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domingo, 12 de dezembro de 2010
A frase que Manuel Alegre mais temia...
... foi dita por Sócrates numa entrevista à TSF. Afirmou o nosso PM que tem muita confiança em que Manuel Alegre ganhe as eleições.
A maldade, mesmo no mundo da política, deveria ter limites...
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
A cabalística Resolução 77 do Conselho de Ministros
O sete é um número cabalístico e sagrado, significou longevidade e respeito aos deuses, ritual para muitas religiões, foi símbolo da perfeição ou da desgraça. Foram sete as maravilhas do mundo antigo e foram também sete as bíblicas Pragas do Egipto.
E se um sete incorpora tanto bem ou tanto mal, dois setes levam ao infinito a maravilha ou a praga.
Pois o Conselho de Ministros escolheu precisamente dois setes, o 77 para o número da toda ela cabalística Resolução que aplica o Programa SIMPLEGIS (medidas de simplificação legislativa) ao Regimento do Conselho de Ministros.
Mas se sete é número cabalístico, a junção de 4+3 para dar 7 constituía o apogeu de muitos rituais da antiguidade.
O que acontece com a dita Resolução. Para além do dois 7 do número, a Resolução é toda ela um documento da mais alta cabala. Pois não é que, para começar, o Preâmbulo utiliza 7 alíneas (3+4) para definir os seus objectivos e formas de aplicação? E para terminar, o Diploma desdobra-se por 27 artigos?
Mas para além desta simbologia, a Resolução apresenta fortíssima substância cabalar, tecnocraticamente expressa em requintados objectivos.
Assim, a partir da agora, cada novo Decreto exige que se condene à morte e se abata pelo menos outro Decreto. Certamente que a complexidade do julgamento irá precisar da mente brilhante de um novo e aprimorado Secretário de Estado. Mas com julgamento ou execução sumária, foram desde logo estabelecidas 300 execuções até ao fim do ano.
Todavia, o governo tem também o objectivo de facilitar a consulta das novíssimas leis. E como considera o Diário da República de difícil leitura, o Simplegis decidiu substituir a publicação de determinados actos naquele conceituado órgão mediático por outras formas de divulgação pública. E ainda para facilitar mais a consulta, vai lançar um novo portal de informação legislativa.
Ou seja, se bem compreendo, a legislação vai proliferar por vários portais e muitas portas. No fim, ninguém saberá a porta bater. Mas isso faz parte da cabala.
Nota para os mais pacientes: o cabalístico documento pode aqui ser consultado.
E se um sete incorpora tanto bem ou tanto mal, dois setes levam ao infinito a maravilha ou a praga.
Pois o Conselho de Ministros escolheu precisamente dois setes, o 77 para o número da toda ela cabalística Resolução que aplica o Programa SIMPLEGIS (medidas de simplificação legislativa) ao Regimento do Conselho de Ministros.
Mas se sete é número cabalístico, a junção de 4+3 para dar 7 constituía o apogeu de muitos rituais da antiguidade.
O que acontece com a dita Resolução. Para além do dois 7 do número, a Resolução é toda ela um documento da mais alta cabala. Pois não é que, para começar, o Preâmbulo utiliza 7 alíneas (3+4) para definir os seus objectivos e formas de aplicação? E para terminar, o Diploma desdobra-se por 27 artigos?
Mas para além desta simbologia, a Resolução apresenta fortíssima substância cabalar, tecnocraticamente expressa em requintados objectivos.
Assim, a partir da agora, cada novo Decreto exige que se condene à morte e se abata pelo menos outro Decreto. Certamente que a complexidade do julgamento irá precisar da mente brilhante de um novo e aprimorado Secretário de Estado. Mas com julgamento ou execução sumária, foram desde logo estabelecidas 300 execuções até ao fim do ano.
Todavia, o governo tem também o objectivo de facilitar a consulta das novíssimas leis. E como considera o Diário da República de difícil leitura, o Simplegis decidiu substituir a publicação de determinados actos naquele conceituado órgão mediático por outras formas de divulgação pública. E ainda para facilitar mais a consulta, vai lançar um novo portal de informação legislativa.
Ou seja, se bem compreendo, a legislação vai proliferar por vários portais e muitas portas. No fim, ninguém saberá a porta bater. Mas isso faz parte da cabala.
Nota para os mais pacientes: o cabalístico documento pode aqui ser consultado.
As frágeis certezas em que confiamos
Salvo por opressão directa, qual é a forma mais certa de se perder a liberdade? Se abusarmos, ou deixarmos que abusem dela. E podemos abusar dela de várias formas, em particular para causarmos danos aos outros ou para alcançar, ou permitir que alguém alcance, aquilo a que não se teria acesso com um comportamento leal. Qual é a melhor forma de se perder a autoridade? Usando o poder para fazer o que aos outros não é permitido ou que é injusto. Qual é a melhor forma de perdermos a mobilidade, de atravessar territórios sem fronteiras, nem barreiras, nem satisfações a dar? Criando problemas de segurança, disseminando ameaças ou desrespeitando a cultura, a economia, as leis ou o ambiente dos povos que abrem as suas portas a quem os quiser visitar ou neles trabalhar.
Ninguém nos protege dessas ameaças se não formos nós, cada um de nós, a exercer em primeira mão o sentido crítico e a exigência do respeito pelos limites de que depende a sobrevivência dessas liberdades ou dessa autonomia. No entanto, a maior parte destas atitudes surge insidiosamente, sob a capa de legitimo uso desses direitos de agir, em regra aplaudidas pelos maiores paladinos dos direitos e deveres que assim são postos em causa, só porque numa primeira fase lhes convém, ou apenas porque são ingénuos. Então é difícil contrapor, porque argumentam copiosamente contra quem protesta, acusam mesmo os outros de não compreenderem o alcance e profundidade de tão magnos direitos e de quererem tolhê-los, dando assim campo livre para que se avance na sua erosão. As vistas curtas dos que conseguem lamber algumas migalhas do que se serve à mesa dos prevaricadores, ou a cobardia intelectual dos que receiam ser criticados por os denunciar antes que se revelem em toda a sua crueza, são essenciais para dar tempo a que estes reforcem o seu poder destruidor.
E então, um dia, tarde demais, acordaremos para a realidade. A liberdade cerceada para evitar abusos e danos insuportáveis, a autoridade corroída a dar lugar à arbitrariedade e à impotência dos submetidos, a mobilidade a tropeçar a cada passo em barreiras, em controles, em scaners, em fortunas gastas para defender da invasão ou dos atentados o que antes eram espaços de livre circulação. A liberdade de imprensa, o bom uso do poder democraticamente eleito ou o direito à mobilidade são bens intoleráveis para os que querem impor os seus pontos de vista, para os que cobiçam o poder como um privilégio pessoal ou para os que reinam em sociedades fechadas que não querem ver contaminadas pela esperança da felicidade.
Nesse dia vamos perguntar-nos, com amargura, se não nos devíamos ter defendido com mais determinação dos que, como o lobo da história da cabrinha, se aproximam com luva branca e ar inocente, invocando a nossa senha protectora para nos enganar, brincando com as nossas frágeis certezas. E acabando por nos meter no papo.
Ninguém nos protege dessas ameaças se não formos nós, cada um de nós, a exercer em primeira mão o sentido crítico e a exigência do respeito pelos limites de que depende a sobrevivência dessas liberdades ou dessa autonomia. No entanto, a maior parte destas atitudes surge insidiosamente, sob a capa de legitimo uso desses direitos de agir, em regra aplaudidas pelos maiores paladinos dos direitos e deveres que assim são postos em causa, só porque numa primeira fase lhes convém, ou apenas porque são ingénuos. Então é difícil contrapor, porque argumentam copiosamente contra quem protesta, acusam mesmo os outros de não compreenderem o alcance e profundidade de tão magnos direitos e de quererem tolhê-los, dando assim campo livre para que se avance na sua erosão. As vistas curtas dos que conseguem lamber algumas migalhas do que se serve à mesa dos prevaricadores, ou a cobardia intelectual dos que receiam ser criticados por os denunciar antes que se revelem em toda a sua crueza, são essenciais para dar tempo a que estes reforcem o seu poder destruidor.
E então, um dia, tarde demais, acordaremos para a realidade. A liberdade cerceada para evitar abusos e danos insuportáveis, a autoridade corroída a dar lugar à arbitrariedade e à impotência dos submetidos, a mobilidade a tropeçar a cada passo em barreiras, em controles, em scaners, em fortunas gastas para defender da invasão ou dos atentados o que antes eram espaços de livre circulação. A liberdade de imprensa, o bom uso do poder democraticamente eleito ou o direito à mobilidade são bens intoleráveis para os que querem impor os seus pontos de vista, para os que cobiçam o poder como um privilégio pessoal ou para os que reinam em sociedades fechadas que não querem ver contaminadas pela esperança da felicidade.
Nesse dia vamos perguntar-nos, com amargura, se não nos devíamos ter defendido com mais determinação dos que, como o lobo da história da cabrinha, se aproximam com luva branca e ar inocente, invocando a nossa senha protectora para nos enganar, brincando com as nossas frágeis certezas. E acabando por nos meter no papo.
Reserva nacional de solidariedade...
São duas iniciativas solidárias muito importantes pelo que podem representar em termos de apoio às pessoas carenciadas com dificuldades de se alimentarem e terem uma alimentação suficientemente nutrida.Transformar as sobras das refeições confeccionadas pelos restaurantes em alimentação que será levada à mesa de muitas famílias que não têm dinheiro para comer é um apoio que vai satisfazer uma necessidade básica, bastando para tal que aquilo que antes era desperdício passe a ser um bem de consumo normal. Ao mesmo tempo, a criação de títulos de refeição vai permitir que as pessoas carenciadas possam ir aos restaurantes e aí recebam o apoio alimentar de que necessitam.
Trata-se de uma solução institucional de âmbito nacional promovida pela Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, que será gerida localmente em parceria com entidades locais - instituições de solidariedade social, autarquias, cadeias de supermercados - que se organizam e articulam de acordo com as necessidades e os recursos existentes. A aposta na proximidade, geradora de maior conhecimento, é a chave para mais fácilmente ligar quem tem a quem precisa.
Quando em Portugal existem filas de espera para comer uma sopa estas iniciativas ganham ainda maior importância. Este caso é um exemplo de responsabilidade social "responsável" e é a prova de que a sociedade civil dispõe de uma grande reserva nacional de solidariedade para realizar o bem comum, porque tem capacidade para inovar, mobilizar e concretizar respostas sociais.
Quando em Portugal existem filas de espera para comer uma sopa estas iniciativas ganham ainda maior importância. Este caso é um exemplo de responsabilidade social "responsável" e é a prova de que a sociedade civil dispõe de uma grande reserva nacional de solidariedade para realizar o bem comum, porque tem capacidade para inovar, mobilizar e concretizar respostas sociais.
As reformas...que afinal não são reformas...
1.Passada a turbulência da discussão e votação do OE/2011 – deixou-se de falar nele, como se já estivesse tudo resolvido - entramos agora numa fase da política económica em que uma enorme confusão de ideias e um mediatismo exacerbado parecem ser as notas dominantes.
2.Torna-se cada vez mais visível que vamos perdendo todos os graus de liberdade na definição da política económica, incluindo as políticas sectoriais, à medida que “Bruxelas” – os nossos parceiros da zona Euro sobretudo – se vão apercebendo da dificuldade ou incapacidade dos dirigentes nacionais para tomar as medidas que uma situação próxima da ruptura financeira impõe.
3.Assistimos ao espectáculo curiosíssimo de os Ministros – cabendo ao das Finanças a parte de leão, imagino as insónias que deve sofrer – apanharem duras reprimendas de “Bruxelas” por não fazerem o trabalho de casa, voltando ao País vergados à penosa indicação de tomar medidas de ajustamento...que, com visível dificuldade, vão balbuciando e negando logo de seguida.
4.O que se passa em matéria de revisão das leis do trabalho é paradigmático desta fase de confusão e de atabalhoamento que as reprimendas de Bruxelas provocam nos dirigentes nacionais.
5.Num dia apregoa-se a adopção de medidas (difíceis, claro está)– despedimentos e suas indemnizações, por exemplo - no dia seguinte vira-se tudo do avesso, já não se mexe nos despedimentos...
6.Num dia anuncia-se a necessidade de mexer em pontos importantes do Código do Trabalho, no dia seguinte nega-se tal necessidade, diz-se que a aplicação do Código apenas tem de ser dinamizada (??)...
7.Ao mesmo tempo promove-se uma campanha mediática fortíssima, até à exaustão, para saudar o sucesso nas exportações, isolando deliberadamente os dados do 3º Trimestre - como se o ano se reduzisse a esse período - omitindo que os últimos dados globais divulgados pelo BdeP até Setembro evidenciam um aumento do défice comercial no corrente ano (pequeno, de € 12,8 para € 13 mil milhões, mas é aumento)...
8.E anuncia-se o lançamento de uma ambiciosa “agenda do crescimento” - criatura certamente das agências de comunicação - como se fossemos finalmente descobrir a "pólvora" do crescimento e, com um clique, por a economia de velas enfunadas num ritmo de expansão sem paralelo, de fazer inveja aos “maus" de "Bruxelas"...
9.Como diria o outro, “estamos cada vez mais na mesma”...optimismo para dar e vender...
2.Torna-se cada vez mais visível que vamos perdendo todos os graus de liberdade na definição da política económica, incluindo as políticas sectoriais, à medida que “Bruxelas” – os nossos parceiros da zona Euro sobretudo – se vão apercebendo da dificuldade ou incapacidade dos dirigentes nacionais para tomar as medidas que uma situação próxima da ruptura financeira impõe.
3.Assistimos ao espectáculo curiosíssimo de os Ministros – cabendo ao das Finanças a parte de leão, imagino as insónias que deve sofrer – apanharem duras reprimendas de “Bruxelas” por não fazerem o trabalho de casa, voltando ao País vergados à penosa indicação de tomar medidas de ajustamento...que, com visível dificuldade, vão balbuciando e negando logo de seguida.
4.O que se passa em matéria de revisão das leis do trabalho é paradigmático desta fase de confusão e de atabalhoamento que as reprimendas de Bruxelas provocam nos dirigentes nacionais.
5.Num dia apregoa-se a adopção de medidas (difíceis, claro está)– despedimentos e suas indemnizações, por exemplo - no dia seguinte vira-se tudo do avesso, já não se mexe nos despedimentos...
6.Num dia anuncia-se a necessidade de mexer em pontos importantes do Código do Trabalho, no dia seguinte nega-se tal necessidade, diz-se que a aplicação do Código apenas tem de ser dinamizada (??)...
7.Ao mesmo tempo promove-se uma campanha mediática fortíssima, até à exaustão, para saudar o sucesso nas exportações, isolando deliberadamente os dados do 3º Trimestre - como se o ano se reduzisse a esse período - omitindo que os últimos dados globais divulgados pelo BdeP até Setembro evidenciam um aumento do défice comercial no corrente ano (pequeno, de € 12,8 para € 13 mil milhões, mas é aumento)...
8.E anuncia-se o lançamento de uma ambiciosa “agenda do crescimento” - criatura certamente das agências de comunicação - como se fossemos finalmente descobrir a "pólvora" do crescimento e, com um clique, por a economia de velas enfunadas num ritmo de expansão sem paralelo, de fazer inveja aos “maus" de "Bruxelas"...
9.Como diria o outro, “estamos cada vez mais na mesma”...optimismo para dar e vender...
Tatuagens
Como médico tenho de fazer diagnósticos e, naturalmente, como qualquer ser humano, não consigo evitar de fazer auto diagnóstico. É fácil de intuir que é muito mais cómodo fazer os primeiros.
O exagero, a distorção e o anseio levam-me a errar, felizmente com alguma frequência, os diagnósticos das minhas doenças. Um alívio! Mas às vezes estão certos. Alguns não têm grande importância, mas mesmo assim incomodam, não digo fisicamente, mas intelectualmente. É o que está a acontecer neste momento. Quero lembrar-me do autor e do título de uma obra, em que o sonho de uma criança era um dia fazer uma tatuagem. O desejo da criança nasceu quando viu um marinheiro no porto com um veleiro tatuado no peito. Quando inspirava profundamente as velas enfunavam-se e o barco parecia voar. Eu gostaria de o encontrar e recordar algumas passagens que me marcaram sobremaneira, mas não sei onde está, deve estar encaixotado. Tudo por causa de algumas tatuagens que tenho visto ultimamente. Sofro de “Amnésia in litteris”, segundo Patrick Suskind no seu pequeno e interessante ensaio. Afinal, quando lemos um livro a nossa consciência e maneira de ser altera-se, de tal forma que somos também aquilo que lemos. Não interessa se conseguimos recordar, ou não, o autor ou o nome do livro. O mais importante são os seus efeitos, espécies de tatuagens que não se veem, mas que deixam as suas marcas na nossa mente, capazes de modificarem a nossa personalidade, enriquecendo-a.
Nos últimos tempos deparo-me com muitas pessoas tatuadas, coisa que há alguns anos era raro, não passavam de tatuagens feias, por vezes ridículas e toscas a dizer basta. Agora não. Algumas são encantadoras e denotam sentido estético a ponto de poder afirmar que são verdadeiras obras de arte.
Há tempos, uma jovem simpática, com piercings por tudo o que era sítio, apresentava várias tatuagens. Era verão, o braço direito, rechonchudo, a combinar com o resto do corpo, tinha uma figura com traços indianos, colorida, cheia de arabescos, muito complexa e inacabada. Tive de lhe perguntar o seu significado, e com alegria disse-me algo sobre uma deusa do amor e dos seus amores... Como se tinha divorciado há pouco tempo, lembrou-se de a fazer em homenagem ao seu grande amor! Fiquei de boca aberta e apontei para mais algumas no pé direito, letras estranhas e correntes. - Fi-las em memória de amigos que morreram! No pescoço, a descair para o dorso, mais tatuagens, um olho e letras arábicas. - Para protegerem do mau-olhado a mim e ao meu filho. No punho, mais algumas, também eram por causa de amigos, e dizia os nomes e circunstâncias em que morreram. Foi então que lhe perguntei se tinha muitos amigos. Respondeu-me que sim, que tinha. - E estão bem de saúde? Ripostei. Deu uma gargalhada, porque percebeu onde queria chegar, e com as suas mãos a rodear o seu corpo, vasto e largo, deu a entender que tinha superfície para todos.
Noutra ocasião, ao auscultar uma jovem senhora, e depois de ter aberto dois botões da sua blusa, deparei que na parte superior da mama esquerda estava uma mosca. Delicadamente, com o estetoscópio, fiz o gesto para a afastar. Claro que ficou no mesmo sítio. Apercebendo-se do meu embaraço começou a falar dela com uma ternura que me impressionou. - Uma mosca? E logo aqui? Disse-lhe. Retrucou-me que lhe dava muito gozo. - Mas o senhor doutor ainda não viu outra que está mais abaixo. E antes que dissesse algo, colocou a mama esquerda ao léu, levantando-a ligeiramente para que pudesse ver uma linda e multicolorida borboleta naquele espaço recatado, escondida na parte inferior e invisível ao seu olhar. Atendendo à idade não precisava de a levantar, porque tinha tónus e força capaz de fazer inveja a um míssil pronto a disparar. - Uma borboleta? E aqui? A explicação fascinou-me. - O senhor doutor já alguma vez tocou numa borboleta? Disse-lhe que sim. - E o que é que sentiu? Não me deixou responder, respondeu por mim. - Veludo. Não é verdade? Eu tenho aqui o meu veludo. Não disse nada, mas apeteceu-me perguntar-lhe o que é que iria fazer à sua borboleta aveludada quando as mamas perdessem a sua intumescência. Coitada, amachucada, às escuras e sem veludo.
Hoje, ao examinar um trabalhador, pedi-lhe para levantar a camisa e deparei que na zona pré cordial apresentava uma tatuagem com a figura de Che Guevara orlada a vermelho pela frase “Hasta la Victoria, Siempre”. Coloquei o estetoscópio em cima da figura do meu ex-colega, tapei-o, claro, e ouvi que o coração estava a funcionar muito bem. Não fiz um único comentário. Sabe-se lá o que teria de ouvir...
O exagero, a distorção e o anseio levam-me a errar, felizmente com alguma frequência, os diagnósticos das minhas doenças. Um alívio! Mas às vezes estão certos. Alguns não têm grande importância, mas mesmo assim incomodam, não digo fisicamente, mas intelectualmente. É o que está a acontecer neste momento. Quero lembrar-me do autor e do título de uma obra, em que o sonho de uma criança era um dia fazer uma tatuagem. O desejo da criança nasceu quando viu um marinheiro no porto com um veleiro tatuado no peito. Quando inspirava profundamente as velas enfunavam-se e o barco parecia voar. Eu gostaria de o encontrar e recordar algumas passagens que me marcaram sobremaneira, mas não sei onde está, deve estar encaixotado. Tudo por causa de algumas tatuagens que tenho visto ultimamente. Sofro de “Amnésia in litteris”, segundo Patrick Suskind no seu pequeno e interessante ensaio. Afinal, quando lemos um livro a nossa consciência e maneira de ser altera-se, de tal forma que somos também aquilo que lemos. Não interessa se conseguimos recordar, ou não, o autor ou o nome do livro. O mais importante são os seus efeitos, espécies de tatuagens que não se veem, mas que deixam as suas marcas na nossa mente, capazes de modificarem a nossa personalidade, enriquecendo-a.
Nos últimos tempos deparo-me com muitas pessoas tatuadas, coisa que há alguns anos era raro, não passavam de tatuagens feias, por vezes ridículas e toscas a dizer basta. Agora não. Algumas são encantadoras e denotam sentido estético a ponto de poder afirmar que são verdadeiras obras de arte.
Há tempos, uma jovem simpática, com piercings por tudo o que era sítio, apresentava várias tatuagens. Era verão, o braço direito, rechonchudo, a combinar com o resto do corpo, tinha uma figura com traços indianos, colorida, cheia de arabescos, muito complexa e inacabada. Tive de lhe perguntar o seu significado, e com alegria disse-me algo sobre uma deusa do amor e dos seus amores... Como se tinha divorciado há pouco tempo, lembrou-se de a fazer em homenagem ao seu grande amor! Fiquei de boca aberta e apontei para mais algumas no pé direito, letras estranhas e correntes. - Fi-las em memória de amigos que morreram! No pescoço, a descair para o dorso, mais tatuagens, um olho e letras arábicas. - Para protegerem do mau-olhado a mim e ao meu filho. No punho, mais algumas, também eram por causa de amigos, e dizia os nomes e circunstâncias em que morreram. Foi então que lhe perguntei se tinha muitos amigos. Respondeu-me que sim, que tinha. - E estão bem de saúde? Ripostei. Deu uma gargalhada, porque percebeu onde queria chegar, e com as suas mãos a rodear o seu corpo, vasto e largo, deu a entender que tinha superfície para todos.
Noutra ocasião, ao auscultar uma jovem senhora, e depois de ter aberto dois botões da sua blusa, deparei que na parte superior da mama esquerda estava uma mosca. Delicadamente, com o estetoscópio, fiz o gesto para a afastar. Claro que ficou no mesmo sítio. Apercebendo-se do meu embaraço começou a falar dela com uma ternura que me impressionou. - Uma mosca? E logo aqui? Disse-lhe. Retrucou-me que lhe dava muito gozo. - Mas o senhor doutor ainda não viu outra que está mais abaixo. E antes que dissesse algo, colocou a mama esquerda ao léu, levantando-a ligeiramente para que pudesse ver uma linda e multicolorida borboleta naquele espaço recatado, escondida na parte inferior e invisível ao seu olhar. Atendendo à idade não precisava de a levantar, porque tinha tónus e força capaz de fazer inveja a um míssil pronto a disparar. - Uma borboleta? E aqui? A explicação fascinou-me. - O senhor doutor já alguma vez tocou numa borboleta? Disse-lhe que sim. - E o que é que sentiu? Não me deixou responder, respondeu por mim. - Veludo. Não é verdade? Eu tenho aqui o meu veludo. Não disse nada, mas apeteceu-me perguntar-lhe o que é que iria fazer à sua borboleta aveludada quando as mamas perdessem a sua intumescência. Coitada, amachucada, às escuras e sem veludo.
Hoje, ao examinar um trabalhador, pedi-lhe para levantar a camisa e deparei que na zona pré cordial apresentava uma tatuagem com a figura de Che Guevara orlada a vermelho pela frase “Hasta la Victoria, Siempre”. Coloquei o estetoscópio em cima da figura do meu ex-colega, tapei-o, claro, e ouvi que o coração estava a funcionar muito bem. Não fiz um único comentário. Sabe-se lá o que teria de ouvir...
O lado feio da política...
O anúncio do Presidente da Região Autónoma dos Açores de compensar os seus funcionários públicos pelos cortes salariais de 5% aprovados no Orçamento de Estado de 2011 é uma medida discriminatória, que revela uma quebra dos princípios da equidade e da solidariedade. A decisão constitui um problema político. A questão jurídica está, em meu entender, em segundo plano, e consequentemente, o problema da inconstitucionalidade não é a questão central. Estamos perante uma decisão que deve ser avaliada, antes de quaisquer outras considerações, no plano ético - político.É preciso não esquecer que os custos da insularidade dos Açores e da Madeira já hoje são objecto de compensações por parte dos contribuintes e consumidores do Continente, em resultado, justamente, da concretização daqueles princípios, protegidos pela lei, seja através da diferenciação fiscal, seja através da subsidiação dos custos da energia eléctrica ou da redução das tarifas de transportes aéreos, apenas para dar alguns exemplos, não esquecendo as transferências do Orçamento de Estado para os Açores e para a Madeira financiadas pelos contribuintes do Continente. Segundo ouvi, os 3.000 funcionários públicos dos Açores auferem, em média, 2,5 vezes mais que o salário médio nacional.
Portanto, num momento de grave crise, em que se exigem sacrifícios aos portugueses, é fundamental manter o País unido em torno do princípio da solidariedade. A medida não é, portanto, aceitável, e merece uma forte sanção política.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Na volta à Idade Média dos senhores feudais
Nos tempos idos medievais, havia o Senhor Feudal, com território autónomo concedido por alvará real, e que prestava vassalagem ao Rei.
Nos tempos modernos medievais, há um Estado aparentemente autónomo que presta vassalagem ao Senhor Feudal.
Nos tempos idos medievais, eram as Cortes Gerais do Reino que impunham as regras ao Senhor Feudal.
Nos tempos modernos medievais, as Cortes Gerais só podem impor as normas que os Senhor Feudal autorizar.
Nos tempos idos medievais, o Rei nomeava Juízes de Fora para julgar quem não cumpria a lei régia no território do Senhor Feudal.
Nos tempos modernos medievais, o Senhor Feudal interpreta as leis a seu modo e o Reino e as Cortes submetem-se com receio de rebelião.
Nos tempos idos medievais, o Senhor Feudal pagava tributo ao rei.
Nos tempos modernos medievais, o reino paga tributo ao Senhor Feudal.
Nos tempos idos medievais, um Pretendente ao trono nunca abdicava dos poderes e prerrogativas do trono.
Nos tempos modernos medievais, há Pretendentes a fazer vénia perante todos os desvarios do senhor feudal.
No fim, e a pouco e pouco, o Reino submeteu-se ao Senhor Feudal e o Senhor Feudal tomou conta do reino.
Nos tempos modernos medievais, há um Estado aparentemente autónomo que presta vassalagem ao Senhor Feudal.
Nos tempos idos medievais, eram as Cortes Gerais do Reino que impunham as regras ao Senhor Feudal.
Nos tempos modernos medievais, as Cortes Gerais só podem impor as normas que os Senhor Feudal autorizar.
Nos tempos idos medievais, o Rei nomeava Juízes de Fora para julgar quem não cumpria a lei régia no território do Senhor Feudal.
Nos tempos modernos medievais, o Senhor Feudal interpreta as leis a seu modo e o Reino e as Cortes submetem-se com receio de rebelião.
Nos tempos idos medievais, o Senhor Feudal pagava tributo ao rei.
Nos tempos modernos medievais, o reino paga tributo ao Senhor Feudal.
Nos tempos idos medievais, um Pretendente ao trono nunca abdicava dos poderes e prerrogativas do trono.
Nos tempos modernos medievais, há Pretendentes a fazer vénia perante todos os desvarios do senhor feudal.
No fim, e a pouco e pouco, o Reino submeteu-se ao Senhor Feudal e o Senhor Feudal tomou conta do reino.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
A confirmação que faltava!...
Portugal entrou na média da OCDE a Português..., titula hoje o Público, a propósito do Relatório independente PISA.
Título feliz e verdadeiro. E a confirmação clara de que se sabe muito pouco português por estas terras lusitanas...
Eu ouvi e não esqueci...
Há dias abri a revista da Ordem do Médicos e confrontei-me com uma notícia sobre a comemoração dos dez anos do desaparecimento do professor Machado Macedo que foi bastonário da Ordem dos Médicos.
Lembro-me tão bem dele. Um príncipe.
Eu ouvi e não esqueci...
Abri a revista e folheei-a indolentemente, sem intenção de a ler. Uma rápida leitura pelos títulos, porque às vezes pode surgir algo de interesse. Foi o que aconteceu, li que se tinha realizado uma cerimónia, a propósito do desaparecimento do professor Machado Macedo ocorrido há dez anos. Dez anos? Antes de ler o conteúdo perpassou-me pela mente alguns episódios e recordações, não muitos, mas qualquer um deles suficientemente diamantino para ser esquecido.
Travei conhecimento pessoal, pela primeira vez, em Santiago de Compostela, após as eleições para a Ordem dos Médicos. Tinha acabado de ser eleito como membro do Conselho Regional do Centro. Uma apresentação cordial acompanhada de algumas palavras de circunstância. Nessa altura, nos intervalos das reuniões com médicos de toda a Europa, começámos a conviver amiúde.
Como seria de esperar tivemos de visitar a Catedral. À saída tirámos uma foto na escadaria. O meu filho mais novo, com cinco anos, teve de ir connosco. No momento de tirar a fotografia, a minha mulher afastou-se com o gaiato, mas foram interrompidos, chamando-os para integrar o grupo. Pegou na mão da criança e apresentou-o aos colegas das outras nações como o elemento mais novo da comitiva portuguesa. A partir daqui o raio do rapaz punha-se logo a seu lado sempre que o via. Chegou a ensinar-lhe algumas frases em espanhol com as quais se safava com um à-vontade surpreendente.
A partir de então, sempre que nos cruzávamos, perguntava imediatamente como andava o “colega”.
Outra vez, também em Espanha, desta feita em Barcelona, numa reunião internacional em que deveria fazer um importante discurso final para tão prestigiada assembleia, claudicou na véspera com uma laringite que o pôs totalmente afónico. - E agora? Como vou sair desta embrulhada? Tantos médicos e não conseguem fazer nada! - Qual quê! Com uma boa dose de corticosteroides até era capaz de melhorar rapidamente. - E onde vou arranjar “isso”? - É fácil! - Fácil? - Sim, eu tenho o hábito de viajar com uma mini farmácia - Hum! Hipocondríaco? - Não, disse timidamente, não propriamente, mas apenas por uma mera questão de precaução, nunca se sabe o que poderá vir a acontecer, e como andamos fora da nossa terra... - Pois, pois! Tem razão.
Pensei que o meu atrevimento não tivesse qualquer repercussão. Enganei-me, porque a certa altura disse-me: - Eu queria tanto falar amanhã! E se os tomasse? - É fácil, vou ao hotel buscá-los. E assim foi. Em breve estava a enfiá-los na boca. Mas antes perguntou-me: - Quantos comprimidos devo tomar? Uma chatice! Fiz uma rápida conta de cabeça e proclamei: - Quatro! - Quatro?! Não é demais? - Não, disse com o ar mais doutoral do mundo. Mas nessa noite fiquei um pouco nervoso, com receio de ocorrer algum efeito secundário. Seria um pouco aborrecido se o bastonário acabasse por adoecer ainda mais com a medicação. Afinal, tratar uma infeção com corticosteroides não é muito ortodoxo sob o ponto de vista médico.
No dia seguinte, logo pela manhã, Machado Macedo parecia um rouxinol, com uma voz perfeitamente audível. - Melhor? Perguntei-lhe. - Não ouve? E acabei de enfiar agora mesmo mais quatro. - Mais quatro?! Fiquei inquieto. O melhor é não tomar mais, porque pode ser contraproducente. - Qual quê! Saiu bem-disposto sem se importunar com os meus receios.
Ao final da tarde, com um discurso profundo, elegante e cristalino, na forma e no conteúdo, todo ele de improviso, num Inglês de fazer inveja a um Britânico, encheu a nossa comitiva de orgulho.
Ao jantar a satisfação era mais do que evidente e não parava de me agradecer por aqueles comprimidos maravilhosos. A minha sorte, pensei, era que a caixa só tinha oito e ele mamou-os em duas tomas. Já não corria o risco de lhe provocar problemas. Um alívio.
Mais tarde, sempre que nos encontrávamos, perguntava como ia o “colega” e agradecia a minha terapêutica.
A última vez que o vi foi num congresso de cardiologia, em Vilamoura. Estava triste e um pouco isolado. Cumprimentei-o e perguntei-lhe como andava: - Mal, meu caro, mal! Diagnosticaram-me um cancro na bexiga e agora tenho de ser operado. Querem-me fazer uma nova, sabe, coisas de cirurgião. Ao dizer isto, deixou escapar um discreto sorriso, misto de simplicidade e de aristocracia. Ainda falámos mais uns momentos sobre o livro que tinha acabado de escrever e de alguns episódios passados em comum. Bebemos à saúde de ambos. Tinha vindo apenas à cerimónia de abertura e iria embora logo pela manhã, por causa dos exames para a intervenção que iria fazer nos próximos dias. Desejei-lhe felicidades.
Foi a última vez que o vi.
Quando soube do falecimento, fui encarregado, como vice-presidente do Conselho Regional do Centro, de representar a Ordem nas exéquias. Como ia em missão colocaram-me ao lado do então bastonário precisamente numa cadeira encostada à urna do lado esquerdo.
Muitas pessoas quiseram prestar a última homenagem e algumas aproximavam-se pelo lado direito, a única possibilidade que tinham. Passavam, paravam um pouco, algumas tocavam com a mão na urna, até que assisti a um episódio que nunca mais posso esquecer. Um senhor debruçou-se sobre Machado Macedo e começou a falar com ele com um sentimento de ternura e de sofrimento - Manel. Oh Manel... Não reproduzo o que ouvi, porque não devo e não posso, mas foi uma das mais belas confissões que um ser humano pode ouvir. As lágrimas corriam-lhe pela face, a sua dor era mais do que evidente e o seu poema único, provando a natureza e a essência de um homem cujo valor todos reconheciam, mas com aquela beleza, amor, dedicação e reconhecimento é quase impossível de encontrar. Fiquei nervoso, constrangido, com receio de que pudesse ser descoberto. Senti que estava a mais, a ouvir uma conversa que só dizia respeito aos dois. Mas ouvi e não esqueci. É impossível esquecer tão bela conversa, única, mas que revela tudo o que um homem pode ter de bom, que nem os anjos se podem gabar...
Eu ouvi e não esqueci. Hoje recordei mais uma vez aquelas palavras lindas, sinceras, embrulhadas em lágrimas de pesar.
Lembro-me tão bem dele. Um príncipe.
Eu ouvi e não esqueci...
Abri a revista e folheei-a indolentemente, sem intenção de a ler. Uma rápida leitura pelos títulos, porque às vezes pode surgir algo de interesse. Foi o que aconteceu, li que se tinha realizado uma cerimónia, a propósito do desaparecimento do professor Machado Macedo ocorrido há dez anos. Dez anos? Antes de ler o conteúdo perpassou-me pela mente alguns episódios e recordações, não muitos, mas qualquer um deles suficientemente diamantino para ser esquecido.
Travei conhecimento pessoal, pela primeira vez, em Santiago de Compostela, após as eleições para a Ordem dos Médicos. Tinha acabado de ser eleito como membro do Conselho Regional do Centro. Uma apresentação cordial acompanhada de algumas palavras de circunstância. Nessa altura, nos intervalos das reuniões com médicos de toda a Europa, começámos a conviver amiúde.
Como seria de esperar tivemos de visitar a Catedral. À saída tirámos uma foto na escadaria. O meu filho mais novo, com cinco anos, teve de ir connosco. No momento de tirar a fotografia, a minha mulher afastou-se com o gaiato, mas foram interrompidos, chamando-os para integrar o grupo. Pegou na mão da criança e apresentou-o aos colegas das outras nações como o elemento mais novo da comitiva portuguesa. A partir daqui o raio do rapaz punha-se logo a seu lado sempre que o via. Chegou a ensinar-lhe algumas frases em espanhol com as quais se safava com um à-vontade surpreendente.
A partir de então, sempre que nos cruzávamos, perguntava imediatamente como andava o “colega”.
Outra vez, também em Espanha, desta feita em Barcelona, numa reunião internacional em que deveria fazer um importante discurso final para tão prestigiada assembleia, claudicou na véspera com uma laringite que o pôs totalmente afónico. - E agora? Como vou sair desta embrulhada? Tantos médicos e não conseguem fazer nada! - Qual quê! Com uma boa dose de corticosteroides até era capaz de melhorar rapidamente. - E onde vou arranjar “isso”? - É fácil! - Fácil? - Sim, eu tenho o hábito de viajar com uma mini farmácia - Hum! Hipocondríaco? - Não, disse timidamente, não propriamente, mas apenas por uma mera questão de precaução, nunca se sabe o que poderá vir a acontecer, e como andamos fora da nossa terra... - Pois, pois! Tem razão.
Pensei que o meu atrevimento não tivesse qualquer repercussão. Enganei-me, porque a certa altura disse-me: - Eu queria tanto falar amanhã! E se os tomasse? - É fácil, vou ao hotel buscá-los. E assim foi. Em breve estava a enfiá-los na boca. Mas antes perguntou-me: - Quantos comprimidos devo tomar? Uma chatice! Fiz uma rápida conta de cabeça e proclamei: - Quatro! - Quatro?! Não é demais? - Não, disse com o ar mais doutoral do mundo. Mas nessa noite fiquei um pouco nervoso, com receio de ocorrer algum efeito secundário. Seria um pouco aborrecido se o bastonário acabasse por adoecer ainda mais com a medicação. Afinal, tratar uma infeção com corticosteroides não é muito ortodoxo sob o ponto de vista médico.
No dia seguinte, logo pela manhã, Machado Macedo parecia um rouxinol, com uma voz perfeitamente audível. - Melhor? Perguntei-lhe. - Não ouve? E acabei de enfiar agora mesmo mais quatro. - Mais quatro?! Fiquei inquieto. O melhor é não tomar mais, porque pode ser contraproducente. - Qual quê! Saiu bem-disposto sem se importunar com os meus receios.
Ao final da tarde, com um discurso profundo, elegante e cristalino, na forma e no conteúdo, todo ele de improviso, num Inglês de fazer inveja a um Britânico, encheu a nossa comitiva de orgulho.
Ao jantar a satisfação era mais do que evidente e não parava de me agradecer por aqueles comprimidos maravilhosos. A minha sorte, pensei, era que a caixa só tinha oito e ele mamou-os em duas tomas. Já não corria o risco de lhe provocar problemas. Um alívio.
Mais tarde, sempre que nos encontrávamos, perguntava como ia o “colega” e agradecia a minha terapêutica.
A última vez que o vi foi num congresso de cardiologia, em Vilamoura. Estava triste e um pouco isolado. Cumprimentei-o e perguntei-lhe como andava: - Mal, meu caro, mal! Diagnosticaram-me um cancro na bexiga e agora tenho de ser operado. Querem-me fazer uma nova, sabe, coisas de cirurgião. Ao dizer isto, deixou escapar um discreto sorriso, misto de simplicidade e de aristocracia. Ainda falámos mais uns momentos sobre o livro que tinha acabado de escrever e de alguns episódios passados em comum. Bebemos à saúde de ambos. Tinha vindo apenas à cerimónia de abertura e iria embora logo pela manhã, por causa dos exames para a intervenção que iria fazer nos próximos dias. Desejei-lhe felicidades.
Foi a última vez que o vi.
Quando soube do falecimento, fui encarregado, como vice-presidente do Conselho Regional do Centro, de representar a Ordem nas exéquias. Como ia em missão colocaram-me ao lado do então bastonário precisamente numa cadeira encostada à urna do lado esquerdo.
Muitas pessoas quiseram prestar a última homenagem e algumas aproximavam-se pelo lado direito, a única possibilidade que tinham. Passavam, paravam um pouco, algumas tocavam com a mão na urna, até que assisti a um episódio que nunca mais posso esquecer. Um senhor debruçou-se sobre Machado Macedo e começou a falar com ele com um sentimento de ternura e de sofrimento - Manel. Oh Manel... Não reproduzo o que ouvi, porque não devo e não posso, mas foi uma das mais belas confissões que um ser humano pode ouvir. As lágrimas corriam-lhe pela face, a sua dor era mais do que evidente e o seu poema único, provando a natureza e a essência de um homem cujo valor todos reconheciam, mas com aquela beleza, amor, dedicação e reconhecimento é quase impossível de encontrar. Fiquei nervoso, constrangido, com receio de que pudesse ser descoberto. Senti que estava a mais, a ouvir uma conversa que só dizia respeito aos dois. Mas ouvi e não esqueci. É impossível esquecer tão bela conversa, única, mas que revela tudo o que um homem pode ter de bom, que nem os anjos se podem gabar...
Eu ouvi e não esqueci. Hoje recordei mais uma vez aquelas palavras lindas, sinceras, embrulhadas em lágrimas de pesar.
Inside Job
Fui hoje ao cinema ver Inside Job e francamente não percebo como é que um documentário destes não teve a devida repercussão entre nós. Digo isto porque me lembro da gritaria que foi com um filme de M.Moore sobre a guerra do Iraque que me pareceu um atentado à inteligência e agora este, interessantíssimo, praticamente ainda não tinha ouvido falar.
Trata-se de um documentário excelente sobre as origens e consequências (até agora) da crise que começou por ser financeira e ainda não se sabe o que acabará finalmente por ser. Começa com a Islândia, aquele paraíso perdido com um ar tão pacífico e ordenado, onde os cidadãos acreditavam ter um sistema seguro e limpo, ordenado e cumpridor, by the book. Bastaram cinco anos para tudo colapsar, deixando-os no desemprego e na maior perplexidade. Depois vai ao início da gloriosa inovação financeira, com entrevistas aos então (e ainda!) grandes teóricos, consultores e por fim políticos da época áurea dos grandes bancos, da alta finança, das seguradoras, da globalização dos mercados. Gestores e administradores do Lehman Brothers, Fannie Mae, AIG, Goldman Sachs, etc., nomes como Alain Greenspan, Henry Paulson, Timothy Geithner e muitos outros que ouvimos e lemos mil e uma vezes a ditar teses e projectos que levariam o mundo à glória e à prosperidade, assim os deixassem fazer o que queriam e como queriam, ganhando milhões e vendendo gato por lebre. E as empresas de rating, claro, com as suas miraculosas notações.
Impressionante, os excertos de discursos e conferências mundiais que fizeram e documentos que assinaram, o contraste com as críticas e avisos de gente séria e estudiosa que não estava nesse mercado, chocante a influência ou mesmo o domínio que têm nalgumas reputadas escolas do pensamento económico e financeiro.
Tudo começou como uma novidade e um ovo de Colombo, os pobres também têm direito a ter as suas casas confortáveis, porque não? Compre sem risco, emprestamos sem risco, não pode correr mal. Depois ganharam dimensão, tornaram-se gigantes que esmagavam quem se lhes atravessasse no caminho e na imaginação descontrolada. Por fim, já não era possível parar, seria demasiado perigoso, o mundo agora demasiado pequeno estava todo no mesmo barco.
Nada que não se soubesse, dirão muitos e eu também já sabia algumas coisas. Mas ver assim, o realizador só a perguntar e a ouvir respostas, hesitações ou silêncios,só a mostrar o que todos nós vimos ao longo dos tempos actuais sem entender por completo, é caso para abalar as mais fortes dúvidas sobre a dura e inacreditável realidade.
Dir-se-ia que estamos a assistir ao filme do que ainda estamos a viver, a uma guerra transmitida em tempo real mas sem armas de fogo, sem mortos nem sangue, mas com igual perfídia, a mesma indiferença pelos outros, a mesma falta de escrúpulo, a miséria causada. Sem heroísmo ou ideal algum, também, nem sequer fingido, caras baças e olhos pardos, talvez seja essa frieza e racionalidade o que mais aflige. Inside Job, a destruição das instituições e da ordem das coisas por aqueles que era suposto saberem melhor guardá-las e fazê-las prosperar, dantes chamava-se traição, no tempo das guerras, agora chama-se criatividade, engenharia e mundo financeiro. Não foi preciso exércitos fardados mas sim uma legião de fieis servidores cujo cérebro disponível esteve ao serviço, a troco de generosos ordenados e prémios exorbitantes, numa partilha que paga a cumplicidade.
Trata-se de um documentário excelente sobre as origens e consequências (até agora) da crise que começou por ser financeira e ainda não se sabe o que acabará finalmente por ser. Começa com a Islândia, aquele paraíso perdido com um ar tão pacífico e ordenado, onde os cidadãos acreditavam ter um sistema seguro e limpo, ordenado e cumpridor, by the book. Bastaram cinco anos para tudo colapsar, deixando-os no desemprego e na maior perplexidade. Depois vai ao início da gloriosa inovação financeira, com entrevistas aos então (e ainda!) grandes teóricos, consultores e por fim políticos da época áurea dos grandes bancos, da alta finança, das seguradoras, da globalização dos mercados. Gestores e administradores do Lehman Brothers, Fannie Mae, AIG, Goldman Sachs, etc., nomes como Alain Greenspan, Henry Paulson, Timothy Geithner e muitos outros que ouvimos e lemos mil e uma vezes a ditar teses e projectos que levariam o mundo à glória e à prosperidade, assim os deixassem fazer o que queriam e como queriam, ganhando milhões e vendendo gato por lebre. E as empresas de rating, claro, com as suas miraculosas notações.
Impressionante, os excertos de discursos e conferências mundiais que fizeram e documentos que assinaram, o contraste com as críticas e avisos de gente séria e estudiosa que não estava nesse mercado, chocante a influência ou mesmo o domínio que têm nalgumas reputadas escolas do pensamento económico e financeiro.
Tudo começou como uma novidade e um ovo de Colombo, os pobres também têm direito a ter as suas casas confortáveis, porque não? Compre sem risco, emprestamos sem risco, não pode correr mal. Depois ganharam dimensão, tornaram-se gigantes que esmagavam quem se lhes atravessasse no caminho e na imaginação descontrolada. Por fim, já não era possível parar, seria demasiado perigoso, o mundo agora demasiado pequeno estava todo no mesmo barco.
Nada que não se soubesse, dirão muitos e eu também já sabia algumas coisas. Mas ver assim, o realizador só a perguntar e a ouvir respostas, hesitações ou silêncios,só a mostrar o que todos nós vimos ao longo dos tempos actuais sem entender por completo, é caso para abalar as mais fortes dúvidas sobre a dura e inacreditável realidade.
Dir-se-ia que estamos a assistir ao filme do que ainda estamos a viver, a uma guerra transmitida em tempo real mas sem armas de fogo, sem mortos nem sangue, mas com igual perfídia, a mesma indiferença pelos outros, a mesma falta de escrúpulo, a miséria causada. Sem heroísmo ou ideal algum, também, nem sequer fingido, caras baças e olhos pardos, talvez seja essa frieza e racionalidade o que mais aflige. Inside Job, a destruição das instituições e da ordem das coisas por aqueles que era suposto saberem melhor guardá-las e fazê-las prosperar, dantes chamava-se traição, no tempo das guerras, agora chama-se criatividade, engenharia e mundo financeiro. Não foi preciso exércitos fardados mas sim uma legião de fieis servidores cujo cérebro disponível esteve ao serviço, a troco de generosos ordenados e prémios exorbitantes, numa partilha que paga a cumplicidade.
Terrível, sobretudo, e apesar de tudo, a imagem final da administração americana actual, o grupo todo recuperado.E também a notícia constatando que pouco ou nada se fez do que foi prometido para evitar que tudo se repita ou, pior ainda, tudo converge para fazer crer que está feito. No fim do documentário até desconfiamos dos motivos pelos quais deram tanto relevo à prisão de Madoff!
Vale a pena ver, garanto-vos. E o que eu mais gostaria era de ver imensas opiniões a garantir-me que vi mal e que nada daquilo é verdade nem faz sentido. É que, sabem, eu não acreditava em bruxas, mas há bruxedos que têm uma aparência tão real…
Vale a pena ver, garanto-vos. E o que eu mais gostaria era de ver imensas opiniões a garantir-me que vi mal e que nada daquilo é verdade nem faz sentido. É que, sabem, eu não acreditava em bruxas, mas há bruxedos que têm uma aparência tão real…
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
O sonho das obrigações europeias...
1.Foi noticiada, no início desta semana, uma ideia, arquitectada pelo Presidente do Euro-Grupo, J. C. Juncker e pelo Ministro das Finanças italiano, G, Tremonti, visando a emissão de obrigações europeias, a qual, supostamente discutida em reunião de ontem dos Ministros das Finanças da zona Euro (e da EU), não mereceu aprovação.
2.A emissão de obrigações europeias é um sonho acalentado há alguns anos por responsáveis de países altamente endividados (e também pelo ex-Presidente da Comissão J. Delors), visando possibilitar a emissão de dívida por qualquer país da zona Euro, MAS responsabilizando não apenas o país emitente mas também os demais países da zona, conjuntamente.
3.Percebe-se facilmente o entusiasmo que esta ideia despertou em especial junto dos países mais endividados e com economias e finanças públicas mais desequilibradas...seria uma delícia poderem emitir dívida pelo pagamento da qual os restantes países (Alemanha em especial) fossem co-responsáveis...
4.Em Portugal esta ideia foi já há algum tempo sustentada publicamente por altas individualidades muito empenhadas no salvamento da Pátria, como se a divulgação dessa opinião em Portugal fosse capaz de comover os outros países sobretudo os mais solventes...
5.É por demais evidente que enquanto as decisões de política orçamental forem essencialmente decisões de âmbito nacional, esta ideia das obrigações europeias não terá viabilidade.
6.Não se está a ver que países como a Alemanha possam estar dispostos a responsabilizar-se por dívida emitida por outros, sobretudo países muito endividados, sendo essa emissão, ainda que subordinada a regras especiais, decidida por estes últimos...
7.Isso de resto equivaleria a um “bail-out” automático e potencialmente sem limite dos países altamente endividados, o que é excluído pelo Tratado da União Europeia.
8.Para já, os entusiastas da ideia terão que se contentar com as obrigações que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira irá emitir no mercado, já a partir do próximo ano, para financiar o pacote de ajuda à Irlanda...essas são genuinamente obrigações europeias mas só podem beneficiar da sua emissão os países que pedirem a assistência desse Fundo e do FMI...
9.Assim, se quisermos mesmo ter acesso às obrigações europeias, já sabemos como fazer...
2.A emissão de obrigações europeias é um sonho acalentado há alguns anos por responsáveis de países altamente endividados (e também pelo ex-Presidente da Comissão J. Delors), visando possibilitar a emissão de dívida por qualquer país da zona Euro, MAS responsabilizando não apenas o país emitente mas também os demais países da zona, conjuntamente.
3.Percebe-se facilmente o entusiasmo que esta ideia despertou em especial junto dos países mais endividados e com economias e finanças públicas mais desequilibradas...seria uma delícia poderem emitir dívida pelo pagamento da qual os restantes países (Alemanha em especial) fossem co-responsáveis...
4.Em Portugal esta ideia foi já há algum tempo sustentada publicamente por altas individualidades muito empenhadas no salvamento da Pátria, como se a divulgação dessa opinião em Portugal fosse capaz de comover os outros países sobretudo os mais solventes...
5.É por demais evidente que enquanto as decisões de política orçamental forem essencialmente decisões de âmbito nacional, esta ideia das obrigações europeias não terá viabilidade.
6.Não se está a ver que países como a Alemanha possam estar dispostos a responsabilizar-se por dívida emitida por outros, sobretudo países muito endividados, sendo essa emissão, ainda que subordinada a regras especiais, decidida por estes últimos...
7.Isso de resto equivaleria a um “bail-out” automático e potencialmente sem limite dos países altamente endividados, o que é excluído pelo Tratado da União Europeia.
8.Para já, os entusiastas da ideia terão que se contentar com as obrigações que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira irá emitir no mercado, já a partir do próximo ano, para financiar o pacote de ajuda à Irlanda...essas são genuinamente obrigações europeias mas só podem beneficiar da sua emissão os países que pedirem a assistência desse Fundo e do FMI...
9.Assim, se quisermos mesmo ter acesso às obrigações europeias, já sabemos como fazer...
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Ministério extingue alto comissariado para a saúde
Não foram reveladas as razões da extinção. Mas gostava de conhecer as razões da criação e da manutenção desta estrutura ao longo dos tempos.
Interessa a quem?
Este fim-de-semana desloquei-me à farmácia para aviar um medicamento que tomo com regularidade mediante receita médica. Olhei para a embalagem, para confirmar a dosagem e verifiquei que na etiqueta de barras o preço de venda estava pintado a preto. Questionei a farmacêutica porque razão o preço não estava indicado. Respondeu-me na ponta da língua com um decreto-lei do governo e foi dizendo que também ela não percebia porque razão o utente tinha deixado de ter o direito a ler o preço na embalagem.Estive a ler o dito decreto-lei e francamente que não consigo entender o que li:
"Finalmente, o presente decreto -lei permite que seja eliminada da embalagem de medicamentos a indicação dos preços de venda ao público, apenas nos casos dos medicamentos sujeitos a receita médica comparticipados, quando o utente beneficie da comparticipação. Nestes casos, garante -se ao utente a correcta informação sobre o preço dos medicamentos no momento de dispensa nas farmácias, em que é emitida a factura. (...) A prossecução de todas estas medidas visa, no fundo, a sustentabilidade do SNS, através de um sistema de comparticipação do Estado nos medicamentos mais adequado e que garanta a efectiva acessibilidade dos cidadãos com menos rendimentos a medicamentos de qualidade, eficazes e seguros e a custos comportáveis."
Com mais ou menos comparticipação ou sem ela, a informação do preço é um direito elementar dos consumidores. Numa altura em que há uma preocupação crescente de defesa dos direitos e interesses dos consumidores, que são sempre o elo mais fraco da cadeia de valor, designadamente o direito à informação sobre os preços e as condições de venda dos bens e serviços, não se compreende a decisão do governo, nem tão pouco os seus argumentos. Acresce o facto de o medicamento não ser um produto qualquer. Pelo contrário, é um produto com exigências económicas, técnicas e éticas especiais, consumido por milhões de pessoas e que movimenta uma factura de centenas de milhões de euros. Sem preço não é possível a comparabilidade de preços e não resulta claro o nível de comparticipação e o custo final para o consumidor. Esconder o preço interessa a quem?
Açores exercem Direitos de Saque Especiais
1. Tem dado que falar a decisão do Governo Regional dos Açores (GRA) no sentido de atribuir aos seus funcionários – que, apesar de açorianos, estão subordinados ao estatuto de funcionários públicos – um subsídio extraordinário para compensar os cortes salariais que no OE/2011 forma aplicados a quase todos os funcionários públicos (e não só).
2. O nosso Amigo Pinho Cardão ainda hoje publica neste mesmo 4R um Post em que revela a sua habitual e grande acuidade na análise destes temas.
3. A decisão do GRA é aparente e formalmente legal, pois respeita os cortes salariais determinados - embora constitua uma manifesto expediente para contornar a aplicação de uma lei de incidência pessoal universal, anulando os efeitos práticos dessa lei e implicando encargos adicionais para o OE.
4. O Presidente da República (PR) pronunciou-se sobre este procedimento do GRA admitindo que o mesmo pode sofrer vício de inconstitucionalidade por ferir o princípio da igualdade consagrado na lei fundamental.Têm sido diversas e as mais curiosas as reacções a esta declaração.
5. O Presidente do GRA, no estilo truculento habitual, acusou o PR de “dividir os portugueses”, e de não hesitar “em lançar uns portugueses contra os outros”.
6. O PS/Açores acusa tb o Presidente de “desconsiderar frontalmente a Região”...
7. Num registo ainda mais surpreendente, o PM “salvaguarda as competências dos Açores para compensar os seus funcionários”...
8. Somos pois levados a concluir que a RGA dispõe de Direitos de Saque Especiais sobre o depauperado Tesouro Público Português, podendo utiliza-los quando da aplicação de leis da República resultem sacrifícios para os seus cidadãos que, como é lógico, devem estar sempre e em qq circunstância salvaguardados de tais decisões das autoridades da República.
9. A utilização desses Direitos de Saque Especiais - neste caso para compensar funcionários dos injustos e inaceitáveis cortes salariais – deve assim ser entendida como parte integrante do estatuto de autonomia, e por issose compreende que devam ser “salvaguardadas as competências da RGA para compensar os seus funcionários”...
10. Está mesmo na hora de fazer avançar o projecto da Regionalização do País, sendo de todo conveniente não esquecer, na sua implementação, a atribuição a cada uma das novas Regiões destes Direitos de Saque Especiais...
2. O nosso Amigo Pinho Cardão ainda hoje publica neste mesmo 4R um Post em que revela a sua habitual e grande acuidade na análise destes temas.
3. A decisão do GRA é aparente e formalmente legal, pois respeita os cortes salariais determinados - embora constitua uma manifesto expediente para contornar a aplicação de uma lei de incidência pessoal universal, anulando os efeitos práticos dessa lei e implicando encargos adicionais para o OE.
4. O Presidente da República (PR) pronunciou-se sobre este procedimento do GRA admitindo que o mesmo pode sofrer vício de inconstitucionalidade por ferir o princípio da igualdade consagrado na lei fundamental.Têm sido diversas e as mais curiosas as reacções a esta declaração.
5. O Presidente do GRA, no estilo truculento habitual, acusou o PR de “dividir os portugueses”, e de não hesitar “em lançar uns portugueses contra os outros”.
6. O PS/Açores acusa tb o Presidente de “desconsiderar frontalmente a Região”...
7. Num registo ainda mais surpreendente, o PM “salvaguarda as competências dos Açores para compensar os seus funcionários”...
8. Somos pois levados a concluir que a RGA dispõe de Direitos de Saque Especiais sobre o depauperado Tesouro Público Português, podendo utiliza-los quando da aplicação de leis da República resultem sacrifícios para os seus cidadãos que, como é lógico, devem estar sempre e em qq circunstância salvaguardados de tais decisões das autoridades da República.
9. A utilização desses Direitos de Saque Especiais - neste caso para compensar funcionários dos injustos e inaceitáveis cortes salariais – deve assim ser entendida como parte integrante do estatuto de autonomia, e por issose compreende que devam ser “salvaguardadas as competências da RGA para compensar os seus funcionários”...
10. Está mesmo na hora de fazer avançar o projecto da Regionalização do País, sendo de todo conveniente não esquecer, na sua implementação, a atribuição a cada uma das novas Regiões destes Direitos de Saque Especiais...
O preço da segurança...
Situação insólita e perigosa: um avião no ar a semear peças em Almada. Há registo de duas pessoas feridas e diversos danos materiais. Poderia ter sido uma tragédia, no ar e em terra. É difícil conceber um avião a voar com peças a cair!
A TAAG esteve durante vários meses, recentemente, se a memória não me falha, proibida de voar na Europa. Agora faz parte de uma lista de transportadoras que estão autorizadas a operar dentro do espaço comunitário, mas condicionadas a rigorosas restrições de exploração.
Voar implica segurança. Esta é uma daquelas actividades em que não se pode aligeirar ou facilitar na questão da segurança, designadamente a segurança técnica. Quanto à localização de aeroportos é sempre preferível que não estejam dentro das cidades ou à sua porta...
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