Número total de visualizações de página

terça-feira, 22 de maio de 2018

"Angústia"...


Olhar longínquo, sem brilho, sem cor, apenas perdido em pensamentos escondidos. A alma esfria e tenta fugir ao tormento. Presa, não consegue cantar e nem saborear a luz do sol. Grita de angústia, mas não se faz ouvir, morre de angústia e ninguém acode ao seu sentir. Sofre. 
Os olhos são pórticos de deliciosas alamedas que correm em direção ao céu. Através deles corremos, vivemos, brincamos, trabalhamos e falamos. Mas quando se fecham, e se perdem na lonjura de um infinito sem sentido, é porque a alma sente angústia perante o que a vida lhe quer trazer. O tormento rodopia velozmente, agigantando-se em promessas dolorosas e em negras colunas cheias de medo. A luta no seu interior é real, embora o tormento seja quase sempre um fantasma banal, que não existe, que não vai aparecer e que nunca irá fazer sofrer. São ideias do que pode vir a acontecer, falsas, traiçoeiras, filhas da triste imaginação. É o lado frágil da alma, que, não acreditando no mundo, refugia-se no silêncio frio do pensamento ferido. Quando isso acontece fecha a sete chaves as portas da vida. Os olhos são essas portas. Fechados, distantes, frios e sem cor não permitem que a alma possa conhecer e percorrer os inúmeros caminhos da felicidade da vida. 
A angústia do advir alimenta-se de um doloroso sentir, obrigando a alma ferida a fugir da realidade que a envolve, a acarinha e a estimula a viver. 
Olhar para o infinito é sinal de uma alma presa. Basta uma palavra, um gesto, um carinho e os olhos renascem novamente abrindo caminho para a liberdade. É horrível sentir a alma presa pela sua própria angústia.
- O que é estás a pensar? Deixa-te disso. Não penses tanto. Anda daí, vamos viver. Nessa altura, os olhos começam a brilhar, enchem-se de cor, ao mesmo tempo que aparece um envergonhado isorriso, pintado suavemente de encarnado. Nesse preciso instante a angústia começa a desvanecer-se.

1 comentário:

Pinho Cardão disse...

Um excelente retrato do poder da palavra amiga no momento certo, caro Professor...
O meu amigo é um mestre na revelação dos sentimentos e da vida.
E bom regresso, para alegria e conforto dos leitores do 4R