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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O Prior de São Bento e a Abadessa Prioresa



Conta a história, ou a lenda, que o Duque de Milão, Ludovico Sforza, chamou ao seu palácio Leonardo da Vinci que, no Convento de Santa Maria della Grazie, pintava a Última Ceia, preocupado que estava com o atraso da obra que mecenaticamente vinha financiando como penhor de salvação do inferno e de minimização da quase certa temporada no purgatório. Da Vinci justificou-se com o tempo que investia na busca, Milão afora, dos rostos que melhor correspondessem ao perfil dos discípulos de Jesus Cristo. Perguntado sobre se já tinha ideias sobre o rosto de Judas, Da Vinci respondeu que aí não tinha dúvidas, o rosto do prior era o que lhe parecia mais adequado.
Se Santa Maria della Grazie continua a ser convento e a albergar tal obra-prima, o mesmo não acontece ao nosso Convento de S. Bento da Saúde, que mingua de obras-primas, deixou de ser mosteiro e converteu-se em Palácio com Palacete adjacente, instalações bem mais adequadas para albergar irmãos laicos, mais dados às coisas dos negócios e da política, sobretudo baixa, do que aos prazeres da contemplação. Também eles vão entronizando sucessivos priores, alguns bem falsos como Judas...
...Mas há quem pugne por alterar as normas vigentes no priorado, a começar pela eleição do prior. De modo a que Da Vinci nunca pudesse ver nele um rosto para retratar os Judas desta vida.  


2 comentários:

Bartolomeu disse...

Numa altura de Marias Madalena em completo desatino, transfiguradas umas pela dor da rejeição, outras, pela da incompreensão, as restantes, pela dor da incompetência, é natural que qualquer rosto seja visto semelhante ao de Judas.
Mas como tudo tem um princípio, estes, antes de o ser,já o eram. Por cá, terra fértil em gerar judas, há muito que os há sempre em número crescendo de traições; ao povo que o elege e ao qual prometem e não cumprem, a eles próprios e aos mecenas que tentam redimir-se pecando mais e ainda aos que, prometendo-lhes a salvação da alma, do estatuto e da honra, oferecem isenções de tudo e mais alguma coisa, em troca de fazerem por eles, aquilo que lhes competiria por inerência das responsabilidades dos cargos que desempenham.
Tal como Sísifo, continuará Leonardo eternamente em busca de um rosto, enquanto todos lhe parecerem.

Alberto Sampaio disse...

O artigo está muito bom! Apreciei em particular a vertente histórica e ser tão fácil encontrar um judas. Aliás como diz o caro Bartolomeu, a nossa terra é fértil em judas.
Seja como for, judas é realmente uma imagem que encaixa bem no dito cujo. (*)

Ao trio da governação, julgo que assentaria bem, o nome de tríade.

(*) tive de me conter para não escrever algo mais apropriado.