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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Álcool e liberdade

Falei. Às tantas falei de mais, mas que é que poderia fazer? Convidaram-me com muita antecedência, desafiaram-me, deram-me campo para batatas, entusiasmei-me, pus-me a escrevinhar e a dissertar, tanto pensei, tanto fiz que acabei por fazer aquilo que sempre desejei. Depois alinhavei, alterei, substituí, reconsiderei, eu sei lá o que fiz. Escrever sobre assuntos que nos dão prazer e incomodam ao mesmo tempo dá nisto, texto, mais texto, alterações, histórias, sugestões e, por fim, tem que sair algo novo, provocador e suscetível de mexer com o que está definido, tentando recriar e ajudar a solucionar o que não tem solução. Paradoxo dos paradoxos, falar sobre coisas importantes, recriá-las e enunciar aspetos desconhecidos ou pouco habituais tentando dar a ideia de que é possível modificar o mundo. É o mudas! Mas vale a pena tentar, nem que seja para acalmar a consciência e manter a chama viva no combate ao infortúnio e à doença. 
Tenho o hábito, velho e doloroso, de fazer as coisas com profundidade e alguma novidade. Enfim, uma forma de me tranquilizar e de obter alguma satisfação. Foi o que aconteceu hoje. A comemoração decorreu bem, com dignidade e alguma informalidade. 
Comemorar cinquenta anos de trabalho e dedicação a uma doença tão grave como o alcoolismo não é um acontecimento vulgar, sobretudo quando o empenho, dedicação, afeto, amor e sucesso foram a pedra de toque de profissionais de elevado gabarito. Acompanhei, e acompanho, desde há decénios tão importante luta. Não acompanho desde o princípio, porque quando tudo começou tinha apenas treze anos, mas aos vinte e três já sabia, melhor, aos vinte e um, ainda era estudante quando comecei a conhecer o serviço e a sua importância. Logo, tenho um conhecimento pessoal sobre o evoluir de tão importante problema ao longo do tempo; tratar alcoólicos, prevenir, informar e educar em matéria de alcoologia, constituem áreas nobres e profícuas em termos de saúde pública. Até acabei por ser responsável pelo primeiro trabalho de investigação. Coisas do destino. Hoje, participei mais uma vez conferenciando. Gostei? Sim, gostei. A minha conferência deu trabalho? Claro que deu, mas não me queixo, nem posso, pelo contrário, até tenho de agradecer, porque se não fosse convidado não poderia meditar, mais uma vez, sobre tão grave assunto que é o alcoolismo. Mas não devo falar de mim, nem do que faço. O que eu quero mesmo é falar a propósito de dois episódios. Um deles tem a ver com o discurso, ou melhor, poema cantado na primeira pessoa de um alcoólico recuperado. Sim, chamo poema. Adorei ouvir o Carlos de Brito. Cito o seu nome, porque publicamente mostrou o que é, um exemplo do valor a que um homem pode chegar, depois de ter adormecido a sua dignidade à sombra fria do álcool. Passaram trinta e quatro anos depois de ter sido reabilitado. O que este homem fez ao longo destes anos é matéria mais do que suficiente para ser equiparado a um herói, salvando e reabilitando milhares de seres humanos doentes. O seu poema é único. Foi conciso. Foi profundo. Foi emotivo. Em poucos minutos fez mais do que eu. Transmitiu valores únicos, de uma humanidade difícil de alcançar. Um herói? Sim! Existe mais heroicidade e civilidade no seu comportamento do que muitos que andam por aí ostentado medalhas, comendas ou honrarias. Esteve sentado todo o tempo a meu lado. Nunca o tinha visto. Não o conhecia e desconhecia o que fez. Só pelo facto de conhecer a sua história e as histórias que ajudou a construir fiquei muito mais rico do que as inúmeras horas e noites de escrita e de reflexão. Tinha a obrigação de dizer isto. Não ficaria bem comigo se não publicitasse este testemunho. Mas não fico por aqui, porque o violonista russo, virtuoso, encantador, e agora liberto dos efeitos perniciosos da doença, inundou a minha alma, e de muitas outras que pairavam naquele espaço, de uma alegria e sensibilidade difícil de esquecer. A música é a verdadeira língua das almas livres, o que prova que a sua também se libertou das cruéis grilhetas do álcool. Sentiu-se tão bem essa liberdade. Quanto aos outros, os profissionais que se dedicam a esta causa, não vale a pena falar, pela simples razão de que fazem o que gostam, com amor e muito afeto. Para eles é suficiente o silêncio, e para mim também.

1 comentário:

Bartolomeu disse...

Uma equação assaz interessante: O Homem, o Homem e o Homem.
Três termos da mesma equação, cada um, colocado numa casa a que se insiste atribuir um valor... uma medida; contudo, uma equação em que a incógnita é o resultado de si mesma: o Homem.