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terça-feira, 15 de maio de 2007

A Família, um bem inigualável...

Celebra-se hoje – dia 15 de Maio – O Dia Internacional da Família. Foi proclamado em 1993 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, destacando assim a importância da família.
A consagração do Dia Internacional da Família é a expressão inequívoca da natureza universal e perene da instituição familiar como elemento nuclear inequívoco das sociedades.
A família constitui o espaço privilegiado de realização das pessoas, de transmissão de valores e de reforço de laços de solidariedade entre gerações, inserida num tempo marcadamente acentuado pelo efémero e pelo temporário e num espaço confrontado com constantes mutações e riscos sociais que se repercutem no quotidiano das famílias.
A família não tem substituto enquanto lugar de desenvolvimento e expressão dos afectos que conferem uma dimensão humana à vida.
Reconhecer estas características e compreendê-las é uma prova de inteligência. Mas não chega!
A dignificação da identidade e da autonomia da instituição familiar e a criação de condições para o pleno desenvolvimento da pessoa legitimam e exigem uma vigilância pró-activa por parte dos poderes políticos e da sociedade em geral de modo a impedir a fragilização da estrutura familiar.
Nesta abordagem muito breve à importância da família, saliento e confiro especial atenção à evolução demográfica em Portugal e na Europa, que, em particular, nos deveria apelar ao desenvolvimento de políticas activas de natalidade e ao fomento do envelhecimento activo.
A instituição familiar sairá reforçada, e o País terá muito a ganhar – não apenas por razões de mera aritmética de segurança social – se for capaz de, por um lado, se rejuvenescer e de, por outro lado, envelhecer com qualidade. Uma sociedade com mais crianças e mais jovens será por certo uma sociedade mais equilibrada. Será também uma sociedade mais rica se for capaz de valorizar o saber e o conhecimento dos mais velhos.
Afinal o que procuramos é uma sociedade mais feliz, mas que não se constrói no abstracto; muito pelo contrário, exige opções muito claras, ancoradas numa consciência individual, social e política e no princípio da promoção de valores humanistas que coloquem a pessoa e a família no centro das atenções.
Este é um tema que tem sido, a meu ver, sucessivamente arrastado para segundo plano, a denotar uma fraca capacidade quer dos nossos governantes quer da sociedade em geral – se não mesmo uma falta de vontade – para o incluir na agenda das preocupações, reconhecendo-lhe o seu carácter transversal.

Questão de senso comum!...

Não sei que razões levaram o PSD a pensar em Fernando Seara, Presidente da Câmara de Sintra, para cabeça de lista à Câmara de Lisboa. Mas sei que o simples facto de ter querido recorrer a uma pessoa que exerce o cargo de Presidente da Câmara de um outro concelho é sinal do fecho do partido em si mesmo, incapaz, por acção ou omissão, de atrair pessoal político novo. Facto estranho este num partido como o PSD, aberto à sociedade civil e tradicionalmente com poder de atracção sobre a sociedade civil, o de ficar limitado a reduzir-se a um virar o disco e tocar o mesmo!...
Também não sei que razões levaram Fernando Seara a recusar. Há pouco, na televisão, falou em “razões pessoais”. Gostaria mais que fossem razões de ordem política, por não querer interromper o mandato para que fora eleito.
De qualquer forma, a recusa, qualquer que seja a razão, é um acto que objectivamente serve a democracia.
Pois nunca se iria compreender que alguém deixasse um mandato a meio para se candidatar a meio, ou mesmo inteiro, mandato noutro local. Seria uma brincadeira de mau gosto que os eleitores por certo não tolerariam.
Nota: A escolha de António Costa, o número dois do Governo, ao obrigar a uma remodelação, também denota a dificuldade do PS em encontrar um líder adequado para a Câmara. A ver vamos quem o substitui.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

“Trabalhadores de talento”

Julie Roberts foi a protagonista do filme Erin Brockovich - Uma mulher de talento - que trata de uma das maiores indemnizações (333 milhões de dólares em 1996) obtida numa batalha judicial a propósito da contaminação da água de bebida por crómio hexavalente ocorrida na cidade de Hinkley na Califórnia.
O crómio hexavalente é tóxico e carcinogénico.
Erin Brockovich recolheu elementos sobre várias doenças, cancros da mama e do útero, malformações congénitas, abortos, doenças auto-imunes, e correlacionou-as com o agente químico.
É certo que os seus achados foram contestados, e continuam ainda hoje, ao ponto de ser posto em causa a correlação, já que, por exemplo, o crómio hexavalente é carcinogénico se for inalado, ao passo que por via oral é duvidoso. De qualquer modo, e não obstante algumas dúvidas, as 600 vítimas da cidade Hinkley acabaram por ser indemnizadas, demonstrando, mais uma vez, a eterna história de David contra Golias.
Os ex-trabalhadores das minas de urânio da Urgeiriça renovam, de tempos a tempos, a exigência para que o Governo realize exames médicos periódicos e que seja feita a monitorização da contaminação radioactiva naquela região.
O relato de vários casos de cancro, que atingiram, e continuam a atingir, muitos ex-trabalhadores, começou há muitos anos. Não deixa de ser curioso o facto da população demonstrar uma percepção do risco. Percepção essa que tem sido comprovada pelos estudos efectuados pelos técnicos.
Em 2001 a Assembleia da República aprovou um Projecto de Resolução (nº34/2001) com o objectivo de estudar a situação de saúde da comunidade em questão.
Os relatórios, entretanto já produzidos, apontam para a existência de vários riscos acrescidos para as populações locais, nomeadamente os trabalhadores do empreendimento mineiro.
Como é possível arrastar este processo durante tanto tempo? Será que o Governo ainda não tem evidências cientificas para responder aos anseios e aspirações desta comunidade? Tão célere a fechar maternidades, tão eficiente a fechar as “urgências nocturnas” de certos centros de saúde, tão preocupado em “obrigar” à prescrição de certos medicamentos a nível hospitalar, tão “racional” em controlar os custos – tudo isto com base em relatórios científicos - e tão esquecido em solucionar, ou minimizar o sofrimento de uma população! Como é possível a Direcção-geral de Saúde afirmar que “está à espera da divulgação dos resultados finais do projecto MiNurar para avançar com exames aos antigos trabalhadores”? Mas é preciso um relatório final para actuar?
Se não tivesse lido, não acreditava.
Os trabalhadores das minas da Urgeiriça são homens e mulheres de “talento” e devem ser respeitados e indemnizados adequadamente pelo crime ambiental a que foram sujeitos.
Em Hinkley, Califórnia, por muito menos, a situação foi resolvida e a reparação feita atempadamente.

PRACE: apenas 95 excedentários?

De acordo com notícias hoje divulgadas, ao fim de 6 meses após a entrada em vigor dos diplomas legais que consagraram o PRACE – na parte referente à reorganização de Serviços Integrados e de Serviços e Fundos Autónomos - existem apenas 95 funcionários públicos no chamado “quadro de excedentes” ou supra-numerários.
Este número é muito inferior ao dos organismos extintos – que são 261 - por efeito daqueles diplomas.
Teríamos assim, por agora, cerca de 1/3 funcionário excedentário por organismo extinto o que parece algo esdrúxulo.
O Ministério das Finanças argumenta, parece, que este reduzido número de excedentários resulta de entradas e saídas pelo que é de supor que tenham sido colocados nesta situação os 95 mais os que dela tenham entretanto saído.
Mas não esclarecendo quantas entradas e saídas se verificaram, ficamos na mesma.
E parece que só o Ministério da Agricultura terá indicado o número provável de supra-numerários resultante das reestruturações aprovadas pelo diploma da respectiva reorganização, cerca de 3 mil.
Mas mesmo aí, o processo estará suspenso, aguardando que os tribunais apreciem uma providência cautelar interposta pelo Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado contra as medidas contidas nessa reorganização.
Em contraste, há a registar a declaração algo surpreendente da Ministra da Educação segundo a qual no seu Ministério não haveria lugar a supra-numerários.

Sou dos que compreendem a extraordinária dificuldade desta tarefa – certamente a mais complexa de todas as reformas.
Não me parecem assim correctos quaisquer comentários, de tipo depreciativo, por parte dos que, não tendo responsabilidade na matéria, estão sempre prontos para exigir corajosas reformas em entrevistas mediáticas, no sofá ou à mesa da refeição...
Mas a presente situação justificará uma atenção particular, uma vez que se avizinha um novo período pré-eleitoral, logo a seguir à presidência da União Europeia, e todos sabemos como é bem mais difícil concretizar este tipo de medidas em período pré-eleitoral.
E também por que se trata de um assunto que os partidos políticos não gostam de enfrentar, com receio das consequências eleitorais.
Assim, à medida que o tempo for passando, haverá tendência para que este assunto seja cada vez mais da competência/responsabilidade exclusiva do Ministério das Finanças, sempre o “mau da fita”.
O resto da classe política na melhor das hipóteses assobiará para o ar, se puder ajudar a travar o processo não deixará de o fazer...

Missing

Uma das coisas que mais me chocou quando cheguei a Washington, há vinte anos, para aí viver uns tempos, foi a minha primeira ida ao supermercado. Na altura não havia em Portugal supermercados daquele tamanho, aquilo a que hoje se chama grandes superfícies, e levei um bocado de tempo a pensar como é que ia desembrulhar-me, com as duas garotas tão pequeninas, a percorrer aquela imensidão até encontrar alguma coisa que me parecesse comestível. Como os carrinhos eram enormes, é claro que sentei uma das meninas lá dentro e disse à outra para se pendurar na trave de trás e assim eu empurrava as duas. E lá nos preparámos as três para a aventura.
Mal tinha andado poucos metros, vejo um enorme cartaz pendurado do tecto, com a cara de uma criança, dizendo em letras negras “MISSING”. Achei um anúncio de mau gosto e fui ler as letras abaixo, onde avisavam para não deixar as crianças nos carrinhos, à espera, enquanto se procurava as coisas nas prateleiras a perder de vista. Os detalhes eram aterradores, que “eles” estavam em todo o lado à espera de roubar as crianças, que os levavam num segundo, e terminava com um dedo espetado PARA MIM a perguntar se eu queria ficar sem as crianças??? Um filme de terror, fiquei paralisada ali no meio, a pensar em fugir a correr daquele país tão ameaçador. Reparei depois que, coladas nas vitrinas, havia sempre fotografias de crianças desaparecidas, no supermercado e em todo o lado, e que “eles não se responsabilizavam”…
Na altura não se falava cá em crianças roubadas, abandonadas ou perdidas sim, não era novidade, mas roubadas?! Nunca tinha ouvido. Ainda me lembro do gelo que senti, do pavor de olhar para o lado e não ver uma delas, tornei-me até um pouco paranóica.
Um dia a carrinha da escola avariou e telefonaram a dizer para as ir buscar. Estava lá o Olivier, um garoto que morava no meu prédio, eu e a mãe dele dávamo-nos bem, quebrávamos a solidão com longas conversas em casa uma da outra. Disse-lhe que o levava, a mãe dele costumava trabalhar àquela hora. Recusou-se a ir no meu carro, que só saía com a mãe e mais nada. Acabei por o deixar lá e fui tocar à porta da outra, meio envergonhada por não lhe trazer o garoto. Ela riu-se muito e disse que o filho estava treinado para nunca sair da escola sem ela, que não havia excepções para não haver perigos. E lá fomos as quatro outra vez à escola porque ela não tinha carro e eu não deixava as minhas sozinhas nem um minuto…
Conto isto porque é tentador facilitar, as tais excepções de que falava a minha amiga Úrsula, muitas e muitas vezes fizeram troça de mim por não deixar as minhas filhas, que era uma psicose, que mal é que tinha, etc. etc Não sei o que aconteceu à garota inglesa, apesar de tudo acho a história esquisita, mas custa-se imenso ouvir acusar os pais, é um castigo desumano para uma imprudência!

Antes...como agora!...

Num programa sobre Lisboa, foi hoje entrevistado na RTP2 o Arquitecto Nuno Portas. Um belo programa, pelo conteúdo que o entrevistado lhe deu e pela capacidade de comunicação esclarecida e simples que exibiu, absolutamente contrastante, aliás, com a pose teatral da entrevistadora, Paula Moura Pinheiro.
Tendo-lhe sido perguntado se era verdade que tinha subscrito um abaixo-assinado contra a construção da Ponte sobre o Tejo, ex- Salazar, o Arquitecto respondeu que sim. E explicou que, ao tempo, a necessidade da ponte não teria sido lá muito bem explicada e que, sobretudo, foi sensível à argumentação de que a mesma só iria servir para a especulação imobiliária. Um sorriso trocista revelou o que agora pensa do argumento.
Pois há dois ou três dias li que, entre outras notabilidades, o Eng. João Cravinho apresentou o mesmo argumento a propósito da construção do novo aeroporto na zona do Poceirão.
Antes, como agora, o argumento definitivo de certas esquerdas!...
Até porque a OTA nasceu bactereanologicamente pura e não contaminável por tal vírus!...

sábado, 12 de maio de 2007

Afonso “Caporro”

Há pouco tempo fui convidado para escrever e coordenar um relatório sobre alcoolismo juvenil, fenómeno complexo e actual com graves consequências pessoais e sociais. Não obstante o muito que se diz e o que se faz, e o que já se disse e o que se fez, sobre este flagelo, o que é certo é que continua a atormentar os responsáveis incapazes de encontrarem soluções eficazes a uma efectiva redução e prevenção. A adopção de comportamentos, tipo "binge drink", por exemplo, com o objectivo de sentir os efeitos imediatos de uma súbita hiperalcoolemia, vem reforçar as nossas preocupações.
O fenómeno do alcoolismo é muito antigo e a sua faceta juvenil também.
Quando andava na escola, os bêbados abundavam em qualquer lugar. Ao fim da manhã e princípio da tarde já eram visíveis alguns ébrios antevendo o festival dos fins de tarde e noites.
Marcou-me uma cena ocorrida numa manhã, particularmente fria de Inverno, na minha escola primária. Devia andar na segunda classe. O professor chamou o Afonso, "Caporro" de apodo, para ir ao quadro. De calções e alpergatas, a tiritar de frio, o "Caporro" lá se arrastou. O professor mandou-lhe montar uma conta simples, e com o giz tentou escrever algo, mas não conseguiu. Apoiava-se com o ombro esquerdo no quadro e face voltada em sentido contrário à secretária. O mestre escola, baixo, careca, e meio obeso, saltou com uma agilidade felina, acompanhado da sua maldita arma, a tenebrosa régua, e colou a cara à do rapaz, insultando-o. Até aqui, nada de novo, o pior foi quando lhe disse: - Mas, tu estás bêbado! Cheiras a aguardente! E vai dai dá-lhe um valente pontapé no traseiro. O Afonso nem um ai disse. Dobrou-se em dois e acabou por estatelar-se no chão sem conseguir soerguer-se. O professor olhou para a turma, encolerizado, e gritou: - Todos lá para fora! Vão fazer um intervalo! E fomos mais cedo que o habitual.
Fiquei a saber que o pequeno-almoço do Afonso tinha sido aguardente. Sabia que os mais velhos bebiam copos logo de madrugada antes de arreigarem ao trabalho, mas crianças não sabia. Era comum, sempre que íamos a casa de algumas pessoas, beber um "refresco" feito de água, vinho e açúcar. Confesso que não desgostava! Mas aguardente não nos davam.
Muitos anos mais tarde, tive de apanhar o comboio, o “rápido” das sete, para Coimbra. A estação estava apinhada de muitas pessoas, entre os quais soldados que iam para os seus quartéis. Era Domingo. O comboio chegou e corremos para as carruagens para ver se conseguíamos um lugar sentado. Qual quê! Tive que ir em pé como era habitual. Ainda fui às carruagens da frente, mas nada. Olho pela janela da porta e vejo um soldado deitado no chão. Agitado, vomitado, totalmente descomposto, convulsivo, como se de um epiléptico se tratasse, sem ninguém ao redor. Como o comboio tardava em começar a marcha, tive tempo mais do que suficiente para analisar tão desconfortante situação. Quem seria aquele jovem? Depressa vi que era o Afonso. - O Afonso! Bêbado que nem um cacho, deitado na gare de uma estação. Aquela imagem colou-se de tal forma na retina que nem reparei que o comboio já ia a caminho. Durante toda a viagem não pensei noutra coisa. O que é lhe iria acontecer? Provavelmente não iria durar muitos anos e sabe-se lá com que sofrimento para si e familiares.
Muitos anos mais tarde, numa tarde de campanha eleitoral para as autárquicas, calcorreei várias aldeias e lugarejos do meu concelho. Numa das tardes, de repente, chamou-me a atenção um senhor aparentando meia idade, com pouco cabelo, vestido com um fato escuro, aspecto limpo, mas com um semblante grave, digno, a fazer lembrar uma personagem tipo pastor de uma qualquer igreja protestante. Cruzámo-nos, cumprimentou-me com uma delicada saudação de “boas-tardes”, à qual respondi e, mais à frente, perguntei ao meu amigo de infância, que me acompanhava na campanha: - Olha lá, o que foi feito do Afonso "Caporro"? Ele vivia por estas bandas. E recordei-me de muito episódios do passado. Foi então que ouvi uma gargalhada. - O Afonso?! Então ainda agora acabaste de cruzar com ele. - Quem? Aquele senhor era o Caporro? Mas ele bebia que nem um desalmado, desde os bancos da escola! - Pois foi, mas desistiu. Tornou-se, há alguns anos, numa pessoa respeitável, faz a sua vidinha, tem uma família composta e nunca mais tocou numa gota de álcool.
Quando acabou de me dizer isto senti uma sensação de felicidade e, sobretudo, um grande alívio...

Vidas reais!...

O Dóris emigrou da Moldávia e trabalhava na zona de Colares. Chegado ilegalmente, já estava há uns tempos em Portugal. Nos seus trinta e tal anos, era um homem de força, e se não se eximia às tarefas mais pesadas, nunca virando a cara à luta, também punha jeito e habilidade nas funções mais maneirinhas. Por isso, granjeou a estima do empregador, no sector da jardinagem, e o empenho deste na sua legalização.
Regularizada a situação no país, julgou ser a altura de mandar vir a mulher. Esta chegou há uns quatro ou cinco meses, mas tão depressa chegou como voltou à terra natal. Porventura por ter vindo a perder os laços com o marido, porventura por inadaptação, porventura por uma outra razão qualquer.
O Dóris não compreendeu, forçado assim a voltar à sua vida de homem só, mas agora mais custosa pelo esboroar das esperanças depositadas no reassumir de uma vida em comum; por isso, entristeceu e começou a beber. Bebida que conflituava com doença que tinha e que lhe agravava o mal. Deixou de seguir os conselhos do médico e do “patrão”, bebendo e bebendo para esquecer, nostálgico do bom futuro que augurava. Começou a meter baixa e a trabalhar com intermitência. Mas já não era o mesmo Dóris.
Há dias desapareceu de casa. Um irmão e companheiros, não sei se as autoridades, procuraram-no com afã e preocupação. Mas nada de Dóris. Anteontem, um seu colega seu, ao passar por um caminho ermo, ouviu uns gemidos estranhos, no meio do matagal. Procurou e encontrou o Dóris, moribundo. Com quatro garrafões de vinho vazios a seu lado. Chamado o INEM, foi transportado ao hospital. Soube hoje que faleceu, escassas horas após a entrada.
O Dóris procurou sòzinho a morte, apenas a bebida por companhia.
Podem passar os tempos, mas, no fundo, no fundo, o homem continua o mesmo. O amor é capaz de o fazer viver e por amor é capaz de se deixar morrer!...
Para o Dóris, as minhas saudações amigas.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Sacos de plástico...

No ano passado um sudanês foi surpreendido a fazer sexo com uma cabra. Os anciãos locais, para castigá-lo, obrigaram-no a casar com a dita. De acordo com as leis do Sul do Sudão, quando um homem é surpreendido a dormir com uma mulher, recebe ordem de se casar com ela imediatamente para salvar a sua honra e a da família. Neste caso, mutatis mutandi, Charles Tombe foi obrigado a dar um nome à cabra, Rose, e a pagar um dote de cinquenta dólares alem de sofrer pública humilhação pelo seu acto bestial.
Não vale a pena dissertar sobre a honra da cabra e da sua família, que deixa muito a desejar, e nem é preciso entrar em pormenores.
O assunto voltou a ser notícia quando a cabra morreu. As circunstâncias da morte de Rose começam a ser muito frequentes. A causa da morte foi asfixia quando, ao procurar comida nas ruas de Juba, quis engolir um saco de plástico.
Este episódio obrigou-me a reflectir, mais uma vez, sobre a problemática dos sacos de plástico como uma das principais fontes de poluição à escala planetária.
De facto, os oceanos, e não só, estão cheios de produtos à base deste material, os quais constituem focos de atracção para várias espécies marinhas. Ao ingeri-los acabam por sofrer consequências muitas vezes mortais. Tartarugas, golfinhos, baleias e muitas aves, nomeadamente albatrozes, são vítimas deste grave atentado ambiental.
Dentro do “mundo plástico”, os sacos que utilizamos no dia a dia, e que começaram a ser introduzidos na década de setenta, constituem uma das principais fontes. Basta dizer que, globalmente, utilizamos entre 500 mil milhões a um trilião por ano, qualquer coisa como 150 sacos por pessoa, ou seja a um ritmo de um milhão de sacos por minuto. Não esquecer que o tempo médio de vida de um saco de plástico é bastante miserável, cerca de 12 minutos, o que contrasta com a sua permanência no meio ambiente que se pode contabilizar por dezenas e mesmo centenas de anos! Tudo isto, porque degradam-se muito lentamente. A natureza não previu que um dia aparecessem coisas “estranhas” e, consequentemente, não desenvolveu mecanismos adequados à sua destruição.
Há que interromper este ciclo. O facto de começarem a surgir movimentos contra o uso sacos de plástico, estimulando o uso de materiais biodegradáveis é de louvar e de encorajar.
A este propósito, a cidade Modbury, na Grã-Bretanha, passou a constituir o primeiro local a abolir os sacos de plástico nas compras. Todos os 43 comerciantes desta localidade passarão a receber sacos de papel reciclável ou sacos reutilizáveis feitos de algodão, de juta e de outros materiais biodegradáveis.
A ideia partiu da fotógrafa Rebeca Hosking que, numa viagem ao Hawai, acabou por verificar que os albatrozes, e sobretudo os seus filhotes, morriam devido ao facto de se alimentarem com tudo o que era plástico que encontravam nas suas longas peregrinações em busca de alimentos. Tudo o que brilha à superfície é interpretado como alimento, é “pescado” e ao fim de centenas e centenas de milhas, pensando que carregam alimentos para os filhotes, acabam por lhes enfiar nas goelas brinquedos, plásticos variados e até isqueiros. Claro que os animais morrem e os seus corpos ao degradarem-se revelam as causas já que no meio das carcaças surgem os tais plásticos prontos a serem novamente “pescados” ou engolidos por outras espécies, perpetuando a morte.
Chocada com este quadro, Rebeca conseguiu convencer os comerciantes de Modbury a associarem-se a este projecto. Não importa se é ou não a primeira localidade a assumir este comportamento, até, porque São Francisco na Califórnia acabou, muito recentemente, por tornar-se na primeira cidade a proibir o uso de sacos de plástico nos grandes supermercados e farmácias. Apesar de todo o processo legislativo ainda não estar completo, os envolvidos manifestaram o seu acordo e não deve haver grandes problemas (supermercados com facturação superior a dois milhões de dólares por ano e farmácias com mais de cinco filiais).
A necessidade em promover a reciclagem não é nova. Até o próprio Bangladesh, pais paupérrimo, já proibiu o uso de sacos de plástico quando se descobriu que o sistema de esgotos do pais ficava entupido, contribuindo para o agravamento de inundações tão comuns naquela parte do globo.
Aqui está uma medida simples, perfeitamente acessível, capaz de contribuir para um ambiente melhor e estimular a consciência ambiental dos cidadãos, preservando um planeta que tem sido tão mal tratado. Uma medida simples arrasta outras medidas simples.
Alguns supermercados começam a tomar medidas, utilizando, por exemplo, materiais recicláveis. Um bom princípio, mas manifestamente insuficiente sem o concurso dos restantes operadores, comerciantes e clientes.
E se as nossas cidades aderissem a um projecto desta natureza? Bastaria que os comerciantes, com a ajuda dos responsáveis locais e com a “anuência” do cidadão anónimo aceitassem. Com tanta discussão ao redor dos perigos ambientais, bem poderíamos mostrar que também somos capazes de os evitar...

Nem todos nascem iguais!...


Segundo o Público de hoje, citando estudo da Entidade Reguladora, a taxa de cesarianas nas maternidades privadas é o dobro das praticadas nas maternidades do Serviço Nacional de Saúde.

Uns quererão ganhar de mais; outros quererão gastar de menos. Nunca chegamos ao equilíbrio!...

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Judicialização da política?!

Interessante. Até há bem pouco tempo, exigir-se (pelo menos) a suspensão do mandato do político constituído arguido era tido como a conduta devida. Passou a ser o novo padrão oficial da ética e da moral públicas. Ai daquele, perante mandado policial ou notificação onde constasse a palavra, que não se despisse logo ali da qualidade em que foi investido pelos cidadãos, não abandonasse imediatamente o cargo e o mandato, tamanha a indignidade do epíteto.
De repente, porém, ouvi duas personalidades, com ar da mais sentida indignação, falar em "judicialização da política" (Prof. Carmona Rodrigues) e proclamar o valor do princípio da presunção de inocência de arguidos e mesmo de acusados (ainda que por outras palavras, o Dr. Paulo Portas). Compreendo perfeitamente o sentimento do Prof. Carmona Rodrigues. Duvido da sinceridade e da falta de calculismo do Dr. Portas.
Independentemente das motivações que levam estas personalidades a preocuparem-se subitamente com a alegada prevalência da vontade do magistrado sobre a vontade do eleitor, a verdade é que a preocupação é extemporânea, quando não suspeita de ser uma reacção à dor própria. É que se existe risco de "judicialização da política", ou se ela ocorreu no caso da Câmara de Lisboa, então esperar-se-ia que a denúncia do senhor Presidente da Câmara não fosse feita somente quando o próprio foi constituído arguido, mas logo que vereadores da sua equipa o foram no âmbito do mesmo inquérito. Nessa altura, o Prof. Carmona Rodrigues não se insurgiu contra a ordem partidária de suspensão do mandato, nem se ouviu um protesto, sequer murmurado, do Dr. Portas. Ambos viviam em paz com a "judicialização da justiça" então em curso...
Já me estendi em excesso porque o que eu queria anotar era muito singelamente isto: embora a Justiça tenha muitas culpas, esta de pretender tutelar a política não lhe pode ser assacada. Quem definiu um novo quadro de pretensa ética não foi a Justiça. Foram (alguns) políticos. Não é a lei nem são os magistrados que determinam que um cidadão que exerce funções públicas e é constituído arguido tenha de por esse facto de deixar de as exercer. Quem determinou essa nova regra foram (alguns) políticos, secundados pelos novos guardiões da moral do reino e dos analistas do politicamente conveniente e do socialmente oportuno.
Aliás, com a actual conformação do estatuto legal de arguido (em especial no que respeita ás situações em que a lei torna obrigatório este estatuto), seria absurdo face à Constituição extrair essa consequência.
Certo é que de absurdos está a nossa vida política cheia.
Mas quem se importa quando o absurdo bate à porta alheia ou a indignação não é politicamente oportuna?

Blair e Sarkozy: curiosa aproximação

Nicolas Sarkozy acaba de ser eleito Presidente da República em França, cargo em que será empossado no próximo dia 16.
Tonyblair anunciou hoje que irá deixar a chefia do Governo britânico e a presidência do Partido Trabalhista (Labour) no final de Junho próximo, pondo assim termo a um consulado de 10 anos.
A saída de Blair da cena política nesta altura e nas circunstâncias em que ocorre tem algo de surrealista.
Trata-se do único presidente do Labour que conseguiu 3 vitórias sucessivas em eleições legislativas e é mais novo hoje do que a grande maioria dos seus antecessores primeiros-ministros quando iniciaram funções.
Para além disso, estou convencido que Blair voltaria a ganhar, apesar de todas as dificuldades por que tem passado, se daqui por dois anos voltasse a concorrer a eleições.
Não me parece que David Cameron, o leader dos Conservadores, apesar da sua popularidade, tenha já o “estofo” suficiente para derrotar Blair numa disputa eleitoral.
Mas Blair sai com um lugar seguro na história como grande renovador do Labour e corajoso continuador das políticas liberais (não conservadoras) de Margaret Tatcher, embora sob o estigma da aventura mal sucedida da invasão do Iraque.
Estes dois homens, Sarkozy e Blair, vão encontrar-se amanhã em Paris para discutir o futuro da União Europeia.
É curioso o contraste na situação de ambos: um que acaba de vencer uma importante disputa eleitoral, preparando-se para (talvez) 10 anos de presidência da Republica Francesa; o outro acaba de renunciar ao poder, após 10 anos de liderança no Reino Unido.
Mais curioso é que Sarkozy tenha escolhido Blair para o seu primeiro encontro com um líder de outro grande país europeu.
Ser-lhe-ia fácil, por exemplo, dar a primazia à Chanceler alemã, Ângela Merkel, até pela circunstância de esta exercer actualmente a presidência da União Europeia.
É conhecida a simpatia pessoal que existe entre estes dois líderes políticos, apesar de pertencentes a famílias políticas distintas.
A verdade é que Blair nunca escondeu a sua preferência por Sarkozy, o que chegou a causar algum mal-estar nas hostes do PS francês. E Sarkozy a sua simpatia por aquele, nomeadamente quando o visitou em Downing Street, em plena campanha eleitoral junto dos emigrantes franceses.
Este encontro de amanhã sela este especial entendimento pessoal, que ultrapassa as fronteiras políticas convencionais.
Estou particularmente expectante para ver como se vão referir à questão complexa da candidatura da Turquia à União Europeia, aparentemente aquela que mais os divide.
Já agora uma pitada de sal: e como irão reagir os heróicos “manifestantes anti-Sarkozy” à presença de Blair em França para se encontrar com a sua “bête-noire”?
Teremos um slogan do tipo “Blair-Sarko, un-deux, fachô?”

“Pílulas Frei Galvão”!

Não tenho nada contra os santos, muitos deles até são interessantes, indo de encontro às necessidades das populações, dos seus mitos e anseios. Há santos para todos os gostos e feitios. Nos últimos tempos foram promovidos a esta categoria inúmeras pessoas, a ponto de haver quem diga que estamos perante uma verdadeira “fábrica” dos mesmos.
Não sou especializado em “santidade”, longe disso, confesso, mas reconheço que muitas pessoas são verdadeiros santos e santas, pela forma como conduzem as suas vidas e enfrentam as vicissitudes e dramas que o “destino” lhes pregou, embora não tenham feito “milagres” segundo o conceito “oficial”.
É interessante verificar que os milagres quase sempre dizem respeito a questões de saúde. Quando não se encontram explicações para um evento, à base dos conhecimentos científicos, é declarado o milagre. De facto, a medicina está longe, e muito longe, de ser considerada totalmente cientificada, se é que algum dia isso possa acontecer.
Dentro das diferentes áreas do conhecimento humano foi a última a ser influenciada pela Revolução Científica dos séculos precedentes. Mas, apesar de tudo, houve sempre uma preocupação racional em explicar as doenças, as suas causas e interferir na sua evolução. A escola hipocrática é considerada como o berço da medicina. Através dos inúmeros escritos que nos chegaram até hoje, é possível verificar a procura e interpretação racional dos fenómenos. Afinal, dados recentes apontam para os egípcios que, mais de 1500 antes dos gregos, deverão ser considerados como os fundadores da “medicina racional e não de um ritual mágico aplicado ao acaso”. É notável a existência de uma “estrutura medicinal e de um método farmacêutico para lidar com a doença”. Muitas plantas foram usadas especificamente para o tratamento de muitas maleitas e, hoje, passados 3.500 anos, verificamos quão correctas eram essas iniciativas. Notável!
Ao analisar estes aspectos, não pude deixar de recordar um brilhante médico português do século XVI, Garcia da Orta, cantado pelo próprio Camões, que, através dos seus estudos e da sua obra, Colóquio dos Simples e Drogas da Índia, deu um contributo extraordinário ao mundo cientifico de então. Verdadeiro milagre da ciência, pago na altura, não pela santidade, mas, pelo julgamento post mortem, e condenação dos seus restos mortais ao fogo purificador da Inquisição!
Quanto ao contributo para a resolução dos problemas de saúde, o que dizer do primeiro santo brasileiro, frade franciscano António de Sant´Anna Galvão, que, ainda hoje, século XXI, consegue curas assombrosas, através das denominadas “pílulas Frei Galvão”. Em que consiste estas pílulas? Simples. Basta engolir papelinhos (três!) escritos com uma oração. Parece que é bom para gravidezes e partos.
Os médicos que estudaram os “milagres” de frei Galvão afirmaram que os casos são inexplicáveis à luz dos conhecimentos científicos actuais”. Seria interessante fazer uma revisão do passado, e não é preciso ir muito atrás, para verificar se os argumentos, então invocados na altura, não seriam explicados à luz dos conhecimentos científicos actuais. O conhecimento biomédico, nos últimos anos, anda quase à velocidade da luz, mas, mesmo assim, estaremos sempre aquém do conhecimento cientifico total e, por este motivo, estarão, à partida, garantidos novos milagres no futuro.
É pena que os milagres não sejam alargados ao ambiente, ao regresso de espécies extintas, à economia, à educação, à paz, à solidariedade e respeito humano. Mas não pode ser, porque trata-se de matéria de fé e, como tal, só diz respeito ao indivíduo.
Se não fosse a medicina o que seria dos santos?

Eu pasmo!...

O Deputado do PS, Vítor Baptista, Presidente da Federação de Coimbra do Partido Socialista, e não um qualquer deputado, propôs ontem na Assembleia da República, e transcrevo do Jornal de Negócios, que “o Governo, em vez de baixar impostos, aumente investimento público…” Seria "ainda mais oportuno do que baixar taxas de impostos", disse ainda Vítor Baptista. Eu pasmo!...
Isto é: o ilustre deputado coimbrão defende uma carga fiscal elevada, não já pela necessidade de equilibrar as contas, como justifica o Governo, não já pelo argumento de obviar a uma redistribuição dos rendimentos, como muitos, socialistas ou não, preconizam, mas porque seria a grande “oportunidade” de o Estado se substituir aos cidadãos e às empresas na actividade económica!...Eu pasmo!...
O Sr. Deputado parece que ainda não percebeu que esse “investimento” não acrescenta nada à economia, antes a diminui, já que é dinheiro extorquido à actividade económica e aos cidadãos, que assim deixam de investir e consumir; e também não percebe que o investimento individual e empresarial traz valor acrescentado, ao contrário da irracionalidade de muito investimento público.
Para o Sr. Deputado, os cidadãos e as empresas não sabem o que fazer ao dinheiro, não sabem poupar, nem consumir, nem investir, pelo que o Estado é que deve ser o grande gestor dos dinheiros alheios.
Como o vai definitivamente demonstrar o “investimento” de dois mil milhões de euros para fabricar e enterrar 235.000 estacas na OTA. O exemplo acabado daqueles bons investimentos que o Estado faz com os nossos impostos.
De pasmar!...

O ERRO DA OTA

Parabéns ao nosso Miguel Frasquilho, co-autor do livro «O Erro da Ota e o Futuro de Portugal: a Posição da Sociedade Civil», que será lançado na próxima segunda-feira, dia 14 de Maio.

"... os autores deste livro rejeitam a Ota. Foi uma decisão mal preparada por sucessivos governos; mal fundamentada do ponto de vista técnico; acompanhada da ocultação e da manipulação de estudos; e desacompanhada por precauções relativamente à especulação fundiária: rejeitam o erro da Ota que contraria toda e qualquer normalidade de procedimentos de “bom senso”."

Para mais pormenores ler em:
http://www.somosportugueses.com/modules/news/article.php?storyid=27

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Família feliz...

"Do lado do PSD correu tudo como desejávamos", afirmou Azevedo Soares, em declarações à Lusa.
Referia-se, naturalmente, à queda da Câmara Municipal de Lisboa.
(Masoquista é uma pessoa que sente prazer ao lhe ser infligida dor e sofrimento, tanto físico quanto moral - Cfr. Wikipédia)

O povo não está preparado!...

"Jardim não ganhou. Ganhou o populismo fácil".
Domingos Andrade-Chefe de Redacção do Jornal de Notícias

"O socialismo de Ségolène não perdeu. Ganhou o discurso fácil de Sarkozy que melhor soube interpretar e ludibriar o desejo de mudança dos franceses..."
Domingos Andrade-Chefe de Redacção do Jornal de Notícias

Para gente de mente leve e de verbo fácil a democracia é mesmo difícil!...

terça-feira, 8 de maio de 2007

A (In)Segurança Social dos "Sem Abrigo"

Num País em que as desigualdades sociais são imensas e imensamente perturbantes o Dia da Segurança Social deveria ser motivo para não as omitirmos e antes assumi-las frontalmente.
Penso muitas vezes nos "Sem Abrigo", nestas pessoas tão desprotegidas e tão "sem vida", nesta realidade absurda que vive à nossa porta, que raramente damos por ela e sobre a qual ouvimos falar mas sobre a qual pouco sabemos.
Qual de nós é que já não tropeçou num "Sem Abrigo"? É deprimente e chocante a degradação da condição humana em que muitas destas pessoas vivem. Pensar nos "Sem Abrigo" neste Dia da Segurança Social é lembrar a sua existência, com a esperança de que a nossa Segurança Social se aplique para integrar e recuperar estas pessoas tão "desabrigadas" da vida.
As pessoas "Sem Abrigo" abarcam diversas situações, mas na maioria dos casos são assimiladas a pessoas "sem-tecto". Um estudo recente realizado pelo Instituto da Segurança Social dá conta que existem no País 1044 pessoas "sem-tecto" (números de 2005). O fenómeno é essencialmente urbano, com uma concentração em Lisboa e no Porto. São sobretudo homens em idade activa, solteiros e divorciados, de nacionalidade portuguesa, com escolaridade básica. Os principais motivos para esta situação prendem-se com problemas familiares (por exemplo, rupturas conjugais), de saúde (por exemplo, toxicodependência) e de desemprego.
A maior parte dos "Sem Abrigo" entram num círcuclo vicioso de exclusão social, porque a degradação de condições físicas e mentais são entraves à sua inserção profissional e inibidoras de procura de trabalho. A sua degradação social conduz como que a um "beco sem saída".
O não ter direito a um subsídio de desemprego ou a uma pensão social agudizam a precariedade económica, o recurso à mendicidade ou a situações ilícitas.
As instituições de solidariedade social são as entidades que prestam maior apoio, de carácter pontual, em especial na satisfação de necessidades básicas como a alimentação, o vestuário e a higiene diária.
São marcadamente deficitárias as ajudas com carácter estrutural, que passam designadamente pelo acesso a uma habitação, à inserção profissional, à formação, a programas ocupacionais e à resolução de problemas de saúde. São estas ajudas que necessitam de uma maior e melhor resposta por parte da Segurança Social – através da contratualização com instituições de solidariedade social – sem a qual não é sério pensar que o círculo vicioso de vida das pessoas "Sem Abrigo" possa ser quebrado.

Estado inquilino prejudica proprietários...

"Senhorios impedidos de subir rendas ao Estado", é o título de capa, hoje, do DN. E bem, esta chamada de atenção; porque é inadmissível que os proprietários cujos inquilinos são entidades públicas estejam impedidos de aumentar o preço dos arrendamentos.
O Novo Regime de Arrendamento Urbano remeteu para posterior legislação complementar os arrendamentos por entidades públicas. Esta legislação deveria ter sido publicada até ao final do ano. Foi esgotado o prazo de 180 dias e já lá vários meses decorridos em 2007. Vamos a caminho de um ano sobre a entrada em vigor da nova lei.
Não há complexidade que possa ser invocada – mas foi – para justificar este incumprimento por parte do Estado, com a agravante de se tratar da lei que o mesmo Estado aprovou!
Nem há morosidade, por muito difíceis que sejam as negociações que envolvem vários ministérios, que possa ser argumentada – que foi – para justificar o injustificável: o prejuízo causado aos muitos proprietários que têm o Estado como inquilino, que estão impossibilitados de actualizarem as suas rendas.
Mas o Estado exige a estes proprietários que cumpram as mesmas obrigações de todos os outros. Não há excepções!
Não são precisas mais considerações! Para quê?

Parabéns a você!...

Faz hoje mais um aniversário o excelente Mar Salgado. Aos seus Autores, os votos do 4R de grandes textos e de bons e oceânicos sucessos.

Atentados contra a liberdade

A preocupação com a liberdade não é de hoje, e, apesar de todas as conquistas entretanto verificadas, é fácil identificar muitos atropelos a um dos principais pilares da condição humana.
Entre nós, começam a surgir evidências ou, no mínimo, suspeitas de controlo da liberdade de imprensa. O que é certo é que as pessoas encolhem-se cada vez mais, sempre que desejam exprimir os seus pensamentos, com receio de virem a ser objecto de vários tipos de represálias. Até a própria justiça entra neste fandagar, ao dar razão a certas queixas, facto que não deixa de nos espantar, porque acabar nas mãos da justiça – mesmo que sejamos absolvidos - pode ser um tormento capaz de provocar úlceras de stress e muito mais!
Mas, apesar de tudo, nada se compara com as notícias que vêm lá de fora. Vejam-se certas proibições tradutoras de verdadeiras formas de terrorismo, impensável no mundo moderno.
O presidente iraniano deu um beijo na mão, ou melhor, na luva, de uma senhora de idade, encasacada, e foi logo criticado pelo beijo “indecente”! A senhora tinha sido a sua professora primária e o acto em si revela respeito e ternura por quem lhe ensinou as primeiras letras. A crítica chegou ao ponto de ser considerada uma “acção contrária à lei islâmica (sharia). Os teólogos daquelas bandas, que permitem que um homem possa casar com várias mulheres, e que chegam a oferecer um batalhão de virgens no paraíso a quem mostrar pressa em lá chegar, por exemplo, através de suicídios religiosos, são mentores de formas de terrorismo que cerceiam a liberdade humana.
Mas esta forma de atentado à liberdade, sob a capa de princípios religiosos, não é apanágio daquelas bandas, porque na Irlanda, a uma jovem de 17 anos, grávida e portadora de um feto com graves anomalias, anencefalia, malformação cem por cento fatal nas primeiras 48 horas após o parto, foi-lhe negada a possibilidade de ir ao Reino Unido para abortar. Como é sabido, na República da Irlanda, é proibido o aborto, mesmo nestas circunstâncias! De acordo com a notícia, a adolescente está à guarda do serviço de saúde irlandês!, melhor seria dizer que está “detida” por um serviço que deveria respeitar a saúde dos cidadãos e não castigá-la de forma a perigar a sua saúde. Em qualquer pais civilizado (não esquecer que mesmo entre nós, antes da actual alteração à legislação da lei do aborto, já era permitida a solução deste grave problema) esta situação já teria sido resolvida.
Afinal, o direito à liberdade e ao respeito pela dignidade humana carecem de muitas lutas e combates, de modo a eliminar certos “princípios” que se revelam perniciosos, traduzindo fortes interesses capazes de controlar as leis ou comportando-se como tal.
Parece que o assunto foi parar ao Supremo Tribunal de Dublin. Esperemos que a decisão de conceder o direito à jovem de viajar livremente para fora do território irlandês seja dada o mais rapidamente possível.
Esperemos...

A Câmara da bicharada!...

Na Câmara de Lisboa, todos dizem que se querem demitir, por razões patrióticas (excepto o Presidente, honra lhe seja feita...), mas ninguém se demite.
Estão todos à espera que o parceiro do lado dê o primeiro passo, não vá o diabo tecê-las...
Mas se os políticos desconfiam assim uns dos outros, como é que os cidadãos podem confiar nos políticos?
Estamos mesmo bem entregues. À bicharada, claro!...

Manifestações anti-Sarkozy ou anti-democracia?

Os “media” portugueses têm-se referido aos distúrbios ocorridos na madrugada de Domingo para Segunda-Feira, em algumas cidades francesas, envolvendo o incêndio de centenas de automóveis e o assalto a estabelecimentos, como “manifestações anti-Sarkozy”.
É bizarra esta definição, embora não surpreendente nos dias que correm.
Caso se tratasse de manifestações genuinamente anti-Sarkozy, a pergunta que ocorre fazer é: qual o motivo de tais manifestações/motins não se terem realizado antes do homem ter sido eleito, quando ainda havia alguma possibilidade de evitar essa eleição? Quando o homem era apenas uma ameaça à paz e à tranquilidade em que vivem os franceses, como o definiu, num comentário bastante infeliz, a sua opositora no último dia da campanha eleitoral?
Realizados depois da eleição, essas “manifestações anti-Sarkozy” não são mais do que uma demonstração de inconformismo com o funcionamento das regras democráticas, de que resultou a eleição do homem como novo Presidente da França.
Elas são assim genuinamente “manifestações anti-democracia”.
Estou absolutamente convencido que, caso Segolene tivesse sido eleita, não haveria lugar a “manifestações anti-Segolene”.
E se, contra toda a probabilidade as houvesse, a nossa comunicação social não hesitaria em apelida-las de distúrbios provocados pela direita anti-democrática, que não quer aceitar a vitória da democracia...Alguém duvida?
São tristes sinais dos tempos que vivemos, sem dúvida.
Ou talvez melhor deste "convívio com a idiotice", bem ilustrado no oportuno POST de Pinho Cardão, de há 3 ou 4 dias.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

As notícias da Comissão Europeia

Foram hoje divulgadas as previsões de Primavera da Comissão Europeia (CE). No que toca ao crescimento económico de Portugal existem boas e más noticias.

Boa notícia: a CE reviu em alta as projecções do crescimento do nosso PIB quer em 2007, quer em 2008. Assim, antes a CE previa que cresceríamos 1.5% neste ano e 1.7% no próximo; agora, a CE prevê um crescimento de 1.8% em 2007 e 2% em 2008. Positivo, portanto.

O problema é que esta é a única boa notícia.

Quanto às más notícias, o campo é, infelizmente, mais vasto.

Primeiro: apesar da revisão em alta do nosso crescimento económico, como as projecções para a Zona Euro, a EUR-15 e a UE-27 foram mais revistas em alta relativamente ao anterior cenário, o que sucede é que, face aos nossos congéneres europeus, ficaremos pior (isto é, empobreceremos mais rapidamente em termos relativos).

Segundo: Esta realidade é confirmada pela evolução prevista para o nosso PIB per capita. Anteriormente, as nossas posições relativas previstas para 2007 e 2008 eram o 18º e o 20º lugares, respectivamente. Agora, com a actualização das projecções da CE, já ficámos no 19º lugar em 2006 (a Malta ultrapassou-nos no ano passado); e cairemos para o 20º lugar em 2008, mas mais longe do que anteriormente face à Estónia, que nos ultrapassará no próximo ano. Atingiremos, aí, um rendimento per capita, de 64.4% da média da EUR-15… Quem diria, há apenas cinco anos, por exemplo, que a Eslovénia (em 2003), a República Checa e Malta (em 2005) e a Estónia (em 2008) nos ultrapassariam em termos de nível de vida? E que todos os países do leste europeu que aderiram em 2004 e já em 2007 estariam a recuperar, a olhos vistos e ano após ano, terreno face ao nosso PIB por habitante? O nosso país a piorar; os outros a recuperar…

Terceiro: Ainda pior – Portugal registará, em 2007, e à semelhança do que aconteceu em 2006, o mais baixo crescimento da UE-27. E em 2008, o nosso país terá o segundo mais baixo crescimento de entre os 27 (a par com a Dinamarca; pior só mesmo a Itália). Ora, este cenário é ainda pior do que nas anteriores projecções, em que nos situávamos na penúltima posição na UE-27 em termos de crescimento económico, quer em 2007, quer em 2008 (a Alemanha e a Itália ocupavam a cauda da tabela, respectivamente). É a prova de que, se o nosso crescimento foi revisto em ligeira alta, os dos outros países foram revistos... numa alta maior - pelo que a nossa posição relativa de deteriora. Lá estamos nós no fundo do pelotão em 2007 (como em 2006) e em penúltimo lugar em 2008...

Como se vê, predominância das más notícias… E durante quanto mais tempo? Em minha opinião, até ao final desta década, pelo menos, não teremos condições de voltar a convergir para a média europeia. O que significa que teremos, seguramente, mais de uma década em contínua divergência para o nível de vida médio europeu.

Será que, perante este cenário, alguém tem coragem de dizer que a revisão em alta do nosso crescimento económico constitui uma boa notícia? Só quem for mesmo muito autista e julgar que estamos sozinhos no mundo poderá pensar assim. Porque face aos outros – e, obviamente, assim é que a análise deve feita –, estamos cada vez mais longe, cada vez mais pobres. Isto é, cada vez pior.

Contos de uma província distante-O Manuel Inglês

Há dois ou três dias, vi de relance numa retrospectiva da televisão a figura de José Luís Judas com a sua inconfundível camisa sem colarinho. Confesso que a imagem me põe normalmente indisposto, por me lembrar os tempos em que, na minha terra beirã, camisa que se prezasse levava remendos sobre remendos e camisa sem colarinho era sinal de extrema pobreza.
Mas a imagem fez-me também lembrar o Manuel Inglês, rapaz que, era eu miúdo, trabalhava a dias na lavoura do meu pai. Nunca lhe vi camisa com colarinho e camisa sem remendos só em dia de grande festa.
O seu verdadeiro nome era Manuel Fernandes. Filho da Srª Adelaide Sardinheira, que às terças, quintas e sábados, dias de chegada da camioneta do peixe, canastra à cabeça, vendia sardinha ao quarteirão, à dúzia e à meia dúzia, a dinheiro ou em espécie, a troco de ovos, com câmbio fixo de sessão para sessão. Por vezes também trazia carapau, que outro tipo de peixe só comprado na vila, não chegava lá à aldeia.
Pois o Manuel não tinha pai ou, se o teve, ninguém o conhecia e nunca a mãe deu conta dele. Nasceu com cabelos ruivos que ruivos lhe ficaram, cara rosada e sardenta, que rosada e com sardas continuou, olhos azuis, que azuis permaneceram. Não era do tipo de gente nascida lá na terra, daí chamarem-lhe Inglês, alcunha que mal suportava, sobretudo por parte de estranhos à aldeia. E se algum brincalhão lhe dissesse Oh Inglês, vem daí beber um copo, já sabia os epítetos com que seria mimoseado: o nosso Manuel entrava em fúria e corria a pragas os provocadores. Mas, feitas as pazes, lá ia beber o copo, em amena cavaqueira. Era uma pessoa de bem, trabalhador e honesto, de quem as pessoas gostavam. Eu era miúdo e gostava de andar com ele, a vê-lo trabalhar nas sementeiras, a tratar da horta, a fazer a cama de mato, no curral dos animais. Só não percebia é por que razão a minha mãe não gostava nada que a Deolinda, moçoila criada lá de casa, que cantava sempre e tão bem, que nem sei se trabalhava a cantar ou cantava a trabalhar, andasse próxima do Manuel Inglês. E ameaçava um e o outro, se se aproximassem mais de dois metros.
Por que é que não deixa a Deolinda andar ao pé do Sr. Manel, perguntava eu.
Aí o Manel adiantava-se à resposta, e disfarçava, com sentido de humor: já lhe disse que a sua mãezinha tem medo que leve a Deolinda para a Inglaterra!...
Nunca casou, o Manuel Inglês, nem já poderá fazê-lo. Mas tenho a certeza que, onde quer que esteja, alguém lhe ofereceu uma camisa nova, porventura com colarinho!...

domingo, 6 de maio de 2007

A Flor mais bonita do mundo...


DIA DA MÃE
Para a Mãe mais bonita do mundo, não chegam todas as flores do mundo... Mas esta é especialmente bela e dispensa palavras...

Eleições em França e na Madeira

À hora a que este post é editado estão contados 91,7% dos votos expressos na eleição presidencial em França e os resultados são os seguintes:

Sarkozy------53,28%
Segolene-----46,72%

Algumas conclusões:
1ª) A grande aproximação dos resultados aos últimos dados da sondagem divulgada pelo Financial Times que aqui fui citando (54-46);
2ª) A elevadíssima taxa de participação eleitoral, de cerca de 86% dos inscritos, revelando um grande interesse na eleição certamente motivado por uma efectiva vontade de mudança por parte dos franceses;
3ª) O facto de os votos que pertenceram a Bayrou na 1ª volta se terem repartido quase igualmente pelos dois candidatos, apesar do sinal de Bayrou, quase no final, em favor de Segolene;
4ª) O discurso de vitória muito equilibrado de Sarkozy, porventura a pensar já nas legislativas que se seguem em Junho;
5ª) As possíveis alterações da política externa francesa, tendo em conta as ideias expressa pelo candidato acerca da instituição de uma união mediterrânica, euro-africana, agregando países do sul da Europa e países do Magreb, bem como de uma reaproximação aos EUA (influência de Blair?);
6ª) As declarações muito enfáticas de Strauss-Khan, figura de destaque do PS francês e em especial da sua ala social-democrata, quanto à necessidade de profundas mudanças na linha política do partido, indo de encontro à promessa de Segolene de continuar activa na política nacional e de ser a protagonista de uma nova esperança “pour la gauche” – teremos aqui o princípio de uma aliança estratégica entre os dois?

Hoje também as eleições para o Parlamento da Madeira, que deram ao PSD 33 dos 47 deputados eleitos, ficando o PS reduzido a 7.
Curiosamente, tanto o Partido da Terra como o Partido da Nova Democracia conseguiram 1 deputado, o mesmo que o “consagrado” Bloco de Esquerda.
Percebe-se melhor agora a ausência do Secretário-Geral do PS (e também 1º Ministro) da campanha eleitoral…
Já se imaginou o que seria se o dirigente nacional do PS se tivesse empenhado na campanha? Depois do que aconteceu nas presidenciais?
Prevejo, entretanto, que nos próximos dias iremos assistir a um trabalho intensíssimo do marketing oficial para eliminar rapidamente dos espaços noticiosos o tema eleições na Madeira…Vamos ver?

sábado, 5 de maio de 2007

Conviver com a idiotice!...

Declarações de ontem de Ségolène Royal a uma estação de televisão francesa, referindo-se a Sarkozy: "Cette candidature est dangereuse. C'est pourquoi je demande aux électeurs de bien réfléchir. J'ai la responsabilité de lancer une alerte par rapport aux violences et aux brutalités qui se déclencheront dans le pays...".
Ao findar a campanha eleitoral de 1986, Mário Soares, referindo-se a Freitas do Amaral, seu concorrente, evocou o perigo do “fascismo”, insinuando ligações de Freitas ao antigo regime e a Marcelo Caetano, como seu Assistente de Direito Administrativo.
Ao findar a campanha eleitoral de 1996, Jorge Sampaio, referindo-se a Cavaco, seu concorrente, evocou o perigo de se voltar ao antes de 25 de Abril, dado não conhecer Cavaco das lutas antifascistas.
Ao findar a campanha eleitoral de 2006, Mário Soares afirmou que não iria dormir descansado se Cavaco ganhasse as eleições, evocando o perigo de se voltar a um regime autoritário e de se alterar a ordem constitucional vigente.
Como se vê, em França e em Portugal, a decisiva e suprema argumentação da esquerda nunca se afirma pela excelência das suas candidaturas, limitando-se a denegrir as alheias, com processos de intenção idiotas.
Não há nada a fazer: como não se altera o código genético, nestas ocasiões lá teremos que conviver com a idiotice.

O que muitos pequenos gestos podem fazer...

O Banco Alimentar Contra a Fome promove e organiza este fim-de-semana mais uma campanha de recolha de alimentos, a primeira de duas que anualmente são realizadas.
O Banco Alimentar Contra a Fome é um banco muito especial, cujo objectivo é combater o desperdício de produtos alimentares e fazê-los chegar às pessoas que têm fome.
Vivemos numa sociedade que desperdiça muita da riqueza dos seus valores humanos, tão absorvida que está na abundância dos seus bens, acabando por se esquecer da importância que cada pequeno desperdício transformado num bem útil pode constituir para o bem comum.
As campanhas do Banco Alimentar Contra a Fome constituem uma extraordinária referência da generosidade e do afecto dos portugueses, do reconhecimento das suas riquezas interiores e da importância dos seus gestos de bem fazer para enriquecer o capital colectivo com vista ao bem comum.
O Banco Alimentar Contra a Fome e as suas campanhas anuais mobilizam uma impressionante cadeia de solidariedade - voluntários, instituições de solidariedade social, pessoas e empresas -unida na vontade de ajudar a minorar a vida difícil de muitas pessoas carenciadas.
No mundo em que vivemos faz pena que na abundância tanto se desperdice. É uma realidade sobre a qual deveríamos reflectir e não perder de vista que não tem que ser assim.
Dizia Madre Teresa de Calcutá que "tudo o que não se dá perde-se".

O ovo de Colombo

Ouvi agora uma notícia que diz que, no mês de Abril agora terminado, houve o maior número de nascimentos na Alemanha desde o fim da 2ª guerra mundial.
Foram investigar o fenómeno – sim, que isto de nascerem crianças em quantidade já é um fenómeno na Europa-, e que concluíram? Pois que, andando 9 meses para trás, dá-se de caras com…o Mundial de Futebol!
Parece que os alemães andaram tão animados com a emoção desportiva, que passaram confiar no futuro.
A Sra. Chanceler já deve estar arrependida do aumento dos subsídios à maternidade, afinal o problema demográfico neste lado do mundo era apenas um ovo de Colombo, pois parece ter solução bem simples, barata e eficaz. Futebol, pois claro! mas de qualidade...

sexta-feira, 4 de maio de 2007

O roubo de uma vida...

Foi hoje noticiado nos telejornais o desaparecimento ontem à noite na Praia da Luz, no Algarve, da Madeleine, uma menina inglesa de três anos. A menina encontrava-se segundo a notícia num apartamento de um aldeamento turístico, juntamente com dois irmãos, enquanto os pais jantavam num restaurante próximo. Foram noticiadas as buscas da polícia na tentativa de encontrarem a criança ou pistas que possam levar à sua descoberta.
Esta história trágica, a confirmar-se o desaparecimento, é uma realidade que acontece todos os dias em muitos cantos do globo, que não pode deixar ninguém indiferente.
Não há palavras que possam descrever o desespero e a angústia que os pais da Madeleine estarão a viver. Um história que deixa horrorizadas as pessoas com o mínimo de sentimentos humanos. E depois, o sentimento de culpa que muito provavelmente os pais estarão a desenvolver por a sua ausência ter determinado uma tal tragédia. E depois vem a interrogação brutal sobre o sofrimento da sua pequena filha, roubada ao seu carinho e dos seus irmãos, arrancada ao mundo infantil das suas bonecas, do seu quarto, da sua casa e da sua escola. E, a seguir, o que a espera? É difícil imaginar!
O desaparecimento de crianças tem, normalmente, na origem o rapto e no destino a exploração sexual, mais conhecida por pedofilia. O fenómeno da pedofilia tem vindo a alastrar a nível mundial. Os números conhecidos são assustadores, apesar da sua natureza obscura, clandestina e criminosa, e abrangem ambos os hemisférios, indo do Brasil à Tailândia, da Itália aos Estados Unidos da América.
As crianças merecem que os responsáveis de todos os governos não poupem esforços para acordar e alertar o mundo e despertar as consciências para o drama gravíssimo das crianças exploradas sexualmente. São crianças perdidas, roubadas à vida...
Oxalá a Madeleine não tenha caído numa malha criminosa e que Portugal não tenha que inscrever nos seus registos mais este triste caso.

“Pintarroxos”!


Quando andava na escola primária divertia-me, conjuntamente com os meus colegas, andar a espiolhar os ninhos. Quem descobrisse mais ninhos era mais respeitado. O risco que corríamos era mais do que suficiente para sermos repreendidos e, até, castigados pelo professor. Uma das lições que aprendíamos era não mexer nos ninhos dos pássaros. O próprio padre também considerava como “pecado” a nossa conduta. Ouvíamos e esquecíamos logo de seguida sempre à descoberta de novos ninhos, dos ovos, dos filhotes e da espécie em questão.
Mas também não deixávamos de apanhar pássaros com as nossas armadilhas e construir toscas gaiolas para os albergar, quase sempre os mais pequenos e indefesos. O que é certo é que ao fim de algum tempo acabavam por morrer, facto que interpretávamos com sendo resultante da acção deliberada dos pais que, ao ouvirem os gritos dos filhotes, preferiam a sua morte.
Alguns pássaros eram intocáveis, caso das andorinhas ou dos pintarroxos, por exemplo. Os pardais e os melros, pelo contrário, levavam na perna, à pedrada, à fisga ou com os costilos. Recordo-me de um “puto” mais novo querer fisgar um pintarroxo. Levou logo no cachaço! – Então não sabes que não se pode fazer mal a este pássaro? E lá lhe explicámos que a mancha vermelha no peito era devido a uma gota de sangue de Cristo quando quis tirar um espinho da coroa que se tinha enterrado na cabeça do Senhor, durante a Via Sacra. O puto, com cara de parvo, ficou de boca aberta, e só deverá ter aprendido que não ia meter-se mais com pintarroxos, porque senão levava no cachaço.
Nessas alturas os pintarroxos tinham uma vida flauteada, cantando ao amanhecer, embora não seja nada de especial, atraindo parceiros, marcando território e espantando inimigos. Enfim, ritual típico de tantas e tantas espécies de aves.
Acontece que devido à poluição sonora estas aves começam a ter comportamentos diferentes, passando a cantar de noite, devido ao facto de os níveis de ruído diurnos serem elevados. Dizem os entendidos que “nos pássaros, a cantoria nocturna por espécies normalmente diurnas pode ser uma forma de minimizar a interferência de barulho ambiente urbano”. Aqui está mais um dado, a juntar a tantos outros, apontando para o papel negativo dos efeitos ambientais nos comportamentos das diferentes espécies. Coitados dos pintarroxos, cantam de noite, não dormem e não cumprem os seus rituais.
Outros estudos sugerem que algumas espécies, a residirem nas grandes cidades, adaptam-se à poluição sonora através do aumento do volume dos seus sons, ou então chegam mesmo a modificar o estilo, versus os seus primos rurais, optando por um estilo “rap”!
As modificações operadas no canto poderão provocar situações novas, dificuldades em marcar território e no acasalamento, além de permitir ataques dos inimigos.
As mudanças do comportamento das aves poderão constituir um sinal evidente dos efeitos negativos da poluição, neste caso concreto, sonora. A origem humana do ruído é mais do que conhecida, e como estão a provocar os pintarroxos, que tal um valente cachaço nos poluidores?!

Transparência

Após a assembleia-geral da Media Capital que investiu o Sr. Dr. Pina Moura na presidência do grupo, a PRISA, pela voz de Manuel Polanco, não teve qualquer rebuço em confessar que a escolha de Pina Moura se ficou a dever ao facto de este se mover «bem no mundo da alta finança e da alta política» e que «foram os seus contactos» nestas áreas e «a sua maneira de ver o mundo» que levaram ao convite.
O próprio Pina Moura já tinha revelado que na sua nomeação para presidir ao grupo pesou esse poder de influência que lhe advém do seu estatuto de ilustre e considerado (ex-?)cardeal socialista.
Louvo esta transparência, coeva do conhecido pragmatismo socialista.
Se é para controlar, para que é que andamos com maneirismos retóricos e explicações para justificar uma independência da comunicação social em que já ninguém acredita?
E se homem se relaciona bem com a «alta política», dependendo esta cada vez mais dos media, porque não assumir?
E tendo os órgãos de comunicação detidos pela PRISA uma orientação partidariamente marcada e a ninguém afligindo esse facto - a começar pelos próprios jornalistas que a isso estão habituados e praticam -, não seria espantoso que a escolha não fosse assim assumida?
Liberdade de opinião? Neutralidade da informação? Independência da comunicação social?
Pragmaticamente, que interessam nesta democracia de grupos?

Câmara de Lisboa: hipocrisia e mentira em estado puro II

Segundo acabei de ouvir na rádio, os Vereadores socialistas da Câmara de Lisboa e o Vereador comunista "estão a preparar os processos de demissão". Os outros provavelmente também andam nessa enorme e cansativa azáfama.
Mas, que diabo, escrever uma simples carta a dizer "Demito-me das funções para que fui eleito na Câmara de Lisboa", datar e assinar exige assim um tão complexo processo preparatório?
Serão os sujeitos analfabetos e estará incluída no processo preparatório a aprendizagem da assinatura? Terão os sujeitos que recrutar antes mais uns tantos assessores para redigirem a carta e uns tantos motoristas para a levarem ao destino? Estarão os sujeitos a aproveitar o tempo para dar mais umas quantas entrevistas a exigir eleições, sem nada fazerem para que as haja? Ou estão a assegurar o lugar, acautelando-se no caso de os restantes não se demitirem? Ou estarão patrioticamente a negociar com as cúpulas partidárias o seu quinhão no assalto às próximas listas?
No meu post anterior Hipocrisia e mentira em estado puro, o Ferreira de Almeida comentou sabiamente que a situação era "uma amostra significativa do estado a que chegou esta III república...". Pois é. E eu disse e digo: em força e já para a IV República!...

O Mundo dos Outros


Fui hoje assistir à apresentação dos resultados do trabalho desenvolvido por um grupo de instituições que se dedica ao combate ao trabalho infantil e abandono escolar, um tema do maior interesse e de que se conhecem sobretudo os sinais de alarme (ainda muitos, infelizmente) sem visibilidade dos progressos que se vão alcançando.
Essas equipas, para terem sucesso, obrigam à convergência de muitos esforços, de instituições públicas, de solidariedade social, autarquias, tribunais e famílias.
Contaram que vão praticamente de casa em casa, para convencer os pais a deixarem os filhos voltar à escola e/ou para convencerem os jovens a prolongar os estudos e obterem uma certificação académica ou profissional. Falaram da falta de auto estima de muitas dessas crianças, de inúmeros pais, eles próprios sem habilitações e fechados no seu pequeno mundo limitado, que decretam que o filho “não dá para os estudos, para quê andar na escola a apanhar maus hábitos?” e assim anulam qualquer impulso dos garotos. Estes, isolados de outros jovens e condenados à sua alegada inaptidão, crescem sem sonhos, sem qualificações, muitas vezes sem regra nem afectos, e adquirem comportamentos que os excluem socialmente.
Falou-se de taxas de sucesso do programa, há casos de 100%, em que todos os do grupo inicial prosseguem os estudos, outros de 75%, outros muito menos. Há muitas razões para isso, muitas vezes inultrapassáveis, mas ouvir falar de taxas de sucesso depois da apresentação de vários casos concretos, lembrou-me um episódio que li num livro sobre Alexandre da Macedónia.
Alexandre, ainda um jovem príncipe, ia com o seu pai a cavalo, percorrendo os campos de um país arrasado pela sua conquista. A certa altura, passam rente a uma garota miserável, coberta de farrapos sujos e esmagada ao peso de um carrego de lenha. Alexandre parou e deu ordem para que a garota fosse levada para o palácio, que a tratassem e alimentassem e aí passasse a viver. O Rei admoestou-o: “Tens a noção dos milhares de desgraçados que vivem como essa garota, sem que nada possa salvá-los do seu destino? Achas que vais mudar o mundo só porque a salvaste a ela?”
Alexandre viu a garota a andar, já livre do peso absurdo, os ossos salientes e os pés descalços. “Posso não mudar o teu mundo. Mas, para ela, fez toda a diferença”.
Para cada um daqueles garotos que integram as estatísticas que não parecem mudar quase nada, o mundo mudou. Para muito melhor.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Hipocrisia e mentira em estado puro!...


Desde há muito que venho ouvindo e lendo que todos os partidos da oposição consideram que a Câmara de Lisboa está ingovernável e que são necessárias eleições urgentes. E o PSD aderiu ontem à ideia.
Mas, ou por falta de ouvido, ou por falta de vista, ainda não ouvi nem vi o Dr. Sá Fernandes, que tanto fala, demitir-se, o Dr. Dias Baptista, que tanto pugna por ser o nº 1 do PS, demitir-se, o Dr. Rúben de Carvalho, que tanto pede eleições, demitir-se, o Eng. Anacoreta Correia demitir-se, o nº2 ,ou o nº 3, ou o nº n do PSD demitir-se!...
Pois se nenhum se demitir, como é que a demissão de Carmona, que seria substituído pelo seguinte da lista, pode viabilizar novas eleições?
Admito que Marques Mendes não mande em Carmona, que é "independente". Mas os outros chefes partidários mandam nos seus eleitos por Lisboa? E, se mandam, em que sentido?
Enfim...hipocrisia e mentira em estado puro!...

“Senhor doutor! Senhor doutor!”

Na sequência da minha última nota, “a mulher do chapéu de chuva”, recordei-me de um outro episódio por causa da problemática levantada a propósito das habilitações do senhor primeiro-ministro. Na sua entrevista televisiva, entre muitos aspectos, registei a explicação para o tratamento de engenheiro: “mero tratamento social”!
Nos finais da década de sessenta, aquando da minha entrada na Universidade, nos meados de Novembro, ensaiei, pela primeira vez, estudar num café. Marrar aqueles calhamaços de anatomia em casa, punha-me a dormir. Escolhi o café Império já que ficava a poucos metros da casa onde habitava. Uma noite, depois do jantar, agarrei no primeiro volume do Testut e desloquei-me ao café. Subi por umas escadas estreitas ao primeiro andar, habitualmente “reservado” aos estudantecos, já que no rés do chão não era permitido ocupar as mesas, e pude escolher à vontade uma, já que estavam todas às moscas. O empregado, passado algum tempo, dirigiu-se-me nos seguintes termos: - O que é que o senhor doutor vai tomar? Fiquei de boca aberta, até porque não estava mais ninguém naquela sala. Pensei: - O homem deve estar maluco. A chamar-me doutor! O que é certo é que repetiu a pergunta e respondi que queria um café. Continuei a pensar, por que raio é que chamaria doutor a um caloiro, que teve o atrevimento de começar a estudar, logo na primeira quinzena de Novembro, desafiando a praxe, já que depois das seis horas não nos era permitido andar na rua. Mas como habitava perto, sentia-me seguro. Só se podia ser praxado na rua e numa correria louca depressa ficava outra vez debaixo de telha.
Ao princípio este tratamento incomodava-me, mas ao fim de quinze dias deixei de ligar e aceitei naturalmente a cortesia social da cidade.
Passados uns anos, andava no quarto ou no quinto ano, já não me recordo, deixei no café Sofia, que há muito tinha substituído o Império, os meus livros, porque tive que ir a casa tratar de uns assuntos. Eis que de repente ouço alguém a gritar numa das ruas mais movimentadas da cidade: - Senhor doutor! Senhor doutor! Posso afiançar que a maioria das pessoas que circulavam na altura aquela artéria pararam, virando-se para o gritador. Até um cão, rafeiro e meio esquálido, que lentamente ia à minha frente, parou, virando-se para a origem do tratamento do “Oh senhor doutor”. Mas depressa retomou a sua marcha lenta, pensando que deveriam estar a chamar um outro colega seu...

Tribunal Penal Internacional: um teste mais

A guerra de Darfur vista pelas crianças

São muitos os que se interrogam sobre a eficácia do Tribunal Penal Internacional (TPI).
Anuncia-se agora que o TPI emitiu mandatos de captura contra dois responsáveis pelos massacres de Darfur de que o mundo ouviu falar, mas ao qual não prestou grande atenção.Os media são selectivos até nas desgraças que revelam. Há os de primeira ordem, que garantem audiências; e há os que somente provocam um encolher de ombros por muitas vidas que se ceifem gratuita e brutamente. Esses, os da indiferença, nunca nos impressionam verdeiramente. Darfur está nesta última categoria.
Mas um Tribunal, qualquer que ele seja, não deve pautar-se por impressões mediáticas. Por isso se espera que o TPI leve às últimas consequências o processo que agora iniciou. Não só porque é necessário punir severamente estas gritantes violações, em massa, de direitos humanos. Mas porque o julgamento exemplar pode ter um efeito preventivo superior a mil iniciativas diplomáticas noutros pontos do planeta.
Um teste mais à utilidade do TPI.

Eleições em França: tudo decidido?

Após o debate televisivo da noite de ontem, que despertou muito interesse também em Portugal, os dados parecem lançados.
Para a generalidade dos comentadores, Segolene foi combativa e pouco mais.
Em contraste, Sarkozy evidenciou uma calma olímpica, sem deixar de marcar os seus pontos de vista de forma mais ou menos clara.
Mesmo em diários de esquerda como o Liberation é reconhecido que Sarkozy não perdeu o debate.
Fiquei com a sensação de que cada um dos candidatos se esforçou, sobretudo, por apagar/disfarçar as marcas menos positivas que lhes vinham sendo apontadas: com a sua “combatividade” Segolene terá procurado desfazer a imagem de falta de segurança e de ideias de que vinha rotulada; com a sua “calma olímpica” Sarkozy terá tentado descolar da imagem de duro e “chefe de polícia” que os seus adversários lhe apontavam.
No final, um “match” quase nulo, talvez com ligeira vantagem para Sarkozy tendo em conta o que estava em jogo neste debate.
Mas mais importante – na minha óptica – é continuar a seguir a tal “infalível” sondagem divulgada diariamente pelo Financial Times.
Hoje, a 3 dias da votação, esta sondagem dá uma subida nas intenções de voto em Sarkozy: 53,5% contra 46,5% para Segolene.
Importa notar, no entanto, que esta previsão não tem ainda em conta os possíveis efeitos do debate de ontem à noite.
Mas devo admitir que não haverá grande alteração, mesmo após a introdução desse factor.
Sendo assim, os dados parecem lançados, a França deverá ter mais um Presidente do sexo masculino.
Será que Tonibler tem mesmo razão? Começo a levar muito em conta os seus sagazes comentários...

quarta-feira, 2 de maio de 2007

"A mulher do chapéu de chuva"

Volta e não volta sou confrontado com pedidos de ajuda por parte de algumas pessoas que se sentem prejudicadas pelas radiações electromagnéticas. As razões prendem-se com pareceres que já tive oportunidade de elaborar e, até, de um projecto de resolução apresentado sobre o assunto na anterior legislatura.
Os efeitos na saúde têm sido objecto de vários relatórios, uns apontando para efeitos perniciosos, outros nem por isso. De qualquer modo existe evidência de algum perigo, nomeadamente nas crianças, caso de um ligeiro risco acrescido de certas formas de leucemia, por exemplo.
A polémica tem os seus altos e baixos. Veja-se o caso recente de terem sido apontadas como responsáveis pelo estranho desaparecimento das abelhas com consequências ecológicas difíceis de quantificar.
Perante esta situação, as atitudes das pessoas poderão classificar-se em quatro grupos: as que não manifestam qualquer interesse ou preocupação, as que tentam estudar o problema e contribuir para a minimização de eventuais impactos, as que negam quaisquer efeitos negativos e um quarto grupo que, embora pequeno, apresenta manifestações comportamentais muito sérias.
A propósito das radiações, e de certos comportamentos, recordei-me de um episódio ocorrido há muitos anos.
Nos meus tempos de estudante o local de trabalho favorito eram os cafés. O meu café de estudo preferido era o Café Sofia, situado na rua com o mesmo nome. Rua central e muito movimentada. Com o tempo acabámos por conhecer muitas pessoas. Uma delas era uma senhora de idade, baixa, meio-obesa, não arranjada, cabelos desgrenhados e que usava invariavelmente um chapéu de chuva fizesse chuva, fizesse sol, fosse dia ou fosse noite. Ao princípio, justifiquei o seu comportamento com algum tipo de cuidado especial, mas, rapidamente, concluí que a senhora não era boa da cabeça. Não incomodava ninguém. Tinha os seus hábitos e um horário certinho, acabando por entrar na sua habitação, instalada num dos velhos colégios da rua, através de umas escadas escuras e íngremes. Era conhecida pela “mulher do chapéu”. Ninguém sabia o seu nome nem nunca lhe tinham ouvido a sua voz.
Passados uns anos, e na qualidade de jovem médico interno, encontrava-me no serviço de urgência dos velhos HUC. A primeira sala, verdadeira sala de choque, era reservada aos mais novos, os quais tinham que fazer a triagem. A noite já ia um pouco avançada, quando de repente entra a “mulher de chapéu” muito agitada e ofegante. Conhecia-a de imediato. Olhando para o seu estado pensei que poderia estar perante um problema respiratório ou cardíaco grave e comecei a interrogá-la nesse sentido. Perguntei-lhe se tinha falta de ar ou dores no peito. Respondeu-me que não. – Mas o que é que a senhora sente? Olhava para todos os lados com um ar muito ansioso mas não respondia. Repeti-lhe mais do que uma vez a pergunta, tentando chamar a atenção, até que me disse, muito baixinho: - São os russos! – São o quê?! – São os russos, senhor doutor! – Andam atrás de mim e lançam radiações sobre a minha cabeça. Querem matar-me!– Mas eu protejo-me. – Mas como é que a senhora se protege? – Com o meu chapéu, claro! Foi então que comecei a deslindar o mistério do chapéu de chuva. – A senhora usa sempre o chapéu de chuva? – Claro! – Mas em casa não o usa, pois não? – Uso pois! Então não sabe que os russos vivem por cima de mim? – Mas a senhora não traz o chapéu! – Pois não, roubaram-mo, e foram os russos! Neste ponto a agitação acentuou-se e o delírio tornou-se mais do que evidente, o que me levou a chamar o psiquiatra de serviço que, muito contrafeito e com a arrogância típica de um sénior incomodado por um novato, lá a levou para a última sala, a do fundo, a da psiquiatria, onde a examinou e fez a terapêutica injectável apropriada à situação. Passado alguma tempo, ao sair, sem abrandar o passo, e sem me olhar, disse-me entre os dentes que a senhora ia dormir umas horas e depois poderia ir para casa. A minha vontade foi mandá-lo à outra banda.
Pela madrugada, felizmente calma, com os colegas a dormirem em posições muito pouco ortodoxas, encontrava-me na sala de entrada, reclinado numa cadeira, sem dormir, porque se dormisse durante a noite, ao acordar sentia um embrutecimento mental que me impedia de raciocinar. Assim, preferia não dormir e manter uma lucidez suficiente, evitando fazer asneiras. Eis que, subitamente, me aparece a “mulher do chapéu” visivelmente mais calma a olhar para mim. – Então, está melhor? Vai para casa? A senhora olhava para a porta, especada e disse-me: - Eu ia, mas... Foi então que tive uma ideia. Como tinha o carro estacionado muito perto da entrada das urgências, levantei-me e fui buscar um chapéu de chuva que guardava sempre no porta-bagagens. Em menos de um minuto ofereci-lhe o meu chapéu. Os olhos dela riram-se e comentou: - Agora sim, estou salva, posso ir para casa. Os malditos russos já não me podem fazer mal! E foi-se embora.
Durante algum tempo, e apesar de já não frequentar o meu café de estudante, ainda tive oportunidade de a ver, algumas vezes, na rua da Sofia com o meu chapéu de chuva.

Testemunho

Não conheço pessoalmente o Professor Carmona Rodrigues, e apesar de já termos estado bastante próximos em cerimónias institucionais, nunca fomos apresentados, nunca falámos e creio mesmo que nunca nos cumprimentámos, nem protocolarmente, nunca me fez qualquer favor, nunca lhe fiz qualquer favor, somo-nos perfeitamente indiferentes a nível pessoal. Conheço pois o Presidente da Câmara de Lisboa quase da mesma maneira como a maioria dos portugueses o conhece.
De há uns dias a esta parte, e como de há muito se especulava, a comunicação social vem noticiando a sua condição de arguído.
Não o conhecendo, como disse, tinha-o por uma pessoa de bem e, também por isso, votei nele para a Câmara Municipal.
Tinha-o como pessoa de bem e continuo a considerá-lo como pessoa de bem. Sei que quem vê caras não vê corações, mas continuo a pensar que aquele rosto não me engana. Aquela cara parece-me a cara de um sujeito honesto, com vontade de servir a população de Lisboa e não de se servir dela.
Sem mais qualquer dado, aqui fica, no entanto, o meu testemunho e os votos de que tudo se possa esclarecer, no imediato ou no muito curto prazo. E, se se considerar inocente, pois que tenha força para resistir!...

Eleições em França: recta final (e Madeira também)

Estamos a 4 dias da 2ª volta das eleições presidenciais em França.
Hoje, o “infalível” barómetro do F. Times aponta para o seguinte resultado:

Sarkozy 53% --- Segolene 47%

É curioso notar que esta diferença já foi mais ampla e mais curta.
Mais ampla, logo no dia a seguir à 1ª volta, quando se cifrava em 8 pontos (54-46)
Mais curta há dois dias, estava em 5 pontos (52,5-47,5).
Hoje terá lugar o grande debate televisivo entre os dois candidatos, que tudo ou nada pode decidir – se for favorável a Sarkozy a questão pode parecer arrumada, se for favorável a Segolene, tudo pode ficar em aberto.
Esse debate deverá ser visto por cerca de 20 milhões de franceses, reveste-se de grande importância.
Segolene lá tem continuado com a sua campanha de conquista de votos ao centro, usando até ao limite esse grande trunfo que é o seu belo sorriso e a sua inquestionável elegância feminina.
Sarkozy parecia ter perdido terreno na semana passada, esta parece estar a correr-lhe um pouco melhor.
O debate de ideias tem sido pobre, como era de esperar. Os dois candidatos têm procurado sobretudo conquistar os 5,8 milhões de votos deixados sem testamento pelo 3º classificado da 1ª volta, o centrista Bayrou.
Segolene bem tentou conquistar o coração de Bayrou, mas este parece não se ter deixado seduzir pelos encantos da formosa candidata...
Sarkozy também tem procurado pescar nas águas de Bayrou, seu semi-aliado político, mas igualmente com pouco/nenhum sucesso.
Já Le Pen pediu ontem aos seus apoiantes que se abstivessem nesta votação. O homem é mesmo cioso dos seus votos, não os quer endossar a mais ninguém.
Aguardemos pelo resultado do debate desta noite, para podermos emitir amanhã um prognóstico mais fácil...ou mais difícil.
Quase em nota de pé de página, recordo que no próximo Domingo também haverá eleições para o Parlamento da Madeira.
Aí, a campanha eleitoral tem sido bastante mais animada, com piropos para todos os gostos...
Interessante a ausência do 1º Ministro, também Secretário Geral do PS, de qualquer acção de campanha. Será porque está convencido de que não vale a pena, preferindo não arriscar o seu capital político?

terça-feira, 1 de maio de 2007

De novo, métodos da inquisição III

O nosso ilustre comentador just-in-time, comentando o meu post De novo, os métodos da InquisiçãoII, lançou o desafio de ordenar por grau de probabilidade as oito naturezas de denúncias que João Miranda elencou no Blasfémias, no texto intitulado A denúncia ao serviço da corrupção.
Pois, na minha opinião, o vencedor destacado será o funcionário corrupto que denuncia funcionário honesto a autoridade corrupta, já que a melhor defesa é o ataque e a retaguarda está assegurada.
Em segundo lugar, virá o funcionário corrupto que denuncia funcionário honesto a autoridade honesta, porque lançar suspeitas sobre outros afasta que sejam lançadas sobre si.
Em terceiro lugar, estará o funcionário corrupto que denuncia funcionário corrupto a autoridade honesta, mas tal só acontecerá em desespero de causa, porque os corruptos não se atacam.
Em último dos últimos lugares, e só como mera hipótese teórica, virá o funcionário corrupto que denuncia funcionário corrupto a autoridade corrupta. Esta situação, mais que uma improbabilidade, é mesmo uma impossibilidade. Ninguém atenta assim contra a sua vida.
Concluo, pois, que a delação superiormente oficializada apenas vai piorar a situação.
À partida, os malandros defender-se-ão, acusando os honestos; no fim, na confusão, já ninguém distinguirá uns dos outros!...

Os debates semanais...

Julgo que já terá sido formalizada – pelo CDS/PP – uma proposta de reforma da Assembleia da República no sentido de rever a periodicidade da presença do primeiro ministro no Parlamento. Isto para responder às perguntas dos deputados, passando o actual regime de "debate mensal" para uma versão semanal.
No último debate mensal José Sócrates referiu estar "muito disponível para, entre todos os partidos, se conseguir um novo método de debate e avaliação do governo". Qualquer que seja o método, o que se me afigura de inquestionável relevância é a qualidade da prestação, que não se decreta, pratica-se. Elevar a qualidade dos debates, dignificando-os, passa evidentemente pela capacidade do governo, dos partidos que o apoiam e da oposição.
Creio que todos desejamos – é legítimo que assim seja – que as interpelações ao governo sejam mais esclarecedoras, mais construtivas, em ambiente sereno e respeitador, num tom elevado e cordial, numa atitude positiva; atributos que não raras vezes se perdem num manto acusatório, do disse que não disse, do apelo à "defesa da honra", dando lugar a espectáculos que não se vê como possam ser úteis, mais parecendo cenas "virtuais".
O que eu não estou é assim tão certa que uma maior permanência do primeiro ministro no Parlamento, só por si, seja suficiente para induzir credibilidade e prestigio à função deste órgão de soberania, o que considero fundamental.

Cibercondria

Uma pessoa amiga foi comprar um novo teclado para o computador e lá vinha um aviso em letras gigantes: “Não nos responsabilizamos por danos físicos resultantes do uso do teclado” ou qualquer coisa parecida que alertava para a ameaça das tendinites. Ou seja, escreva, mas se ficar doente é lá consigo!
Quando se compra um maço de cigarros, lá vêem as letras garrafais, absolutamente sinistras, capazes de, só por si, provocar as mais graves doenças. Se compramos uma coca cola ou pacote de batatas fritas (comprávamos! agora quem é que se atreve?) lá está toda a informação capaz de estragar a gula mais empedernida.
Dizem agora no Prós e Contra que os cereais, esses salvadores dos comedores de pão com manteiga e da saudosa meia de leite, afinal fazem mal, provocam diabetes. Mas o café com leite também não dá grande saúde, parece que não liga bem. E a manteiga, pecado, o que faz mal não é o pão...se não tiver muito sal.
A hipertensão é hereditária, o cancro também, pelo menos de alguns já se sabe, a carne vermelha não, mais vale a branca, alto, os frangos é só hormonas, e se formos vegetarianos? Cuidado, olha os desequilíbrios das proteínas, e as anorexias. Os açúcares dão cabo dos dentes, tome leite com cálcio, cuidado com o cálcio a mais, não fale ao telemóvel, só mesmo se a decisão for sua, não há a certeza de provocar cancro. Informe-se. Informe-se, só não sabe quem não quer, responsabilize-se, está nas suas mãos, depois não diga que não avisámos, já viu a que aconteceu a..e ao… e se viveu sentado, e se correu demais, ai tens stress, vais ter um lindo fim, ai não tens, és desinteressado, ou estás deprimido?
Falei hoje com uma pessoa que anda há um mês em pânico, a fazer exames médicos porque fez 50 anos. Uma prática saudável, disse-me, e é verdade. Mas, para além de recuperar dos exames, vai ter que fazer ginástica, dieta, descansar, não se irritar, não fumar, tudo coisas que não pode ou não se sente com coragem para fazer. Em alternativa, ganhou pavor de ficar doente, caso não faça. Está obcecado.
A minha mãe deu-me um chocolate, “lembrei-me que é o teu preferido”, e eu quase achei um acto de agressão, agora está ali a tentar-me e eu a ver o programa da obesidade…
O El País desta semana tem um artigo, “La Cibercondria arrasa” onde fala da psicose da doenças, referindo que os médicos deixaram de ser a principal fonte de informação sanitária para dar esse lugar à Internet, mas que o Presidente da Sociedade Espanhola de Medicina Psicossomática avisa: “O excesso de informação gera intranquilidade e infelicidade”.
Prof. Massano, por favor não me excomungue!, os seus conselhos são amigos, esclarecidos e sensatos, o que nos mata é esta publicidade/informação enlouquecida que nos anula qualquer gesto para alimentar a família…

De novo, métodos da inquisição II

A questão da delação a que aludi no meu post de ontem, De novo, métodos da Inquisição, tem merecido atenção da blogosfera.
João Miranda, por exemplo, escreveu no Blasfémias um brilhante texto sobre o tema. Aí vai :

Num caso de denúncia na função pública existem 8 possibilidades:
1. funcionário honesto denuncia funcionário corrupto a autoridade honesta.
2. funcionário honesto denuncia funcionário honesto a autoridade honesta.
3. funcionário honesto denuncia funcionário corrupto a autoridade corrupta.
4. funcionário honesto denuncia funcionário honesto a autoridade corrupta.
5. funcionário corrupto denuncia funcionário corrupto a autoridade honesta.
6. funcionário corrupto denuncia funcionário honesto a autoridade honesta.
7. funcionário corrupto denuncia funcionário corrupto a autoridade corrupta.
8. funcionário corrupto denuncia funcionário honesto a autoridade corrupta.

No fim, ainda é o funcionário honesto que acaba por pagar as favas!...