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quinta-feira, 11 de agosto de 2005

Uma imprensa das bananas!...


brasil

É grande o escândalo no Brasil.
Não sei, nem me interessa, agora, saber se o Presidente Lula conhecia ou não conhecia o “mensalão”, sendo todavia estranho que o Presidente e Chefe do Governo não participasse nos acordos ou não estivesse informado dos acordos parlamentares para viabilizar a aprovação das leis.
Mas, do que leio, fico com a certeza de que a imprensa, quase toda a imprensa, reflectindo a sua tendência de esquerda, aí está perfilada para prevenir o essencial e minimizar os prejuízos.
E prevenir o essencial é proteger e defender o Presidente, mesmo ainda antes de ser acusado, e não importa com que argumentação.
Hoje li dois argumentos incríveis.
Dizia um articulista que, no caso de Fernando Collor, a “crise estava limitada ao poder executivo e o Congresso teve todas as condições políticas e morais para depor Collor, sem risco para as Instituições”.
Continuando, o articulista diz que “agora a crise abate-se em igual medida sobre o Executivo e o Legislativo…pelo que o actual Congresso não tem condições, nem políticas, nem morais, para tentar impor um processo de ”impeachment” contra Lula…”
E mais ainda: “…Ao mesmo tempo os partidos da Oposição percebem que o Presidente Lula tem um apoio mais sólido e o PT é um partido muito mais estruturado que o antigo PRN de Collor…”.
Um outro analista refere, também a propósito “…Como a economia está a viver um bom momento em comparação com o passado, nenhuma força política arrisca pôr isso em causa…”
Concluo duas coisas destas pérolas argumentativas:
· Como são bastantes os corruptos, é melhor ficar tudo como está, para não haver problemas, ficando assim preservado o Presidente.

· Como os corruptos têm fortes apoios, nada de pensar em “impeachment”: essa figura só é boa para Presidentes com fracos apoios…e, sobretudo, de direita.
Não se falando em “impeachment”, Lula fica, mais uma vez, protegido.
· Como a situação económica está boa, para quê pensar em Lula?
Os comportamentos éticos são diferenciados, não pelo acto em si, mas pelo facto de o seu autor ser de esquerda ou e direita?

Estamos numa república de bananas ou tudo isto reflecte uma imprensa das bananas ?

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

A importância das PPP


Quando se comparam os PIB´s per capita dos diversos países, há a tendência imediata de retirar daí conclusões quanto ao nível de vida das populações.
Não é assim.
Para comparar o rendimento das famílias, para o qual, é óbvio, o PIB é determinante, contribuem também as transferências do Estado e o peso relativo do poder de compra em cada país.
Isto é, tendo dois países precisamente o mesmo PIB, por exemplo, 1000, se num deles é possível adquirir determinado pacote de artigos básicos pré-definidos por 800 unidades de moeda, e se, no outro, é possível adquirir esse mesmo pacote por 400 unidades, neste último o nível de vida é o dobro do do primeiro.
Esta realidade levou à determinação do que os Economistas chamam o PIB em PPP, isto é, em paridade de poder de compra.
Num texto anterior referi que a Índia era a 12ª economia mundial, com um PIB de 535 mil milhões de euros, enquanto Portugal era a 36ª economia, com um PIB de 123 milhões de euros.
Todavia, em paridade de poder de compra, a economia indiana é a 4ª economia mundial, com um PIB equivalente a 3282 mil milhões de euros, ao passo que a economia portuguesa é a 39ª, com um PIB de 204 mil milhões de euros.
Tal significa que o PIB per capita indiano em PPP passa a ser de 3200 euros, em vez dos 526 euros, ao passo que o português passa a ser de 20400 euros, em vez dos 12300 euros.
Assim, a relação da produção per capita entre Portugal e a Índia deixa de ser 23 e passa a ser cerca de 6,5.
Abstraindo de outros factores, e tomando só este índice como medida, o nível de vida português seria 6,5 vezes superior ao da Índia, o que significa, mesmo assim, que o nível de vida da região mais desfavorecida, em Portugal, a do Tâmega, é mais de 3 vezes superior ao da índia, bem longe das 12 vezes que resulta das contas do “post” anterior!...
Comparando os PIB,s per capita das duas economias com a dos Estados Unidos: para um índice 100 dos Estados Unidos, Portugal tem oíndice de 51,7 e a Índia 8,2 !...
Sem PPP, os números seriam 31 para Portugal e 1,3 para a Índia!...
Para além das cautelas a ter com o fosso da riqueza entre países, também devemos ter muito cuidado com a leitura das estatísticas!…

Circuncisão


Circuncisão
A circuncisão é uma prática muito antiga, mais antiga do que os mais antigos registos escritos conhecidos. Desconhece-se quais as razões que estiveram na origem deste tipo de mutilação. É provável que uma delas se prenda com o conceito de “sujidade” ligada à sexualidade. Deste modo, a circuncisão seria uma forma de purificação dos indivíduos e da própria sociedade ao limitar e a reduzir a sexualidade e o prazer sexual. O impulso sexual, sendo muito forte – o que é natural para que uma espécie se possa perpetuar – é também fonte de conflitos sociais, pelo que deverá ter havido algum “pensador” que considerou ser uma boa ideia a redução do mesmo. Vai daí e zás! Prepúcio fora, no caso do homem e do clítoris no caso da mulher, sem interferir na capacidade de procriar. Claro que para outros, não hesitou em castrá-los, reduzindo desta maneira a competição inter pares!
Alguns povos adoptaram esta prática como um ritual religioso. No caso dos judeus, constitui de tal forma uma marca que, durante a perseguição nazi, era suficiente para os considerar como tal. Provavelmente, muitos gentios que foram circuncidados, por razões médicas, acabaram, também, nalgum forno crematório.
Já os gregos e, sobretudo, os romanos tinham um elevado apreço pelo prepúcio, de tal modo que, estes últimos acabaram por elaborar legislação no sentido de proibir a prática. É muito provável que tivessem identificado o tecido mais erógeno do homem. Podemos afirmar que os lábios, as pontas dos dedos e o prepúcio são as três localizações mais específicas e ricas para a prática da arte de Eros.
As afirmações de que os circuncidados sofrem menos de cancro peniano e de doenças sexualmente transmissíveis assim como o facto das companheiras correrem menos risco de cancro do colo do útero têm sido postas em causa, falando na perspectiva de efeitos benéficos dos mutilados “prepucianos”.
Esta análise foi despertada pela divulgação de um estudo epidemiológico realizado na África do Sul no qual se constatou que a circuncisão masculina reduz dramaticamente o risco de contrair infecção pelo HIV. A prática chega a oferecer protecção da ordem dos 65%. Alguém já comentou que os resultados são “extremamente excitantes” e que a extracção cirúrgica do prepúcio é “essencialmente uma vacina anatómica para a vida”.
Sendo África o mais atingido dos continentes pela praga do HIV é compreensível a aplicação de medidas adequadas ao seu controlo. Mas, será que a divulgação da prática da circuncisão seria um bom contributo para a solução? Para já as condições da sua realização deixariam muito a desejar – como é evidente – e, além disso, seria uma forma de mutilar indivíduos que não me parece ser correcta. Existe um movimento de luta contra a mutilação genital feminina e agora teria de ocorrer um movimento para extrair os prepúcios dos africanos. Não iríamos legitimar a malfadada prática da excisão clitoriana? Não estaríamos a contribuir para a perpetuação do conceito de “sujidade” da sexualidade e da necessidade de uma purificação? Deixem o prepúcio em paz! Afinal, tem funções muito importantes…

Teoria do Mensageiro

A prática de culpar o mensageiro pelos efeitos nefastos da mensagem é tão velha quanto a queixa recorrente do mensageiro contra remetentes e destinatários. O editorial de Pedro Rolo Duarte é mais um exemplo da lamúria incontida do mensageiro contra as classes políticas demonizadas pela pureza de propósitos do jornalista - herói. Sem querer negar a existência de demónios nos corredores sombrios da política, seria bom não esquecer que nem todos os mensageiros são anjos diáfanos. Ao mensageiro compete frequentemente escolher a mensagem, contá-la como e quando lhe convém, sequenciá-la de acordo com critérios nem sempre evidentes. O mensageiro por vezes sabe transformar o conteúdo de um postal ilustrado numa atractiva encomenda e sabe, melhor do que ninguém, que nem sempre a expressão formal da mensagem sobreleva a leitura do destinatário. É como nas anedotas “picantes”, o problema nunca está em quem conta, mas sim em quem ouve ou quem lê.

Tudo isto a propósito do gozo incontido que sinto ao analisar as poucas reacções nacionais (nomeadamente de alguns bloggers muito moralistas) às declarações do deputado Roberto Jeferson à RTP1 (ontem) sobre o envolvimento das empresas portuguesas no escândalo dos financiamentos partidários no Brasil. Aguardo com especial curiosidade as edições impressas do próximo sábado.

Original bolsa de estudo…


Loss of virginity - Gauguin


O Uganda não para de nos surpreender na sua estratégia de luta contra a Sida. Um país pobre, corrupto, para não fugir à regra da maioria dos países africanos, inserido numa zona de globo onde os conflitos armados são uma constante, em que os problemas dos refugiados são muito preocupantes, a ponto de justificar a primeira iniciativa do novo Alto Comissário para os Refugiados da ONU - o português António Guterres - conseguiu na última década e meia reduzir de uma forma ímpar a prevalência da Sida. Desconfio que mais nenhum país conseguiu atingir a expressão verificada entre os ugandeses. De acordo com os relatos públicos, as razões deste sucesso foram as medidas promovidas entre os locais, nomeadamente, os apelos à abstinência e à monogamia. O papel dos preservativos não foi considerado como tendo sido tão significativo face às outras duas medidas.
Não pondo em causa a honestidade dos promotores e divulgadores do programa, sempre achei intrigante como foi possível alcançar aqueles resultados. Como epidemiologista cheguei a questionar se a elevada prevalência e a consequente mortalidade não deveria ter tido um papel de relevo ao diminuir o número de infectados. Foi-me respondido, num forum internacional, que não. A razão prendia-se com a aquisição de novos hábitos. A abstinência e a fidelidade eram a chave do sucesso.
Recentemente, no âmbito de uma conferência internacional, Maria Vawer, da Universidade de Columbia (E.U.A.), apresentou os resultados de 10 anos de investigação, realizada no distrito de Rakai, tendo concluído que o aumento das taxas de mortalidade, mais do que as estratégias advogadas, seria a explicação para o fenómeno. O número de mortes excede as novas infecções (2 para 1). Das três medidas que fazem parte da estratégia de prevenção da Sida no Uganda, abstinência, fidelidade e uso de preservativos, somente este último é que coincidiu com o declínio do número de pessoas infectadas com HIV.
De qualquer modo, os políticos locais continuam empenhados em promover medidas que contrariem as tendências obscenas da epidemia da Sida em África. Desta feita, vão ser atribuídas bolsas às meninas que se mantenham virgens até final dos seus cursos universitários. E depois? No fim terão de ser submetidas a uma observação para provar que o hímen se mantém integro! Não sei o que acontecerá se o "selo" estiver violado. Provavelmente terão de devolver a bolsa! Genialidade africana. No entanto, não deixa de ser discriminatória face aos rapazes virgens. Espero que os autores, ou os “ideólogos”, não promovam a ideia no Ocidente, caso contrário, ficarão com a maior parte das bolsas de estudo nas gavetas...

Faz toda a diferença

Ainda a propósito dos prodígios científicos a que vamos assistindo, entre as viagens espaciais e a utilização das células estaminais de origem humana de que nos fala o post do Prof. Massano Cardoso, não podemos deixar de pensar que é a capacidade de imaginar, de querer ver para além dos limites da realidade, que origina o progresso e rasga novos horizontes.
Mas, quando ouvimos acesas polémicas sobre até onde nos poderão conduzir essas ousadias e os perigos que daí podem surgir, muitas vezes perguntamo-nos se estaremos a falar de imaginação ou de fantasias.
E é sobre essa distinção que aqui deixo um pequeno excerto do livro “O Aroma da Goiaba”, essa fascinante entrevista/diálogo de Plínio Apuleyo Mendonza a Gabriel Garcia Márquez, em que este diz:
“Com o tempo descobri, no entanto, que (na literatura) não podemos inventar ou imaginar o que nos dá na gana, porque corremos o risco de dizer mentiras, e as mentiras são mais graves na literatura do que na vida real. Dentro da maior arbitrariedade aparente, há leis. (...) Porque acredito que a imaginação é apenas um instrumento de elaboração da realidade. Mas a fonte da criação, ao fim e ao cabo, é sempre a realidade. E a fantasia, ou seja, a invenção pura e simples(...) é o mais detestável que pode haver. (...) A diferença que há entre uma e outra é a mesma que há entre um ser humano e o boneco de um ventríloquo.”
Se olharmos muitos dos argumentos utilizados nos debates sobre os eventuais perigos do progresso à luz desta distinção, talvez seja mais fácil fazer um juízo sério do que pode estar em causa...

Contrastes

Nesta aldeiazinha sossegada onde ainda (!) é possível ouvir os pássaros e o cantar monótono das cigarras sem sombra dos ruídos da cidade e fazer um tranquilo passeio a pé pela fresca da noite sem encontrar vivalma, assisti ao “Welcome home” que saudou a aterragem do Discovery como se estivesse a ver a chegada dos marcianos...
Que abismo entre a paisagem serena que se estende pelos campos fora e as imagens intensas da descida da nave espacial, a abertura do pára quedas, o momento suspenso em que toca no chão e se detém, para logo sair a orgulhosa tripulação que teve a missão de abastecer uma estação espacial!
E, no entanto, como é pequena a obra do homem quando a natureza mostra toda a sua força, que lição de humildade quando as plantas murcham de sede para logo se renovarem nas suas cores brilhantes aos primeiros pingos de chuva.

terça-feira, 9 de agosto de 2005

Blogs científicos


Ciência...

O editorial da revista The Scientist, de 1 de Agosto, analisa a importância dos blogs científicos. Apesar de não serem comuns, começam a surgir, sobretudo nas áreas das ciências da vida, com a perspectiva de impacto muito significativo a vários níveis. O "convite formal" está feito à comunidade científica, facto que irá possibilitar: troca de experiências, divulgação online de descobertas, apresentação dos resultados de estudos e debate sobre novos e velhos temas. Fiquei satisfeito com esta posição, porque às vezes fico a pensar se não "forço" demasiado alguns conceitos científicos, atendendo ao facto de a "Quarta República" ser um blog com forte componente social, política e filosófica (apesar de ter o “Quarto da República” dedicado a temas mais pesados e científicos).
Face à tomada de posição do The Scientist, lembrei-me que seria talvez interessante e útil despertar nos alunos a prática dos blogs científicos comentando-os ou criando alguns mais "específicos" (em determinadas áreas das ciências da vida). Seria uma forma de, diariamente, interagir, pensar e debater assuntos que digam respeito à sua formação. Gostaria de auscultar opiniões sobre este assunto. Já me pus a imaginar analisar alguns conceitos das minhas aulas. Provavelmente, o meu entusiasmo rapidamente se esmorecia face a alguns comentários....

Os Deuses estão com Portugal


Pobreza na Índia

Nestas minhas crónicas da Índia, depois de tanto ter falado dos deuses hindús, é tempo de voltar a esta coisa prosaica da economia, da indiana e da portuguesa.
Segundo a edição de 2004 do livro de bolso do The Economist, “Worl in Figures”, o Produto Interno Bruto da Índia, com referência a 2001, era de cerca de 535 mil milhões de euros, para uma população de 1025 milhões de habitantes.
Para o mesmo ano, o PIB de Portugal era de 123 mil milhões de euros, para uma população de 10milhões de habitantes.
Quer dizer, para uma população 100 vezes maior, a riqueza criada na Índia é apenas pouco mais de 4 vezes superior à riqueza criada em Portugal.
Significa isto que o PIB per capita da Índia é quase 25 vezes inferior ao nosso!...
Mais precisamente, enquanto o PIB per capita de Portugal atinge os 12300 euros, o PIB per capita da Índia é de 526 euros.
Assim, enquanto cada português produz 1025 euros por mês, cada indiano leva dois anos a criar o mesmo valor!...
O PIB per capita indiano é de facto, muito baixo, e daí a extrema pobreza que se vê por todo o lado.
No entanto, a Índia é a 12ª maior economia mundial, antes da Coreia do Sul (10% abaixo) e depois do Brasil (5% acima).
A economia Indiana é equivalente a 82% da espanhola (10ª economia) e a 125% da holandesa (14ª economia).
Com uma produção, em termos absolutos, tão elevada, também não admiram as bolsas de riqueza e de luxo, verdadeiramente asiático, que é possível surpreender na Índia.
Por curiosidade, Portugal á a 36ª economia mundial.
A região mais deprimida de Portugal, a do Vale do Tâmega, cujo PIB anda por 50% da média nacional, ainda apresenta um PIB per capita 12 vezes superior ao Indiano!...
Se os portugueses vivem mal, como viverão os indianos, com um PIB per capita 12 vezes inferior ao da região mais pobre do país?
Os deuses estão, de facto, com Portugal!...

9 de Agosto de 2001

Há 4 anos, o presidente Bush estabeleceu o dia 9 de Agosto como a data limite para permitir o financiamento público das células estaminais derivadas de embriões humanos. Desde então, foram realizados muitos debates sobre o uso ou não de células embrionárias e, consequentemente, o financiamento federal.
O novo projecto de lei sobre tão importante temática - abertura a novas linhas de células - tem um defensor de peso: o senador republicano Bill Frist (médico), o qual arregimenta mais alguns apoiantes da sua área. Mesmo no caso de ser aprovada, a lei poderá ser vetada por Bush, a não ser que se atinja o número de votos que impeça o exercício daquele direito presidencial. De qualquer modo, politicamente, a posição já foi considerada como um "terramoto"...

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

Os Portugueses querem respostas

“…Porque os portugueses querem respostas. Os Portugueses estão há mais de 15 dias, há quase três semanas a ver nas rádios e televisões…um património enorme a ser devastado, pessoas a morrer e uma crise muito grave a surgir em muitas regiões do país.
Os portugueses querem respostas… É necessário esclarecer…se é verdade ou não que foram muito tardios os accionamentos dos planos distritais de emergência e que foi recusado, por aparente teimosia, o accionamento de um plano nacional de emergência, que poderia ter conduzido, muito mais cedo, a uma coordenação de esforços a nível nacional. É que também eu e outras pessoas estivemos no terreno -e não estou a dizer que o Sr. Primeiro-Ministro não tenha estado -e percebemos que as populações sentiam que havia uma total descoordenação, uma incapacidade total de confiarem na administração central….Nós não vivemos num país em que possamos ficar à vontade da natureza, de Deus ou do Sr. Ministro da Administração Interna…”

Eduardo Ferro Rodrigues, na altura Secretário-Geral do PS, na Reunião Extraordinária da Assembleia da República de 14 de Agosto de 2003-Diário das Sessões nº 145.

“Morte do berço”


Renoir - Mãe e filho



É do conhecimento geral que as crianças de tenra idade podem, embora raramente, falecer subitamente sem causa aparente. Esta “morte do berço” tem suscitado várias investigações e especulações sobre as causas. O trauma para os pais da morte de uma criança, aparentemente saudável, é indescritível.
Também ocorrem situações de maus-tratos por parte da progenitora, os quais podem culminar na morte da criança, sendo os médicos incapazes de detectar quaisquer vestígios.
Estas observações vêm a propósito de algumas mulheres terem sido condenadas a prisão perpétua pela morte dos seus filhos. Muitas estão presas há bastante tempo. Mas, aparentemente, as autoridades judiciais do Reino Unido estão a rever cerca de três centenas de casos de assassínio de crianças de berço, porque as acusações baseavam-se nas opiniões de peritos médicos, entre os quais, alguns de renome internacional, mas que estão a ser fortemente contestadas.
Um desses peritos acabou por ser acusado de má conduta profissional. Na base estão relatórios e opiniões do mesmo, ao afirmar que a probabilidade de dois filhos terem sofrido morte súbita natural era da ordem de um num milhão. A sua regra de que “uma morte inexplicável de uma criança numa família é uma tragédia, duas são suspeitas e três significa crime” não colhe credibilidade, devido à hipótese da existência de um gene que pode estar subjacente a este fenómeno.
A revisão de alguns casos, aliada à persistência das mães em gritarem inocência, permitiu já a libertação de algumas condenadas.
É chocante, dramático e mesmo obsceno que, algumas mulheres, após terem passado pelo sofrimento da perda de filhos de uma forma inexplicável, acabassem por ser acusadas e condenadas por crimes que não cometeram. E, se lembrarmos que na base das acusações estão relatórios de peritos médicos de renome, então é de questionar, até que ponto os cientistas podem “dar” tantas certezas. De facto, não podemos esquecer que a ciência é muito mais pródiga a colocar dúvidas do que a parir uma verdade!

A actualidade do Ramayana


Ramayana

O poema épico Ramayana é, de há de há dois mil anos a esta parte, uma das mais importantes obras literárias da Índia, pela sua qualidade intrínseca e pela influência decisiva que teve e continua a ter na religião, na cultura e na arte da Índia.
Nele aparece descrita a vida do deus Rama.
A par da Bíblia e do Corão, é dos livros mais editados em todo o mundo.
Em determinado momento, Rama envolve-se numa guerra.
Apresenta-se um excerto muito curioso, que fala das armas utilizadas por Rama:
“…As máquinas voadoras vimanas tinham a forma de uma esfera e navegavam no espaço devido ao mercúrio, que provocava um grande vento propulsor.
Desta forma, os homens alojados nos vimanas podiam percorrer enormes distâncias num tempo maravilhosamente limitado.
Os vimanas eram conduzidos segundo a vontade do piloto, voando de baixo para cima, para a frente ou para trás, segundo a disposição do motor e a sua inclinação.
O fogo dessa arma destruía as cidades, produzindo uma luz mais intensa que 100.000 sóis.
O vento então levantava-se e o fogo da terrível arma queimava os elefantes, os soldados, os carros e os cavalos, sem que pudesse ser visto, pois era invisível.
Este fogo fazia arder as unhas e os cabelos dos homens, esbranquiçava as penas das aves, coloria-lhe as patas de vermelho e entortava-as.
Para conjurar este fogo, os soldados corriam a lançar-se nas ribeiras para aí se lavarem e lavar aquilo em que deviam tocar…”

Temos aqui o descritivo fantasioso oriental em todo o seu esplendor!...

No entanto...recordaram-se agora os 60 anos do lançamento da primeira bomba atómica no Japão.
Face aos factos muito antigos descritos, 1000 anos antes de Cristo, no Ramayana, teria sido a primeira?
Que sabemos nós do mundo?

"Superpapás e superavós"…

Os divórcios e separações, tão comuns nos dias de hoje, são fontes de graves problemas, nomeadamente, no que respeita aos filhos, os quais, privados do acompanhamento regular de um dos pais acabam por sofrer consequências negativas. Pelo menos, a frequência de determinados comportamentos é dupla dos verificados nos casais com estabilidade. No momento da separação, muitas vezes litigiosa, o Estado confere a custódia, em percentagens que variam entre 80 a 93%, de acordo com os países, às mães. Aqui entramos com um novo conceito, denunciado pelos pais separados, de "rapto sancionado pelo estado".
A situação criada a grande número de pais que ficam impossibilitados de acompanhar, de ver, de desfrutar a companhia dos seus filhos, levou à criação de verdadeiros movimentos sociais, sob a forma de grupos perfeitamente organizados e que, à boa maneira de outros movimentos, tudo fazem para dar nas vistas. O objectivo é denunciar esta descriminação sexual, em que os homens são preteridos na custódia e educação dos filhos.
Os superpapás de vários países têm tomado iniciativas bastante espectaculares. Em Londres, um pai vestido à Batman e ajudado por um Robin subiu à mais famosa varanda britânica – palácio de Buckingham – para denunciar a situação dos pais separados que querem um contacto mais próximo com os seus filhos. A moda de copiar os heróis da banda desenhada alastra-se a outros tais como o Homem – Aranha (que já fez uma incursão semelhante). A onda promete alastrar-se e até agravar-se originando novos problemas para os quais não estamos preparados. Mas a revolução em curso não se restringe apenas aos pais. Os avós também iniciaram movimentos, no Reino Unido, na Alemanha, em Itália e também em Espanha, com o objectivo de defenderem os seus direitos: a possibilidade de verem os netos vítimas de separações dos seus filhos. Os nossos vizinhos acabaram mesmo de legislar nesse sentido, no ano passado. A lei espanhola garante que os avós não podem ser impedidos de verem os seus netos em caso de separação ou divórcio. Apesar de não os satisfazerem totalmente, constitui um ponto de partida, muito importante, para quem na última etapa da vida tem necessidade de dar sentido à existência, evitando a morte antes do tempo. A humanidade e a civilização existem graças ao papel dos avós nas primeiras etapas do desenvolvimento e, hoje em dia, continuam a desempenhar um papel primordial. É bom que os seus direitos sejam acautelados, já que, devido à idade, não será muito recomendável que começam a fazer papéis de Super-Homens, idênticos aos dos filhos. Não seria muito saudável se um dia víssemos, entre nós, um avô, vestido à maneira a subir à fachada do Palácio de São Bento, a escalar a Torre de Belém ou a pendurar-se da Torre da Universidade de Coimbra. A idade não perdoa...

domingo, 7 de agosto de 2005

Que ideia, a minha...



Anoitecia assim lá para os lados dos Olhos d´Água.
O calor convidava a sair e a contemplar este mesmo por-do-sol.
Triste ideia a de interromper a jura que a mim mesmo fiz de voltar, por uma vez, as costas às desgraças com que todos os dias, durante uma hora, os telejornais do horário nobre nos brindam.
Olhei para o televisor e, porque se não tratava de mais um daqueles importantíssimos eventos mundanos em que se exibe o jet set a banhos no Algarve e se intervalam as desgraças, fixei-me por momentos na reportagem que passava no ecran.
Não é que a peça visava elucidar a opinião pública sobre quais os pontos da costa portuguesa onde estão localizados os sistemas de vigilância e detecção de movimentos marítmos suspeitos de transporte e tráfico de droga e outras actividades criminosas?!
E não é que se explicava com pormenor como funcionavam os supostamente sofisticados sistemas recentemente adquiridos para a GNR?
Fiquei abismado quando apareceu um graduado da GNR que mais explicou, tim-tim-por-tim-tim para que a coisa não ficasse pela suspeita palavra de jornalista, como é que funcionava a aparelhagem e quais os muitos pontos do litoral que estavam absolutamente desguarnecidos de vigilância!
E eu que julgava que a eficácia destes meios dependia da absoluta discrição na sua utilização, mesmo do segredo sobre a sua existência, muito mais do que a sua sofisticação que se vê rapidamente superada pela capacidade dos barões da droga em adquirirem o que há de mais evoluído...
Confesso que a minha ingenuidade ia, aliás, mais longe. Ia ao ponto de pensar que a polícia era a última interessada em divulgar a extensíssima faixa da nossa costa onde os traficantes podem dedicar-se em absoluta segurança às suas actividades.
Percebi depois. A nossa democracia chegou também ao grau máximo de sofistação e transparência. A investigação criminal deve ter, afinal, paredes de vidro. Ou não são os traficantes cidadãos com o direito constitucional a verem-se informados pela comunicação social de tudo quanto lhes diz respeito, em especial, sobre aquilo que os pode prejudicar?
Já tinha suspeitado que para aí caminhávamos face às reiteradas e descaradas violações do segredo de justiça que nunca tiveram, até hoje, uma face a quem se imputem responsabilidades. E em boa verdade, se violar o segredo de justiça se faz em nome da transparência e do direito à plena informação, quem pode, de resto, ser punido?

Bom, a verdade é que com isto lá se estragou aquele anoitecer mágico.
Para que fui eu quebrar a jura?


Hikikomori

A revista "Pública" de 31 de Julho passado trazia uma reportagem tão interessante quanto preocupante sobre um fenómeno que se está a verificar no Japão e que afecta sobretudo os jovens que acabam os estudos e estão na fase de entrar na vida na vida profissional - o refúgio no isolamento total do seu quarto, a recusa de qualquer tipo de contacto, um autoflagelamento que pode durar anos a fio... O Hikikomori é a decisão radical de fuga á realidade, uma versão moderna do emparedamento mas por decisão do próprio, numa brutal manifestação de desgosto de si próprio perante padrões de vida e de comportamento que julgam, na sua visão deformada, não estarem ao seu alcance.
Segundo os diferentes depoimentos recolhidos na reportagem, o argumento comum a todos os que vivem a situação de Hikikomori é a constatação de que há , na sua perspectiva, um abismo intransponível, entre "a situação real e a situação ideal" de cada um ou seja, sentem-se profundamente dimuinuidos perante a pressão social para o sucesso e não estão preparados para vencer os obstáculos que se perfilam a qualquer adulto que começa a sua vida.
A violência da reacção dá uma ideia da violència da agressão - numa sociedade rica, em que a maioria dos jovens não conheceu dificuldades materiais e só perspectivou o sucesso, conclui-se que não estão preparados para a adversidade nem se sentem capazes de ser eles a contribuir, por sua vez, para a sociedade que lhes exige a contrapartida do que lhes proporcionou.
De facto, o equilíbrio tem que estar presente em qualquer modelo de desenvolvimento, e o estímulo ao êxito e ao sucesso pode ser um veneno letal se não for acompanhado da humanização do estilo de vida e da noção de que o sucesso não está só no vértice da pirâmide mas na conquista de cada degrau. Que é um caminho árduo e não uma dádiva á nossa espera.
Se tudo estiver padronizado para o super homem e não houver lugar para admitir que falhar e tentar de novo tem muito mais valor do que fechar-se num quarto ás escuras e deixar-se morrer antes de ter tentado, não é de admirar que se queira voltar ao útero materno.
Se pensarmos noutros pontos do globo onde se vê com desconfiança o sucesso e se está sempre pronto a tolerar a mediocridade, é caso para dizer "Nem tanto ao mar nem tanto à terra.."

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

"Detectores ambientais”…

Hoje, graças aos meios tecnológicos, é possível controlar e analisar, em termos ambientais, os efeitos de várias substâncias. Nalgumas situações estão em jogo a segurança e o bem-estar das pessoas, noutras, podemos avaliar a importância de certos comportamentos ou actividades que podem traduzir perturbações nada desprezíveis.
Ultimamente, foram relatados dois aspectos interessantes. O primeiro diz respeito ao controlo nos aeroportos da presença de substâncias que possam indiciar a presença de tráfico radioactivo com finalidades terroristas. Atitude louvável, mas que pode provocar alguns embaraços a cidadãos normais que tenham sido sujeitos a recentes exames médicos com radioisótopos. O facto de se tornarem, episodicamente, "radioactivos" não é nada agradável, que o diga um piloto da aviação comercial que, após ter realizado um cintigrama de perfusão miocárdica, viajou para Moscovo onde foi detido, pelas forças de segurança, para interrogatório. Mais tarde libertaram-no, depois de longas explicações! Passados quatro dias, no mesmo aeroporto, de regresso, sofreu novas vicissitudes…
O Big Brother apanha tudo, até as pessoas que fazem simples e frequentes exames médicos que utilizam substâncias radioactivas!
Fiquei assustado com a notícia ao lembrar que ainda há pouco tempo fiz um exame idêntico. Ainda bem que não viajei nos dias subsequentes. O melhor é avisar os doentes, caso contrário ainda correm o risco de apanhar um susto de morte num qualquer aeroporto…
O segundo aspecto prende-se com a possibilidade de avaliar, em termos comunitários, o consumo de droga e, desta forma, ter uma percepção sobre a sua dinâmica e evolução. A possibilidade de analisar a cocaína e um seu metabolito nos esgotos é uma realidade consubstanciada num estudo efectuado em rios italianos. Os autores chegaram a calcular que, por exemplo, no rio Pó, são lançados, diariamente, através dos esgotos cerca de 4 kg por dia!
Imaginem, um dia destes, um sistema de controlo sofisticado ao longo dos esgotos da cidade, permitindo identificar os bairros mais consumidores e, quem sabe, se um dia não irão colocar verdadeiros “contadores de metabolitos de drogas” à saída das nossas residências. Já estou a pensar a colocar um dístico à entrada da casa de banho: “se for consumidor de drogas vá fazer as suas necessidades para outro lado”. Não é por nada, mas não quero que me culpem de andar a drogar os peixinhos do Mondego…

Repescando Hamilton e recordando Aristóteles


Aristóteles

Há dias, o Ferreira de Almeida, sempre oportuno, lembrou um texto de Alexander Hamilton, em que este colocava a questão se seria conveniente para a sociedade que alguém que já ocupou determinados postos importantes passasse a andar pelo meio do povo como um insatisfeito fantasma, suspirando por um cargo que nunca mais poderia ocupar.
Lembrei-me de Aristóteles que, na sua Política, dizia algo parecido, só que chamava doentes aos que Hamilton designa como fantasmas.
Pretendi fazer um comentário com esse texto, mas não o pude encontrar de imediato.
Encontrei-o agora e aqui vai. Dizia, então, Aristóteles:
”… Devido aos benefícios derivados dos cargos públicos e do exercício do poder, os homens desejam a ocupação permanente desses cargos.
É como se os ocupantes dos cargos fossem doentes e apenas recuperassem a saúde quando estão em funções…”

Notável Aristóteles!...Se não sabia tudo, andava lá perto!...

O País visto do céu

Uma imensa nuvem de fumo tolda o céu do País e ensombra, ano após ano, os luminosos dias de Verão. Para desespero dos directamente atingidos nos seus bens e profundo desalento de todos os que constatam a impotência sucessivamente assumida perante estas catástrofes cíclicas.
E, no entanto, todos os anos se reafirmam planos de Prevenção, levantamentos exaustivos, coordenações e meios reforçados. Para nada...
Sucedem-se Secretarias de Estado, Altas Autoridades, reestruturações dos sistemas de combate aos incêndios, campanhas de prevenção. Para nada...
Há falta de meios? Já ouvi esse argumento há muitos Governos atrás e pergunto-me se a riqueza que se queima nestas fornalhas não custa muito mais do que o investimento nos tais meios, mesmo que se planeiem por excesso. Quando, finalmente, se chegar a essa conclusão, já não há nada para arder, se é que é realmente a falta de meios que provoca este desastre repetido como uma fatalidade.
Há falta de coordenação e desorganização? Mas, precisamente, nós orgulhamo-nos de sermos "uns ases" a organizar grandes eventos, a Expo 98, o Euro 2004, os Festivais de Verão, as regatas, a Volta a Portugal em bicicleta...Esgotamo-nos nisso porquê?
Se nos lembrarmos da capacidade de mobilização que foi (espantosamente) possível a propósito das gravuras de Foz Côa, ou das pegadas de dinossauro, ou da nidificação de aves junto à nova ponte sobre o Tejo, não percebemos a modéstia dos movimentos à volta da limpeza das matas, do abandono de terrenos, da dificuldade de acessos a zonas já martirizadas ou detectadas como especialmente vulneráveis. E a seca não chegou ontem...
Vista do céu, a nuvem de fumo é tão densa como a incapacidade de intervir, com continuidade, sem mediatismos fugazes e bombásticos, para além das mesquinhas querelas políticas que acabam por pôr em causa as sucessivas tentativas de pôr cobro a este estado de coisas.

CGD à Vara

Com a tomada de posse dos novos membros do Conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos e com a consequente redistribuição de pelouros, ficou-se a saber que Armando Vara vai gerir as participações financeiras. Estava-se mesmo a ver, não estava?