo aquilo que ainda é cedo para saberem.
Começam com o porquê? E depois vem uma resposta dos pais, às vezes pouco pensada e cuidada, para logo de seguida a criança voltar a perguntar porquê? E de porquê em resposta e de resposta em porquê a conversa que nunca mais acaba, termina, não raras vezes, em nada, com os pais cansados, mas divertidos, de tantos porquês e respostas e com a criança muito contente com a sua infinita curiosidade.
Às vezes há momentos em que não convêm de todo certas perguntas e certas respostas, mas o fruto proibido é sempre o melhor. Enfim, às vezes o silêncio é mesmo de ouro. O problema é que na era mediática em que vivemos, o direito ao silêncio, que em determinadas circunstâncias deveria ser um dever do silêncio, é cada vez mais difícil de exercer, embora cada vez mais valioso o seu sábio exercício.
Por um lado, os media são incansáveis na sua insaciável “procura da verdade” e necessidade de vender e fazer o futuro e, por outro lado, os protagonistas da política, e os outros que não sendo não resistem aos holofotes, são fazedores de expectativas na busca permanente de afirmação, esquecendo o passado e fazendo do presente o futuro. E assim se reúnem os ingredientes para um bom "jogo do gato e do rato"...

LIXO!


"Lisboa, 22 Nov (Lusa) - Documentos de processos judiciais, com a identificação e os contactos dos intervenientes, foram deitados nos caixotes do lixo do Palácio da Justiça de Lisboa, na via pública, um acto ilegal que viola a confidencialidade e as normas dos tribunais.

Escrituras com nomes, moradas e telefones, relações de heranças, notificações para audiência e peritagens de seguradoras com identificação das viaturas são exemplos de documentos encontrados pela agência Lusa em diversos contentores com a tampa aberta, à mão de quem passa na rua e colocados nas traseiras do Palácio da Justiça, em Lisboa.

Em apenas três sacos, das dezenas distribuídas pelos nove contentores ali instalados, a Lusa identificou várias peças processuais, incluindo uma disquete contendo uma acção judicial completa".

Calculo que, após a divulgação desta notícia (i) Os sindicatos verão aí a prova da falta de condições em que trablham os agentes da justiça, obrigados a desembaraçarem-se assim dos residuos dos processos; e (ii) os partidos da Assembleia da República discutirão nos próximos dias uma alteração da lei, quiçá uma lei nova, para por cobro à situação.

E confirmo a ideia, que já tinha firmada, que há quem não resista à atracção de um bom caixote do lixo e que veja nele uma fonte inesgotável de informação...


sábado, 21 de novembro de 2009

O défice pode ser disfarçado, mas a dívida não engana!

Segundo o Orçamento Rectificativo agora apresentado (redistributivo, diz comicamente Teixeira dos Santos), o Governo pediu autorização para contrair dívida pública até 15 mil milhões de euros, valor equivalente a 9,2% do PIB, estimado em 163 mil milhões de euros. O mesmo Governo prevê um défice orçamental de 8% deste valor, logo um défice à volta de 13 mil milhões de euros.
Do que resulta uma diferença de 2 mil milhões de euros entre a dívida que o Governo se propõe contrair e as necessidades de fundos para cobrir o défice orçamental.
O que é que isto significa?
Significa que o Governo não apenas gastou mais nas rubricas que tinha orçamentado, como ainda incorreu em custos adicionais de 2 mil milhões de euros à margem do Orçamento, isto é, que nem tinha previsto nem incluído no orçamento rectificativo que tinha apresentado já em Janeiro deste ano.
Não acreditando que esse valor corresponda aos 1,8 mil milhões de euros que vêm sendo referidos como resultantes da nacionalização do BPN, dado provavelmente não haver tempo para apurar o custo total só possível conhecendo as receitas da reprivatização, que dificilmente terá lugar este ano, o diferencial de 2 mil milhões refere-se certamente a despesas que, não onerando nem passando pelo défice, vão directamente à dívida pública.
Contra todas as regras. Para o ano, e como habitualmente, lá virá o Tribunal de Contas a falar de desorçamentação. Mas isso que importa para o Governo eleito, se não há sanção, e foram essas despesas que ajudaram à reeleição? Razão de facto têm aqueles que classificam o nosso Ministro entre o pior e o quarto pior da União Europeia. Pela amostra, eu diria o mesmo do Governo.
É que o défice pode ser disfarçado. Mas a dívida pública e dos organismos públicos não enganam!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O ginásio dos anos 50...

Assim eram os ginásios dos anos 50! Bem mais divertido do que correr em cima de um tapete rolante com os olhos postos no contador das calorias consumidas...

Síndrome bipolar colectiva?

Têm surgido várias teses que procuram vender a ideia de que a pandemia da Gripe A é uma criação da indústria farmacêutica que anda a ganhar muito dinheiro com as vacinas.
E teorias da conspiração também não têm faltado, havendo uma teoria defendida, segundo li, por uma auto-proclamada ex-ministra da saúde da Finlândia, que considera a Gripe A um produto dos americanos destinado a extinguir a população de várias regiões do mundo. Muitas conjecturas têm sido feitas acerca da pandemia do vírus H1V1.
Li na última edição da revista Sábado (não consegui fazer o link porque o documento não está disponível on line) uma teoria diferente, que foi para mim uma novidade. Desconheço a sua credibilidade, mas encontro-lhe alguma aderência à realidade.
Trata-se de uma entrevista realizada a um psiquiatra e professor da Universidade de Erlangen – Nurnberg na Alemanha, Wolfgang Sperling, que defende a teoria de que a epidemia da Gripe A é um efeito da crise económica e que esta e a recessão são sintomas de uma mesma doença colectiva. Segundo o psiquiatra, o vírus H1N1 deu origem a uma epidemia e a explicação para a sua eclosão é a ligação entre o seu aparecimento e a crise mundial e que essa ligação são os meios de comunicação social que classifica de “bombardeiros de informações”, capazes de, cada vez mais, criarem a nível global estados de alternância emocional de euforia e de depressão.
Sendo dois acontecimentos tão diferentes, um na esfera económica e outro na esfera da saúde, ambos assumiram uma dimensão pandémica com a ajuda dos media.
Explica, então, que a humanidade sofre da síndrome bipolar com os sintomas e as reacções próprias de um doente bipolar. A síndrome bipolar é a alternância brusca entre dois sentimentos muito diferentes que causam ansiedade. De um lado, temos as emoções ligadas ao estado de depressão; do outro lado, as ligações ao estado de euforia.
No caso da crise financeira despoletada pela Leman Brothers o sentimento global de depressão que se instalou agiu como facilitador para o advento da epidemia. Há uma ligação clara entre os humores da economia e da saúde pública, sendo razoável supor que uma crise económica mundial afecte o sistema imunológico, criando-se o ambiente propício para eclodirem epidemias.
O que me parece interessante nesta teoria utilizada para explicar o pânico que se instalou em torno da Gripe A, é que realmente o mundo parece mover-se por elevadas expectativas que conduzem a epidemias, ora de euforia, ora de depressão, em que os “bombardeiros de informações” ávidos de fazer e vender notícias, de ganharem guerras de audiência e aumentarem a sua share introduzem a adrenalina suficiente para gerar espirais colectivas de comportamentos irracionais difíceis de deter.
Não é difícil transportarmos estes fenómenos para Portugal e verificarmos que os media se assumem muitas vezes como verdadeiros protagonistas de processos - exercendo uma influência significativa no seu rumo e no seu desfecho e mobilizando comportamentos de elevada carga emocional despidos, não raras vezes, de racionalidade e lógica - que atingem uma dimensão nacional mediática perigosa, dificultando o normal funcionamento das instituições.
Será que a globalização da informação, que já é um património da humanidade inalienável, está a motivar síndromes bipolares colectivas?

Riram-se da denúncia da asfixia democrática?

E se for verdade isto?
«Na entrevista [ao SOL], José António Saraiva diz que uma pessoa do círculo próximo do primeiro-ministro, e que conhecia muito bem a situação do SOL e a relação com o BCP, disse-lhe que os problemas financeiros do jornal ficariam resolvidos se não fosse publicada a segunda notícia sobre o Freeport».

A singeleza da democracia europeia

Nada de celeumas desnecessárias, discussões eternas ou a maçada dos aerópagos reunidos para escolher candidatos ou traçar-lhes o perfil. A democracia europeia é bem mais chique e ao mesmo tempo eficaz. Entre a sopinha e o prato principal escolhe-se a alta representante para os assuntos externos da UE; antes que a sobremesa aqueça, vai de escolher o presidente do Conselho Europeu. Por alturas do digestivo brindaremos a este exercício da democracia simplex, erguendo os copos e gritando em uníssono: PORREIRO, PÁ!

BPN: privatizar o quê e como?

1. Foi ontem anunciada a decisão de privatizar o BPN pouco mais de um ano após a polémica nacionalização deste Banco.
2. Não deixa de ser curioso notar que as notícias referem a privatização do capital social do BPN – quer dizer que se vai privatizar algo que de todo não existe?
3. O capital social do BPN é hoje um conceito abstracto, toda a gente saberá que esse capital social foi totalmente (várias vezes, até) “comido” por prejuízos, desapareceu na voragem insaciável dos prejuízos – como é possível assim privatizar uma mera abstracção, algo cujo valor é reconhecida e expressivamente negativo?
4. Nada é dito, por outro lado, quanto à assunção dos prejuízos líquidos do Banco pelo Estado – alguém acredita que um investidor, por mais generoso que seja, vai adquirir o BPN com uma situação líquida negativa de € 2 mil milhões ou superior (é o valor que tem sido publicitado) sem que o Estado assuma previamente o compromisso de repor essa quantia de forma a colocar o capital próprio em ZERO pelo menos?
5. Estão assim por esclarecer aspectos fundamentais desta operação, sem os quais a mesma se afiguraria à partida destinada a um insucesso...
6. Mas não parece crível que os responsáveis governamentais não tenham percepção exacta destes mesmos problemas, pelo que oportunamente não deixarão, por certo, de esclarecer o mercado - e o "taxpayer" - sobre a forma escolhida para os resolver.
7. Aguardemos pois pelos próximos episódios, este assunto ainda deverá dar muito que falar, até pelas implicações orçamentais que certamente levantará...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O último a saber!...

Perante todas as evidências, o Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, vinha afirmando, insistente e regularmente, inclusive já neste mês de Novembro, não haver necessidade de Orçamento rectificativo. As contas do Estado estão sob controle, dizia o Ministro.
Hoje, o Conselho de Ministros aprovou o Orçamento Rectificativo para 2009.
Face às afirmações que vinha proferindo, Teixeira dos Santos terá sido o último a sabê-lo. Acontece aos melhores e em muitas situações…
Noblesse oblige, lá teve de o anunciar. Todavia, numa atitude de suprema arrogância, teve o desplante de o classificar como Orçamento Redistributivo!... Como se qualquer orçamento também não o fosse.
Não admira.
O Ministro das Finanças acaba de ser nomeado pelo Finantial Times como o quarto pior Ministro das Finanças da União Europeia.
Estamos fartos de o saber, não pela análise fria dos números, como o Finantial Times, mas pela realidade vivida.
Aqui, no 4R, temos cumprido um verdadeiro serviço público de chamar a atenção para as erradas políticas públicas. Que obviamente produzem os efeitos que agora se confirmam e o Governo é obrigado a rectificar. Ou, segundo Teixeira dos Santos, a "redistribuir". Mas o que é facto é que somos nós mais uma vez a pagar !...

Maldito acordo ortográfico!


Os efeitos do polémico acordo ortográfico estão a fazer-se sentir de forma inesperada, gerando a maior dificuldade em entender palavras que antes tinham um sentido preciso e que hoje se tornaram autênticas nebulosas.
Por exemplo, há uns anos falava-se em orçamentos suplementares, na altura em que se recorria a alterações do orçamento para aumentar a despesa. Mas houve um ano em que o objectivo era apenas alterar a despesa e não aumentá-la e, para marcar a diferença, passou a chamar-se orçamento rectificativo. Essa expressão foi consagrada até que hoje ouvimos o Ministro das Finanças anunciar que vai propor um orçamento, não rectificativo, não suplementar, mas redistributivo, ao que parece porque a razão que o determina não é nenhuma das outras. Depois de muito instado pelo confuso jornalista, que teimava em lembrar os qualificativos anteriores, o Ministro acabou por remeter para a “expressão técnica” da Lei de Enquadramento que fala em “alterações orçamentais”.
Também tivemos hoje oportunidade de assistir, durante 4 horas, a um debate no Parlamento do qual deveria ter resultado claro se havia, ou não, a suspensão do sistema de avaliação dos professores. Em vão. Não houve suspensão, diziam uns, antes se optou por dar orientações para que as escolas não desenvolvam “procedimentos desnecessários”, uma vez que o modelo vai ser alterado. Outros diziam que sim, que devia haver suspensão, porque sem isso vão continuar os procedimentos necessários porque os outros, os tais que seriam desnecessários, já não teriam lugar em caso algum, precisamente porque o modelo vai ser substituído. Ou seja, não se suspende o que já não se faria ou suspende-se o que estava a ser feito? Em todo o caso, parece que a suspensão deu lugar à substituição, para evitar a confusão (salva-se a terminação…).
Há também o caso da dívida externa, que aumenta com o consumo mas não é para aqui chamada quando se trata de fazer obras públicas que exigem empréstimos, não, isso não é dívida, mas investimento.
O que me parece é que os críticos do acordo ortográfico nunca suspeitaram que a confusão entre factos e fatos era muito mais grave do que se podia prever. É que, na criatividade portuguesa, ao cair o “c” os factos deram lugar a fatos…à medida!

Vírgula

Recebi por mail este excelente texto que me dizem fazer parte de uma campanha da Associação Brasileira de Imprensa.
Cá vai ele:

Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não, espere.
Não espere
.

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.


Pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.

Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto...

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!

SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.
Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER.
Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM.

Ministros e media, a mesma luta: the show must go on

Após o Ministro Correia de Campos “racionalizar” as maternidades, não houve dia em que não fossem noticiados partos nas ambulâncias, de norte a sul do país. Antes, não havia partos nas ambulâncias; passado algum tempo, também deixou de haver.
Aqui há uns anos, por alturas do verão, os incêndios abriam os telejornais e novos incêndios fechavam os telejornais. Com o Ministro António Costa, os incêndios passaram a ignições, e este ano nem ignições de jeito foram noticiadas. No entanto, veio a saber-se que, mesmo sem incêndios ou ignições, o número de fogos foi maior e a área ardida também superior à de muitos anos anteriores.
Após o início da vacinação das grávidas contra a Gripe A, aconselhada pela Direcção Geral de Saúde e pelas autoridades médicas, quase não há dia em que não é noticiada a morte de uma criança em gestação em grávida vacinada. Antes, não havia morte de fetos; daqui a algum tempo, deixará também de haver.
A comunicação social está ávida de produto para alimentar o circo diário a que chama informação. E os políticos servem-lhe o produto em bandeja de prata. Assim facilmente servidos, e porque campanha promove campanha e propaganda atrai propaganda, os media não desmontam o circo e habituaram-se a viver dele. Escolhem os números e seu bel-prazer, tendo sempre nos ministros os comediantes mais disponíveis e reverentes.
No fim, é uma verdadeira estratégia win, win, tão grata aos aprendizes de tecnocratas governantes socialistas. Ganham existência os Ministros que aparecem nas televisões, e ganham as televisões com o espectáculo rasca, mas barato, que a partir daí promovem e desenvolvem. Opiniões científicas e técnicas têm a mesma valia que sentimentos pessoais de cidadãos entrevistados, muitos ainda na emoção da dor que a matéria em apreço lhes causou.
Mas perde o cidadão, que não é informado com seriedade e as suas dúvidas aumentam. Torna-se, também ele, terreno fértil para toda a manipulação.
Mas isso que importa? Aos Ministros, o que lhes interessa é fazer prova de vida; às televisões, prova de audiências. The show must go on!...

Desemprego é culpa da crise internacional...e PIB é obra nossa?

1. Numa sucessão algo desconcertante, foram na semana passada e já nesta divulgados dados característicos do andamento da conjuntura económica doméstica:
- O PIB, embora mantendo uma variação homóloga bastante negativa (-2,7%) cresceu 0,9% do 2º para o 3º trimestre, acima do ritmo médio observado na União Europeia que foi de 0,4%;
- O desemprego registou forte subida no 3º trimestre, para 9,8% da população activa, o valor mais elevado desde a mega-crise de 1983.
2. Como é habitual nestas conjunturas, logo que os números aparentemente favoráveis do PIB forma divulgados, assistimos a um coro de auto-congratulações por parte de alguns prestimosos comentadores e de responsáveis governamentais, revisitando falsa ideia de que esta melhor performance de um trimestre se deve a “trabalho de casa”, a sinalizar que estaremos no bom caminho...
3. Entretanto chegaram os dados muito comprometedores do desemprego e a reacção oficial não se fez esperar: esses são consequência da crise internacional...as reacções da oposição também não destoaram do habitual responsabilizando as políticas do Governo pelo forte aumento do desemprego.
4. Sempre que aparecem dados um pouco mais favoráveis os responsáveis governamentais não resistem à tentação propagandística de reclamar méritos que não são seus...e depois, como é natural, têm a maior dificuldade em explicar porque é que os dados desfavoráveis como este do desemprego são alheios à sua acção...
5. Por sua vez a oposição, em contra-ciclo, costuma desvalorizar as boas notícias e acentuar as más...
6. Já por várias vezes aqui tenho procurado exprimir a opinião de que o desempenho no curto prazo de uma economia tão aberta e dependente do exterior como é a nossa, em que os decisores se encontram quase desprovidos de instrumentos de actuação sobre a procura, nada ou quase nada tem a ver com políticas do Governo.
7. Assim, a evolução mais favorável do PIB no 3º trimestre é tanto obra do Governo como é sua responsabilidade o aumento do desemprego no mesmo período...
8. Parece-me todavia que estou pregando no deserto, pois a cada vaga de novos dados, melhores ou piores, a cena do auto-elogio ou da exclusão de responsabilidades repete-se invariavelmente...com a oposição em contra-ciclo.
9. Na nossa específica situação os Governos terão influência no desempenho das variáveis económicas no longo prazo, assumindo políticas que estimulem o investimento nos sectores mais competitivos...nós optamos pelo investimento em sectores pouco competitivos, comprometendo nesse esforço os escassos recursos de que ainda dispomos e atirando para as futuras gerações encargos cada vez maiores decorrentes desse esforço – o que podemos esperar nesse futuro?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Uma aprendizagem fundamental

A Junta da Extremadura espanhola iniciou uma campanha, financiada pelo Governo regional, “el placer está en tus manos”, que quer “pôr os jovens espanhóis entre os 14 e os 17 anos em contacto com o seu corpo e com a sexualidade”, sendo que “as técnicas de masturbação estão entre os assuntos debatidos e explicados”.
A cadeira incluirá tudo o que “é preciso saber sobre jogos eróticos, carícias, auto-erotismo e anatomia masculina ou feminina”. As sessões incluem demontrações com uma série de “brinquedos sexuais”, incluindo vibradores e bolas chinesas. E duas formadoras coordenarão o programa. Que deixa “especialmente orgulhosa” a Presidente do Conselho da Juventude.
Bom, não sei como foi estruturado cientificamente o curso de masturbação. Mas, a avaliar pelos nossos cursos, uma sua eventual introdução em Portugal não fugiria muito do esquema seguinte:
-1º semestre- semestre dedicado a Noções Fundamentais de Masturbação ou Introdução à Masturbação, respeitando a autonomia das escolas
-2º semestre- semestre dedicado a aprofundar a matéria na cadeira Teoria Geral da Masturbação , com aulas teóricas e exercícios práticos
-3º Semestre- o plano de estudos prosseguiria com Técnicas Avançadas de Masturbação, sendo aí elaborados os trabalhos finais, individuais e de grupo.
Claro que esses trabalhos seriam depois devidamente submetidos a exame, a fim de os alunos obterem a sua licenciatura de Bolonha em masturbação técnica. Obviamente que seguiria o Mestrado e o Doutoramento, com as devidas e exigíveis bolsas de estudo.
E por aqui me fico, ainda acabrunhado pela ignorância em que o fascismo e este regime respectivamente deixaram e têm deixado a juventude portuguesa. O exemplo das boas teorias e das boas práticas está aqui ao lado. Para que a juventude entenda a sexualidade como “fonte de prazer”.
Nota: As aspas transcrevem frases da notícia do Público de 15 de Novembro, página 20, sendo que algumas delas se referem ao original.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O rentável negócio da exploração do escândalo

Em nome de que valores, de que interesses, se deve fazer o combate pela transparência da vida pública?
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O circo mediático que se monta a propósito dos frequentes escândalos que, com frequência, têm atingido pessoas e instituições, interroga-nos sobre se o que está muitas vezes em causa não é o superior interesse do respeito e da salvaguarda da moralidade e da ética públicas, mas interesses dos próprios media ou de quem deles se serve para inconfessáveis propósitos.
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Num tempo em que o princípio da presunção da inocência, uma das traves mestras do nosso tão badalado Estado de Direito, é substituído pelo seu contrário, pela presunção inelidível da culpa, sem que ouça o mais ligeiro protesto daqueles que sempre aparecem como os arautos e defensores da moralidade republicana, não se pode acreditar nas boas intenções de quem explora o escândalo e faz dele o alimento do seu negócio.
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Num tempo em que os mais altos responsáveis deste País assistem complascentes e medrosos - não vá acontecer-lhes o mesmo! - a verdeiros julgamentos e condenações sumárias na praça pública, a justiça feita no recato dos tribunais passou a ser coisa dispensável, que só interessa quando acentua ou amplia o escândalo.
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Quando o segredo de justiça é violado pelos próprios agentes da justiça no mais absurdo clima de impunidade, chegámos áquele ponto de concluir, à margem de qualquer dúvida, que a justiça não está ao serviço do Povo mas dos interesses de uns tantos que dela se servem, arruinando de vez com os fundamentos de um Estado que, em 1976, os constituintes quiseram subordinado à lei e ao Direito.
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A revolução tecnológica sempre em curso

Quando comecei a trabalhar, há umas dezenas de anos, já havia uma revolução tecnológica em curso, a que antecedeu muitas outras e se tinha sucedido a outras tantas. Essa era a que ia substituir as velhas máquinas de escrever, que implicavam que se pusesse duas folhas novas quando a dactilógrafa se enganava, uma para escrever de novo o trabalho, outra para ficar com a cópia impressa através do papel químico, colocado entre as duas folhas. Os ministérios compravam máquinas automáticas e fotocopiadoras e até já havia uns computadores gigantes só acessíveis a uns magos que percebiam para que é que aquilo servia.
Quem me ajudou a perceber o novo mundo em que tinha acabado de entrar foi uma rapariga, poucos anos mais velha que eu, que era administrativa e que me surpreendeu não só pela generosidade com que me explicava tudo mas também pela curiosidade que tinha pelos assuntos jurídicos, que aprendia com toda a facilidade. Era muito magra e pálida e a sua timidez mal encobria uma força de vontade e uma determinação que se revelaram em pouco tempo. Um dia perguntei-lhe porque é que não tinha estudado mais e se nunca tinha pensado em ir para a faculdade de Direito, já que era matéria para a qual tinha manifesta vocação.
Contou-me então que era de uma aldeia do Norte, de família pobre e com muitos irmãos e que ela e uma irmã tinham vindo para Lisboa porque sofriam ambas de uma doença cardíaca grave. Mas a irmã tinha acabado por morrer porque só uma operação em Londres é que podia salvá-la, cá ainda não havia meios para acudir à doença. Então e ela?, perguntei angustiada, a reparar de repente na palidez e na fragilidade pouco usuais numa pessoa tão jovem. Ela contou-me que, depois da irmã morrer, entrou em desespero. Via-se sozinha, com um parco salário que fazia Londres parecer uma miragem, os médicos a abanar a cabeça, impotentes, que só em Londres, aqui não havia nada a fazer, ia enganando os pais, para não os afligir espaçava as visitas, até que chegou ao ponto de já nem conseguir fazer a viagem de comboio.
Foi então que o Ministro visitou os serviços, para anunciar o investimento que iam fazer numa dessa máquinas novas, e de quanto iam gastar em formação do pessoal, porque o arranjo de uma avaria era uma fortuna, tudo números que a deixaram aterrada em comparação com o precisava para se salvar. Pareceu-lhe o Ministro pessoa simpática, também não tinha nada a perder, escreveu-lhe uma carta, Senhor Ministro, eu tenho uma doença de coração, preciso de ir a Londres para sobreviver, é a minha única salvação, se fosse uma máquina havia dinheiro para a concertar, como sou só uma pessoa deita-se fora sem substituir as peças, Senhor Ministro eu se fosse uma máquina havia de trabalhar muitos anos mais, quem é que ia deitar fora um instrumento que ainda podia render tanto, assim não tenho esperança, só se o senhor Ministro puser a minha despesa como se fosse uma fotocopiadora, talvez ninguém desse por isso mas eu sim, eu ia trabalhar toda a vida com a certeza de que valho mais do que a máquina mais cara que o Senhor Ministro vai mandar comprar. E fico-lhe muito grata por ler esta carta e pensar, um minuto que seja, que me pode salvar, eu só tenho 28 anos.
Passado pouco tempo recebeu uma carta pessoal do Ministro, com um cheque suficiente para a ida a Londres, ele pedia-lhe que não contasse a ninguém, que era uma viagem que ele ia fazer com a mulher mas da qual abdicava com muita esperança de que a ela lhe fosse o suficiente para se curar.
Ela foi operada em Londres e sobreviveu, já tinha passado mais de um ano quando me contou esta história, estava em franca recuperação. Mais tarde matriculou-se em Direito, ainda fez dois anos mas, apesar de todos os apoios dos colegas, não conseguiu aguentar o esforço e ficou só no emprego, foi promovida várias vezes até ser chefe de secção.
Estive muitos anos sem a ver até que me falou há dias para me contar que se tinha reformado, aos sessenta anos, porque queria aproveitar ao máximo o tempo de vida que ainda espera ter.
Foi assim que aprendi que não há revoluções tecnológicas se as pessoas não contarem sempre mais que as máquinas.

Uma gota de memória...

Nascemos no meio de lembranças esfumadas e esparsas que não passam de pequeninas gotas de água desejosas em se unirem para dar origem ao fino fio de água da memória que, com o tempo, acaba por encher e correr o vale tortuoso da existência, umas vezes com fúria, outras parando para brincar e refrescar.
Os rios não se lembram do local onde nascem, mas recordam com saudade as primeiras gotas que, incessantemente, alimentam a origem da sua vida. Nós também não nos recordamos do momento em que nascemos, mas lembramo-nos das primeiras gotas da memória.
Recordo uma dessas gotas. Numa silenciosa manhã de sol, sentado no chão, olhava para canas finas cortadas ao meio, papel de seda verde-claro e amarelo e cordel, muito cordel ao redor de um pau. Via como se construía um papagaio. Eu já sabia o que era um papagaio. Tinha visto um num jardim de um senhor e que dizia algumas palavras. Era bonito, e eu sempre quis ouvir um pássaro que falasse. Os outros não falavam. Quando disseram que me iam dar um papagaio, julguei que fosse um papagaio dos que falavam. Perguntei o que estavam a fazer. – Um papagaio! Olhei e fiquei atento a ver como se fazia um papagaio. Afinal é possível fazer papagaios.
O papel de seda era verde e amarelo. Esperei que saísse dali um papagaio a falar. – Está pronto! – Mas onde está o papagaio? – Aqui! Não vês? – Não. – Isto chama-se um papagaio. – E voa? – Voa. – E fala? – Fala? Não! – Porquê é que não fala? Os papagaios falam. Foi então que aprendi que havia dois tipos de papagaios, os de papel de seda e os de carne e osso. Eu preferia estes últimos, mas tive que contentar-me com o primeiro. – E agora? – Agora vamos para a rua. Começou a correr e o papagaio levantou voo, e à medida que dava cordel mais alto voava. Estampado no céu azul eu via o meu papagaio verde e amarelo a subir, a subir, com uma cauda feita do mesmo cordel com laçarotes amarelos, verdes e vermelhos. Fiquei de boca aberta. Também quis lançar o papagaio, mas não consegui. Arrastava-o pela rua. Não insisti, porque não queria estragá-lo. – Contigo, voa alto. – Pois voa. E se houver vento, então, ainda voa mais alto. – Até ao céu? – Quase. Mas para isso temos que ir para um ponto alto, onde haja vento. No dia seguinte, de manhã, fomos para um pinhal que ficava um pouco longe. Colocaram um cobertor castanho com riscas amarelas e vermelhas entre os pinheiros numa zona onde não havia mato. Comi sobre o cobertor e descansei depois. Não dormi, porque não podia dormir. Queria ver o meu papagaio a voar alto, muito alto, mais alto do que os pinheiros, a tocar o céu. Lançaram o papagaio. Voou alto, passando acima das copas dos pinheiros e eucaliptos. Olhava para cima e via o meu papagaio a ficar cada vez mais pequenino. Perguntei: - O meu papagaio voa mais alto do que o outro que está no jardim? – Voa. Fiquei satisfeito. O meu papagaio não falava mas voava mais alto. Depois começou a baixar, até que bateu num ramo de um pinheiro. Rasgado, caiu aos trambolhões. Corri e peguei nele. Fiquei muito triste. Estava estragado. Ajudei a levá-lo para casa de mão dada, porque era quase da minha estatura. Em casa, chorei. As canas estavam partidas. Tentaram tranquilizar-me, dizendo que me faziam um novo. Não quis. Eu queria aquele. Não queria outro, porque foi o primeiro papagaio que eu vi fazer sem saber o que era um papagaio de papel. Agora, se visse a fazer outro eu já sabia que iria aparecer um papagaio de papel. E qual é a piada de ver fazer uma coisa que eu já conhecia? Pensei. O melhor era partir para outras gotas de memória que eu ainda não tinha...
A partir de hoje vou no seu encalço. Talvez consiga as recuperar. Assim espero. Até um dia...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O que eu gostava de saber sobre os gastos públicos em I&D

De acordo com o Público de sábado passado, Sócrates e Mariano Gago anunciaram os “resultados” do Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional, no que respeita aos “investimentos” feitos em ciência em Portugal. Classificados por Sócrates como verdadeiramente extraordinários. Assim:
• O investimento em investigação e desenvolvimento ultrapassou, pela primeira vez, 1,5% do PIB, equivalente a 2,513 mil milhões de euros (em 2007, 1,21% do PIB, 1,973 mil milhões de euros. Deste total, o dinheiro investido pelas empresas atingiu os 0,76% do PIB, 1,258 mil milhões de euros (em 2007, 0,62% do PIB e, há cinco anos, inferior a a 0,3%). Assim, o dinheiro investido pelas empresas ultrapassou o “investimento” do Estado.
• O nº de empresas com I&D passou de 940, em 2007, para mais de 1700, em 2008.
• O nº de investigadores em ciência atingiu 7,2 por mil pessoas activas, ultrapassando a média europeia de 5,5 por mil, sendo que esse número se traduz em 40.000, dos quais cerca de 10.000 em empresas e 30.000 no Estado.
• O nº de doutoramentos em 2008, em Portugal, foi de 1500.
• Os investigadores escrevem cerca de 50% dos seus artigos em co-autoria com colegas estrangeiros.
• Em 2007 e 2008, dos 1200 doutorados contratados a cinco anos 40% eram estrangeiros.
Os valores investidos são sempre uma grandeza relativa e dependem dos resultados. Não os “resultados” que Sócrates e Mariano Gago anunciaram, que foi o dinheiro gasto. Nessa anedótica óptica, quanto mais se gasta mais e melhores resultados traz...
Mas, para poder valorar o "investimento" feito, o que eu gostava de saber, sempre perguntei, e nunca ninguém me respondeu é o resultado desse “investimento” em inovação, mais propriamente: que produtos esse investimento ajudou a criar para colocar no mercado; que novos produtos esse investimento ajudou a produzir, criando emprego e actividade económica. E o que eu gostava também de saber, sempre perguntei, e nunca ninguém me respondeu é o número, tipo e natureza de parcerias com as empresas com vista ao desenvolvimento de novos produtos.
No fim, o que eu gostava de saber, sempre perguntei, e nunca ninguém me respondeu é o que concretamente fazem, para além de fazer ciência, claro está, os 30.000 investigadores em que o Estado orgulhosamente investe. Para poder medir e avaliar os resultados.

FED estimula nova bolha especulativa e põe recuperação económica em risco?

1. O responsável pela regulação do sector bancário chinês (não é o Banco Central da China) dirigiu este fim-de-semana uma crítica muito dura em relação à política monetária do FED, afirmando que essa política, por ser excessivamente acomodatícia, estará a contribuir para uma nova bolha especulativa nos mercados de títulos (nomeadamente de dívida) e de “commodities”.
2. A crítica aponta o facto de a política de taxas de juro muito baixas e a correlativa fraqueza do USD terem estimulado em grande escala a prática de “carry-trade”, a qual consiste no endividamento especulativo em USD e na aplicação dos fundos em activos financeiros e outros, designadamente expressos noutras moedas.
3. A forte valorização desses activos, a fraqueza do USD e o nível baixíssimo das taxas de juro em USD explicam que esse tipo de “carry-trade” se tenha mostrado altamente lucrativo ao longo dos últimos 7 a 8 meses pelo menos.
3. O facto de o FED ainda na semana passada ter reafirmado a sua intenção de manter as taxas próximas de 0% bem como as medidas de expansão da oferta de moeda primária por um longo período de tempo ainda, estará a contribuir para que o dito “carry-trade” vá continuando e assim os mercados de títulos prossigam o seu movimento ascendente apesar das incertezas quanto à consistência da recuperação económica.
4. Este tema tinha motivado um interessantíssimo artigo de Nouriel Roubini – sempre ele - no F. Times de 2 do corrente intitulado “The mother of all carry trades faces na inevitable bust”, no qual Roubini disseca este tema com notável clareza apontando os enormes riscos da política monetária ultra-expansionista do FED.
É bem possível que a leitura desse artigo tenha influenciado a referida crítica do responsável chinês.
5. Vale a pena citar a parte final desse artigo, pelo carácter premonitório que a caracteriza: “ But the longer and bigger the carry trades and the larger the asset buble, the bigger will be the ensuing asset buble crash. The FED and other policy makers seem unaware of the monster bubble they are creating. The longer they remain blind, the harder the markets will fall”.
6. Até pode acontecer que essa premonição encerre alguma margem de exagero, mas não deixa de ser sedutora a análise de Roubini pela extrema clareza com que expõe os seus argumentos...ao ponto de convencer os sempre reservados chineses.
7. Se vier a ter alguma razão, nomeadamente se vierem a ocorrer a prazo breve (Roubini aponta para meados de 2010) factos que mudem as expectativas dos que têm apostado nesse “mother of all carry trades”, bem se poderá dizer que a política monetária do FED de tanto pretender estimular a economia ainda acabará por empurra-la para uma nova recessão...
8. As notícias muito recentes de um considerável e inesperado abrandamento do consumo privado nos USA neste último trimestre de 2009 retiram um pouco a pressão sobre estes riscos uma vez que colocam as perspectivas de subida da inflação mais distantes...mas ao mesmo tempo, suscitando a dúvida quanto à eficácia das medidas de estímulo à economia, podem dar ainda maior impulso ao negócio do “carry trade”...
9. Um verdadeiro dilema se coloca pois aos decisores económicos quanto ao momento e ao ritmo de retirada dos estímulos financeiros e monetários às economias. Roubini vai avisando...

domingo, 15 de novembro de 2009

A inclinação do "plano inclinado"...

Estive a ouvir o Plano\nclinado na Sic Notícias, pois a semana passada assisti à estreia e gostei. A nossa Suzana fez, aliás, a semana passada, um post sobre o novo programa.
Agradou-me mais uma vez um programa que procura fazer alguma matemática social, com a preocupação de explicar pedagogicamente às pessoas o que se passa com Portugal, embora tenha notado desta vez uma intervenção algo monopolista de Medina Carreira e a ausência de apresentação de caminhos concretos para encontrar a nova geometria política defendida, capaz de quebrar com a política “ilusionista” que tem levado ao plano inclinado.
Medina Carreira, e muito bem, lembrou que o plano inclinado não é uma obra recente. A inclinação acentuou-se desde a entrada de Portugal na CEE porque o país pouco fez para se adaptar à nova realidade, à realidade do comércio internacional. Durante 20 anos não fomos capazes de fazer a reconversão da economia para responder aos desafios da competitividade num espaço alargado e livre. E quando perdemos o escudo, a decadência acentuou-se e o plano inclinado mais inclinado ficou. De facto, não é demasiado afirmar que padecemos de um problema crónico que se chama inadaptação ao mundo global. E como este corre e se transforma a grande velocidade, o esforço que temos que fazer para o apanhar será crescente se não invertermos o plano inclinado
E à pergunta porque é que não fomos capazes de o fazer, veio a resposta de que os políticos preferiram a “caça ao voto” e desenvolveram uma lógica de poder de distribuir benesses e de fazer negócios que agora estamos todos a pagar. Os portugueses não se aperceberam verdadeiramente sobre o que estava a acontecer e, ainda hoje, não têm consciência da real situação do país. Continuam a ser enganados por “optimistas profissionais”.
É, por isso, que as actuais políticas, os actuais partidos do arco do governo e as pessoas que os militam não servem. E sem consciência de tudo isto as pessoas não podem ser exigentes e escolher correctamente. Este é um ponto que todos à volta da mesa concordaram que é uma condição para alterar a qualidade da política e, logo, a capacidade de o país enfrentar com verdade os problemas e traçar um futuro viável. Mas no final, nenhum dos intervenientes à volta da mesa foi capaz de explicar como é que se mudam os partidos e os políticos…