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sexta-feira, 22 de junho de 2018

"Vontade de escolher o destino"...


Confesso que não me faltam histórias. São tantas que era capaz de passar o que me resta de vida a contá-las. Todas diferentes, e cada uma com o seu encanto. Encanto que tanto pode transformar-se num amplexo de alegria, num momento de tristeza, numa admiração do eterno, ou provocar um breve momento de reflexão.
Quando o vi pela primeira vez senti que era diferente. Educado, culto e aristocrata no mais amplo sentido da palavra. A conversa desviou-se da rotina da consulta. Rapidamente senti que era um ser diferente. Só. Quem vive na solidão da vida é sempre diferente. Nunca o questionei a esse propósito. Não tinha esse direito. Há coisas que devem ser respeitadas. Eu respeito-as como se entrasse num templo dedicado a qualquer deus, não por acreditar neles, mas porque acredito na dor e no amor de qualquer ser humano. O ritual da consulta tinha de ser respeitado. Fiquei preocupado. A situação era muito preocupante. Falo daquilo a que se convencionou chamar fatores de risco cardiovascular. Olhei-o. Questionei se sabia o risco que estava a correr. Não disse nada, apenas sorriu. Expliquei-lhe, “catedraticamente”, a situação e a urgência em ser tratado. Quando dei por mim, já tinha escrito uma carta ao colega de serviço nas urgências para “aliviar” de imediato a situação. Algo muito preocupante. Dissertei como mandam as regras sobre o assunto e expliquei-lhe a minha angústia. Sorriu. Sorria sempre com o máximo de delicadeza. – Vai agora às urgências. O senhor corre risco muito elevado de sofrer um acidente cardiovascular.  Falei sempre num tom baixo, profissional, acrescido da minha posição, que não era estranha ao senhor. Reforcei as minhas opiniões. Fiquei na dúvida se iria acatar ou não as minhas orientações. Quis acreditar que sim, mas, mesmo assim, agendei nova consulta ao fim de alguns meses, mais para saber se as “coisas” estavam ou não a ser controladas. Sorria agradavelmente e comportava-se com a mestria inerente a um verdadeiro aristocrata. Passado o tempo previsto apareceu. Fiz o interrogatório que deveria fazer e fiquei surpreendido com o facto da situação estar praticamente na mesma. – O senhor não está a ser tratado? – Não, senhor doutor. – Não me diga. Estou preocupado. O senhor tem que se tratar imediatamente. Olhei-o e pensei: - O melhor é medicá-lo e pedir ao médico de família para o acompanhar. Nova carta, nova orientação e nova explicação aliada à “velha” preocupação. Sempre delicado, deu-me a sensação de que iria cumprir com as determinações. Gostei daquele sorriso e a forma de estar.
No momento do exame de rotina fiquei convencido de que estava tudo controlado. Conversa de nível superior acompanhada de um sorriso que catalogo de encantador. Abri a boca de surpresa. Estava tudo na mesma. Perguntei-lhe se estava a ser tratado. – Não, senhor doutor. – Não?! Ó meu Deus. Mas porquê? Perguntei. Ofereceu-me o seu belo sorriso embrulhado numa encantadora conversa. Comecei a tremer e, até, a gaguejar, o que não é meu hábito. – Mas tem que se tratar. Tem que se tratar. Se fizer o que eu lhe estou a dizer poderá viver sem problemas e durante muito tempo. Olhei-o cheio de angústia e tive como resposta um belo sorriso. – Senhor doutor, não vale a pena incomodar-se comigo. – Como? Interpelei-o. – Senhor doutor, eu não quero ser tratado. – Como? A minha angústia ia subindo de intensidade acompanhada de uma estranha e profunda dor. O trabalhador, culto, educado e aristocrata, apercebeu-se da minha perturbação. – Senhor doutor, eu sei o risco que corro e agradeço-lhe do fundo do meu coração a sua preocupação, mas não quero ser tratado. Não fique triste e nem aborrecido. Deixe-me viver a vida como eu quero. O raio daquele sorriso, meigo, delicado, simples e muito vivo, perturbou-me. Pela primeira vez na minha vida, tinha à minha frente alguém a consolar-me. Quando saiu fui até à porta. Vi-o a atravessar o longo pátio. Pensei: - Não sei porquê, mas julgo ser a última vez que o vejo.
Hoje, comunicaram-me que teve morte súbita. O Senhor da Boa Morte premiou-o, e roubou-me um dos mais belos e aristocráticos sorrisos que vi até hoje.
Sinto que sei quais foram razões, mas não as quero partilhar...

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