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sábado, 16 de fevereiro de 2008

Natalidade: sabemos o que queremos?

O assunto é recorrente nas reflexões que tenho partilhado no 4R, a última das quais em Janeiro passado (ler mais aqui), porque se trata realmente de um tema importante, que diz respeito a todos e que a todos deveria interessar. Refiro-me à natalidade.
No plano político o assunto da natalidade é recorrente mas não propriamente pelas melhores razões. Explico-me.
O primeiro-ministro anunciou esta semana no debate quinzenal mais uma medida dita de “apoio à natalidade”, concretamente um programa de investimento em creches, especificamente dirigido às áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, e referiu que “o apoio à infância representa uma área fundamental para a política social. Por várias razões. (…) Em terceiro lugar, é um meio eficaz de incentivar a natalidade, assim contribuindo para a superação do problema demográfico”.
A verdade é que esta iniciativa e outras anteriormente tomadas apelidadas de “apoio à natalidade”, sendo positivas, são medidas que se inserem numa abordagem social e não constituem um incentivo à natalidade. Com efeito, a introdução de uma prestação social para grávidas a partir dos seis meses e o aumento da prestação do abono de família a partir do segundo filho durante o 2º e o 3º anos de vida das crianças, em função do rendimento das famílias, são medidas de apoio social, com uma função redistributiva que se destina a ajudar as famílias mais pobres. Ou o alargamento da prestação do abono de família às familias de imigrantes, reconhecendo-se nesta medida uma preocupação de equidade social.
Recorrentemente são anunciadas pelo governo medidas rotuladas de “natalícias”, mas que verdadeiramente não o são, antes integrando o universo das políticas sociais.
Mas recorrentemente, continua a faltar uma política de natalidade que terá que estar, a meu ver, muito virada para questões que se prendem com a repartição do tempo entre a família e o trabalho, com a articulação entre a maternidade e a carreira profissional, com as opções de escolha dos pais no tipo de acompanhamento a dar aos filhos nos primeiros anos de vida, com o acesso facilitado aos infantários e às escolas e aos cuidados de saúde (custos, localização, horários, fiscalidade, etc.) e com o acesso a novas formas de trabalho (organização, flexibilidade de horários, etc.).
O tema da natalidade é demasiado sério para não justificar uma discussão alargada envolvendo toda a sociedade. É um daqueles temas em que a sociedade portuguesa necessita de assumir determinadas opções, muitas delas com impactos em importantes domínios como a organização da vida familiar e a organização do trabalho.
Veja-se o esforço que está a ser feito na Alemanha para mudar a sensibilidade social sobre os filhos, com origem na sociedade civil e a contribuição da comunicação social. "Precisamos de mais crianças" diz a Alemanha. Iniciou-se em Dezembro passado uma campanha que passa pela publicação até Maio próximo em toda a imprensa alemã de um conjunto de anúncios para fomentar uma mudança de clima mental que consiga uma maior aceitação das crianças na sociedade alemã. Além dos anúncios impressos, todos os dias pelas 20h surge um spot de dois minutos de duração nas televisões mais importantes do país (clicar aqui, para ver um dos spots).

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Dados económicos: Coro dos Disparates

Tornou-se norma: cada vez que são divulgados dados estatísticos sobre a actividade/inactividade económica em Portugal, estamos condenados a ouvir/ler/ver o espectáculo indecoroso de uma colectânea de despautérios provenientes das diferentes formações políticas, Governo e Oposições.
A semana que agora termina terá sido das mais férteis nesta matéria:
- Desde as histriónicas declarações do PM, já devidamente assinaladas na muito bem elaborada exegese de Pinho Cardão;
- Às obtusas considerações de um porta-voz da maioria que não se percebe porque motivo é escalado para tão humilhante tarefa;
- Até ao exuberante cortejo de mal-dizer dos vários – todos - representantes altamente qualificados dos Partidos com assento parlamentar, cada qual levando ao limite da sua imaginação o uso de palavras diferentes para dizerem todos a mesma coisa.
Estavam em causa:
- O magnífico crescimento de 1,9% do PIB (ninguém na Oposição se lembrou de referir como variou o PNB, curiosamente…), que ainda nem é dado final, estando sujeito a correcções;
- E a subida para uns, descida para outros, da taxa de desemprego em 2008, celebrada pelo Governo como sinal positivo (com 8% estamos acima da EU e da Zona Euro, pelo menos neste indicador, nem tudo é mau…) e desancada por outros, os da Oposição, acusando o Governo por não fazer mais…certamente acham que ainda é pouco…
Ninguém se lembrou – provavelmente estariam exaustos, depois do esforço oratório da véspera – de comentar a subida da inflação hoje divulgada, que em Janeiro atingiu 2,9%, valor totalmente incompreensível face aos prometidos, garantidos e inexoráveis 2,1% para o registo de 2008.
Mas seria importante que suas Excelências se pronunciassem sobre esta pungente novidade das estatísticas nacionais, até porque se atrevem a por em causa um objectivo que adquiriu contornos dogmáticos, para nossa felicidade colectiva.
É bem provável que os aparelhos de medida dos preços tenham de ser substituídos face a este inaceitável desvio da mais sã ortodoxia anti-inflacionista assumida em Portugal.
Mas talvez até seja melhor não dizerem mais nada…o Coro dos Disparates de ontem já foi suficiente!

Demagogia da mais degradante!...

Usando as próprias palavras do INE, “para o conjunto do ano de 2007, o PIB aumentou 1,9% em volume”.
Foi este "facto" que Sócrates ontem demoradamente referiu, salientando o enorme mérito do governo no significativo crescimento da economia: 1,9%, repetiu várias vezes. Com mérito ou sem mérito do Governo, o PIB cresceu e isso é boa notícia.
Também usando as próprias palavras do INE, “em 2007, a taxa de desemprego foi de 8%...". A população desempregada atingiu o maior volume de sempre, 448,6 milhares, contra 427,8 milhares em 2006, mais 4,9%, e em acréscimo percentual sobre os 7,7% de 2006, mais 3%.
Em coerência com as palavras de ontem sobre o PIB, que cresceu em volume 1,9% em relação ao ano anterior, e se tivesse uma atitude de seriedade, Sócrates deveria ter enfatizado que a população desempregada cresceu em volume 4,9% em relação ao ano anterior.
Mas não. Sócrates, iludindo a questão global, veio falar das variações trimestrais que lhe convinham, daí concluindo a diminuição do desemprego. Foi demagogo, tanto mais que se sabe que, e também usando as próprias palavras do INE, “ a taxa de variação anual é menos sensível (do que as taxas trimestrais) a alterações esporádicas na variável”. Aliás, o Ministro Vieira da Silva, enveredou pela mesma demonstração, nada séria, demagógica e mistificadora, que brinca com um dos maiores flagelos, o desemprego de muitos portugueses.
O Governo ganharia credibilidade se salientasse as dificuldades por que passamos, apesar das medidas tomadas. Ao pretender ser o exclusivo responsável pela retoma, vai acabar por ser o único réu pelas dificuldades globais da economia portuguesa. Injustamente, num caso e noutro, pois a evolução económica não é assim tão directamente condicionada, como por vezes se pensa e diz.
Também as Oposições, e nomeadamente o PSD, não estiveram melhor do que Sócrates. Ao modo como desvalorizaram o crescimento de 1,9% e como, simultaneamente, brandiram a “vingança” do crescimento do desemprego, só lhes faltou referir da sua alegria com a situação.
Nem sempre o quanto pior melhor, mesmo para uma Oposição com um mínimo de dignidade. E nunca para os portugueses.

Instantâneos do esqui!...

A meio de uma pista fácil, um snow-border impulsivo faz umas habilidades pouco sucedidas e cai mal. Alguns param para ver e prestar assistência. Na conversa, diz um monitor para um sujeito idoso, bem ataviado e aprumado como poucos:
- Há gente que anda sempre no chão. Ando consigo há vinte anos e nunca o vi cair aqui, Monsieur Michel!...
- Vinte anos é obra, disse eu, intrometendo-me na conversa. Monsieur Michel talvez caia às escondidas!...
-Não, diz Monsieur Michel. Com a minha idade, tenho que me proteger. Sabe, são já 97 anos!...
-97 anos? Notável!...Parabéns. Não parece nada, pelo aspecto e pelo seu modo de esquiar, que é verdadeiramente distinto!...
-Obrigado, mas não é de admirar, pois faço esqui desde 1920, há oitenta e oito anos!...Vivo em Genève e todos os fins de semana aqui estou em Megéve, com o meu amigo Philippe, um assistente fiel. Assisti à inauguração dos primeiros meios mecânicos aqui em Megève.
-Então e só vem ao fim de semana?
-Pois, realmente é pouco, mas aos outros dias tenho que trabalhar!...
Seguiu-se, obviamente, risada geral!...
- Não é bem assim, diz o monitor. Também continua a jogar golf uma ou duas manhãs por semana.
-Podia ser mais, de facto, diz Monsieur Michel, mas também continuo a gostar muito de trabalhar!...
Monsieur Michel, ao que soube, próspero comerciante de Genève, 97 anos, ali para as curvas. Doseando sabiamente trabalho e diversão!...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Dia de S.Valentim

Por muito que se diga que é mais um produto comercial, e é sem dúvida, o Dia de S. Valentim instalou-se por completo e enreda-nos neste novo ritual. É claro que é muito atraente lembrarmo-nos das pessoas de quem gostamos ou ter um sinalzinho de que alguém gosta, ou continua a gostar, de nós, por isso era difícil resistir a este tema. Daí a profusão de coraçõezinhos, bombons, flores, mensagens e mil e uma outra sugestão a condizer, para celebrar o amor ou a amizade, e é muito interessante verificar que, ao menos neste dia, as pessoas vão tendo menos pudor de dizer aquelas palavras que aquecem o coração e que podiam ser ditas só porque sim, de vez em quando, como um carinho ou um sorriso.
No entanto, valha-nos S. Valentim!, os indicadores sociais do INE de 2006 dizem que a idade média para o casamento subiu 2 anos (29,1 para os homens e 27,5 para as mulheres), que o número de casamentos diminuiu 24,9% e que 47,1% das famílias são constituídas por uma ou duas pessoas (42% no anos 2000). É caso para perguntar o que seria se não houvesse sequer um dia para lembrar as devoções do amor...
Não nos podemos também esquecer, apesar da diferente natureza do sentimento, que a amizade também está incluída neste “pacote” do dia 14 de Fevereiro e que, embora não tenha honras de estatísticas, é essencial para a harmonia e felicidade na vida de cada um.
Por isso, meus amigos, se não podemos ir contra ele, juntemo-nos a ele, aqui vai um grande abraço neste dia de S. Valentim, só para dizer como é importante a vossa amizade!

Mais impostos...e siga o baile!...

Depois da Espanha, é agora o Governo Federal dos Estados Unidos que decidiu um reembolso de impostos, como forma de dinamizar o investimento e a economia.
O Governo português, como a economia está realmente florescente, esportula-nos, para o Estado gastar por nós, nem se sabe bem em quê, mais umas larguíssimas centenas de milhões de euros.
Verifica-se que as teorias económicas que o 4R tem vindo a sustentar são bem aceites e postas em prática por um governo liberal e por um governo socialista!... Naturalmente, sem qualquer sustentação fundamentada, pois claro!...
Nós, por cá, é que somos bons!... Mais impostos e siga o baile!...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Instantâneos do esqui!...

Ao fim da tarde, aprontava-me para tirar os esquis e dirigir-me á cabana onde se guarda o equipamento até ao dia seguinte.
Enquanto vou trocando umas palavras com um dos companheiros de aventuras, pára junto a nós um sujeito tipo Omar Shariff dos seus bons tempos, impecavelmente trajado, mas com ar distante e enfastiado. Num ápice, é rodeado por sujeitos novos, que logo vimos serem seus criados. Enquanto o nosso Omar se apoia num deles, o outro pisa a engrenagem dos esquis, de forma a poder retirá-los um após o outro. O Omar estende então uma perna e um dos criados retira-lhe a bota de esqui, enquanto o outro lhe ajeita a bota de passeio para calçar. Põe seguidamente um joelho em terra, isto é, na neve, e ata-lhe os atacadores com a presteza de quem mete combustível num carro de fórmula 1. O mesmo com a outra bota. O nosso herói segue aliviado rumo ao teleférico que o leva à cidade. Os criados dirigem-se ao armário para guardar os utensílios.
Nem na neve somos iguais!...

Pão sobe mais 15%: que felizes somos!

Notícia de cabeçalho em vários diários esta manhã, o anúncio de mais esta subida no preço do pão.
Frequentador diário de várias modalidades de transporte público, ouvi já hoje agrestes comentários de leitores menos conformados, exprimindo sua indignação por esta “subida” (aparente, pelo menos) do custo de vida.
Este episódio faz-me pensar na ingratidão de alguns concidadãos que ainda não terão percebido bem que, qualquer que seja a subida dos preços, temos felizmente garantia de que a inflação nunca ultrapassará 2,1%...em 2008.
Assim, esta subida do pão é irrelevante para o poder de compra dos cidadãos, uma vez que este depende da evolução relativa da inflação e do rendimento disponível. E se quanto à primeira podemos dormir descansados porque o respectivo valor está devidamente fixado, também existem muito boas perspectivas de aumento do rendimento disponível, uma vez que (i) temos garantido um crescimento (de estaca) do PIB de 2,2% ; (ii) sabemos que as taxas de juro irão baixar.
E convém ainda lembrar que os impostos não vão subir – até se sabe que em cerca de duas dezenas de concelhos do País o IRS irá baixar.
Mostra-se de todo o interesse a promoção de campanhas de esclarecimento das populações, para que os cidadãos percebam melhor estes benefícios que temos vindo a acumular. Aqui está uma missão certamente gratificante - e de alto valor acrescentado - para o marketing oficial que às vezes se entrem em cousas menores...
Que felizes somos!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

A falta que nos faz a "educação"...

O Banco Central Europeu (BCE) publicou o mês passado um estudo assinado por António Afonso – economista principal no BCE – que examina o papel e a eficiência das políticas de despesa pública na afectação da distribuição do rendimento.
O estudo conclui que em Portugal são elevados os gastos sociais e fracos os resultados na redução das desigualdades sociais. Com efeito, refere o estudo que 25% dos gastos sociais feitos pelo Estado não têm qualquer impacto ao nível da redução das desigualdades. São dados que ilustram os fenómenos que temos vindo a registar, quer no que se refere ao alargamento do fosso entre o rendimento dos mais riscos e o rendimento dos mais pobres, quer no que respeita ao elevado nível de pobreza que persiste em manter-se no País.
O estudo coloca no centro das explicações para uma tal ineficiência não o Estado mas antes factores mais abrangentes como os níveis existentes de riqueza e de educação. Ou seja, os baixos níveis de rendimento per capita e de educação da população são entraves na eficiência dos próprios gastos públicos na redução das desigualdades sociais.
Segundo o estudo, se Portugal estivesse na média das economias estudadas (OCDE) em relação ao rendimento per capita e aos resultados escolares, o actual nível de despesa social resultaria numa redução de 15% do nível de desigualdade existente. Estamos, portanto, numa situação, há muito apontada, em que gastamos muito e temos poucos resultados e que manifesatamente temos dificuldades em inverter.
Uma conclusão importante pode ser retirada (e reiterada), é que o País está a pagar muito caro o fraco nível educacional e o baixo nível de qualificações da população. O défice de qualificações dos portugueses constitui uma importante barreira ao desenvolvimento. A assimetria de informação e a assimetria de conhecimento constituem graves consequências e desvantagens num mundo em que a competição se faz globalmente.
É por isso que o investimento na educação deve ser assumido como um desígnio nacional e não menos importante é o grau de exigência que é imperioso colocar nos meios e nos resultados. Estivemos décadas a fazer “reformas”, mas não fomos capazes de instituir um modelo de ensino à altura das exigências de uma economia moderna e aberta. Estamos e vamos continuar a pagar o preço desta nossa incompetência!

Novo atravessamento do Tejo em Lisboa

A imagem abaixo (clicar para ampliar) representa as soluções de novo atravessamento do Tejo, em tunel ou viaduto, apresentadas hoje, que Mário Lino mandou o LNEC estudar.
Para além da CIP, apresentaram também os seus projectos, entre outros, a Fundação Berardo, a Associação dos Bombeiros Voluntários de Baião, a Federação Nacional de Ténis de Mesa e a Confraria da Carne Barrosã.
Por dificuldades de representação, omitem-se outras propostas também hoje apresentadas e que o LNEC igualmente analisará, destacando-se uma que aposta num vai-vém em balão e outra baseada num engenhoso sistema tipo funicular.
O Governo espera, para amanhã, a entrega de mais 32 propostas.


Oh céus!...PSD e PCP, a mesma luta!...

Segundo jornais de hoje, o dirigente social-democrata Rui Gomes da Silva afirmou que “o PSD só aceita a revisão do Código do Trabalho, no que respeita à flexibilização das normas laborais, se isso não conduzir a um aumento do desemprego”.
Ora aí está mais uma grandiosa frase sem qualquer sentido.
Por um lado, porque condiciona a revisão a um facto inverificável, se ela não se realizar.
Por outro lado, porque parte da ideia, há muito fossilizada, de que é a rigidez das normas laborais que promove o emprego.
E eu a pensar que era o desenvolvimento da economia!...
Bom, com tais comédias alternativas, Sócrates nunca mais vai largar o palco!...

Dia de Darwin


Faz hoje 199 anos que nasceu um dos homens mais brilhantes e que condicionou a forma de pensar à escala planetária, Charles Darwin.

- Eu não quero ir...

Hoje, “Dia por uma Internet mais Segura”, ouvi uma notícia sobre os riscos que correm jovens e crianças, numa percentagem significativa, variável de acordo com o país, devido ao mau uso da maior revolução tecnológica dos últimos tempos. A compra virtual de mobiliários, por exemplo, associada à segunda personalidade, tem originado problemas graves. Não sabia que era possível comprar uma peça de mobiliário por um euro e que havia já roubos das peças! Para muitos começa a ser difícil separar o mundo real do mundo virtual.
Associada a esta nova realidade, tive a oportunidade de ler um artigo de um autor que se dedica a aspectos científicos menos comuns, tentando penetrar no mundo dos físicos. Tenho uma grande admiração por estas individualidades, mas reconheço as minhas limitações ao tentar compreendê-los. Vou até onde posso e a mais não sou obrigado. Diz o autor que lá para as bandas da fronteira franco-suíça há um acelerador de partículas, denominado LHC (Large Hadron Collider) que poderá criar situações tipo “máquina do tempo”, permitindo que apareça, sabe-se lá o quê, algo vindo do futuro! Mas, também, há uns anos alguém calculou que o tal aparelho poderia criar um pequeno buraco negro, o qual, por sua vez, começaria a engolir a vizinhança, neste caso a Suíça, e depois o resto do planeta! Isto para não falar da criação de uma estranha partícula a qual seria uma espécie de glutão que engoliria o nosso Universo. Sim senhor, um buraquito negro e um glutão especial e, zás, todos os problemas seriam resolvidos à escala universal! Também me chamou a atenção a “probabilidade, e não a possibilidade” da existência de universos paralelos, onde a uma distância do género 10 elevado a 10, por sua vez a 10 e depois elevado a 100 anos luz - não sei onde fica esse universo -, possa estar neste momento a minha “réplica” a escrever qualquer coisa semelhante num computador mas, provavelmente, agora sou eu a especular, mais legível e menos estúpida. Por acaso até adoraria lê-lo. Na perspectiva do autor será que a criação de universos paralelos não estaria ao alcance de um qualquer jovem, vivendo numa dimensão superior, sentado no seu quarto, manipulando o seu computador?
Bom, no meio disto tudo, mundo real e mundo virtual, o que me seduz mais é a criação do tal buraquito negro. Engoliria por completo o planeta, começando pela neutral Suíça, e lá iríamos para um outro Universo. E se não déssemos bem para as novas bandas, criava-se mais um buraquito. Em última análise, sempre se podia recorrer ao tal glutão. Quanto à possibilidade de alguém do futuro poder entrar no nosso planeta não é preciso, nem desejável, porque já abundam por aí, aos molhos, pessoas muito estranhas. Se conseguíssemos despachá-los para “lá” seria um grande alívio para o planeta.
- Calma. Eu não quero ir…

BCE às "apalpadelas"

O BCE decidiu na última 5ª Feira, como se sabe e era esperado, deixar inalteradas as suas taxas de intervenção para cedência de fundos ao sistema bancário.
Na declaração do Presidente Trichet que anunciou essa decisão, foram no entanto detectadas diferenças sensíveis de terminologia em relação à declaração que no mês anterior justificara decisão de igual teor.
Na declaração de Fevereiro, Trichet omitiu várias passagens da anterior, as quais sinalizavam uma grande preocupação com a inflação, deixando aberta a possibilidade de um aumento próximo das taxas para conter intoleráveis “desvios” da inflação em relação à regra de ouro “não superior mas próxima de 2%”.
E também nesta última declaração Trichet acentuou a probabilidade de uma próxima e significativa redução em baixa da sua previsão de crescimento para a Zona Euro.
Tal bastou para que os mercados interpretassem essas alterações como sinal de que o BCE iria baixar as taxas em Abril...
Achei curioso este preciosismo de interpretação: ainda não seria na reunião de Março – que seria apenas preparatória (!!) – mas em Abril, sim em Abril, o BCE reduziria a sua taxa principal em 0,25%!
Este fim-de-semana, em Tóquio, onde participava numa reunião dos responsáveis financeiros do G7, Trichet procurou moderar os ânimos, emitindo declarações que parecem destinadas a contrariar a interpretação do mercado: disse, em suma, que na reunião da última 5ª Feira o BCE não tinha considerado qualquer cenário de descida das taxas...
E acrescentou que continuava a esperar um crescimento sustentado em 2008...
Torna-se difícil encontrar um fio condutor, com um mínimo de clareza, neste discurso...
O que continua a perceber-se é que o BCE não sabe o que fazer, perante um cenário em que se misturam:
- Pressões para a subida dos preços no consumidor, decorrentes de um encarecimento generalizado de matérias-primas;
- Perspectivas de abrandamento (significativo) da actividade económica na Zona Euro, induzidas sobretudo pela crise dos mercados financeiros e pelo quase certo abrandamento/recessão nos USA.
Neste cenário, o BCE parece andar às “apalpadelas”, para ver se encontra alguma saída...só espero que não venha a meter o pé nalgum buraco mais escondido (ou na poça, como também se diz)...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Padre António Vieira, um grande português


Comemoraram-se, em 6 de Fevereiro, os 400 anos do nascimento do Padre António Vieira, uma das figuras mais notáveis da história portuguesa: missionário, mestre da língua, diplomata. Foi um pioneiro da defesa dos direitos humanos, como agora se diz, pregando e promovendo acções contra a escravatura, a exploração dos índios do Brasil, ou as perseguições aos judeus. Criticou severamente a Inquisição e só por protecção papal conseguiu não ser condenado. É talvez o maior escritor português de todos os tempos.
Deixa-se um excerto do Sermão do Espírito Santo, pregado em São Luís do Maranhão, onde é admirável o ritmo, a acentuação, o movimento e a musicalidade do discurso, para não falar já na admirável alegoria de que se serve para sublimar a educação dos índios:
“…Vede o que faz em uma pedra a arte. Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe, e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama, e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar…”
E ainda outro, poderoso e actual como poucos, do Sermão de S. António aos Peixes:
"...O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem...Não é tudo isto verdade? Ainda mal!..."
As comemorações foram mínimas, para tão grande figura. O que atesta a nossa pequenez!...
A homenagem do Quarta República ao Padre António Vieira.

Mundial 2018 em Portugal e Espanha: Uma boa ideia!...

No final da semana passada, Gilberto Madaíl, Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, adiantou que iria conversar com o seu homólogo espanhol sobre a possibilidade de Portugal e Espanha em conjunto organizarem o Mundial de Futebol de 2018, o próximo a ser disputado na Europa (2010: África do Sul; 2014: Brasil).

Ora aqui está o que me parece ser uma boa ideia!... De facto,

· Estádios modernos e funcionais, já nós temos (foram construídos/remodelados para o Euro 2004); logo, há que rendibilizá-los;

· Até 2018 está previsto termos o novo aeroporto de Lisboa (no Campo de Tiro de Alcochete) a funcionar – e, mesmo que tal não sucedesse, como a organização do Mundial seria conjunta (o que é menos pesado do que uma organização a solo), a Portela chegaria bem para as temporárias “encomendas”, como se verificou aquando do Euro 2004;

· Também até 2018 está previsto que as linhas de alta velocidade (TGV) Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid estejam operacionais, o que facilitará a mobilidade,quer com o país vizinho, quer no nosso país.

· Está a surgir um pouco por todo o país – embora mais no litoral – um conjunto de unidades hoteleiras de boa qualidade que permitirá albergar, sem envergonhar ninguém, um conjunto mais alargado de turistas e visitantes (e, como o passado prova, o número de turistas/visitantes aumentou sempre nos anos de realização de grandes eventos – como a Expo 98 e o Euro 2004 – e, mais relevante, nos anos seguintes a esses eventos, essa base de turistas não regrediu, muito pelo contrário, continuou a crescer agora a partir de um patamar mais elevado).

Assim sendo, os investimentos necessários para este evento, ou já estão feitos, ou irão sê-lo, independentemente da sua realização. Não vejo, pois, por que não se poderá rendibilizá-los – e tornar Portugal ainda mais conhecido e receptor de turistas/visitantes. Ora, para isso, convenhamos que a organização conjunta do Mundial 2018 cairia como sopa no mel!...

Claro que ela não deve ser vista como uma prioridade para Portugal. Não. Prioritário é tornar o nosso país mais competitivo (e, logo, mais produtivo), actuando acertadamente ao nível da qualificação dos recursos humanos, da flexibilidade da legislação laboral, da desburocratização da Administração Pública e da Justiça, da fiscalidade (diminuição de taxas de impostos e simplificação do sistema fiscal), entre outras vertentes.

Mas, havendo uma boa oportunidade para colocar Portugal novamente nas bocas do mundo (pelas boas razões) e rendibilizar os investimentos que já estão realizados, ou que o irão ser, não vejo por que não aproveitá-la!...

Assim a Espanha colabore e a FIFA nos dê essa oportunidade – e todos ficaremos a ganhar.

PS – Situação diferente seria se tivéssemos que investir em estádios como foi feito para o Euro 2004. Foi aí que foi feito o erro. Agora, uma vez ele estando feito, não vejo por que não há-de ser rendibilizado o mais possível!... Não o fazer seria, em minha opinião, cometer um novo erro…

Justicialismo bacoco e ignorante

O Zé, o Vereador da Câmara de Lisboa que constitui o abono de família da minoria no poder na Autarquia, o mesmo que ninguém se atreve a responsabilizar pelos milhões de euros a mais que a sua intevervenção provocou nas obras do Túnel do Marquês e que todos nós temos de pagar por ele, veio denunciar mais um alegado escândalo. Desta feita, o escândalo da gestão que a Autarquia tem feito do património público que lhe está afecto, dando como exemplo a concessão do restaurante Eleven no cimo do Parque Eduardo VII.
Não faltou quem se aprestasse a cavalgar esta nova onda de demagogia, de entre políticos, cardeais e bispos da nova moral pública, frequentes presenças nas nossas rádios e televisões.
Só o gosto pelo escândalo permanente, caldeado com este nuclear sentimento de inveja que atravessa a sociedade, e uma gritante ignorância de alguns comentadores e pretensos fazedores de opinião, explica que nunca se retire outra consequência destas "denúncias" dos vários Zés que pululam pelas instituições e que assim vão fazendo pela vida.
Ao Zé de Lisboa, exigia-se que, em coerência com o que veio publicamente denunciar, levasse ao Executivo que integra uma proposta para reposição da moralidade e da justiça que entende afectadas.
Deveria o Zé saber que a lei reconhece à entidade pública concedente, neste caso ao Município de Lisboa, o direito de em qualquer momento por termo à concessão (Cfr. art. 29º do DL nº 280/2007, de 7 de Agosto que veio positivar e sistematizar princípios e regras há muito assimiladas no direito português em matéria de direitos reais públicos). E que esse direito é para ser exercido, com a natureza de um verdadeiro dever, por aqueles que entendem que existe prejuizo e não vantagem na manutenção das afectações de bens públicos a entidades privadas .
Naturalmente que a lei (de um Estado de Direito) reconhece ao concedente o direito a ser ressarcido pelas perdas e danos sofridos, mas na justa e limitada medida em que estas correspondam "às despesas que ainda não estejam amortizadas e que representem investimentos em bens inseparáveis dos imóveis ocupados", e desde que da eventual separação desses bens resultem prejuizos ou deteriorações "desproporcionadas" (Cfr. Art. 29º/2).
Ora, se na senda do que apregoa do senhor Vereador, se diz que o negócio da atribuição da concessão foi um negócio irrazoável e mesmo ruinoso para o Município e altamente vantajoso para os concessionários que já deverão ter amortizado o investimento e lucrado amplamente com ele, sendo reversível, pode e deve então ser desfeito com todas as consequências(*).
E se, também como se diz, o investimento da concessionária foi irrisório e irrisória é a renda paga pela ocupação, então não há que temer a reversão do concessionado, uma vez que a indemnização, se a houver, não deverá aliviar em excesso o peso dos cofres do município...
Seria pois de esperar que um titular de cargo público com responsabilidades efectivas de gestão e sustentáculo político da minoria que governa a Cidade, tivesse a coragem de propor a extinção antecipada da concessão. E sentisse isso como um dever.
Porém, ou estou muito enganado ou então vai prevalecer como de costume este justicialismo bacoco e ignorante. Que confia na visceral inveja e na opinião ignota.
O Zé bem sabe o que lhe rende mais. Sendo que também sabe, de experiência feita, que além dos réditos pessoais e políticos que vai acumulando, ninguém aparecerá a pedir-lhe contas. O receio da represália na praça pública fala sempre mais alto...
_________
(*) Incluindo a consequência de jamais a Câmara conseguir captar a colaboração (e o investimento) de privados na prossecução de actividades ou criação de equipamentos em espaço público por via de licença ou concessão, uma vez que com grande probabilidade seriam poucos os que, no futuro, considerariam o município um parceiro credível e acima disso, confiável.

O grande remédio caseiro!...

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) do Reino Unido lançou uma campanha que tem como objectivo promover o sexo como remédio para várias doenças, nomeadamente para problemas cardíacos. Segundo os ingleses, as relações sexuais levam o organismo a produzir endorfinas, uma substância natural que tem efeitos benéficos na prevenção dos problemas do coração.
O sexo é ainda remédio para males da pele, dos músculos, dores de cabeça e constipações. Ah! E é um preventivo eficaz para a queda do cabelo!...
Ainda segundo o SNS de Sua Majestade, a solução está em casa, debaixo dos lençois!...
Não se esclarece se a casa tem que ser a própria ou pode ser a alheia, nem quais os comprovativos a apresentar para a subsdiação do remédio caseiro, dado não poder haver desigualdade de tratamento em relação às medicamentações alternativas.
Mas uma coisa é certa, meus amigos: uma alva careca, uns problemas de coração ou uma gripe das antigas são sinais exteriores claros de falta de tratamento, quer dizer, de uma abstinência bem prolongada!...

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Um retrato do mundo!...



Nas pistas de esqui, retrata-se o mundo.
Os que estão para trabalhar, os que vão para se divertir e os que se querem exibir.
Os audazes e os temerosos, os decididos e os indecisos, os prudentes e os loucos, os corajosos e os temerários.
Os que seguem sempre o traço dos monitores e os que adoram andar fora de toda a linha.
Os estetas, nas curvas harmoniosamente lançadas e os desajeitados, nas derrapagens forçadas.
Os tecnicistas nos volteios desenhados a primor e os trapalhões em rodeios toscos, ao deus dará.
As elegantes, cabelos ao vento, e vestidas pelo último figurino e os que gostam de esquiar, gorro bem repuxado, em busca de umas horas de felicidade.
Os bons e os que se julgam bons.
Os que transgridem as normas da arte, mas nunca caem e os que fazem tudo para cumprir as regras, mas acabam sempre estatelados.
Os que se julgam os donos exclusivos das pistas e os que só pedem a berma, onde possam correr sossegados.
Os que desafiam caminhos proibidos e os que nunca ousam sair das vias normalizadas.
Os que vão “fazer” esqui por uma questão de estatuto e os que fazem esqui por uma questão de prazer.
No ar puro da montanha, longe do ruído da informação, nos longos jantares em que uns contam ou inventam as peripécias do dia, a neve é sempre um tempo desejado!...

“Sem esperança, sem futuro”...

O dia a dia enche-nos com um tipo de informação muito própria. As pessoas contam-nos os seus problemas e procuram resolvê-los solicitando ajuda e orientação. Nunca na minha vida fui tão procurado para as ajudar, não em termos de saúde, que mantém a sua constância habitual, mas para arranjar um emprego ou uma colocação para os filhos. É medonho o desespero que emanam daquelas almas que se confrontam com a impossibilidade dos jovens conseguirem ter acesso ao mercado do trabalho e a uma estabilidade minimamente decente. Muitos, mas mesmo muitos, fizeram esforços gigantescos para propiciar aos filhos cursos que lhes garantissem uma vida melhor e, agora, vêem-se defraudados. Progenitores e filhos chegam a questionar se valeu a pena tirar um curso. A par desta situação muitas outras se levantam como o abandono do interior, a falta de recursos de vária ordem, em que a fome começa a imperar, contrastando com a obscenidade dos incentivos e regalias financeiras que alguns sobredotados ou “divinamente premiados” auferem neste pobre país. Sente-se uma tristeza profunda, um vazio colectivo, um quadro social de depressão a que se associa um sentimento comum de revolta que já não se esconde. Obviamente que os comentadores e fazedores de opinião da capital, vivendo num mundo à parte, não valorizam como preocupante, na medida em que confundem a sua realidade metropolitana, bem condimentada a todos os níveis, com o resto do miserável país. Mas olhem que não! E não fiquem de boca aberta de espanto pelas eventuais declarações rotuladas de “estapafúrdias”, por parte de alguns analistas, quando antevêem convulsões sociais. As brasas já estão quentes e é apenas uma questão de tempo para que se transformarem em chamas, a não ser que os descontentes abandonem o país. Alguns já começaram a sair, mas os que ficarem não poderão aguentar tamanhas desigualdades que crescem de ano para ano.
É chocante não poder evitar as lágrimas de dor e de incerteza de tantas pessoas que nos procuram. Sem esperança, sem futuro, não para elas, mas para os seus, o que dói ainda mais...

A "reforma" da música: porquê esta reforma?


Porque é que o governo quer acabar com os Conservatórios de Música? Porque é que o governo quer acabar com o Ensino especializado da Música? Porquê esta "reforma"?
É louvável que o governo queira introduzir nas escolas públicas do 1º ciclo do ensino básico a iniciação musical. É louvável o ensino da “música para todos”! Quer fazê-lo integrando a iniciação musical no novo regime de actividades educativas estabelecido para o 1º ciclo do ensino básico. O ministério da educação instituiu em 2006 as "Actividades de Enriquecimento Curricular" (AEC) nas escolas do 1º ciclo, alargando o seu horário de funcionamento até às 17h30. Com esta medida pretende o ministério da educação promover a escola integrada facultando às crianças actividades complementares à educação básica que enriqueçam as suas competências, designadamente actividades artísticas, físicas e desportivas e línguas estrangeiras.
Há muito que a iniciação musical deveria integrar os currículos do 1º ciclo, atentas a importância que é reconhecida à música no desenvolvimento harmonioso da criança e o papel que a música assume na formação cultural de qualquer pessoa.
Com a inclusão da iniciação musical nas escolas públicas do 1º ciclo nos moldes anunciados estaremos em presença de um regime de ensino colectivo, de uma formação genérica e certamente com uma carga horária diminuta, em contraposição ao ensino especializado da música que tem sido meritória e reconhecidamente assegurado pelos Conservatórios.
Com esta “reforma” o governo inviabiliza o ensino do 1º ciclo da música nos Conservatórios, impedindo o ensino especializado de oferecer um ensino de qualidade que visa o desenvolvimento da criança na idade ideal para o início da formação como instrumentista.
Com esta “reforma” os actuais e os futuros alunos dos seis aos nove anos, se quiserem continuar a contactar com a música, terão que frequentar as actividades de enriquecimento curricular, o que representa passar de um currículo de seis horas semanais com estudo individual de instrumento, orquestra, formação musical, coro e expressão dramática para uma actividade de currículo ainda desconhecido e com um grau de exigência muito inferior. E também não se sabe quem são e onde estão os profissionais que vão assegurar a iniciação musical nas escolas do 1º ciclo?

Se os Pais destas crianças quiserem que os seus filhos continuem a receber a mesma formação musical que os Conservatórios hoje asseguram, terão que os inscrever numa escola privada, para deixarem de pagar uma propina anual da escola pública (no Conservatório de Lisboa é de 45€) e passarem a pagar mensalidades significativas.
A coberto de uma pseudo “democratização” do ensino da música serão favorecidas as famílias com maior capacidade económica para proporcionarem aos seus filhos o ensino especializado da música em detrimento das famílias mais desfavorecidas que não podem pagar propinas privadas.
Trata-se de uma “reforma” altamente discriminatória em nome de uma “democratização” que engrossará a estatística artística do 1º ciclo, em nome de uma engenharia financeira cujo objectivo é poupar dinheiro. Assim se decapita o já frágil ensino especializado da música, tornando cada vez mais difícil a formação de músicos profissionais.
No meio desta desconcertante “reforma” pergunto-me onde está o ministro da cultura? Ou será que a música nada tem que ver com a cultura? Talvez tenha deixado de ter e eu não tenha dado por isso! E pergunto-me, também, porque razão a “música para todos” tem que destruir a música especializada para alguns? Será que o ensino generalizado (iniciação musical no 1º ciclo) não pode conviver com o ensino especializado (nos Conservatórios)? Onde é que está o problema?
Se a ministra da educação gosta de ir ouvir a Orquestra da Fundação Gulbenkian, que eu também gosto, deveria saber que os seus músicos aprenderam a música no ensino especializado ainda mal tinham saído do berço!

Evolução

A Câmara Muncipal e a Assembleia Municipal de Óbidos decidiram rever o Plano Director Municipal com o propósito de reduzir os índices de construção de empreendimentos turisticos no território daquele município, objecto de um surto de procura de investidores pela excelência da sua costa.
É um sinal muito importante, que importa registar pelo que tem de inédito mas sobretudo pela inteligência que revela o jovem e dinâmico presidente do executivo camarário, Telmo Faria.
Justificando a medida, Telmo Faria disse esta coisa simples mas pouco habitual de se ouvir: «face à procura muito elevada [para a construção de empreendimentos turísticos] percebemos que se aprovássemos tudo íamos dar cabo disto».
O "tudo" a que o presidente da Câmara se referia eram as 39 mil camas turísticas previstas no PDM que agora nessa parte ficará suspenso, a grande maioria delas a instalar ao longo do litoral do concelho.
Percebeu-se ali que a valorização dos territórios não se faz pela massificação da sua ocupação. Não se cria riqueza, sustentavelmente, só porque se constrói muito. Bem pelo contrário. A prazo, a perda de qualidade dos espaços pelo excesso de edificação, a pressão sobre os recursos e a insuficiência e mau dimensionamento das infra-estruturas, acaba com a ilusão.
Esta percepção não é coisa pouca num País pouco cuidadoso com o ordenamento do seu reduzido território.
Oxalá que a atitude tenha efeitos contaminatórios.
Por isso se regista e saúda aqui a clarividência de Telmo Faria.

Virgínia - 3ª e última parte

Quando a sobrinha mais velha voltou de África com as filhas, tornou-se de alma e coração numa avó dedicada e zelosa. Encobria as tropelias das crianças, tentava sossegá-las ensinando os rudimentos dos bordados a troco de uns pacotinhos de caramelos que tirava da carteira e, mais tarde, era a ela que confidenciavam os primeiros desgostos de amor. Nessas alturas, ouvia em silêncio e só pela velocidade com que a agulha de bordar se movia é que se percebia como se afligia, temendo que as suas meninas não viessem a ser felizes. E ria-se perdidamente nos momentos de alegria, como se através delas recuperasse um pouco da sua juventude.
Mas a grande paixão da sua velhice foi António, o sobrinho neto mais novo. Sussurrava-lhe o nome, vigiava-o, embalava-lhe o berço horas e horas, olhando-o com devoção. Seria o filho nunca conseguido?, seria o nome?, Virgínia nunca falava dela própria, das suas dores de corpo ou de espírito, quando se interessavam encolhia-se, como se quisesse desaparecer, e desviava logo o assunto, mas com ele ganhou uma alegria tranquila.
Chamava-lhe “o meu menino”, marcando a diferença com este possessivo num gesto cúmplice, como se só os dois pudessem entender. Nunca lhe regateou mimos nem atenção e defendia-o com unhas e dentes, como se ele fosse território interdito a outros.
Assim correu a sua vida, discreta, sempre atenta aos outros, procurando tornar-se útil como quem pede desculpa de estar ali, sem nunca reparar como o seu ombro acolhedor e as suas teimas sensatas eram essenciais ao equilíbrio e à harmonia da família.
Morreu já perto dos 90 anos, após uma doença breve e secreta, que suportou sem alarde, aceitando apenas os desvelados cuidados da velha Chica. Não queria preocupar ninguém, como sempre, mas não resistiu a suspirar dizendo que receava já não ver a primeira filha do seu amado sobrinho António, cujo nascimento estava previsto para daí a dois meses. Foi então que ele teve aquele impulso de lhe contar o segredo, antecipando a surpresa que lhe tinha destinado: “- Sabe, tia, decidimos que a menina se vai chamar Virgínia”.
E ela estendeu a mão, acariciou-lhe a cara e disse, muito baixinho: “Que ideia a tua, filho, eu não mereço essa alegria!”. Já tinha a maleta ao lado da cama, aberta, o lençol engomado e o vestido de seda desabotoado, pronto a vestir.
E é assim que eu me lembro dela, a sorrir docemente, de olhos fechados, aceitando serena a morte, no embalo daquela homenagem.
Há pouco tempo, numa reunião de trabalho, uma mulher apresentou-se com um apelido familiar, o mesmo que o marido de Virgínia usava. Uma sobrinha neta estava presente e teve um pressentimento, qualquer coisa soou que a fez abordar a outra num impulso insensato e ansioso. “_ O seu apelido… por acaso é alguma coisa a António….?” A outra olhou-a, intrigada. “_ Sou filha, como é que o conhecia?” Um momento de hesitação, o acaso prega muitas partidas!, mas resolveu esclarecer o mistério. “_ A minha tia avó, Virgínia, foi mulher dele durante vinte anos. Até ele a deixar de vez, para casar com a sua mãe. Mas esperou sempre por ele, esperou cada momento, a vida toda”.
Foi então que a mulher a olhou, como se através dela quisesse espreitar a imagem da outra, reconhecer-lhe os traços, o timbre da voz, qualquer coisa que lhe desvendasse a sombra que sempre tinha estado presente na sua vida.
“_ Sabe, o meu pai morreu era eu muito jovem, teve uma doença terrível e sofreu muito. Nos últimos dias, já aloucado, gritava Virgínia! Acode-me Virgínia… Incrível como ele não a esqueceu. Mas ela nunca soube”.
A sobrinha ficou em silêncio. Num instante, reviu-a com a sua inseparável gola de raposa, lembrou-se de como os brincos de brilhantes baloiçavam junto à pele branca e luminosa, pensou nos seus gestos carinhosos e serenos, na felicidade que transmitia com a sua presença leve e atenta.
Não era verdade,Virgínia sempre soube que António não a tinha esquecido.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Sarkozy: crepúsculo antecipado?

A popularidade do Presidente francês, eleito há menos de 1 ano, tem caído a pique nas últimas semanas: desde o início do corrente ano, a % dos que consideram positiva a sua actuação caiu 13 pontos, situando-se agora em cerca de 40%, depois de nos primeiros meses do seu mandato ter ultrapassado os 65%...
Sarkozy apresentou-se como um Presidente com um estilo novo, ideias arejadas, espírito reformador, rompendo com um passado de uma prática presidencial ambígua e pouco transparente, parecendo vocacionado para colocar a França numa posição de prestígio internacional, sabendo congregar à sua volta personalidades de distintas forças políticas atraídas pelo seu estilo federador e pela sua mensagem renovadora.
Passados poucos meses, tudo parece estar a esfumar-se e a desilusão começa a apoderar-se do seu partido, a UMP.
Entrou numa sucessão de ziguezagues em relação a algumas medidas de política: por exemplo, um mês depois de ter anunciado que os cofres do Estado estavam vazios e que não era possível alargar mais as benesses sociais, esta semana – provavelmente com o objectivo de contrariar a erosão da sua popularidade - vem prometer (i) aos titulares de baixas pensões um bónus extraordinário, uma medida com um custo orçado em € 1,3 mil milhões e (ii) aos trabalhadores de uma siderurgia no Lorraine a ajuda do Estado para salvar a unidade em dificuldades…
Ao mesmo tempo, a extraordinária exposição mediática da sua vida privada, se pode ter graça uma vez, aos franceses não deve agradar muito ter um Presidente que se comporta como um “movie star”, passeando publicamente as suas desilusões e conquistas amorosas num ritmo alucinante…
Por outro lado, a sua ânsia de protagonismo, tem-no conduzido a desvalorizar o papel e a intervenção dos seus colaboradores, designadamente dos membros do seu Governo (Kouchner é uma das raras excepções), chamando a si a condução de todos os dossiers com algum impacto mediático.
A situação chegou ao ponto de o seu Primeiro-Ministro, François Fillon, uma figura mais discreta e com um comportamento muito mais sóbrio, desfrutar actualmente de maior popularidade do que o Presidente – o que deverá deixar Sarkozy muito mal disposto.
Em Março próximo (9 e 16), disputam-se em França eleições municipais.
Se a UMP tiver um mau resultado, pode começar aí, ainda menos de um ano após a eleição, um período de muitos e complexos – quiçá infindáveis – problemas para Sarkozy.
Teremos o crepúsculo antecipado de um Presidente que parecia votado a um grande sucesso?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

“Loucuras científicas”...

Qualquer fruto ou vegetal é passível de ser transformado em sumo, até a beterraba. Nunca bebi, mas presumo que deve ser doce, no mínimo. O que eu não sabia é que bebendo meio litro de sumo de beterraba por dia se consegue baixar a pressão arterial! Aqui está mais um exemplo da medicalização dos alimentos.
Esta notícia fez-me recordar o uso “científico”, anunciado recentemente, das maças bravo de esmolfe para a prevenção das doenças cardiovasculares e do cancro!
Os investigadores que concluíram pelo efeito benéfico do sumo de beterraba na redução da pressão arterial publicaram o artigo numa prestigiada revista científica e invocaram a presença dos nitratos como sendo a chave para explicar o fenómeno. Até aqui eram os antioxidantes existentes nas frutas e legumes os responsáveis por muitos benefícios associados a estes tipos de alimentos.
Mas como é que os nitratos baixam a pressão arterial? Segundo os autores os nitratos ingeridos são transformados em nitritos na saliva, os quais, por sua vez, são deglutidos e transformados no estômago em óxido nítrico ou então absorvidos sob aquela forma. Desta forma poder-se-ia explicar o efeito benéfico numa situação tão comum como é o caso da hipertensão arterial.
Após ler esta notícia, lembrei-me de muitas experiências que, em tempos, tive oportunidade de fazer a propósito dos efeitos da ingestão de água enriquecida em nitratos e na sua transformação em nitritos na saliva. Tudo por causa das nitrosaminas, substâncias altamente cancerígenas e que resultam da interacção dos nitritos com as aminas alimentares. Na altura, verifiquei que as pessoas que bebiam água enriquecida em nitratos apresentavam concentrações significativamente superiores de nitritos na saliva. No entanto, ocorriam situações muito curiosas. Alguns indivíduos, que bebiam a mesma água, chegavam a apresentar concentrações extraordinariamente elevadas. Para explicar a situação - são as bactérias que vivem na boca as responsáveis pela transformação dos nitratos em nitritos -, especulei que os que tinham má higiene oral teriam mais bactérias e, consequentemente, produziam mais nitritos. De facto, foi possível verificar diferenças marcadas na higiene oral entre os indivíduos estudados. Face às novas evidências, redução da pressão arterial do sumo da beterraba, por obra e graça dos nitratos, então, será de esperar que os que não tratam da boca e dos dentes e que comam enchidos, salsichas, carnes enlatadas (ricos em nitritos) ou bebam água poluída em fertilizantes tenham níveis mais baixos de pressão arterial e sofram menos de enfarte e de acidentes vasculares cerebrais!
Aguardo uma campanha contra a hipertensão arterial apelando a maus hábitos de higiene oral ou convidando os cidadãos a consumir sumo de beterraba. Se não gostarem do sumo, sempre podem optar por beber água rica em adubos ou ingerirem produtos que contenham nitritos.
Enfim! loucuras “científicas”...

“A partir dos cinquenta anos o doente mais barato é um doente morto”

A economia da saúde é uma área muito importante ao contribuir para melhorar a racionalização dos gastos tentando, simultaneamente, optimizar os benefícios. As peripécias verificadas ultimamente no nosso país teriam ou têm, em grande parte, a ver com esta disciplina, se bem que hajam muitas dúvidas quanto aos reais benefícios.
As medidas de prevenção têm como alvo conseguir que as pessoas vivam mais e com mais saúde. Até aqui tudo bem, mas quem vive mais não está livre de em determinado momento adoecer e necessitar de cuidados de saúde permanentes aliados a cuidados sociais, além de já ter sido “premiado”, através da segurança social, de anos e anos de reforma.
Estudos recentes apontam que as “pessoas saudáveis custam mais do que as obesas aos respectivos serviços de saúde”. Porquê? Porque os obesos morrem mais cedo! É evidente que se realizarem mais estudos focando as doenças crónicas – não esquecer que estão num crescendo preocupante - se obtenham conclusões semelhantes.
A leitura deste estudo fez-me recordar uma frase do saudoso epidemiologista britânico, Geoffrey Rose, que, há muitos anos, já afirmava: “A partir dos cinquenta anos o doente mais barato é um doente morto”. Os argumentos até são fáceis de compreender. Naquelas idades, o retorno do investimento feito no individuo já é positivo. Se entretanto morrer deixa de consumir e de provocar “prejuízo” à sociedade!
Espero que não tomem à letra aquela frase...

Virgínia (2ª parte)

Foi assim que ele começou a andar com outras mulheres, primeiro em segredo, depois sem reservas, tudo lhe vinham contar para a atormentar e ela tudo desculpava, cismada que ele tinha direito a desprezá-la. Quanto mais lhe diziam, mais ela lhe era dedicada, esperava-o para jantar até noite alta, olhava por que nada lhe faltasse, não admitia que o criticassem na sua frente.
Ele ia mantendo esse equívoco, ora não aparecia, ora chegava com um presente a pedir perdão, tal como aconteceu com a espantosa gola de raposa ou o par de brincos de brilhantes, que ela recebia como um troféu de pequenas vitórias.
Os brincos, aliás, ofereceu-lhos ele depois de uma ausência mais prolongada, da qual voltou adoentado e triste. Vinham num estojo de veludo azul e o brilho límpido das pedras era realçado pelo talhe aprimorado da lapidação. Mas foram as palavras dele que lhe ficaram gravadas no coração, como que riscadas pelo sulco profundo e firme do diamante: “- Quero que saibas que sinto por ti um grande amor. Em todas as mulheres é a ti que procuro, tu, sempre tão amiga e tão distante, esperas mas não deixas que te alcance. Junto a ti sufoco, longe de ti vagueio, não quero a tua solicitude, o teu despojamento, quero o amor e a alegria a que renunciaste como se te sepultasses em vida. Não esperes por mim, Virgínia, vou tentar viver sem ti, é a única forma de continuarmos juntos…”
Foi assim que os brincos ficaram como uma espécie de adeus-para-sempre, talvez por isso ele se tenha esmerado…
Quando ele a deixou para ir viver com outra, nunca mais pronunciou o seu nome, mas esperou que ele voltasse. Vivia no casarão de Benfica com a criada de sempre, a Chica, a única pessoa que se atrevia a ruminar diante da patroa umas palavras azedas contra António, e espreitava-lhe as infidelidades para o delatar, na esperança de a desiludir de vez.
Mas ele não voltou. Depois de uns anos de vida libertina, acabou por pedir o divórcio para casar com uma mulher de quem tinha tido uma filha.
Virgínia voltou ao domínio da irmã. Só saía de casa para a visitar, amava as sobrinhas como se fossem suas filhas, e foi envelhecendo naquele jeito discreto e contido, temendo que reparassem nela, obcecada em não pesar a ninguém, cosendo e bordando como se assistisse apenas à vida à sua volta.
Adoptou aquela maneira curiosa de mostrar que nada lhe pertencia, dizia sempre “a tua mãe”, “a irmã dela” ou “o teu marido”, como se receasse a intimidade que o uso dos nomes próprios podia identificar.
Um dia teve um pequeno mal estar e, pela primeira vez, receou morrer. Imaginou a cena, todos à volta dela, atordoados, sem saberem o que fazer, e decidiu que nem essa preocupação queria dar. Passou a guardar numa malinha o lençol da noite de núpcias, destinado à mortalha, um vestido de seda negro, meias, sapatos e um minúsculo lenço branco de cambraia, bordado com um V. Essa malinha acompanhava-a sempre que se deslocava para mais do que uma curta visita e, em casa, guardava-a em lugar à vista, para não terem que a procurar quando fosse o tempo de lhe dar uso. (continua)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Virgínia (1ª parte)


Era injusto não escrever sobre ela. Seria, de resto, o que ela esperaria, que a deixassem na sombra, ela que sempre viveu anulada na poeira das tempestades que as irmãs foram pródigas em desencadear.
Ao contrário das outras mulheres da família, Virgínia não era bonita, nem vistosa, apesar da sua pele muito branca e lisa, um pouco rosada, como se estivesse sempre a corar de vergonha. Era magra, no tempo em que gordura ainda era formosura, e usava uns óculos grossos de míope que lhe ocultavam a candura dos olhos. “- Os meus irmãos chamavam-me “Tábua de Engomar” para me arreliar “ – contava ela anos mais tarde, como que a desculpar-se das formas generosas que foi ganhando com a idade.
Era muito tímida, em contraste com o génio exaltado e teimoso das irmãs, por isso foi sempre protegida e acarinhada a troco de um estatuto que autorizava a que todos interferissem na sua vida, como se nunca tivesse deixado a infância. Não se interessou por política, ao contrário de Gertrudes, a irmã mais velha, e as paixões que ia alimentando calava-as bem caladas, bem bastavam os dramas que todos viviam por causa de Palmira, a irmã do meio, que acabaria louca de amor, no Rilhafoles.
Virgínia olhava o mundo como se tivesse tudo a temer dele, as discussões e zangas deixavam-na atordoada e doente, ficava sentada na sua cadeira horas a fio, tecendo finíssimos bordados, tão perfeitos que custava a acreditar que tivessem saído de mãos humanas. Tirava os óculos, curvava-se sobre o pedaço de linho, e os seus dedos seguiam laboriosos uma ordem invisível, ponto atrás de ponto, os ajours, os pé-de-flor, o ponto cheio, o ponto sombra. Aquelas obras primas enriqueciam os enxovais das irmãs, depois os das sobrinhas, mais tarde os das filhas destas, cada uma planeada e elaborada como se fosse uma dedicatória.
Sempre viveu sob o domínio asfixiante da irmã mais velha, que lhe estragou o primeiro namoro por causa de uma intriga de família e a fazia crer que era incapaz de se orientar sem ela.
Aos vinte anos, passada a 1ª guerra mundial, casou com um amigo dos irmãos, fingindo ignorar os negócios de que foi contrapartida, e dispôs-se a fundar uma família pacífica e feliz, onde a doçura dos gestos e a sua arte de cuidar das pequenas coisas lhe permitissem ter o seu espaço e marcar o seu modo de vida. Amou António com uma paixão sem reservas, admirava-lhe as gargalhadas soltas e a liberalidade dos gestos, iam ao teatro, ele incitava-a a cortar o cabelo à moda e apresentava-a aos amigos.
Quando ficou à espera do primeiro filho, julgou que não era possível conhecer maior alegria, mas a gravidez não foi bem sucedida e Virgínia vestiu luto pelo feto de 4 meses. A segunda gravidez durou ainda menos, dessa vez já lhe foram tirando as ilusões, mas não quis acreditar. Quando perdeu o terceiro filho pensou que mais valia morrer, que não era justo ela querer tanto e não poder, entrou num desespero tão grande que exigiu que lhe conservassem o feto num frasco com formol e guardou-o em casa anos a fio, como uma relíquia, tapado com um pano preto.
Mas um mal nunca vem só, talvez porque o mal é isso mesmo, o arrastar de uns acontecimentos pelos outros. O facto é que António não sofreu o desgosto da mesma forma e foi-se afastando do clima tétrico que pairava em sua casa. Virgínia tinha vergonha da sua impossibilidade de lhe dar filhos, dizia-lhe que saísse, que fosse ele distrair-se, ela não podia. (continua)

Não seguram a língua


Ciclicamente, Procurador Geral da República, magistrados com poderes de coordenação de investigações complexas, o bastonário da Ordem dos Advogados, ex-bastonários, sindicalistas do ministério público e da magistratura judicial, associações de magistrados, advogados e funcionários judiciais, o director nacional da PJ e outros polícias, tudo fala, desbragadamente, sobre assuntos da Justiça.
Excepção - esta justiça não lhe pode faltar -, ao ministro da dita, que fala pouco e quando fala, naquele discurso circular que lhe é próprio, poucos são os que o entendem...
Poderia ser que o tema de tanta verborreia fosse o sistema. O decantado sistema de justiça. De como aumentar a sua produtividade. Como fazer com que o Direito aplicado não seja um instrumento de ódios e vinganças, mas um meio de obter a paz social. Como fazer para que a justiça deixe de ser porventura um dos mais graves entraves ao desenvolvimento do País...
Mas não.
Os temas preferidos do novel estrelato das TV e dos jornais são quase sempre processos em curso, muito em especial em fase de investigação.
Este sim, é sintoma de uma profunda doença. Esta incontinência verbal demonstra afinal que o problema da justiça não são as leis, não é a falta de meios nem de estruturas. São mesmo as pessoas, como há muito venho pensando.
A Justiça para que o seja, precisa de pessoas com conhecimento, com experiência de vida e de mundo. Sábias, portanto. Dedicadas, sensatas, e prudentes. E a cada passo nos damos conta de que não abundam as pessoas com essas qualidades.
Enquanto assim for, o absurdo na Justiça e a Justiça-absurdo continuarão a ser consideradas normais, pasto do espectáculo em que a transfomaram para promoção de uns quantos e gáudio das empresas de media e de venda de publicidade.

Reacções “Stilnóxicas”

Dormir é uma das maiores necessidades dos seres humanos. Sabemos as consequências de uma noite mal dormida e, se somos confrontados, no dia seguinte, com tarefas importantes, então, o caso é muito sério. Que o digam os desportistas ou os estudantes nas vésperas de uma competição ou de um exame.
Existem várias técnicas para os que têm dificuldades em adormecer, o copinho de leite morno, a clássica contagem dos cordeirinhos, as técnicas de relaxamento e muitas outras prescritas por psicólogos, além dos pesos-pesados que são o uso de ansiolíticos e de hipnóticos. Quanto aos últimos a sua eficácia está devidamente comprovada e podem ser muito úteis, embora, em muitas circunstâncias, possam estar na origem de abusos e provocar dependência.
Quem diria que um sedativo amplamente conhecido, denominado Stilnox, é muito procurado pelas reacções secundárias que produz. De facto, misturado com efedrina, um estimulante, e “snifado” provoca efeitos estimulantes. Foram jovens norte-americanos que fizeram esta descoberta, “pifando” os comprimidos aos papás.
Muitos desportistas têm vindo a utilizá-lo na forma “recreativa”, se assim lhe podemos chamar, fazendo os possíveis para não adormecer nos primeiros vinte minutos. Depois é uma sucessão de acontecimentos dos quais não se recordam no dia seguinte, porque provoca amnésia anterógrada. O efeito sonambulismo está presente de tal forma, que muitos dos que abusam do Stilnox têm reacções das mais esquisitas desde urinar em táxis, defecar nos halls dos hotéis, andarem a fazer equilíbrio na varandas, ou seja, são capazes das acções mais mirabolantes ao ponto de alguém já as ter classificado como reacções “stilnóxicas”!
Parece que o protagonista de Brokebac Mountain tinha, aquando do seu falecimento, no seu quarto, uma embalagem deste medicamento.
Seja como for, os efeitos secundários, que provocam excitação e euforia, em contraste com a acção principal que é combater a insónia, começam a preocupar as autoridades de saúde e os responsáveis desportistas. Só não se sei é se não deveriam, também, preocupar os responsáveis políticos, até, porque, ultimamente, alguns deles têm vindo a revelar certas atitudes que poderíamos designar de “stilnóxicas-like”. As infelizes declarações sobre o caso Maddie, as denúncias tonitruantes sobre a praga da corrupção em Portugal, que nem daqui a vinte ou a trinta anos estará resolvido, ou melhor em diminuição, já que sendo um fenómeno cultural resiste, infelizmente, à merecida “pancadaria”, as mudanças de decisões do tipo “Ota aqui”, “Ota ali”, as mudanças da letra da ópera do referendo, “Referendo cá! Referendo lá”, os projectos assinados pelo PM, quando jovem, em noites de insónias (só podia ser) ou as assinaturas ministeriais dos despachos numa noite eufórica, poderiam ser enquadrados num eventual efeito tipo “stilnóxico”. Convém recordar que quem estiver sujeito à acção deste produto não deverá ser interrompido nas sete horas seguintes, caso contrário podem manifestar reacções disparatadas das quais não se vão lembrar em seguida.
Declaração de interesses: Não tomei Stilnox quando escrevi este texto. Ou será que tomei?! Tanto faz, como tanto fez, num Portugal tão disparatado o que é conta mais um disparate? Nada…

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Chegaram as "quotas masculinas"...


Chamou-me a atenção o título do artigo do jornal Sol do passado fim-de-semana “Maria José Morgado quer quotas masculinas”. Chamou-me a atenção por duas razões, a primeira por falar de quotas masculinas e a segunda por ser quem é alertar para a necessidade de quotas masculinas.
Fui, então, ler a notícia do El País, publicada em 28 de Janeiro, Maria José Morgado chama a atenção para o facto de na magistratura as mulheres estarem em larga maioria e de nos concursos de ingresso a proporção ser de dez mulheres por cada homem. E acrescenta que se a situação continuar assim fará falta uma quota masculina. Não sabe se é bom ou mau a magistratura estar nas mãos nas mulheres, mas considera que uma justiça na mão de mulheres pode dar problemas.
É interessante reflectirmos sobre este “problema” colocando duas questões. Numa primeira questão, trata-se de compreender porque é que os homens não concorrem, pura e simplesmente, à magistratura?
Porque é que os homens não querem ou não gostam de ser juízes? Será porque se trata de uma profissão mal paga quando comparada com outras actividades que exigindo uma licenciatura em direito remuneram melhor? Lembrei-me que poderia ser o caso dos advogados de “negócios”. Realmente esta categoria de advogados tem vindo a conhecer um grande crescimento e os homens predominam nas sociedades de advogados bem posicionadas nesta vertente do exercício da advocacia. Lembrei-me também, como acontece no acesso a outros ramos profissionais que exigem elevados desempenhos, que os homens por estudarem em média menos e em média por serem menos aplicados desistem de concorrer à magistratura. É que as mulheres são de facto mais estudiosas, mais assertivas, mais disciplinadas e mais determinadas e como tal acabam por ter mais facilidade em obter desempenhos superiores.
E porque é que as mulheres querem ser juízas? As mulheres são muito práticas e inteligentes, percepcionando muito bem a necessidade de compatibilizarem a sua vida familiar com a sua vida profissional e como tal orientando as suas escolhas profissionais para carreiras em que a possibilidade de o conseguirem com êxito é maior. As mulheres são naturalmente “compradoras de tempo” e portanto procuram soluções profissionais que lhes deixem tempo para despenderem mais tempo com a sua vida pessoal e familiar. Talvez a carreira da magistratura melhore esta combinação.
Por outro lado, as mulheres estão geneticamente habituadas a governar a casa e a tomar conta da família o que implica autoridade, organização, disciplina e muita sensibilidade. Ora encontramos aqui muitas semelhanças nas competências que justamente se revelam também necessárias na magistratura. Numa palavra, “mandar” é algo que as mulheres sabem fazer.

Numa segunda questão, trata-se de avaliar se uma magistratura feminina pode ser um problema e porquê? Não tenho informação nem formação que permitam pensar que poderemos ter problemas no exercício da magistratura porque faltam homens. O que sei, ou penso saber, é que as mulheres e os homens têm um olhar diferente da realidade, razão porque é vantajoso que na liderança das organizações, não apenas no topo mas em lugares de gestão operacional, estejam presentes de forma equilibrada as diferenças que distinguem homens e mulheres, porque as mesmas se podem complementar. Nas empresas, por exemplo, a predominância naqueles lugares continua a ser masculina. Já na medicina, as mulheres começam a ganhar maior peso.
Será que devemos actuar nas quotas, sejam femininas ou masculinas? Não creio. Ou devemos antes criar condições, criar incentivos que permitam na base corrigir situações que potenciem e conduzam porventura a excessos que não ajudam a desempenhos ricos na variedade de sensibilidades e de olhares variados sobre o mundo!
Confesso que não tenho ainda uma reflexão bem clara a este respeito. Quotas de género, um tema que ainda vai dar muito que pensar...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Determinismos

O rio corre, bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Fernando Pessoa, Poesias

Neste fim de semana, para alguns prolongado de descanso, ouvi pela enésima vez repetida a ideia de que é fatal como o destino que este governo, por seu demérito, cairá por si, de maduro. E daí que não vale a pena ao líder da oposição empenhar-se no que é suposto que faça: criar a convicção nos eleitores, daqui a ano e meio chamados a julgar, de que as suas propostas são melhores do que o projecto que o governo tem para o País.
Constato que há muito quem pense que basta ao líder de oposição aguentar-se no posto. Caído o governo em auto-desgraça, chegará, assim naturalmente, sem esforço nem prematuro desgaste, a sua vez.
Criou-se em muitos círculos esta ideia de que na democracia rege uma lei que determina que os governos não caiem por acção da oposição, caiem após passarem da fase do cansaço à da exaustão, ou então corroídos pelas intrigas partidárias que vão fertilizando à medida que o tempo passa.
Esta concepção determinista da política nacional assenta no pressuposto de que a liberdade dos portugueses é proporcional à falta de uma inteligência colectiva, incapazes por isso de julgar na mesma medida quem governa e quem se propõe governar.
Nada de mais enganador.
Equivoca-se e pagará por isso quem pensa que os eleitores não julgam também os que não criam a convicção de que mudar significa melhorar.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Idem

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Olhos maiores que a barriga

A nossa Câmara Municipal de Lisboa - esta e as que a antecederam - não consegue dar conta do
recado.
As ruas estão cheias de buracos.
Os passeios continuam uma lástima.
O arranjo dos espaços verdes deixa muito a desejar.
A limpeza dos espaços públicos está longe de qualquer padrão de qualidade.
Abundam as peças de mobiliário urbano que há muitos anos aguardam substituição ou reparação.
Alguns sinais de trânsito só servem para nos lembrar que estão ali esquecidos.
Com tanto trabalho que a nossa Câmara Municipal tem para fazer na cidade, porque é que anda tão preocupada com os terrenos do Porto de Lisboa?
Será para nos arranjar mais um daqueles casos emblemáticos que custam milhões e que só servem para provar que em matéria de espaço público a regra é o desmazelo e a degradação?

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Cem anos de Regicídio...

Contou-se ontem o centenário do Regicídio. Para além de uma missa em São Vicente de Fora – que todos os anos se celebra – o Presidente da República teceu elogios ao estadista que tivemos, perante o silêncio de uma Assembleia da República que se revelou incapaz de perceber e transmitir uma dimensão moral daquilo que estava em jogo.
Tal facto parece ser lamentável e prejudicial, numa época em que os países desenvolvidos e em desenvolvimento – como acontece, por exemplo, com a República Russa – se agarram ao seu activo histórico, não apenas por ser a referência que têm, mas sobretudo porque pretendem individualizar-se, congregar as suas populações no esforço nacional e impor-se em relação aos vizinhos e na cena internacional.
Algumas coisas foram ultimamente escritas (ou lembradas) sobre o rei D. Carlos I, homem de excepcional preparação, a qual lhe potenciou qualidades raras de intelecto, artísticas, de energia física e de afabilidade e de humor. Foi vítima, juntamente com o príncipe herdeiro, de um sistema político falido com dois partidos em permanente dilaceração, perante um espectáculo ruinoso da economia e finanças portuguesas. Da encomenda da sua morte estão sérias investigações por fazer.
Seria arriscado confundirmos aquilo que está em causa – a supressão de um estadista e do seu sucessor, patriotas portugueses – com preferências pelo sistema monárquico ou pelo sistema republicano. Mais uma vez, é o nosso País e todos os portugueses que perdem, sempre a favor de uma teimosia, fraqueza ou desinteresse em reconhecer méritos a portugueses já desaparecidos. D. Carlos I tinha força e inteligência, qualidades que bem precisamos na recuperação da auto-estima nacional e na melhoria do estado do País.

Evil Machines


"La science et la technologie apportent des réponses qui, de plus en plus, contrarient ce que disent nos sens et notre esprit" Ollivier Dyens "La Condition inhumaine" (citação do jornal Le Monde de 27 de Janeiro)

Fui ver o Evil Machines ao S. Luiz e não achei nada de especial, nem a música de Luis Tinoco nem a história de Terry Jones, apesar da notável imaginação na criação dos figurinos, os aspiradores, a máquina de lavar, a batedeira… Pareceu-me o tema um pouco trapalhão, aquela imagem das máquinas a querer dominar o mundo instigadas por um cientista que afinal era o robot feito à imagem e semelhança do seu criador, com a sua inteligência mas sem emoções, que tinha neutralizado o seu criador e tomava agora as rédeas do seu destino, virando-se contra os humanos..
Nem teria referido esse espectáculo se não tivesse lido hoje no Le Monde – nem de propósito!, - uma entrevista com o título “La Revolution Inhumaine” em que o Prof.Ollivier Dyens, da Universidade de Concórdia (Montreal) afirma que o poder da tecnologia digital vai mudar a percepção que temos do ser humano e que as máquinas vão dominar as criaturas.
Até agora, sempre se considerou que as máquinas existiam para responder às necessidades humanas, para lhes facilitar a vida e que, por isso, eram utilizadas e controladas nessa medida. Mas a crescente interacção biologia/tecnologia leva a que as máquinas se assemelhem cada vez mais às pessoas, são feitas à sua imagem e tentam reproduzi-la de modo cada vez mais perfeito, cada vez mais “vivo”, até que um dia se vão confundir, homens e máquinas, ficando aqueles na dependência ou sob o domínio do funcionamento destas.
Um exemplo desse domínio, diz o entrevistado, já é o caso do “Bug do ano 2000”, em que o mundo humano ficou simplesmente suspenso do modo imprevisível como as máquinas iam reconhecer os 3 zeros e provocar ou não uma catástrofe. Os meios afectos a tentar prevenir ou controlar os eventuais estragos foram gigantescos, mas afinal não houve problema nenhum.
Chegou-se, assim, a um ponto em que os conhecimentos incorporados nas máquinas são tão complexos, tão diversos e tão difíceis de seleccionar depois de conjugados, que se perde o poder sobre a máquina e ela pode agir como ser autónomo. “A tecnologia força-nos a redefinir o nosso lugar na hierarquia planetária. A situar-nos já não no topo da pirâmide mas numa dinâmica que tenha em conta que as máquinas são parte integrante da espécie humana. ”, diz O.Dyens.
Caso não se tenha isso em conta, diz o autor, corremos o risco de ver subvertidos os nossos valores, entramos num mundo de alienação pelo conhecimento, ou seja, somos dominados pelo saber disponível porque a cultura gerada pelas máquinas é muito superior à que conseguimos apreender, à semelhança de uma onda cuja massa conseguimos apenas “surfar” ou seja, tocar a superfície, mas que pode afogar-nos se mergulharmos nela.
Esta “condição inumana” tem virtualidades, porque estas tecnologias, como a Web, permitem a relação entre as pessoas, aproximam-nas e deverão conduzir a um menor impulso bélico ou destrutivo dos outros. Esta convivência planetária abre um plano de comunicação nunca existente, criando novas formas de inteligência colectiva que legitima os que estiverem “hiperligados”. O azar é que não reconhece os que ficarem fora dessa coerência global…
Afinal, o enredo de Evil Machines é para levar a sério!

Uma parvoice de campanha

Li hoje no DN que a Media Markt usou depreciativamente a imagem de escuteiros na campanha publicitária que tem o slogan “eu é que não sou parvo”. Não vi o anúncio, só fotografias, mas vi que o Corpo Nacional de Escutas fez um protesto e, se o fez, tem motivo de certeza e só posso apoiar essa indignação.
Inscrever as minhas filhas nos escuteiros foi uma das decisões que mais marcou a sua formação. E, claro, também marcou a minha, como mãe, não tem conta as vezes que fiquei em casa a roer as unhas, a pensar que estavam a dormir ao relento ou a fazer caminhadas intermináveis com mochila às costas, ou a passar frio, ou algures num acampamento sem água perto e um calor de rachar. Só lhes fez bem, a elas e a mim, que também aprendi a distinguir o que era o meu egoísmo do que era o sentido protector.
Inscrevi-as aos 7 anos, no agrupamento de Moscavide, o mais próximo da nossa casa mas onde não conhecíamos ninguém. Confesso que estava receosa, mas fiquei logo conquistada ao primeiro contacto, o sorriso aberto do triplo-L, chefe consagrado durante várias gerações de Lobitos, a casita pobre e minúscula da sede, ao lado da igreja, cheia de cartazes e equipamentos amontoados, tudo arranjado por eles. No grupo, miúdos de todas as idades e meios sociais, chefes para os vários escalões e o livro do Baden Powell para aprenderem as regras.
Nos anos de escutismo aprenderam a solidariedade, a tolerância, a coragem, mas também o sentido crítico, a lealdade, a afirmação pessoal, a superar as dificuldades dando o seu melhor. Como escuteiras, com o seu grupo ou com muitos outros, viajaram em Portugal inteiro, na Europa, na América Latina mas sobretudo viajaram pelo mundo das pessoas, tão diferentes e tão iguais, viram como se lidera, como se convive na harmonia e na entre ajuda, sempre com poucos meios, sempre privando-se do conforto, amando a natureza, ganhando o gosto da descoberta e da aventura, confiando que cada um saberia cumprir com responsabilidade a sua parte das tarefas. Nunca, em tantos anos que lá estiveram, até saírem Caminheiras e já terminados os cursos, nunca tive motivo para me arrepender.
Tenho pelo CNE profundo respeito e gratidão, sei que lhes devo um inestimável contributo para o que tenho de mais precioso, o orgulho na educação e formação das minhas filhas. Convivemos com muitos pais e sempre vimos o mesmo reconhecimento.
Podia contar mil histórias que através deles vivi, a descoberta de um mundo diferente, exigente, onde os jovens de todas as idades se organizam em torno de valores que se tornam lema para a vida porque aprendem a distinguir o que é essencial do que é acessório, tirando de si o seu melhor e partilhando com os outros as suas fraquezas e as suas forças.
Sugiro aos responsáveis pela campanha publicitária que façam um acampamento com os escuteiros, participem no modo como se organizam, como dedicam os seus tempos livres aos mais novos, a troco de nada, só porque o lema deles é “Sempre alerta para servir”. E, depois, reconheçam quem é que afinal é parvo. Parvíssimo.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Cuidado com as aparentes melhorias...

Tenho acompanhado, de longe pois as notícias não só são pouco abundantes em informação como também não são muitas, a agudização do desentendimento entre o governo e as instituições particulares de solidariedade social (IPSS) por causa do novo regime de actividades educativas estabelecido pelo ministério da educação para o 1º ciclo do ensino básico.
Todos sabemos e lamentamos que as escolas da rede pública do 1º ciclo do ensino básico não dêem resposta às necessidades das famílias, designadamente no que se refere a horários de funcionamento e a actividades complementares à educação básica que enriqueçam as competências das crianças.
A não adequação dos horários de funcionamento destas escolas às exigências da vida pessoal e profissional das famílias constitui um grave problema para muitos pais que não têm condições para ir buscar os seus filhos às escolas ao início ou a meio da tarde e que na impossibilidade de o fazerem recorrem a esquemas de guarda e de ocupação dos tempos extra horário escolar que não oferecem estabilidade e não contribuem para um crescimento completo e feliz dos filhos, para além de que as "soluções" envolvem muitas vezes um elevado esforço económico que o rendimento médio das famílias de baixos recursos não comporta.
Esta falha de resposta da escola pública às novas realidades familiar, económica e social tem sido colmatada através de uma vasta rede de IPSS, mais concretamente através dos equipamentos de Actividades de Tempos Livres (ATL) que acolhem as crianças antes e depois dos horários normais de funcionamento da escola. À tarde o horário praticado pode ir até às 19h, tendo em conta as necessidades específicas das populações servidas. Esta rede é subsidiada pelo Estado através de contratos de cooperação. São cerca de 1.200 os ATL sob a gestão de IPSS, espalhados por todo o País, que proporcionam a cerca de 100.000 crianças do 1º ciclo do ensino básico um conjunto vasto de actividades artísticas, físicas e desportivas e línguas estrangeiras. As IPSS desempenham, como todos sabemos, uma importantíssima função social em Portugal.
O ministério da educação decidiu em 2006 instituir as "Actividades de Enriquecimento Curricular" nas escolas do 1º ciclo alargando o seu horário de funcionamento até às 17h30. Com esta decisão são transferidas para estes estabelecimentos as actividades de tempos livres até agora desenvolvidas pelas IPSS, com o correspondente corte no seu financiamento.
Não estando em causa uma decisão política de melhorar a escola pública, não se compreende como resulta uma melhoria com uma tal decisão quando estão em causa milhares de famílias e crianças que ficarão sem uma resposta que permita adequadamente compatibilizar a vida familiar com a vida profissional. São justamente as famílias de menores recursos que recorrem à escola pública e aos apoios sociais e que não terão condições financeiras para manterem as suas crianças nos ATL uma vez que o Estado vai cortar com o seu financiamento. A pergunta que se impõe é a de saber para onde vão as crianças depois das 17h30?
Em cima disto tudo, que não é pouco, estão milhões de euros de investimentos em equipamentos sociais que serão perdidos e milhares de funcionários que o desemprego dificilmente não poupará. Sem crianças estas IPSS terão que encerrar. Um desfecho preocupante!
É fácil “racionalizar” cortando na despesa e reduzindo os apoios sociais. Cada vez mais devemos avaliar as decisões políticas no seu todo. Olhar só para um lado pode conduzir a um erro de apreciação e à ilusão de melhoria que uma fotografia de alta resolução certamente não deixa que aconteça.
Fico realmente abismada por não se encontrarem caminhos que permitam decisões políticas capazes de fazer um melhor aproveitamento de todos os recursos existentes. É que só desta forma é possível melhorar resultados!

Inflação "entala" BCE

Numa altura em que se encontram em forte baixa as previsões de crescimento económico em especial nos países de mais altos rendimentos – com os USA à cabeça – e em que o Banco de Reserva Federal americano tem assumido uma postura bastante agressiva de descida dos juros para estimular a economia, o BCE está a braços com um sério problema.
A inflação no mês de Janeiro, na Zona Euro, agora a 15 (com a adesão de Malta e de Chipre) foi, segundo o indicador avançado da Comissão Europeia, de 3,2% em termos homólogos, o valor mais elevado desde a criação do Euro em 1999.
Isto depois de variações de 3,1% em Novembro em Dezembro de 2007.
E isto quando se sabe que o BCE tem como referencial para os preços um valor inferior mas próximo de 2%.
E isto ainda quando se esperava uma desaceleração em Janeiro, com o esgotamento do efeito do aumento de 3% na taxa do IVA na Alemanha, ocorrido no início do ano passado.
Esta evolução dos preços no consumidor vai, com certeza, impedir o BCE de tomar qualquer medida de estímulo à economia, que seria contrária à sua ortodoxia, na reunião da próxima semana, deixando muito desconsolados alguns lideres políticos europeus – Sarkozy, em especial – que gostariam de ver o BCE seguir, ainda que de forma mais moderada, o exemplo do FED.
Esta evolução dos preços, a prosseguir, pode mesmo vir a “obrigar” o BCE (não na próxima semana, com certeza), contra toda a expectativa, a aumentar os juros o que certamente provocaria algumas cenas lancinantes, de “choro e ranger de dentes”, no establishment europeu...
Na parte que nos toca podemos porém estar tranquilos:
- Temos a certeza que a inflação, qualquer que seja o comportamento dos preços em 2008, não ultrapassará 2,1%;
- O Gov/BP, em afirmações feitas na Associação Comercial de Lisboa há cerca de 3 meses, garantiu que a subida de preços seria muito passageira e que se podia considerar afastado qualquer cenário de subida dos juros – mais politicamente correcto não se pode exigir...
Oásis luso aparte, a verdade é que a inflação está a incomodar bastante o BCE, na sede de Frankfurt não se fala noutra coisa...

A ética e a estética!...

Segundo o Público, "José Sócrates assinou numerosos projectos de edifícios na Guarda, ao longo da década de 80, cuja autoria os donos das obras garantem não ser dele".
Desmentindo o jornal, Sócrates afirmou hoje que foi o autor e único responsável pelos citados projectos.
Pelo frontispício de alguns daqueles edifícios hoje exibidos na RTP, bem andaria Sócrates se confirmasse tudo o que o Público noticiou. Ao menos salvava a estética!...

A escola democrática!...

No noticiário da RDP de ontem de manhã, que ia ouvindo na lentidão do IC19, avultava a notícia da manifestação dos alunos do secundário. Um “estudante” lá ia explicitando o nobre motivo da manifestação: razões várias e ponderosas!...
Em primeiro lugar, a luta contra o excesso de tempo passado na escola. O aluno referiu mesmo a sua experiência pessoal, a violência extrema de ter que se levantar todos os dias às sete horas e meia, para ter a primeira aula às oito horas e só sair às 16 horas e quarenta minutos!...
Em segundo lugar, a luta por uma verdadeira educação sexual, disciplina básica dada de forma insuficiente.
Em terceiro lugar, a luta contra as aulas de substituição.
Em quarto lugar, a luta contra os exames.
E havia mais uma ou duas razões muito justas, mas que agora me escapam.
À noite, no sentido inverso, e também na RDP, a inefável Drª Ana Benavente, antiga Secretária de Estado da Educação de um Governo de Guterres, representando um qualquer grupo ad-hoc, não sei se formado apenas para a entrevista, também perorava exaltadamente sobre o tema, nomeadamente sobre a falta de democracia nas escolas. Não resisti e pus música.
Visto tudo isto e concluído, a escola como local de ensino já foi.
Modernamente, e em Portugal, a escola é para se passar por lá, assistir a umas aulas facultativas, porque se pode faltar à vontade, ter umas aulas teóricas de educação sexual, e sair rapidamente, para ter tempo de praticar.
Respeito pelos Professores? Aulas obrigatórias? Possibilidade de reprovar por faltas? Exames? Possibilidade de reprovar por falta de conhecimentos? Quem é que ainda fala nessas excentricidades? Mas não basta: há ainda muito para aprofundar na escola democrática!...
Por mim, estou de acordo e aprofundava-a de vez. Num buraco profundo e bem fechado, mas bem assinalado, para não esquecer a imbecilidade dos que a vêm promovendo.