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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Vingança à Solnado!

Sinto uma certa relutância ao dizer: - Quero acreditar na melhoria da espécie humana! Não vejo como. Tudo muda em redor, mas a essência dos comportamentos e atitudes dos seres humanos continuam a ser sobreponíveis aos nossos antepassados mais remotos. Às tantas é uma questão biológica que se sobrepõe a todos os esforços e conquistas nas áreas culturais, éticas e estéticas tão bem desenvolvidas por inúmeros pensadores. A única vantagem é permitir manter a chama meio nervosa da esperança à espera de uma qualquer mutação evolutiva do tipo moral, se é que isso seja possível. Não acredito mas gostaria de acreditar.
Olho para o jornal e deparo-me com uma fotografia de um candidato a uma autarquia com a fácies ensanguentada. Aconteceu em Alcochete e foi vítima de um opositor. Foi agredido não por causa de opiniões políticas, mas por motivos pessoais, como se fosse uma justificação acertada! Outra notícia revela que um padre, responsável por colégios que acolhem crianças e jovens desafortunados, afirma que não têm direito a iogurtes, por serem considerados como “luxo”, pese embora outros aspetos relacionados com a gestão. Passando por cima dos crimes, acontecimentos mais do que corriqueiros, deparo-me com crónicas, algumas das quais, não deixam de esconder um certo proselitismo ideológico crescente, a proclamar as verdadeiras “verdades”, como é o caso de Fernanda Câncio que, sendo uma paladino de causas interessantes, começa a desnortear-se, quem sabe se devido à proximidade eleitoral. Mas não ficamos por aqui. Mais um caso de escravatura, a nausear os defensores dos direitos humanos. Saramago, reconhece o erro na troca das suas obras a propósito do hastear da bandeira monárquica com o sui generis pretendente ao trono. Mas, reconheço, de facto, o magistral conselho dado pelo nosso Nobel da literatura para a restauração da monarquia em Portugal. Basta haver uma equipa de futebol, constituída por jogadores, treinador e presidente monárquicos, que ganhe a liga de futebol e, de preferência, a liga europeia. No dia seguinte, os portugueses aclamariam como rei o senhor Duarte ou o seu petiz. A polémica ao redor da nomeação e eleição dos membros do Conselho de Ética continua, e ainda bem, porque revela, aos olhos dos portugueses, a apetência para a sua instrumentalização. Mas ainda é cedo. Espero que as qualidades intrínsecas das personalidades que o compõem deem provas de que são superiores a quaisquer interesses políticos ou doutrinais. Pessoalmente estou convicto de que sim. São individualidades superiores. Mas não deixa de ser preocupante o que se passou, atitudes mesquinhas e lamentáveis por parte do Governo. É um conselho consultivo mas com profundas influências nas decisões politicas que irão ser tomadas no futuro sobre assuntos muito delicados.
Muitas outras notícias corroboram o meu pessimismo sobre o futuro da espécie humana, mas, houve uma que me ajudou a ser um pouco mais feliz e até otimista, porque não dizer, quando li uma reportagem sobre Raul Solnado. De todas as suas facetas há uma que merece ser realçada, o seu sentido ético. Notável. A par das suas capacidades humorísticas, transpirava ética por todos os poros, além de uma criatividade ímpar. Mas o que me chamou a atenção foi o facto de que tinha também um feitio vingativo. Quem diria que numa conversa a propósito de D. Sebastião, Solnado e Júlio César tomaram a seguinte decisão: “E logo os dois acharam que deviam ir a Alcácer Quibir vingá-lo. Meteram-se num carro e foram logo, nessa mesma noite. Dormiram em Elvas e no dia seguinte, já estavam em Marrocos. Correram a Alcácer Quibir. Chegaram lá pela meia-noite. Contava ele: “Chegámos, e mijámos. Mijámos ali, no chão, em Alcácer Quibir. Foi a nossa vingança. Foi como lavar a face do Rei”.
Ora o que estamos a precisar é vingarmos do que nos andam a fazer. Como? Simples! Vingança à Solnado...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Esperançómetro

Título das notícia sobre a variação do PIB em relação ao trimentre anterior: "Economia portuguesa regista CRESCIMENTO SURPRESA no segundo trimestre".
Quando se percebe que uma variação pouco acima de zero (apesar de representar um variação muito abaixo de zero em relação a período homólogo) provoca surpresa na imprensa especializada, tal facto é significativo do nível de confiança nas medidas de estímulo.

Fim da recessão: com queda do PIB de 3,7%?...

1. Alguns dos prestimosos exultam hoje com a notícia divulgada pelo INE segundo a qual terá sido positiva (+0,3%) a evolução da actividade económica no 2º Trimestre, quando comparada ao Trimestre anterior...o que significará o fim da recessão que se arrastava desde o 4º Trimestre de 2008.
2. Um dos mais prestimosos até faz acompanhar essa notícia de fotos (de arquivo) de protagonistas/mores do executivo muito sorridentes, como que proclamando vitória...
3. Sem negar essa evidência estatística (a confirmar em 2ª leitura...), cabe salientar que os títulos da notícia omitem a outra face da realidade, bem menos interessante, também revelada pelo INE, que é (i) o facto de a evolução da economia em termos homólogos continuar a registar uma queda anual muito forte, de -3,7%, sobre o Trimestre homólogo de 2008 e (ii) mais importante, essa queda ser devida sobretudo à evolução mais negativa das exportações de bens e serviços e também do investimento.
4. Conclui-se pois que o aumento ligeiro da actividade do 1º para o 2º Trimestre terá ficado a dever-se mais ao consumo privado (e público?), o que revela a enorme fragilidade de tal “recuperação” - não sendo crível que em Portugal uma recuperação económica sólida possa ser impulsionada pelo consumo privado ou público...
5. Mas o que importa, neste momento, não é a fragilidade maior ou menor desta “saída” da recessão...o que importa, como já se percebeu, é festejar a notícia, com arraiais, fogo-de-artifício, congratulações em onda, declarações de sucesso em cadeia...os verdadeiros problemas como sempre ficarão esquecidos...Medina Carreira mais do que nunca será o fantasma da opereta...
6. O ex-Ministro M. Pinho foi aliás o primeiro a sair a terreiro, dizendo ser esta evolução “...resultado da determinação política”...revelando assim não ter perdido as qualidades que o tornaram notável enquanto membro do executivo.
7. Mais comedido (inteligente), o PM também já afirmou que isto significa “o princípio do fim da crise”.
8. Acresce que desta vez até estamos a par das grandes economias da Europa – a Alemanha, a França e a Grécia, esta última nosso inseparável parceiro de infortúnio e de sucesso...superando o desempenho da zona Euro, que do 1º para o 2º Trimestre registou uma evolução ainda negativa embora ligeira (-0,1%).
9. Sobram pois os motivos para celebrar fragorosamente este “sucesso” da política económica...até porque as eleições são daqui a 45 dias e convém aproveitar todas as prendinhas estatísticas que até lá aparecerem...

A Mensagem de Medina Carreira

1. Vi ontem a parte da entrevista de Medina Carreira a um canal de TV e apercebi-me entretanto do eco que a essa entrevista foi dado noutros órgãos de comunicação social.
2. Tenho em alto apreço a honestidade intelectual do entrevistado bem como a frontalidade e rigor das opiniões que vem expressando, repetidamente, ao longo dos últimos anos.
3. Parece-me todavia que este tipo de discurso “meio catastrofista” envolve um risco elevado para a eficácia da Mensagem que pretende passar: de tanto ser repetido – e nada acontecer aparentemente – começa a não ser levado a sério, pode até ser motivo para comentários bem-humorados.
4. O maior problema é que M. Carreira tem razão em quase tudo aquilo que diz e, sendo assim, a Mensagem duríssima que emite deveria ter consequências...deveria acontecer alguma coisa...alguém nos círculos do poder deveria sentir-se suficientemente incomodado ao ponto de dar um grande murro na mesa, assumindo uma mudança radical nos hábitos de vida da classe política – o grande alvo, a final, da duríssima crítica de Medina.
5. Mas como nada acontece, como ninguém parece incomodar-se com os seus comentários, as pessoas começarão naturalmente a pensar que M. Carreira é exagerado...e qualquer dia pouca gente, ao nível da opinião pública, lhe dará ouvidos.
6. Estamos num ponto (não vou dizer que estamos a chegar ao ponto em que...porque já chegamos) em que por exemplo o problema económico nº1 do país, segundo M. Carreira – o endividamento ao exterior – já NÃO TEM SOLUÇÃO.
7. Ao dizer que já não tem solução quero significar, tão-somente, que o crescimento do endividamento externo vai prosseguir INEXORAVELMENTE ao longo dos próximos anos, a ritmo muito elevado (entre 8 a 12% do PIB anualmente) - não havendo política económica desta classe política que consiga inverter este processo...E após 2013, com o fim dos fundos estruturais (QREN) a situação agravar-se-á naturalmente.
8. Não podemos olvidar que 5% do PIB – com tendência para aumentar – são já destinados a pagar juros/rendimentos ao exterior, pelo que, para o endividamento ao exterior deixar de crescer as demais componentes da balança de pagamentos correntes (comercial+serviços+transferências unilaterais) deveriam registar um excedente equivalente – uma hipótese não só inverosímil como impossível...pois as demais componentes, em conjunto, são e continuarão também largamente deficitárias...
9. É neste quadro que a novela do nosso endividamento/empobrecimento vai continuar INEXORAVELMENTE, enquanto M. Carreira muito justamente esbraceja e protesta...mas alguém, sobretudo na classe política se preocupa com isso?! Ninguém quer saber...até ao dia em que a factura começar a pesar brutalmente...
10. O mais caricato ainda será, como aqui observei há tempos, quando a inviabilidade deste quadro absurdo de endividamento se revelar em toda a sua crueza, que os políticos do regime venham a voltar-se contra os “profetas da desgraça” como M. Carreira, acusando-os de causadores da desgraça por a terem anunciado antes do tempo...
11. Esperem pela volta...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Ato (1)

Considero a ironia como uma forma superior de comentar e analisar algum comentário ou opinião, que se tenha revelado pouco feliz, parvo, extemporâneo ou desajustado à situação. Mas nem todos têm essa capacidade e, por vezes, revelam um qualquer juízo preconceituoso, acabando por ser alvo de contra ironia. Escrevo este comentário, à laia de desabafo, porque na nota “Viva a República”, a propósito do hastear da bandeira monárquica na Câmara Municipal de Lisboa, ter afirmado que “o senhor Duarte Pio de Bragança elogiou o ato”. Um comentador, a quem já respondi, afirmou o seguinte: “Não sei se estou de acordo porque não sei o que é o "ato".” Ora bem, antes de mais quero comunicar aos leitores que escrevo de acordo com o novo acordo ortográfico, conformem podem verificar pelos meus inúmeros escritos. Não é um erro ortográfico. É assim mesmo. Mas, mesmo que fosse um erro, estou convicto de que o sentido do texto não ficaria de tal modo danificado, corrompido ou adulterado de modo a dificultar a compreensão do mesmo. E, quanto a erros ortográficos, qualquer um pode dá-los, inclusive, penso eu, também, o douto comentador. E, a propósito de erros ortográficos, confesso que saboreio à exaustão os que são “oferecidos” pelo meu amigo Bartolomeu, que, sabiamente, escondem pensamentos e reflexões muito profundos que só me enriquecem e a todos os que nos leem (é assim que agora se escreve em vez de lêem – Novo Acordo Ortográfico).

Moderno Dicionário da Língua Portuguesa


(1) ato
a.to1
sm (lat actu) 1 Aquilo que se faz ou se pode fazer: Ato patriótico. 2 Decisão, deliberação ou determinação do poder público. 3 Rel Exteriorização de certos sentimentos, convicções, desejos ou propósitos: Ato de contrição, ato de esperança etc. 4 Rel Prece que contém essa exteriorização. 5 Rel Ação de receber os sacramentos: Ato do batismo. 6 Cada uma das partes em que se divide uma peça teatral: Comédia em três atos. A. contínuo: imediatamente, constantemente, continuamente. A. de insubordinação, Dir trab: descumprimento, por parte do empregado, de ordem específica e lícita a ele dirigida pelo empregador ou superior hierárquico. A. jurídico, Dir: ato lícito que tem por fim imediato adquirir, resguardar, transferir, modificar ou extinguir direitos. A. jurídico perfeito, Dir: o já consumado segundo a lei vigente ao tempo em que se efetuou. A. solene, Dir: o que deve submeter-se a certas formalidades, cuja omissão traria consigo nulidade.

Ainda a questão das políticas de obras públicas

Em comentário a este post Zuricher escreveu o que, com a devida vénia, se reproduz:
  • "Mas há uma coisa que ninguém se pergunta, no meio disto tudo e tem aplicabilidade a algumas das AE ora em concurso. Porque é que se faz a via a, b ou c? Quais os objectivos que se visa alcançar com a sua construção? E, depois de respondida esta questão, decidir-se que tipo de via fazer para atingir os objectivos propostos. Muitas das AE serviriam melhor as populações se não existissem e no seu lugar estivesse uma via férrea. Não essas coisas modernas de vias de alta velocidade, mas uma simples via férrea, vulgarissima de lineu, para velocidades de 120-160km/h com comboios convencionais e permitindo a passagem de comboios de mercadorias sem restrições".
Não posso estar mais de acordo com esta opinião e sobretudo com os seus fundamentos.
É certo que o Governo alega que procedeu a estudos de viabilidade económica para cada uma das concessões (em que se terá baseado a Resolução do Conselho de Ministros que definiu o "programão" rodoviário) os quais, segundo um comunicado do MOPTC ontem enviado às redacções na sequência da notícia do Jornal de Negócios, sustentarão as variações do VAL verificadas no desfecho dos concursos das subconcessões já adjudicadas. Mas a questão é como muito bem Zuricher a colocou. Saber se a decisão política de construir uma auto-estrada faz sentido não só quando aquilatada do ponto de vista da sua viabilidade económica intrinseca, mas sobretudo quando comparada com outras alternativas para promover a mobilidade de pessoas e bens, a coesão territorial pelo combate ao isolamento e ao despovoamento do interior, o desenvolvimento económico do País, no quadro de uma leitura prévia dos necessários sacrifícios ambientais e sociais (o caso da aldeia atravessada por duas AE de que fala Tonibler no mesmo post é só um exemplo da falta de uma visão integrada).
Desses estudos não há notícia. E custa-me a acreditar que alguma vez tenham sido feitos, porque isso pressuporia uma cultura de planeamento, um pensamento estrutural de desenvolvimento a longo termo, o que os factos desmentem que, nestes 35 anos de democracia, alguma vez tenha existido, ou pelo menos, prevalecido.
Deste pecado de omissão nenhum partido, no arco governativo, está isento de responsabilidades.
Espera-se, porém, que o futuro que começa em Outubro, traga a redenção. O País dos nossos filhos e netos agradeceria muito.

Preparar o "envelhecimento"...

Li no DN uma notícia que dava conta da “vitória” alcançada, após decorridos 14 anos de tentativas sem sucesso, com a integração da cadeira de geriatria nos cursos de medicina da Universidade de Coimbra e da Universidade de Lisboa. Confesso que não fiquei espantada.
A introdução de cadeiras de geriatria no ensino da medicina é recomendada pela Organização Mundial de Saúde, de modo a preparar os médicos para lidarem com a doença dos idosos, cobrindo um campo vasto de conhecimentos em biologia, fisiologia, demografia, farmacologia, riscos profissionais, prevenção e reabilitação, doenças e ética.
Os dados sobre a demografia portuguesa revelam há muito uma população envelhecida, quer por via da baixa taxa de natalidade quer pelo aumento da esperança de vida.Portugal está a envelhecer. O rácio de dependência que mede a relação entre as pessoas com mais de 65 anos e os trabalhadores no activo vai agravar-se no futuro. Teremos cada vez mais idosos e com uma esperança de vida crescente.
O envelhecimento da população implicará alterações significativas na economia e na organização social e uma maior e mais diversificada ocupação activa das pessoas idosas, assim como será inevitável o aumento da prestação de cuidados de saúde a esta faixa etária da população.Seria, portanto, normal que Portugal estivesse a investir na formação de profissionais ligados ao fenómeno do envelhecimento, designadamente médicos.
Temos realmente uma grande dificuldade em antecipar necessidades e planear o que devemos fazer para que no momento em que as necessidades se revelam dispormos de uma resposta capaz.
A falta de médicos com que o País hoje se depara não foi nada que não pudesse ter sido previsto em tempo útil e colmatado com políticas públicas adequadas.
O Estado parece continuar a sofrer da mesma miopia em relação à formação de profissionais em geriatria. Ora o Estado tem aqui uma função reguladora importante. Não parece, pois, admissível que se demita desse papel. E a sociedade em geral - em particular as gerações actualmente no activo - deveria estar atenta, preocupar-se e mobilizar-se no sentido de intervir positivamente nesta mudança. Seremos os idosos de amanhã.
As políticas públicas viradas para a saúde e a qualidade de vida dos idosos constituem um domínio mais vasto no qual muitos países europeus já estão há muito a investir.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Nas obras públicas uma mudança de paradigma é urgente

A edição do Jornal de Negócios de hoje noticia a proposta de não adjudicação da Auto-Estrada (AE) do Centro por parte da Comissão de Avaliação, baseada na variação de 167% do VAL da proposta final mais vantajosa em relação à proposta inicial apresentada no concurso. Anuncia ainda que idêntica sorte deverá ter a AE do Pinhal Interior. O jornal foi observar o que se passou nas restantes subconcessões rodoviárias e apurou que, em média e até agora, as concessões foram atribuídas por mais 57% do que o VAL mais baixo proposto pelos concorrentes na primeira fase dos concursos.
Reconheço que à análise feita pelo Jornal de Negócios falta profundidade, pois só o exame atento das razões das variações em cada concurso permitiria perceber se o aumento foi justificado. E alguns processos, com modificações decorrentes de imposições ambientais ou outras alterações do corredor inicial ou apanhados pelo encarecimento do crédito em plena crise, só poderiam ter dois desfechos: ou a aceitação da correção das propostas por parte das Estradas de Portugal, S.A. e do Governo face às novas condições de financiamento, ou desistir da obra.
Independentemente da superficialidade da análise jornalística, uma coisa é certa. O Governo apostou tudo no que aqui Tavares Moreira batizou de “programão” das obras públicas, ignorando olimpica e arrogantemente todas as críticas, todas as objecções a investimento público de duvidosa necessidade, de suspeitosa relação custo/benefício e manifestamente contrário, por exemplo, às estratégias de ordenamento do território constantes do Programa Nacional de Política de Ordenamento do Território que o próprio Governo aprovou (veja-se o que se escreve sobre os vectores de desenvolvimento do Pinhal Interior para se perceber que nenhum sentido tem a prioridade de construção, ali, de uma auto-estrada).
E não se diga, como agora vem dizer o PS, que estes investimentos eram parte da solução para a crise, pois que, quando Sócrates, Lino & Pinho vendiam linhas do TGV, auto-estradas a torto e a direito, aeroportos onde quer que fosse, estávamos em plena campanha do “porreiro, pá”, em época de confiança num crescimento económico que não olhava aos sinais da crise emergente nem ao endividamento público galopante.
Mais importante, pois, do que evitar as “derrapagens” que hoje fizeram assunto falado, é a mudança de paradigma no que às obras públicas respeita. É fundamental que, na próxima legislatura, a escolha política dos investimentos públicos obedeça a uma grelha de critérios que de resto não é difícil de elaborar, capaz de reunir o maior consenso politico, mas também a uma orgânica e a um modelo procedimental radicalmente distintos daquele que o Governo ainda em funções pôs em prática.
Sobre estes aspectos - a orgânica das obras públicas e o enquadramento procedimental da sua realzação - , com tempo e disposição, escrevinharemos.

Viva a República!

Quem diria que neste período cinzentão, apesar de ser verão, há sempre alguém capaz de entreter os portugueses com atitudes muito divertidas. Foi o caso do hastear da bandeira azul e branca da monarquia, que por sinal é mesmo muito bonita, na varanda da Câmara Municipal de Lisboa. Um grupo de revolucionários, alguns, talvez, apetrechados de genes especiais, dos tais que caracterizam a “nobreza biológica”, deram azo a uma tentativa, simbólica, de restauração da monarquia. De acordo com a notícia, o senhor Duarte Pio de Bragança elogiou o ato e, muito provavelmente, deverá ter sonhado nesta noite, não com a coroa real, já que desde 1640 os reis portugueses deixaram de a usar, mas com o trono, sentado, de mão estendida, enquanto os seus súbditos docemente a beijam tão digno representante da espécie lusa.
Viva a República!

Ética para o Governo? Sim. Ética para o Parlamento? Não interessa!

No DN de hoje, na última página, Maria José Nogueira Pinto afirma que não sabia que Preto integrava a lista de deputados. Coitada. Não tem que saber tudo, claro está. Mas mesmo que soubesse (?), “tinha aceitado na mesma entrar na lista do PSD porque fui convidada por Manuela Ferreira Leite”. Quanto à necessidade de o próximo Governo reabilitar a ética, “a candidata número quatro (até parecem chineses!) frisou que esse objetivo não ia ser posto em causa com António Preto, uma vez que ele está a concorrer para o Parlamento e não para o Governo”.
Delicioso! É o mínimo que posso dizer. Ética para o Governo? Sim. Ética para o Parlamento? Não interessa!
Apetece-me dizer: - Por que é que não vai dar uma volta? À Ética, claro!

Sardão

Recordo tê-la visto uma ou duas vezes, ou então foi um sonho. Não consigo descortinar. A terra era ocre, quente, silenciosa e cheia de pedras como se alguém as tivesse arremessado ao diabo. Uma zona aparentemente deliciosa, cheia de encanto e de mistério durante o dia, mas que à noite deveria ser de arrepiar.
Ao longe, uma estranha corcunda, que devia esconder algo, despertou-me a atenção. À medida que me aproximava, descortinei uma fenda vulvar. A curiosidade era imensa. À cautela, para não rolar na imensidão dos calhaus quentes e traiçoeiros, consegui, de súbito, olhar para o fundo do abismo anunciado pelas altas fragas graníticas que, arrogantemente, sobressaíam do outro lado. Do fundo, emergiam ruídos de águas revoltas e uma corrente de ar frio capaz de gelar a alma. O rio, que não conseguia ver, ao sentir-se estrangulado, gritava alto e com raiva espumosa. Quem diria que um rio calmo, alegre e quente, de repente, se transmutasse num ser furioso. Não há dúvidas, o diabo deveria morar para aquelas bandas. As águas bem tentavam expulsá-lo mas não conseguiam. Em contrapartida, sofria com dores e revolta aquele aperto, ansioso por chegar mais abaixo onde voltaria a relaxar, a rir-se e a espreguiçar-se de alívio após ter ultrapassado aquele tormentoso troço, longe de tudo e de todos.
Terra isolada e rebelde à fecundação. Desprovida praticamente de vegetação. Pontuavam apenas esparsas ervas ruins, que deviam ser mesmo ruins para poderem sobreviver naquela paisagem. Albergava, no entanto, sardões de dimensões razoáveis que encontravam refúgio nas pedras esquentadas e saboreavam o calor vital.
Houve quem a passasse a designar por terra dos sardões, seres curiosos, simultaneamente tímidos e agressivos, capazes, quando confrontados com ameaças, de as enfrentar abrindo a boca e sibilando de forma estranha e assustadora.
Ninguém, praticamente, se atrevia a ir aquele lugar. E quem tentasse depressa se arrependeria.
Em breve estabeleceu-se uma proibição, e quem a desafiasse corria o risco de saborear a desgraça e envenenar-se até à morte.
A presença de uma estranha figura, de idade indefinida, atarracada, tronco oval do qual se despegavam grossos e curtos braços cujas mãos mal alcançavam o umbigo, encimado por uma cabeça de lagarto da qual se destacava uma boca rasgada sem lábios, e permanentemente a sorrir, causava revolta e mal-estar nos breves e esporádicos encontros que quase sempre ocorriam a desoras e em locais mais isolados.
Quem era? Donde vinha? O que fazia? Ninguém sabia.
Com o tempo começaram a encher as gavetas dos medos e das inquietações. Tentaram adivinhar os seus propósitos, definir a paternidade, ajuizar sobre a sua origem, acabando por lhe fixar residência na terra dos sardões, a que não é alheio o frio que emanava de uns olhos pequenos capazes de brilhar sob o sol do meio-dia e um sorriso cínico.
Muitos começaram a atribuir as causas das suas maleitas aos encontros fortuitos e até à ingestão de alimentos e águas provenientes das suas terras e fontes suspeitas de terem sido empeçonhadas por tão estranha e sinistra criatura.
Contavam uns aos outros as histórias mais inverosímeis nos seus encontros e nas amenas, mas nada tranquilas, cavaqueiras em que o repouso imperava momentaneamente.
Um dia, um dos ouvintes, que já o tinha avistado, quando, inopinadamente, irrompeu num cruzamento, começou a sentir-se mal. Sentia que algo lhe devorava as entranhas. Deixou de comer. Enfraqueceu. A cada dia que passava aquele mexer contínuo desnutria-o e desvitalizava a alma.
Ensaiaram tudo. Mas nada. Dia a dia definhava, agoirando um fim próximo.
Apelaram à ajuda do médico que, rapidamente, se apercebeu do fenómeno em questão. Pensou em esclarecer o que estaria a acontecer, mas, conhecedor da forma de pensar e da força das crenças, sentiu-se derrotado, ab initio, na tentativa de curar por aquela via, a via da razão. Pensou, pensou e prometeu regressar com medicamentos capazes de expulsar todos aqueles vermes que o devoravam interiormente.
Passados alguns dias, municiado de larvas e alguns vermes, que entretanto tinha escondido num lenço, ministrou-lhe um poderoso emético capaz de expulsar as próprias tripas, quanto mais o seu conteúdo.
Durante o esforço, e face à profusão do vomitado, não lhe foi difícil lançar naquele esterco as larvas e os pequenos vermes que, ao serem alvo de admiração do médico, chamaram a atenção do paciente. Assim que pode verificar com os seus próprios olhos o conteúdo sentiu que tinha toda a razão quanto à causa do mal.
Daí em diante, e enquanto o diabo esfregou um olho, a recuperação fez-se integralmente.
Muitos outros casos ocorreram. Utilizando técnicas semelhantes, o médico lá ia conseguindo, com sucesso, resolver os males do povo.
Um dia o clínico adoeceu. Por acaso deveria ter sido o único que nunca viu a tal figura.
Sentia-se mal. Dores. Emagrecimento. Depauperação progressiva. Não lhe foi difícil fazer o seu próprio diagnóstico. Em breve deixou a existência.
Princípio do Verão. A noite estava quente. O velório acalmou-se durante aquele período em que as cigarras conseguem enlouquecer vivos e mortos. Houve um momento em que juraram ter ouvido sons estranhos como que a rastejar nas paredes vizinhas. O cansaço e o calor desmotivaram os presentes que acabaram por se ausentar incomodados pelo estranho rastejar.
De manhã, com a urna já fechada, o ritual da morte continuou.
Ao final da tarde, após a abertura da tampa no cemitério, e enquanto o coveiro se preparava para lançar a cal, acelerador da decomposição, um inesperado movimento na urna gelou os circunstantes. Foi então que um sardão de dimensões apreciáveis se pôs em fuga escalando a parede. Parou momentaneamente. Ao rodar a cabeça, para olhar os presentes, lançou-lhes o mais estranho e cruel sorriso que jamais viram. Desapareceu ato contínuo para nunca mais ser visto.
Há quem diga que continua a vaguear entre as pedras soltas e traiçoeiras naquele ermo de difícil acesso e infértil, onde ninguém tem coragem para ir... a não ser em sonhos.

Os sapatos cor de rosa


Hoje uma pessoa amiga apareceu com uns lindos sapatos cor de rosa, de salto alto, muito elegantes. Fiquei a olhar pasmada, porque me lembraram imediatamente os sapatos que marcaram a minha entrada na adolescência, aquela fronteira indefinida em que os outros ainda nos olham como crianças mas em que nós já não queremos essa pele e ensaiamos as primeiras incursões, tímidas, no misterioso e fascinante mundo dos adultos.
Devo dizer que a minha aparência não ajudava a grandes voos, porque era pequena e tinha um ar tímido e infantil, sofria mesmo aquela humilhação de me darem sempre menos idade do que a que realmente tinha.
Teria treze ou catorze anos e tinha também uma tia-madrinha que adorava fazer-me as vontades sempre que a ia visitar. Íamos primeiro à missa e depois passeávamos pelas montras até encontrarmos qualquer coisa que eu cobiçasse e, claro, que as minhas irmãs ainda não tivessem, isso era parte essencial do prazer de chegar a casa e exibir a minha vantagem, que depois negociava longamente para efeitos de justa partilha.
Naquela Páscoa, a minha madrinha, que não me via desde o Natal, referiu com surpresa como eu estava crescida, uma rapariga, dizia ela, e reparei com alguma vaidade que o olhar era aprovador. Quando fomos à peregrinação pelas lojas ela passou sem parar pelas montras do costume e dirigiu-se logo à rua das sapatarias, mas não entrámos na das crianças, fomos a outra que eu não conhecia.
- Hoje vou oferecer-te uns sapatos, podes escolher os que gostares mais, não tens festas das amigas? Pois vais escolher uns sapatos para ires às festas, já estás na idade de começar a dançar!
Devo dizer que na altura ter uns sapatos novos, para mais de festas, não era banalidade nenhuma. Eu fiquei paralisada de emoção, a pensar nos sapatos que a minha irmã mais velha já usava, ela era alta e grande, era gira, e com os saltos que já usava levava-me enorme vantagem, apesar da pouca diferença de idades.
Nesse dia levámos muito tempo a escolher. A minha tia inclinava-se para uns sapatinhos pretos, ou azuis, mas eu não me decidia. Até que me caíram os olhos nuns fantásticos sapatos de camurça cor de rosa, num tom pálido mas nítido, com um salto de três dedos bem medidos e um lindo laço a encobrir a frente. Tinham acabado de chegar à loja, iam pô-los na montra quando eu fiquei muda e fixa a olhá-los, e tanto bastou para ser compreendida.
- Já vi que são esses que queres. Vais ter que te habituar a usar saltos assim de repente, mas são bem bonitos, vais fazer um sucesso! – disse a fada madrinha, cuja voz me pareceu então uma melodia celeste.
Levei-os na caixa como quem leva um tesouro e nem os mostrei lá em casa nesse dia, levantei-me de noite várias vezes para os calçar em frente do espelho, a treinar os primeiros passos, não fosse cair em público e ofuscar o êxito com que esperava esmagar as manas todas.
A minha irmã reagiu como eu previa, por sorte ser pequena implica ter um pé equivalente e os sapatos só me cabiam a mim, mas a minha mãe não achou graça nenhuma, declarou logo ali que aquilo não era próprio, mas que ideia a da minha tia, era só o que faltava uma miúda usar aqueles sapatos!
E lá se foi a minha auto confiança recém nascida, naquela altura ainda se fazia o que as mães mandavam, e os meus lindos sapatos ficaram em casa à espera que eu crescesse. Mas quando, finalmente, fui considerada apta, já eles tinham passado de moda, e que me lembre nunca cheguei a levá-los à rua. Devo dizer, em nome da justiça, que todas as minhas amigas os viram e experimentaram, afinal os sapatos fizeram muitas festas sozinhos!, e serviram para treinos e passos de dança no recato do quarto, com muitas risadas à mistura.
Guardei-os muitos anos e desconfio que foram oferecidos discretamente a uma empregada nova que entrou lá para casa e que não seria muito mais velha do que eu quando recebi aquele tesouro… Bom proveito lhe tivessem feito, por mim, diverti-me imenso com aqueles lindos sapatos cor de rosa!

Um calcanhar de Aquiles muito especial...

Desculpem-me o tema em época de férias, algo pesado e repisado. Mas pelos vistos é tão importante que não escolhe épocas nem estações. Está sempre presente, faça chuva ou faça sol. É que não há meio de nos livrarmos dele…
O DE publicou na edição de ontem duas entrevistas sobre Portugal. Uma realizada a José Gil, o filósofo português, na qual o pensador analisa o espírito português e uma outra realizada a Jeremy Lawson na qual o economista da OCDE que acompanha Portugal roda o filme do futuro da economia portuguesa.
E o que têm em comum as duas entrevistas? Ambas se debruçam sobre Portugal, fazem diagnósticos negativos sobre o País, explicam as forças de bloqueio do desenvolvimento, descrevem as dificuldades e traçam um quadro pouco animador sobre o futuro. Ambas falam de lugares comuns - culturais, sociais, económicos e políticos - há muito conhecidos, repetidos e esfalfadamente apontados em ilustres entrevistas, objecto de estudos aprofundados e temas de livros best-sellers, tratados convenientemente em programas políticos e por aí fora.
O diagnóstico do “estado de saúde” está feito e mais do que feito. O que tem faltado é uma “prescrição médica” acertada, capaz de debelar a doença e de fortalecer um organismo fraco e exangue de tantos remédios e tratamentos ministrados vezes sucessivas sem resultados satisfatórios.
Diz José Gil, que “há qualquer coisa na sociedade portuguesa que se volta contra os próprios portugueses. (…) O comum do espírito português é pequenamente pragmático – o dia-a-dia. A coisa é como é. (…) Apenas sei que traz consequências muito nefastas para o trabalho, para o enraizamento de uma certa cultura de elite em Portugal. (…) Gostamos do lazer, o que é bom porque não sofremos o stress do trabalho. Mas porque é que os portugueses gostam tanto de continuar na inércia? É o pequeno gozo das coisas, aquilo que chamo chico-espertismo. Trata-se de uma forma de fuga ao trabalho e, paradoxalmente, de afirmação. Por essência o português não é preguiçoso – quando emigra é dos melhores trabalhadores. Mas cá ainda vivemos numa espécie de ninho, onde o prazer do lazer está na ordem das preferências.”
Por sua vez, Jeremy Lawson prevê que Portugal vai ter no período de 2011 a 2017 o crescimento mais baixo da zona euro, de apenas 1,5%. Segundo o economista “A OCDE analisou a produtividade total dos factores – capital e trabalho – e tentámos projectar isso para os próximos anos. Desde a recessão de 2003 que a produtividade total tem crescido muito pouco e não há sinais de qualquer inversão da tendência no médio e longo prazo. Como o emprego também deve crescer pouco, o crescimento económico não deverá ultrapassar 1,5%. (…) É preciso fazer com que as pessoas tenham melhor educação. O nível formativo ainda é muito baixo e é um dos pontos que limita mais a economia.
Em ambas as entrevistas o capital humano surge à cabeça dos problemas, como não poderia deixar de ser, mas também como solução para os resolver.
O nível formativo irá continuar a ser o calcanhar de Aquiles do nosso progresso. Investir na educação, não apenas no acesso mas na qualidade da formação e do conhecimento é, como há décadas está dito e redito, um caminho inexorável para ajudar a corrigir o “chico-espertismo” e aumentar a produtividade…

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Espraiando-se ao sol

Agora é a vez das dálias darem cor ao jardim. Esta foi surpreendida ainda a dar os primeiros passos, não é linda?

O drama! O horror! A tragédia!

18 horas. Procuro as notícias do dia no rádio do carro. Dramático, o locutor anuncia: é oficial. Cristiano Ronaldo apresenta "quadro gripal" e não jogará na selecção nacional contra o gigante Liechtenstein.
Mudo de estação. Uma vez. E outra. Outra ainda. A notícia, a mesma em todas. Ronaldo tem gripe.
Que mais falta acontecer a este pobre país?

E o Minho aqui tão perto...

Lanhelas - Caminha - Agosto de 2009

domingo, 9 de agosto de 2009

A pequenina sereia...


A minha amiga Suzana Toscano pediu: - Conte mais...!

Sendo assim, "publico" um conto que escrevi no Natal para os meus três netos, que ainda não sabem ler... Uma prendinha adiada.

Para a Mariana, João António e Maria Leonor


Ainda não teria seis anos, quando, ao vasculhar, com a típica curiosidade infantil, o sótão lá de casa, deparei-me com um velho aparelho com duas lentes que permitia observar cartões cada um deles com duas fotografias antigas, “perfeitamente” iguais. Intrigado, lá me explicaram como deveria utilizá-lo. Colocava o cartão no suporte e, depois, aproximava ou afastava, mirando-o através das lentes. De repente emiti um ahah, quando as duas fotografias se transformaram numa imagem única com profundidade e volume. Foi a minha primeira percepção estereoscópica. Ávido em satisfazer a curiosidade, peguei na caixa com inúmeros cartões, descrevendo paisagens lindas de todo o mundo, e passei a ver os canais de Veneza, a Praça de São Marcos, carruagens puxadas a cavalos em Londres, pessoas vestidas de formas estranhas, montanhas cheias de neve, palácios, castelos e o dia a dia de muitas cidades, tudo numa cor sépia que me seduzia de forma particular. Na altura já eram muito antigas. Passava horas a tentar focar as duas imagens numa só e a deliciar-me com viagens ao passado. Aprendi os nomes de muitos monumentos, de cidades e de outros aspectos que, ainda hoje, me afloram à mente, sempre naquela suave cor sépia. E ainda não sabia ler.
De todas as imagens houve uma que me seduziu, e continua a seduzir; a imagem de uma estátua feminina sentada em cima de uma rocha com o mar em redor. Chamou-me a atenção o facto de a partir dos joelhos para baixo, apresentar algo semelhante a uma cauda de peixe. Como é possível? Tão perfeita e sem pés! Deformada e com ar triste. Perguntei logo o que é que tinha acontecido à senhora. Disseram-me que era mesmo assim. – Assim como? Assim não pode andar! – Pois não! Mas ela não anda. É uma sereia e as sereias só andam na água. – Sereia?! Mas o que é uma sereia? Responderam-me que era um ser vivo metade mulher e metade peixe que vivia no mar. A partir daqui o interrogatório foi contínuo, pois quis saber tudo. Onde é que moravam, o que faziam, o que é que comiam, se já tinham visto alguma, se era possível trazer para casa, enfim tudo o que se possa imaginar. As respostas, invariavelmente, vinham de encontro às minhas preocupações, modeladas pelas expectativas que entretanto ia construindo. Fiquei extasiado com as sereias. Era raro o dia que eu não olhava para aquela estátua tão sedutora. É fácil de compreender que comecei a desejar ver uma. Imaginava tocar-lhe, acariciá-la e ouvir os seus cantos, que diziam ser maravilhosos, sem saber ainda da existência de Homero.
Na altura, como qualquer criança, cansava-me muito facilmente ao fim de algumas centenas de metros de marcha, sempre que ia contrariado ou quando me desviavam das minhas actividades lúdicas. Cansaço de malandro, que contrastava com a fúria inesgotável das jogatinas e brincadeiras. As idas do meu pai a uma fazenda, que se encontrava praticamente a uma légua de distância, eram verdadeiros tormentos. Tinha que ir a pé, e no Verão o calor destruía a pouca vontade existente. A alternativa era saltar para os ombros e, às cavalitas, lá ia calcorreando o percurso. Cavalgar assim era confortável para mim, mas o mesmo não posso dizer do cavalgado que tudo fazia para não penar a distância com aqueles quilitos suplementares. A estratégia que adoptava era sempre a mesma; levar-me a um sítio onde se encontrava algo que desejava. Desta feita, sabendo da minha paixão pelas sereias, convenceu-me que na fazenda, onde havia uma mina de água que a nutria, deveria haver uma sereia. Ao princípio fiquei admirado, porque pensava que só haviam nos mares. Mas contrapôs-me que, tal como os peixes, também haviam sereias de água doce, só que eram muito mais pequeninas... (Continua no Quarto da República).

Uma macieira, uma maçã, um pensamento.

Manhã de sol. Ando a passear ao longo da ribeira. No momento em que se prepara para mergulhar sob o viaduto, os múltiplos cambiantes de verdes das árvores sobressaem nos jogos de luz e sombra. Uma macieira, de apreciável dimensão, apresenta-se partida ao meio. O coto, pontiagudo e descarnado, faz lembrar uma fratura exposta, denunciando dor, em que a única continuidade com o restante membro é feita através da casca. Este, constituído por frondosas ramagens, cheias de lindas maças, descaí sobre a ribeira, quase que diria que está a oferecer, pela última vez, centenas e centenas de frutos que, na ânsia de se perpetuar, acabaram com o seu peso por a matar. Talvez a idade tenha fragilizado o tronco.
Aproximo-me e toco numa maçã. Puxo-a e sinto uma resistência que se traduz num estremeção dos ramos, denunciando os últimos estertores de vida em ramos de morte. Volto a puxar, desta feita com mais força, e o movimento subsequente, transmitido ao membro amputado, acaba por denunciar o seu consentimento a que possua aquela fonte de energia. Ouço a árvore a dizer: - Por que é que não aceitaram a minha generosidade? Esperei, esperei que colhessem os meus frutos e ninguém os quis. Agora acabou!
Olho para o fruto, afaga-o, levo-o à boca, sinto a sua textura firme, dou uma trinca que desperta de imediato um sabor delicioso e, ao mesmo tempo, um travo ácido, que traduzo como sinal da sua tristeza. A primeira e a última vez que como um dos seus frutos. Vou guardar o seu sabor e, também, a imagem de uma vida cheia de vida que acabou por se vergar ao peso da própria vida, tudo, porque quem podia aproveitar das suas ofertas não o fez ou não quis.
A vida tem paralelismos com a história desta macieira. Muitas pessoas nascem, crescem, produzem, alimentam, são abandonadas e esquecidas, continuam a lutar e a viver com esperança, com um desejo de poder alimentar quem tenha fome.
Não dão pela sua existência.
O mundo é assim. Sempre foi e será. Árvores de vida que se oferecem radiosamente. Muitas não são aproveitadas e acabam por morrer vergadas ao peso da sua própria obra.
Uma pequena homenagem a uma macieira desconhecida e a tantas outras, na certeza de que um dia, muitas serão, também, esquecidas e ignoradas. Uma tranquilidade triste é sempre preferível à alegria estéril do momento presente.
Vou guardar o sabor doce e ácido da maçã. Pode ser que um dia me seja útil...

Raul Solnado


A arte de fazer rir exige inteligência, humor e sensibilidade. Fazer rir quem está ao nosso lado, quem nos conhece e tem uma memória comum é relativamente fácil, como também não é difícil fingir que se achou graça só para não ferir a susceptibilidade de quem se julga espirituoso. Mas fazer rir uma plateia inteira, manter divertido esse grupo anónimo, oculto pelas luzes viradas para o palco e disposto a fazer render o que se pagou pelo bilhete de entrada no espectáculo é uma arte arriscada e muito corajosa que só muito raros conseguem. E quando essa arte se afirma com traços muito pessoais, com um estilo inconfundível que cria legiões de admiradores e se prolonga por uma vida inteira, sem alienar os seus valores iniciais nem correr atrás de modas e truques, então merece todo o nosso respeito e admiração.
Raul Solnado foi sem dúvida um homem que teve o dom dessa arte tão especial.
Lembro-me de ouvir os discos com as histórias que ele contava, - agora reeditados – e por mais que se ouvissem tinham sempre graça, as piadas podiam ser contadas em todas as idades e em todos os grupos porque não tinham maldade mas malandrice, porque não agrediam nem humilhavam, mas apenas trocistas ou críticas. Muitas vezes as histórias do Solnado faziam rir mas também faziam um nó na garganta, ele misturava humor e emoção e em tudo, que me lembre, sobressaía uma enorme generosidade, um afecto pelo público, tudo engrandecido por uma timidez sempre a espreitar, talvez denunciada pela gaguez que aprendeu com o tempo a disfarçar na perfeição. E tinha aquele gesto de garoto, que mesmo depois de passada a juventude lhe mantinha o ar travesso, aquele gesto de cerrar os lábios como se quisesse impedir as palavras cómicas de sair, criando suspense a ver se ele teria a coragem de dizer o que parecia que lhe tinha vindo à cabeça naquele instante.Nunca com Solnado se sentia o constrangimento de um dito torpe ou ofensivo.
Raul Solnado morreu hoje. Apagou-se em sinal de tristeza o riso dos outros que ele tão bem soube despertar, deixou no entanto um enorme carinho e, na memória de uma geração que também aprendeu a rir com ele, ficou essa enorme gratidão por nos ter ensinado que o riso é uma forma de criar laços, de ir ao encontro dos outros, não se confunde com o ruído do trocadilho vil, nem com o esgar da chacota, nem com o comentário que humilha ou envergonha quem o diz e quem o ouve.
Que a memória de Raul Solnado possa ser honrada com as gargalhadas puras que o seu espírito humano e a sua sensibilidade souberam fazer ecoar ao longo de tantos anos.

sábado, 8 de agosto de 2009

"Um belo poema a um homem bom"

Dei uma saltada a Coja. Não estava longe. Sabia que havia uma feira de artesanato. Adoro percorrer as aldeias e vilas da minha região. Não me canso de rever velhos lugares e descobrir novos. Descanso e fico com a alma mais arejada. Foi o que fiz. Vi a feira. Passeei pelas ruelas. E ouvi o belo rio Alva, tranquilo e sedutor.
Subi a encosta e deparei-me com um memorial a um médico, Alberto da Maia e Cruz do Valle (1875-1956), a vigiar o rio. A ladear o seu busto deparo-me com palavras sublimes de Miguel Torga que não resisto de transcrever: “Era um homem bom como já não há. Viveu e morreu discretamente com medo de acordar os interesses da vida e as pompas da morte, e quem o conheceu só poderia desejar que a limpidez do Alva ficasse a refletir-lhe a memória pela eternidade fora”.
Valeu a pena o passeio. Li um belo poema a um homem bom.